Postei poucos discos com obras de Scarlatti, e sinto por isso. Sei que muita gente boa tem excelentes gravações de suas sonatas para teclados e grandes nomes do piano como Wladimir Horowitz tinham especial carinho por ele. Os senhores podem encontrar diversas destas gravações aqui mesmo no PQPBach.
O disco que estou trazendo hoje é bem recente, foi lançado agora mesmo em outubro de 2026 pelo ótimo selo Brilliant Classics, com um dos nomes que mais vem se destacando neste universo da música dos séculos XVII ao século XIX, Aapo Häkkinen. Nascido nas gélidas terras finlandesas, tem sobrenome de piloto de Fórmula 1, mas desconheço se há parentesco, só sei que o rapaz é muito bom no que faz. Já o conhecia por sua ótima integral dos concertos para teclado de Bach, que pretendo trazer logo, logo, assim que possível.
Aapo Häkkinen aqui traz algumas Sonatas de Domenico Scarlatti, importante compositor italiano dos séculos XVII e XVIII, contemporâneo de Bach, Vivaldi e Händel. O rapaz vem se tornando um dos maiores cravistas da atualidade. Isso mesmo, Scarlatti interpretado ao cravo. A sonoridade de seu instrumento é muito interessante. Não tem aquele som metálico que ouvimos em algumas interpretações, e nos proporciona um ótimo conforto auditivo. Vale a pena conhecer.
01. Sonata in C Minor, K.126
02. Sonata in C Minor, K.56- I. Allegro Con Spirito
03. Sonata in C Major, K.170- I. Andante Moderato E Cantabile – Allegro
04. Sonata in C Minor, K.303- I. Allegro
05. Sonata in F Major, K.518- I. Allegro
06. Sonata in D Minor, K.52- I. Andante Moderato
07. Sonata in D Major, K.161- Allegro
08. Sonata in B Minor, K.87
09. Sonata in D Major, K.535- I. Allegro
10. Sonata in E Minor, K.394- I. Allegro
11. Sonata in E Major, K.395- I. Allegro
12. Sonata in E Major, K.206- I. Andante
13. Sonata in E Major, K.207- I. Allegro
14. Sonata in A Major, K.429- I. Allegro
Aapo Häkkinen – Cravo
FDPBach







Esse CD duplo com a Sinfônica de Londres regida por Kent Nagano é a mais sensacional incursão de Frank Zappa na música erudita. As obras de Zappa em questão talvez apresentem a orquestração mais complexa e colorida desde Ravel – e são nitidamente experimentais (estrutura zero, ou perto disso, e brainstorm dez). Apesar de intrincadas, os músicos desdenharam delas durante as gravações, como se o roqueiro não soubesse o que estava escrevendo. Mesmo assim, você releva numa boa os eventuais erros de execução (eu mesmo não os encontro – procurá-los mataria o prazer que sinto com essas peças).
IM-PER-DÍ-VEL !!!



IM-PER-DÍ-VEL !!!


Esta é uma gravação bem convincente, na qual John Butt e o Dunedin Consort demonstram o “parentesco musical” entre Mozart e C. P. E. Bach. O disco utiliza uma nova edição para completar as partes faltantes da Große Messe de Mozart, e a acopla ao Heilig ist Gott de CPE Bach — obra que muito provavelmente inspirou diretamente a escrita para coro duplo de Mozart. Justapor as duas peças devolve a uma obra conhecida um novo contexto histórico. A escolha da versão do K. 427 é o primeiro valor deste disco. Butt adota a nova edição de Clemens Kemme (Breitkopf & Härtel, 2018), cujo princípio é usar apenas a música que Mozart de fato escreveu para esta missa, sem reconstruções externas, apenas ajustes de instrumentação e detalhes vocais conforme a prática histórica. Kemme observa que o Heilig ist Gott de C. P. E. Bach é “a mais importante obra para coro duplo” no período em que Mozart compôs o K. 427, e que seus ecos de fuga podem seguramente ser ouvidos no Gloria mozartiano. Portanto, reunir as duas obras no mesmo disco não é uma justaposição casual, mas uma arqueologia musical deliberada. Butt mantém um efetivo pequeno: cerca de 16 a 18 cantores e aproximadamente oito violinos. Isso produz, nos trechos de fuga para coro duplo, uma transparência das linhas contrapontísticas difícil de ouvir em execuções de grande efetivo. Heilig ist Gott (Wq 217 / H 778) foi escrito por volta de 1776 e, após sua publicação em 1779, tornou-se rapidamente um modelo do “sublime musical”. Está repleto dos típicos silêncios súbitos, modulações selvagens e experimentos harmônicos estranhos de C. P. E. Bach. O grupo de Butt faz provavelmente apresentou a melhor interpretação já feita desta obra.

Este disco traz nove das doze Fantasias para Viola da Gamba de Telemann, na interpretação do gambista finlandês Markus Kuikka. O contexto da gravação é inseparável da história do próprio repertório: a coleção completa foi considerada perdida por mais de 300 anos, até que uma cópia sobrevivente foi descoberta em 2015 na biblioteca privada do Castelo de Ledenburg, no norte da Alemanha. Kuikka tocou as fantasias pela primeira vez em 2017, coincidindo com os 250 anos da morte de Telemann, e descreve a experiência como análoga à de estrear obras recém-compostas — tamanha a novidade que a música lhe parecia ter. Telemann escreveu estas fantasias em 1735, demonstrando um conhecimento íntimo das possibilidades da viola da gamba. Cada fantasia é composta por três ou quatro movimentos em estilo de sonata, mas com um caráter improvisado torna-as difíceis de classificar. As fantasias de Telemann lembram suas fantasias para violino. Kuikka parece apreciar a leve aspereza do registro agudo ainda mais do que o grave do instrumento — ele gosta do ronco da cuíca, naturalmente. Nos movimentos rápidos, ele evita a pressa, criando dramaticidade por outros meios que não a mera velocidade; nos lentos, deixa a meditação tomar conta. A gravação de Kuikka oferece uma porta de entrada para um repertório que, até poucos anos atrás, era praticamente inacessível. A combinação do frescor da descoberta com a maturidade interpretativa de um gambista que conhece o instrumento a fundo, resulta numa leitura que faz jus à riqueza dessas páginas redescobertas. Para quem se interessa pela viola da gamba ou pelo barroco tardio alemão, é uma gravação que vale conhecer.
Este lançamento em dois CDs registra ao vivo a integral das quatro sinfonias de Johannes Brahms (1833–1897), interpretadas pela Orquestra da Ópera de Zurique sob a regência de Gianandrea Noseda. Gravadas durante concertos na Ópera de Zurique, as performances capturam a energia e a espontaneidade do palco, documentando um momento em que Noseda voltou sua atenção para o universo sinfônico de Brahms após uma aclamada interpretação do Réquiem Alemão. Compostas entre 1876 e 1885, as quatro sinfonias representam um dos pontos culminantes do romantismo orquestral, conciliando o rigor formal herdado da tradição clássica com uma intensidade expressiva profunda. A interpretação de Noseda tem vigor dramático, clareza estrutural e lirismo. O resultado é uma leitura que destaca os múltiplos planos sonoros da escrita de Brahms, os detalhes das intervenções solistas e o grande arco arquitetônico que une as quatro obras. A abordagem de Noseda é fluida e dionisíaca. Um crítico observou que, ao final de uma apresentação da Segunda Sinfonia, Noseda fechou a partitura e a beijou — um gesto que simboliza a identificação profunda entre intérprete e obra. A Orquestra da Ópera de Zurique não é uma formação operística de alto nível. Essa origem confere às performances um caráter particular: há uma atenção ao detalhe teatral, uma sensibilidade ao fraseado como se fosse canto. Vale notar que Noseda já havia gravado uma integral das sinfonias de Brahms antes, também registrada ao vivo. Então, para quem busca uma integral das sinfonias de Brahms que una clareza estrutural a uma energia concertante genuína, esta gravação de Noseda com a Orquestra da Ópera de Zurique oferece uma leitura que se insere com destaque na vasta discografia dedicada ao compositor. É uma documentação de um maestro em plena maturidade interpretativa, dialogando com um repertório central da tradição sinfônica.




IM-PER-DÍ-VEL !!!
Este é um CD apenas OK, nada mais. A ideia foi boa, mas a escolha das árias parece ter passado por cima do conceito de beleza para abraçar outros critérios. O critério comercial? Sei lá. Como filho de Bach, tenho coleções de árias na minha cabeça e acho que este CD apenas acertou em 50% das tentativas. Ah, o disco é uma seleção de árias de Cantatas e Paixões que incluem voz e violino, certo? Pois é como ia dizendo, há dezenas delas, mas a escolha foi assim assim. Quem rouba o disco é o sensacional Matthias Goerne, que é um barítono alemão realmente maravilhoso. Já Christine Schafer é apenas aceitável. Não curti muito a cantora. Acho que foi isso. Paciência.
IM-PER-DÍ-VEL !!!

IM-PER-DÍ-VEL !!! (Apesar do romantismo todo da coisa).

IM-PER-DÍ-VEL !!!![Johannes Brahms (1833 – 1897): Peças para Piano – Anna Vinnitskaya [α] & Anna Fedorova [Channel Classics] – [Dose Dupla] ֎֎](https://pqpbach.ars.blog.br/wp-content/uploads/2026/09/cover-960x482.png)








![Robert Schumann (1810 – 1856): Sinfonias – Los Angels Philharmonic Orchestra & Gustavo Dudamel [Platoon] ֎](https://pqpbach.ars.blog.br/wp-content/uploads/2026/09/Dudamel-960x640.jpg)









A gravação do Réquiem de Mozart pelo Dunedin Consort sob a direção de John Butt, não é apenas mais uma versão da obra mais enigmática do repertório mozartiano. É uma reconstrução histórica que propõe ouvir o Réquiem como ele soava na sua primeira performance completa, em Viena, em 1793 — e o resultado é uma experiência que desafia décadas de tradição interpretativa. O ponto de partida de Butt é uma defesa de Franz Xaver Süssmayr, tão criticado desde o século XX. Enquanto a maioria das gravações recentes se baseia em novas versões da obra, Butt retorna à edição de David Black da versão de Süssmayr, argumentando que, apesar de suas fraquezas, foi ele quem conheceu Mozart e cuja versão dominou a história da obra por dois séculos. O resultado é uma performance que “reabilita Süssmayr” e “se aproxima muito mais do que Mozart fez”. A escolha mais radical é o efetivo reduzido: um coro de apenas 16 vozes, com os quatro solistas (Joanne Lunn, Rowan Hellier, Thomas Hobbs e Matthew Brook) emergindo do próprio coro, em vez de serem tratados como entidades separadas. A orquestra conta com cerca de 30 instrumentistas, incluindo um fortepiano no contínuo, em vez do órgão usual. Essa configuração, longe de enfraquecer a obra, revela detalhes contrapontísticos que normalmente se perdem em massas corais maiores. A revista Gramophone descreveu a textura como “quase granular”, com cada voz fazendo sua contribuição distinta. Boa versão, é interessante, mas não me apaixonei. Ainda ficamos com Celibidache.

Uma leitura solar e lírica da Sétima de Bruckner, que troca a solenidade austro-alemã por clareza e pulso. O traço mais marcante é a recusa do peso monumental. Rattle já havia gravado a Sétima em 1997, mas aqui ele acelera e alivia a textura. O primeiro movimento flui lírico em vez de pesado. O Adagio — o memorial para Wagner — é direto e sóbrio. O Scherzo é um dia de primavera, com os metais da LSO mandando bala. E o Finale, na visão otimista de Rattle, soa mais catártico do que os de outros rivais. A Diapason descreve essa abordagem como “uma versão aliviada e arejada”, com cordas de pianíssimos e um Bruckner que se desprende das tradições espiritualistas austro-alemãs. Em resumo, esta não é uma Sétima para quem busca a solenidade de Karajan ou Jochum. É uma leitura que confia na beleza estrutural da partitura e no brilho da LSO para oferecer um Bruckner claro, vibrante e afirmativo. Se você se cansou das versões pesadas, esta pode ser uma revelação.
O Concerto para Violino de Britten foi chamado por Heifetz de “impossível de tocar”, tamanha sua dificuldade técnica. Eu o amo perdidamente, principalmente o primeiro movimento. Steinbacher não foge da aspereza e da agressividade da partitura. Um crítico admitiu que, à primeira escuta, a interpretação soa “confusa, barulhenta, intensa” — mas é justamente esse caráter combativo que faz o ouvinte querer voltar. Na tensão entre “belo” e “bruto”, o que está latente na música de Britten ganha relevo. Destaque para a longa cadenza do segundo movimento e a passacaglia final. E para o primeiro movimento inteiro. Para tudo, na verdade.