Vocês me permitem só mais uma gravação de Martha tocando o concerto em Dó maior de Ludwig?
Só mais uminha?
Pois bem: ela é a minha favorita, a mais brilhante, fluida e à vontade que ela já fez dessa obra que toca quase desde a mórula. O ambiente certamente ajuda: o magnífico Teatro Colón, onde ela estreou há mais de setenta anos, em sua Buenos Aires natal, na qual passa uma aclamada temporada por ano e é merecidamente tratada como divindade terrena. A companhia, seguramente também: nenhum parceiro artístico a conhece há tanto tempo quanto seu conterrâneo Daniel Barenboim, com o qual formou a mais notória dupla portenha de crianças-prodígio e brincava de esconde-esconde sob os pianos das soirées em que tocaram juntos, antes das carreiras os levarem para distintas plagas e se reencontrarem tantas vezes pelo mundo. Daniel é extremamente reverente a Martha, e isso fica claro nessa interpretação do concerto: a solista parece tocar com total liberdade, e o regente a segue impecavelmente. O restante da gravação, feita ao vivo, traz a abertura de “As Bodas de Fígaro”, aquele clássico pontapé inicial dos concertos em matinês, e uma seleção considerável da obra de Maurice Ravel para seu instrumento favorito, a orquestra sinfônica. Barenboim e sua West-Eastern Divan estão tão confortáveis nesse repertório que lhes sobra energia para um extenso bis, com uma das suítes de excertos orquestrais da “Carmen” de Bizet e um tango de Mariano Mores – Martha, mantendo seu costume, dá um rápido bis com Schumann antes de sumir para as coxias para mais um de seus compulsórios cigarrillos. Apesar da sempre tussígena e algo alvoroçada plateia do Colón, a gravação do selo Peral (“Pereira” em espanhol, que é “Birnbaum” em alemão e “Barenboim” em iídiche) consegue captar bem o que deve ter sido uma noite e tanto naquela banda do rio da Prata.
Wolfgang Amadeus MOZART (1756-1791)
Le Nozze di Figaro, K. 491
01 – Abertura
Ludwig van BEETHOVEN (1770-1827)
Concerto em Dó maior para piano e orquestra, Op. 15
02 – Allegro con brio
03 – Largo
04 – Rondo. Allegro scherzando
Robert Alexander SCHUMANN (1810-1856)
Fantasiestücke, Op. 12
05 – No. 7: Traumes-Wirren
Joseph Maurice RAVEL (1875-1937)
Rapsodie Espagnole, M. 54
06 – Prélude à la Nuit
07 – Malagueña
08 – Habanera
09 – Feria
Alborada del Gracioso, M. 43
10 – Assez vif
Pavane pour une Infante Défunte, M. 19
11 – Assez doux, mais avec d’une sonorité large
Boléro, M. 81
12 – Tempo di bolero moderato assai
Alexandre César Léopold (Georges) BIZET (1838-1875)
Suíte no. 1 da ópera “Carmen”
13 – Aragonaise
14 – Intermezzo
15 – Les Dragons d’Alcalà
16 – Les Toréadors
Mariano Alberto Martínez, dito MARIANO MORES (1918-2016)
17 – El Firulete, tango
Martha Argerich, piano
West-Eastern Divan Orchestra
Daniel Barenboim, regência

Vassily
[restaurado por Vassily em 5/6/2021, em homenagem aos oitenta anos da Rainha!]

Os dois primeiros concertos de Beethoven são uma especialidade de Marthinha, e sua última gravação do Op. 19 com Ozawa é fresquíssima, feita em 2019 e lançada no mês passado. Não era uma obra de que o compositor gostasse muito, tanto que o mencionava com ironias em sua correspondência e o retrabalhou várias vezes desde que o estreou em Praga, acabando enfim por dar-lhe um finale completamente novo (o antigo, ao que tudo indica, é o rondó na mesma tonalidade de Si bemol maior, WoO 6, completado por Czerny). Como já mencionamos 
Mais uma babada nossa? Sim, inda outra: postamos os dois primeiros concertos de Lud Van com a deusa Martha e Giuseppe Sinopoli, sem percebermos que FDP Bach já os tinha publicado antes. Enquanto pagamos nossas impublicáveis penitências, tento me redimir em duas prestações, com novíssimas gravações da nossa rainha na companhia de seu amigo e colaborador de longuíssima data, Seiji Ozawa.




Em mais uma babada minha, publiquei dois discos sem saber que, quase doze anos antes, nosso patrono 
Mais uma falha nossa, que corrigimos restaurando a 
Ludwig – sempre o descabelado inquieto em notável evolução! À guisa dos enormes saltos estilísticos entre as sonatas para piano Op. 2 para a “Grande” Op. 7, e aquele, maior ainda, desta para as sonatas Op. 10, quem ouve estes trios do Op. 9 depois das primeiras tentativas de Beethoven no gênero se impressiona com seus progressos. Aqui, num claro ensaio para os quartetos de cordas vindouros, que o fariam abandonar para sempre os trios, há muitos dos gestos que ficariam familiares a nós outros nas décadas seguintes: a elaboração sinfônica de obras para conjuntos de câmara; a criatividade dentro do uso estrito da sonata-forma; a alternância de movimentos cheios de verve com expressivos adagios. Eles são especialmente prevalentes no primeiro trio da trinca, enquanto no terceiro nosso renano favorito esbalda-se em sua tonalidade-assinatura, a de dó menor, trabalhando habilmente a constrição e a angústia por ela inspiradas rumo a um afirmativo final em tonalidade maior. Numa tentativa, talvez, de fazer justiça às suas provavelmente nada queridas memórias como violista na corte de Bonn, Beethoven dá à viola várias passagens elaboradas, deixando-a quase em pé de igualdade com seus parceiros menos molestados por bullying instrumental. E a radiante interpretação do Leopold Trio só nos consegue deixar a viva impressão de que as sessões de gravação devam ter sido pura delícia.
O trio de cordas evoluiu da formação inicialmente em voga – dois violinos e violoncelo, no feitio das trio-sonatas – para a de violino, viola e violoncelo por influência de Boccherini e, principalmente, de Haydn, que foi por pouco tempo tutor de Beethoven e, sem dúvidas, o mais influente compositor daquele finalzinho de século XVIII. Outras tantas obras para esta formação mais moderna foram compostas por Johann Albrechtsberger – organista da Stephansdom e autor, entre tantas outras, das 
NOSTRA MAXIMA CVLPA:



Hoje, aniversário de Schumann, nosso bolo de duzentas e dez velinhas vai-lhe na forma duma das mais preciosas gravações de sua obra-prima: os divinos Lieder do Dichterliebe no mais lindo instrumento vocal que a Alemanha já pariu.








CONCERTOS PARA PIANO E ORQUESTRA por
SINFONIAS 1-9 com a WIENER PHILHARMONIKER sob LEONARD BERNSTEIN
SINFONIAS 1-9 com a CHAMBER ORCHESTRA OF EUROPE sob NIKOLAUS HARNONCOURT


Por mais que o amemos hoje, o concerto para violino de Ludwig foi recebido com frieza e logo esquecido. O fracasso da estreia, pelo que se conta, deveu-se a ensaios insuficientes por atrasos na cópia das partes da orquestra – entregues, para variar, na penúltima hora pelo compositor – e pela necessidade do primeiro solista, Franz Clement, de tocar quase todo o solo à primeira vista.
Dois erros seguidos – no link e com a gravação – fizeram-me por esta postagem atrás de tapumes e republicá-la só depois de conferir várias vezes se tudo estava certo. Peço desculpas aos leitores-ouvintes, enquanto agradeço pela gentileza dos que souberam apontar os problemas com a civilidade que tanto apreciamos.
Sim, mais uma gravação do concerto para violino – fazer o quê, se eu o amo tanto quanto aquele quarto concerto? Cresci ouvindo as maravilhosas gravações de Oistrakh, enquanto conhecia outras não menos belas, como as de Ferras, Menuhin e Stern. Quando chegou Heifetz, a concorrência pareceu liquidada, e eu quase perfurei o CD daquela gravação com Munch de tanto que a escutei. Com o tempo, percebi que não havia concorrência, e sim alternativas ao que propôs o maior de todos os violinistas, e me permiti apreciar outras versões: Kremer, Mintz, Mutter. Aí vi que a turma da interpretação historicamente informada tinha feito uma gravação, mas não conhecia o violinista e, por mais que gostasse de Frans Brüggen regendo Bach e tivesse sua “Die Schöpfung” de Haydn sem parar em meu toca-discos laser, tinha dificuldades de imaginá-lo a conduzir aquela peça que aprendera a ouvir nos andamentos frenéticos do ídolo Jascha. Só muito tempo depois, depois de descobrir a maestria de Brüggen como acompanhador e suas estimulantes leituras para as sinfonias de Beethoven, e de escutar os ótimos registros de Thomas Zehetmair nas sonatas e partitas de J. S. Bach, que enfim me permiti experimentar aquele Op. 61 que deixara por tanto tempo de lado, e…


