O nosso colega Ranulfus, em postagem de 2010 (aqui), definiu Santoro como vários compositores em um: nos anos 40 adotou a técnica dodecafônica, cujos resultados na maior parte – confesso – ainda hoje me parecem duros de ouvir e não sei se um dia serão menos. Mas, comunista militante, a partir de 1948 opta pelos caminhos do “realismo socialista”, voltando porém aos caminhos experimentais nos anos 60 e 70. Foi nosso compositor de sinfonias mais prolífico, sendo a primeira de 1940 e a décima-quarta de 1989, seu último ano de vida.
Uma breve passagem pela sua biografia: nascido em Manaus, Santoro foi, em termos cronológicos, primeiro violinista e depois compositor. Em 1935 se muda para o Rio de Janeiro, então capital da República. No mesmo ano, toca seu primeiro recital como violinista, acompanhado pelo pianista Arnaldo Estrella. No ano seguinte, tocou o Concerto em Mi menor de Mendelssohn, também no Rio. Os sucessos como compositor se seguiriam nas décadas de 1940-50 e, em 1956, ele conduz sua 4ª Sinfonia em Moscou com grande sucesso, ovacionado por Aram Khachaturian e outros soviéticos. Em 1962, assume posto na recém-criada Universidade de Brasília mas em 1965, junto com colegas, se demite após a ditadura militar cometer arbitrariedades na Universidade. Voltaria à UNB apenas em 1978, após o fim do AI-5. Era, portanto, um artista que não tinha medo de se posicionar.
As obras apresentadas neste disco da Naxos são todas do período mais nacionalista dos anos 1950, ao menos em suas versões originais, pois a Fantasia para violino foi retocada em 1980. A cronologia das obras é a seguinte, e revela a preocupação com o tema da paz nos anos logo após a 2ª Guerra, com a novidade das bombas nucleares e o medo de uma grande explosão que podia vir a qualquer momento:
1950 – Canto de amor e paz, para orquestra de cordas
1951-53 – Choro, para saxofone tenor e orquestra
1954 – Sinfonia nº 4 – Sinfonia da Paz, para grande orquestra e coro misto
1958 – Sinfonia nº 6
1959-60/1980 – Fantasia para violino e orquestra
Era a época de Vargas, JK e bossa-nova, otimismo carioca bem diferente do clima militarizado e censurado da década seguinte. E os aspectos musicais tipicamente brasileiros recebem, aqui, variações mais complexas do que as elaboradas por compositores como R. Gnattali ou E. Nazareth (e o Ranulfus, pra citá-lo novamente, dizia que esse material temático elaborado de modo mais erudito e complexo não é melhor… nem pior!). Apesar do instrumento principal do Santoro ser o violino, a obra para saxofone solista é, junto das sinfonias, a que mais chamou minha atenção.
Cláudio Santoro (1919-1989):
1. Canto de Amor e Paz
2-4. Symphony No 4 ‘Sinfonia da Paz’: I. Allegro / II. Lento – Allegro – Lento / III. Allegro moderato e deciso
5. Choro Concertante for Tenor Saxophone and Orchestra
6-9. Symphony No 6: I. Allegro giocoso / II. Lento / III. Scherzo / IV. Allegro
10. Fantasia for Violin and Orchestra

Pleyel



Observação de PQP Bach.: esta postagem é originalmente de autoria de FDP Bach e sua data é de março deste ano. Só que ela é tão boa que fez com que eu comprasse o CD e substituísse seu arquivo de 128 kbps por um de 320 kbps. Só isso. Abaixo, o post de FDP Bach:
IM-PER-DÍ-VEL !!!










Esse CD duplo com a Sinfônica de Londres regida por Kent Nagano é a mais sensacional incursão de Frank Zappa na música erudita. As obras de Zappa em questão talvez apresentem a orquestração mais complexa e colorida desde Ravel – e são nitidamente experimentais (estrutura zero, ou perto disso, e brainstorm dez). Apesar de intrincadas, os músicos desdenharam delas durante as gravações, como se o roqueiro não soubesse o que estava escrevendo. Mesmo assim, você releva numa boa os eventuais erros de execução (eu mesmo não os encontro – procurá-los mataria o prazer que sinto com essas peças).
IM-PER-DÍ-VEL !!!



IM-PER-DÍ-VEL !!!


Esta é uma gravação bem convincente, na qual John Butt e o Dunedin Consort demonstram o “parentesco musical” entre Mozart e C. P. E. Bach. O disco utiliza uma nova edição para completar as partes faltantes da Große Messe de Mozart, e a acopla ao Heilig ist Gott de CPE Bach — obra que muito provavelmente inspirou diretamente a escrita para coro duplo de Mozart. Justapor as duas peças devolve a uma obra conhecida um novo contexto histórico. A escolha da versão do K. 427 é o primeiro valor deste disco. Butt adota a nova edição de Clemens Kemme (Breitkopf & Härtel, 2018), cujo princípio é usar apenas a música que Mozart de fato escreveu para esta missa, sem reconstruções externas, apenas ajustes de instrumentação e detalhes vocais conforme a prática histórica. Kemme observa que o Heilig ist Gott de C. P. E. Bach é “a mais importante obra para coro duplo” no período em que Mozart compôs o K. 427, e que seus ecos de fuga podem seguramente ser ouvidos no Gloria mozartiano. Portanto, reunir as duas obras no mesmo disco não é uma justaposição casual, mas uma arqueologia musical deliberada. Butt mantém um efetivo pequeno: cerca de 16 a 18 cantores e aproximadamente oito violinos. Isso produz, nos trechos de fuga para coro duplo, uma transparência das linhas contrapontísticas difícil de ouvir em execuções de grande efetivo. Heilig ist Gott (Wq 217 / H 778) foi escrito por volta de 1776 e, após sua publicação em 1779, tornou-se rapidamente um modelo do “sublime musical”. Está repleto dos típicos silêncios súbitos, modulações selvagens e experimentos harmônicos estranhos de C. P. E. Bach. O grupo de Butt faz provavelmente apresentou a melhor interpretação já feita desta obra.

Este disco traz nove das doze Fantasias para Viola da Gamba de Telemann, na interpretação do gambista finlandês Markus Kuikka. O contexto da gravação é inseparável da história do próprio repertório: a coleção completa foi considerada perdida por mais de 300 anos, até que uma cópia sobrevivente foi descoberta em 2015 na biblioteca privada do Castelo de Ledenburg, no norte da Alemanha. Kuikka tocou as fantasias pela primeira vez em 2017, coincidindo com os 250 anos da morte de Telemann, e descreve a experiência como análoga à de estrear obras recém-compostas — tamanha a novidade que a música lhe parecia ter. Telemann escreveu estas fantasias em 1735, demonstrando um conhecimento íntimo das possibilidades da viola da gamba. Cada fantasia é composta por três ou quatro movimentos em estilo de sonata, mas com um caráter improvisado torna-as difíceis de classificar. As fantasias de Telemann lembram suas fantasias para violino. Kuikka parece apreciar a leve aspereza do registro agudo ainda mais do que o grave do instrumento — ele gosta do ronco da cuíca, naturalmente. Nos movimentos rápidos, ele evita a pressa, criando dramaticidade por outros meios que não a mera velocidade; nos lentos, deixa a meditação tomar conta. A gravação de Kuikka oferece uma porta de entrada para um repertório que, até poucos anos atrás, era praticamente inacessível. A combinação do frescor da descoberta com a maturidade interpretativa de um gambista que conhece o instrumento a fundo, resulta numa leitura que faz jus à riqueza dessas páginas redescobertas. Para quem se interessa pela viola da gamba ou pelo barroco tardio alemão, é uma gravação que vale conhecer.
Este lançamento em dois CDs registra ao vivo a integral das quatro sinfonias de Johannes Brahms (1833–1897), interpretadas pela Orquestra da Ópera de Zurique sob a regência de Gianandrea Noseda. Gravadas durante concertos na Ópera de Zurique, as performances capturam a energia e a espontaneidade do palco, documentando um momento em que Noseda voltou sua atenção para o universo sinfônico de Brahms após uma aclamada interpretação do Réquiem Alemão. Compostas entre 1876 e 1885, as quatro sinfonias representam um dos pontos culminantes do romantismo orquestral, conciliando o rigor formal herdado da tradição clássica com uma intensidade expressiva profunda. A interpretação de Noseda tem vigor dramático, clareza estrutural e lirismo. O resultado é uma leitura que destaca os múltiplos planos sonoros da escrita de Brahms, os detalhes das intervenções solistas e o grande arco arquitetônico que une as quatro obras. A abordagem de Noseda é fluida e dionisíaca. Um crítico observou que, ao final de uma apresentação da Segunda Sinfonia, Noseda fechou a partitura e a beijou — um gesto que simboliza a identificação profunda entre intérprete e obra. A Orquestra da Ópera de Zurique não é uma formação operística de alto nível. Essa origem confere às performances um caráter particular: há uma atenção ao detalhe teatral, uma sensibilidade ao fraseado como se fosse canto. Vale notar que Noseda já havia gravado uma integral das sinfonias de Brahms antes, também registrada ao vivo. Então, para quem busca uma integral das sinfonias de Brahms que una clareza estrutural a uma energia concertante genuína, esta gravação de Noseda com a Orquestra da Ópera de Zurique oferece uma leitura que se insere com destaque na vasta discografia dedicada ao compositor. É uma documentação de um maestro em plena maturidade interpretativa, dialogando com um repertório central da tradição sinfônica.




IM-PER-DÍ-VEL !!!
Este é um CD apenas OK, nada mais. A ideia foi boa, mas a escolha das árias parece ter passado por cima do conceito de beleza para abraçar outros critérios. O critério comercial? Sei lá. Como filho de Bach, tenho coleções de árias na minha cabeça e acho que este CD apenas acertou em 50% das tentativas. Ah, o disco é uma seleção de árias de Cantatas e Paixões que incluem voz e violino, certo? Pois é como ia dizendo, há dezenas delas, mas a escolha foi assim assim. Quem rouba o disco é o sensacional Matthias Goerne, que é um barítono alemão realmente maravilhoso. Já Christine Schafer é apenas aceitável. Não curti muito a cantora. Acho que foi isso. Paciência.
IM-PER-DÍ-VEL !!!

IM-PER-DÍ-VEL !!! (Apesar do romantismo todo da coisa).

IM-PER-DÍ-VEL !!!![Johannes Brahms (1833 – 1897): Peças para Piano – Anna Vinnitskaya [α] & Anna Fedorova [Channel Classics] – [Dose Dupla] ֎֎](https://pqpbach.ars.blog.br/wp-content/uploads/2026/09/cover-960x482.png)







