15 ANOS DE PQP BACH — Dmitri Shostakovich: Symphony No. 11 “O ano de 1905”

15 ANOS DE PQP BACH — Dmitri Shostakovich: Symphony No. 11 “O ano de 1905”

15 anos de PQP Bach.

Em memória de todos os que morreram pela negligência deliberada de um governo genocida no Brasil (2020-2021)

I. INTRODUÇÃO

A décima primeira sinfonia de Shostakovich é daquelas obras que, quanto mais penetramos em seu íntimo e descobrirmos todos os seus meandros e detalhes, mais prazerosa ela se torna à nossa fruição. E os sentimentos que ela provoca são mais agudos principalmente nos espíritos revolucionários. E, no fundo, é para esses espíritos indomáveis que ela é dirigida. E mostrarei o porquê. 

Escrita logo após o levante da Hungria de 1956, ela evoca e descreve alguns dos acontecimentos de 1905, o ano da primeira Revolução Russa, que fracassou, homenageando o espírito da revolução passada, e talvez sutilmente honrando os trabalhadores que se insurgiram contra a burocracia stalinista naquele momento na Hungria, que embora já não contasse com Stálin, perpetuava as mesmas práticas sob o véu de uma “abertura” e das “denúncias” de Khruschev. No fim o que mostrou a continuidade entre Stálin e Khruschev foi justamente a repressão contra os intelectuais e trabalhadores húngaros naquele momento. Mas é incerto se Shostakovich quis realmente também se referir ao levante húngaro. 

De toda forma, o mais importante da obra é sua capacidade de “narrar” os fatos do ano de 1905, utilizando-se de canções populares tradicionalmente ligadas ao movimento político que lutou contra a autocracia no final do século XIX e início do XX, até a Revolução de Outubro de 1917. 

Talvez ajude, antes de ler e ouvir a análise, conhecer os fatos que ocorreram neste ano, desde a manifestação pacífica de trabalhadores sob a liderança de um padre, que é massacrada pelas tropas em frente ao Palácio de Inverno em janeiro, conhecida como Domingo Sangrento, passando pela revolta dos trabalhadores de toda a Rússia com o massacre, até a insurreição nas ruas com barricadas e fuzis, que também será derrotada pelas tropas do Czar no final do ano de 1905. 

 

II. ANÁLISE

Para realizar a análise, e para que todos a compreendam, vou utilizar-me como referência uma interpretação no Youtube, porque assim é possível ver os instrumentos que estão sendo utilizados para executar motivos e melodias que têm importante significado ao longo da obra. Essa gravação é muito boa, com jogos de imagem muito bem articulados com a música. O que ajuda a manter a concentração em seus detalhes.

1. A praça do Palácio de Inverno (Adagio

Não se enganem pela incomum nomenclatura de “adagio” em um primeiro movimento (se comparada à tradição da forma sonata, onde geralmente o primeiro movimento é um Allegro). Tenho certeza que muitos que já escutaram várias vezes essa sinfonia se deixaram levar e descreveram esse movimento inicial como leve, distraído, calmo. Mas, na verdade, ele é cheio de tensões e conflitos latentes e sutis. Lembrem-se meus caros que a luta de classes muitas vezes é silenciosa e aparece sob outras formas não imediatamente reconhecíveis. Fica implícita em certos acontecimentos e movimentos. Raramente ela é explícita e aberta.  

A sinfonia começa com uma melodia calma e lenta nas cordas, com leves toques de harpa. É importante fixar bem essa melodia pois ela retornará várias vezes e reaparecerá com uma outra forma num dos momentos mais dramáticos da obra: o silêncio após o massacre na praça em frente ao Palácio de Inverno. 

Logo neste começo aos 1:04~1:21 minutos (na interpretação do vídeo acima) surge um incomum motivo nos tímpanos. Este motivo retornará muitas vezes e em variados formatos. Interpreto esse motivo como o conflito (de classes) sempre latente mesmo em meio à suposta calmaria. Aos 1:24~1:53 temos o primeiro motivo de um dos personagens desse conflito: as tropas czaristas, ou, o poder militar czarista, cujo caráter fica evidente pela melodia do trompete e a percussão das caixas.  

Esses dois motivos retornarão a todo o momento, como se dissessem: a calmaria e a paz permanente de uma praça e um palácio ostensivamente ricos só se mantêm pela permanente presença da ostensividade militar, e pelo conflito permanente entre exploradores e explorados. 

Os temas e motivos se repetem. Mas, dessa vez, o sinal militar que antes fora executado no trompete é executado em uma trompa (3:23~3:47). Os tímpanos continuam presentes a todo o momento, até que aos 5:13 ~ 6:00 surge nas flautas a pequena canção dos trabalhadores. O motivo dos tímpanos, tenso, continua a tocar, ameaçador. 

Conhecida como “Слушай!” (“Escute!“), essa canção singela descreve a esperança por liberdade, apesar das barras de ferro, das baionetas, dos tiranos e de todo o silêncio. Algo pode ser escutado em meio a toda essa situação… Provavelmente foi uma canção inspirada ou mesmo criada nas prisões e nos campos de trabalho forçado dos exílios na Sibéria. Shostakovich quer, aqui, descrever a situação de opressão dos trabalhadores russos. 

Letra (em russo)

O tema da praça retorna, com a tensão dos tímpanos e harpas mais forte, ao que é sucedido por algo novo: nos 7:05, as caixas militares entram com o seu ritmo diferente, e a canção dos trabalhadores também muda: fica mais tensa e se espalha por naipes inteiros da orquestra, sugerindo a tensão crescente das contradições sociais causadas pelo sofrimento e miséria dos trabalhadores. Cresce a insatisfação com o regime econômico, social e político do Império Russo. Depois de passar pelos metais, violinos, violoncelos e contrabaixos, nos 7:57 a canção dos trabalhadores muda sua melodia, tornando-se mais dramática e quase épica. Ao que é precedida por um toque no fagote (8:10) e, em seguida, novamente nas cordas, mudando seu tom e melodia. Os metais dão sinais e os tímpanos continuam ativos.  

Aos 8:41~9:11 acontece uma coisa muito sutil, mas que essa gravação aqui disponibilizada ajuda a perceber: os contrabaixos começam a tocar uma nova melodia. É um novo lamento de angústia e de insatisfação, apesar da presença intimidadora constante do trompete militar e dos tímpanos tensos, que tentam calar o clamor popular, tal como a polícia política czarista naquela época, a temível Okhrana. 

É a melancólica canção “Ночь темна лови минуты”, mais popularmente conhecida como “Арестант” (“O prisioneiro“). Ela narra a dureza da vida nas prisões políticas do Czar.

(Uma versão para coro muito bonita, mostrando imagens de época e dos locais dos prisioneiros) 

Letra (em russo)

A canção “Escute!” soma-se à sua nova companheira e retorna nos violinos e violas. Aos 9:25 “O prisioneiro” é tocada numa flauta solo que vai ganhando volume. A melodia de “o prisioneiro” então se desenvolve e toma outros instrumentos, a melodia de “Escute!” passa para os contrabaixos, e os tímpanos agora soam ameaçadoramente volumosos (10:08). O resto do movimento continua com esses conflitos e tensões entre os diversos motivos e melodias, até que o tema da praça retorna (11:38) e conclui com as esporádicas aparições das caixas, tímpanos e trompetes. 

Nos 14:06 um motivo curto e inédito aparece, e encerra o movimento. 

2. O 9 de janeiro (Allegro

O Segundo movimento começa com os contrabaixos quase que “correndo”, o que mostra que alguma mobilização está sendo realizada. Nas ruas? Nas fábricas? Nos quartéis? Seriam os trabalhadores ou os soldados? 

Logo no início desse movimento, aos 14:46, uma melodia é tocada nos clarinetes, depois passa para as cordas, violinos e violas, enquanto se mantém a correria nos violoncelos e contrabaixos. É a canção “Девятое Января” (“Nono de janeiro”). Essa, ao contrário das anteriores, e da maioria das canções subsequentes, não é uma tradicional canção folclórica de luta. Mas o sexto poema que Shostakovich musicou em seus Dez Poemas Corais Sobre Textos Revolucionários, sobre texto de Evgeny Mikhailovich Tarasov (1882-1943). 

(a canção é a nº 6, mas coloquei a partir do momento em que o tema em questão aparece)

Letra (em russo)

Para ilustrar o significado dessa melodia, vamos ao que diz o texto de Tarasov, sobre o qual Shostakovich fez o poema musical: 

[…]
Com oração nos lábios e com fé no peito,
Com os retratos reais, guiados pelos ícones,
Não para lutar contra o inimigo, sem pensar em mal –
o povo caminhou, exausto, para derrotar o Czar com suas testas.
Oh tu, nosso Czar, nosso pai! Olhe ao nosso redor: 
[…]
Morremos acorrentados e com fome… sem lugar para ir…
Você é um dos nossos protetores! Você nos protege! 
[…]
Sim, a mão imperial é generosa de misericórdia:
O Czar escutou seu povo com tanta importância,
Que nada disse – e acenou com a mão…
Sob os rebanhos de servos reais liberados das correntes,
Toda a terra tremeu com um rugido,
E a praça em frente ao palácio ficou coberta de corpos:
o povo caiu, alimentados com bala e chumbo. 
[…]
Um milagre foi criado desse feito:
Onde, guiada, choveu uma tempestade
Onde o sangue do povo foi derramado numa torrente, –
Ali, de cada gota de sangue e chumbo
O cuidado da mãe terra deu nascimento a um lutador! 

(tradução livre e amadora; trechos) 

Essa canção/melodia descreve os trabalhadores e camponeses pobres, assolados pela pobreza, pela fome, pela miséria e pela servidão, que vão pedir humildemente ao “paizinho Czar” a resolução para seus sofrimentos. 

A melodia se desenvolve espalhando-se para toda orquestra, tornando-se o tema inicial deste movimento, até que aos 16:11, o trompete toca, é um sinal militar para que as tropas fiquem em guarda. Aos 17:31 um novo motivo surge nos trombones, derivado da mesma canção acima, mas de sua parte inicial, que em sua letra diz: 

Descubram suas cabeças! Neste dia triste
A sombra de uma longa noite tremulou sobre o solo.
A fé do escravo em seu senhor caiu,
E uma nova alvorada acendeu sobre a terra-mãe…
[…]

Aos 18:08, os trombones e tubas emitem o mesmo motivo, e em seguida o tema da marcha sofre uma leve modulação, tornando-se mais dramático e mais apelativo. 

Aos 20:03 os oboés e flautas tornam tudo inesperadamente mais tenso. E os temas vão se desenvolvendo em sucessão e interseção. Um grande clímax vai sendo construído, como se a mobilização de trabalhadores que se dirigem à Praça do Palácio de Inverno fosse crescendo e tornando-se mais volumosa. Os temas desenvolvidos aqui são os mesmos de sempre, ganhando toda a orquestra e atingindo o clímax.

Tudo vai tornando-se mais silencioso e delicado, até que aos 24:04 o tema da praça retorna. Os trabalhadores chegaram à Praça, e caminham lentamente na neve espessa, entoando seus hinos de apelo e misericórdia ao Czar… Ouvimos o motivo ameaçador dos tímpanos e o sinal dos trompetes… Tiros… aos 25:30, nas caixas… mais tiros… começa uma correria de cavalos nos contrabaixos, seguido pelas violas… O massacre começou… os pobres manifestantes tentam correr, se abrigar, mas estão sendo cercados pelos cavalos, pelos chicotes e  sabres dos cossacos fortemente armados e brutais. Aos 27:59 o fuzilamento e extermínio geral começa… estampidos, marchas, tiros e mais tiros… em meio à morte generalizada, a melodia de “descubram suas cabeças” ainda soa aos 28:46, dizendo que a luta apenas começou… Por enquanto, quem vence é a força das armas repressoras representada pelas caixas e tímpanos tocando em marcha. Silêncio…

O tema da praça retorna, mas agora, com as cordas fazendo leves trinados, como se representassem os sons de agonia da imensidão de corpos caídos sobre a vasta neve fria da praça…

O movimento se encerra com “Escute!” tocando timidamente aos 31:36.

3. Memória eterna. (Adagio)

O terceiro movimento, novamente um adagio, começa com o dedilhado nos contrabaixos, que é quase uma reflexão em um minuto de luto para aqueles que se foram. Sucede nos 34:11 a famosa canção “Вы жертвою пали в борьбе роково” (Tu caíste morto na luta!)

Esta canção é mais que uma marcha fúnebre de luto, é uma marcha fúnebre revolucionária que homenageia os lutadores caídos prometendo mais luta. Faz homenagem a todos os lutadores que caíram buscando transformar a sociedade e ao mesmo tempo promete vingança contra os tiranos que foram responsáveis por suas mortes.

Seus versos merecem ser reproduzidos aqui na íntegra:

Tu caíste morto na luta!
Com um amor desinteressado pelo seu povo
Entregou sua vida e tudo que tinha por ele, como um herói!
Pela vida, honra e liberdade dos operários!
Tu penaste em cárceres frios e úmidos!
Julgado e condenado por policiais e déspotas mercenários!
Eles o arrastaram violentamente por uma estrada deserta
Enquanto tu ouvias, exausto, o som de suas correntes a balançar
Mas, enquanto os malditos tiranos festejam em seus luxuosos palácios
Deleitando com vinho e afogando-se no rum
Poderosos, corajosos e mortais, corações mentes e mãos
Prenunciam sua fúria nas paredes de fábricas e quartéis:
O povo se rebelará e a tirania cairá
Seremos grandes, poderosos e livres
Então, como irmãos, nos despedimos de ti
Pois você se foi honrando o nobre caminho que seguiu!

Letra (em russo)

Aos 38:24 um novo tema surge, criando uma atmosfera sombria, mas que cada vez mais vai se iluminando, como se do luto nascesse uma disposição para lutar. Quase como a cena de Encouraçado Potemkin (um evento inclusive do ano de 1905) de Eisenstein, onde após o luto pelo marinheiro morto, os trabalhadores que visitam seu túmulo cerram os punhos e entoam hinos de luta em sua memória.

Surge então, levemente, aos 38:50 uma nova melodia nas trompas. Aos 41:14, a melodia envolve a orquestra cita um motivo da canção “Славное море, священный Байкал…” (“Grande mar, o sagrado Baikal…”) que entoa a liberdade de um ex-prisioneiro que, encontrando o mar Baikal, descobre a liberdade… 

Letra (em russo)

O motivo principal dessa canção é acentuado aos 41:33 pelos metais, num clímax de esperança… mas logo em seguida, aos 41:55, o tema de “descubram suas cabeças” é tocado.

Depois de um crescendo de tensão e fúria nos contrabaixos, novamente o tema principal deste movimento retorna aos 43:08 com alusões a partes da canção, depois reinicia-se brevemente, terminando o movimento com os mesmos dedilhados com que iniciou o movimento.

4. Tormenta. (Allegro non troppo)

Беснуйтесь, тираны! (“Ódio aos tiranos!“)

É com essa canção que começa o quarto movimento, anunciado e repetido nos trombones. Seus versos descrevem a ira do povo contra os tiranos, que tratam os trabalhadores de forma selvagem e cruel. Apesar das correntes, prisões, e das feridas das botas sobre seus corpos, os espíritos destes homens são indomáveis. E que caiam aqueles que tremem diante dos tiranos! Pois os corajosos não trocam seus direitos por nada, e não temem feridas no corpo. A terra está vermelha de sangue expelido, em todos os lugares batalham irrompem. Com fogo o levante dos trabalhadores abraçam todos os países! Vergonha e morte aos tiranos!

Esse movimento vai descrever a revolução de 1905 no Império Russo, e outros acontecimentos ligados a ela, como a revolta dos marinheiros do Encouraçado Potemkin em Odessa.

Letra (em russo)

Esse movimento, tal como o primeiro, será cheio de conflitos entre os naipes de instrumentos. Mas, agora, estão explícitos. É o advento de uma revolução. Os metais, embora inicialmente entoaram “Ódio aos tiranos!”, serão os repressores na maior parte do tempo, em vários momentos, aliados às caixas e tímpanos, tentarão calar e reprimir a movimentação das cordas e madeiras. (vários momentos entre 45:47~46:05) Excetuando quando vez ou outra tocarem alguns temas ou melodias de canções, como quando aos 46:14~46:18 novamente um trompete toca o motivo de “Ódio aos tiranos!”. E aos 47:45 o tema de “Descubram suas cabeças” retorna nos trombones. É uma verdadeira luta de naipes!

Aos 48:25 os contrabaixos entram no embalo da famosa Varshavianka (canção que ganhou versões em vários países e revoluções diferentes, como a famosa A las barricadas da Revolução Espanhola), e temos uma espécie de marcha e mobilização geral. Podemos interpretar como o povo indo às ruas, tomando prédios, formando os sovietes em São Petersburgo, conselhos deliberativos de operários, que surgem pela primeira vez na história durante esta revolução. É uma canção de força surpreendente, composta justamente na conjuntura do ano de 1905, exprimindo toda a força e sentimento daquele momento histórico. Vale a pena aqui reproduzir seus versos:

Balas do inimigo voam sobre nossas cabeças
Forças das trevas nos oprimem sem pudor
Nessa batalha, à qual estávamos predestinados
Estamos à espera de destinos desconhecidos
Ainda assim erguemos, orgulhosa e corajosamente
A sagrada bandeira da luta dos trabalhadores
Bandeira que luta por todos os povos
Por liberdade e por um mundo melhor
Para essa sangrenta, sagrada e justa guerra
Marchemos adiante, povo trabalhador!
Os trabalhadores devem continuar passando fome?
Irmãos, até quando permaneceremos em silêncio?
Por acaso a terrível visão da forca
pode assustar-nos, jovens camaradas?
Nessa justa guerra não serão esquecidos
Aqueles que honrosamente morrerem pelo nosso ideal!
Seus nomes serão entoados em nossos cânticos
E serão sagrados para milhões de pessoas!
Para essa sagrada, sangrenta e justa guerra
Marchemos adiante povo trabalhador!
Nós odiamos as coroas dos tiranos
E as malditas correntes que martirizam o povo!
Os tronos reais estão cobertos de sangue do povo
Então banharemos os reis em seu próprio sangue!
Morte a todos os nossos malditos inimigos
E a todos os malditos parasitas da classe trabalhadora!
Vingança sim! Contra os czares e plutocratas!
A hora da vitória está cada vez mais próxima!
Para essa sagrada, sangrenta e justa guerra
Marchemos adiante povo trabalhador!

Letra (em russo)

Seguem-se novas citações de várias canções e motivos que já apareceram antes. São os trabalhadores parando fábricas, navios, trens, indo às ruas, fazendo barricadas, lutando com armas nas mãos pela sua liberdade e emancipação. Pela derrubada do Czar. Por vingança sim, como diz a Varshavianka, pelos seus companheiros brutalmente massacrados. Num clímax dos 51:19 várias canções estão sendo tocadas ao mesmo tempo, quase que polifonicamente, até que aos 51:49 toda a orquestra é embalada por uma mesma melodia triunfante.

A luta de naipes irrompe novamente. São as classes dominantes e o Império Czarista reagindo à mobilização com brutal repressão. O motivo da canção “9 de janeiro” irrompe novamente aos 52:39~53:27, tomando toda a orquestra, num misto de luto e revolta. Trompetes e caixas e tímpanos atacam, seguidas pelas trompas que tentam interromper a melodia das cordas… É a reação das tropas czaristas, lutas nas ruas, barricadas por toda São Petersburgo, milhares de trabalhadores armados, contra cossacos e exércitos imensos… Os trabalhadores revolucionários lutam bravamente, mas muitos caem… Aos 53:28 as caixas, tambores e trompas apertam, são os tiros, violência e repressão infindáveis… É a derrota dos revolucionários… A repressão das caixas e metais silencia toda a orquestra, e em seguida temos novamente o tema da praça. Melodias de luto se seguem…

Um poderoso grave irrompe nas madeiras e percussão aos 56:41. A luta dos oprimidos não acabou. A revolta contra a fome, a miséria, a tirania e a exploração continuam. Outros sopros vão se juntando, a melodia revolucionária ressurge nas trompas, primeiro, timidamente, depois ela vai se espalhando por toda a orquestra, é uma nova revolução irrompendo em toda a sociedade! Senão hoje, amanhã, mas sua revolta é inevitável e infindável enquanto houver opressão! São os condenados da terra se levantando mais uma vez para lutar por sua emancipação! Vão expropriar os expropriadores! Sinos soam anunciando a irrefreável ira dos trabalhadores e a justiça revolucionária! É a revolução que se aproxima! É a construção de um novo mundo! Viva a revolução mundial dos trabalhadores!…

Em memória de todos os que morreram pela negligência deliberada de um governo genocida no Brasil (2020-2021). Faremos os responsáveis pagarem por seus crimes. E a justiça revolucionária prevalecerá.

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Symphony Nº 11 in G minor, Op. 103 “The Year of 1905”

Symphony No.11, Op.103 (‘The Year 1905’) in G minor
1. I: The Palace Square (Adagio) –
2. II: The 9th of January (Allegro) –
3. III: In Memoriam (Adagio) –
4. IV: The Tocsin (Allegro non troppo)

Leningrad Symphony Orchestra
Evgeny Mravinsky, conductor

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE (FLAC)
BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE (MP3)

Dmitri xófem e colorido.

Luke

TRILHA SONORA DO BAILE DE DEBUTANTES DE PQP BACH – André Rieu (1949) – Valses

TRILHA SONORA DO BAILE DE DEBUTANTES DE PQP BACH – André Rieu (1949) – Valses

(São 20h, preparem-se para o Baile.

PQP vai debutar!)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Estava absorto em meio aos afazeres do meu trabalho, mas o telefone insistia em tocar. Não quis atender nas primeiras vezes, pois vinha com DDI de outro país.

“Deve ser trote, golpe”, pensei.

De tanto que o aparelho insistia em vibrar, parecendo uma tupia em cima da minha mesa, resolvi aquiescer aos caprichos do telemóvel. Atendi.

Monsieur Pequepê? – uma voz estranha perguntou.

– Pois não? É ele – respondi, sem muita empolgação.

– Je soube que o senhorr está completando quinze anôs de seu maraveilleuse blog! Prrecisamos fazer uma comemorraciôn desse début!

“O que é isso? O Jacquin me ligando?”, imaginei franzindo o cenho e tapando o fone do aparelho…

– Sim… Mas… Quem é que está falando?!

– André Rieu, monsieur Pequepê! Non está me reconociendo?

– Baaaah… (entre perplexo e incrédulo, só me sobrou a exclamação).

– Non se prreocupe, monsieur Pequepê! Je já preparrê uma prrogramaciôn muito especial parra essa data ton festiva! Te enviê algo mui adequado parra este début! Una fête com um reperrtórrio todo especial parra sus quinze anôs de blog! Monsieur merece um début em gran estilô!

Tu tu tu tu tu…

Rieu desligou todo empolgado.

Fiquei de boca aberta olhando para as prateleiras por um tempo. Situação estranha! Bah!

Depois, conferindo meus e-mails, eis que a “programaciôn especial” de Rieu estava na minha caixa de entrada. Como, embora temperamental, eu não gosto de fazer desfeitas, está aí o presente que Monsieur Rieu preparou para o PQPBach na nossa festa de debutante!

PQP, 15 anos! Quem diria…

André Rieu (1949)
Valses (1997)

Dmitri Shostakovich (1906-1975)
1. Valsa nº 2
John Strauss IIFranz Léhar –  Emmerich Kálmán
2. Como um espírito alegre – Danúbio Azul – Rosas do Sul – Sangue Vienense – Lábios em silêncio – Quero dançar – Rosas do sul
Johann Strauss II (1825-1899)
3. Sob Trovões y relâmpagos
Anton Karas (1906-1985)
4. O terceiro homem
Emmerich Kálmán (1882-1953)
5. Ven Zigány
Josef Strauss (1827-1870)
6. Andorinhas da Áustria
Franz Léhar (1870-1948)
7. Canção de Vilja
Johann Strauss II (1825-1899)
8. Vida de artista
9. Marcha persa
Ralph Benatzky (1884-1957)
10. Em um Cavalo branco
Rudolf Sieczynski (1879-1952)
11. Viena, Viena, somente tu
Ferry Wunsch (1901-1963)
12. Heut’ kommen d’Engelrn auf urlaub nach Wien
Ludwig Gruber (1874-1964)
13. Minha mãe era vienense
Johann Strauss II (1825-1899)
14. Rosas do Sul

Gravado na Espanha
Johann Strauss Orchestra
André Rieu, regente
1997 (CD)

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE (62Mb)
…Mas comente… Comemore conosco…

Bisnaga (pensaram que era o PQP? Enganei vocês)

Aleksandr Glazunov (1865-1936): Chant Du Ménestrel / Dmitri Shostakovich (1906-1975): Concerto para Violoncelo No. 2, Op. 126 – Mstislav Rostropovich – Boston Symphony Orchestra – Seiji Ozawa ֍

Aleksandr Glazunov (1865-1936): Chant Du Ménestrel / Dmitri Shostakovich (1906-1975): Concerto para Violoncelo No. 2, Op. 126 – Mstislav Rostropovich – Boston Symphony Orchestra – Seiji Ozawa ֍

Glazunov: Chant Du Ménestrel

Shostakovich

Concerto para Violoncelo No. 2

Mstislav Rostropovich

Boston Symphony Orchestra

Seiji Ozawa

Se você vivesse no Norte do Paraná, nos fins da década de 70, quero dizer 1970, teria que ser ágil para comprar qualquer LP de música clássica que surgisse, caso este fosse seu interesse. LPs eram escassos e caros. Devo acrescentar que informações culturais não eram abundantes. Assim, o gosto musical do interessado era um pouco moldado pelas oportunidades – mais tentativa e erro, o método de aprendizado. Mas era imensamente divertido.

Eu já aprendera que o selo amarelo trazia conteúdo mais palatável e visitas constantes aos escassos pontos de venda acabavam rendendo novidades. O tempo dos sebos ainda estava por vir.

Em minha coleção havia desde coisas como Gypsy!, do Werner Müller and his Orchestra, com o phase4stereo spectacular, até o outro lado do espectro, com concertos para piano de Mozart interpretados por Pollini e Gilels, acompanhados pela mais mozartiana orquestra que eu conhecia, a Wiener Philharmonic, regida por Herr Böhm.

Nesta época, pouco mais, talvez, este disco (o da postagem, é claro… hahãmm)  cruzou meu caminho e desde logo propunha algo novo. O violoncelista eu conhecia de outro disco, com o Concerto de  Dvořák, acompanhado pela Berliner Philharmoniker regida pelo Herr Karajan. Mas aqui a luz era outra. O solista ostentando uma camisa de cowboy e o jovem regente com uma espécie de camisa indiana branca, com ares de hippie, demandava mais ousadia do propenso comprador. E o compositor da peça mais longa? Um ilustre, modernoso e desconhecido compositor russo. Sim, os LPs tinham as contracapas que eram lidas e relidas antes de qualquer movimento mais forte em direção da carteira…

A compra foi uma das mais ousadas e rendeu boas semanas de muitas audições, mesmo que carregadas de incertezas e levantamentos de sobrancelhas. É claro que tudo começa em grande estilo, o Canto do Menestrel do Glazunov, muito acessível. E bonito mesmo, para quem aprecia as românticas almas russas…

Mas o concerto de Shostakovich é bem mais inquietante e foi minha primeira experiência com música que precisamos conquistar antes de gostar. Começamos com uma espécie de lamento, e depois todas aquelas sonoridades percussivas rondando o canto do violoncelo. Bem, é preciso ouvir para entender.

Aprendi depois que o concerto havia sido composto pouco mais do que uma década antes daqueles dias e que o solista da gravação era a pessoa a quem o concerto fora dedicado e que também o havia estreado.

Descobri que o Concerto havia sido composto na última fase do compositor, que o havia completado enquanto se encontrava em um hospital, pois que já lhe falhava o coração.

A música é mais reflexiva do que extrovertida, coisa que vai bem com o violoncelo, e a orquestra, apesar de imensa, é usada com maestria e cuidado pelo compositor, evitando que o solista seja tragado por ela e possa se apresentar realmente como o protagonista.

Os dois últimos movimentos são ambos nomeados Allegretto e estão unidos nos arquivos em uma única faixa, pois a passagem de um para o outro se dá continuamente – attacca!

Alexander Glazunov (1865 – 1936)

Chant Du Ménestrel, para violoncelo e orquestra

  1. Chant Du Menestrel

Dmitri Shostakovich (1906 – 1975)

Concerto para Violoncelo No. 2, Op. 126

  1. Largo
  2. Allegretto – attacca; III. Allegretto

Mstislav Rostropovich, violoncelo

Boston Symphony Orchestra

Seiji Ozawa

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

FLAC | 414 MB

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

MP3 | 320 KBPS | 87 MB

Espero que a audição deste notável disco faça com que você reflita sobre as belezas das músicas que precisamos conquistar e que ao final lhe seja tão compensador como tem sido para mim, todas as vezes que a ele retorno.

Aproveite!

René Denon

A alegria dos dois grandes músicos ao saberem que o disco seria postado aqui no PQP Bach…

Integral das Sinfonias de Dmitri Shostakovich (1906-1975) com B. Haitink (CDs 6-11 de 11)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Atendendo a pedidos, com a lentidão habitual de nosso SAC, estamos trazendo pela primeira vez a integral de Shostakovich por Bernard Haitink, completa, inteirinha. (Pleyel, 2020)

Hoje é o Saint Patrick´s Day, dia de beber cerveja, então vamos a mais um lote de Shostas. (Céus, totalmente sem sentido). Mas está aí: a heróica e não tão boa sétima; a interessantísima e contrastante oitava e a programática e espetacular décima-primeira. Acho que fico por aqui mesmo. Esta coleção não foi muito baixada e da 12ª até a 14ª eu não tenho em CD, só em haitinkvinil. Tenho a 15ª, mas só gosto de lacunas a preencher em mulheres. Oh, sei, sempre esse odioso machismo!

Ontem ouvi os últimos CDs do Radiohead e dos Strokes. Olha, duas grandes bostas. O que a nova geração ouve de bom? No Brasil e no mundo, a música popular me parece tão, mas tão sem graça… (PQP, 2011)

Sinfonias de Dmitri Shostakovich com Bernard Haitink (CDs 6 a 11, de 11)
CD 6
Symphony No.7 In C Major, Op.60 Leningrad
1 I Allegretto
2 II Moderato (Poco Allegretto)
3 III Adagio
4 IV Allegro Non Troppo

London Philharmonic Orchestra

CD 7
Symphony No.8 In C Minor, Op.65

1 I Adagio
2 II Allegretto
3 III Allegro Non Troppo
4 IV Largo
5 V Allegretto

Concertgebouw Orchestra

CD 8
Symphony No.11 In G Minor, Op.103 ‘The Year 1905’
1 I Adagio: The Palace Square
2 II Allegro: 9 January
3 III Adagio: In Memoriam
4 IV Allegro Non Troppo: Tocsin

Concertgebouw Orchestra

CD 9
Symphony No.13 In B Flat Minor, Op.113 ‘Babi Yar’
1 I Adagio: Babi Yar
2 II Allegretto: Humour
3 III Adagio: In The Store
4 IV Largo: Fears
5 V Allegretto: A Career

Bass – Marius Rintzler
Choir – Gentlemen From The Choir Of The Concertgebouw Orchestra
Concertgebouw Orchestra

CD 10
Symphony No.14, Op.135
1 I De Profundis
2 II Malagueña
3 III Loreley
4 IV Le Suicidé
5 V Les Attentives I
6 VI Les Attentives II
7 VII À La Santé
8 VIII Réponse Des Cosaques Zaparogues…
9 IX O Delvig, Delvig
10 X Der Tod Des Dichters
11 XI Schluß-Stück

Concertgebouw Orchestra
Baritone – Dietrich Fischer-Dieskau
Soprano – Julia Varady

6 Poems Of Marina Tsvetaeva, Op.143a
12 I My Poems
13 II Such Tenderness
14 III Hamlet’s Dialogue With His Conscience
15 IV The Poet And The Tsar
16 V No, The Drum Beat
17 VI To Anna Akhmatova

Contralto – Ortrun Wenkel
Concertgebouw Orchestra

CD 11
Symphony No.15 In A Major, Op.141
1 I Allegretto
2 II Adagio — Largo — Adagio — Largo
3 III Allegretto
4 IV Adagio —Allegretto — Adagio — Allegretto

London Philharmonic Orchestra

From Jewish Folk Poetry, Op.79
5 I Lament For A Dead Infant
6 II Fussy Mummy And Auntie
7 III Lullaby
8 IV Before A Long Separation
9 V A Warning
10 VI The Deserted Father
11 VII A Song Of Poverty
12 VIII Winter
13 IX The Good Life
14 X A Girl’s Song
15 XI Happiness

Contralto – Ortrun Wenkel
Soprano – Elisabeth Söderström
Tenor – Ryszard Karczykowski
Concertgebouw Orchestra

Recording: 1978-1983

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE (CD 6-8)

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE (CD9-11)

Apoie os bons artistas, compre suas músicas.
Apesar de raramente respondidos, os comentários dos leitores e ouvintes são apreciadíssimos. São nosso combustível.
Comente a postagem!

 

Integral das Sinfonias de Dmitri Shostakovich (1906-1975) com B. Haitink (CDs 1-5 de 11)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Façam como P.Q.P. Bach: ouçam Shostakovich no Carnaval!

Meus amigos, a verdade que liberta e salva é a seguinte: eu sou um grande admirador de Bernard Haitink (1929). Em minha opinião, ele é um monstro da regência. Em suas gravações há assinaturas indeléveis: uma indiscutível musicalidade e um som especial. OK, você pensa que é o som do Concertgebouw, mas não é. Como é que ele o repete com a London Philharmonic? E quando ele se junta a compositores como Shostakovich, Mahler e Bruckner — que exigem som — , só para dar exemplos, o resultado é magnífico.

Então, passei a segunda e a terça de carnaval ouvindo suas gravações de Shostakovich. Aqui temos a juvenil e genial primeira sinfonia, escrita aos 20 anos de Shosta; a segunda e a terceira, corais e altamente experimentais, como tudo na época pré-stalinista; a monumental quarta, modelo para o que viria depois; a clássica quinta; a estranha sexta, que começa monumento e termina de forma sarcástica, mais parecendo um circo; a zombeteira e vingativa nona; a perfeita e assinada décima. Boa audição!

Sinfonias de Dmitri Shostakovich com Bernard Haitink (CDs 1 a 5, de 11)

CD 1
Symphony No.1 In F Minor, Op.10
1 I Allegretto – Allegro Non Troppo
2 II Allegro
3 III Lento
4 IV Allegro Molto – Lento – Allegro Molto

Symphony No.3 In E Flat Major, Op.20 ‘The First Of May’
5 I Allegretto – Allegro
6 II Andante
7 III Allegro – Largo
8 IV Moderato: ‘V Pervoye Pervoye Maya’

London Philharmonic Orchestra

CD 2
Symphony No.2 In B Major, Op.14 ‘To October – A Symphonic Dedication’
1 I Largo – Allegro Molto
2 II My Shli, My Prosili Raboty I Khleba

Symphony No.10 In E Minor, Op.93
3 I Moderato
4 II Allegro
5 III Allegretto
6 IV Andante – Allegro

London Philharmonic Orchestra
Choir – London Philharmonic Choir (Symphony No. 2)

CD 3
Symphony No.4 In C Minor, Op.43
1 I Allegretto Poco Moderato —
2 Presto
3 II Moderato Con Moto
4 III Largo —
5 Allegro

London Philharmonic Orchestra

CD 4
Symphony No.5 In D Minor, Op.47
1 I Moderato
2 II Allegretto
3 III Largo
4 IV Allegro Non Troppo

Symphony No.9 In E Flat Major, Op.70
5 I Allegro
6 II Moderato
7 III Presto
8 IV Largo
9 V Allegretto — Allegro

Concertgebouw Orchestra (Symphony No. 5)
London Philharmonic Orchestra (Symphony No. 9)

CD 5
Symphony No.6 In B Minor, Op.54
1 I Largo
2 II Allegro
3 III Presto

Symphony No.12 In D Minor, Op.112 ‘The Year 1917’
4 I Revolutionary Petrograd
5 II Razliv
6 III Aurora
7 IV The Dawn Of Humanity

Concertgebouw Orchestra

Recording: 1977-1983

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE – CDs 1-3

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE – CDs 4-5

Apoie os bons artistas, compre suas músicas.
Apesar de raramente respondidos, os comentários dos leitores e ouvintes são apreciadíssimos. São nosso combustível.
Comente a postagem!

Haitink em 1984

PQP

Dmitri Shostakovich (1906-1975): 24 Prelúdios e Fugas, Op. 87 / Ronald Stevenson (1928-2015): Passacaglia On DSCH (Levit)

Dmitri Shostakovich (1906-1975): 24 Prelúdios e Fugas, Op. 87 / Ronald Stevenson (1928-2015): Passacaglia On DSCH (Levit)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Igor Levit é uma estrela recente da música erudita. Aos 34 anos, ele encabeça a lista dos melhores pianistas jovens do mundo. O grande Alex Ross, em artigo recentemente publicado na revista The New Yorker, afirmou: “Levit é um pianista como nenhum outro”. E acrescentou: “Outros pianistas da geração de Levit podem ter alcançado mais fama mercadológica — como Lang Lang e Yuja Wang –, mas nenhum deles possui uma estatura artística, cultural e mesmo política, comparável à dele”. Verdade. Levit é um artista que combina inteligência aguda, sensibilidade e talento técnico. Um caso raro, infelizmente.

Bem, há dois anos, Igor Levit dedicou um recital no Wigmore Hall à enorme Passacaglia sobre DSCH, de Ronald Stevenson. Foi uma execução extraordinária e inesquecível de uma das obras mais singulares do repertório pianístico do século XX, uma peça musical de 80 minutos, composta entre 1960 e 1963, que contém toda uma gama de formas menores, utilizando o tema DSCH, a “grafia” musical (Ré, Mi bemol, Dó, Si natural) das iniciais de Dmitri Shostakovich — em alemão Schostakovich — como base.

A gravação de Levit da Passacaglia é tão magnífica quanto foi ao vivo e ela combina à perfeição com o conjunto igualmente épico de 24 Prelúdios e Fugas, Op 87, de Shostakovich. A peculiar obra-prima de Stevenson é verdadeiramente única. É concebida na grande tradição virtuosa de Liszt e Busoni, é raramente ouvida em concerto e foi gravada apenas cinco vezes antes, incluindo uma versão do próprio compositor e outra dos anos 1960 de John Ogdon que parece nunca ter sido transferida para CD. Como Levit mostra de maneira espetacular, Stevenson faz um passeio selvagem por um monte de formas musicais, citações e alusões, com referências que vão de Bach a canções revolucionárias do século 20 — uma passagem é marcada para ser tocada “com um senso gagarinesco de espaço”.

Junto com a Passacaglia, temos os extraordinários 24 Prelúdios e Fugas de Shostakovich, compostos ao longo de apenas cinco meses entre 1950 e 1951. Eles enganam — parecem um diário tranquilo e íntimo que segue o esquema de O Cravo Bem Temperado ao trabalhar em todas as tonalidades maiores e menores, embora, em vez da ordem cromática de Bach, Shostakovich organize seu ciclo em torno das quintas, com cada prelúdio e fuga em tonalidade maior emparelhada com sua tonalidade menor relativa, de modo que as peças de dó maior e lá menor sejam seguidas pelo sol maior e mi menor, e assim por diante. As dívidas para com Bach são muitas, começando no início do primeiro Prelúdio em Dó maior, finalizando com a linda fuga final.

Nos prelúdios e fugas, Levit chega muito próximo de Tatiana Nikolayeva — em alguns momentos creio que a ultrapassa em beleza e compreensão. Tatiana foi a pianista a quem Shostakovich dedicou a obra, a que a estreou e fez três gravações legendárias do ciclo. Porém, se Levit chega muito perto de Tatiana em seu domínio da obra, é na performance de Stevenson que ele dificilmente será igualado.

Dmitri Shostakovich (1906-1975): 24 Prelúdios e Fugas, Op. 87 / Ronald Stevenson (1928-2015): Passacaglia On DSCH (Levit)

24 Preludes And Fugues, Op. 87
Composed By – Dmitri Shostakovich
1-1 Prelude No. 1 In C Major 2:37
1-2 Fugue No. 1 In C Major 2:32
1-3 Prelude No. 2 In A Minor 0:53
1-4 Fugue No. 2 In A Minor 1:26
1-5 Prelude No. 3 In G Major 1:49
1-6 Fugue No. 3 In G Major 1:51
1-7 Prelude No. 4 In E Minor 2:57
1-8 Fugue No. 4 In E Minor 4:45
1-9 Prelude No. 5 In D Major 1:28
1-10 Fugue No. 5 In D Major 1:48
1-11 Prelude No. 6 In B Minor 1:54
1-12 Fugue No. 6 In B Minor 4:57
1-13 Prelude No. 7 In A Major 1:13
1-14 Fugue No. 7 In A Major 2:11
1-15 Prelude No. 8 In F-Sharp Minor 1:12
1-16 Fugue No. 8 In F-Sharp Minor 7:11
1-17 Prelude No. 9 In E Major 2:06
1-18 Fugue No. 9 In E Major 1:36
1-19 Prelude No. 10 In C-Sharp Minor 2:10
1-20 Fugue No. 10 In C-Sharp Minor 5:27
1-21 Prelude No. 11 In B Major 1:05
1-22 Fugue No. 11 In B Major 2:00
1-23 Prelude No. 12 In G-Sharp Minor 4:31
1-24 Fugue No. 12 In G-Sharp Minor 3:45
2-1 Prelude No. 13 In F-Sharp Major 2:27
2-2 Fugue No. 13 In F-Sharp Major 4:45
2-3 Prelude No. 14 In E-Flat Minor 4:08
2-4 Fugue No. 14 In E-Flat Minor 2:44
2-5 Prelude No. 15 In D-Flat Major 2:34
2-6 Fugue No. 15 In D-Flat Major 1:33
2-7 Prelude No. 16 In B-Flat Minor 2:38
2-8 Fugue No. 16 In B-Flat Minor 7:29
2-9 Prelude No. 17 In A-Flat Major 1:39
2-10 Fugue No. 17 In A-Flat Major 3:40
2-11 Prelude No. 18 In F Minor 2:09
2-12 Fugue No. 18 In F Minor 3:03
2-13 Prelude No. 19 In E-Flat Major 2:15
2-14 Fugue No. 19 In E-Flat Major 2:26
2-15 Prelude No. 20 In C Minor 4:03
2-16 Fugue No. 20 In C Minor 5:12
2-17 Prelude No. 21 In B-Flat Major 1:16
2-18 Fugue No. 21 In B-Flat Major 2:42
2-19 Prelude No. 22 In G Minor 2:00
2-20 Fugue No. 22 In G Minor 3:12
2-21 Prelude No. 23 In F Major 2:24
2-22 Fugue No. 23 In F Major 4:02
2-23 Prelude No. 24 In D Minor 4:11
2-24 Fugue No. 24 In D Minor 9:23

Passacaglia On DSCH, Pars Prima
Composed By – Ronald Stevenson
3-1 Sonata Allegro 6:37
3-2 Waltz In Rondo-Form 2:19
3-3 Episode 1:09
3-4 Suite (Prelude – Sarabande – Jig – Sarabande – Minuet – Jig – Gavotte – Polonaise) 12:19
3-5 Pibroch (Lament For The Children) 2:48
3-6 Episode: Arabesque Variations 0:41
3-7 Nocturne 1:59

Passacaglia On DSCH, Pars Altera
Composed By – Ronald Stevenson
3-8 Reverie-Fantasy 5:30
3-9 Fanfare – Forebodings. Alarm – Glimpse Of A War-Vision 2:12
3-10 Variations On “Peace, Bread & The Land” (1917) 2:08
3-11 Symphonic March 1:55
3-12 Episode 0:55
3-13 Fandango 2:08
3-14 Pedal-Point. “To Emergent Africa” 2:03
3-15 Central Episode. Études 3:42
3-16 Variations In C Minor 3:41

Passacaglia On DSCH, Pars Tertia
Composed By – Ronald Stevenson
3-17 Adagio. Tribute To Bach 1:57
3-18 Triple Fugue Over Ground Bass, Subject I. Andamento 5:18
3-19 Triple Fugue Over Ground Bass, Subject II. B A C H 7:02
3-20 Triple Fugue Over Ground Bass, Subject III. Dies Irae (In Memoriam The Six Million) 6:33
3-21 Final Variations On A Theme Derived From Ground. Adagissimo Barocco 12:13

Piano – Igor Levit

BAIXE AQUI — DOWNLOAD HERE

Igor Levit durante visita ao Salão Cromático de Concertos — também conhecido como Cor Sim, Cor Não — do PQP Bach, em sua sede de São Petersburgo.

PQP

Brahms / Debussy / Schumann / Shostakovich: Duo (Gabetta e Grimaud)

Brahms / Debussy / Schumann / Shostakovich: Duo (Gabetta e Grimaud)

O coro de elogios — alguns deles histéricos — que este CD vem recebendo dá até vontade de destoar, mas tal intenção morre à audição dos primeiros acordes. A argentina Gabetta e a francesa Grimaud fizeram um disco de indiscutível musicalidade, perfeito, irretocável. O repertório ajuda muito, claro, mas leiam abaixo o tom dos elogios:

“Put on your headphones, close the door and soak in these direct-connection performances of Schumann, Brahms, Debussy and Shostakovich by pianist Grimaud and cellist Gabetta. This is terrific.” –Mercury News, September 2012

e assim:

An inspiring, enjoyable, powerhouse meeting between two award-winning highly-individualistic classical music superstars who consider their initial meeting as fateful, not coincidence. Hélène Grimaud (who is called “the earth” in their interview), one of the greatest interpretative classical pianists who experiences sound as colors, and star cello virtuoso Sol Gabetta (“the air”), famed for the nuanced, singing quality of her instrumental interpretations and her highly emotional playing, meld their ‘earth and air’ talents and personae into a marvelous musical duo. It began in 2011 in a joyful, fateful musical encounter that ‘clicked’ immediately. In a wide spectrum of musical tastes, they cover the duo compositions of Robert Schumann, Johannes Brahms, Claude Debussy, and Dmitri Shostakovich, and this diverse program works wonderfully and has toured to great success. All performances are excellent and the ‘best of the best’ begins with the ‘storm to calm’ of the ‘Finale’ of Debussy’s Sonata for Violoncello and Piano in D Minor; the awesome beauty and virtuosity of the spellbinding 12 minute Shostakovich Allegro non troppo from the Sonata for Violoncello and Piano in D minor, Opus 40; the fiery third movement of Schumann’s ‘Drei Fantasiestücke’ (Three Fantasies), Opus 73 and the overpowering beauty of the familiar 14 minute Allegro non troppo and the 6 minute Allegro-Più presto movements of Brahms Sonata for Piano and Violoncello No 1 in E minor, Opus 38. Awesome performances by two great artists who form a dynamic duo of singular musical purpose. My Highest Recommendation! Five OUTSTANDING Stars! Independent, October 2012

Duo, com Sol Gabetta e Helene Grimaud

Drei Fantasiestücke op. 73
Composed By – Robert Schumann
1 I. Zart Und Mit Ausdruck 3:13
2 II. Lebhaft, Leicht 3:13
3 III. Rasch Und Mit Feuer 3:53

Sonata For Piano And Violoncello No. 1 in E minor op. 38
Composed By – Johannes Brahms
4 I. Allegro Non Troppo 14:27
5 II. Allegretto Quasi Minuetto – Trio 5:26
6 III. Allegro – Più Presto 6:22

Sonata For Violoncello And Piano In D Minor
Composed By – Claude Debussy
7 I. Prologue. Lent, Sostenuto E Molto Risoluto 4:36
8 II. Sérénade. Modérément Animé 3:13
9 III. Final. Animé, Léger Et Nerveux 3:40

Sonata For Violoncello And Piano In D Minor Op. 40
Composed By – Dmitri Shostakovich
10 I. Allegro Non Troppo 11:56
11 II. Allegro 2:50
12 III. Largo 8:21
13 IV. Allegro 3:58

Sol Gabetta, violoncelo
Helene Grimaud, piano

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

PQP

P.S. —  Um pouquinho mais de Gabetta para os pequepianos. A música é Oblivion de Astor Piazzolla:

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonias Nros. 1, 14 & 15 – Chamber Symphony (Nelsons / Boston)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Este CD duplo fecha o ciclo de Sinfonias de Shostakovich com Andris Nelsons e é certamente um dos melhores lançamentos de 2021. O repertório é de primeira, os solistas espetaculares — meu deus, que solistas! –, a orquestra é fantástica e a direção perfeita. Não tem erro e é a cereja do bolo: o final da premiada série. Este álbum apresenta as de Nº 1, 14 e 15 e a Sinfonia de Câmara — ou seja, o Quarteto de Cordas Nº 8 arranjado para orquestra. A gravação da Sinfonia nº 10 ganhou vários prêmios em 2016 e o álbum das Sinfonias Nº 5, 8 e 9 conseguiram o mesmo no ano seguinte. Quase meio século se passa entre a estreia triunfante de Shostakovich com a ‘Primeira’, executada antes de seu 20º aniversário, e a ‘Décima Quinta’, um inventário de influências escrito sob a sombra de sua própria mortalidade. Escrita apenas dois anos antes, a ‘Décima quarta’ é um ciclo de canções sinfônicas, e a Sinfonia de Câmara é uma adaptação habilidosa daquela obra-prima trágica, o Oitavo Quarteto de Cordas.

Sinfonia Nº 1, Op. 10 (1924-1925)

Shostakovich começou a escrever esta sinfonia quando tinha dezessete anos. Antes disso, tinha composto apenas alguns scherzi. Sua estreia foi mesmo com esta Nº 1, terminada antes do autor completar vinte anos. Ela tornou aquele estudante de música, mais conhecido por ser o pianista-improvisador de três cinemas mudos de Petrogrado, internacionalmente célebre. Tal fama pode ser atribuída por Shostakovich ser o primeiro rebento musical do comunismo, mas ouvindo a sinfonia hoje, não nos decepcionamos de modo algum. É música de um futuro mestre.

Ela começa com um toque de trompete ao qual, se acrescentarmos um crescendo, tornar-se-á um tema de Petrouchka, de Igor Stravinsky. Alguns regentes russos fazem esta introdução exatamente igual à Petroushka. Há mesmo algo de “boneca triste” no primeiro movimento desta sinfonia. O segundo movimento possui um curioso tema árabe, que é a primeira grande paródia encontrada em sua obra. Um achado. O movimento lento, muito triste, é daqueles que os anticomunistas mais truculentos considerariam uma comprovação do sofrimento do compositor sob o comunismo e de uma postura fatalista do tipo isto-não-vai-dar-nada-certo, porém acreditamos que a morte de seu pai, ocorrida alguns meses antes e a internação de Dmitri num sanatório da Criméia (ele contraíra tuberculose) tenha mais a ver. Há um belíssimo solo funéreo de oboé nele.

Sinfonia Nº 15, Op. 141 (1971)

Sem dúvida, a Sinfonia Nº 15 é uma de minhas preferidas no gênero. É difícil estabelecer um conteúdo programático para ela. Trata-se de uma música muito viva, com colorido orquestral atraente, temas facilmente assimiláveis e nada triviais, clímax e pausas meditativas que empolgam e mantém o ouvinte permanentemente atento. E com os contrastes característicos de Shostakovich. Parece um roteiro de Shakespeare passado à música, trazendo o trágico ao festivo, empurrando a reflexão para junto da zombaria. Bom, já viram que sou um apaixonado desta sinfonia. O primeiro movimento (Allegretto) é uma curiosidade por manter sempre ativo o motivo da cavalgada da abertura Guilherme Tell, de Rossini, e pela participação incessante da percussão. O segundo movimento (Adagio) é circunspecto. Os metais trazem uma melodia sombria, para depois o violoncelo completá-la com um solo dilacerante, a cujas cores será acrescida, mais adiante, a ressonância do contrabaixo. Um novo Alegretto surge repentinamente do Adagio, retomando o clima do primeiro movimento, mas desta vez somos levados pelos solos do fagote, violino, clarinete e flautim. O movimento final, outro adagio, é enigmático. A simbologia está presente com a apresentação de imediato do Prenúncio da Morte, composto por Wagner para a Tetralogia do Anel. O ouvinte wagneriano fica desconcertado ao escutar de imediato esta música conhecida, parece tratar-se de um equívoco, de um erro de partitura. Ao pesado motivo de Wagner são contrapostos temas executados por setores “mais leves” da orquestra, porém, a todo instante, o sinistro aviso retorna e, mais adiante, os metais refletirão angustiada exasperação… A sinfonia esvai-se em delicados sons de percussão, deixando um ponto de interrogação no ar. É desconcertante. O significado do Prenúncio da Morte é óbvio, porém, o que significam a percussão, a orquestração e as melodias jocosas que o cercam? Uma simples experiência sinfônica? Impossível. O desejo de felicidade de alguém cuja vida se encerra? Ou, voltando a Shakespeare, que a vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, que nada significa (*)? Porém, a significação, a intenção exata de uma obra instrumental é tão importante? Ou seria mais inteligente fazer como fez Shostakovich, levando-nos bem próximo ao irrespondível para nos abandonar por lá?

(*) Macbeth, William Shakespeare.

Sinfonia Nº 14, Op. 135 (1969)

A Sinfonia Nº 14 — espécie de ciclo de canções — foi dedicada a Britten, que a estreou em 1970 na Inglaterra. É a menos casual das dedicatórias. Seu formato e sonoridade é semelhante à Serenata para Tenor, Trompa e Cordas, Op. 31, e à Les Illuminations para tenor e orquestra de cordas, Op. 18, ambas do compositor inglês. Os dois eram amigos pessoais; conheceram-se em Londres em 1960, e Britten, depois disto, fez várias visitas à URSS. Se o formato musical vem de Britten, o espírito da música é inteiramente de Shostakovich, que se utiliza de poemas de Lorca, Brentano, Apollinaire, Küchelbecker e Rilke, sempre sobre o mesmo assunto: a morte. O ciclo, escrito para soprano, baixo, percussão e cordas, não deixa a margem à consolação, é música de tristeza sem esperança. Cada canção tem personalidade própria, indo do sombrio e elegíaco em A la Santé, An Delvig e A Morte do Poeta, ao macabro na sensacional Malagueña, ao amargo em Les Attentives, ao grotesco em Réponse des Cosaques Zaporogues e à evocação dramática de Loreley. É uma música que trabalha para a poesia, chegando, por vezes, a casar-se com ela sílaba por sílaba para torná-la mais expressiva. Há uma versão da sinfonia no idioma original de cada poema. Posso dizer que a sinfonia torna-se apenas triste se estiver desacompanhada da compreensão dos poemas – pecado que cometi por anos! Ela perde sentido se não temos consciência de seu conteúdo autenticamente fúnebre. Além do mais, os poemas são notáveis. São indiscutíveis seus méritos musicais e sua sinceridade. Me entusiasmam especialmente a Malagueña, feita sobre poema de Lorca e a estranha Conclusão (Schluss-Stück) de Rilke, que é brevíssima, sardônica e — puxa vida — muito, mas muito final.

Quarteto de Cordas Nº 8, Op. 110 e Sinfonia de Câmara, Op. 110a – Arranjo de Rudolf Barshai (1960)

Na minha opinião, o melhor quarteto de cordas de Shostakovich. Não surpreende que tenha recebido versões orquestrais. Trata-se de uma obra bastante longa para os padrões shostakovichianos de quarteto; tem cinco movimentos, com a duração total ficando entre os 20 minutos (na versão para quarteto de cordas) e 26 (na versão orquestral). O quarteto abre com um comovente Largo de intenso lirismo, o qual é seguido por um agitado Allegro molto, de inspiração folclórica e que fica muito mais seco na versão para quarteto. O terceiro movimento (Allegretto) é uma surpreendente valsinha sinistra a qual é respondida por outra valsa, muito mais lenta e com um acompanhamento curiosamente desmaiado. O quarteto é finalizado por dois belos temas — o primeiro sendo pontuado por agressivamente por um motivo curto de três notas e o segundo formado por mais uma fuga a quatro vozes utilizando temas dos movimentos anteriores.

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonias Nros. 1, 14 & 15 – Chamber Symphony (Nelsons / Boston)

1. Symphony No. 1 in F Minor, Op. 10: I. Allegretto – Allegro non troppo (09:27)
2. Symphony No. 1 in F Minor, Op. 10: II. Allegro (04:51)
3. Symphony No. 1 in F Minor, Op. 10: III. Lento (09:45)
4. Symphony No. 1 in F Minor, Op. 10: IV. Lento – Allegro molto (11:06)

5. Symphony No. 15 in A Major, Op. 141: I. Allegretto (08:18)
6. Symphony No. 15 in A Major, Op. 141: II. Adagio – Largo – Adagio – Largo (17:27)
7. Symphony No. 15 in A Major, Op. 141: III. Allegretto (04:11)
8. Symphony No. 15 in A Major, Op. 141: IV. Adagio – Allegretto – Adagio – Allegretto (18:07)

9. Symphony No. 14 in G Minor, Op. 135: I. De Profundis (04:52)
10. Symphony No. 14 in G Minor, Op. 135: II. Malagueña (03:03)
11. Symphony No. 14 in G Minor, Op. 135: III. Loreley (08:43)
12. Symphony No. 14 in G Minor, Op. 135: IV. Le suicidé (06:26)
13. Symphony No. 14 in G Minor, Op. 135: V. Les attentives I (03:07)
14. Symphony No. 14 in G Minor, Op. 135: VI. Les attentives II (01:43)
15. Symphony No. 14 in G Minor, Op. 135: VII. A la santé (09:15)
16. Symphony No. 14 in G Minor, Op. 135: VIII. Réponse des Cosaques Zaporogues au Sultan de Constantinople (01:48)
17. Symphony No. 14 in G Minor, Op. 135: IX. O, Delvig, Delvig! (04:06)
18. Symphony No. 14 in G Minor, Op. 135: X. Der Tod des Dichters (04:49)
19. Symphony No. 14 in G Minor, Op. 135: XI. Schlussstück (01:19)

20. Chamber Symphony in C Minor, Op. 110a (After String Quartet No. 8) [Orch. Barshai]: I. Largo – attacca (05:37)
21. Chamber Symphony in C Minor, Op. 110a (After String Quartet No. 8) [Orch. Barshai]: II. Allegro molto – attacca (02:58)
22. Chamber Symphony in C Minor, Op. 110a (After String Quartet No. 8) [Orch. Barshai]: III. Allegretto – attacca (04:34)
23. Chamber Symphony in C Minor, Op. 110a (After String Quartet No. 8) [Orch. Barshai]: IV. Largo – attacca (06:40)
24. Chamber Symphony in C Minor, Op. 110a (After String Quartet No. 8) [Orch. Barshai]: V. Largo (05:02)

Kristine Opolais
Alexander Tsymbalyuk
Boston Symphony Orchestra
Andris Nelsons

BAIXE AQUI — DOWNLOAD HERE

Andris Nelsons imitando Olivio Dutra ao reclamar sua vacina: “Também quero!”

PQP

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Os Seis Concertos de Shostakovich

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Os Seis Concertos de Shostakovich

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Um álbum que você precisa ouvir, mas um álbum triplo muito desigual. Cristina Ortiz e Paavo Berglund arrasam. Ivashkin e Poliansky idem. É claro que Oistrakh faz o mesmo com Rozhdestvensky, mas a qualidade do som não é boa, o que nos faz morrer de saudades da dupla que destronou Oistrakh nestes concertos que antes eram dele, a dupla Vengerov-Rostropovich. Curiosamente, Shosta escreveu 2 concertos para piano, 2 para violino e 2 para violoncelo. Os primeiros foram escritos para si mesmo e para seu filho. Os para violino foram dedicados a Oistrakh e os últimos a Rostropovich. Ah, se eu fosse um solista de nível e amigo de Shostakovich, também ia pedir um concerto. OS CONCERTOS SÃO ESPLÊNDIDOS, LINDOS, ESPETACULARES, TUDO !!!

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Os Seis Concertos de Shostakovich

CD 1

Piano Concerto No. 1 Op. 35
01. I. Allegro moderato-allegro vivace-moderato
02. II. Lento
03. III. Moderato
04. IV. Allegro con brio

Piano Concerto No. 2 Op. 102
05. I. Allegro
06. II. Andante
07. III. Allegro

3 Fantasic Dances Op. 5
08. I. Allegretto
09. II. Andantino
10. III. Allegretto

Bournemouth Symphony Orchestra
Paavo Berglund, regente
Cristina Ortiz, piano

BAIXE AQUI — DOWNLOAD HERE

CD 2

Violin Concerto N°1 in A minor Op.99
01. I. Nocturne
02. II. Scherzo
03. III. Passacaglia-Burlesque

Leningrad Philharmonic Orchestra
Evgeny Mravisnky, regente
David Oistrakh, violino

Violin Concerto N°2 in C sharp minor Op.129
04. I. Moderato
05. II. Adagio, adagio-allegro

Moscow Philharmonic Orchestra
Gennady Rozhdestvesnky, regente
David Oistrakh, violino

BAIXE AQUI — DOWNLOAD HERE

CD 3

Shostakovich Cello Concerto No. 1 Op. 107
01. I. Allegretto
02. II. Moderato
03. III. Cadenza
04. IV. Allegro con moto

Cello Concerto No. 2 Op. 126
05. I. Largo
06. II. Allegretto
07. III. Allegretto

Moscow Symphony Orchestra
Valery Poliansky, regente
Alexander Ivashkin, cello

BAIXE AQUI — DOWNLOAD HERE

A baiana Cristina Ortiz é genial. Confiram aí!

PQP Bach

Prokofiev & Shostakovich: Concertos para Violino Nº 1 (Vengerov / Rostropovich)

Prokofiev & Shostakovich: Concertos para Violino Nº 1 (Vengerov / Rostropovich)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Este CD recebeu todos os prêmios possíveis de se ganhar em 1994. Mereceu, é sensacional, esplêndido, até hoje imbatível, creio. Rostropovich estendeu a mão para o menino Vengerov, na época com 20 anos, para que ele subisse nos ombros de gigantes como Kogan e Oistrakh e conseguisse superá-los. Aqui, Rostrô atua como regente. Não há nada mais ou menos nesta gravação — solista, orquestra e regente estão impecáveis. Se o destaque é o tenso Concerto de Shostakovich, Prokofiev não lhe fica atrás. Creio que Rostrô deve ter orientado Vengerov a fazer a mais dilacerante das cadenzas na Passacaglia de Shosta, uma especialidade de Oistrakh. Nela o violino acaba abandonado pela orquestra, realizando um belíssimo e longo solo que dá entrada ao movimento final. Este CD é um dos que devem ser levados para a ilha deserta ou, no mínimo, deve ser guardado no nosso ventrículo esquerdo, que é onde o coração bate mais forte.

Prokofiev: Concerto para Violino Nº 1 / Shostakovich: Concerto para Violino Nº 1 (Vengerov / Rostropovich)

1. Prokofiev: Violin Concerto No. 1 In D Major, Op. 19: Andantino
2. Prokofiev: Violin Concerto No. 1 In D Major, Op. 19: Scherzo: Vivacissimo
3. Prokofiev: Violin Concerto No. 1 In D Major, Op. 19: Moderato

4. Shostakovich: Violin Concerto No.1 In A Minor: Nocturne: Moderato
5. Shostakovich: Violin Concerto No.1 in A minor: Scherzo: Allegro
6. Shostakovich: Violin Concerto No.1 in A minor: Passacaglia: Andante
7. Shostakovich: Violin Concerto No.1 in A minor: Burlesque: Allegro con brio

Performed by London Symphony Orchestra
with Maxim Vengerov, violin
Conducted by Mstislav Rostropovich

BAIXE AQUI — DOWNLOAD HERE

Prok e Shosta: os autores dos grandes concertos deste excepcional CD.

PQP

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Os Concertos para Violino (Ibragimova / Jurowski)

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Os Concertos para Violino (Ibragimova / Jurowski)

Uma boa gravação de um extraordinário e basilar repertório do século XX. Ibragimova não alcança as transcendências de outros violinistas, como Oistrakh e Vengerov, mas sai-se muito bem na complicada tarefa.

Shostakovich referiu-se ao seu Concerto para Violino Nº 1,  iniciado em 1947, mas não estreado até 1955, como uma sinfonia para violino e orquestra. O que ele quis dizer? Que os quatro movimentos, um a mais que o normal, têm ambição e enorme grandeza. Os humores de cada um não correspondem a nenhuma norma dos concertos. Abrindo com um Noturno lento e dolorosamente melancólico, a obra mergulha na reflexão. É seguido por um Scherzo enlouquecido e sardônico que cai numa sombria e lírica Passacaglia, que nos leva a uma vasta cadência solo. O final é um “burlesco” sombrio, uma perseguição estridente e veloz entre solista e orquestra.

O Concerto para Violino Nº 2 de Shostakovich (1967), é mais curto e tem forma mais regular, girando em torno de um movimento lento prolongado, introvertido e emocional: aqui, o silêncio e concentração são essenciais. Nunca é fácil de ouvir, mas quem espera isso deste compositor?

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Os Concerto para Violino (Ibragimova / Jurowski)

1. Violin Concerto No. 1 in A Minor, Op. 77: I. Nocturne: Moderato (12:36)
2. Violin Concerto No. 1 in A Minor, Op. 77: II. Scherzo: Allegro (06:26)
3. Violin Concerto No. 1 in A Minor, Op. 77: III. Passacaglia: Andante – Cadenza – (15:02)
4. Violin Concerto No. 1 in A Minor, Op. 77: IV. Burlesque: Allegro con brio – Presto (04:56)

5. Violin Concerto No. 2 in C-Sharp Minor, Op. 129: I. Moderato (14:14)
6. Violin Concerto No. 2 in C-Sharp Minor, Op. 129: II. Adagio – (10:01)
7. Violin Concerto No. 2 in C-Sharp Minor, Op. 129: III. Adagio – Allegro (08:10)

Alina Ibragimova
State Academic Symphony Orchestra of Russia “Evgeny Svetlanov”
Vladimir Jurowski

BAIXE AQUI — DOWNLOAD HERE

Deu match perfeito! Alina Ibragimova & Vladimir Jurowski mandando ver com Shostakovich | Foto: Photograph: Vera Zhuravleva

PQP

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonia Nº 13 ‘Babi Yar’ (Karabits)

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonia Nº 13 ‘Babi Yar’ (Karabits)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Sensacional esta recente gravação russa para esta obra-prima de Shostakovich. A história que copio abaixo é a da gênese da Sinfonia Nº 13. É uma tremenda história que envolve profundamente a censura soviética. Depois, houve também dificuldades para estrear a Sinfonia, mas este é um caso conhecido. O Caso Kosolápov — um verdadeiro herói — é muito menos divulgado e, ouso dizer, ainda mais interessante. Boa leitura e boa audição pra todos vocês.

.oOo.

~ A autoimolação de Valéri Kosolápov ao publicar Babi Yar, de Ievguêni Ievtuchenko ~

Por Vadim Málev, em 10 de junho de 2020
Texto de Milton Ribeiro a partir de tradução oral de Elena Romanov

Valéri Kosolápov

Hoje é o dia dos 110 anos do nascimento de Valéri Kosolápov. Mas quem é esse Valéri Kosolápov? Por que deveria escrever sobre ele e você deveria ler? Valéri Kosolápov tornou-se um grande homem em uma noite e, se não fosse assim, talvez não conhecêssemos o poema de Yevgeny Yevtushenko (Ievguêni Ievtuchenko) Babi Yar. Kosolápov era então editor do Jornal de Literatura (Literatúrnii Jurnál), o qual publicou corajosamente o poema em 19 de setembro de 1961. Foi um feito civil real.

Afinal, o próprio Yevtushenko admitiu que esses versos eram mais fáceis de escrever do que de publicar naquela época. Tudo se deve ao fato de o jovem poeta ter conhecido o escritor Anatoly Kuznetsov, autor do romance Babi Yar, que contou verbalmente a Yevtushenko sobre a tragédia acontecida naquela assim chamada ravina (ou barranco). Por consequencia, Yevtushenko pediu a Kuznetsov que o levasse até o local e ele ficou chocado com o que viu.

“Eu sabia que não havia monumento lá, mas esperava ver algum tipo de placa in memorian ou ao menos algo que mostrasse que o local era de alguma forma respeitado. E de repente me vi num aterro sanitário comum, que era como imenso sanduíche podre. E era ali que dezenas de milhares de pessoas inocentes — principalmente crianças, idosos e mulheres — estavam enterradas. Diante de nossos olhos, no momento em que estava lá com Kuznetsov, caminhões chegaram e despejaram seu conteúdo fedorento bem no local onde essas vítimas estavam. Jogaram mais e mais pilhas de lixo sobre os corpos”, disse Yevtushenko.

Ele questionou Kuznetsov sobre porque parecia haver uma vil conspiração de silêncio sobre os fatos ocorridos em Babi Yar? Kuznetsov respondeu que 70% das pessoas que participaram dessas atrocidades foram policiais ucranianos que colaboraram com os nazistas. Os alemães lhes ofereceram o pior e mais sujo dos trabalhos, o de matar judeus inocentes.

Yevtushenko ficou estupefato. Ou, como disse, ficou tão “envergonhado” com o que viu que naquela noite compôs seu poema. De manhã, foi visitado por alguns poetas liderados por Korotich e leu alguns novos poemas para eles, incluindo Babi Yar… Claro que um dedo-duro ligou para as autoridades de Kiev e estas tentaram cancelar a leitura pública que Yevtushenko faria à noite. Mas ele não desistiu, ameaçou com escândalo e, no dia seguinte ao que fora escrito, Babi Yar foi ouvido publicamente pela primeira vez.

Yevtushenko lê seus poemas. Nos anos sessenta, os poetas podiam reunir milhares de pessoas…

Passemos a palavra a Yevtushenko: “Depois da leitura, houve um momento de silêncio que me pareceu interminável. Uma velhinha saiu da plateia mancando, apoiando-se em uma bengala, e encaminhou-se lentamente até o palco onde eu me encontrava. Ela disse que estivera em Babi Yar, que fora uma das poucas sobreviventes que conseguiu rastejar entre os cadáveres para se salvar. Ela fez uma reverência para mim e beijou minha mão. Nunca antes alguém beijara minha mão”.

Então Yevtushenko foi ao Jornal de Literatura. Seu editor era Valéri Kosolápov, que substituiu o célebre Aleksandr Tvardovsky no posto. Kosolápov era conhecido como uma pessoa muito decente e liberal, naturalmente dentro de certos limites. Tinha ficha no Partido, claro, caso contrário, nunca acabaria na cadeira de editor-chefe. Kosolápov leu Babi Yar e imediatamente disse que os versos eram muito fortes e necessários.

— O que vamos fazer com eles? — pensou Kosolápov em voz alta.

— Como assim? — Yevtushenko respondeu, fingindo que não tinha entendido — Vamos publicar!

Yevtushenko sabia muito bem que, quando alguém dizia “versos fortes”, logo depois vinha “mas, eu não posso publicar isso”. Mas Kosolápov olhou para Yevtushenko com tristeza e até com alguma ternura. Como se esta não fosse sua decisão.

— Sim.

Depois pensou mais um pouco e disse:

— Bem, você vai ter que  esperar, sente-se no corredor. Eu tenho que chamar minha esposa.

Yevtushenko ficou surpreso e o editor continuou:

— Por que devo chamar minha esposa? Porque esta deve ser uma decisão de família.

— Por que de família?

— Bem, eles vão me demitir do meu cargo quando o poema for publicado e eu tenho que consultá-la. Aguarde, por favor. Enquanto isso, já vamos mandando o poema para a tipografia.

Kosolápov sabia com certeza que seria demitido. E isso não significava simplesmente a perda de um emprego. Isso significava perda de status, perda de privilégios, de tapinhas nas costas de poderosos, de jantares, de viagens a resorts de prestígio …

Yevtushenko ficou preocupado. Sentou no corredor e esperou. A espera foi longa e insuportável. O poema se espalhou instantaneamente pela redação e pela gráfica. Operários da gráfica se aproximaram dele, deram-lhe parabéns, apertaram suas mãos. Um velho tipógrafo veio. “Ele me trouxe um pouco de vodka, um pepino salgado e um pedaço de pão”, contou o poeta. E este velho disse: — “Espere, espere, eles imprimirão, você verá.”

E então chegou a esposa de Kosolápov e se trancou com o marido em seu escritório por quase uma hora. Ela era uma mulher grande. Na Guerra, ela fora uma enfermeira que carregara muitos corpos nos ombros. Essa rocha saiu da reunião, aproximando-se de Yevtushenko: “Eu não diria que ela estava chorando, mas seus olhos estavam úmidos. Ela olhou para mim com atenção e sorriu. E disse: ‘Não se preocupe, Jenia, decidimos ser demitidos’.”

Olha, é simplesmente lindo: “Decidimos ser demitidos”. Foi quase um ato heroico. Somente uma mulher que foi para a front sob balas podia não ter medo.

Na manhã seguinte, chegou um grupo do Comitê Central, aos berros: “Quem deixou passar, quem aprovou isto?”. Mas já era tarde demais — o jornal estava à venda em todos os quiosques. E vendia muito.

“Durante a semana, recebi dez mil cartas, telegramas e radiogramas. O poema se espalhou como um raio. Foi transmitido por telefone a fim de ser publicado em locais mais distantes. Eles ligavam, liam, gravavam. Me ligaram de Kamchatka. Perguntei como tinham lido lá, porque o jornal ainda não tinha chegado. “Não chegou, mas pessoas nos leram pelo telefone, nós anotamos”, contou Yevtushenko.

Claro que as autoridades não gostaram e trataram de se vingar. Artigos aos montes foram escritos contra Yevtushenko. Kosolápov foi demitido.

Aqui está o jovem Yevtushenko, na época em que escreveu “Babi Yar”

O que salvou Yevtushenko foi a reação mundial. Em uma semana, o poema foi traduzido para 72 idiomas e publicado nas primeiras páginas de todos os principais jornais, incluindo os norte-americanos. Em pouco tempo, Yevtushenko recebeu outras 10 mil cartas agora de diferentes partes do mundo. E, é claro, não apenas judeus escreveram cartas de agradecimento, o poema fisgou muita gente. Mas houve muitas ações hostis contra o poeta. A palavra “judeu” foi riscada em seu carro e, pior, ele foi ameaçado e criticado em várias oportunidades.

“Vieram até meu edifício uns universitários enormes, do tamanho de jogadores da basquete. Eles se comprometeram a me proteger voluntariamente, embora não houvesse casos de agressão física. Mas poderia acontecer. Eles passavam a noite nas escadarias do meu prédio. Minha mãe os viu. As pessoas realmente me apoiaram ”, lembrou Yevtushenko.

— E, o milagre mais importante, Dmitri Shostakovich me telefonou. Minha esposa e eu não acreditamos, pensamos que era mais um gênero de intimidação ou que estavam aplicando um trote em nós. Mas Shostakovich apenas me perguntou se eu daria permissão para escrever música sobre meu poema.

Shostakovich e Yevtushenko na primeira apresentação da 13ª Sinfonia de Shostakovich, em cuja primeira parte foi colocada o poema “Babi Yar”

Esta história tem um belo final. Kosolápov aceitou tão dignamente sua demissão que o pessoal do Partido ficou assustado. Eles decidiram que se ele estava tão calmo era porque tinha proteção de alguém muito importante e superior… Depois de algum tempo, ele foi chamado para ser editor-chefe da revista Novy Mir. “E apenas a consciência o protegia”, resumiu Yevtushenko. “Era um Verdadeiro Homem.”

Valéri Kosolápov
A lápide de Valéri Kosolápov

RIP

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonia Nº 13

1) I. Babi Yar: Adagio 15:18
2) II. Humour: Allegretto 7:30
3) III. In the Store: Adagio 11:45
4) IV. Fears: Largo 11:07
5) V. A Career: Allegretto 12:30

Oleg Tsibulko, baixo
Popov Academy of Choral Arts Choir
Kozhevnikov Choir
The Russian National Orchestra
Kirill Karabits

BAIXE AQUI — DOWNLOAD HERE

Shostakovich esta votando? Assim parece, não? | Wikimedia Commons

PQP

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 12 de 12 (Sinfs 9 e 15, Scans, Ashkenazy)

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 12 de 12 (Sinfs 9 e 15, Scans, Ashkenazy)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Sinfonia Nº 9, Op. 70 (1945)

Desde Schubert, com sua Sinfonia Nº 9 “A Grande”, passando pela Nona de Beethoven e pelas nonas de Bruckner e Mahler, espera-se muito das sinfonias Nº 9. Há até uma maldição que fala que o compositor morre após a nona, o que, casualmente ou não, ocorreu com todos os citados, menos Shostakovitch. Esta sinfonia — por ser a “Nona” — foi muito aguardada e, bem, digamos que não seria Shostakovitch se ele não tivesse feito algo inesperado. Stálin ficou muito decepcionado com ela.

Leonard Bernstein lia esta partitura dando gargalhadas desta piada músical, cujas muitas citações formam um todo no mínimo sarcástico. O compositor declarou que faria uma música que expressaria “a luta contra a barbárie e a grandeza dos combatentes soviéticos”, mas os severos críticos soviéticos, adeptos do realismo socialista, foram mais exatos e apontaram que a obra seria debochada, irônica e de influência stravinskiana. Bingo! Na verdade é uma das composições mais agradáveis que conheço. O material temático pode ser bizarro e bem humorado (primeiro e terceiro movimentos), mas é também terno e melancólico (segundo e largo introdutório do quarto), terminando por explodir numa engraçadíssima coda.

Apesar dos cinco movimentos, é uma sinfonia curta, muito parecida em espírito com a primeira sinfonia “Clássica” de Prokofiev e com a Sinfonia “Renana” de Schumann, também em cinco movimentos.

Deixando de lado a geopolítica soviética e detendo-se na obra, podemos dizer que esta Nona é uma consciente destilação de experiências e, talvez uma reação, muito cuidadosamente considerada, contra as enormidades musicais oriundas da guerra das duas sinfonias anteriores.

Cá entre nós, é puro divertimento.

Sinfonia Nº 15, Op. 141 (1971)

Sem dúvida, a Sinfonia Nº 15 é uma de minhas preferidas no gênero. É difícil estabelecer um conteúdo programático para ela. Trata-se de uma música muito viva, com colorido orquestral atraente, temas facilmente assimiláveis e nada triviais, clímax e pausas meditativas que empolgam e mantém o ouvinte permanentemente atento. E com os contrastes inesperados característicos de Shostakovich. Parece um roteiro de Shakespeare passado à música, trazendo o trágico ao festivo, empurrando a reflexão para junto da zombaria. Bom, já viram que sou um apaixonado desta sinfonia. O primeiro movimento (Allegretto) é uma curiosidade por manter sempre ativo o motivo da cavalgada da abertura Guilherme Tell, de Rossini, e pela participação incessante da percussão. O segundo movimento (Adagio) é circunspecto. Os metais trazem uma melodia sombria, para depois o violoncelo completá-la com um solo dilacerante, a cujas cores será acrescida, mais adiante, a ressonância do contrabaixo. Um novo Alegretto surge repentinamente do Adagio, retomando o clima do primeiro movimento, mas desta vez somos levados pelos solos do fagote, violino, clarinete e flautim. O movimento final, outro adagio, é enigmático. A simbologia está presente com a apresentação de imediato do Prenúncio da Morte, composto por Wagner para a Tetralogia do Anel. O ouvinte wagneriano fica desconcertado ao escutar de imediato esta música conhecida, parece tratar-se de um equívoco, de um erro de partitura. Ao pesado motivo de Wagner são contrapostos temas executados por setores “mais leves” da orquestra, porém, a todo instante, o sinistro aviso retorna e, mais adiante, os metais refletirão muita angústia… A sinfonia esvai-se em delicados sons de percussão, deixando um ponto de interrogação no ar. É desconcertante. O significado do Prenúncio da Morte é óbvio, porém, o que significam a percussão, a orquestração e as melodias jocosas que o cercam? Uma simples experiência sinfônica? Impossível. O desejo de felicidade de alguém cuja vida se encerra? Ou, voltando a Shakespeare, que a vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, que nada significa (*)? Porém, a significação, a intenção exata de uma obra instrumental é tão importante? Ou seria mais inteligente fazer como fez Shostakovich, levando-nos bem próximo ao irrespondível para lá nos abandonar?

(*) Macbeth, William Shakespeare.

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 12 de 12 (Sinfs 9 e 15, Scans, Ashkenazy)

Symphony No. 9 In E Flat Major, Op. 70
12-1 Allegro
12-2 Moderato
12-3 Presto
12-4 Largo
12-5 Allegretto

Symphony No.15, Op.141
12-6 Allegretto
12-7 Adagio – Largo – Adagio – Largo
12-8 Allegretto
12-9 Adagio – Allegretto – Adagio – Allegretto

The Royal Philharmonic Orchestra
Vladimir Ashkenazy

BAIXE AQUI — DOWNLOAD HERE

LINK PARA O LIBRETO DOS CDS DA COLEÇÃO

Duas raras fotos de Shostakovich feliz:
… ambas em jogos de futebol em que vibrava com seu Zenit.

PQP

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 11 de 12 (Sinf 14, Ashkenazy)

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 11 de 12 (Sinf 14, Ashkenazy)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

A BELÍSSIMA, sublime e literária Sinfonia Nº 14 — espécie de ciclo de canções — foi dedicada a Britten, que a estreou em 1970 na Inglaterra. É a menos casual das dedicatórias. Seu formato e sonoridade é semelhante à Serenata para Tenor, Trompa e Cordas, Op. 31, e à Les Illuminations para tenor e orquestra de cordas, Op. 18, ambas do compositor inglês. Os dois eram amigos pessoais; conheceram-se em Londres em 1960, e Britten, depois disto, fez várias visitas à URSS. Se o formato musical vem de Britten, o espírito da música é inteiramente de Shostakovich, que se utiliza de poemas de Lorca, Brentano, Apollinaire, Küchelbecker e Rilke, sempre sobre o mesmo assunto: a morte. O ciclo, escrito para soprano, baixo, percussão e cordas, não deixa a margem à consolação, é música de tristeza sem esperança. Cada canção tem personalidade própria, indo do sombrio e elegíaco em V Turme Santé, O Delvig, Delvig! e Smert Poeta, ao macabro na sensacional Malagueña, ao amargo em  Na Cheku, ao grotesco em Otvet Zaporozhskikh Kazakov Konstantinopolskomu Sultanu e à evocação dramática de Loreleya. É uma música que trabalha para a poesia, chegando, por vezes, a casar-se com ela sílaba por sílaba para torná-la mais expressiva. Há uma versão da sinfonia no idioma original de cada poema, mas sempre a ouvi em russo. Então, já que não entendo esta língua, tenho que ouvi-la ao mesmo tempo em que leio uma tradução dos poemas. Posso dizer que a sinfonia torna-se apenas triste se estiver desacompanhada da compreensão dos poemas – pecado que cometi por anos! Ela perde sentido se não temos consciência de seu conteúdo autenticamente fúnebre. Além do mais, os poemas são notáveis. Me entusiasmam especialmente a Malagueña, feita sobre poema de Lorca, Samoubiytsa, Na Cheku e a estranha Conclusão (Zaklyucheniye) de Rilke, que é brevíssima, sardônica e — puxa vida — muito, mas muito final.

No próximo e último post da série, colocarei os scans do libreto que acompanha a coleção original.

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 11 de 12 (Sinf 14, Ashkenazy)

Symphony No.14, Op.135 / Russian Text
11-1 De Profundis
11-2 Malagueña
11-3 Loreleya
11-4 Samoubiytsa
11-5 Na Cheku
11-6 Madam, Posmotrite!
11-7 V Turme Santé
11-8 Otvet Zaporozhskikh Kazakov Konstantinopolskomu Sultanu
11-9 O Delvig, Delvig!
11-10 Smert Poeta
11-11 Zaklyucheniye

NHK Symphony Orchestra
Vladimir Ashkenazy

BAIXE AQUI — DOWNLOAD HERE

Shostakovich fumando à espera da partida de um trem

PQP

 

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 10 de 12 (Sinf 13 “Babi Yar”, Ashkenazy)

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 10 de 12 (Sinf 13 “Babi Yar”, Ashkenazy)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Aqui, uma história fantástica sobre o nascedouro desta obra-prima.

Após o equívoco da Sinfonia Nº 12 – lembrem que até Beethoven escreveu uma medonha Vitória de Wellington, curiosamente estreada na mesma noite da sublime 7ª Sinfonia, mas este é outro assunto… -, Shostakovich inauguraria sua última fase como compositor com a Sinfonia Nº 13, Babi Yar. Iniciava-se aqui a produção de uma notável sequência de obras-primas que só terminaria com sua morte, em 1975. Esta sinfonia tem seus pés firmemente apoiados na história da União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial. É uma sinfonia cantada, quase uma cantata em seu formato, que conta com texto do grande poeta russo Evgeny Evtuchenko (conforme alguns, como a Ed. Brasiliense, porém pode-se encontrar a grafia Ievtuchenko, Yevtuchenko ou Yevtushenko, enfim!).

O que é, afinal, Babi Yar? Babi Yar é o nome de uma pequena localidade situada perto de Kiev, na atual Ucrânia, cuja tradução poderia ser Barranco das Vovós. Ali, em 1941, teve lugar o assassinato de 34 mil judeus pelos nazistas. Eles foram mortos com tiros na cabeça e a participação comprovada de colaboradores ucranianos no massacre permanece até hoje tema de doloroso debate público naquele país. Nos dois anos seguintes, o número de mortos em Babi Yar subiu para 200 mil, em sua maioria judeus. Perto do fim da guerra, os nazistas ordenaram que os corpos fossem desenterrados e queimados, mas não conseguiram destruir todos os indícios. Ievtuchenko criticou a maneira como o governo soviético tratara o local. Ensinava-se que as vítimas tinham sido ucranianas e russas, o que também eram, apesar de se saber que o fato determinante de suas mortes era o de serem judeus. O motivo? Ora, Babi Yar deveria parecer mais uma prova do heroísmo e sofrimento do povo soviético e não de uma fatia dele. E ainda havia a certeza do colaboracionismo russo no massacre. Com razão, o jovem poeta Ievtushenko considerou isso uma hipocrisia e escreveu o poema em homenagem aos judeus mortos. O poema — o qual tem extraordinários méritos literários — foi publicado na revista Literatournaia Gazetta e causou problemas a seu autor e depois, também a Shostakovich, ao qual foram pedidas alterações que nunca foram feitas na sinfonia.

O massacre de Babi Yar é tão lembrado que não serviu apenas a Ievtuchenko e a Shostakovich, tornando-se também tema de filmes e documentários recentes, assim como do romance Babi Yar de Anatoly Kuznetsov. Não é assunto morto, ainda.

O tratamento que Shostakovich dá ao poema é fortemente catalisador. Como se fosse uma cantata em cinco movimentos, os versos de Ievtuchenko são levados por um baixo solista, acompanhado de coral masculino (formado apenas por baixos) e orquestra. É música de impressionante gravidade e luto. A belíssima linha melódica ora assemelha-se a um serviço religioso, ora a um dos grandes modelos de Shostakovich, Mussorgski. Mesmo assim, fiel a seu estilo, Shostakovich encontra espaço para seu habitual sarcasmo.

Tranquila crueldade: soldados alemães examinam as roupas dos mortos em Babi Yar.

Babi Yar é como ficou conhecida a sinfonia para coro masculino, baixo e orquestra.  A partir do texto de dura indignação de Ievgueni Evtuchenko e apesar dos problemas que ele geraria na União Soviética pós-stalinista, Shostakovich construiu um painel de extraordinária força em torno de mazelas típicas de seu tempo: o medo e a opressão, o conformismo e o carreirismo, o massacre cotidiano num Estado policial e a possibilidade de superação através do humor e da intransigência.

Em linguagem quase descritiva, combinando a severidade da orquestra com a impostação épica das vozes, Babi Yar tem um poder de evocação cinematográfico: raramente se ouviu música tão plástica. O realismo e a imagens dos poemas são admiravelmente apoiados pelo estilo alternadamente sombrio e agressivo da música de Shostakovich. Não obstante o grande efetivo orquestral e a tensão dos clímax, as texturas são rarefeitas e o coro, declamando ou murmurando, canta quase sempre em uníssono ou em oitavas — mais um elemento dessa estrutura preparada para expressar a desolação e o nervosismo.

O primeiro movimento alterna estrofes que exploram o horror e a culpa de Babi Yar com relatos de dois outros episódios — o de Anne Frank e o de um menino massacrado em Bielostok. No segundo movimento, ritmado de forma tipicamente shostakovichiana, o tom enfático das vozes falam da resistência que o “Humor” jamais deixará de oferecer à tirania. “Na loja”, o Adagio que se segue, descreve quase fisicamente as filas das humilhadas donas-de-casa numa linha sinuosa à espera de um pouco de comida. Quando chegam ao balcão, o poema diz: “Elas nos honram e nos julgam”, enquanto percussão e castanholas simulam panelas e garrafas se entrechocando. É em clima que estupefação que o movimento se encerra: “Nada está fora de seu alcance”.

A linha sinuosa torna-se reta ao prosseguir sem interrupção para o episódio seguinte, um ameaçador ‘sostenuto’ das cordas graves sob solo da tuba: é o “Medo”, componente constante da vida soviética. Contrapondo-se às sombras que até aqui dominam a sinfonia, Shostakovich a conclui com uma satírica reflexão sobre o que é seguir uma “Carreira”. Em ritmo de valsa lenta, ficamos sabendo que a verdadeira carreira não é a dos que se submetem, mas a de Galileu, Shakespeare ou Pasteur, Newton ou Tolstói: “Seguirei minha carreira de tal forma que não a esteja seguindo”, conclui o baixo, com o eco do sino que abrira pesadamente a sinfonia, agora aliviado pela celesta.

Shostakovich (esquerda), com o poeta Evgeni Ievtuchenko (direita)e o regente Kiril Kondrashin na estréia da 13ª Sinfonia.

A história da primeira execução de Babi Yar foi terrível. Houve protestos e ameaças por parte das autoridades soviéticas. Se até 1962, Shostakovich dava preferência a estrear suas obras sinfônicas com Evgeny Mravinsky (1903-1988), Babi Yar causou um surdo rompimento na parceria entre ambos. O lendário regente da Sinfônica de Leningrado amedrontou-se (teve razões para tanto) e desistiu da obra pouco antes de começarem os ensaios. Porém, como na União Soviética e a Rússia os talentos brotam por todo lado, Mravinsky foi substituído por Kiril Kondrashin (1914-1981) que teve uma performance inacreditável e cujo registro em disco é das coisas mais espetaculares que se possa ouvir.

P.S.- Por uma dessas coisas inexplicáveis, encontrei o disco soviético com o registro da estreia num sebo de Porto Alegre em 1975. Comprei, claro.

Obs.: A descrição da música foi adaptada de um texto que Clovis Marques escreveu para um concerto no Municipal do Rio de Janeiro.

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 10 de 12 (Sinf 13 “Babi Yar”, Ashkenazy)

Symphony No.13, Op.113″Babi Yar”
10-1 Adagio – “Babi Yar”
10-2 Allegretto – “Humour”
10-3 Adagio – “In The Store”
10-4 Largo – “Fears”
10-5 Allegretto – “A Career”

NHK Symphony Orchestra
Vladimir Ashkenazy

BAIXE AQUI — DOWNLOAD HERE

Yevtushenko e Shostakovich no dia da estreia da Sinfonia Babi Yar

PQP

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 9 de 12 (Sinf 11 “O Ano de 1905”, Ashkenazy)

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 9 de 12 (Sinf 11 “O Ano de 1905”, Ashkenazy)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

A Sinfonia Nº 11 de Shostakovich é música programática da melhor qualidade. No primeiro movimento é mostrada a caminhada dos trabalhadores até o Palácio de Inverno do czar. É uma música tranquila, mas com ameaçadoras percussões e toques de clarins. O segundo é o massacre propriamente dito. O terceiro é o luto. Este movimento é baseado numa canção que Lênin e companheiros cantaram em Zurique ao saber da mortandade. O quarto movimento é o aviso claro de quem seria o vencedor. Mas cabem explicações, não?

No domingo de 9 de janeiro de 1905, após a missa, na cidade de São Petersburgo, manifestantes marcharam pacificamente até o Palácio de Inverno para apresentar uma petição ao czar, mas foram recebidos com tiros e baleados pela Guarda Imperial. A marcha foi organizada pelo padre George Gapon, que colaborou com Sergei Zubatov, da Okhrana, a polícia secreta czarista, para destruir organizações de trabalhadores. Os grupos envolvidos nesse conflito foram a população em geral, partidos políticos e os movimentos revolucionários, que tiveram enorme crescimento após esse domingo sangrento. O fato é considerado o estopim da Revolução Russa de 1905.

Então, naquele domingo, trabalhadores em greve e suas famílias se reuniram em seis pontos da cidade. Eles eram organizados e liderados pelo padre ortodoxo russo George Gapon. Segurando ícones religiosos e cantando hinos e canções patrióticas (particularmente Deus Salve o Czar), uma multidão de mais de três mil pessoas prosseguiu sem interferência da polícia em direção ao Palácio de Inverno, residência oficial do czar. A multidão não sabia que o czar não estava no palácio. Os soldados do exército perto do palácio lançaram tiros de advertência e, em seguida, dispararam diretamente contra a multidão. Gapon foi alvo de tiros perto do Arco do Triunfo de Narva. Cerca de quarenta pessoas ao redor dele foram mortas, no entanto, ele não ficou ferido. Embora o czar não estivesse no Palácio de Inverno ou mesmo na cidade e não tivesse dado a ordem para as tropas abrirem fogo, recebeu toda a culpa pelas mortes, resultando em uma onda de oposição e amargura do povo russo contra o czar e seu regime autocrático.

O número de mortos é incerto, mas as autoridades da época assumiram 930 mortos e 333 feridos. Fontes anti-czaristas afirmaram que os tiros mataram mais de quatro mil pessoas. Estimativas moderadas estipulam uma média de cerca de mil mortos e feridos, tanto pelos tiros quanto pisoteados pela população durante o pânico. Há relatos que no dia até a neve ficou vermelha. O czar Nicolau II descreveu o dia como “doloroso e triste”. Após o incidente, a desordem civil e os saques explodiram por toda a cidade. A marcha de Gapon foi aniquilada e ele rapidamente deixou a Rússia. Ao voltar para a Rússia em abril, Gapon foi assassinado por ordem da Organização de Combate do Partido Social-Revolucionário após ter revelado ao seu amigo Pinhas Rutenberg que estava trabalhando para a Okhrana, a polícia secreta.

Este evento foi classificado pelo embaixador britânico na época como um paradoxal impulso para as atividades revolucionárias na Rússia e contribuiu para a Revolução de 1905. O escritor Leo Tolstoy também escreveu sobre os assassinatos.

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 9 de 12 (Sinf 11 “O Ano de 1905”, Ashkenazy)

Symphony No. 11 In G Minor, Op. 103 “A Ano de 1905”

1 I Palace Square: Adagio 14:34
2 II 9 January: Allegro 17:44
3 III In Memoriam: Adagio 9:41
4 IV Tocsin: Allegro Non Troppo 13:24

St Petersburg Philharmonic Orchestra
Vladimir Ashkenazy

BAIXE AQUI — DOWNLOAD HERE

Shosta comentando o jornal com sua filha

PQP

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 8 de 12 (Sinf de Câmara Op. 110a, Sinf 10, Ashkenazy)

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 8 de 12 (Sinf de Câmara Op. 110a, Sinf 10, Ashkenazy)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Sobre a Sinfonia de Câmara: Na minha opinião, o melhor quarteto de cordas de Shostakovich. Não surpreende que tenha recebido versões orquestrais. Trata-se de uma obra bastante longa para os padrões shostakovichianos de quarteto; tem cinco movimentos, com a duração total ficando entre os 20 minutos (na versão para quarteto de cordas) e 26 (na versão orquestral). O quarteto abre com um comovente Largo de intenso lirismo, o qual é seguido por um agitado Allegro molto, de inspiração folclórica e que fica muito mais seco na versão para quarteto. O terceiro movimento (Allegretto) é uma surpreendente valsinha sinistra a qual é respondida por outra valsa, muito mais lenta e com um acompanhamento curiosamente desmaiado. O quarteto é finalizado por dois belos temas ; o primeiro sendo pontuado por agressivamente por um motivo curto de três notas e o segundo formado por mais uma fuga a quatro vozes utilizando temas dos movimentos anteriores.

Sobre a Sinfonia Nº 10: Este monumento da arte contemporânea mistura música absoluta, intensidade trágica, humor, ódio mortal, tranquilidade bucólica e paródia. Tem, ademais, uma história bastante particular. Em março de 1953, quando da morte de Stalin, Shostakovich estava proibido de estrear novas obras e a execução das já publicadas estava sob censura, necessitando autorizações especiais para serem apresentadas. Tais autorizações eram, normalmente, negadas. Foi o período em que Shostakovich dedicou-se à música de câmara e a maior prova disto é a distância de oito anos que separa a nona sinfonia desta décima. Esta sinfonia, provavelmente escrita durante o período de censura, além de seus méritos musicais indiscutíveis, é considerada uma vingança contra Stálin. Primeiramente, ela parece inteiramente desligada de quaisquer dogmas estabelecidos pelo realismo socialista da época. Para afastar-se ainda mais, seu segundo movimento – um estranho no ninho, em completo contraste com o restante da obra – contém exatamente as ousadias sinfônicas que deixaram Shostakovich mal com o regime stalinista. Não são poucos os comentaristas consideram ser este movimento uma descrição musical de Stálin: breve, é absolutamente violento e brutal, enfurecido mesmo, e sua oposição ao restante da obra faz-nos pensar em alguma segunda intenção do compositor. Para completar o estranhamento, o movimento seguinte é pastoral e tranquilo, contendo o maior enigma musical do mestre: a orquestra para, dando espaço para a trompa executar o famoso tema baseado nas notas DSCH (ré, mi bemol, dó e si, em notação alemã) que é assinatura musical de Dmitri SCHostakovich, em grafia alemã. Para identificá-la, ouça o tema executado a capela pela trompa. Ele é repetido quatro vezes. Ouvindo a sinfonia, chega-nos sempre a certeza de que Shostakovich está dizendo insistentemente: Stalin está morto, Shostakovich, não. O mais notável da décima é o tratamento magistral em torno de temas que se transfiguram constantemente. E PQP Bach adverte: não ouça o segundo movimento previamente irritado. Você e sua companhia poderão se machucar.

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 8 de 12 (Sinf de Câmara Op. 110a, Sinf 10, Ashkenazy)

Chamber Symphony, Op.110a
8-1 Largo
8-2 Allegro Molto
8-3 Allegretto
8-4 Largo
8-5 Largo

Symphony No.10 In E Minor, Op.93
8-6 Moderato
8-7 Allegro
8-8 Allegretto
8-9 Andante – Allegro

Royal Philharmonic Orchestra
Vladimir Ashkenazy

BAIXE AQUI — DOWNLOAD HERE

Shostakovich e Irina em um passeio aprazível da mais pura felicidade

PQP

 

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 7 de 12 (Sinf 8, Funeral & Triumphal Prelude, Novorossiisk Chimes, Ashkenazy)

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 7 de 12 (Sinf 8, Funeral & Triumphal Prelude, Novorossiisk Chimes, Ashkenazy)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Música (de Anna Akhmátova)

Dedicado a Dmitri Shostakovich

Algo de miraculoso arde nela,
e fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar,
depois que todos os outros ficaram com medo de se aproximar.
Depois que o último amigo tiver desviado o olhar,
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores tivessem começado a falar.

A Sinfonia Nº 8, Op. 65, de Dmitri Shostakovich, foi escrita no verão de 1943 e apresentada pela primeira vez em 4 de novembro daquele ano pela Orquestra Sinfônica da URSS sob Yevgeny Mravinsky , a quem o trabalho é dedicado. Foi nomeada “Sinfonia de Stalingrado”, mas este nome não pegou. Inexplicavelmente, a sinfonia não aparece nos programas de concerto com muita frequência, pois é uma das melhores partituras de Shosta. Embora alguns tenham argumentado que o trabalho se enquadra na tradição de outras sinfonias de “tragédia-triunfo”, como a 5ª de Beethoven, a 1ª de Brahms , a 8ª Bruckner e a 2ª de Mahler, há consideráveis diferenças. O nível de otimismo presente no final é quase ausente, sendo substituído pelo sarcasmo ou bom humor. O amigo de Shostakovich, Isaak Glikman, chamou essa sinfonia de “sua obra mais trágica”… O trabalho, como muitas de suas sinfonias, quebra algumas das convenções padrão de forma e estrutura sinfônicas. Shostakovich faz referência clara a temas, ritmos e harmonias de suas sinfonias anteriores, principalmente a Sinfonia Nº 5 e a Sinfonia Nº 7. Gosto muito da beleza austera do quarto movimento, uma verdadeira obra-prima em 12 variações – uma passacaglia – e também dos dois primeiros, com destaque para o divertido diálogo entre o piccolo, o clarinete e o fagote do scherzo. E o terceiro movimento é sensacional, muito russo e “mexido”. O finale é o primeiro que Shostakovich faz de forma sussurrante. Uma joia!

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 7 de 12 (Sinf 8, Funeral & Triumphal Prelude, Novorossiisk Chimes, Ashkenazy)

7-1 Funeral & Triumphal Prelude, Op.130 (In Memory Of The Heroes Of The Battle Of Stalingrad)

Symphony No.8 In C Minor, Op.65
7-2 Adagio
7-3 Allegretto
7-4 Allegro Non Troppo
7-5 Largo
7-6 Allegretto

7-7 Novorossiisk Chimes

Royal Philharmonic Orchestra
Vladimir Ashkenazy

BAIXE AQUI — DOWNLOAD HERE

Shostakovich foi um grande admirador do futebol de Paulo Roberto Falcão

PQP

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 6 de 12 (Sinf 7, Ashkenazy)

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 6 de 12 (Sinf 7, Ashkenazy)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

De história riquíssima, a Sinfonia Nº 7 – dedicada à resistência da cidade de Leningrado cercada pelos nazistas – deve parte de sua celebridade a uma transmissão de rádio feita desde Leningrado para a cidade devastada e sitiada. Aliás, ouçam o pequeno discurso da primeira faixa deste CD. É a gravação original da locução de apresentação da estreia da 7ª no rádio, feita em 9 de agosto de 1942. A sinfonia auxiliou as autoridades soviéticas a elevar o moral em Leningrado durante o cerco nazista e no país. Várias outras performances foram programadas com intenções patrióticas na União Soviética e na Europa. É música de primeira linha, mas é muito mais eficiente como musica programática de conteúdo histórico. O primeiro movimento, que descreve a marcha nazista, é esplêndido. Também é importante salientar o equívoco do grande público que vê resistência e patriotismo numa obra sobre a devastação e a morte. Mas, como diria Lênin, o que fazer?

Mais? Mais! Imaginem uma cidade cercada por alemães há 18 meses, uma orquestra improvisada vestida com suéteres e jaquetas de couro, todos magérrimos pela fome, a rádio transmitindo o concerto, várias cidades soviéticas estreando a obra ao mesmo tempo, Arturo Toscanini — anti-fascista de cabo a rabo — pedindo a partitura nos Estados Unidos (ela foi levada de avião até Teerã, de carro ao Cairo, de avião à Londres, de onde um outro avião da RAF levou a música ao maestro), Shostakovich na capa da Time. Ou seja, a 7ª é importante. Nos EUA, em poucos meses, foi interpretada por Kussevítski, Stokovski, Rodzinski, Mitropoulos, Ormandy, Monteaux, etc. Um espanto.

Numa das maiores homenagens recebidas por uma obra musical, Anna Akhmátova escreveu o seguinte poema ao ser posta à salvo das bombas alemãs pelas autoridades soviéticas:

Todos vocês teriam gostado de me admirar quando,
no ventre do peixe voador,
escapei da perseguição do mal e,
sobre as florestas cheias de inimigos,
voei como se possuída pelo demônio,
como aquela outra que,
no meio da noite,
voou para Brocken.
E atrás de mim,
brilhando com seu segredo,
vinha a que chama a si mesma de Sétima,
correndo para um festim sem precedentes.
Assumindo a forma de um caderno cheio de notas,
ela estava voltando para o éter onde nascera.

Pois é. Mas falemos a sério: não é a maior sinfonia de Shosta, só que é a famosésima.

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 6 de 12 (Sinf 7, Ashkenazy)

6-1 Shostakovich Broadcasts From Besieged Leningrad In 1941

Symphony No.7, Op.60 – “Leningrad”
6-2 Allegretto
6-3 Moderato (Poco Allegretto)
6-4 Adagio
6-5 Allegro Non Troppo

St Petersburg Philharmonic Orchestra
Vladimir Ashkenazy

BAIXE AQUI — DOWNLOAD HERE

Shostakovich: bombeiro durante a guerra

PQP

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 5 de 12 (Sinf 5, 5 Fragmentos, Ashkenazy)

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 5 de 12 (Sinf 5, 5 Fragmentos, Ashkenazy)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Esta é a obra mais popular de Dmitri Shostakovich. Recebeu incontáveis gravações e não é para menos. O público costuma torcer o nariz para obras mais modernas e aqui o compositor retorna no tempo para compor uma grande sinfonia ao estilo do século XIX. Sim, é em ré menor e possui quatro movimentos, tendo bem no meio, um scherzo composto por um Haydn mais parrudo. Mesmo para os aficcionados, é uma obra apetitosa, por transformar a linguagem do compositor em algo mais sonhador do que o habitual. Foi a primeira sinfonia de Shostakovich que ouvi. Meu pai, um romântico, apresentou-me a sinfonia dizendo que era muito melhor que as de Prokofiev, exceção feita à Nº 1, Clássica, que ele amava. Alguns consideram esta obra uma grande paródia; eu a vejo como uma homenagem ao glorioso passado sinfônico do século anterior. A abertura e a coda do último movimento (Allegro non troppo) costuma aparecer, com boa frequência, em programas de rádio que se querem sérios e influentes… Apesar de não ser típica, é absoluta e totalmente a sintaxe, o discurso e o sotaque do compositor. É a música ideal para o primeiro contato com Shostakovich.

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 5 de 12 (Sinf 5, Ashkenazy)

Symphony No.5 In D Minor, Op.47
5-1 Moderato
5-2 Allegretto
5-3 Largo
5-4 Allegro Non Troppo

Five Fragments, Op.42
5-5 Moderato
5-6 Andante
5-7 Largo
5-8 Moderato
5-9 Allegretto

Royal Philharmonic Orchestra
Vladimir Ashkenazy

BAIXE AQUI — DOWNLOAD HERE

Shostakovich e um porquinho, vocês estão vendo

PQP

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 4 de 12 (Sinf 4, Ashkenazy)

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 4 de 12 (Sinf 4, Ashkenazy)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Escrita em 1936, esta é uma sinfonia decididamente mahleriana. Shostakovich estudara Mahler por vários anos e aqui estão ecos monumentais destes estudos. Sim, monumentais. Uma orquestra imensa, uma música com grandes contrastes e um tratamento de câmara em muitos episódios rarefeitos: Mahler. O maior mérito desta sinfonia é seu poderoso primeiro movimento, que é transformação constante de dois temas principais em que o compositor austríaco é trazido para as marchas de outubro, porém, minhas preferências vão para o também mahleriano scherzo central e para o esplêndido último movimento. Ali, Shostakovich realiza uma curiosa mistura entre o tema introdutório da quinta sinfonia de Beethoven e o desenvolve como se fosse a sinfonia “Ressurreição”, Nº 2, de Mahler. Uma alegria para quem gosta de apontar estes diálogos. E o quarto movimento, que começa como o Frère Jacques do 3º movimento da Sinfonia Nº 1 de Mahler? O final é um “sanduíche”. O bizarro tema ritmado central é envolvido por dois scherzi algo agressivos e ainda por uma música de réquiem. As explicações são muitas e aqui o referencial político parece ser mesmo o mais correto para quem, como Shostakovich, considerava que a URSS viera das mortes da revolução de outubro e estava se dirigindo para as mortes da próxima guerra.

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 4 de 12 (Sinf 4, Ashkenazy)

4-1 Allegretto Poco Moderato
4-2 Presto
4-3 Moderato Con Moto
4-4 Largo
4-5 Allegro

Royal Philharmonic Orchestra
Vladimir Ashkenazy

BAIXE AQUI — DOWNLOAD HERE

Como todo ser humano inteligente, Shostakovich amava o futebol. Era torcedor do Zenit, de Leningrado, atual São Petersburgo

PQP

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 3 de 12 (Sinfs 12 e 3, Ashkenazy)

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 3 de 12 (Sinfs 12 e 3, Ashkenazy)

Na minha opinião, a Sinfonia Nº 12 é das piores peças orquestrais de Shostakovich. Consegue ser ao mesmo tempo heroica e musicalmente vazia. E o incrível é que está inserida entre outras duas sinfonias que são obras-primas e também muito políticas.

Dmitri Shostakovich compôs a Sinfonia Nº 12, Op. 112, com o subtítulo O ano de 1917, em 1961, dedicando-o à memória de Vladimir Lênin, como fez com a Sinfonia Nº 2. A 12ª foi estreada pela Orquestra Filarmônica de Leningrado sob a regência de Yevgeny Mravinsky. Esta foi a última sinfonia de Shostakovich que Mravinsky estreou. Os dois romperam quando Mravinsky, amedrontado com o maravilhoso texto de Ievtuchenko e por pressões, recusou-se a estrear a 13ª.

A Sinfonia Nº 3. Op. 20, também conhecida como Ao Primeiro de Maio foi tocada pela primeira vez pela Orquestra Filarmônica de São Petersburgo e pelo Coro Académico Capella, sob a regência de Aleksandr Gauk, em 21 de janeiro de 1930. Tal como a Sinfonia Nº 2, é uma sinfonia coral em quatro movimentos contínuos. Como a 2ª, a 3ª é pequena, durando de 25 a 30 minutos. O final apresenta um texto de Kirsanov relacionado ao Dia do Trabalhador e à Revolução. A interpretação é problemática: numa carta a Boleslav Yavorsky, Shostakovich disse que a obra “expressa o espírito da reconstrução pacífica”. Por outro lado, a maior parte do trabalho que precede o final é elaborado num tom sombrio e incluía originalmente uma parte para metralhadora.

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 3 de 12 (Sinfs 12 e 3, Ashkenazy)

Symphony No.12 In D Minor, Op.112 “The Year 1917”
3-1 Revolutionary Petrograd (Moderato – Allegro – Più Mosso – Allegro)
3-2 Razliv (Allegro. L’istesso Tempo – Adagio)
3-3 Aurora (L’istesso Tempo – Allegro)
3-4 Dawn Of Humanity (L’istesso Tempo – Allegretto – Allegro – Moderato)

Symphony No.3, Op.20 – “1st Of May”
3-5 Allegretto – Allegro
3-6 Andante
3-7 Allegro – Largo
3-8 Moderato: V Pervoye Pervoye Maya

The Bach Choir
Royal Philharmonic Orchestra
Vladimir Ashkenazy

BAIXE AQUI — DOWNLOAD HERE

Shostakovich jamais conseguiu acertar os ponteiros com os políticos

PQP

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 2 de 12 (Sinf 2, Outubro, A Canção da Floresta, Abertura Festiva, Ashkenazy)

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 2 de 12 (Sinf 2, Outubro, A Canção da Floresta, Abertura Festiva, Ashkenazy)

Shostakovich jamais deu seu melhor para as músicas heroicas e de circunstância que o regine solicitava. Atualmente, a peça mais interpretada deste disco é a boa Abertura Festiva que dá início a este CD. As outras são interessantes, apesar de serem muito menores do que aquilo que o compositor escrevia com tesão, por assim dizer. A Sinfonia Nª 2 é apenas passável. Melhor é A Canção da Floresta, que tem bons momentos. Mas, como o foco aqui são as sinfonias, vamos lá.

A Sinfonia Nº. 2, Op. 14, é também conhecida como Para Outubro, e foi escrita para comemorar o décimo aniversário da Revolução de Outubro. Sua primeira performance ocorreu com a Orquestra Filarmônica de Leningrado e o Coral Capella da Academia, sob Nikolai Malko, no dia 5 de novembro de 1927. Shostakovich revisitou posteriormente os eventos da Revolução de Outubro na igualmente desinteressante Sinfonia Nº 12, chamada de O Ano de 1917.

Importante salientar que Shostakovich, em seus anos jovens, provavelmente era um sincero comunista que foi pouco a pouco se decepcionando, se irritando e usando de sarcasmo para com as exigências e a violência de Stálin e de quem veio depois. Porém, depois do sarcasmo e de certa forma peitar o regime, Shosta foi obrigado a dobrar-se e deprimiu-se muito. Sofreu demais, principalmente sob Stálin e após o episódio com Stravinski, que o perdoou. Sofreu demais, de certa forma cansou e é uma pessoa quase ininterpretável hoje. Apesar dos chutes dos biógrafos, ninguém sabe bem qual era o pensamento político de Shostakovich. Já o músico foi brilhante, muito produtivo, alegre, sarcástico e doloridíssimo, muitas vezes tudo ao mesmo tempo.

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 2 de 12 (Ashkenazy)

2-1 Festive Overture, Op.96

2-2 October – Symphonic Poem, Op.131

2-3 Symphony No.2 In B Major, Op.14 – “To October”

Song Of The Forests – Oratorio, Op.81
2-4 When The War Was Over
2-5 The Call Rings Through The Land
2-6 Memory Of The Past
2-7 The Pioneers Plant The Forest
2-8 The Young Communists Forge Onwards
2-9 Walk Into The Future
2-10 Glory

Royal Philharmonic Orchestra
Vladimir Ashkenazy

BAIXE AQUI — DOWNLOAD HERE

A animação de Shostakovich e Britten nesta foto é contagiante.

PQP

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 1 de 12 (Sinfs 1 e 6, Ashkenazy)

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 1 de 12 (Sinfs 1 e 6, Ashkenazy)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Sinfonia Nº 1, Op. 10 (1924-1925)

Shostakovich começou a escrever esta sinfonia quando tinha dezessete anos. Antes disso, tinha composto alguns scherzi que só interessaram à musicólogos. Sua estreia foi mesmo com esta Nº 1, terminada antes do autor completar vinte anos. Ela tornou aquele estudante de música, mais conhecido por ser pianista-improvisador de três cinemas mudos de Petrogrado, internacionalmente célebre. Tal fama pode ser atribuída por Shostakovich ser o primeiro rebento musical do comunismo, mas ouvindo a sinfonia hoje, não nos decepcionamos de modo algum. É música de um futuro mestre.

Ela começa com um toque de trompete ao qual, se acrescentarmos um crescendo, tornar-se-á um tema de Petrouchka, de Igor Stravinsky. Alguns regentes russos fazem esta introdução exatamente igual à Petroushka. É algo curioso que o jovem Dmitri tenha feito esta homenagem, quando dizia que seus modelos — e isto foi comprovadíssimo logo adiante — eram Mahler, Bach, Beethoven e Mussorgski. Mas há mesmo algo de “boneca triste” no primeiro movimento desta sinfonia. O segundo movimento possui um curioso tema árabe, que é a primeira grande paródia encontrada em sua obra. Um achado.

O movimento lento, muito triste, é daqueles que os anticomunistas mais truculentos considerariam uma comprovação do sofrimento do compositor sob o comunismo e de uma postura fatalista do tipo isto-não-vai-dar-nada-certo, porém acreditamos que a morte de seu pai, ocorrida alguns meses antes e a internação de Dmitri num sanatório da Crimeia (ele contraíra tuberculose) tenha mais a ver. Há um belíssimo solo funéreo de oboé nele.

Sinfonia Nº 6, Op. 54 (1939)

Uma perfeição esta sinfonia cujo dramático, concentrado e lírico primeiro movimento (um enorme Largo) é seguido por dois allegros, sendo o último pra lá de burlesco e circense (Presto). A estrutura estranha e inexplicável tem o efeito, ao menos em mim, de uma compulsão por ouvi-la e reouvi-la. Acho que volto sempre a ela com a finalidade de conferir se o primeiro movimento é mesmo tão perfeito e profundo e para buscar uma explicação para a galinhagem final — isto aqui não é uma tese acadêmica, daí a palavra “galinhagem” ser permitida… Nossa sorte é que existe aquele segundo Allegro central para tornar a passagem menos chocante. Esta belíssima obra talvez faça a alegria de qualquer maníaco-depressivo. É uma trilha sonora perfeita para quem sai das trevas para um humor primaveril em trinta minutos — ou menos. Começa estática e intelectual para terminar num circo. Simplesmente amo esta música! É um pacote completo de desespero, sorrisos e gargalhadas.

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias e mais — CD 1 de 12 (Ashkenazy)

Symphony No.1, Op.10
1-1 Allegretto – Allegro Non Troppo
1-2 Allegro
1-3 Lento
1-4 Lento – Allegro Molto

Symphony No.6 In B Minor, Op.54
1-5 Largo
1-6 Allegro
1-7 Presto

Royal Philharmonic Orchestra
Vladimir Ashkenazy

BAIXE AQUI — DOWNLOAD HERE

Shostakovich jogando xadrez na sede de lazer do PQP Bach Corp. em Petrogrado

PQP

Martha Argerich & Friends – Live from Lugano Festival – 2008

Fiz uma pausa nas postagens dessa série da nossa amada Martha Argerich em seu Festival de Lugano para dar lugar às comemorações dos 210 anos de nascimento de Robert Schumann. Hoje trago mais um volume, mais três CDs que mostram todo talento e versatilidade desta excepcional artista.

Não preciso dizer o quanto Martha ama Schumann, tanto que temos aqui no primeiro CD a belíssima Sonata nº 2 para Violino e Piano, acompanhando o violinista Renaud Capuçon. Outro momento a destacar é sua parceria com o ex marido pianista Stephen Kovacevich, tocando uma peça de Mozart.

Mas o mais belo, lírico e pungente é o terceiro CD, onde abre tocando seu conterrâneo Piazzolla, em versões matadoras para dois pianos, claro que ele não poderia faltar, assim como Ravel. Martha distribui o repertório desta série entre seus convidados, alguns conhecidos, outros desconhecidos, dando chance e permitindo que sejam conhecidos.

A relação dos músicos envolvidos está no booklet em anexo.

Vamos ao que viemos?

CD 1
01. Variations (5) on an original theme for piano, 4 hands in G major, K. 501
02. Sonata for violin & piano No. 2 in D minor, Op. 121- 1. Ziemlich langsam – Le
03. Sonata for violin & piano No. 2 in D minor, Op. 121- 2. Sehr lebhaft
04. Sonata for violin & piano No. 2 in D minor, Op. 121- 3. Leise, einfach
05. Sonata for violin & piano No. 2 in D minor, Op. 121- 4. Bewegt
06. Piano Quintet in D major, Op. 51- 1. Allegro moderato
07. Piano Quintet in D major, Op. 51- 2. Andante con variazioni
08. Piano Quintet in D major, Op. 51- 3. Scherzo- Allegro vivace
09. Piano Quintet in D major, Op. 51- 4. Allegro moderato
10. Scherzo for 2 pianos, Op. 87

CD 2
01. Piano Trio No. 1 in C minor, Op. 8
02. Suite No. 1 (-Fantaisie-tableaux-) for 2 pianos in G minor, Op. 5- 1. Barcarolle
03. Suite No. 1 (-Fantaisie-tableaux-) for 2 pianos in G minor, Op. 5- 2. La Nuit
04. Suite No. 1 (-Fantaisie-tableaux-) for 2 pianos in G minor, Op. 5- 3. Les Larmes
05. Suite No. 1 (-Fantaisie-tableaux-) for 2 pianos in G minor, Op. 5- 4. Pâques
06. Concertino for piano, 2 violins, viola, clarinet, horn & bassoon, JW 7-11- 1
07. Concertino for piano, 2 violins, viola, clarinet, horn & bassoon, JW 7-11- 2
08. Concertino for piano, 2 violins, viola, clarinet, horn & bassoon, JW 7-11- 3
09. Concertino for piano, 2 violins, viola, clarinet, horn & bassoon, JW 7-11- 4
10. Slavonic Dance No. 1 for piano, 4 hands in C major, B. 78-1 (Op. 46-1)
11. Slavonic Dance No. 12 for piano, 4 hands in D flat major, B. 145-4 (Op. 72-4)
12. Slavonic Dance No. 7 for piano, 4 hands in C minor, B. 78-7 (Op. 46-7)
13. Slavonic Dance No. 10 for piano, 4 hands in E minor, B. 145-2 (Op. 72-2)

CD 3

01. Tres minutos con la realidad, tango
02. Oblivion, tango
03. Libertango, tango
04. Introduction & Allegro for harp, flute, clarinet & string quartet
05. Cuatro estaciónes porteñas (The Four Seasons), tango cycle- 1. Verano porteño
06. Cuatro estaciónes porteñas (The Four Seasons), tango cycle- 2. Otoño porteño
07. Cuatro estaciónes porteñas (The Four Seasons), tango cycle- 3. Invierno porteño
08. Cuatro estaciónes porteñas (The Four Seasons), tango cycle- 4. Primavera porteña
09. Fantasia elvetica (-Swiss Fantasy-), for 2 pianos & orchestra- 1. Maestoso
10. Fantasia elvetica (-Swiss Fantasy-), for 2 pianos & orchestra- 2. Tranquillo
11. Fantasia elvetica (-Swiss Fantasy-), for 2 pianos & orchestra- 3. Tempo di marcia – Andante
12. Fantasia elvetica (-Swiss Fantasy-), for 2 pianos & orchestra- 4. Tempo di polka – Piú vivo – Allegro

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE
BOOKLET – BAIXE AQUI