Shostakovich foi um excelente pianista. Poderia ter feito carreira como virtuose, mas, para nossa sorte, escolheu compor. Foi o vencedor do internacional Concurso Chopin de 1927 e fazia apresentações regulares executando seus trabalhos. O pequeno número de gravações do próprio compositor como pianista talvez deva-se ao fato de ele ter perdido parcialmente os movimentos de sua mão direita ao final dos anos sessenta. Este Concerto Nº 1 é realmente espetacular. Era uma boa época para os concertos para piano. O de Ravel aparecera um ano antes, assim como o 5º de Prokofiev. É coincidente que os três sejam alegres, luminosos, divertidos mesmo. Com quatro movimentos, sendo o primeiro muito melodioso e gentil, os dois centrais lentos e o último capaz de provocar gargalhadas, é um grande concerto. A participação de um trompetista meio espalhafatoso é fundamental, assim como de um pianista que possa fazer rapidamente a conversão entre a música de cabaré e a música militar exigidas no último movimento. Uma vez, assistindo a uma apresentação, vi como as pessoas sorriam durante a audição deste movimento. Não há pontos baixos neste maravilhoso concerto, que ainda traz, em seu segundo movimento, um lindíssimo solo para trompete, além de uma cadenza esplêndida, de ecos beethovenianos. Shostakovich foi o pianista de sua estréia, em 1933, na cidade de Leningrado.
O Concerto Nº 2 foi dedicado ao filho pianista Maxim Shostakovich. É um autêntico presente de pai para filho. Alegre, brilhante e cheio de brincadeiras de caráter privado como a inacreditável inclusão – no terceiro movimento de exercícios que seu filho praticava quando era estudante do instrumento. E não se surpreenda, o primeiro movimento deste concerto é conhecido entre as crianças que veem desenhos da Disney. É a música que é executada durante o episódio do Soldadinho de Chumbo em Fantasia 2000. Quando ouço esta música em casa, sempre um de meus filhos vem me dizer “olha aí a música do Soldadinho de Chumbo”. É claro que a música não tem nada a ver com a história infantil; Shostakovich fez um belo concerto para seu filho, de atmosfera delicada e afetuosa. O primeiro movimento (Allegro) começa com uma rápida introdução orquestral em seguida à qual entra o piano. De acordo com a prática habitual de Shostakovich, o tema inicial é um pouco mais poético do que o segundo, de entonação mais vigorosa e rítmica. Dois movimentos vivos e felizes cercam um melancólico, tocante e melodioso segundo movimento. A inspiração óbvia para este concerto foi o Concerto em Sol Maior (1931) de Ravel. Leonard Bernstein deu-se conta disto e gravou um de seus melhores discos em 1978, acumulando as funções de pianista e regente nos dois concertos. Se este concerto não arrancar algum sorriso do ouvinte, este necessita de urgentemente de anti-depressivos.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): : Concertos para Piano Nos. 1 e 2, Abertura Festiva, “A Idade do Ouro” (Houstoun, New Zealand Symphony, Lyndon-Gee)
Piano Concerto No. 2 in F Major, Op. 102 (1957)
2 I. Allegro 07:22
3 II. Andante 06:37
4 III. Allegro 05:46
The Golden Age Suite, Op. 22a
5 Introduction 03:54
6 Adagio 09:07
7 Polka 01:51
8 Dance 02:17
Piano Concerto No. 1 in C Minor, Op. 35 (1933)
9 I. Allegretto – Allegro Vivace – Moderato – 06:31
10 II. Lento – 08:31
11 III. Moderato 01:42
12 IV. Allegro con brio 06:54
Conductor(s): Lyndon-Gee, Christopher
Orchestra(s): New Zealand Symphony Orchestra
Artist(s): Houstoun, Michael (PIANO); Taber, John (TROMPETE)
Esqueci o nome da praga, mas houve um comentarista aqui no PQP, que odiava o grande Bernard Haitink de cabo a rabo. Era inacreditável, tanto mais que Haitink foi aquele tipo correto, gentil, tranquilo, inteligente… E até era bem musical! Chego à conclusão que tínhamos um psicopata, talvez bolsomínion, nos visitando, porque era um ódio gratuito a quem nunca mordeu ninguém. Numa de nossas discussões, citamos o finlandês Klaus Mäkelä, que também foi espinafrado pelo cara logo após ser escolhido como regente titular do Concertgebouw de Amsterdam. Pelo jeito os músicos do Concertgebouw não acertam uma! Depois da frieza de Haitink e do Gatti assediador — foi inocentado –, chamaram mais um farsante pra comandá-los…
Imaginem que Mäkelä ocupa o cargo de Maestro Chefe da Filarmônica de Oslo desde 2020 e Diretor Musical da Orquestra de Paris desde setembro de 2021. Ele assumirá o título de Maestro Chefe da Royal Concertgebouw Orchestra em setembro de 2027 e na mesma temporada começa como Diretor Musical da Orquestra Sinfônica de Chicago. Todos idiotas: noruegueses, franceses, holandeses e estadunidenses. Mais de 400 músicos de algumas das maiores orquestras do mundo totalmente equivocados. Votaram nele. Estou impressionado até hoje. Ainda bem que faz tempo que o comentarista hostil sumiu.
Pois meus amigos, este trio de Sinfonias de Shostakovich receberam um belo tratamento por parte de Mäkelä — hoje com apenas 29 anos, esta gravação é de agosto de 2024, quando KM tinha 28. E os filarmônicos de Oslo… Noossa! Que orquestra e que maestro! Que gravação maravilhosa! Vai ouvir logo, vai, vai!
D. Shostakovich (1906-1975): Sinfonias Nº 4, 5 & 6 (Mäkelä / Oslo Philharmonic)
Symphony No. 4 In C Minor Op. 43
1-1 I. Moderato Poco Moderato – 16:11
1-2 Presto 12:35
1-3 II. Moderato Con Moto 9:03
1-4 III. Largo – 6:51
1-5 Allegro 22:20
Symphony No. 5 In D Minor Op. 47
2-1 I. Moderato – Allegro Non Troppo – Poco Sostenuto – Largamente – Più Mosso – Moderato 15:56
2-2 II. Moderato – Largamente – Poco Più Mosso 5:20
2-3 III. Largo 13:57
2-4 IV. Allegro Non Troppo – Allegro – Più Mosso 11:36
Symphony No. 6 In B Minor Op. 54
2-5 I. Largo 18:53
2-6 II. Allegro 5:43
2-7 III. Presto 6:45
Conductor – Klaus Mäkelä
Orchestra – Oslo Philharmonic
A Sinfonia Nº 9, Op. 70, de Shostakovich, surpreendeu profundamente seu tempo. Composta em 1945, logo após a vitória soviética na Segunda Guerra, esperava-se uma obra grandiosa, triunfal, monumental — algo à altura da propaganda oficial. Em vez disso, Shostakovich entregou uma sinfonia leve, irônica, quase mozartiana em sua clareza e concisão. Essa aparente leveza, no entanto, carrega uma ambiguidade mordaz: por trás do humor e da transparência, há um gesto de recusa, talvez até de subversão, que desarma qualquer leitura simplista de celebração heroica.
Já a Sinfonia Nº 15, Op. 141, sua última sinfonia, composta em 1971, é uma obra enigmática e profundamente introspectiva. Aqui, o compositor parece olhar para trás e revisitar não apenas sua própria trajetória, mas toda a tradição musical que o formou. A sinfonia é atravessada por citações — de Rossini a Wagner — que surgem como memórias sonoras, fragmentos de um passado que reaparece de forma quase fantasmagórica. O clima é rarefeito, por vezes irônico, por vezes inquietante, como se a música hesitasse entre o jogo e a despedida.
Se a Nona parece negar o peso da história com um sorriso ambíguo, a Décima Quinta nos encara de forma oblíqua. Entre uma e outra, vemos dois gestos extremos de Shostakovich: o da ironia diante das expectativas externas e o da meditação diante do fim. Ambas, à sua maneira, recusam o grandioso em favor de algo mais sutil — e talvez mais perturbador: uma música que, em vez de afirmar, insinua.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias – 9 e 15 (Kondrashin)
Hoje, dia 25, faz 101 anos que Shostakovich nasceu. P.Q.P. Bach lembrou e homenageia o mais humano dos compositores. Utilizamos versões clássicas um CD de versões clássicas a cargo de Leonard Bernstein e de Rudolf Barshai.
Sinfonia Nº 5, Op. 47 (1937)
Porta de entrada mais utilizada para Shostakovich, a Sinfonia N° 5 é sua obra mais popular. Recebeu incontáveis gravações e não é para menos. O público costuma torcer o nariz para obras mais modernas e aqui o compositor retorna no tempo para compor uma grande sinfonia ao estilo do século XIX. Sim, é em ré menor e possui quatro movimentos, tendo bem no meio um scherzo (o Alegretto) composto por um Haydn mais parrudo. Mesmo para os aficcionados, é uma obra apetitosa, por transformar a linguagem do compositor em algo mais sonhador do que o habitual. Foi a primeira sinfonia de Shostakovich que ouvi. Meu pai a trouxe dizendo que era uma sinfonia muito melhor que as de Prokofiev, exceção feita à Nº 1, Clássica, que ele, outro clássico, amava. Alguns consideram a quinta uma grande paródia; eu a vejo como uma homenagem ao glorioso passado sinfônico do século anterior. A abertura e a coda do último movimento (Allegro non troppo) costuma aparecer, com boa freqüência, em programas de rádio que se querem sérios e influentes…
Chamber Symphony
Sim, sim, não me culpem. É a quinta vez que publicamos esta pequena sinfonia de câmara, na verdade um arranjo do extraordinário Quarteto Nº 8 de Shosta. O que posso fazer se tal obra tornou-se a sobremesa padrão de muitos CDs? É uma iguaria triste, com um estranho gosto de morte, mas bela, muito bela. Houve uma postagem de três versões muito diferentes entre si num só arquivo (lembram?) e depois ela retornou naquele CD funéreo que também apresentava A Morte e a Donzela de Schubert. É grande música, vale a pena ouvir e reouvir.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonia Nº 5 e Sinfonia de Câmara (Bernstein, New York Philharmonic, Barshai, Mito Chamber Orchestra)
Symphony No. 5, Op. 47
Conductor – Leonard Bernstein
Orchestra – New York Philharmonic
1 Moderato 17:42
2 Allegretto 5:23
3 Largo 16:02
4 Allegro Non Troppo 10:13
Chamber Symphony For String Orchestra, Op. 110a
Conductor – Rudolf Barshai
Orchestra – Mito Chamber Orchestra
5 Largo 4:34
6 Allegro Molto 3:33
7 Allegretto 4:25
8 Largo 4:54
9 Largo 3:41 This work is Rudolf Barshai’s 1960 arrangement of Shostakovich’s String Quartet No. 8.
A Sétima Sinfonia, “Leningrado”, talvez seja a obra mais famosa de Shostakovich. Ele dedicou-a “a nosso combate contra o fascismo, a nossa vitória sobre o inimigo em Leningrado, a minha cidade natal”. As circunstâncias em que foi escrita e estreada a fizeram famosíssima. Imaginem uma cidade cercada por alemães há 18 meses, uma orquestra improvisada vestida com suéteres e jaquetas de couro, todos magérimos pela fome, a rádio transmitindo o concerto, várias cidades soviéticas estreando a obra ao mesmo tempo, Arturo Toscanini – anti-fascista de cabo a rabo – pedindo a partitura nos Estados Unidos (ela foi levada de avião até Teerã, de carro ao Cairo, de avião à Londres, de onde um outro avião da RAF levou a música ao maestro), Shostakovich na capa da Time. Ou seja, a Sétima é importante. Nos EUA, em poucos meses, foi interpretada por Kussevítki, Stokovski, Rodzinski, Mitropoulos, Ormandy, Monteaux, etc. Um espanto.
Numa das maiores homenagens recebidas por uma obra musical, Anna Akhmátova escreveu o seguinte poema ao ser posta à salvo das bombas alemãs pelas autoridades soviéticas:
Todos vocês teriam gostado de me admirar quando,
no ventre do peixe voador,
escapei da perseguição do mal e,
sobre as florestas cheias de inimigos,
voei como se possuída pelo demônio,
como aquela outra que,
no meio da noite,
voou para Brocken.
E atrás de mim,
brilhando com seu segredo,
vinha a que chama a si mesma de Sétima,
correndo para um festim sem precedentes.
Assumindo a forma de um caderno cheio de notas,
ela estava voltando para o éter onde nascera.
Pois é. Mas falemos a sério: não é a maior sinfonia de Shosta. Fica atrás da oitava, décima, décima-primeira, décima-terceira, décima-quarta e décima-quinta. Mas que é famosésima, é.
Há grandes momentos nela: o primeiro é a preparação para receber o inimigo, baseada no Bolero de Ravel, é espantosa. Nota-se perfeitamente o significado do tema principal e do acompanhamento das cordas, cada vez mais ameaçador. O segundo é o espetacular finale, sempre ouvido pelo público em pé, e onde reaparece o tema inicial da sinfonia, demonstrando a tranqüilidade ansiada pelo povo russo após o sofrimento da guerra. Tem que conhecer. É cultura.
Informações em parte colhidas no livro sobre Shostakovich de Lauro Machado Coelho.
Mais um petardo vindo de Kirill Kondrashin e do segundo melhor Exército Vermelho já formado.
Sinfonia Nº 3, Op. 20, “O Primeiro de Maio” (1929)
Não gosto. É música heróica para o Partido, entremeada de algumas modernagens para irritar os burocratas. Shosta resolveria melhor este dilema logo mais adiante, mas Kondrashin é tão bom que deixa a obra quase boa…
Sinfonia Nº 5, Op. 47 (1937)
Esta é a obra mais popular de Dmitri Shostakovich. Recebeu incontáveis gravações e não é para menos. O público costuma torcer o nariz para obras mais modernas e aqui o compositor retorna no tempo para compor uma grande sinfonia ao estilo do século XIX. Sim, é em ré menor e possui quatro movimentos, tendo bem no meio, um scherzo composto por um Haydn mais parrudo. Mesmo para os menos aficcionados, é uma obra apetitosa, por transformar a dura linguagem do compositor em algo mais sonhador do que o habitual. Foi a primeira sinfonia de Shostakovich que ouvi. Meu pai a trouxe dizendo que era uma sinfonia muito melhor que as de Prokofiev, exceção feita à Nº 1, Clássica, que ele amava. Alguns consideram esta obra uma grande paródia; eu a vejo como uma homenagem ao glorioso passado sinfônico do século anterior. A abertura e a coda do último movimento (Allegro non troppo) costuma aparecer, com boa freqüência, em programas de rádio que se querem sérios e influentes…
A propósito, do último movimento, ele serviu para uma cena “estranha” do cineasta Alexander Sokurov que, ao desejar mostrar, no seu documentário sobre Shostakovich “Sonata para Viola”, a sempre questionável superioridade e a liberdade do Ocidente, comparou longamente a coda da quinta na versão de Lenny Bernstein (maravilhosa) e de Mravinsky (horrorosa). Sokurov é um brilhante diretor, mas entende patavinas de música… Não apenas a versão de Mravinsky é superior, como ele obedecia ao desejo de Shostakovich quanto ao andamento. Quem entende alguma coisa de música fica boiando ou manda o diretor às favas. Sokurov, já que tem ouvidos varicosos, deveria consultar qualquer ouvinte – mesmo médio – para não cometer tais escandalosos equívocos…
Dmitri Shostakovich (1906-1975) – Integral das Sinfonias – Sinf. Nros. 3 e 5 (CD 3 de 11) (Kondrashin, MPO)
SYMPHONY No.3
1. in E Flat Major, Op.20, “The First of May”
SYMPHONY No.5 in D Minor, Op.47
2. Moderato. Allegro non troppo. Moderato
3. Allegretto
4. Largo
5. Allegro non troppo. Allegro
Recorded: March 27, 1968
Choirs of the Russian Republic, Alexander Yourlov, Conductor (1)
Moscow Philharmonic Orchestra (1 & 2)
Kirill Kondrashin, Conductor
Total time 68:16
Dando continuidade à nossa integral das Sinfonias de Dmitri Shostakovich sob a regência de Kirill Kondrashin, iniciada aqui, publicamos mais duas sinfonias: a comum segunda e a notável décima-quarta.
CD 2
Sinfonia Nº 2, “A Outubro”, Op. 14 (1927)
Escrita sobre versos de Aleksander Bezimensky’s, é uma homenagem ao décimo ano da Revolução. Tem 16 minutos e é tem um movimento, dividido nas seções Largo – Allegro molto – Meno mosso – Choral Finale. Sua estréia ocorreu em 05/11/1927 com a Filarmônica de Leningrado e Coro. A sinfonia é da fase de experimentação de Shostakovich, só que quem experimentou e não gostou dela foi a burocracia comunista. Creio que o regime soviético tenha sucumbido por sua violência e mau gosto: chamaram a sinfonia de “formalista”, “antiproletária”, “burguesa”, etc. e até o jovem Shostakovich, na época um sincero comunista, ficou irritado com a repercussão incompreensiva. É que ele ainda não conhecera a ira de Stálin logo após Lady Macbeth… Não vira nada ainda…
Sinfonia Nº 14, Op. 135 (1969)
A Sinfonia Nº 14 – espécie de ciclo de canções – foi dedicada a Britten, que estreou-a em 1970 na Inglaterra. É a menos casual das dedicatórias. Seu formato e sonoridade é semelhante à Serenata para Tenor, Trompa e Cordas, Op. 31, e à Les Illuminations para tenor e orquestra de cordas, Op. 18, ambas do compositor inglês. Os dois eram amigos pessoais; conheceram-se em Londres em 1960, e Britten, depois disto, fez várias visitas à URSS. Se o formato musical vem de Britten, o espírito da música é inteiramente de Shostakovich, que se utiliza de poemas de Lorca, Brentano, Apollinaire, Küchelbecker e Rilke, sempre sobre o mesmo assunto: a morte.
O ciclo, escrito para soprano, baixo, percussão e cordas, não deixa a margem à consolação, é música de tristeza sem esperança. Cada canção tem personalidade própria, indo do sombrio e elegíaco em A la Santé, An Delvig e A Morte do Poeta, ao macabro na sensacional Malagueña, ao amargo em Les Attentives, ao grotesco em Réponse des Cosaques Zaporogues e à evocação dramática de Loreley. Não há música mais direta e que trabalhe tanto para a poesia, chegando, por vezes, a casar-se com ela sílaba por sílaba para tornar-se mais expressiva. Há uma versão da sinfonia no idioma original de cada poema, mas sempre a ouvi em russo. Então, já que não entendo esta língua, tenho que ouvi-la ao mesmo tempo em que leio uma tradução dos poemas. Posso dizer que a sinfonia torna-se apenas triste se estiver desacompanhada da compreensão dos poemas – pecado que cometi por anos! Ela perde sentido se não temos consciência de seu conteúdo autenticamente fúnebre. Além do mais, os poemas são notáveis.
Possui indiscutíveis seus méritos musicais mas o que importa é sua extrema sinceridade. Me entusiasmam especialmente a Malagueña, feita sobre poema de Lorca e a estranha Conclusão (Schluss-Stück) de Rilke, que é brevíssima, sardônica e – puxa vida – muito, mas muito final.
SYMPHONY No.2
1. in B Major, Op.14, “To October”
Recorded: November 29, 1972
SYMPHONY No.14
For Soprano, Bass, String Orchestra and Percussion, Op.135
2. De Profundis (Garcia Lorca)
3. Malaguena (Garcia Lorca)
4. Loreley (Apollinaire)
5. The Suicide (Apollinaire)
6. On Watch (Appollinaire)
7. Madam! Look (Apollinaire)
8. In the Sante (Apollinaire)
9. The Zaporogian Cossacks’ Reply to the Sultan of Constantinople (Appolinaire)
10. O Delvig, Delvig! (Kuchelbecker)
11. Death of the Poet (Rilke)
12. Conclusion (Rilke)
Recorded: November 24, 1974
Evgenya Tselovalnik, Soprano / Evgeny Nesterenko, Bass / Ensemble of soloists from the Moscow Philharmonic Orchestra / Choirs of the Russian Republic / Alexander Yourlov, Conductor (2)
Moscow Philharmonic Orchestra / Kirill Kondrashin, Conductor
A Sinfonia Nº 4 de Shostakovich é das obras que mais cresceram na minha consideração nos últimos anos. Ouço-a repetidamente nos últimos meses e esta gravação de Gergiev com o pessoal de Munique é supimpa. O russo acentou momentos decididamente fantasmagóricos da obra, coisas a que jamais eu atentara. A Quarta é monumental e radical. Escrita entre 1935 e 1936, nasceu num momento de enorme tensão política na União Soviética, logo depois das críticas oficiais que o compositor sofreu após a ópera Lady Macbeth of Mtsensk. A sinfonia é gigantesca, com orquestra imensa e uma linguagem muito influenciada por Gustav Mahler: música irônica, brutal, às vezes grotesca, alternando explosões violentas com passagens de um silêncio quase inquietante. Tem algo de visionário e caótico, como se o mundo estivesse à beira de um colapso. (E não está ainda hoje com Trump, Bibi e os bolsonaristas?). Por medo das consequências políticas, Shostakovich retirou a obra antes da estreia, e ela só seria apresentada publicamente 25 anos depois, em 1961. Hoje é vista como uma das sinfonias mais perturbadoras do século XX. O adjetivo perturbador é muito verdadeiro.
Faz três anos, veio uma menina georgiana aqui na OSPA e nos deu uma interpretação notável — verdadeiramente sensível e bela — para a o Concerto Nº 1 de Shosta. Após o Concerto, fui cumprimentá-la e ela me disse que fora a primeira vez que o tocara o Concerto em público. Fiquei muito impressionado e disse: “Mas tu tocaste de cor!”. Ela me respondeu que ele tem momentos tão rápidos e intensos que era impossível ler, melhor decorar logo. Seu nome é Elisso Gogibedaschwili e, vi agora, ela é austríaca, mas de origem georgiana, claro.
Elisso Gogibedaschwili
Composto entre 1947 e 1948, o Concerto para Violino Nº 1 em Lá menor, Op. 77 (ou 99), de Dmitri Shostakovich é uma obra profundamente marcada pelo contexto político soviético. Escrito para o violinista David Oistrakh, a quem é dedicado, o concerto teve sua estreia adiada por sete anos devido à campanha contra o “formalismo” na música, que levou o compositor a ser publicamente censurado pelo regime stalinista. Sua estrutura incomum em quatro movimentos (Nocturne, Scherzo, Passacaglia e Burlesca) revela um universo de contrastes: da introspecção sombria do “Nocturne” à fúria demoníaca do “Scherzo”, onde surge a primeira aparição do motivo DSCH (a assinatura musical do compositor) . O coração da obra está na imponente e lindíssima “Passacaglia”, que desemboca em uma cadenza extensa e solitária antes da explosão virtuosística da “Burlesca” final, uma música que Oistrakh descreveu como portadora de um “profundo conteúdo artístico” e um papel “shakespeariano” para o solista.
Em contraste, o Concerto para Violino Nº 2, Op. 61, de Karol Szymanowski, composto em 1932-33, representa uma síntese tardia e mais serena da linguagem do compositor polonês. Escrito em memória do violinista Paweł Kochański, que o estreou meses antes de morrer, a obra afasta-se do cromatismo denso e da atmosfera orientalista do Primeiro Concerto em direção a uma certa luminosidade. Sua arquitetura é concisa, estruturada em um único movimento com duas seções principais separadas por uma cadenza, revisitando um modelo caro ao compositor. Aqui, Szymanowski busca inspiração no folclore das montanhas Tatra, criando uma narrativa musical que alterna passagens líricas e introspectivas com temas rítmicos e saltitantes que evocam as danças tradicionais da região. É uma obra de virtuosismo mais contido e transparente. É também muito bonito.
Shostakovich: Concerto Nº 1 para Violino e Orquestra, Op. 99 / Szymanowski: Concerto Nº 2 para Violino e Orquestra, Op. 61 (Lack, Köhler)
Violin Concerto No.1, Op. 99
Composed By – Dmitri Shostakovich
Conductor – Siegfried Köhler
Violin – Fredell Lack
Orchestra – The Berlin Symphony Orchestra
1 Moderato 11:44
2 Allegro 6:03
3 Andante 13:10
4 Allegro Con Briao 5:15
Violin Concerto No.2, Op. 61
Composed By – Karol Szymanowski
Conductor – Siegfried Köhler
Violin – Fredell Lack
Orchestra – The Berlin Symphony Orchestra
(22:31)
5-1 Moderato
5-2 Andante Sosternuto
5-3 Allegramente Molto Energico
Mais um grande disco do Belcea Quartet, agora com o excelente pianista Piotr Anderszewski no Quinteto para Piano de Shostakovich.
O Quinteto para piano, Op. 57 (1940)
A música perfeita. Trata-se de um irresistível quinteto escrito em cinco movimentos intensamente contrastantes. O prelúdio inicial estabelece três estilos distintos que voltarão a ser explorados adiante: um dramático, outro neo-clássico e o terceiro lírico. Todos os temas que serão ouvidos nos movimentos seguintes apresentam-se no prelúdio em forma embrionária. Depois vem uma rigorosa fuga puxada pelo primeiro violino e demais cordas até chegar ao piano. Sua melodia belíssima e lírica é seguida por um scherzo frenético. É um choque ouvir chegar o intermezzo que traz de volta a seriedade à música. Apesar do título, este intermezzo é o momento mais sombrio do quinteto. O Finale, cujo início parece uma improvisação pura do pianista, fará uma recapitulação condensada do prelúdio inicial. Este Quinteto para Piano recebeu vários prêmios como o Stálin e outros que não vale a pena referir aqui, mas o mais importante para Shostakovich foi a admiração que Béla Bartók dedicou a ele.
O Quarteto N° 3 foi lançado em Moscou pelo quarteto Beethoven, a quem é dedicado, em dezembro de 1946. Ele foi escrito por Shosta logo após ver sua Sinfonia Nº 9 censurada. Ele também tem cinco movimentos:
Allegretto
Moderado com moto
Allegro non troppo
Adagio ( attacca )
Moderato
Para a estreia, certamente para que não fosse acusado de “formalismo” ou “elitismo “, Shostakovich renomeou os movimentos à maneira de uma história de guerra. Deixo aqui o título de cada movimento a fim de que os visitadores do blog possam dar gargalhadas relacionando “tema” e música.
O engano de ignorar o futuro cataclismo
Alguns estrondos de inquietação e antecipação
As forças de guerra são desencadeadas
Em memória dos mortos
A eterna pergunta: por que e para quê?
Um arranjo de sinfonia de câmara (Op. 73a) foi feito a partir deste quarteto por Rudolph Barshai.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Quinteto para Piano / Quarteto de Cordas N° 3
Piano Quintet In G Minor, Op. 57
Piano – Piotr Anderszewski
1 I. Prelude (Lento) 4:46
2 II. Fugue (Adagio) 11:34
3 III. Scherzo (Allegretto) 3:37
4 IV. Intermezzo (Lento) 7:02
5 V. Finale (Allegretto) 7:40
String Quartet No. 3 In F Major, Op. 73
6 I. Allegretto 7:27
7 II. Moderato Con Moto 5:37
8 III. Allegro Non Troppo 4:12
9 IV. Adagio 6:00
10 V. Moderato 11:12
Ensemble – Belcea Quartet
Cello – Antoine Lederlin
Viola – Krzysztof Chorzelski
Violin – Corina Belcea e Axel Schacher
Piano – Piotr Anderszewski
POSTAGEM ORIGINAL DE PQP BACH EM 11/9/2013,
LINKS REATIVADOS POR VASSILY EM 19/12/2019,
LINKS REREATIVADOS POR PQP BACH EM 29/03/2026
Nota de Vassily: mais uma interpretação desse monumento da literatura pianística do século XX, desta feita pelo discreto – e EXCELENTE – Alexander Melnikov. De todas as interpretações que conheço, e estamos quase a completar a lista delas aqui no PQP, esta é a que mais cresce em meu gosto cada vez que a revisito.
Falando em lista, olhem ela aqui:
Konstantin Scherbakov
Vladimir Ashkenazy
Tatiana Nikolayeva, em três versões: a primeira (1961), a segunda (1987) e a derradeira (1990)
Keith Jarrett
Peter Donohoe
Alexander Melnikov
BÔNUS: DVD sobre Nikolayeva com uma integral do Op. 87 de Shosta
Quase lá!
Vassily
IM-PER-DÍ-VEL !!!
Creio que esta seja a terceira integral desta grande obra de Shostakovich que publico. A primeira foi a de Scherbakov, depois veio a de Nikolayeva e agora a de Melnikov. Todas são excelentes — talvez a de Nikolayeva vença — , mas o que interessa é que o Op. 87 é uma composição incontornável de nosso amigo Shosta. Abaixo, para dar uma contextualizada, copio o início de um trabalho acadêmico sobre a obra encontrado na internet.
Para compreendermos o contexto o compositor russo Dmitri Shostakovich compôs os 24 Prelúdios e Fugas, Op.87 (1950) devemos voltar alguns anos no tempo. Em 1942, Shostakovich (1906-1975) estreou da sua Sétima Sinfonia, Op. 60, a qual obteve grande sucesso, tendo sido aclamada como um ícone da resistência das tropas russas contra o cerco nazista em Leningrado (FANNING & FAY, 2009). Logo após este sucesso, o compositor viu sua Oitava Sinfonia, Op. 65, ser duramente criticada. Afirmava-se que Shostakovich havia composto uma “sinfonia otimista (a sétima) quando o país estava sob uma terrível ameaça e agora uma pessimista (a oitava) quando a vitória estava à vista.” (FANNING & FAY, 2009, pg. 1). A partir deste episódio, gradativamente as críticas à sua obra foram ficando ainda mais duras. Havia a expectativa de que sua Nona Sinfonia, Op. 70 (1945) fosse uma sinfonia triunfal em comemoração à vitória soviética sobre os alemães. A obra, estreada no pós-guerra, não atendeu às estas expectativas do Estado, o que resultou em um artigo condenatório publicado no jornal Pravda em 1948, que veio a ser um duro golpe na sua carreira. Como consequência, Shostakovich compôs pouco nos cinco anos seguintes (BRYNER, 2004). A pouca produção de composições foi acompanhada da tarefa a ele delegada de representar a União Soviética em congressos internacionais ao redor do mundo (FANNING & FAY, 2009).
Como o compositor russo mais conhecido no exterior, Shostakovich era o espelho da música russa para o Ocidente, mesmo sendo censurado dentro de seu próprio país. Apesar deste paradoxo, estes eventos foram importantes para sua reabilitação artística (BRYNER, 2004).
No ano de 1950, o compositor foi convidado para participar como jurado de um concurso de piano em um evento, na então Alemanha Oriental, em homenagem ao bicentenário da morte de J. S. Bach. O compositor ficou muito impressionado com a pianista russa Tatiana Nikolayeva, que venceu o concurso, e decidiu ele próprio compor um conjunto de prelúdios de fugas em todas as tonalidades (assim como o Cravo Bem Temperado de J. S. Bach), o qual Shostakovich dedicou à pianista (SEO, 2003). Ele compôs esta obra entre outubro de 1950 e fevereiro de 1951.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Prelúdios e Fugas, Op. 87
Disc: 1
1. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 1 in C major. Moderato
2. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 1 in C major. Moderato (4-voice)
3. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 2 in A minor. Allegro
4. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 2 in A minor. Allegretto (3-voice)
5. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 3 in G major. Moderato non troppo
6. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 3 in G major. Allegro molto (3-voice)
7. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 4 in E minor. Andante
8. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 4 in E minor. Adagio (4-voice double fugue)
9. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 5 in D major. Allegretto
10. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 5 in D major. Allegretto (3-voice)
11. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 6 in B minor. Allegretto
12. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 6 in B minor. Moderato (4-voice)
13. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 7 in A major. Allegro poco moderato
14. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 7 in A major. Allegretto (3-voice)
15. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 8 in F sharp minor. Allegretto
16. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 8 in F sharp minor. Andante (3-voice)
17. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 9 in E major. Moderato non troppo
18. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 9 in E major. Allegro (2-voice)
19. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 10 in C sharp minor. Allegro
20. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 10 in C sharp minor. Moderato (4-voice)
21. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 11 in B major. Allegro
22. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 11 in B major. Allegro (3-voice)
23. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 12 in G sharp minor. Andante
24. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 12 in G sharp minor. Allegro (4-voice)
Disc: 2
1. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 13 in F sharp minor. Moderato con moto
2. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 13 in F sharp minor. Adagio (5-voice)
3. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 14 in E flat minor. Adagio
4. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 14 in E flat minor. Allegro non troppo (3-voice)
5. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 15 in D flat major. Allegretto
6. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 15 in D flat major. Allegro molto (4-voice)
7. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 16 in B flat minor. Andante
8. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 16 in B flat minor. Adagio (3-voice)
9. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 17 in A flat major. Allegretto
10. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 17 in A flat major. Allegretto (4-voice)
11. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 18 in F minor. Moderato
12. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 18 in F minor. Moderato con moto (4-voice)
13. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 19 in E flat major. Allegretto
14. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 19 in E flat major. Moderato con moto (3-voice)
15. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 20 in C minor.
16. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 20 in C minor. Moderato (4-voice)
17. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 21 in B flat major. Allegro
18. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 21 in B flat major. Allegro non troppo (3-voice)
19. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 22 in G minor. Moderato non troppo
20. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 22 in G minor. Moderato (4-voice)
21. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 23 in F major. Adagio
22. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 23 in F major. Moderato con moto
23. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 24 in D minor. Andante
24. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 24 in D minor. Moderato (4-voice double fugue)
As obras de Bouchard e Chihara são de primeira linha, mas nada se compara com a profundidade da Sonata para Viola que Shostakovich escreveu em seu leito de morte. Esta Sonata Op. 147, foi composta em 1975, ano da morte do compositor, e é a sua derradeira obra — um testamento musical escrito em poucas semanas e dedicado ao violista Fyodor Druzhinin, que a estreou. Em seus três movimentos, Shostakovich parece despedir-se da vida e da arte com uma serenidade amarga e uma lucidez comovente. O primeiro movimento, de lirismo contido, evoca o cansaço; o segundo, uma scherzo grotesco e sardônico, traz ecos do humor negro que sempre o acompanhou. Mas é no Adagio final que a obra atinge sua dimensão mais sublime: nele, Shostakovich cita longamente a Sonata ao Luar de Beethoven, transformando o tema clássico numa melodia fantasmática e suspensa, como se o compositor russo dialogasse com o passado e com a morte numa só respiração. A viola — instrumento de timbre introspectivo — torna-se aqui a voz de um homem que já não precisa gritar, apenas recordar, perdoar e, por fim, silenciar. É uma obra que não se entrega facilmente: exige escuta silenciosa, e retribui com a mais pura verdade. A interpretação de Kim Kashkashian é muito comovente e deixa as outras na poeira.
Linda Bouchard: Pourtinade / Paul Chihara: Redwood / Dmitri Shostakovich: Sonata Op. 147 (Kim Kashkashian, Robert Levin, Robyn Schulkowsky)
1 Pourtinade 17:02
Composed By – Linda Bouchard
2 Redwood 11:53
Composed By – Paul Chihara
Sonata Op. 147
Composed By – Dmitri Shostakovich
3 Moderato 9:07
4 Allegretto 7:17
5 Adagio 15:08
Percussion – Robyn Schulkowsky (faixas: 1 e 2)
Piano – Robert Levin (Faixas: 3 a 5)
Viola – Kim Kashkashian
Estivemos no meio de uma enxurrada de postagens de Mozart, e agora temos uma enxurrada de Shostakovichs. Mas não creio que alguém vai reclamar. Estas gravações que ora vos trago são históricas, gravadas no apogeu da Guerra Fria. Esqueçam Haitink, Barshai, e não sei mais quem. Kirill Kondrashin é o nome do cara. Sim, claro que estou exagerando, o ideal é deixar todas estas gravações juntas, para serem analisadas, comparadas, etc. Ouvi-las à exaustão, para melhor identificarem as diferenças de leitura de cada um destes grandes maestros. E vamos ao que viemos.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Complete Symphonies, CD 2 de 11 – Symphony No. 4 in C minor, Op. 43 – Kondrashin, MPSO
01. Symphony No. 4 in C minor, Op. 43 I. Allegretto poco moderato
02. Symphony No. 4 in C minor, Op. 43 II. Moderato con moto
03. Symphony No. 4 in C minor, Op. 43 III. Largo
Uma Cantata formada exclusivamente de poemas sobre a morte. A Sinfonia Nº 14, op. 135, composta em 1969, marca um ponto extremo na trajetória de Shostakovich, afastando-se definitivamente do modelo sinfônico tradicional para se aproximar de um ciclo de canções orquestrais. Escrita para soprano, baixo, cordas e percussão, a obra reúne poemas de García Lorca, Apollinaire, Küchelbecker e Rilke, todos atravessados pela consciência aguda da finitude, da violência e da injustiça histórica. Aqui não há redenção nem ironia protetora: a música é austera, cortante, muitas vezes esquelética, e trata a morte não como abstração metafísica, mas como realidade política e humana concreta. A Sinfonia Nº 14 soa como um testamento artístico e moral, em que Shostakovich, já gravemente doente, confronta o silêncio final, recusando qualquer consolo fácil e transformando o próprio gênero sinfônico em um espaço de reflexão existencial.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonia Nº 14, Op. 135 (Slovák)
Symphony No. 14 for Soprano, Bass and Chamber Orchestra, Op. 135
1 I. De profundis 04:49
2 II. Malagueña 02:48
3 III. Loreley 08:28
4 IV. The Suicide 06:26
5 V. On the Alert 03:03
6 VI. Look Here, Madame! 01:41
7 VII. At the Sante Jail 09:57
8 VIII. Zaporozhye Cossacks Reply to the Sultan of Constantinople 02:03
9 IX. O Delvig, Delvig! 04:50
10 X. The Poet’s Death 04:52
11 XI. Conclusion 01:07
Uma bela gravação de obras fundamentais do século XX.
A Sinfonia Nº 5, Op. 47, composta em 1937, é considerada como uma obra de ambiguidade radical, escrita sob a pressão direta do regime stalinista após a condenação pública do compositor. Oficialmente apresentada como “a resposta criativa de um artista soviético a críticas justas”, a sinfonia adota uma linguagem mais acessível e uma forma clássica aparente, mas essa superfície de clareza esconde dramas. O primeiro movimento é marcado por uma tensão contínua entre contenção e explosão emocional. O Largo, com sua escrita quase litúrgica para cordas, expõe um lamento coletivo de rara intensidade. O final, embora triunfal em aparência, soa forçado, pesado, quase brutal. Esta duplicidade — entre o que se ouve e o que se sente — faz da Quinta uma das obras mais perturbadoras e discutidas do século XX.
Já a Sinfonia Nº 9, Op. 70, escrita em 1945, desconcertou profundamente as autoridades soviéticas ao frustrar expectativas de uma obra grandiosa que celebrasse a vitória na Segunda Guerra Mundial. Em vez de um monumento heroico à maneira de Beethoven, Shostakovich veio com uma sinfonia breve, irônica e deliberadamente leve, com traços de sarcasmo quase mozartiano. O tom aparentemente despreocupado do primeiro movimento contrasta com passagens sombrias e grotescas, especialmente no movimento lento e no uso expressivo do fagote, que parece comentar a música com humor ácido e melancolia contida. A Nona funciona, assim, como um gesto de resistência estética: ao recusar o retórica triunfal (e oficial), Shostakovich afirma uma liberdade que se manifesta não no grito, mas na ironia.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonias Nº 5 e 9 (Rahbari)
Symphony No. 5 in D Minor, Op. 47
1 I. Moderato 16:32
2 II. Allegretto 05:43
3 III. Largo 16:37
4 IV. Allegro non troppo 10:45
Symphony No. 9 in E-Flat Major, Op. 70
5 I. Allegro 05:12
6 II. Moderato 08:54
7 III. Presto 02:47
8 IV. Largo 03:29
9 V. Allegretto 06:13
Belgian Radio and Television Philharmonic Orchestra
Alexander Rahbari
Quem não der uma risada com o finalzinho da Sinfonia Nº 6 nunca foi ao circo! Garanto! A Sinfonia Nº, Op. 54, composta entre 1939 e 1940, é uma obra enigmática e estrutura subversiva, que desafia as expectativas da forma sinfônica tradicional. Após a monumental e publicamente triunfante Sinfonia nº 5, Shostakovich entregou aqui uma obra em três movimentos (ausência do scherzo), cujo núcleo emocional reside no extenso e sombrio Largo inicial – uma meditação solitária e angustiada, que se desenrola em longas linhas melódicas e texturas translúcidas, evocando um luto profundo e introspectivo. Esse marasmo é abruptamente rompido por dois movimentos finais velozes e irônicos: um Allegro nervoso, quase grotesco, e um Presto frenético que se assemelha a uma valsa demoníaca ou a um circo mecânico. Escrita à beira da Segunda Guerra Mundial e sob o espectro contínuo do stalinismo, a Sinfonia nº 6 é muitas vezes interpretada como um duplo jogo: uma fachada de brilhantismo orquestral e humor ácido que esconde um retrato de desespero íntimo e resistência silenciosa. É, assim, um testemunho da genialidade ambígua de Shostakovich, capaz de compor ao mesmo tempo para o regime e para a própria alma.
Não deixo por menos, a Sinfonia Nº 11, Op. 103, talvez seja a maior obra programática já composta. Há grandes exemplos de músicas descritivas tais como As Quatro Estações de Vivaldi, a Sinfonia Pastoral de Beethoven , a Abertura 1812 de Tchaikovski, Quadros de uma Exposição de Mussorgski e tantas outras, mas nenhuma delas liga-se tão completa e perfeitamente ao fato descrito do que a décima primeira sinfonia de Shostakovich. Alguns compositores que assumiram o papel de criadores de “coisas belas”, veem sua tarefa como a produção de obras tão agradáveis quanto o possível. Camille Saint-Saëns dizia que o artista “que não se sente feliz com a elegância, com um perfeito equilíbrio de cores ou com uma bela sucessão de harmonias não entende a arte”. Muito outra atitude é tomada por Shostakovich, que encara vida e arte como se fossem uma coisa só, que vê a criação artística como um ato muito mais amplo e que inclui a possibilidade do artista expressar – ou procurar expressar – a verdade tal como ele a vê. Esta abordagem foi adotada por muitos escritores, pintores e músicos russos do século XIX e, para Shostakovich, a postura realista de seu ídolo Mussorgsky foi decisiva. A décima primeira sinfonia de Shostakovich tem feições inteiramente mussorgkianas e foi estreada em 1957, ano do quadragésimo aniversário da Revolução de Outubro. Contudo, ela se refere a eventos ocorridos antes, no dia 9 de janeiro de 1905, um domingo, quando tropas czaristas massacraram um grupo de trabalhadores que viera fazer um protesto pacífico e desarmado em frente ao Palácio de Inverno do Czar, em São Petersburgo. O protesto, feito após a missa e com a presença de muitas crianças, tinha a intenção de entregar uma petição — sim um papel — ao czar, solicitando coisas como redução do horário de trabalho para oito horas diárias, assistência médica, melhor tratamento, liberdade de religião, etc. A resposta foi dada pela artilharia, que matou mais de cem trabalhadores e feriu outros trezentos. O primeiro movimento descreve a caminhada dos trabalhadores até o Palácio de Inverno e a atmosfera soturna da praça em frente, coberta de neve. O tema dos trabalhadores aparecerá nos movimentos seguintes, porém, aqui, a música sugere uma calma opressiva. O segundo movimento mostra a multidão abordar o Palácio para entregar a petição ao czar, mas este encontra-se ausente e as tropas começam a atirar. Shostakovich tira o que pode da orquestra num dos mais barulhentos movimentos sinfônicos que conheço. O terceiro movimento, de caráter fúnebre, é baseado na belíssima marcha de origem polonesa Vocês caíram como mártires (Vy zhertvoyu pali) que foi cantada por Lênin e seus companheiros no exílio, quando souberam do acontecido em 9 de janeiro. O final – utilizando um bordão da época – é a promessa da vitória final do socialismo e um aviso de que aquilo não ficaria sem punição.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Abertura sobre Temas Populares Russos e Quirguizes, Op. 115 / Sinfonia Nº 6, Op. 54 / Sinfonia Nº 11, Op. 103 — O Ano de 1905 (Haitink, Concertgebouw)
1-1 Overture On Russian & Kirghiz Folk Themes, Op. 115 9:43
Symphony No. 6, Op. 54
1-2 I. Largo 17:46
1-3 II. Allegro 6:20
1-4 III. Presto 7:07
Symphony No. 11, Op. 103 ‘The Year 1905’
2-1 I. The Palace Square: Adagio 15:53
2-2 II. 9 January: Allegro 19:54
2-3 III. In Memoriam: Adagio 11:23
2-4 IV. Tocsin: Allegro Non Troppo 14:16
Este foi o primeiro CD que comprei lá em janeiro de 1989. Tinha (ainda tenho) esta Sinfonia num vinil russo que é realmente excelente, mas me impressionei com a nova dinâmica sonora do CD e que trazia a extraordinária versão de Haitink. Haitink realmente compreende Shostakovich e sua versão das Sinfonias do russo é uma preciosidade. A Sinfonia Nº 15, Op. 141, composta em 1971, é uma despedida enigmática e autoconsciente — uma obra que mescla ironia, nostalgia e mortalidade sob uma aparente leveza. Estreada quando o compositor já enfrentava graves problemas de saúde, a sinfonia parece dialogar com toda sua trajetória: o primeiro movimento, quase circense, cita a abertura de Guilherme Tell, de Rossini, como um eco grotesco da infância, enquanto passagens de Crepúsculo dos Deuses, de Wagner, e temas de suas próprias obras surgem como fantasmas musicais. A escrita é paradoxalmente transparente e inquietante: o solo do violoncelo no Adagio soa como um lamento solitário, e o final, com seus sinos, celesta e percussão esparsa, evoca um relógio implacável que se desfaz em silêncio — não como resignação, mas como um último e doloroso questionamento sobre a vida e a arte. É a crônica de um homem que, diante do fim, escolheu falar através de símbolos, deixando-nos uma obra que é ao mesmo tempo testamento e mistério.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonia Nº 15 & Poesias Populares Judaicas (Haitink, London Philharmonic, Concertgebouw)
Symphony No.15 In A Major, Op.141
I Allegretto 8:05
II Adagio – Largo 16:28
III Allegretto 4:12
IV Adagio – Allegretto 16:57 Orchestra – London Philharmonic Orchestra
From Jewish Folk Poetry, Op.79
I Lament For A Dead Infant 2:40
II Fussy Mummy And Auntie 2:50
III Lullaby 3:48
IV Before A Long Separation 2:25
V A Warning 1:18
VI The Deserted Father 2:05
VII A Song Of Poverty 1:24
VIII Winter 3:21
IX The Good Life 1:49
X A Girl’s Song 3:15
XI Happiness 2:39 Contralto Vocals – Ortrun Wenkel Orchestra – Concertgebouw Orchestra* Soprano Vocals – Elisabeth Söderström Tenor Vocals – Ryszard Karczykowski
Onde está você, Cristina Ortiz? Dando master classes em Londres e Nova Iorque? Pois esta baiana faz a maior falta ao Brasil. Ou a Porto Alegre, pois acabo de ler que ela apresentou o Concerto Nº 2 de Brahms em São Paulo, no ano passado. Deveria vir também mais pro sul… Cristina Ortiz (1950) gravou faz tempo este concertos de Shostakovich e até hoje seus registros são importante referência na discografia. Mas me parece que Cristina, ao menos, meio que saiu do circuito das gravadoras. Ignoro as razões. Este CD é mais do que perfeito. São notáveis interpretações de obras importantes de Shostakovich. Se você não ouviu, aproveite para conhecer Cris Ortiz. Será muito proveitoso. Ela dá um show de bola.
Shostakovich (1906-1975): Piano Concerto No. 1 e 2 / Symphony No. 1 / Three Fantastic Dances (Ortiz, Berglund, Kurtz, Bournemouth, Philharmonia)
1. Piano Concerto No.1, Op.35 (1987 Digital Remaster): Allegro moderato – Allegro vivace – Moderato 6:05
2. Piano Concerto No.1, Op.35 (1987 Digital Remaster): Lento 7:12
3. Piano Concerto No.1, Op.35 (1987 Digital Remaster): Moderato 1:58
4. Piano Concerto No.1, Op.35 (1987 Digital Remaster): Allegro con brio – Presto – Allegretto poco moderato – Allegro con brio 6:49
Cristina Ortiz, piano
Bournemouth Symphony Orchestra
Paavo Berglund
5. Piano Concerto No. 2 in F Op. 102 (1975 Digital Remaster): I. Allegro 7:27
6. Piano Concerto No. 2 in F Op. 102 (1975 Digital Remaster): II. Andante 6:48
7. Piano Concerto No. 2 in F Op. 102 (1975 Digital Remaster): III. Allegro 5:47
Cristina Ortiz, piano
Bournemouth Symphony Orchestra
Paavo Berglund
NÃO SEI COMO A SINFONIA Nº 1 DE SHOSTA VEIO PARAR AQUI, MAS ELA VEIO JUNTO…
8. Symphony No. 1 in F minor Op. 10: I. Allegretto – Allegro non troppo 7:48 9. Symphony No. 1 in F minor Op. 10: II. Allegro 4:20 10. Symphony No. 1 in F minor Op. 10: III. Lento – Largo 7:15 11. Symphony No. 1 in F minor Op. 10: IV. Lento – Allegro molto – Adagio – Largo – Presto 8:39 Philharmonia Orchestra Efrem Kurtz
12. Three Fantastic Dances Op. 5 (1987 Digital Remaster): I. Allegretto 1:09
13. Three Fantastic Dances Op. 5 (1987 Digital Remaster): II. Andantino 1:25
14. Three Fantastic Dances Op. 5 (1987 Digital Remaster): III. Allegretto 0:52
Cristina Ortiz, piano
Hoje, 25 de setembro de 2017, 111 anos de nascimento de Shostakovich!
Este é dos discos que considero obrigatórios. Grande música, grandes intérpretes. Inicia com o belo e jocoso primeiro concerto para piano; segue com o raro e simpático concertino para dois pianos e termina com o espetacular e lírico quinteto para piano. Ou seja, duas peças muito famosas de Shosta entremeadas por outra nem tanto. O quinteto é uma obra da minha mais absoluta preferência, com seus movimentos muito contrastantes, oscilando entre o lirismo, a tristeza e a alegria. (Jamais esquecerei a primeira vez que vi este quinteto ao vivo. Quando terminou o Intermezzo, a primeira violinista estava inteiramente lavada em lágrimas).
Shostakovich (1906-1975): Concerto para piano e trompete, Concertino para 2 pianos, Quinteto para piano e cordas (Argerich, Verdernikov, Zilberstein, Capuçon)
Concerto For Piano, Trumpet And Strings In C Minor Op. 35
1. I. Allegro Moderato 5:56
2. II. Lento 7:25
3. III. Moderato 1:28
4. IV. Allegro Con Brio 6:56
Martha Argerich, piano
Sergei Nakariakov, trompete
Orchestra della Svizzera Italiana
Alexander Verdernikov, regência
Concertino For 2 Pianos In A Minor Op.94
5. Adagio – Allegretto – Adagio – Allegro – Adagio – Allegretto 10:05
Martha Argerich, piano
Lilya Zilberstein, piano
Quintet For Piano And Strings In G Minor Op. 57
6. Prelude: Lento 4:25
7. Fugue: Adagio 11:29
8. Scherzo: Allegretto 3:20
9. Intermezzo: Lento 7:34
10. Finale: Allegretto 7:45
Martha Argerich, piano
Renaud Capuçon, violino
Alissa Margulis, violino
Lyda Chen, viola
Mischa Maisky, violoncelo
Desde a sua fundação, há dez anos, o Ensemble Ouranos tem como objetivo expandir o repertório para quinteto de sopros. “Constellations”, sua primeira gravação para a Alpha Classics, dá continuidade a essa tradição com transcrições de Shostakovich e Ravel. “Summer Music”, de Barber, completa o programa.
Em uma deliciosa crônica – O Recital – a fabulosa imaginação de LF Verissimo cria uma situação inusitada. No recital de um quarteto de cordas (poucas coisas seriam mais formais) surge um ‘quinto elemento’, um homem com uma tuba, vindo dos bastidores. Ele posta-se ao lado do violoncelista e quer tocar, ora bolas! Quer acompanhar o conjunto, improvisar algo, fazer o um-pá-pá…
Eu me lembrei desta crônica assim que vi o repertório do álbum da postagem. O Ensemble Ouranos é formado por cinco músicos que tocam instrumentos de sopros, nenhuma tuba, quase, mas flauta, clarinete, oboé, fagote e trompa. Como diz o libreto, o conjunto foi fundado por cinco solistas do Conservatoire Supérieur de Paris e explora o repertório para quinteto de sopros com liberdade e entusiasmo.
O pessoal do Ensemble Ouranos foi conhecer o novo PQP Bach Warehouse Space, em Erechim
Como o tal repertório não é assim tão extenso, além de obras originais para essa formação, eles vão de arranjos, alguns bem inusitados, o que nos traz de volta ao início da postagem – quarteto de cordas e instrumentos de sopros. Neste álbum eles interpretam o Oitavo Quarteto de Cordas de Shostakovich em um arranjo para quinteto de cordas feito por David Walter.
Eu já havia ouvido o quarteto original antes e tudo indica que é, assim, um expoente na obra de DSCH, quem é mais entendido do que eu que o diga. Eu achei o arranjo convincente como peça de música, mas não é um quarteto de cordas.
Deu um trabalhão, mas conseguimos ver o Samuel sorrir…
No programa do álbum uma peça de Samuel Barber, escrita para a formação de quinteto de sopros, chamada Summer Music. A inspiração para a peça vem de Summertime (e do blues) de Gershwin e também em coisas de Stravinsky. É uma música bem bonita.
A peça da qual eu mais gostei foi o arranjo da suíte Le tombeau de Couperin, de Maurice Ravel.
O disco tem o mesmo jeitão dos lançamentos do selo Alpha, um pouco ‘fora da caixa’, mas tudo feito com muito bom gosto, em particular a capa, bem estilosa.
Maurice Ravel (1875-1937)
Le tombeau de Couperin (Transcription de Mason Jones)
Prélude
Fugue
Menuet
Rigaudon
Pavane pour une infante défunte (Transcription de Guy du Cheyron)
Pavane
Samuel Barber (1910-1981)
Summer Music, OP. 31
Slow and indolent
Lively, still faster
Faster
Tempo primo, joyous and flowing
Dmitri Shostakovich (1906-1975)
Quatuor N° 8 en ut mineur, Op. 110 (Transcription de David Walter)
Largo
Allegro molto
Allegretto
Largo
Largo
Élégie (Arrangement de Lady Macbeth de Mtsensk, op. 29 acte I Scène 3 : Zherebyonok kkobylke toropitsa, Transcription de Nicolas Ramez)
Postagem da highresaudio.com no fb: It is not a very conventional idea to think of Shostakovich as cozy. The Ouranos ensemble not only thinks so, they even play it that way. The outstanding French wind quintet proves this on its latest album, Constellations, complemented by works by Ravel and Barber. …
Enjoy this very fine and beautifully recorded album. Highly recommended *****
Viu? Enjoy, aproveite!
René Denon
Além do homem do um-pá-pá, há outras pessoas querendo acompanhar o grupo Ouranos
Um disco raro que foi relançado com outra capa pela Harmonia Mundi France. É esta a edição que eu tenho. O título da HM francesa é mais exato: Miniatures for young pianists, pois é disto que se trata. Tem muito exercício e muita fofura. Por exemplo, as 24 peças de Tchai para crianças foram composta exclusivamente com fins pedagógicos. As pecinhas, todas curtas, são intituladas como “A Doença da Boneca”, “Marcha dos Soldados de Chumbo”, etc. e foram dedicadas a seu sobrinho. O objetivo era proporcionar a jovens pianistas peças musicalmente ricas, porém tecnicamente acessíveis, que desenvolvessem tanto a técnica quanto a expressividade. Prokô e Shosta seguiram a onda. Um álbum agradável.
Tchaikovski / Prokofiev / Shostakovitch: Miniatures Russes Pour Piano (Rimma Bobritskaia, piano)
Album Pour Enfants Op. 29
Composed By – Pyotr Ilyich Tchaikovsky
1 Prière Du Matin 1:13
2 Matin D’hiver 1:02
3 Jouons à Dada! 0:37
4 Maman 0:56
5 Marche Des Soldats de Bois 0:50
6 La Poupée Malade 1:44
7 Enterrement de la Poupée 1:39
8 Valse 1:04
9 La Nouvelle Poupée 0:27
10 Mazurka 1:05
11 Chanson Russe 0:27
12 Le Paysan Joue de L’harmonica 0:44
13 Kamarinskïa 0:30
14 Polka 1:11
15 Chanson Italienne 0:58
16 Ancienne Chanson Française 1:13
17 Chanson Allemande 0:55
18 Chanson Napolitaine 1:02
19 Conte de la Nourrice 0:42
20 Baba-Yaga 0:38
21 Rêve Délicieux 2:14
22 Chant de L’alouette 0:52
23 Chanson Du Joueur de L’orgue de Barbarie 1:52
24 A L’église 0:46
Musique Pour Enfants Op. 65
Composed By – Sergei Prokofiev
25 Le Matin 1:53
26 Promenade 0:51
27 Historiette 2:13
28 Tarentelle 0:54
29 Repentir 1:49
30 Valse 1:07
31 Cortège Des Sauterelles 1:01
32 La Pluie Et L’arc En Ciel 1:15
33 Attrape Qui Peut 0:53
34 Marche 1:25
35 Le Soir 2:20
36 Sur Les Prés la Lune Se Promène 1:39
Esta caixa é tão, mas tão maravilhosa que nem vou perder tempo justificando a postagem de mais uma série. Apenas digo que serão 27 CDs em 320 kbps que trarão todas as 15 sinfonias, todos os 15 quartetos, todas as sonatas para algum instrumento + piano, o quinteto, trios, os concertos para piano, violino e violoncelo, as suítes… Enfim, é um tesouro! Enjoy!
Ah, tinha esquecido: IM-PER-DÍ-VEL!!!
(Os textos abaixo foram “roubados” do amigo Milton Ribeiro.
The Dmitri Shostakovich Edition (CDs 1, 2 e 3 de 27)
Sinfonia Nº 1, Op. 10 (1924-1925)
Shostakovich começou a escrever esta sinfonia quando tinha dezessete anos. Antes disso, tinha composto alguns scherzi que só interessaram à musicólogos. Sua estréia foi mesmo com esta Nº 1, terminada antes do autor completar vinte anos. Ela tornou aquele estudante de música, mais conhecido por ser o pianista-improvisador de três cinemas mudos de Petrogrado, internacionalmente célebre. Tal fama pode ser atribuída por Shostakovich ser o primeiro rebento musical do comunismo, mas ouvindo a sinfonia hoje, não nos decepcionamos de modo algum. É música de um futuro mestre.
Ela começa com um toque de trompete ao qual, se acrescentarmos um crescendo, tornar-se-á um tema de Petrouchka, de Igor Stravinski. Alguns regentes russos fazem esta introdução exatamemente igual à Petroushka. É algo curioso que o jovem Dmitri tenha feito esta homenagem, quando dizia que seus modelos – e isto foi comprovadíssimo logo adiante – eram Mahler, Bach, Beethoven e Mussorgski. Mas há mesmo algo de “boneca triste” no primeiro movimento desta sinfonia. O segundo movimento possui um curioso tema árabe, que é a primeira grande paródia encontrada em sua obra. Um achado.
O movimento lento, muito triste, é daqueles que a Veja consideraria uma comprovação do sofrimento do compositor sob o comunismo e de uma postura fatalista do tipo isto-não-vai-dar-nada-certo, porém acreditamos que a morte de seu pai, ocorrida alguns meses antes e a internação de Dmitri num sanatório da Criméia (ele contraíra tuberculose) tenha mais a ver. Há um belíssimo solo funéreo de oboé neste movimento.
CD 1
Symphony No. 1 in F minor Op. 10
1. Allegretto. Allegro ma non troppo
2. Allegro
3. Lento
4. Allegro molto, Lento Allegro molto
5. Symphony No. 2 in B major Op. 14 for Chorus & Orchestra
6. Symphony No. 3 in E flat major in E Flat major for Chorus & Orchestra
Rundfunkchor
WDR Sinfonieorchester
Rudolf Barshai
Sinfonia Nº 4, Op. 43 (1936) Uma sinfonia decididamente mahleriana. Shostakovich estudara Mahler por vários anos e aqui estão os monumentais ecos destes estudos. Sim, monumentais. Uma orquestra imensa, uma música com grandes contrastes e um tratamento de câmara em muitos episódios rarefeitos: Mahler. O maior mérito desta sinfonia é seu poderoso primeiro movimento, que é transformação constante de dois temas principais em que o compositor austríaco é trazido para as marchas de outubro, porém, minha preferência vai para o também mahleriano scherzo central. Ali, Shostakovich realiza uma curiosa mistura entre o tema introdutório da quinta sinfonia de Beethoven e o desenvolve como se fosse a sinfonia “Ressurreição”, Nº 2, de Mahler. Uma alegria para quem gosta de apontar estes diálogos. O final é um “sanduíche”. O bizarro tema ritmado central é envolvido por dois scherzi algo agressivos e ainda por uma música de réquiem. As explicações são muitas e aqui o referencial político parece ser mesmo o mais correto para quem, como Shostakovich, considerava que a URSS viera das mortes da revolução de outubro para a alienação e daí iria novamente para as mortes, representadas pela iminente segunda guerra. Trata-se de um Big Mac seríssimo.
CD 2
Symphony No. 4 in C minor Op. 43
1. Allegro poco moderato
2. Moderato con moto
3. Largo. Allegro
WDR Sinfonieorchester
Rudolf Barshai
Sinfonia Nº 5, Op. 47 (1937) Esta é a obra mais popular de Dmitri Shostakovich. Recebeu incontáveis gravações e não é para menos. O público costuma torcer o nariz para obras mais modernas e aqui o compositor retorna no tempo para compor uma grande sinfonia ao estilo do século XIX. Sim, é em ré menor e possui quatro movimentos, tendo bem no meio, um scherzo composto por um Haydn mais parrudo. Mesmo para os aficcionados, é uma obra apetitosa, por transformar a linguagem do compositor em algo mais sonhador do que o habitual. Foi a primeira sinfonia de Shostakovich que ouvi. Meu pai a trouxe dizendo que era uma sinfonia muito melhor que as de Prokofiev, exceção feita à Nº 1, Clássica, que ele amava. Alguns consideram esta obra uma grande paródia; eu a vejo como uma homenagem ao glorioso passado sinfônico do século anterior. A abertura e a coda do último movimento (Allegro non troppo) costuma aparecer, com boa freqüência, em programas de rádio que se querem sérios e influentes…
Sinfonia Nº 6, Op. 54 (1939) Uma perfeição esta sinfonia cujo dramático, concentrado e lírico primeiro movimento (um enorme Largo) é seguido por dois allegros, sendo o último pra lá de burlesco, chegando a ser mesmo circense (Presto). A estrutura estranha e inexplicável tem o efeito, ao menos em mim, de uma compulsão por ouvi-la e reouvi-la. Acho que volto sempre a ela com a finalidade de conferir se o primeiro movimento é mesmo tão perfeito e profundo e para buscar uma explicação para a galinhagem final – isto aqui não é uma tese acadêmica, daí a palavra “galinhagem” ser permitida… Nossa sorte é que existe aquele segundo Allegro central para tornar a passagem menos chocante. Esta belíssima obra talvez faça a alegria de qualquer maníaco-depressivo. É uma trilha sonora perfeita para quem sai das trevas para um humor primaveril em trinta minutos. Começa estática e intelectual para terminar num circo. Simplesmente amo esta música! É um pacote completo e de só uma via com desespero, sorrisos e gargalhadas.
CD 3
Symphony No. 5 in D minor Op. 47
1. Moderato. Allegro non troppo. Moderato
2. Allegretto
3. Largo
4. Allegro non troppo. Allegro
Symphony No. 6 in B minor Op. 54
5. Largo
6. Allegro
7. Presto
Os Quartetos de Cordas Nº 10, 11 e 13 de Shostakovich formam um tríptico que documenta a transição do compositor para sua linguagem tardia, marcada por austeridade, introspecção e uma liberdade formal crescente. E pelas referências à morte. O Décimo Quarteto (Op. 118, 1964), dedicado ao amigo Moisei Weinberg, ainda se ancora na estrutura tradicional de quatro movimentos, mas já traz os sinais do que viria: o Allegretto furioso – único na literatura shostakovichiana com tal indicação – irrompe como um súbito acesso de violência, enquanto o Adagio em forma de passacaglia e o finale, com sua citação velada do tema de abertura, criam um arco que oscila entre o recolhimento e a tensão mal resolvida. Já o Décimo Primeiro Quarteto (Op. 122, 1966) rompe decididamente com a tradição: seus sete movimentos encadeados evocam a estrutura de uma memória fragmentada, numa sucessão de miniaturas que parecem flashes de um passado irrecuperável. O Décimo Terceiro Quarteto (Op. 138, 1970), por fim, leva essa experimentação ao extremo: escrito em um único movimento e com uma viola solo que domina o discurso como uma voz solitária e profética, ele mergulha em sonoridades ásperas, numa atmosfera de sombria resignação que todos os os estudiosos associam à antecipação da morte. Juntos, esses três quartetos traçam uma curiosa trajetória do equilíbrio formal ainda hesitante do Op. 118 à dissolução do Op. 138 – e revelam um compositor que, progressivamente, abandona a plateia para dialogar consigo mesmo.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Quartetos Nº 10, 11 e 13 (Éder Quartet)
A Sinfonia Nº 10, Op. 93, de Dmitri Shostakovich é uma das obras mais pessoais, enigmáticas e poderosas do compositor. Ela foi concluída após a morte de Stalin (março de 1953), que havia perseguido Shostakovich e outros artistas. É vista como uma reação emocional a esse período de terror e à esperança de liberação artística. Shostakovich declarou que a obra representa — referindo-se ao segundo movimento — “Stalin e os anos stalinistas”, embora seu significado vá muito além. A sinfonia tem quatro movimentos. Inicia por um Moderato, um movimento lento, vasto e sombrio, que constrói uma tensão quase insuportável. Representa a opressão e a solidão do indivíduo sob o regime totalitário. Depois temos o tal Allegro, um scherzo brutal, frenético e violento. É frequentemente interpretado como um retrato musical de Stalin — mecânico, implacável e esmagador. Um dos movimentos mais agressivos já escritos por Shostakovich. Segue-se um Allegretto – Largo que finalmente e pela primeira vez introduz o motivo musical DSCH, as notas correspondentes às iniciais do seu nome em alemão: D. SCHostakovich). É como uma assinatura musical, afirmando sua identidade artística após anos de silêncio forçado. O clima é pesado, melancólico e introspectivo. Finaliza com um Andante – Allegro que começa de forma sombria, mas evolui para uma conclusão triunfante. O motivo DSCH retorna com força, simbolizando, talvez, a vitória pessoal do compositor. Bem, mas por que esta sinfonia é tão importante? Ora, porque captura a essência do terror stalinista e o alívio pós-morte do psicopata. Também, pela primeira vez, Shostakovich “assina” uma obra de forma clara com o motivo DSCH, o qual é repetido inúmeras vezes, insistentemente MESMO. É uma obra magistral e emocionalmente devastadora. A estreia (dezembro de 1953) foi controvertida. Autoridades soviéticas acharam a obra “pessimista”, enquanto que outros a viram como um grito de liberdade. Tornou-se um símbolo da resistência artística. Não é apenas música, mas um ato de coragem política e pessoal, onde Shostakovich transforma sua angústia em arte universal. Uma obra obrigatória para entender o século XX. Só mesmo um tolo como Osvaldo Colarusso, no pasquim curitibano de extrema direita Gazeta do Povo, teve a pachorra de chamar Shosta de “covarde e egoísta”. Ele talvez quisesse que Shosta enfrentasse seus algozes de frente e morresse cedo como um herói olaviano? Não vou colocar o link aqui para não ajudar na audiência do jornal, que é um lixo. Ah, voltando ao CD: a regência de Mariss Jansons e a orquestra de Filadélfia dispensam elogios.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonia Nº 10 / Modest Mussorgsky (1839-1881): Canções e Danças da Morte (Philadelphia Orch, Jansons)
Symphony No. 10, Op. 93 Composed By – Dmitri Shostakovich
1 I. Moderato 21:49
2 II. Allegro 4:19
3 III. Allegretto 12:03
4 IV. Andante – 4:24
5 __ Allegro 8:35
Songs And Dances Of Death Composed By – Modest Mussorgsky Orchestrated By – Dmitri Shostakovich Text By – Count Arseni Golenishchev-Kutuzov
6 I. Cradle Song 4:40
7 II. Serenade 5:02
8 III. Trepak 4:44
9 IV. The Field-Marshall 5:44
Bass Vocals – Robert Lloyd (4) (tracks: 6-9)
Conductor – Mariss Jansons
Orchestra – The Philadelphia Orchestra
Um baita disco. Dois Quartetos alegres e sarcásticos… O Quarteto Nº 2 foi composto logo após a Segunda Guerra Mundial, no mesmo período da Nona Sinfonia. É uma obra de transição: o otimismo oficial do pós-guerra se choca com a desilusão pessoal de Shostakovich. Ainda não havia a repressão aberta de 1948 (com o Decreto Jdanov), mas o clima já era de cautela. É uma “sinfonia de guerra” em miniatura, mas dizendo muito: é feliz, mas parece focar mais no custo humano do que na vitória. O terceiro movimento é um scherzo grotesco, típico do estilo de Shostakovich. Já o Nº 5 foi escrito durante o auge do Decreto Jdanov, que acusou Shostakovich de “formalismo burguês”. Sua música mais pública (sinfonias, concertos) era censurada, então ele canalizou sua voz mais autêntica para a música de câmara. É uma obra estruturalmente perfeita e, como sempre, carregada de subtexto emocional. Tratou-se de uma válvula de escape artística; nele, Shostakovich fala sem as restrições da música sinfônica oficial. Podemos dizer que o Nº 3 é um documento histórico emocional da experiência traumática do século XX. É Shostakovich como cronista da guerra e da memória. E o Nº 5 seria um testemunho da resistência artística.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Quartetos Nº 2 e 5 (Éder Quartet)
String Quartet No. 3 In F, Op. 73
1 Allegretto 6:52
2 Moderato Con Moto 4:59
3 Allegro Non Troppo 4:08
4 Adagio 5:26
5 Moderato 9:02
String Quartet No. 5 In B Flat, Op. 92
6 Allegro Non Troppo 10:11
7 Andante 9:20
8 Moderato – Allegretto 10:08
Éder Quartet:
Cello – György Éder
Viola – Sándor Papp
Violin – György Selmeczi, Péter Szüts*