Peter Sculthorpe (1929-2014): Obras para orquestra de cordas (Tognetti, Australian Chamber Orchestra)

Os arranjos de obras de câmara para orquestras – e mais especificamente de quartetos de cordas para orquestra de cordas – são uma prática comum há bastante tempo. Mahler, por exemplo, criou suas versões orquestrais de quartetos de Beethoven e Schubert, e Schönberg arranjou obras para órgão de J.S. Bach para grande orquestra. Bem mais recentemente, um quarteto de Bacewicz recebeu uma bela versão para orquestra de cordas (aqui). E nas últimas décadas do século passado, o australiano Peter Sculthorpe criou três Sonatas para Cordas, obras orquestrais baseadas em seus próprios quartetos de cordas. A linguagem de Sculthorpe faz uso frequente de glissandi e outras técnicas que imitam ou recriam sons da natureza como o do vento e dos pássaros. Até aí, nada de tremendamente inovador, mas ele consegue encaixar isso de um jeito próprio e notável. O álbum traz ainda um “lamento” e o “porto Essington”, obras para cordas que descrevem paisagens e sentimentos. A seguir, alguns escritos sobre o compositor:

Harry Crowl, 2020:
Peter Sculthorpe, há em sua música uma amplitude épica que reflete talvez a vastidão do continente australiano.

Michelle Debra, 2024:
Era considerado uma criança prodígio e compôs seu primeiro quarteto de cordas com 14 anos. Sua obra inclui 18 quartetos de cordas, peças vocais, orquestrais e trilhas sonoras de filmes. Uma grande parte de sua música é resultado de seu interesse pela Austrália e seus vizinhos do Pacífico.

Ele já declarou que lhe agradaria que sua música fizesse as pessoas se sentirem melhores e mais alegras após tê-la escutado. Evitava normalmente as técnicas densas e atonais. Dizia-se politicamente engajado em seu trabalho que se aproxima da preservação do meio ambiente e, mais tarde, sobre as mudanças climáticas, pedidos de asilo e seu Requiem (2004) condena o bombardeio do Iraque pelos EUA.

Peter Sculthorpe (1929-2014):
Port Essington (1977) for string trio and string orchestra
I Prologue: The Bush (Con ferocita)
II Theme and Variations: The Settlement (Alla marcia – Con grazia –
Con soavita – Teneramente – Cadenza – Alla marcia)
III Phantasy: Unrest (Come veduta a volo d’uccello)
IV Nocturnal: Estrangement (Tristemente – Con ferocita)
V Arietta: Farewell (Con desiderio pieno di malinconia)
VI Epilogue: The Bush (Con semplicita)

Sonata for Strings No. 1 (1983)
I Sun Song (Deciso – Piu mosso)
II Chorale (Con pieta)
III Interlude (Risoluto – Calmo)
IV Chorale (Con pieta)
V Sun Song (Deciso – Piu mosso)

Lament for Strings (1976)
Solo Cello: Cameron Retchford

Sonata for Strings No.2 (1988)

Sonata for Strings No.3 (1994)
I Deciso 5:08
II Liberamente – Estatico 7:47

Irkanda IV (1961) for solo violin, strings and percussion
Solo Violin: Richard Tognetti

Australian Chamber Orchestra
Richard Tognetti, director
Recorded: 1995, 1996

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Sculthorpe em sua casa, 1979

Pleyel

Peter Sculthorpe (1929-2014): Integral dos Quartetos de Cordas com Didjeridu

Peter Sculthorpe (1929-2014): Integral dos Quartetos de Cordas com Didjeridu

Qual foi a última vez em que você ouviu o som de um instrumento que não tinha ouvido antes? Creio que o didjeridu será um instrumento novo para a maioria de nossos ouvintes-leitores. Wikipédia nos informa: O didjeridu (ou didgeridoo) é um instrumento de sopro dos aborígenes australianos. O didjeridu é um instrumento muito antigo. Estudos arqueológicos baseados em pinturas rupestres sugerem que o povo aborígene da região de Kakadu já utilizava o didjeridu há cerca de 1.500 anos.

Na época em que Villa-Lobos (1887-1959) e o mexicano Carlos Chávez (1899-1978) inseriam em suas partituras orquestrais chocalhos e outras percussões de origem pré-colombiana, a leitura predominante que se fazia – e estimulada pelos compositores, que tiveram relações próximas com os governantes de seus países – era a de uma música nacionalista, ufanista, exaltando sua cultura nacional.

Nesse início de século 21, o buraco é mais embaixo. Em muitos países colonizados, ficou difícil falar em “uma” cultura nacional, conforme foram ficando evidentes as manchas de sangue por todo lado nos processos de colonização. Os quartetos com didjeridu de Sculthorpe são programáticos, cada um conta de certa forma uma história, e são histórias com algum grau de violência ou medo, como vocês poderão ler no encarte do álbum.

Alguns exemplos de didjeridu

O compositor utiliza técnicas raras, como glissandos muito agudos, para expressar uma ampla gama de sentimentos. Há também pássaros cantando e voando. E o som grave, orgânico, quente do didjeridu traz um certo alívio em vários momentos. São processos de desencantamente e de reencantamento do mundo. Nas ruínas, nas frestas do concreto, brota a vida.

Do encarte do disco: Concluído e apresentado pela primeira vez em 1994, o quarteto nº 12 é essencialmente um arranjo do trabalho orquestral anterior de Sculthorpe, Earth Cry (1986). Ao compor a partitura original da orquestra, Sculthorpe a princípio planejava escrever “música rápida e alegre”. No entanto, depois afirmou que seria “desonesto da minha parte escrever música totalmente alegre. A falta de uma causa comum e o egoísmo de muitos drenaram grande parte de nossa energia na Austrália. Uma identidade nacional falsa e sua comercialização obscureceram a verdadeira amplitude de nossa cultura. A maior parte do júbilo, cheguei a sentir, nos espera no futuro. Talvez precisemos agora nos sintonizar com este continente, ouvir o grito da terra, como seus habitantes originários fizeram por milhares de anos”.

Originalmente, a versão de quarteto de 1994 era simplesmente intitulada “Earth Cry for string quartet”. Mas depois, Sculthorpe preferiu um subtítulo independente, “From Ubirr”. Ubirr é o nome de um grupo de afloramentos rochosos com pinturas rupestras no Parque Nacional de Kakadu, no litoral norte da Austrália.

Peter Sculthorpe (1929-2014): The Complete String Quartets with Didjeridu
01. String Quartet No.12 ‘From Ubirr’ (1994, rev. 2001)
02-05. String Quartet No.14 ‘Quamby’ (1998, rev. 2004)
06-10. String Quartet No.16 (2005-2006)
11-15. String Quartet No.18 (2010)
Stephen Kent – didjeridu, Del Sol Quartet (Kate Stenberg & Rick Shinozaki – violins, Charlton Lee – viola, Kathryn Bates – cello)

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Pintura rupestre em Ubirr, Austrália

Pleyel

Peter Sculthorpe (1929-2014): From Ubirr — P. Q. Phan (1962): Tragedy at the Opera — Kevin Volans (1949): White Man Sleeps — Kronos Quartet 25 anos [10/10]

Peter Sculthorpe (1929-2014): From Ubirr — P. Q. Phan (1962): Tragedy at the Opera — Kevin Volans (1949): White Man Sleeps — Kronos Quartet 25 anos [10/10]

cover (2)

  • Repost de 11 de Fevereiro de 2016

Desde o quinto álbum dessa coleção não temos decepções, e aqui, mantemos o nível e fechamos com chave de ouro.

Peter Sculthorpe, nascido na Tasmania, surpreende na criatividade dos quartetos — onde ele brinca com os timbres — e na musicalidade de From Ubirr, onde ele mistura uma melodia evidentemente ocidental com o instrumento didjeridu (didgeridoo em inglês), que é usado principalmente pelos aborígenes australianos. Segundo a wikipedia, esse sempre foi seu objetivo, unir a música australiana com a tradição da música ocidental. Portanto, podemos dizer que ele é um modernista contemporâneo da Austrália.

Já o P. Q. Phan — que nada tem a ver com o P. Q. P. — saiu da sua terra natal, o Vietnam, para ir aos EUA estudar música, e aqui ouvimos o que ele aprendeu. Sua música possui elementos facilmente confundíveis entre oriental, chinês ou japonês, mas é vietcongue. Meus vizinhos não gostaram muito do caos da sua música tipicamente contemporânea que eu não tive reservas em deixar o rádio tocar, mas eu adorei.

Depois de passar pela Austrália e pela Ásia, terminamos nossa longa viagem na África, com Kevin Volans. O dito cujo é branco e passou boa parte da vida fora da África do Sul, onde nasceu, mas certamente soube utilizar bastante da cultura africana de seu país para fazer sua música. White Man Sleeps utiliza o sistema tonal da cultura africana, ou seja, os intervalos entre as notas são diferentes, portanto podemos ouvir sons que geralmente não ouviríamos num instrumento com a tonalidade ocidental tradicional. São diferentes danças onde podemos sentir um pouco do ritmo africano ao mesmo tempo em que as melodias são mais europeias.

É isso ai amiguinhos, terminamos aqui essa coleção, espero que tenham gostado.

25 Years of the Kronos Quartet [BOX SET 10/10]


Peter Sculthorpe (1929-2014):

Jabiru Dreaming, Quartet No. 11
01 I. Deciso
02 II. Amoroso

Quartet No. 8
03 I. Con dolore
04 II. Risoluto; calmo
05 III. Con dolore
06 IV. Con precisione
07 V. Con dolore

08 From Ubirr*

P. Q. Phan (1962):

09 Tragedy at the Opera (from Memoirs of a Lost Soul)

Kevin Volans (1949):

White Man Sleeps, Quartet No. 1:
10 First Dance
11 Second Dance
12 Third Dance
13 Fourth Dance
14 Fifth Dance

Kronos Quartet:
David Harrington, violin
John Sherba, violin
Hank Dutt, viola
Joan Jeanrenaud, cello
Michael Brosnan & Mark Nolan, didgeridoos*

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O quarteto original do Kronos vestidos tipicamente como moradores da costa leste dos EUA nos anos 80/90.
O quarteto original do Kronos vestidos tipicamente como moradores da costa leste dos EUA nos anos 80/90.

Luke