.: interlúdio :. Serenata a Napoli (Pene Pati) & O Sole Mio (José Carreras) – [Dose Dupla] ֎֎

.: interlúdio :. Serenata a Napoli (Pene Pati) & O Sole Mio (José Carreras) – [Dose Dupla] ֎֎

Que coisa linda é um dia de sol!
O ar puro depois da tempestade,
O ar fresco parece já uma festa…
Que coisa linda é um dia de sol!

Que país europeu melhor inspiraria algum de seus poetas a escrever versos como estes que não fosse a Itália? Lembremo-nos da Sinfonia Italiana, de Mendelssohn. Há alguma sinfonia ainda mais ensolarada do que ela?

Pois na Itália há lugares lindos, como a região de Nápoles, com sua cidade entre o mar e o vulcão. Suas belezas inspiram seus habitantes há muitos séculos. Com uma cultura riquíssima, gastronomia e música entre elas, é certamente um lugar para se conhecer. Ainda não deu tempo de ir? Então, não deixe de ler o livro de Susan Sontag – O Amante do Vulcão –, e de ouvir as canções da postagem.

Primeira edição da coluna ‘Dois Pelo Preço de Um – Dose Dupla’ do tipo .: interlúdio :. , com dois álbuns contrastantes, mas sobre o mesmo tema e, em algum sentido, complementares.

Carmine no Borello

Você pode estar se perguntando: como esse cara foi dar com seus costados em tais paragens? Pois bem, eu explico: perto de onde moro há um restaurante que serve comida italiana e em algumas noites da semana, terças e quintas-feiras, por exemplo, há música ao vivo. Tudo por conta de um simpaticíssimo chef-cantor, o Carmine. Nas quintas ele é acompanhado pelo maestro pianista que também o persegue levando o acordeão quando o tenor sai brindando algumas das mesas com uma canção específica, seja por um pedido especial, seja por ter aparecido algum comensal em dia de aniversário, e o contrabaixista, que dá deveras profundidade à música que eles produzem com clara cumplicidade e alegria. Canções napolitanas fazem parte forte do repertório e aprendi rápido que há algumas pérolas que brilham mesmo quando a interpretação não é perfeita, contanto que venha do coração. Marechiaro é uma delas, assim como a animada Funiculì, funiculà, você certamente já a ouviu por aí. Cada frequentador do restaurante que aparece mais de uma vez começa a desenvolver uma predileção por esta ou aquela. Eu adorei ‘O surdato ‘nnamurato. Foi assim que comecei a ouvir essas ‘canções napuletanas’ também fora do restaurante.

Este tipo de música popular tem raízes bem antigas nesta região de Nápoles e floresceu com muita força no fim do século XIX e início do século XX, com verdadeiros hits, tais como O sole mio, Torna a Surriento e o já mencionado hino aos bondinhos do vulcão, o Funiculì, funiculà, todas aí nos dois discos da postagem. O gênero é popular, mas sempre atraiu os grandes cantores de óperas – os tenores famosos –, desde Enrico Caruso, Tito Schipa, Mario Lanza, Giuseppe Di Stefano e Franco Corelli. É uma grande oportunidade para o cantor aproximar-se de um público que nem sempre está inclinado a ouvir música erudita. Os temas, como é de esperar, são de grande apelo: amores interrompidos, dores de cotovelo, saudades de algum lugar especial…

Eu escolhi dois álbuns que estão recheados de sucessos e, ao mesmo tempo, oferecem perspectivas diferentes destas tais ‘canções napuletanas’. O disco do Pene Pati – Serenata a Napoli – eu achei lindo e é bem recente. Ele tem uma voz muito bonita e a usa com leveza e suavidade. Além disso, o acompanhamento é primoroso, colocado ao encargo do grupo Il Pomo d’Oro, sob a liderança do guitarrista Antonello Paliotti, que nasceu em Nápoles. Além das canções, você ouvirá alguns números instrumentais.

Para uma perspectiva mais próxima da ópera, temos o disco do tenor José Carreras, gravado já há um bom tempo. Carreras é um dos vértices do famoso triângulo dos tenores, os outros dois, Pavarotti e Plácido Domingo. Eles também gravaram discos no gênero, mas eu me sinto mais à vontade com a abordagem do José. Ah, ia me esquecendo, no disco do Carreras o acompanhamento é da English Chamber Orchestra, aquela a que recorríamos para segurança da música barroca, antes do movimento dos instrumentos e práticas de época.

Para saber mais detalhes sobre as canções, seus compositores e letristas, busquei bastante e achei muito boa a página criada por Natalia Chernega, que você pode acessar aqui.

Nesta mencionada página há gravações antigas das canções lá mencionadas. Acabei assim montando um arquivo para cada disco, com gravações alternativas, são assim uma versão ‘genérica’ dos discos, completados por uma ou duas outras gravações que busquei no Youtube. A qualidade do som não chega a atender os requisitos do selo PQP Bach-Iso de Qualidade, mas a diversão é certamente garantida, com algumas boas surpresas.

Uma delas é o cantor Roberto Murolo, que canta a versão genérica da canção Marechiaro, uma pérola. Roberto é filho de um poeta, Ernesto Murolo, que escreveu letras de muitas canções napolitanas. Creio que ele merece uma postagem própria, mas primeiro vamos de Pati e Carreras.

Quais são as canções que eu gostei mais, que Carmine e eu recomendaríamos sem dúvida, aquelas que grudaram por mais tempo nos meus ouvidos?

Pois bem, ‘O surdato ‘nnamurato é minha mais preferida, ela grudou mesmo, especialmente o pedacinho em que se canta

Oje vita, oje vita mia!

Oje core ‘e chistu core!

Sì stata ‘o primmo ammore

E ‘o primmo e ll’urdemo sarraje pe’ mme!

A canção foi composta em 1915, durante a Primeira Grande Guerra e dá para entender o tema a partir daí.

Mas, Maria, Marì, Era di Maggio e ‘A vucchella são também belíssimas. Maggio, como você deve adivinhar, é o mês de Maio, que no Norte é o mês da Primavera. Lembram do lindo Lied de Schumann, Im wunderschönen Monat Mai?

Vucchella, vocês sabem o que é? Eu meio que custei a descobrir… Vucca significa boca no dialeto napolitano e vucchella significa boquinha, assim como no Português a terminação faz o diminutivo. Aliás, ouvindo o Roberto Murolo cantar me fez lembrar da nossa língua, de vez em quando.

Falando nisso, não deixe de ouvir a canção Marechiaro, outra que eu ouço sem cançar. Core ‘ngrato é bonita, começa com o cara dizendo o nome da moça: Catarì, Catarì… e Dicitencello vuie chegou a aparecer no álbum da Zizi Possi, que canta lá umas coisas bem bonitas, ainda vou passar algum tempo ouvindo a moça.

Assim, você poderá também explorar e descobrir um pouco dessa arte tão popular, mas também bem próxima do canto lírico.

‍Eduardo Di Capua‍ / Giovanni Capurro

  1. O sole mio‍

Paolo Costa ‍(Pasquale Mario Costa) / Salvatore Di Giacomo

  1. Napulitanata

Eduardo Di Capua‍ / Vincenzo Russo

  1. Maria, Marì‍

Antonello Paliotti‍

  1. Variazioni sul Basso di Tarantella: I. Preludio
  2. Variazioni sul Basso di Tarantella: II. Variazioni‍‍

‍Paolo Costa ‍(Pasquale Mario Costa) / Salvatore Di Giacomo

  1. Era di maggio

‍Francesco Paolo Tosti‍ / Gabriele D’Annunzio

  1. A vucchella

Antonello Paliotti‍

  1. Inquietudine‍

Enrico Cannio / Aniello Califano‍

  1. O surdato ‘nnammurato‍

Francesco Buongiovanni‍ / Aniello Califano

  1. Mandulinata a mare‍

Paolo Costa ‍(Pasquale Mario Costa) / Salvatore Di Giacomo

  1. Serenata Napoletana‍

Antonello Paliotti‍

  1. Romance‍

Salvatore Gambardella‍ / Gennaro Ottaviano

  1. ‘O marenariello‍

Francesco Paolo Tosti‍

  1. Marechiaro‍

Gaetano Lama / Libero Bovio

  1. Silenzio Cantatore

Antonello Paliotti‍

  1. Tarantella storta

Gaetano Lama / Libero Bovio

  1. Reginella‍‍

Francesco Buongiovanni / Salvatore Di Giacomo

  1. ‍Palomma ‘e notte‍

Ermes Alessandro Mario‍

  1. Canzone appassiunata‍

Antonello Paliotti‍

  1. Fronna e Ballo del Pomo d’Oro: I. Fronna d’o limone
  2. Fronna e Ballo del Pomo d’Oro: II. Ballo‍

Eduardo Di Capua‍ / Vincenzo Russo

  1. I te vurria vasà‍

Luigi Denza‍ / Giuseppe Turco

  1. Funiculì, funiculà

Pene Pati

Il pomo d’oro

Antonello Paliotti

Giulio d’Alessio

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MP3 | 320 KBPS | 168 MB

Arquivo Genérico do disco

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

MP3 | 320 KBPS | 75 MB

Este álbum pode ser ouvido na plataforma Tidal…

 

Luigi Denza / Giuseppe Turco

  1. FuniculÌ, funiculà

Salvatore Cardillo / Riccardo Cordiferro

  1. Core ‘ngrato

Vincenzo D’Annibale / Libero Bovio

  1. ‘O paese d’o sole

Rodolfo Falvo / Enzo Fusco

  1. Dicitencello vuie

Gaetana Lama / Libero Bovio

  1. Silenzio cantatore

Ermes Alessandro Mario

  1. Santa Lucia luntana

Ernesto Di Curtis / Libero Bovio

  1. Tu, ca nun chiagne!

Eduardo di Capua / Giovanni Capurro

  1. ‘O sole mio

Eduardo Di Capua‍ / Vincenzo Russo

  1. I’ te vurria vasà

Ernesto Tagliaferri, Nicola Valente / Libero Bovio

  1. Passione

Giuseppe Cioffi / Gigi Pisano

  1. Na sera ‘e maggio

Enrico Cannio / Annielo Califano

  1. ‘O Surdato ‘nnamurato

Ernesto de Curtis / Giambattista de Curtis

  1. Torna a Surriento

José Carreras

English Chamber Orchestra

Edoardo Müller

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MP3 | 320 KBPS | 100 MB

Arquivo Genérico do disco

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

MP3 | 320 KBPS | 83 MB

Este álbum pode ser ouvido na plataforma Qobuz…

A voz de tenor brilhante de Pene Pati, descrita pelo Le Monde como “cheia de luz solar”, faz dele o intérprete ideal para papéis como Rodolfo em La bohème e o Duque de Mântua em Rigoletto. Agora, com Serenata a Napoli, ele traz seu calor singular para outra forma de arte tipicamente italiana: a canção napolitana. Além de grandes sucessos como “O sole mio” e “Funiculì funiculà”, a era de ouro da canzone napoletana (1880-1930) produziu abundantes expressões líricas de paixão, melancolia e alegria. Evocando uma autêntica atmosfera napolitana, Pene Pati é acompanhado por oito instrumentistas do Il Pomo d’Oro, liderados pelo guitarrista napolitano Antonello Paliotti, que tocam instrumentos de corda friccionada, dedilhada e percussão – e castanholas.

“Abordei essas canções da mesma forma que abordaria as canções tradicionais da minha própria herança samoana”, diz Pene Pati. “Sejam de Samoa ou de Nápoles, canções como essas sempre contam uma história – falam de amor, família, da sua terra natal… Não se tratava apenas de escolher as peças mais populares, mas sim de encontrar as canções que evocam as memórias e conexões mais profundas. Também quis prestar muita atenção a cada detalhe em relação ao povo napolitano – o sotaque, a atmosfera, as emoções – queria tentar fazê-los acreditar que eu era napolitano… Trabalhei em estreita colaboração com o Il Pomo d’Oro, ouvindo as letras, as histórias dos napolitanos e, a partir daí, moldando a minha própria compreensão.”

José Carreras traz seu calor lírico característico, interpretação apaixonada e fraseado delicado para canções napolitanas e italianas. Críticos e fãs elogiam sua narrativa emotiva em clássicos como “Core ‘ngrato” e “Torna a Surriento”, embora os puristas observem que seu estilo operístico, inerentemente vigoroso, por vezes carece das nuances mais leves e idiomáticas dos cantores nativos.

Aproveite! Aproveite!

René Denon

PS: Nas listas com os créditos dos discos, os nomes estão colocados aos pares: Compositor / Letrista. As eventuais fotos são sempre do compositor.