Este disco foi gravado em 2009, para as comemorações dos 100 anos da polonesa Grażyna Bacewicz, uma pioneira dentre as compositoras mulheres. O CD envolve apenas músicos polacos e é muitíssimo bom. Zimerman e seu grupo dá interpretações de altíssima temperatura emocional às obras de sabor neoclássico de Bacewicz.
Uma grande surpresa: um CD de primeira linha dedicado a uma compositora que não tinha obras postadas aqui no PQP! (Postagem original de 2017)
Grażyna Bacewicz (1909-1969): Sonata para Piano Nº 2 e Quintetos para Piano Nº 1 e 2 (Zimerman)
Piano Quintet No.1
1. 1. Moderato molto espressivo [8:19]
2. 2. Presto [4:31]
3. 3. Grave [8:02]
4. 4. Con passione [5:11]
Sonata No. 2 for Piano
5. Maestoso [6:15]
6. Largo [8:56]
7. Toccata [3:36]
Sim, sim, um disco extraordinário. Aqui, há várias lições: (1) John Adams ensina como o minimalismo pode ser mais legal sem vidro, (2) como uma orquestra formada por jovens jazzistas acompanhados por músicos eruditos rendem e exploram adequadamente a irreverência deste espetacular repertório, (3) como meu pai tinha razão ao dizer e repetir que da música do século XX, a mais ampla, ventilada, livre e bela fora o jazz e (4) como estão corretos aqueles músicos que olham para cá e para lá. Boa diversão!
Adams, Antheil, Bernstein, Gershwin, Hindemith, Milhaud, Stravinsky, Raskin: New World Jazz (Tilson Thomas)
1 Lollapalooza
Composed By – John Adams
6:32
2 Rhapsody In Blue
Clarinet – Jerome Simas
Composed By – George Gershwin
Piano – Michael Tilson Thomas
17:16
3 Prelude, Fugue And Riffs
Clarinet – Tad Calcara
Composed By – Leonard Bernstein
8:23
4 La Création Du Monde
Composed By – Darius Milhaud
17:45
5 Ebony Concerto
Clarinet – Jerome Simas
Composed By – Igor Stravinsky
Trumpet – Mark Niehaus
9:24
6 Ragtime
Composed By – Paul Hindemith
3:14
7 A Jazz Symphony
Composed By – George Antheil
Piano – Michael Linville
Trumpet – Mark J. Inouye*
11:45
8 Theme From The Bad And The Beautiful
Composed By – David Raksin
3:39
Meu pai ouvia muita música em casa e, no final dos anos 60, quando eu tinha uns 12 anos, iniciou-se uma luta: eu queria ouvir Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin, The Who e Mutantes e ele seus sambas e compositores eruditos românticos. Tínhamos poucos pontos de concordância: Chico Buarque, Paulinho da Viola e a bossa nova em geral. Até hoje tenho dificuldades em ouvir Chopin, Rachmaninov, Schumann, Berlioz e outros. Não consigo realmente entender os românticos, à exceção de Brahms e dos tardios.
Naquela época, num fim de tarde que jamais esqueci, eu estava dentro do banheiro, me secando após um banho, quando fui obrigado a sair correndo para a sala, pois estava ouvindo algo absolutamente espetacular, lindo, inteligente, de força rítmica e pensamentos musicais profundos, algo nunca ouvido. Perguntei a meu pai o que era aquilo e ele me disse que era o Concerto Nº 3 de Brandenburgo, da autoria de um sujeito que se localizava como o campeão na mitologia dos compositores e que eu nunca tinha ouvido: Johann Sebastian Bach, o aniversariante de hoje.
Desde aquele dia, Bach se transformou numa espécie de companheiro de vida. Nunca me foi hostil, sempre me trouxe alegria e beleza. Celebrar seu aniversário de 341 anos é, de certo modo, celebrar nossa amizade — um pobre diabo apaixonado por um monumento — e a própria ideia de ordem no mundo — uma ordem que não exclui a emoção, mas a organiza, a eleva e a torna compreensível. Ninguém conseguiu unir com tamanha perfeição o rigor da arquitetura e a liberdade da expressão. Nele, tudo tem sentido, cada linha carrega uma intenção, e no entrelaçamento das diversas vozes surge algo que ultrapassa o humano — não por negar a experiência humana e suas grandezas e fraquezas, mas por levá-la ao seu grau mais alto de transparência e beleza.
Há em Bach uma espécie de confiança radical na inteligência e na lógica. Obras como o Cravo Bem Temperado, a Missa em Si Menor ou a Paixão Segundo Mateus (retirem o “São”, Bach não pôs “Sankt” no título) não são apenas composições: são sistemas vivos, universos autônomos onde emoção, fé e razão existem sem conflito. Seus contrapontos não são exercícios intelectuais estéreis, masturbatórios, mas uma forma de dar voz à complexidade do mundo — como se múltiplas verdades pudessem soar ao mesmo tempo, sem se anularem.
Porém, é claro que o que mais me impressiona é a humanidade dessa grandeza. Bach jamais escreveu para a posteridade, mas para circunstâncias concretas — igrejas, cortes, alunos, ocasiões específicas. Ainda assim, dessa prática cotidiana nasceu uma música transcende qualquer ocasião e que nos fala de perto ainda hoje. Ouvi-lo é perceber que o tempo não diminui certas obras — ao contrário, torna-as mais necessárias. Porque em Bach encontramos uma forma de equilíbrio — uma promessa de que, mesmo no caos, a harmonia é possível.
Bach não precisa de defesa (quem precisa é o Inter) — ele se impõe por si mesmo. Mas hoje é o dia de você ouvir uma de suas Paixões, um de seus prelúdios, uma de suas fugas ou beber uma cerveja — como as que ele produzia. Que a música de Bach continue a nos ensinar que o rigor pode ser apaixonado, que a fé pode ser artesanal (e pessoal, por favor), que o tempo — esse mesmo tempo que hoje nos faz lembrar de sua data de nascimento — pode ser, por alguns instantes, suspenso. Bach foi um presente que recebemos. O mais duradouro, o mais profundo, o mais sublime dos presentes.
Neste mês dedicado a Sergei Rachmaninoff (post original de 2023), compositor romântico tardio e também grande virtuose do piano, recordaremos alguns outros pianistas do século passado que, de uma maneira ou de outra, cruzaram suas trajetórias com as do homenageado. O pianista de hoje é Shura Cherkassky (1909 – 1995): embora mais de 30 anos mais jovem que Sergei, eles têm em comum o fato de terem saído da Rússia na década de 1910 em meio às turbulências da 1ª Guerra e da Revolução. O corpo dos dois saiu da Rússia, mas a alma continuou profundamente russa, fazendo um tipo de música característica das expressões do romantismo tardio na Europa Oriental, como veremos a seguir.
A mãe de Shura, Lydia Cherkassky, era uma pianista conhecida em São Petersburgo, tendo tocado para Tchaikovsky, que aliás era um compositor importante no repertório de Shura, não só com seu famoso concertos mas também com peças para piano solo pouco tocadas por outros pianistas. Cherkassky foi, portanto, o continuador de uma certa tradição pianística da Europa Oriental, não só por suas origens russas mas também como aluno do polonês Josef Hofmann (1876-1957). Hofmann foi um dos pianistas mais célebres do mundo na virada do século XIX para o XX, embora por volta de 1930 sua prodigiosa técnica já não fosse a mesma devido ao alcoolismo, o que significa que poucas gravações fazem jus ao seu talento. Em 1909, Rachmaninoff dedicou seu 3º Concerto – o mais difícil dos quatro – para Hofmann. Anos depois, constatando o declínio do polonês, Rach afirmou: “Hofmann ainda é um grande … o maior pianista vivo se ele estiver sóbrio e em forma. Se não for o caso, é impossível reconhecer o antigo Hofmann.” O polonês, por sua vez, foi aluno de Anton Grigoryevich Rubinstein (1829-1894), pianista russo que foi frequentemente considerado o maior do mundo em sua época, além de compor cinco concertos para piano quase esquecidos hoje em dia. Anton Rubinstein, aliás, não era parente de Arthur Rubinstein, embora ambos tivessem origens judaicas. (Para um comentário sobre a “escola” dos alunos de Anton Rubinstein, confira o interessantíssima postagem do colega Alex aqui).
A partir de várias resenhas em jornais e outros textos do século XIX, o crítico Harold C. Schonberg, no livro The Great Pianists (1963), resume que Anton Rubinstein tocava com “extraordinária amplitude, vitalidade e virilidade, imensa sonoridade e grandiosidade”. Características também do romantismo tardio de Rachmaninoff, e que tinham como tradição mais ou menos rival o pianismo francês de compositores como Debussy, Fauré, Saint-Saëns e Ravel. Estes últimos evitavam as sonoridades exageradamente barulhentas – notem a quantidade de expressões masculinas na descrição de Harold Schonberg, muitas delas caberiam em um anúncio daquele remédio que os Generais brasileiros adoram – e se associaram a grandes intérpretes do início do século como Alfred Cortot, Ricardo Viñes, o próprio Saint-Saëns e muitas mulheres, incluindo Guiomar Novaes, Marguerite Long e Clara Haskil.
Mas o pianista do dia, de certa forma herdeiro daquela tradição romântica russa/polonesa, é Cherkassky, que foi um grande intérprete das obras de Rach (aqui) e também de uma pequena fantasia chamada Caleidoscópio, composta por Hofmann:
O que mais me interessa neste disco de hoje, registro de um recital de Cherkassky em Lugano (Suíça), é a sua reinvenção da sonata de um outro compositor romântico, Robert Schumann. Embora Shura também seja impecável em seu Debussy, Berg e Stravinsky – ou seja, ele não se limita como apenas um pianista romântico – o que me impressiona mesmo é a diversidade de emoções que ele extrai da 1ª Sonata de Schumann, já iniciando pelo sarcasmo das primeiras notas, seguido por alternâncias típicas de Schumann entre seriedade, melancolia e humor.
Robert Schumann foi um grande estudioso das obras de Bach e Beethoven mas, ao contrário deste último, ele não compôs sonatas para piano de grande invenção contrapontística em um estilo “maduro” no fim de sua vida. Se quisermos ouvir o Schumann maduro é melhor buscarmos outras obras como o o muito original concerto para violoncelo.
Talvez por isso, as três sonatas para piano de Schumann raramente (pra não dizer: nunca) são tocadas em bloco em um único recital ao vivo: ao contrário das sonatas de Beethoven, que mostram as mudanças no percurso do compositor, as de Schumann ficam nessa alternância de humores e sabores tipicamente românticos, sem apontar para uma evolução estilística. Se isso pode ser considerado um defeito, por outro lado é uma qualidade, sobretudo em nossos tempos já calejados quanto a essas ideias sobre evolução e progresso como o objetivo da humanidade, não é mesmo? Quando o progresso se mostra violento e sujo, sentimentos românticos parecem reaparecer com toda a força hipnotizante do som do piano de Cherkassky. Uma última observação: assim como Sviatoslav Richter (1915-1997), Cherkassky parecia detestar as gravações em estúdio, talvez porque sua arte – como a dos pianistas mais velhos Anton Rubinstein, Hofmann e Rach – tivesse esse aspecto tão importante da atração hipnótica sobre uma plateia presente.
Shura Cherkassky – Lugano, 1963 Felix Mendelssohn: Rondo Capriccioso in E major op. 14 Robert Schumann: Sonata no. 1 in F-sharp minor op. 11
I. Introduzione (Un poco adagio) – Allegro vivace; II. Andante cantabile; III. Scherzo e Intermezzo (Allegrissimo); IV. Finale (Allegro un poco maestoso) Alban Berg: Sonata op. 1 Claude Debussy: L’Isle joyeuse Igor Stravinsky: Trois mouvements de Petrouchka
I. Danses russes; II. Chez Petrouchka; III. La Semaine grasse Francis Poulenc: Toccata
Shura Cherkassky – piano
Recorded at Auditorio Radiotelevisione della Svizzera italiana, Lugano, 5/12/1963
As três últimas Sonatas para Piano de Franz Schubert, incrivelmente compostas em setembro de 1828, poucas semanas antes de sua morte prematura, constituem um testamento sonoro de rara grandeza e introspecção. Longe de serem meras heranças beethovenianas, elas revelam um Schubert já plenamente visionário: a estrutura clássica é invadida por harmonias inquietantes e uma expressividade que oscila entre o desespero e a transcendência. A D. 958 ecoa a fúria dramática de Beethoven, mas com a melancolia tipicamente schubertiana. A D. 959 expande-se em um Andantino de dor quase expressionista, seguido de um Scherzo fantasmagórico. A D. 960 coroa essa trilogia. Abre com um tema de simplicidade celeste, só para submergir em regiões de silêncio perturbador e nostalgia cósmica. Juntas, formam uma viagem ao abismo e à redenção — não como confissão biográfica, mas como geografia da alma humana, onde a forma clássica se rompe para dar voz ao inefável. São, nas palavras de Alfred Brendel, “a despedida de um poeta que já habitava um mundo além do seu tempo”.
Esta interpretação é “ao pianoforte”. Ou seja, é historicamente informada. Eu, acostumado a ouvir estas Sonatas no piano moderno — Brendel e Pollini –, às vezes me surpreendo pedindo uma sonoridade mais cheia e aumento o volume inutilmente. De qualquer forma, o trabalho do talentosíssimo Staier é primoroso, belíssimo, meticuloso.
Franz Schubert (1797-1828): As Últimas Sonatas para Piano (Staier)
Sonata In C Minor D 958
1-1 Allegro 11:08
1-2 Adagio 8:43
1-3 Menuetto: Allegro · Trio 2:58
1-4 Allegro 9:31
Sonata In A Major D 959
1-5 Allegro 16:19
1-6 Andantino 8:18
1-7 Scherzo: Allegro Vivace · Trio: Un Poco Più Lento 4:32
1-8 Rondo: Allegretto 12:44
Sonata In B Flat Majpr D 960
2-1 Molto Moderato 21:59
2-2 Andante Sostenuto 9:48
2-3 Scherzo: Allegro Vivace · Trio 4:18
2-4 Allegro Ma Non Troppo 8:48
Três obras-primas absolutas de Schubert. A gravação de Sepec / Staier / Dieltiens é excelente e imbatível no âmbito dos instrumentos originais. (Sim, prefiro o Beux Arts, mas este aqui é um registro de alta qualidade). “Um vislumbre dos trios de Schubert e a agitação e a angústia da existência humana desaparecem”, escreveu Robert Schumann em 1836, elogiando o Op. 99. Ele também admirava enormemente o esplêndido Op. 100 do compositor vienense, principalmente o Andante con moto — uma das mais belas peças de todos os tempos, na opinião de PQP Bach –, que lembra uma marcha fúnebre e que foi utilizado por Stanley Kubrick em Barry Lyndon. Staier, Sepec e Dieltiens trazem à tona novas nuances dessas obras fascinantes em instrumentos de época, que incluem uma cópia de um pianoforte vienense de 1827. Sim, há muitas gravações desses trios por aí. Esta é muito especial.
Franz Schubert (1797-1828): Piano Trios Op. 99 & 100 / Noturno (Sepec, Staier, Dieltiens)
Piano Trio No. 1. Op. 99
1-1 Allegro Moderato 14:45
1-2 Andante Un Poco Mosso 11:01
1-3 Scherzo. Allegro 6:46
1-4 Rondo. Allegro Vivace 9:25
Desde a década de 1980 ou 90 a Europa conta com uma ampla variedade de grupos historicamente informados dedicados à música pré-romântica. Cada um foi encontrando seu nicho e é possível afirmar que os belgas liderados por Kuijken são especialistas na música do período próximo à Revolução Francesa, ou seja: principalmente Haydn e Mozart mas também C.P.E. Bach e Glück. Alguém poderá recordar que esse conjunto também gravou uma penca de coisas de Bach além de Monteverdi, Schütz, Rameau, etc. É verdade, mas ainda assim é nas Sinfonias e Concertos de Haydn que eles se esbaldam, jogam em casa, se apresentam como peixes dentro d’água.
As Sinfonias nº 103 e 104 são as duas últimas, compostas no período de guerras europeias logo após a Revolução de 1789 e, assim como as Missas tardias de Haydn, contestam a visão de classicismo confortável e conformista que adere até certo ponto ao bocado maior da obra desse longevo compositor. Compostas para sua segunda viagem a Londres, ambas estão entre as obras de Haydn mais apresentadas hoje em dia. Nada contra a 104, mas a 103 tem um lugar muito especial no meu coração, provavelmente pelo uso inventivo e emocionante que se faz ali da percussão.
Recordemos, finalmente, que viajar da Áustria para Londres aos 62 anos de idade não era nada comum à época: a qualidade das estradas e dos navios, os incômodos e imprevistos devem ter sido vários, e Haydn se mostra um personagem, digamos, mais “mochileiro” do que Beethoven ou mesmo Mozart, pois as viagens deste último foram principalmente na juventude. O sucesso de Haydn em Londres foi enorme e ele era uma celebridade na época, conhecido – ao menos de nome – por gente que não era especialista em música, como por exemplo Napoleão Bonaparte.
Franz Joseph Haydn (1732-1809):
Symphony In E Flat Major, Hob I:103 ‘Mit Dem Paukenwirbel’
1 Adagio – Allegro Con Spirito 9:31
2 Andante Più Tosto Allegro 10:56
3 Menuet – Trio 3:55
4 Finale. Allegro Con Spirito 5:34
Symphony In D Major, Hob I:104 ‘Salomon’
5 Adagio – Allegro 8:37
6 Andante 8:45
7 Menuetto. Allegro – Trio 3:22
8 Finale Spirituoso 6:50
La Petite Bande, Sigiswald Kuijken
Recorded: 1995, Doopgsgezinde Kerk, Haarlem (NL)
Post-scriptum: este outro CD foi parar no meu HD há uns anos, não sei mais dizer como. Traz uma gravação ao vivo semi-oficial, provavelmente de rádio, da Sinfonia 102 de Haydn, também estreada em Londres, com o maestro Ferdinand Leitner (1912-1996), outro sujeito que se dava muito bem com esse repertório dos vienenses, como ilustrado na sua famosa gravações dos Concerto de Beethoven com Kempff, tendo em vista que os dois primeiros concertos têm uma sensibilidade bem próxima de Haydn. A orquestra não usa instrumentos antigos e às vezes o legato das cordas pode ser estranhado por ouvidos já mais acostumados com La Petite Bande e Kuijken, mas o maestro fez o estilo de Haydn e de Mozart reviver diante das plateias em 1988, no que devem ter sido concertos muito especiais.
Wolfgang Amadeus Mozart: Symphony no. 35
Franz Joseph Haydn: Symphony no. 102
Ferdinand Leitner, Bavarian RSO, 1988
Ninguém deve roubar ou matar por este CD. Ele é bom, mas também não é extraordinário. As Cantatas de Alessandro Scarlatti (1660-1725) — em especial suas mais de 600 cantatas para voz solo e baixo contínuo — representam o ápice da cantata profana barroca italiana, moldando um gênero que equilibrava drama, lirismo e intimidade. Não se comparam às Cantatas Italianas de Handel, que humilha AS de cima a baixo. Compostas predominantemente para vozes de castrato ou soprano, essas obras são micro-óperas sem cenário, estruturadas em uma sequência de recitativos expressivos (onde a palavra avança a ação) e árias. Scarlatti refinou a forma do recitativo acompanhado e consolidou a ária com orquestração rica, utilizando o baixo contínuo não apenas como suporte, mas como personagem ativo no diálogo com a voz. Seus temas — quase sempre extraídos da mitologia clássica — ganham vida através de uma escrita vocal que exige tanto agilidade técnica quanto profundidade retórica, enquanto as linhas do baixo prenunciam o Classicismo, mas não se entusiasme muito. Em suas cantatas, Scarlatti lançou as bases para a ópera séria do século XVIII, tornando-se assim um arquiteto fundamental da expressão vocal barroca.
Alessandro Scarlatti (1660-1725): Cantatas para Soprano & Música de Câmara (Rottsolk, Tempesta di Mare)
Bella Dama Di Nome Santa
Arranged By – Richard Stone (4)
(12:57)
1 I. Introduzzione 3:13
2 II. Recitativo. ‘Tu Sei Quella, Che Al Nome Sembre Giusta’ 0:59
3 III. Aria. ‘Dal Nome Tuo Credei’ 3:26
4 IV. Recitativo. ‘Fedeltade Ne Pur Ottien Ricetto’ 1:20
5 Aria. ‘Il Nome Non Vanta Di Santa Colei’ 3:57
Bella, S’io T’amo (11:20)
6 I. Recitativo. ‘Bella, S’io T’amo’ 0:51
7 II. Aria. “Ardo È Ver Per Te D’amore” 5:58
8 III. Recitativo. ‘T’amo Sì, T’amo O Cara’ 1:25
9 IV. Aria. “Quel Vento Che D’intorno” 3:24
Concerto IX In A Minor (9:18)
10 I. Allegro 1:36
11 II. Largo 1:31
12 III. Fuga 2:33
13 IV. Largo 1:32
14 V. Allegro 2:02
Quella Pace Gradita (17:09)
15 I. [Sinfonia] 3:45
16 II. Recitativo. ‘Quella Pace Gradita’ 0:59
17 III. Aria. ‘Crudel Tiranno Amore’ 3:25
18 IV. Recitativo. ‘O Voi Selve Beate’ 0:53
19 V. Aria. ‘Care Selve Soggiorni Di Quiete’ 3:05
20 VI. Recitativo. ‘Lungi, Lungi Da Me Tiranno Amore’ 1:05
21 VII. Aria. ‘Teco O Mesta Tortorella’ 3:52
Cantata Pastorale A Canto Solo Con Violini: ‘Non So Qual Più M’ingonbra’ (16:55)
22 I. Recitativo Accompagnato. ‘Non So Qual Più M’ingonbra’ 2:31
23 II. Aria. “Che Sarà! Chi A Me Lo Dice!’ 5:08
24 III. Recitativo. ‘È Nato, Alfin Mi Dice’ 1:08
25 IV. Aria Pastorale. ‘Nacque Col Gran Messia’ 8:06
As sinfonias que abrem (ou “interrompem”) algumas das Cantatas de J.S. Bach não são “sinfonias” no sentido clássico posterior, mas sim movimentos instrumentais de abertura que funcionam como prelúdios orquestrais. Em geral, Bach utilizava esses movimentos para estabelecer o afeto teológico e musical da cantata, muitas vezes reaproveitando material de seus próprios concertos (como os Concertos de Brandemburgo) ou criando texturas contrapontísticas densas. Essas aberturas, muitas vezes em forma de concerto grosso, revelam não apenas a maestria instrumental do compositor, mas também sua capacidade de fundir o sagrado e o profano: o mesmo material que animava uma dança secular podia, na Cantata, elevar-se como invocação ao divino. Assim, as sinfonias das cantatas são portais sonoros que convidam o ouvinte a adentrar um universo onde a música instrumental e a vocal dialogam em serviço à expressão espiritual. Esta gravação é muito boa e, digamos, atléticas — como lhes é exigido.
J. S. Bach (1685-1750): Sinfonias de Cantatas (Watanabe, Veggetti, Ensemble Cordia)
1 Sinfonia From Cantata BWV188 “Iche Habe Meine Zuversicht” 7:44
2 Sinfonia From Cantata BWV174 “Ich Liebe Den Höchsten von Ganzem Gemüte” 5:32
3 Sinfonia From Cantata BWV169 “Gott Soll Allein Mein Herze Haben” 7:35
4 Sinfonia From Cantata BWV12 “Weinen, Klagen, Sorgen, Zagen” – Adagio Assai 2:44
5 Sinfonia From Cantata BWV49 “Ich Geh Und Suche Mit Verlangen” 6:29
6 Sinfonia From Cantata Bwv146 “Wir Müssen Durch Viel Trübsal” 7:44
7 Sinfonia From Cantata BWV35 “Geist Und Seele Wird Verwirret” – 1st Part 5:24
8 Sinfonia From Cantata BWV35 “Geist Und Seele Wird Verwirrent” – 2nd Part, Presto 3:25
9 Sinfonia From Cantata Bwv156 ““Ich Steh Mit Einem Fuß Im Grabe” – Adagio” 2:30
10 Sinfonia From Cantata BWV52 “Falsche Welt, Dir Trau Ich Nicht” 3:52
O Quarteto Arditti foi fundado em 1974 e seus membros são especialistas na música dos séculos XX e, já há alguns anos, tabém na do século XXI. Uma breve ida ao google me informa que em 2025 eles gravaram uma estranhíssima obra do compositor cipriota Evis Sammoutis (Ρίμες – Rhymes, composto em 2012) que você pode conferir aqui. Então, em comparação, para eles o 4º quarteto de Bartók é uma das obras mais tradicionais do seu repertório.
Diferentes entre si em muitos sentidos, os quartetos de Bartók, Schnittke e Gubaidulina escolhidos pelo Arditti têm também algumas coisas em comum como o uso de técnicas pouco comuns ou até comuns mas aqui exageradas: momentos em que o glissando ou o pizzicato é levado a extremos que podem causar desconforto, admiração ou outros sentimentos no ouvinte. Para os músicos, certamente não são de tranquila execução.
Arditti Quartet:
1-5. Bartók: Quartet No. 4 (1928)
6. Gubaidulina: Quartet No. 3
7-10. Schnittke: Quartet No. 2
I. Arditti (vl.), D. Alberman (vl.), L. Andrade (vla.), R. de Saram (vc.)
Recorded: New York, 1990
Falar sobre a importância destas duas obras na evolução musical do Século XX é como chover no molhado. Muito já se falou sobre elas, inclusive aqui no PQPBach, que já trouxe gravações de altíssimo nível, mas pesquisando no histórico de nossas postagens, nem são tantas assim. Destacaria Pierre Boulez, talvez um dos principais intérpretes do húngaro do final do século, em uma postagem de nosso mentor, PQPBach, lá de 2015.
Hoje trago aqui para os senhores a gravação do maestro suíço Charles Dutoit, em um registro de 1988, frente à Orquestra Sinfonica de Montreal, que dirigiu por 25 anos, e com quem gravou quase 100 discos. Vale a pena conhecer, Dutoit foi um craque nesse repertório, e conseguiu extrair da orquestra canadense uma interpretação coesa e extramente virtuosística.
Concerto For Orchestra
I. Introduzione
II. Giuoco Delle Coppie
III. Elegia
IV. Intermezzo Interrotto
V. Finale
Music For Strings, Percussion And Celesta
I. Andante Tranquillo
II. Allegro
III. Adagio
IV. Allegro Molto
Dois músicos cubanos fazendo um tipo de música que às vezes cai pro lado do jazz, depois parece meio música de hall de hotel mas mais à frente traz momentos mais tortos que não cairiam tão bem no suposto hall onde os supostos turistas não querem nada que saia do controle.
Yilian Canizares alterna entre seu lado violinista e seu lado cantora. É nessa alternância que surgem as surpresas mais interessantes do álbum. Desnecessário explicar o motivo pelo qual certos momentos de influência africana soam familiares para ouvidos brasileiros, aliás o título de um disco mais recente de Yilian é Habana-Bahia.
Omar já tinha aparecido no blog (aqui), Tilian faz sua estreia hoje e, salvo engano, não tem histórico de muitas visitas ao Brasil. É uma pena: sua música é bastante compreensível para os nossos ouvidos e ao mesmo tempo foge dos lugares comuns de gêneros como o latin jazz, a salsa e a bossa nova.
Omar Sosa, Yilian Cañizares:
1 Duo de Aguas 3:12
2 Dos Bendiciones 4:01
3 De La Habana y Otras Nostalgias 4:28
4 Milonga 7:17
5 O Le Le 5:03
6 Sanzara 5:38
7 Sonrisas de Ninos 3:58
8 Oshun 3:51
9 Se Van Los Mios 5:31
10 La Respiracion 4:37
11 D2 de Africa 7:15
Uma Cantata formada exclusivamente de poemas sobre a morte. A Sinfonia Nº 14, op. 135, composta em 1969, marca um ponto extremo na trajetória de Shostakovich, afastando-se definitivamente do modelo sinfônico tradicional para se aproximar de um ciclo de canções orquestrais. Escrita para soprano, baixo, cordas e percussão, a obra reúne poemas de García Lorca, Apollinaire, Küchelbecker e Rilke, todos atravessados pela consciência aguda da finitude, da violência e da injustiça histórica. Aqui não há redenção nem ironia protetora: a música é austera, cortante, muitas vezes esquelética, e trata a morte não como abstração metafísica, mas como realidade política e humana concreta. A Sinfonia Nº 14 soa como um testamento artístico e moral, em que Shostakovich, já gravemente doente, confronta o silêncio final, recusando qualquer consolo fácil e transformando o próprio gênero sinfônico em um espaço de reflexão existencial.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonia Nº 14, Op. 135 (Slovák)
Symphony No. 14 for Soprano, Bass and Chamber Orchestra, Op. 135
1 I. De profundis 04:49
2 II. Malagueña 02:48
3 III. Loreley 08:28
4 IV. The Suicide 06:26
5 V. On the Alert 03:03
6 VI. Look Here, Madame! 01:41
7 VII. At the Sante Jail 09:57
8 VIII. Zaporozhye Cossacks Reply to the Sultan of Constantinople 02:03
9 IX. O Delvig, Delvig! 04:50
10 X. The Poet’s Death 04:52
11 XI. Conclusion 01:07
Uma bela gravação de obras fundamentais do século XX.
A Sinfonia Nº 5, Op. 47, composta em 1937, é considerada como uma obra de ambiguidade radical, escrita sob a pressão direta do regime stalinista após a condenação pública do compositor. Oficialmente apresentada como “a resposta criativa de um artista soviético a críticas justas”, a sinfonia adota uma linguagem mais acessível e uma forma clássica aparente, mas essa superfície de clareza esconde dramas. O primeiro movimento é marcado por uma tensão contínua entre contenção e explosão emocional. O Largo, com sua escrita quase litúrgica para cordas, expõe um lamento coletivo de rara intensidade. O final, embora triunfal em aparência, soa forçado, pesado, quase brutal. Esta duplicidade — entre o que se ouve e o que se sente — faz da Quinta uma das obras mais perturbadoras e discutidas do século XX.
Já a Sinfonia Nº 9, Op. 70, escrita em 1945, desconcertou profundamente as autoridades soviéticas ao frustrar expectativas de uma obra grandiosa que celebrasse a vitória na Segunda Guerra Mundial. Em vez de um monumento heroico à maneira de Beethoven, Shostakovich veio com uma sinfonia breve, irônica e deliberadamente leve, com traços de sarcasmo quase mozartiano. O tom aparentemente despreocupado do primeiro movimento contrasta com passagens sombrias e grotescas, especialmente no movimento lento e no uso expressivo do fagote, que parece comentar a música com humor ácido e melancolia contida. A Nona funciona, assim, como um gesto de resistência estética: ao recusar o retórica triunfal (e oficial), Shostakovich afirma uma liberdade que se manifesta não no grito, mas na ironia.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonias Nº 5 e 9 (Rahbari)
Symphony No. 5 in D Minor, Op. 47
1 I. Moderato 16:32
2 II. Allegretto 05:43
3 III. Largo 16:37
4 IV. Allegro non troppo 10:45
Symphony No. 9 in E-Flat Major, Op. 70
5 I. Allegro 05:12
6 II. Moderato 08:54
7 III. Presto 02:47
8 IV. Largo 03:29
9 V. Allegretto 06:13
Belgian Radio and Television Philharmonic Orchestra
Alexander Rahbari
Compostas entre 2019 e 2024, as obras da mexicana Gabriela Ortiz recebem aqui um tratamento luxuoso da Filarmônica de Los Angeles que, aliás, há muitos anos já vem se dedicando fortemente à música contemporânea: basta lembrar que sob a direção de Salonen eles estrearam a 4ª e última Sinfonia de Lutoslawski em 1993 e, já com Dudamel, eles estrearam True Fire, de Saariaho. Lembremos ainda que, após 17 anos, Dudamel estará se despedindo do cargo como regente principal em L.A., em uma temporada 2025–26 com o apelido “Gracias Gustavo,” temporada que inclui uma estreia do venezuelano Ricardo Lorenz além de uma nova orquestração da já famosa obra para piano “O povo unido jamais será vencido”, de Rzewski (1938-2021).
Assim como a obra de Rzewski, as de Ortiz são politicamente engajadas. O pdf que acompanha o álbum explica a temáticas de resistência contra a escravidão na América espanhola (Yanga, com momentos de percussão que poderiam facilmente ser confundidos com música negra brasileira) e de cavernas mexicanas com uma rica biodiversidade incluindo pássaros e onças (Dzonot, para violoncelo e orquestra).
É essa última obra que mais me impressionou. A música contemporânea de concerto, como sabemos, muitas vezes tem dificuldades de encontrar um grande público que a abrace com entusiasmo. Os concertos para solista e orquestra, em muitos casos, conseguiram se fazer entender por plateias não tão entendidas sobre os detalhes teóricos que diferenciam música serial, cromática ou atonal livre. Me refiro por exemplo aos concertos para violoncelo de Ginastera, Lutoslawski, Dutilleux, Penderecki, compositores já falecidos mas ainda próximos de nós em vários sentidos. Também os Concertos para violino n° 1 de Gubaidulina, o de Vasks e o de Saariaho tiveram papel importante para que esses três nomes ganhassem fama lá pelas décadas de 1980, 90 e 2000.
Talvez a explicação seja a seguinte: os detalhes de orquestração de infinita sutileza de obras orquestrais desses compositores às vezes passa despercebidos por parte do público, mas quando um solista no pódio dialoga com a orquestra – seja esse diálogo muito inovador ou mais pautado por padrões musicais conhecidos – esse diálogo, em si, é compreendido mais facilmente. Ouçam o Concerto Dzonot de Ortiz e reparem…
Gabriela Ortiz (1964):
1. Yanga, para coro, percussão e orquestra
Tambuco Percussion Ensemble, Los Angeles Master Chorale
2-5. Dzonot – Concerto para violoncelo e orquestra
Alisa Weilerstein cello
I. Luz vertical
II. El ojo del Jaguar
III. Jade
IV. El vuelo de Toh
6-11. Seis piezas a Violeta, para piano e orquestra
Joanne Pearce Martin piano
I. Preludio Andino
II. Geometría Austral
III. Ritmo Genésico
IV. Canto del Angelito
V. Danza Esdrújula
VI. Amen
Nada demais por aqui. As tais “Introduttioni teatrali” (op. IV, 1735) são um conjunto de seis peças orquestrais curtas compostas por Pietro Locatelli. O título significa “Introduções Teatrais”, claro. Elas são uma mistura de dois estilos da época. Seguem a estrutura da abertura da ópera napolitana (rápido-lento-rápido) e utilizam a formação do concerto grosso, com um pequeno grupo de solistas (concertino) e a orquestra completa (ripieno). Na prática, funcionam como pequenas cenas instrumentais dramáticas, situando-se na fronteira entre a música puramente instrumental e o mundo da ópera. Eu não achei nada atrativo, mas julgue você mesmo.
Pietro Antonio Locatelli (1695-1764): 6 Introduttioni teatrali (Europa Galante, Biondi)
01. Introduttione I in D-Sharp Major, Op. 4 No. 1: I. Allegro (2:09)
02. Introduttione I in D Major, Op. 4 No. 1: II. Allegro (1:55)
03. Introduttione I in D Major, Op. 4 No. 1: III. Presto (2:22)
04. Introduttione II in F Major, Op. 4 No. 2: I. Allegro (2:21)
05. Introduttione II in F Major, Op. 4 No. 2: II. Andante (2:33)
06. Introduttione II in F Major, Op. 4 No. 2: III. Allegro (2:41)
07. Introduttione III in B-Flat Major, Op. 4 No. 3: I. Allegro (2:57)
08. Introduttione III in B-Flat Major, Op. 4 No. 3: II. Andante (1:46)
09. Introduttione III in B-Flat Major, Op. 4 No. 3: III. Presto (1:19)
10. Introduttione IV in G-Sharp Major, Op. 4 No. 4: I. Allegro (1:48)
11. Introduttione IV in G Major, Op. 4 No. 4: II. Andante (2:00)
12. Introduttione IV in G Major, Op. 4 No. 4: III. Presto (1:14)
13. Introduttione V in D Major, Op. 4 No. 5: I. Allegro (1:57)
14. Introduttione V in D Major, Op. 4 No. 5: II. Andante (2:06)
15. Introduttione V in D Major, Op. 4 No. 5: III. Presto (2:46)
16. Introduttione, VI in C Major, Op. 4 No. 6: I. Vivace (1:58)
17. Introduttione, VI in C Major, Op. 4 No. 6: II. Andante (2:09)
18. Introduttione, VI in C Major, Op. 4 No. 6: III. Presto (2:16)
19. Violin Concerto in A Major, DunL 1.5: I. Vivace (3:01)
20. Violin Concerto in A Major, DunL 1.5: II. Largo (3:13)
21. Violin Concerto in A Major, DunL 1.5: III. Allegro – Andante – Allegro (4:52)
Encontrei três belas Cantatas neste vol. 31 da edição de Rilling das Cantatas Completas de Bach. São muitos CDs, mas sem maiores informações sobre solistas. A Hänssler fez uma edição popular da integral. Comprei-a, só depois vi que as informações são pra lá de parcas. Há duas Cantatas excepcionais neste CD, a 158 e a 42. A 67 vale pela originalidade. Eu sempre fico impressionado com Rilling, um grande maestro da época da “Música não historicamente informada”, porém com perfeito senso do estilo barroco. Por que fico impressionado? Porque sempre acho que ele morreu, mas ele está vivinho da silva. Hoje tem 93 anos e ainda está ATIVO. Que siga! (Pois é, ele faleceu no dia 11 de fevereiro). Ouçam a BWV 42 e a 158. São lindas!
J. S. Bach (1685-1750): Cantatas BWV 158, 67 e 42 (Rilling)
A esperança dança na corda bamba de sombrinha e em cada passo dessa linha pode se machucar
(Aldir Blanc / João Bosco)
Se a metáfora da esperança equilibrista foi lembrada pelos dois sambistas brasileiros no tempo da Anistia e de fim de uma ditadura (embora fim lento, gradual e com sigilo), a mesma metáfora ocorreu a Sofia Gubaidúlina logo após se mudar para a Alemanha, saindo de uma Moscou em colapso. Nas palavras da compositora, o título da obra Dancer on a tightrope se relaciona com um
desejo de se livrar das amarras da vida cotidiana. O desejo de voar pelo prazer do movimento, da dança e da virtuosidade estática. Um dançarino na corda-bamba é também uma metáfora para esta oposição: a vida como risco, e a arte como fuga para uma outra existência. O que me interessou nesta peça foi criar as circunstâncias para o jogo de contrastes no qual o ritmo preciso da dança do violino triunfa sobre o curso movimentado da parte para piano.
Os materiais usados por um dos grandes pianistas em atividade para tocar Gubaidúlina
Por exemplo, esse contraste é obtido pela deformação do ritmo ao se tocar sobre as cordas do piano com um cálice de vidro; pela gradual transformação destes sons harmônicos transparentes em fortissimo agressivo do cálice sobre as cordas graves do piano; pelo som ameaçador desse ritmo quando tocado pelo pianista que utiliza um dedal de costura de metal e, finalmente – o evento principal na forma da peça – pela passagem do pianista das cordas para o teclado. Todos esses eventos são dominados pelo violinista em uma dança extática.
O violinista Gidon Kremer foi importante na carreira de Gubaidúlina ao divulgar seu 1º concerto para violino e outras obras por todo o mundo. O 2º concerto para violino seria estreado em 2007 por Anne-Sophie Mutter. Kremer aparece neste disco de hoje da gravadora BIS, junto com pianistas não tão famosos como ele ou Mutter.
O concerto “Introitus” já foi postado e comentado por este mesmo Pleyel em 2018. Sigo com a opinião de que, junto com os não-concertos de Messiaen, são as melhores obras para piano e orquestra da segunda metade do século XX.
E o quinteto composto em 1957, quando Gubaidúlina era uma estudante em Moscou, me parece obra de alguém ainda com uma voz menos própria, mas parecida com a de Shostakovich e outros russos, mas enganos sempre são possíveis nesses juízos de valor.
Sofia Gubaidúlina (1931-2025):
1-4. Piano quintet (1957)
5. “Introitus” – Piano Concerto (1978)
6. Dancer on a tightrope (1993)
R. Aizawa, K. Vogler, M. Wang, U. Eichenauer, P. Bruns (1-4); B. Rauchs, Kyiv Chamber Players, V. Kozhukhar (5); G. Kremer, V. Sakharov (6). Recorded: 1995-1997
Quem não der uma risada com o finalzinho da Sinfonia Nº 6 nunca foi ao circo! Garanto! A Sinfonia Nº, Op. 54, composta entre 1939 e 1940, é uma obra enigmática e estrutura subversiva, que desafia as expectativas da forma sinfônica tradicional. Após a monumental e publicamente triunfante Sinfonia nº 5, Shostakovich entregou aqui uma obra em três movimentos (ausência do scherzo), cujo núcleo emocional reside no extenso e sombrio Largo inicial – uma meditação solitária e angustiada, que se desenrola em longas linhas melódicas e texturas translúcidas, evocando um luto profundo e introspectivo. Esse marasmo é abruptamente rompido por dois movimentos finais velozes e irônicos: um Allegro nervoso, quase grotesco, e um Presto frenético que se assemelha a uma valsa demoníaca ou a um circo mecânico. Escrita à beira da Segunda Guerra Mundial e sob o espectro contínuo do stalinismo, a Sinfonia nº 6 é muitas vezes interpretada como um duplo jogo: uma fachada de brilhantismo orquestral e humor ácido que esconde um retrato de desespero íntimo e resistência silenciosa. É, assim, um testemunho da genialidade ambígua de Shostakovich, capaz de compor ao mesmo tempo para o regime e para a própria alma.
Não deixo por menos, a Sinfonia Nº 11, Op. 103, talvez seja a maior obra programática já composta. Há grandes exemplos de músicas descritivas tais como As Quatro Estações de Vivaldi, a Sinfonia Pastoral de Beethoven , a Abertura 1812 de Tchaikovski, Quadros de uma Exposição de Mussorgski e tantas outras, mas nenhuma delas liga-se tão completa e perfeitamente ao fato descrito do que a décima primeira sinfonia de Shostakovich. Alguns compositores que assumiram o papel de criadores de “coisas belas”, veem sua tarefa como a produção de obras tão agradáveis quanto o possível. Camille Saint-Saëns dizia que o artista “que não se sente feliz com a elegância, com um perfeito equilíbrio de cores ou com uma bela sucessão de harmonias não entende a arte”. Muito outra atitude é tomada por Shostakovich, que encara vida e arte como se fossem uma coisa só, que vê a criação artística como um ato muito mais amplo e que inclui a possibilidade do artista expressar – ou procurar expressar – a verdade tal como ele a vê. Esta abordagem foi adotada por muitos escritores, pintores e músicos russos do século XIX e, para Shostakovich, a postura realista de seu ídolo Mussorgsky foi decisiva. A décima primeira sinfonia de Shostakovich tem feições inteiramente mussorgkianas e foi estreada em 1957, ano do quadragésimo aniversário da Revolução de Outubro. Contudo, ela se refere a eventos ocorridos antes, no dia 9 de janeiro de 1905, um domingo, quando tropas czaristas massacraram um grupo de trabalhadores que viera fazer um protesto pacífico e desarmado em frente ao Palácio de Inverno do Czar, em São Petersburgo. O protesto, feito após a missa e com a presença de muitas crianças, tinha a intenção de entregar uma petição — sim um papel — ao czar, solicitando coisas como redução do horário de trabalho para oito horas diárias, assistência médica, melhor tratamento, liberdade de religião, etc. A resposta foi dada pela artilharia, que matou mais de cem trabalhadores e feriu outros trezentos. O primeiro movimento descreve a caminhada dos trabalhadores até o Palácio de Inverno e a atmosfera soturna da praça em frente, coberta de neve. O tema dos trabalhadores aparecerá nos movimentos seguintes, porém, aqui, a música sugere uma calma opressiva. O segundo movimento mostra a multidão abordar o Palácio para entregar a petição ao czar, mas este encontra-se ausente e as tropas começam a atirar. Shostakovich tira o que pode da orquestra num dos mais barulhentos movimentos sinfônicos que conheço. O terceiro movimento, de caráter fúnebre, é baseado na belíssima marcha de origem polonesa Vocês caíram como mártires (Vy zhertvoyu pali) que foi cantada por Lênin e seus companheiros no exílio, quando souberam do acontecido em 9 de janeiro. O final – utilizando um bordão da época – é a promessa da vitória final do socialismo e um aviso de que aquilo não ficaria sem punição.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Abertura sobre Temas Populares Russos e Quirguizes, Op. 115 / Sinfonia Nº 6, Op. 54 / Sinfonia Nº 11, Op. 103 — O Ano de 1905 (Haitink, Concertgebouw)
1-1 Overture On Russian & Kirghiz Folk Themes, Op. 115 9:43
Symphony No. 6, Op. 54
1-2 I. Largo 17:46
1-3 II. Allegro 6:20
1-4 III. Presto 7:07
Symphony No. 11, Op. 103 ‘The Year 1905’
2-1 I. The Palace Square: Adagio 15:53
2-2 II. 9 January: Allegro 19:54
2-3 III. In Memoriam: Adagio 11:23
2-4 IV. Tocsin: Allegro Non Troppo 14:16
O flautista, maestro, luthier e lenda brasileira Ricardo Kanji (1948-2025) comanda este bom CD com obras de Telemann. Kanji fundou, em 1966, o lendário Musikantiga, com seu irmão Milton Kanji, Dalton de Lucca e Paulo Herculano. Foi um dos pioneiros mundiais na música barroca, foi sucessor de seu mestre Frans Brüggen no Conservatório Real de Haia e membro fundador da Orquestra do século XVIII. “Trabalhei com os melhores músicos da cena de música antiga, na qual me especializei. Na Europa, esse movimento começou há cinquenta anos. Na Holanda, eu e meus professores estudamos muito os tratados, os métodos dos séculos XVII e XVIII. Pesquisamos como a música era feita nessa época para entender o que eles achavam importante em termos de acentuação e de interpretação e conhecer os seus gostos pessoais. Fomos reunindo todas essas informações e desenvolvemos uma forma de tocar baseada nesses conceitos completamente diversa da maneira romântica de se tocar”, contou em 2005. Este disco corrobora o cuidado e a enorme qualidade do trabalho de Kanji. E o repertório é muito bom!
Georg Philipp Telemann (1681-1767): Suítes e Concerto para Flauta (Baroque Orchestra Concerto ’91, Ricardo Kanji)
Ouverture In C Major (Wasser-Ouverture)
1 Ouverture
2 Sarabande: Die Schlafende Thetis
3 Bourrée: Die Erwachende Thetis
4 Loure: Der Verliebte Neptunus
5 Gavotte: Spielende Najaden
6 Harlequinade: Der Scherzende Tritonus
7 Tempête: Der Stürmende Aeolius
8 Menuet: Der Angenehme Zephir
9 Gigue: Ebbe Und Fluth
10 Canarie: Die Lustigen Bots Leute
Concert In A Minor For Recorder And Viola Da Gamba, Strings And Basso Continuo; Hamburg, ±1734
11 Grave
12 Allegro
13 Dolce
14 Allegro
Ouverture Des Nations Anciens Et Modernes, Strings And Basso Continuo; Hamburg, ±1721
15 Ouverture
16 Menuet I
17 Menuet II
18 Les Allemands Anciens
19 Les Allemands Modernes
20 Les Suédos Anciens
21 Les Suédos Modernes
22 Les Danois Anciens
23 Les Danois Modernes
24 Les Vieilles Femmes
Conclusion; From Tafelmusik I, 2 Flutes, Strings And Basso Continuo, Hamburg, ±1733
25 Allegro – Largo – Allegro
Dia Internacional da Mulher – 8 de março de 2026
As duas instrumentistas homenageadas hoje aqui no blog podem não ser tão multipremiadas quanto Martha Argerich, Anne-Sophie Mutter, Maria João Pires ou Barbara Hannigan. Mais discretas, elas fazem parte do movimento de instrumentistas que tocam em instrumentos de época: para Maggie Cole, isso significou alternar entre o fortepiano, como nestes dois CD de hoje, e o cravo, como atestam os seus discos dedicados a J.S. Bach. No seu disco dedicado a Antonio Soler pela finada gravadora Virgin, ela alternou entre cravo e fortepiano, excelente escolha ao abordar um compositor que conheceu bem os dois instrumentos. Aliás, foi a partir desse disco de Soler (que já postei aqui) que eu fui me interessar pela cravista e pianista estadunidense radicada em Londres. Dias atrás, trouxe outro disco em que Maggie toca trios de Haydn, obras nas quais o piano tem papel de solista como se se tratassem de concertos com orquestra em miniatura. Também vivendo entre EUA e Inglaterra, Jacqueline Ross faz sua estreia hoje no PQP Bach com essas interpretações cheias de delicadeza e de uma profunda pesquisa do idioma musical da época de Schubert.
O 1º CD, dedicado às Sonatas, tem seus bons momentos. Mas é no 2º CD que aparecem duas obras-primas tardias que todo amante de Schubert precisa conhecer – e me refiro não apenas ao tipo de conhecimento de quem tem noção da existência de algo, mas a um conhecimento mais íntimo. No Andante e Rondó em Si Menor (1826), Schubert adota a forma binária de um movimento introdutório, mais lento, e um principal. O seu inesgotável talento para as melodias aparece no Rondó, assim como na Fantasia em Dó maior (1827), obra cheia de contrastes emocionais e liberdades formais, não devendo nada à Fantasia Wanderer para piano ou ao tardio Quinteto de Cordasem dó maior, na mesma tonalidade dessa Fantasia e composto a poucas semanas de distância.
Franz Schubert (1797–1828):
CD1
1-3. Sonata Op. 137, No. 1, D. 384
4-7. Sonata Op. 137, No. 2, D. 385
8-11. Sonata Op. 137, No. 3, D. 408
12-15. Sonata Op. post. 162, D. 574 Franz Schubert (1797–1828):
CD2
1-2. Rondo in B minor, Op. 70, D. 895
3-11. Introduction and Variations on ‘Trockne Blumen’, Op. post. 160, D. 802
12-14. Fantasie in C major, Op. post. 159, D. 934
Jacqueline Ross, violin (by G. B. Guadagnini, Turin, 1777)
Maggie Cole, fortepiano (CD1: by Paul McNulty, Czech Republic, 1991, after Walter, Vienna c. 1795 ; CD2: by Graf, Vienna, 1826)
Este foi o primeiro CD que comprei lá em janeiro de 1989. Tinha (ainda tenho) esta Sinfonia num vinil russo que é realmente excelente, mas me impressionei com a nova dinâmica sonora do CD e que trazia a extraordinária versão de Haitink. Haitink realmente compreende Shostakovich e sua versão das Sinfonias do russo é uma preciosidade. A Sinfonia Nº 15, Op. 141, composta em 1971, é uma despedida enigmática e autoconsciente — uma obra que mescla ironia, nostalgia e mortalidade sob uma aparente leveza. Estreada quando o compositor já enfrentava graves problemas de saúde, a sinfonia parece dialogar com toda sua trajetória: o primeiro movimento, quase circense, cita a abertura de Guilherme Tell, de Rossini, como um eco grotesco da infância, enquanto passagens de Crepúsculo dos Deuses, de Wagner, e temas de suas próprias obras surgem como fantasmas musicais. A escrita é paradoxalmente transparente e inquietante: o solo do violoncelo no Adagio soa como um lamento solitário, e o final, com seus sinos, celesta e percussão esparsa, evoca um relógio implacável que se desfaz em silêncio — não como resignação, mas como um último e doloroso questionamento sobre a vida e a arte. É a crônica de um homem que, diante do fim, escolheu falar através de símbolos, deixando-nos uma obra que é ao mesmo tempo testamento e mistério.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonia Nº 15 & Poesias Populares Judaicas (Haitink, London Philharmonic, Concertgebouw)
Symphony No.15 In A Major, Op.141
I Allegretto 8:05
II Adagio – Largo 16:28
III Allegretto 4:12
IV Adagio – Allegretto 16:57 Orchestra – London Philharmonic Orchestra
From Jewish Folk Poetry, Op.79
I Lament For A Dead Infant 2:40
II Fussy Mummy And Auntie 2:50
III Lullaby 3:48
IV Before A Long Separation 2:25
V A Warning 1:18
VI The Deserted Father 2:05
VII A Song Of Poverty 1:24
VIII Winter 3:21
IX The Good Life 1:49
X A Girl’s Song 3:15
XI Happiness 2:39 Contralto Vocals – Ortrun Wenkel Orchestra – Concertgebouw Orchestra* Soprano Vocals – Elisabeth Söderström Tenor Vocals – Ryszard Karczykowski
Onde está você, Cristina Ortiz? Dando master classes em Londres e Nova Iorque? Pois esta baiana faz a maior falta ao Brasil. Ou a Porto Alegre, pois acabo de ler que ela apresentou o Concerto Nº 2 de Brahms em São Paulo, no ano passado. Deveria vir também mais pro sul… Cristina Ortiz (1950) gravou faz tempo este concertos de Shostakovich e até hoje seus registros são importante referência na discografia. Mas me parece que Cristina, ao menos, meio que saiu do circuito das gravadoras. Ignoro as razões. Este CD é mais do que perfeito. São notáveis interpretações de obras importantes de Shostakovich. Se você não ouviu, aproveite para conhecer Cris Ortiz. Será muito proveitoso. Ela dá um show de bola.
Shostakovich (1906-1975): Piano Concerto No. 1 e 2 / Symphony No. 1 / Three Fantastic Dances (Ortiz, Berglund, Kurtz, Bournemouth, Philharmonia)
1. Piano Concerto No.1, Op.35 (1987 Digital Remaster): Allegro moderato – Allegro vivace – Moderato 6:05
2. Piano Concerto No.1, Op.35 (1987 Digital Remaster): Lento 7:12
3. Piano Concerto No.1, Op.35 (1987 Digital Remaster): Moderato 1:58
4. Piano Concerto No.1, Op.35 (1987 Digital Remaster): Allegro con brio – Presto – Allegretto poco moderato – Allegro con brio 6:49
Cristina Ortiz, piano
Bournemouth Symphony Orchestra
Paavo Berglund
5. Piano Concerto No. 2 in F Op. 102 (1975 Digital Remaster): I. Allegro 7:27
6. Piano Concerto No. 2 in F Op. 102 (1975 Digital Remaster): II. Andante 6:48
7. Piano Concerto No. 2 in F Op. 102 (1975 Digital Remaster): III. Allegro 5:47
Cristina Ortiz, piano
Bournemouth Symphony Orchestra
Paavo Berglund
NÃO SEI COMO A SINFONIA Nº 1 DE SHOSTA VEIO PARAR AQUI, MAS ELA VEIO JUNTO…
8. Symphony No. 1 in F minor Op. 10: I. Allegretto – Allegro non troppo 7:48 9. Symphony No. 1 in F minor Op. 10: II. Allegro 4:20 10. Symphony No. 1 in F minor Op. 10: III. Lento – Largo 7:15 11. Symphony No. 1 in F minor Op. 10: IV. Lento – Allegro molto – Adagio – Largo – Presto 8:39 Philharmonia Orchestra Efrem Kurtz
12. Three Fantastic Dances Op. 5 (1987 Digital Remaster): I. Allegretto 1:09
13. Three Fantastic Dances Op. 5 (1987 Digital Remaster): II. Andantino 1:25
14. Three Fantastic Dances Op. 5 (1987 Digital Remaster): III. Allegretto 0:52
Cristina Ortiz, piano
Hoje, 25 de setembro de 2017, 111 anos de nascimento de Shostakovich!
Este é dos discos que considero obrigatórios. Grande música, grandes intérpretes. Inicia com o belo e jocoso primeiro concerto para piano; segue com o raro e simpático concertino para dois pianos e termina com o espetacular e lírico quinteto para piano. Ou seja, duas peças muito famosas de Shosta entremeadas por outra nem tanto. O quinteto é uma obra da minha mais absoluta preferência, com seus movimentos muito contrastantes, oscilando entre o lirismo, a tristeza e a alegria. (Jamais esquecerei a primeira vez que vi este quinteto ao vivo. Quando terminou o Intermezzo, a primeira violinista estava inteiramente lavada em lágrimas).
Shostakovich (1906-1975): Concerto para piano e trompete, Concertino para 2 pianos, Quinteto para piano e cordas (Argerich, Verdernikov, Zilberstein, Capuçon)
Concerto For Piano, Trumpet And Strings In C Minor Op. 35
1. I. Allegro Moderato 5:56
2. II. Lento 7:25
3. III. Moderato 1:28
4. IV. Allegro Con Brio 6:56
Martha Argerich, piano
Sergei Nakariakov, trompete
Orchestra della Svizzera Italiana
Alexander Verdernikov, regência
Concertino For 2 Pianos In A Minor Op.94
5. Adagio – Allegretto – Adagio – Allegro – Adagio – Allegretto 10:05
Martha Argerich, piano
Lilya Zilberstein, piano
Quintet For Piano And Strings In G Minor Op. 57
6. Prelude: Lento 4:25
7. Fugue: Adagio 11:29
8. Scherzo: Allegretto 3:20
9. Intermezzo: Lento 7:34
10. Finale: Allegretto 7:45
Martha Argerich, piano
Renaud Capuçon, violino
Alissa Margulis, violino
Lyda Chen, viola
Mischa Maisky, violoncelo
Nascida em 1937, Alice Coltrane foi uma pianista de jazz que fez seu nome – antes de ter esse sobrenome – a partir de 1960 como improvisadora em Paris e Detroit. Quando tocava em Nova York com o vibrafonista Terry Gibbs em 1962, ela conheceu John Coltrane. No ano seguinte, Alice saiu abruptamente da banda de Terry Gibbs, dizendo a ele que ia se casar com Coltrane. John e Alice tiveram três filhos juntos. Em toda a década de 60, a música de John Coltrane tomava progressivamente uma dimensão espiritual. Ele dizia que, após esse acordar espiritual, “não dá mais para esquecê-lo. Torna-se parte de tudo que você faz.”
John Coltrane morreu de câncer de fígado em 1967. Por algum tempo, Alice dormiu mal, teve visões, emagreceu. Nas profundezas de sua dor, Alice tornou-se discípula de Swami Satchidananda, guru indiano especialista em Hatha Yoga. Seus conselhos e orientação espiritual acalmaram seu espírito, enquanto ela estudava harpa, instrumento que, segundo a lenda, teria sido encomendado por John Coltrane mas ele não teve tempo de vê-la tocando. (informações tiradas daqui)
O tipo de “spiritual jazz” que Alice Coltrane fez na década de 1970 se insere em um movimento que também contou com o inglês John McLaughlin (Mahavishnu Orchestra) e o mexicano/americano Carlos Santana, ambos também muito influenciados por Coltrane. E no álbum Journey in Satchidananda, de 1970, temos músicos do último grupo liderado por Coltrane: Pharoah Sanders no sax e Rashied Ali na bateria e percussão. Além, é claro, de Alice, que tinha substituído o pianista McCoy Tyner no fim de 1965. Na última faixa, gravada ao vivo, Charlie Haden aparece no baixo, mas a estrela desse momento final do álbum é o diálogo entre a harpa e o oud (instrumento da família do alaúde, comum no mundo islâmico), pontuado por aparições do sax.
O título do álbum dá boas pistas: é uma jornada. Alice Coltrane nos leva a um território inexplorado no jazz, com base em múltiplas culturas e diversos instrumentos, mas sobretudo com base na emoção.
Alice Coltrane (1937-2007) – Journey in Satchidananda (1970)
1. Journey in Satchidananda – 6:39
2. Shiva-Loka – 6:37
3. Stopover Bombay – 2:54
4. Something About John Coltrane – 9:44
5. Isis and Osiris – 11:49
All compositions by Alice Coltrane
Tracks 1-4
Alice Coltrane – piano, harp
Pharoah Sanders – soprano saxophone, percussion
Cecil McBee – double bass
Rashied Ali – drums
Tulsi – tanpura
Majid Shabazz – bells, tambourine
Recorded at the Coltrane home studio, Dix Hills, New York, on November 8, 1970
Track 5
Alice Coltrane – harp
Pharoah Sanders – soprano saxophone, percussion
Rashied Ali – drums
Charlie Haden – bass
Vishnu Wood – oud
Recorded live at The Village Gate, New York City, on July 4, 1970