Mozart was a genius and prodigy in Vienna and Paris and celebrated at such, but he was a rock star in Prague.
Mozart certamente era celebrado por todos os lugares que passava, mas a sua relação com a cidade de Praga era especial. Como bem colocou o maestro Wilbur Lin, em Praga ele era amado, o equivalente ao que hoje chamamos de estrela de roque! Em Praga foi estreada a ópera Don Giovanni e ele compôs uma sinfonia para a cidade, a Sinfonia Praga.
Mais uma edição da coluna ‘Dois Pelo Preço de Um – Dose Dupla’ na qual temos dois álbuns com a mesma orquestra regida pelo seu regente, mas em selos diferentes, tocando música de Mozart. Basta baixar os arquivos e mandar ver…
É claro que a estrela da postagem é Mozart, com três de suas sinfonias de maturidade, lindas e muito bem apresentadas pelos músicos da cidade que o recebeu como uma verdadeira estrela. As Sinfonias Nos. 35 e 36 figuram no álbum com selo harmonia mundi – France. O outro álbum, do selo Supraphon, traz a Sinfonia No. 38, apelidada Sinfonia Praga. Acompanha a única sinfonia composta por Jan Voříšek, compositor boêmio que é da geração posterior a Mozart, ainda enraizado no classicismo, mas já com aspirações românticas. Aliás, esse compositor andou aqui pelo blog dia desses, a pedidos. É verdade, ele não chega a ser um Mozart, mas tem seus bons momentos. De qualquer forma, não devia ser fácil escrever sinfonias pouco tempo depois da morte de Mozart e quando ainda atuavam Haydn e o jovem Beethoven. De qualquer forma, vale a pena conferir.
Aqui, a parte ‘boa’ da crítica feita por Andrew Clements: the playing of the Czech strings in particular is impressively flexible, and their rhythmic pointing in the faster music is exhilarating.
Trecho de uma crítica num site tcheco, sobre o disco da Supraphon: Here then is a new title from the workshop of the Prague Philharmonia, offering fresh evidence of its musicians´ exceptional flair, being issued to mark the orchestra’s anniversary. The selections – Mozart’s “Prague” Symphony and Vorisek´s Symphony in D major – furnished the players and conductor alike with a golden opportunity literally to shine in their presentation of these compositional jewels. Their account is breathtaking indeed. Jewels of compositional art inequally brilliant readings by the Prague Philharmonia.
Veja como eles escrevem por lá:
W. A. Mozart
Symfonie č. 35 D dur “Haffnerova”, KV 385
Symfonie č. 36 C dur “Linecká”, KV 425
“Toto provedení Mozarta je úžasné, plné zářivé krásy, čímž má být řečeno, že je nezvykle propracované, má hloubku a zápal.”
“Esta interpretação de Mozart é maravilhosa, repleta de beleza radiante, ou seja, é excepcionalmente elaborada, profunda e apaixonada.”
– Classics Today
Aproveite! Aproveite!
René Denon
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Certa vez, há muitos anos, o irmão de um amigo estava num bar com um pequeno palco e um violão à disposição daqueles que quisessem fazer um pouco de música. Ele, um bom violonista, animou-se e lá foi tocar algumas coisinhas. Recebeu aplausos sinceros e, enquanto voltava ao seu lugar, viu o dono do estabelecimento afobar-se rumo ao microfone:
– Gurizada, acabo de saber que está aqui conosco uma das maiores revelações da Música brasileira, e queria chamá-lo agora ao palco.
Era Yamandu Costa, que atendeu ao chamado e, claro, logo começou a derramar maravilhas do violão. Enquanto isso, o irmão de meu amigo, sentindo-se um procarionte, saía de fininho e, até onde sei, nunca mais tocou em público.
ooOoo
Sentimento semelhante deve ter tomado conta de cinquenta entre os cinquenta e um colaboradores do projeto Vaterländischer Künstlerverein, quando o colaborador restante, um alemão de nome Beethoven, enviou ao editor Diabelli não somente a variação que este pedira sobre uma sua valsinha, mas trinta e três transfigurações dela que, juntas, formam a maior obra em variações da história da Música.
Ei-las
Ninguém tem certeza sobre os motivos que levaram Diabelli, um pianista e violonista amador cuja notoriedade resumia-se à composição de numerosas bagatelas pedagógicas, a organizar o projeto. Como sócio duma editora, pode-se sempre supor que o motivo fosse caçar bufunfa. Corre a lenda, no entanto, de que ele, horrorizado com a penúria dos órfãos e feridos de guerra em Viena, resolveu convocar a Associação Patriótica de Artistas (uma das traduções possíveis para Vaterländischer Künstlerverein) para aliviar o sofrimento daqueles miseráveis, através duma composição beneficente. O fato é que esse alívio, se de fato houve, demorou a chegar, pois, entre a composição da primeira variação (por Czerny, em 1819) e a da última (por Wittasek, em 1824), cinco anos se passaram. Nesse meio-tempo, Beethoven – obviamente obcecado pelo tema de Diabelli – pariu trinta e três variações, escritas entre os exigentes trabalhos da Missa Solemnis e das três últimas sonatas para piano, e as publicou antes de todas as demais, em 1823, como o primeiro volume da Vaterländischer Künstlerverein. As cinquenta contribuições restantes só iriam à prensa no ano seguinte, formando seu segundo e obscuro volume.
Ninguém sabe, tampouco, a quantos compositores Diabelli enviou seu convite e a cópia da hoje célebre valsinha. O que houve, e disso já sabemos, foram cinquenta e uma respostas. Afora o renano aberrante com suas trinta e três geniais variações, houve dois outros compositores que se deram ao trabalho de escrever mais de uma variação. Gottfried Rieger e Franz Xaver Wolfgang Mozart (filho de Amadeus e por isso chamado, na primeira edição, de “Wolfgang Amadeus Mozart Filho”) contribuíram cada qual com um par, do qual Diabelli escolheu apenas uma (as outras, que acabaram descartadas, estão inclusas na gravação que ouvirão).
Entre os outros quarenta e oito, há um gênio: o então pouco conhecido Franz Schubert, cuja singela variação praticamente grita sua autoria e soa como um dos seus “moments musicaux”. Há também músicos que fizeram o movimento oposto e desceram do alto do panteão musical para um relativo esquecimento, como o mui competente Johann Nepomuk Hummel, cujo maior defeito e tremendo azar foi ser contemporâneo de Ludwig. Entre as muitas celebridades pianísticas da época que legaram suas variações, duas eram muito próximas a Beethoven: Carl Czerny, seu aluno de piano e fundador duma linha pedagógica que chegou a nossos tempos, e Ignaz Moscheles, que o auxiliou na organização de Fidelio e lhe foi um amigo extraordinário nos dolorosos anos finais. Outras dessas celebridades hoje mal ocupam notas de rodapé, como Friedrich Kalkbrenner, o mais famoso pianista de Paris quando da chegada de Chopin àquela cidade e dedicatário do primeiro concerto para piano do polonês (Op. 11), e de J. P. Pixis, um artista famoso pelo nariz descomunal e que também recebeu uma dedicatória de Chopin – aquela da Fantasia sobre Temas Poloneses (Op. 13). Escondidos sob a forma alemã de seus sobrenomes – Tomaschek e Worzischek – estão dois bons compositores boêmios, Václav Tomášek e Jan Voříšek. Também encontramos no rol alguns cidadãos de oblíqua fama, como Michael Umlauf, o regente de fato da première da Nona Sinfonia de Beethoven (pois o regente oficial era Beethoven, que nada mais escutava e menos ainda regia), e Anselm Hüttenbrenner, amigo de Schubert e fiel depositário dos manuscritos da Sinfonia Inacabada. Encontramos alguns falsos cognatos – um Czerny que nada tem a ver com o Czerny famoso, autor daquelas centenas de estudos que são o terror dos estudantes de piano, e um Kreutzer sem relações com aquele que esnobou a sonata que imortalizou seu nome. No mais, somente nomes dos quais nada mais sabemos, nem por notas de rodapé, com duas exceções.
A primeira exceção é a sigla S. R. D., que para os íntimos significa Serenissimus Rudolphus Dux e designa o arquiduque Rudolph da Áustria, grande amigo e generoso patrono de Beethoven, de quem foi o único aluno de composição. Rudolph, que se preparava para assumir a arquidiocese de Olmütz (atual Olomouc, Tchéquia), estava um tanto afastado da Música e deve ter, por isso, preferido a discrição.
A segunda é um “menino de onze anos, nascido na Hungria”, de nome…
O então desconhecido moleque de Raiding tinha oito anos quando Czerny, seu influente professor, escreveu sua variação, e treze quando sua própria variação foi publicada. Liszt ainda não sonhava com a fama e a histeria em que surfaria por toda a Europa nas décadas seguintes, e certamente ingressou no rol de Diabelli por influência de Czerny. Curiosamente, Liszt, Czerny e o supracitado Pixis juntar-se-iam futuramente a Chopin, Thalberg e Herz na publicação duma outra obra colaborativa: o Hexameron(1837), composto por variações sobre uma marcha de Bellini e organizado por Liszt.
Convites enviados, variações recebidas, restava organizá-las para publicação. E qual o critério escolhido para fazê-lo? O mais mocorongo possível: a ordem alfabética.
Francamente, Herr Diabelli!
Para não ficar tão feio, Diabelli pediu a Czerny, seu primeiro colaborador no projeto, que compusesse uma coda que arrematasse a colcha de retalhos. Apesar de seu cuidado, o mexidão pianístico não deu tão certo e, mesmo que lhe concedamos a cortesia de não escutarmos as “Diabelli” de Beethoven primeiro, o segundo volume da Vaterländische Künstlerverein é dureza de ouvir. A posteridade foi rápida no veredito e concedeu-lhe, por fim, a mais definitiva das cortesias: o completo esquecimento.
Não fosse a abnegação de gente como Rudolf Buchbinder a tirar-lhes o bolor, soprar-lhes a poeira e volta e meia tocá-las (Buchbinder significa “encadernador”, e talvez isso explique sua predileção por papel roído por cupins), vocês só saberiam dessas cinquenta outras variações através de poentos volumes e debaixo de violentos acessos de rinite. Por isso, agradeçam a Buchbinder e ao PQP Bach pelo duvidoso privilégio, sem esquecer daquele valeuzinho para mim, que tanto trabalho tive digitando nomes obscuros para identificar as faixas e as categorias na lista de compositores publicados aqui no blog – o qual, certamente, nunca ganhou tantas figurinhas novas num só dia.
De nada.
Anton DIABELLI (1781–1858) [organizador]
Vaterländischer Künstlerverein – Veränderungen für das Piano-Forte über ein vorgelegtes Thema componiert von den vorzüglichsten Tonzetzern und Virtuosen Wiens und der kaiserlichen-königlichen österreichischen Staaten (“Associação Patriótica de Artistas – Variações sobre um tema proposto, compostas pelos mais renomados compositores e virtuosos de Viena e dos estados imperiais e reais da Áustria”)
PARTE I
Ludwig van BEETHOVEN (1770-1827)
Trinta e três variações em Dó maior para piano sobre uma valsa de Anton Diabelli, Op. 120 Compostas entre 1819–23 Publicadas em 1823 Dedicadas a Antonie Brentano
1 – Thema: Vivace
2 – Variation 1: Alla marcia maestoso
3 – Variation 2: Poco allegro
4 – Variation 3: L’istesso tempo
5 – Variation 4: Un poco più vivace
6 – Variation 5: Allegro vivace
7 – Variation 6: Allegro ma non troppo e serioso
8 – Variation 7: Un poco più allegro
9 – Variation 8: Poco vivace
10 – Variation 9: Allegro pesante e risoluto
11 – Variation 10: Presto
12 – Variation 11: Allegretto
13 – Variation 12: Un poco più moto
14 – Variation 13: Vivace
15 – Variation 14: Grave e maestoso
16 – Variation 15: Presto scherzando
17 – Variation 16: Allegro
18 – Variation 17: Allegro
19 – Variation 18: Poco moderato
20 – Variation 19: Presto
21 – Variation 20: Andante
22 – Variation 21: Allegro con brio – Meno allegro – Tempo primo
23 – Variation 22: Allegro molto, alla « Notte e giorno faticar » di Mozart
24 – Variation 23: Allegro assai
25 – Variation 24: Fughetta (Andante)
26 – Variation 25: Allegro
27 – Variation 26: (Piacevole)
28 – Variation 27: Vivace
29 – Variation 28: Allegro
30 – Variation 29: Adagio ma non troppo
31 – Variation 30: Andante, sempre cantabile
32 – Variation 31: Largo, molto espressivo
33 – Variation 32: Fuga: Allegro
34 – Variation 33: Tempo di Menuetto moderato
Ignaz Franz Edler von MOSEL (1772–1844)
28 – Variação XXVII [Sem indicação de andamento]
Franz Xaver Wolfgang MOZART (1791–1844), listado como “Wolfgang Amadeus Mozart Filho”
29 – Variação XXVIIIa: Con fuoco
30 – Variação XXVIIIb [Sem indicação de andamento]
Joseph PANNY (1796–1838)
31 – Variação XXIX: Allegro con brio
Este disco é bem esperto: traz à tona dois compositores que morreram muito cedo e, por conta de uma obra breve, acabam passando despercebido do grande público.
O primeiro é o tcheco Jan Václav Voříšek (1791-1825), que se tornou amigo de Schubert e conviveu com Beethoven, Spohr, Hummel e Moscheles em Viena. Sua única Sinfonia, esta em ré maior de 1821, é uma obra que mostra bem o que aprendeu de seus professores, um classicismo formalmente perfeito, e, não obstante, de ideias musicais abundantes e originais. Nada de cópias ou estudos de segunda mão. É uma sinfonia cativante que lembra o frescor da Sinfonia em Dó de Bizet.
Este mesmo frescor está presente na outra obra, ainda mais impressionante, por ter sido escrita por um jovem de apenas 19 anos, e que morreu exatamente com esta idade. O espanhol (ou antes, basco) Juan Crisóstomo de Arriaga (1806-1826) foi uma criança-prodígio que escreveu uma ópera (hoje perdida) aos 13 anos, música vocal, instrumental e sinfônica com uma espontaneidade de inspiração que nos deixa atônitos. Também por ter nascido no dia 27 de janeiro, e, claro, por semelhanças de vida, ficou conhecido como “Mozart espanhol”. Esta sua única sinfonia, também um deleite clássico, já usa tonalidades de ré maior e ré menor alternadas com tanta frequencia que não dá pra dizer qual delas predomina. Gênio.
De quebra, a abertura da ópera “Los esclavos felices” (apesar da contradição), sempre acompanha as gravações de Arriaga.
A Sinfonia de Arriaga já foi postada aqui anteriormente, numa gravação da Naxos, mas devo mencionar as virtudes desta, da Hyperion: a batuta precisa de Mackerras, um dos maestros mais inspirados do século xx. Pouco festejado, foi o responsável por, modestamente, trazer leituras modernas de diversos compositores e/ou obras pouco conhecidas. As óperas de Janácek ganharam vida em suas mãos.
Jan Václav Voříšek (1791-1825)
Symphony in D major
Juan Crisóstomo de Arriaga (1806-1826)
Los Esclavos Felices, overture
Symphony in D
Scottish Chamber Orchestra
Sir Charles Mackerras
HYPERION, 1995