Mais um grande disco do Belcea Quartet, agora com o excelente pianista Piotr Anderszewski no Quinteto para Piano de Shostakovich.
O Quinteto para piano, Op. 57 (1940)
A música perfeita. Trata-se de um irresistível quinteto escrito em cinco movimentos intensamente contrastantes. O prelúdio inicial estabelece três estilos distintos que voltarão a ser explorados adiante: um dramático, outro neo-clássico e o terceiro lírico. Todos os temas que serão ouvidos nos movimentos seguintes apresentam-se no prelúdio em forma embrionária. Depois vem uma rigorosa fuga puxada pelo primeiro violino e demais cordas até chegar ao piano. Sua melodia belíssima e lírica é seguida por um scherzo frenético. É um choque ouvir chegar o intermezzo que traz de volta a seriedade à música. Apesar do título, este intermezzo é o momento mais sombrio do quinteto. O Finale, cujo início parece uma improvisação pura do pianista, fará uma recapitulação condensada do prelúdio inicial. Este Quinteto para Piano recebeu vários prêmios como o Stálin e outros que não vale a pena referir aqui, mas o mais importante para Shostakovich foi a admiração que Béla Bartók dedicou a ele.
O Quarteto N° 3 foi lançado em Moscou pelo quarteto Beethoven, a quem é dedicado, em dezembro de 1946. Ele foi escrito por Shosta logo após ver sua Sinfonia Nº 9 censurada. Ele também tem cinco movimentos:
Allegretto
Moderado com moto
Allegro non troppo
Adagio ( attacca )
Moderato
Para a estreia, certamente para que não fosse acusado de “formalismo” ou “elitismo “, Shostakovich renomeou os movimentos à maneira de uma história de guerra. Deixo aqui o título de cada movimento a fim de que os visitadores do blog possam dar gargalhadas relacionando “tema” e música.
O engano de ignorar o futuro cataclismo
Alguns estrondos de inquietação e antecipação
As forças de guerra são desencadeadas
Em memória dos mortos
A eterna pergunta: por que e para quê?
Um arranjo de sinfonia de câmara (Op. 73a) foi feito a partir deste quarteto por Rudolph Barshai.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Quinteto para Piano / Quarteto de Cordas N° 3
Piano Quintet In G Minor, Op. 57
Piano – Piotr Anderszewski
1 I. Prelude (Lento) 4:46
2 II. Fugue (Adagio) 11:34
3 III. Scherzo (Allegretto) 3:37
4 IV. Intermezzo (Lento) 7:02
5 V. Finale (Allegretto) 7:40
String Quartet No. 3 In F Major, Op. 73
6 I. Allegretto 7:27
7 II. Moderato Con Moto 5:37
8 III. Allegro Non Troppo 4:12
9 IV. Adagio 6:00
10 V. Moderato 11:12
Ensemble – Belcea Quartet
Cello – Antoine Lederlin
Viola – Krzysztof Chorzelski
Violin – Corina Belcea e Axel Schacher
Piano – Piotr Anderszewski
In This House, On This Morning é um álbum duplo de jazz que se estende por quase duas horas de duração — uma jornada musical que ultrapassa o simples repertório de canções para se aproximar de uma suíte programática inspirada numa celebração dominical de uma igreja afro-estadunidense. A obra foi concebida como uma narrativa musical: cada música ou segmento descreve um aspecto diferente de um serviço religioso. Composto para um septeto, o álbum inclui diversos instrumentistas-chave — como o trombonista Wycliffe Gordon, o pianista Eric Reed e o saxofonista Todd Williams –, e até participações vocais, como a poderosa cantora Marion Williams no trecho In This House. Musicalmente, a obra mistura blues e gospel, refletindo profundamente as raízes da música afro-americana; elementos do jazz tradicional e pós-bebop, com referências claras ao legado de figuras como Duke Ellington; além de transições e temas programáticos que exigem atenção do ouvinte, aproximando o álbum de um tipo de “sinfonia em jazz” para septeto. Na época do lançamento, lembro que alguns críticos observaram que a obra era “demasiado intelectual” ou hermética em certos momentos, com passagens que soam mais como transições do que melodias definidas — o que pode exigir paciência do ouvinte menos acostumado a estruturas extensas. Além disso, embora a influência de Ellington e tradições do jazz clássico seja vista como inspiração, alguns críticos foram menos entusiasmados com essa abordagem e a consideraram datada em certas passagens. De qualquer forma, In This House, On This Morning é um marco — uma obra que desafia as fronteiras entre jazz, música programática e narrativa sonora. Não é simplesmente um álbum de canções, mas uma experiência que requer atenção, absorção e reflexão. Para ouvintes que gostam de jazz que explora tradições profundas, histórias culturais e arquiteturas musicais amplas, este é um trabalho inesquecível.
.: interlúdio :. Wynton Marsalis: In this house, on this morning
Part I
Devotional 3:00
Call To Prayer 5:56
Processional 4:35
Representative Offerings 6:46
(a) The Lord’s Prayer 3:48
Part II
Hymn 3:47
Scripture 4:11
Prayer
(a) Introduction To Prayer 2:24
(b) In This House 3:10
(c) Choral Response 5:10
Local Announcements 3:34
Altar Call 1:30
Altar Call (Introspection) 8:41
Part III: In The Sweet Embrace Of Life
Sermon
(a) Father 16:02
(b) Son 4:58
(c) Holy Ghost 6:56
Invitation 5:59
Recessional 10:34
Benediction 3:25
Uptempo Posthude 7:44
Pot Blessed Dinner 2:40
Alto Saxophone – Wessell Anderson
Bass – Reginald Veal
Composed By – Wynton Marsalis
Piano – Eric Reed
Soprano Saxophone, Tenor Saxophone – Todd Williams
Trombone – Wycliffe Gordon
Trumpet – Wynton Marsalis
Vocals – Marion Williams
Como não poderia deixar de ser, o último CD lançado pela violinista Amandine Beyer e seu conjunto Gli Incogniti é um primor, tanto por suas sempre bem vindas pesquisas histórico – musicológicas quanto pelo frescor em suas interpretações, tirando o mofo de obras já conhecidas em centenas, quiçá milhares de gravações no correr das últimas décadas. Claro que nunca vou deixar de ouvir antigos conjuntos como “I Musici”, que ‘ressuscitou’ o barroco ainda lá nos anos 50, mas como discutíamos dia destes no whattsap do grupo, nada como uma lufada de ar fresco neste repertório.
Amandine Beyer já nos proporcionou outros momentos de prazer com seu incrível conjunto especializado em música historicamente interpretada, e a cada novo CD sabemos que vem ouro puro por aí. Neste incrível CD que ora vos trago, Bach from Italy, lançado em 2025, ela nos mostra as influências e ‘releituras’ que Bach faz dos compositores italianos em sua época, especialmente Antonio Vivaldi e os irmãos Marcello, Alessandro e Benedetto Marcello, que eram muito populares na Alemanha naquele início de Século XVIII. Como bem sabemos, nosso querido Johann Sebastian era pouco conhecido por seus contemporâneos, apenas após a sua morte foi reconhecido pelo gênio que era.
Sugiro a leitura do livreto em anexo, que traz maiores detalhes e informações. Para os fãs do Barroco, eis um bom momento para atualizarem suas audições.
JOHANN SEBASTIAN BACH (1685-1750)
Brandenburg Concerto No.4 in G major BWV 1049 PSS, AG, AB
Sol majeur / G-Dur
1 | I. Allegro 6’25
2 | II. Andante 3’34
3 | III. Presto 4’25
ANTONIO VIVALDI (1678-1741)
Concerto for 2 Violins and Cello in D minor RV 565 AB, VM, MC
Ré mineur / d-Moll (L’estro armonico Op.3, No. 11)
4 | I. Allegro 0’42
5 | II. Adagio e spiccato 0’24
6 | III. Allegro 2’50
7 | IV. Largo e spiccato 2’16
8 | V. Allegro 2’12
JOHANN SEBASTIAN BACH
Brandenburg Concerto No. 3 in G major BWV 1048 AB AR YK – VM OR MP – MC PS FB
Sol majeur / G-Dur
9 | I. Allegro – II. Adagio 5’34
10 | III. Allegro
JOHANN SEBASTIAN BACH
Concerto for 2 Violins in D minor BWV 1043 AB, AR
Ré mineur / d-Moll
14 | I. Vivace 3’25
15 | II. Largo ma non tanto 5’42
16 | III. Allegro 4’13
Oboe d’amore Concerto in A major BWV 1055R EL
La majeur / A-Dur
17 | I. Allegro 4’01
18 | II. Larghetto 4’15
19 | III. Allegro ma non tanto
JOHANN SEBASTIAN BACH
Concerto for 3 Violins in D major BWV 1064R AB, VM, YK
Ré majeur / D-Dur
1 | I. Allegro
2 | II. Adagio
3 | III. Allegro
BENEDETTO MARCELLO (1686-1739)
Violin Concerto in E minor S.C788
Mi mineur / e-Moll
(12 Concerti a cinque con Violino Solo e Violoncello obbligato Op. 1, No.2) AB
Solo violin part after J. S. Bach’s Concerto BWV 981
4 | I. Adagio staccato
5 | II. Allegro assai
6 | III. Adagio
7 | IV. Prestissimo
JOHANN SEBASTIAN BACH
Brandenburg Concerto No. 5 in D major BWV 1050 MG, AB, AF
Ré majeur / D-Dur
8 | I. Allegro
9 | II. Affettuoso
10 | III. Allegro
ANTONIO VIVALDI
Concerto for 4 Violins and Cello in B minor RV 580 AB, KV, YK, AR, MC
Si mineur / h-Moll
(L’estro armonico Op.3, No. 10)
11 | I. Allegro
12 | II. Largo – Larghetto – Adagio – Largo
13 | III. Allegro
JOHANN SEBASTIAN BACH
Concerto for Oboe and Violin in C minor BWV 1060R EL, AB
Do mineur / c-Moll
14 | I. Allegro
15 | II. Adagio
16 | III. Allegro
A gente ouve Weinberg e logo pensa em Shostakovich. Mas num Shosta mais modesto do ponto de vista artístico. A relação entre a música de Mieczysław Weinberg e Dmitri Shostakovich é uma das mais fascinantes e complexas da música do século XX. A conexão começou em 1943, quando Weinberg, então um jovem compositor refugiado da Polônia na União Soviética, enviou sua Primeira Sinfonia a Shostakovich. Impressionado, Shostakovich não só o ajudou a se mudar para Moscou, como se tornou seu amigo mais próximo e mentor. Weinberg declarou: “Embora eu nunca tenha tido aulas com ele, considero-me seu aluno, sua carne e seu sangue”. Esta frase resume a dívida artística que sentia, mas a realidade é que o intercâmbio de ideias era uma via de mão dupla. A influência de Shostakovich na música de Weinberg pode ser percebida em diversos aspectos. Primeiramente pela estética compartilhada: ambos viveram sob a opressão do regime soviético, e essa experiência se traduziu em uma música de grande tensão emocional, ironia amarga, e uma profunda introspecção. Eles compartilhavam uma visão similar sobre o “papel da música” como um testemunho de seu tempo. Depois pela linguagem musical: é possível encontrar paralelos no uso de certos gestos musicais, como melodias líricas e melancólicas, scherzos grotescos e frenéticos, e uma predileção por formas como a passacaglia. E finalmente pela música judaica: Um dos elos mais fortes foi o interesse comum pela música folclórica judaica. Weinberg, filho de um diretor musical de teatro iídiche, trouxe essa herança em sua obra. Acredita-se que ele tenha sido uma fonte crucial para o florescimento do interesse de Shostakovich por esses temas, que resultou em obras-primas como o Segundo Trio com Piano e o ciclo “Da Poesia Popular Judaica”.
Uma menina me pede que eu diga quais as 10 (dez) obras de Bach que, na minha opinião, as pessoas teriam que ouvir ao menos uma vez na vida. Putz, vou tentar…
1. Missa em si menor, BWV 232
Uma síntese monumental da tradição sacra — uma verdadeira catedral sonora.
2. Variações Goldberg, BWV 988
Um universo inteiro construído a partir de um único tema. Foi escrita para curar a insônia de um nobre…
3. Concertos de Brandenburgo, BWV 1046–1051
Brilho, invenção e alegria — Bach em sua face mais luminosa.
4. Suites para Violoncelo Solo, BWV 1007–1012
Pureza absoluta — música que parece nascer do próprio instrumento.
5. O Cravo Bem-Temperado, BWV 846–893
Fundamental para a história da música — um laboratório infinito de formas e afetos.
6. Paixão segundo Mateus, BWV 244
Drama, fé e arquitetura musical em estado supremo.
7. Paixão segundo João, BWV 245
Mais concisa que a Mateus, mas de intensidade dramática impressionante.
8. Sonatas e Partitas para Violino Solo, BWV 1001–1006
O ápice da escrita polifônica para um instrumento de cordas. A Chacone que encerra a Partita No. 2…
9. Concerto Italiano, BWV 971
Uma linda carta de amor à música italiana e a Vivaldi.
10. A Arte da Fuga, BWV 1080
Obra tardia, quase abstrata — o contraponto levado ao limite do pensamento musical.
P.S.: Deixar ‘A Oferenda Musical’ e o ‘Oratório de Natal’ de fora pode me causar problemas na hora de entrar no paraíso. Problemas maiores do que ser ateu, sem dúvida.
Sibelius era um romântico tardio. Um romântico tardio bem esquisito do qual gosto muito. Meu primeiro contato com suas obras para piano foi um belo e pesado disco de vinil. O pianista era Glenn Gould. Somando-se esquisitice com esquisitice o resultado era excelente. Heinonen, o pianista deste CD, mantém o clima preferido do finlandês: uma sintaxe à princípio pouco convidativa, fria, mas gentil e cheia de surpresas. Eu gosto. Não são obras para serem ouvidas apenas uma vez, elas custam a convencer, mas convencem. Sibelius foi um cara fundamental para a independência da Finlândia, que ficava ora em mãos russas, ora em suecas. Sua música teve importante papel na formação da identidade nacional finlandesa. Tudo aqui é nacionalismo, cada nota, apesar do jeitão intimista do moço.
A seleção inclui a Sonata Op. 12, importante obra do Siba, e um arranjo para piano de Finlândia, a música mais famosa daquela parte fria e escura do mundo. E o que dizer da língua maluca que eles falam?
Jan Sibelius (1865-1957): Obras para Piano (Eero Heinonen)
1. Five Characteristic Impressions, Op. 103 – 1. The Village Church Eero Heinonen (piano) 3:31
2. Five Characteristic Impressions, Op. 103 – 2. The Fiddler Eero Heinonen (piano) 2:28
3. Five Characteristic Impressions, Op. 103 – 3. The Oarsman Eero Heinonen (piano) 2:26
4. Five Characteristic Impressions, Op. 103 – 4. The Storm Eero Heinonen (piano) 1:42
5. Five Characteristic Impressions, Op. 103 – 5. In Mournful Mood Eero Heinonen (piano) 2:04
6. Kyllikki (Drei lyrische Stücke für Pianoforte), Op. 41 – 1. Largamente Eero Heinonen (piano) 3:10
7. Kyllikki (Drei lyrische Stücke für Pianoforte), Op. 41 – 2. Andantino Eero Heinonen (piano) 4:47
8. Kyllikki (Drei lyrische Stücke für Pianoforte), Op. 41 – 3. Commodo Eero Heinonen (piano) 3:18
9. Viisi luonnosta (Five Esquisses), Op. 114 – 1. Maisema (Landscape) Eero Heinonen (piano) 2:58
10. Viisi luonnosta (Five Esquisses), Op. 114 – 2. Talvikuvia (Winter Scene) Eero Heinonen (piano) 2:09
11. Viisi luonnosta (Five Esquisses), Op. 114 – 3. Metsälampi (Forest Lake) Eero Heinonen (piano) 1:36
12. Viisi luonnosta (Five Esquisses), Op. 114 – 4. Metsälaulu (Song in the Forest) Eero Heinonen (piano) 2:27
13. Viisi luonnosta (Five Esquisses), Op. 114 – 5. Kevätnäky (Spring in Vision) Eero Heinonen (piano) 1:34
14. Sonata in F major, Op. 12 – I Allegro molto Eero Heinonen (piano) 6:41
15. Sonata in F major, Op. 12 – II Andantino Eero Heinonen (piano) 7:01
16. Sonata in F major, Op. 12 – III Allegro pochettino moderato Eero Heinonen (piano) 4:23
17. Five pieces, Op. 85 (The Flowers) – 1. Bellis Eero Heinonen (piano) 1:42
18. Five pieces, Op. 85 (The Flowers) – 2. Œillet Eero Heinonen (piano) 2:00
19. Five pieces, Op. 85 (The Flowers) – 3. Iris Eero Heinonen (piano) 3:08
20. Five pieces, Op. 85 (The Flowers) – 4. Aquileja Eero Heinonen (piano) 2:14
21. Five pieces, Op. 85 (The Flowers) – 5. Campanula Eero Heinonen (piano) 2:13
22. Zwei Rondinos (Two Rondinos), Op. 68 – Rondino Nr. 1 in G sharp minor (gis-moll) Eero Heinonen (piano) 3:52
23. Zwei Rondinos (Two Rondinos), Op. 68 – Rondino Nr. 2 in C sharp minor (cis-moll) Eero Heinonen (piano) 1:56
24. Finlandia, Op. 26/7 (transcription by the composer) 8:56
POSTAGEM ORIGINAL DE PQP BACH EM 11/9/2013,
LINKS REATIVADOS POR VASSILY EM 19/12/2019,
LINKS REREATIVADOS POR PQP BACH EM 29/03/2026
Nota de Vassily: mais uma interpretação desse monumento da literatura pianística do século XX, desta feita pelo discreto – e EXCELENTE – Alexander Melnikov. De todas as interpretações que conheço, e estamos quase a completar a lista delas aqui no PQP, esta é a que mais cresce em meu gosto cada vez que a revisito.
Falando em lista, olhem ela aqui:
Konstantin Scherbakov
Vladimir Ashkenazy
Tatiana Nikolayeva, em três versões: a primeira (1961), a segunda (1987) e a derradeira (1990)
Keith Jarrett
Peter Donohoe
Alexander Melnikov
BÔNUS: DVD sobre Nikolayeva com uma integral do Op. 87 de Shosta
Quase lá!
Vassily
IM-PER-DÍ-VEL !!!
Creio que esta seja a terceira integral desta grande obra de Shostakovich que publico. A primeira foi a de Scherbakov, depois veio a de Nikolayeva e agora a de Melnikov. Todas são excelentes — talvez a de Nikolayeva vença — , mas o que interessa é que o Op. 87 é uma composição incontornável de nosso amigo Shosta. Abaixo, para dar uma contextualizada, copio o início de um trabalho acadêmico sobre a obra encontrado na internet.
Para compreendermos o contexto o compositor russo Dmitri Shostakovich compôs os 24 Prelúdios e Fugas, Op.87 (1950) devemos voltar alguns anos no tempo. Em 1942, Shostakovich (1906-1975) estreou da sua Sétima Sinfonia, Op. 60, a qual obteve grande sucesso, tendo sido aclamada como um ícone da resistência das tropas russas contra o cerco nazista em Leningrado (FANNING & FAY, 2009). Logo após este sucesso, o compositor viu sua Oitava Sinfonia, Op. 65, ser duramente criticada. Afirmava-se que Shostakovich havia composto uma “sinfonia otimista (a sétima) quando o país estava sob uma terrível ameaça e agora uma pessimista (a oitava) quando a vitória estava à vista.” (FANNING & FAY, 2009, pg. 1). A partir deste episódio, gradativamente as críticas à sua obra foram ficando ainda mais duras. Havia a expectativa de que sua Nona Sinfonia, Op. 70 (1945) fosse uma sinfonia triunfal em comemoração à vitória soviética sobre os alemães. A obra, estreada no pós-guerra, não atendeu às estas expectativas do Estado, o que resultou em um artigo condenatório publicado no jornal Pravda em 1948, que veio a ser um duro golpe na sua carreira. Como consequência, Shostakovich compôs pouco nos cinco anos seguintes (BRYNER, 2004). A pouca produção de composições foi acompanhada da tarefa a ele delegada de representar a União Soviética em congressos internacionais ao redor do mundo (FANNING & FAY, 2009).
Como o compositor russo mais conhecido no exterior, Shostakovich era o espelho da música russa para o Ocidente, mesmo sendo censurado dentro de seu próprio país. Apesar deste paradoxo, estes eventos foram importantes para sua reabilitação artística (BRYNER, 2004).
No ano de 1950, o compositor foi convidado para participar como jurado de um concurso de piano em um evento, na então Alemanha Oriental, em homenagem ao bicentenário da morte de J. S. Bach. O compositor ficou muito impressionado com a pianista russa Tatiana Nikolayeva, que venceu o concurso, e decidiu ele próprio compor um conjunto de prelúdios de fugas em todas as tonalidades (assim como o Cravo Bem Temperado de J. S. Bach), o qual Shostakovich dedicou à pianista (SEO, 2003). Ele compôs esta obra entre outubro de 1950 e fevereiro de 1951.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Prelúdios e Fugas, Op. 87
Disc: 1
1. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 1 in C major. Moderato
2. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 1 in C major. Moderato (4-voice)
3. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 2 in A minor. Allegro
4. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 2 in A minor. Allegretto (3-voice)
5. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 3 in G major. Moderato non troppo
6. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 3 in G major. Allegro molto (3-voice)
7. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 4 in E minor. Andante
8. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 4 in E minor. Adagio (4-voice double fugue)
9. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 5 in D major. Allegretto
10. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 5 in D major. Allegretto (3-voice)
11. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 6 in B minor. Allegretto
12. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 6 in B minor. Moderato (4-voice)
13. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 7 in A major. Allegro poco moderato
14. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 7 in A major. Allegretto (3-voice)
15. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 8 in F sharp minor. Allegretto
16. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 8 in F sharp minor. Andante (3-voice)
17. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 9 in E major. Moderato non troppo
18. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 9 in E major. Allegro (2-voice)
19. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 10 in C sharp minor. Allegro
20. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 10 in C sharp minor. Moderato (4-voice)
21. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 11 in B major. Allegro
22. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 11 in B major. Allegro (3-voice)
23. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 12 in G sharp minor. Andante
24. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 12 in G sharp minor. Allegro (4-voice)
Disc: 2
1. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 13 in F sharp minor. Moderato con moto
2. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 13 in F sharp minor. Adagio (5-voice)
3. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 14 in E flat minor. Adagio
4. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 14 in E flat minor. Allegro non troppo (3-voice)
5. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 15 in D flat major. Allegretto
6. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 15 in D flat major. Allegro molto (4-voice)
7. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 16 in B flat minor. Andante
8. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 16 in B flat minor. Adagio (3-voice)
9. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 17 in A flat major. Allegretto
10. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 17 in A flat major. Allegretto (4-voice)
11. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 18 in F minor. Moderato
12. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 18 in F minor. Moderato con moto (4-voice)
13. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 19 in E flat major. Allegretto
14. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 19 in E flat major. Moderato con moto (3-voice)
15. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 20 in C minor.
16. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 20 in C minor. Moderato (4-voice)
17. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 21 in B flat major. Allegro
18. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 21 in B flat major. Allegro non troppo (3-voice)
19. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 22 in G minor. Moderato non troppo
20. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 22 in G minor. Moderato (4-voice)
21. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 23 in F major. Adagio
22. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 23 in F major. Moderato con moto
23. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Prelude No. 24 in D minor. Andante
24. Preludes & Fugues (24), for piano, Op. 87: Fugue No. 24 in D minor. Moderato (4-voice double fugue)
Ludovico: – Signore Rossini, componha mais barbeiros! Continue a compor óperas-buffa!
Tendo em conta o enorme e retumbante sucesso das postagens com música lírica, esse vosso escrevinhador de postagens animou-se ainda mais e na seção ‘Domingo é Dia de Ópera’ e traz agora uma gravação completa de uma ótima peça – Il Barbiere di Siviglia.
Vejam, mesmo morando em cidades diferentes e distantes até no tempo (30 anos de diferença), Mozart e Rossini frequentavam a mesma barbearia – Beaumarchais Barber Shop –, e eram atendidos sempre pelo mesmo mestre barbeiro, um tal de Figaro. A tal barbearia atraia realmente muitos compositores de óperas, Giovanni Paisiello entre eles…
Em todos os Figaros, bilhetes iam para lá e para cá…
Rossini compôs seu ‘Il Barbiere di Siviglia’ trinta anos depois de Mozart haver composto sua ópera ‘Le Nozze di Figaro’, mas os eventos descritos na ópera de Rossini precedem aqueles da obra de Mozart. Ambos libretos são baseados nas peças de Beaumarchais, que mostra a nobreza às voltas com as mundanas complicações da ralé. Na ópera de Rossini o Conde de Almaviva se diz Lindoro e precisa da ajuda de Figaro para casar-se com Rosina, aquela que será a Condessa na ópera de Mozart. Na narrativa de Wolfgang (e Da Ponte) eles já se encontram casados (o nome Rosina é mencionado uma única vez) e o casório agora é do barbeiro, que se tornou o ajudante pessoal do Conde.
Mas como nas franquias de filmes de aventuras, não é necessário conhecer essa ópera antes ou aquela outra, ambas são ótimas, divertidíssimas e nos podem proporcionar música de primeira. Em comum as tramas e confusões – bilhetes, disfarces e uma horda de gentes tentando enrolar uns aos outros, mais atrapalhados do que safos.
Ela: o que o Salieri está fazendo por aqui? Isso é Rossini…
Hoje vamos de Rossini, uma gravação que tem como estrela a ótima Cecilia Bartoli como Rosina e Leo Nucci como o famoso barbeiro. O conde-Lindoro é William Matteuzzi e o Coro e Orquestra do Teatro Comunale di Bologna estão sob a regência de Giuseppe Patanè.
O que você não pode perder?
No primeiro ato estão as principais árias. “Ecco, ridente in cielo”, cantada pelo Conde é uma das primeiras e, depois, uma das mais famosas de todas, “Largo al factótum” na qual Figaro conta quem ele é e como vive ocupadíssimo: Figaro qua, Figaro la, Figaro qua, Figaro la, Figaro su, Figaro giu, Figaro su, Figaro giu!
Os coadjuvantes também cantam: “La calunnia è um venticello”, de Basílio, professor de música da doce Rosina, e “A un dottor della mia sorte”, de Bartolo, o tutor de Rosina, com quem quer casar-se. Ambas famosas e ótimas.
Além de óperas, Rossini deixou sua marca também na gastronomia…
Como se trata de uma ópera-buffa, há cenas engraçadas envolvendo vários personagens, o que muito contribui para o sucesso da peça. O mocinho, Conde de Almaviva, para se aproximar de sua amada Rosina disfarça-se de Lindoro, depois finge ser um soldado bêbado e finalmente ‘Don Alonso’, professor de música.
Há uma cena da lição de música, quando o pretenso professor dá aulas a Rosina e Figaro engabela o doutor Bartolo. Outro número imperdível é o quinteto (Figaro, Bartolo, Basilio, Rosina e Lindoro) “Buona sera”. Assim, de truques e bilhetes, vamos até o final feliz do Conde casando-se com Rosina, que passa a ser a Condessa… Afinal, o grande Ludovico não poderia errar, vaticinando que “Il Barbiere” faria sucesso enquanto houvesse algo como ópera-buffa sendo encenada pelo mundo afora.
Cecilia não poderia ter sido mais simpática com a equipe de fotógrafos do PQP Bach….Lição de música!
This is a light, comic opera, and so it should sound joyous and fun. This performance achieves that perfectly, in great quality sound. And there are no bad performers in this, no one spoils the fun or one’s enjoyment by substandard singing or playing or conducting; it is a very solid performance of this great opera.
Patane recording – What jumps out at me is the joy of the artists’ musicmaking. The orchestra clearly has this music in its blood and they play with precision and panache, underlining what a talented orchestrator Rossini was. Another plus is a young Cecilia Bartoli as Rosina, a role which first brought her to prominence in the year before this recording.
Aproveite!
René Denon
Vai um Tournedos Rossini ao ponto? Aos veganos, as batatas…
Nestes três CDs eu tenho o enorme prazer de apresentar sete jovens pianistas extremamente talentosos que fizeram suas estreias no Ruhr Piano Festival 2019. Artistas promissores dos quais podemos esperar e certamente ouviremos muito mais no futuro.
Franz Xaver Ohnesorg, Director
Em função do enorme sucesso da postagem com gravações feitas no Klavier-Festival Ruhr, insistimos em apoquentar nossos seguidores com mais esta leva – três discos repletos de boa música. O tema da edição de 2019 é ‘Festivaldebüts’ – apresentação de pianistas que, naqueles dias, estavam em início de carreira.
Giuseppe Guarrera
Como nos discos da postagem anterior, os artistas vão se alternando nas apresentações das peças e cada disco promove um programa coerente.
Tiffany ficou casadinha depois da Sonata de Haydn…
O primeiro disco reúne algumas Sonatas de Scarlatti, uma sonata para piano e um andante com variazioni de Haydn. Completando o disco, uma melodia húngara de Schubert e as Variações sobre um tema de Schumann, de Brahms. Eu gostei muito das sonatinhas do Domenico, especialmente de umas interpretadas pelo siciliano Giuseppe Guarrera, das quais eu não me recordava ou conhecia. A transição para a Sonata No. 62 (Hob. XVI/52) de Haydn é impactante, foi a última que ele escreveu, após sua primeira viagem a Londres. O adágio é pré-romântico e o finale-presto deve ter impressionado o jovem Ludovico.
Nicolas Namoradze
O segundo disco é do qual eu mais gostei, com música para teclado, de Bach. Após uma das Sinfonias a três vozes, uma das Partitas e duas Suítes, uma inglesa e uma francesa. A Partita é a dramática Sexta. A Suíte Francesa é a que eu mais gosto, a Quinta, e está nas mãos de Tiffany Poon, a mesma pianista da Sonata de Haydn. Se você não ouvir essa peça pelo menos duas vezes é porque tens um coração de pedra.
O último disco muda de fase, vamos para o escancarado romantismo, depois das Variações sobre um tema de Paganini, de Brahms, um punhado de peças de Liszt. Os Sonetos de Petrarca são peças bem bonitas.
Elisabeth Brauss
Tudo gravado ao vivo com intérpretes jovens, de grande talento, mostrando ao público a que vieram. Eu gostei de tudo (é claro, mais disto ou daquilo do que daquilo outro) e cabe a você descobrir por que a música tem tanto poder de impressionar e mover as pessoas.
CD1
DOMENICO SCARLATTI (1685 – 1757)
Sonate in D-Dur K 492 [03:42]
Sonate in E-Dur K 380 [02:51]
Sonate in f-Moll K 386 [02:38]
Sonate in c-Moll K 56 [03:40]
ELISABETH BRAUß, piano
Sonate in d-Moll K 9 [02:49]
Sonate in d-Moll K 32 [02:31]
Sonate in e-Moll K 394 [04:16]
Sonate in G-Dur K 125 [01:06]
Sonate in f-Moll K 466 [04:02]
Sonate in F-Dur K 107 [02:29]
GIUSEPPE GUARRERA, piano
JOSEPH HAYDN (1732 – 1809)
Sonate in Es-Dur Hob. XVI:52
Allegro [06:16]
Adagio [07:50]
Finale. Presto [04:15]
TIFFANY POON, piano
Andante con variazioni in f-Moll Hob. XVII:6 [08:55]
ALEXANDER ULLMAN, piano
FRANZ SCHUBERT (1797 – 1828)
Ungarische Melodie in h-Moll D 817 [03:38]
ALEXANDER ULLMAN, piano
JOHANNES BRAHMS (1833 – 1897)
Variationen über ein Thema von Robert Schumann in fis-Moll op. 9 [17:49]
O Klavier-Festival Ruhr 2026 abordará “Die Welt des György Kurtág” e terá como participantes: Igor Levit & Markus Becker / Diana Krall / Krystian Zimerman und viele weitere Künstler…
Aproveite!
René Denon
Till Hoffmann ganhou a aposta feita com o pessoal do PQP Bach – tocou Bach até ‘descostas’…
Camille: – O que se pode escrever depois de Beethoven?
Claude: – Reflets dans l’ eau!
É possível que eu esteja um pouco assim como os compositores franceses num certo momento da história da música – cansado do modelo musical ‘alemão’, forma sonata serrando por cima, três movimentos para os concertos, quatro movimentos para as sinfonias e quartetos e tal.
Tenho preferido ouvir mais o repertório fruto dessa ‘rebeldia’, busca de uma outra maneira de compor, seja música ‘francesa’ ou na ‘espanhola’, um pouco de jazz e ópera.
Metropole Ruhr Essen
Foi nesta toada que dei com meus costados nesta coleção de quatro CDs gravados em 2018 na correspondente edição do Klavier-Festival Ruhr. Sei, fica na Alemanha, mas o tema daquela edição do festival foi “Vive la France!”, tá aí explicado.
Este festival ocorre ao longo de três meses, todos os anos, a partir de maio (Im wunderschönen Monat Mai), nesta parte da Alemanha, o Ruhrgebiet, cuja maior cidade é Dortmund. O pacote de quatro CDs nos oferece música para piano, canções e música de câmara. Eu havia decidido postar o primeiro CD, com peças para piano de Debussy, do qual eu gostei muito e ouvi diversas vezes. Mas, repensei a decisão e aqui estão também os outros três discos.
O segundo disco tem música para piano de Saint-Saëns, que escreveu, ao longo de sua relativamente longa e produtiva vida, pouco para piano solo, sempre peças características, nada de sonatas, essas coisas. Ele dizia “O que se pode escrever depois de Beethoven?”. Eu ouvi quase todo o disco, mas confesso que ainda estou lidando com ele, especialmente depois do disco do Debussy, ao qual acabo retornando. Os pianistas nos dois primeiros discos são ótimos, especialmente Mao Fujita, que mais recentemente mudou da Naxos para a Sony.
O terceiro disco promete, são canções desses dois compositores, mas eu ouvi mesmo algumas poucas. De qualquer forma, como o pianista que acompanha os cantores é o Graham Johnson, o cara da Edição Schubert da Hyperion, e tantas outras grandes empreitadas, temos mais que garantia de ótima qualidade, ficando apenas a questão do gosto musical a ser decidido pelas audições.
O quarto disco traz o Trio com Piano de Debussy, uma obra de juventude, escrita enquanto ele passava o verão de 1880 na idílica pequena cidade de Fiesole, que fica nas colinas próximas da cidade de Florença. (Chato, não é?) Debussy fora contratado como pianisra e professor de piano da família de Nadezhda von Meck, a ricaça mecenas de Tchaikovsky. A peça é bem bonita, mas não parece exatamente Debussy de seus dias posteriores. A outra peça é um Concerto para Piano, Violino e Quarteto de Cordas de Chausson. Eu achei a peça um pouco congestionada, mas talvez deva ouvir mais vezes. Certamente tem bons momentos, mas isso também tem as óperas de Wagner. Espero que você goste.
CD1
CLAUDE DEBUSSY (1862 – 1918)
Images I (1904 – 05)
Reflets dans l’ eau
Hommage à Rameau
Mouvement
Images II (1907)
Cloches à travers les feuilles
Et la lune descend sur le temple qui fut
Poissons d’or
Sergei Redkin, piano
Moers, Martinstift | Live Recording: 23. Mai 2018
L’ isle joyeuse (1904)
L’ isle joyeuse
Jamina Gerl, piano
Wattenscheid, Zeche Holland | Live Recording: 03. Mai 2018
Estampes (1903)
Pagodes
Soirée dans Grenade
Jardins sous la pluie
Mao Fujita, piano
Bochum, Kunstmuseum | Live Recording: 02. Juni 2018
Deux Arabesques (1888)
Arabesque Nr. 1 in E-Dur
Arabesque Nr. 2 in G-Dur
Inga Fiolia, piano
Essen, Haus Fuhr | Live Recording: 09. Juni 2018
Pour le Piano (1894 – 1901)
Prélude
Sarabande
Toccata
Mao Fujita, piano
Bochum, Kunstmuseum | Live Recording: 02. Juni 2018
Camille Saint-Saëns escreveu aproximadamente vinte obras para piano solo: seu estilo neoclássico melodioso e elegante deve ter se encaixado perfeitamente com a atmosfera cultivada nos salões parisienses.
No final do século XIX, um dos locais mais prestigiados onde os artistas parisienses se reuniam era o salão do compositor Ernest Chausson. Maurice Ravel era presença frequente nesse ilustre círculo, assim como Debussy, com quem Chausson cultivou uma significativa amizade. Por exemplo, os dois estudaram juntos a partitura de Boris Godunov, de Mussorgsky, e se maravilharam com suas sonoridades completamente incomuns.
Aproveite!
René Denon
Na região do Ruhr, a tradição mineira e a história industrial encontram o estilo hipster e as visões do futuro. Esta antiga área de indústria pesada transformou-se numa das regiões mais vibrantes da Alemanha.
Uma capa meio estranha: parece que a cantora e o maestro estão sentindo um cheiro forte, se seria um fedor (será que havia no estúdio um francês que estava há 3 dias sem banho?) ou um aroma sublime de flores da primavera, deixo a escolha para nossos leitores. Mas se os dois talvez não sejam tão convincentes na capa (ou seria culpa do fotógrafo?), no álbum a visão de Mozart que eles apresentam é bastante convincente. Com um repertório centrado na primeira metade da carreira do precoce compositor, eles misturam música sacra e profana, mostrando a originalidade e beleza das obras.
No libreto do álbum, uma entrevista do maestro traz o seu ponto de vista sobre as obras da primeira metade da carreira de Mozart: interessa para ele mostrar como certos aspectos da visão de mundo barroca estão presentes ali.
I mentioned earlier the theatricality of Baroque and Classical music: every one of my projects concerns this. In my opinion, it’s enough to look at a painting from these periods to see the extreme theatricality of the representations, to which music is obviously no exception, whether secular or sacred. With this programme, I wanted to mix sacred and secular works in a dramatic perspective. It seems to me that this was how music was conceived during Mozart’s lifetime, as testimonies always mention extremely moving singers with persuasive power and highly expressive, contrasting voices… even in church music! Contrary to the 19th century’s ethereal image of the genre, 18th-century treatises indicate that voices must be large and highly expressive in order to convey the message of the text in vast spaces dedicated to worship. There is therefore a porous boundary between the vocal idiom of the sacred and secular repertoires which is doubtless a matter for further reflection. The motet Exsultate, jubilate, around which this programme was built, illustrates this very well: Mozart composed it for the castrato Venanzio Rauzzini, having been won over by his performance of his opera Lucio Silla. The two works don’t have the same subject matter at all, which shows that it was Rauzzini’s intrinsic qualities that prompted Mozart to approach an operatic and a sacred piece in the same spirit.
How do the other works presented here relate to Exsultate? I wanted to create a journey centred on Mozart in the dying years of the Baroque, at the crossroads with Classicism, so I chose works from the decade 1770-80. When he composed the Exsultate, he was 17 years old and still very much imbued with the virtuosic Neapolitan writing inherited from the previous generation, that of Hasse, Jommeli or Traetta. The arias of La Betulia Liberata or Davide Penitente (itself derived from the Great Mass in C minor), or his 17th symphony, whose opening pages are reminiscent of an opera seria aria, testify to this. Mozart did not feel free in Salzburg: he was at the mercy of his employer, Archbishop Colloredo, and imprisoned within a certain tradition… which he worked to crack open, as demonstrated by his Church Sonatas – veritable miniature symphonies whose thematic material he would later reuse.
Rather than thinking of Mozart as having a ‘Mozartian’ style, I prefer to think of him as someone who was constantly searching and questioning himself in order to progress. Mozart must have been very afraid of getting bored – you can sense this in the perpetual forward motion of his works. And in this quest for freedom, youth and ardour that strikes our ears, he achieves suspended moments of poetry and transcendence: the Agnus Dei from the Coronation Mass, the Laudate Dominum from the Vesperæ solennes de confessore, which reminds me of bel canto and Bellini’s “Casta Diva”, with its long, highly refined line in the form of an arch above the regular motion of the orchestra…
W.A. Mozart (1756-1792):
1. La Betulia Liberata, K. 118/74c: Aria: Quel nocchier che in gran procella (Amital) 06:09
2. Sinfonia nº 17 em Sol Maior, K. 129: I. Allegro 04:17
3. Sinfonia nº 17 em Sol Maior, K. 129: II. Andante 04:01
4. Sinfonia nº 17 em Sol Maior, K. 129: III. Allegro 03:55
5. Davide Penitente, K. 469: Aria: Lungi le cure ingrate 04:48
6. Church Sonata in D Major, K. 69 02:36
7. Church Sonata in G Major, K. 274 03:34
8. Church Sonata in D Major, K. 144 03:16
9. Mass in C Major, K. 317 ‘Coronation’: Agnus Dei 03:11
10. Church Sonata in E-Flat Major, K. 67 02:39
11.Exsultate, jubilate, K. 165: I. Exsultate, jubilate 04:43
12.Exsultate, jubilate, K. 165: II. Fulget amica dies 00:50
13.Exsultate, jubilate, K. 165: III. Tu virginum corona 05:38
14.Exsultate, jubilate, K. 165: IV. Alleluia, alleluia 02:35
15.Vesperæ solennes de confessore, K. 339: V. Laudate Dominum 02:42
Karine Deshayes, soprano
Les Paladins, Jérôme Correas
Um bom CD que vale pale segunda faixa, Elveen, homenagem ao baterista Elvin Jones, que está no grupo nesta faixa e na 5ª. De resto, adoro Marsalis, mas ouvi este disco sem real entusiasmo apesar do incrível apuro técnico e musicalidade do quinteto. As harmonias são lindas, mas nenhum dos temas é particularmente memorável e, embora os solos individuais sejam bons, não acontece muita coisa. No geral, é uma homenagem bastante estranha ao blues. Na verdade, o principal significado deste conjunto é que, aqui o grande trompetista reuniu pela primeira vez o núcleo do seu quinteto. Musicalmente esta trilogia pode ser contornada. ouça as gravações mais recentes de Marsalis. Não obstante, este é um álbum relaxante. Wynton Marsalis é um músico, compositor, líder de banda, aclamado educador e um dos principais defensores da cultura americana. Ele é o primeiro artista de jazz a tocar e compor em todo o espectro do gênero, desde as raízes de Nova Orleans até o bebop e o jazz moderno. Ao criar e executar uma ampla gama de músicas para quartetos e big bands, de conjuntos de música de câmara a orquestras sinfônicas, de sapateado a balé, Wynton expandiu o vocabulário do jazz e criou um corpo vital de trabalho que o coloca entre os mais importantes músicos de nosso tempo.
.: interlúdio :. Wynton Marsalis: Thick in the south
1 Harriet Tubman 7:39
2 Elveen 12:12
3 Thick In The South 10:14
4 So This Is Jazz, Huh 12:25
5 L.C. On The Cut 13:29
Bass – Bob Hurst
Drums – Elvin Jones (tracks: 2, 5), Jeff Watts
Piano – Marcus Roberts
Tenor Saxophone – Joe Henderson
Trumpet – Wynton Marsalis
As obras de Bouchard e Chihara são de primeira linha, mas nada se compara com a profundidade da Sonata para Viola que Shostakovich escreveu em seu leito de morte. Esta Sonata Op. 147, foi composta em 1975, ano da morte do compositor, e é a sua derradeira obra — um testamento musical escrito em poucas semanas e dedicado ao violista Fyodor Druzhinin, que a estreou. Em seus três movimentos, Shostakovich parece despedir-se da vida e da arte com uma serenidade amarga e uma lucidez comovente. O primeiro movimento, de lirismo contido, evoca o cansaço; o segundo, uma scherzo grotesco e sardônico, traz ecos do humor negro que sempre o acompanhou. Mas é no Adagio final que a obra atinge sua dimensão mais sublime: nele, Shostakovich cita longamente a Sonata ao Luar de Beethoven, transformando o tema clássico numa melodia fantasmática e suspensa, como se o compositor russo dialogasse com o passado e com a morte numa só respiração. A viola — instrumento de timbre introspectivo — torna-se aqui a voz de um homem que já não precisa gritar, apenas recordar, perdoar e, por fim, silenciar. É uma obra que não se entrega facilmente: exige escuta silenciosa, e retribui com a mais pura verdade. A interpretação de Kim Kashkashian é muito comovente e deixa as outras na poeira.
Linda Bouchard: Pourtinade / Paul Chihara: Redwood / Dmitri Shostakovich: Sonata Op. 147 (Kim Kashkashian, Robert Levin, Robyn Schulkowsky)
1 Pourtinade 17:02
Composed By – Linda Bouchard
2 Redwood 11:53
Composed By – Paul Chihara
Sonata Op. 147
Composed By – Dmitri Shostakovich
3 Moderato 9:07
4 Allegretto 7:17
5 Adagio 15:08
Percussion – Robyn Schulkowsky (faixas: 1 e 2)
Piano – Robert Levin (Faixas: 3 a 5)
Viola – Kim Kashkashian
O melhor de Rigoletto é sem dúvida sua intensidade dramática e genialidade melódica, apresentando momentos icônicos como “La donna è mobile”, do Duque, “Caro nome”, de Gilda, e o profundo quarteto do Ato 3, “Bella figlia dell’amore”.
Uma boa ópera precisa de um vilão, um mau-caráter de carteirinha! A fila destes personagens é longa e variada. Don Giovanni, Scarpia, Iago, Rainha da Noite são nomes que lá estão, sem dúvida. Ao lado do Don, no grupo dos mulherengos, está o Duque de Mântua, personagem importante de Rigoletto, a ópera de hoje, que é domingo.
Nos arquivos da postagem um convite diferente para ouvir as melodias do Giuseppe Verdi, os melhores momentos de uma gravação feita pela Naxos. No comando o ótimo regente de origem Persa, que estudou na Áustria com Hans Swarovsky, Alexander Rahbari.
Nesta ópera o protagonista é Rigoletto, o disforme bobo da corte do Duque de Mântua pai da mocinha Gilda, que cairá nas garras do volúvel Duque, vilão do dia. Você pode descobrir tudo e mais um pouco sobre essa obra prima, criada originalmente por Victor Hugo e transformada em ópera de tremendo sucesso por Verdi, acessando a postagem de nosso Verdi-expert, Alex Delarge. A postagem de hoje serve apenas de appetizer, quase um trailer para a ‘real-thing’. Quem sabe, ouvindo essa versão curta você se anima e mergulha neste mundo de emoções, sentimentos exacerbados, gestos imensos e muita paixão. Ópera é a arte do exagero.
Eduard Tumagian sem a corcunda de Rigoletto
O resumo da ópera? Tragédia, está na cara, não é? Uma maldição – na corte do Duque de Mântua, um incorrigível Don Juan, o corcunda e disforme Rigoletto faz pouco caso dos cortesãos para agradar ao Duque. Sua afiada língua acaba atraindo a maldição de um deles, sem contar o rancor de tantos outros. Logo ele que tem telhado de vidro. Vidro não, cristal! Sua linda filha – Gilda – a mocinha da ópera que vive escondida, longe dos olhares de todos. Preciso dizer mais? A povera ragazza cai nas manhas e artimanhas do Duque, que ela pensa ser um tal de Gualtier Maldè. ‘Caro nome’ é uma linda ária, que você não deve deixar de ouvir.
Yordi não encontrou a foto vestido de Duca e mandou essa onde ele está vestido de Pedrillo mesmo…
Vai rolar um contrato para a morte do Duque, o assassino de aluguel também tem nome de restaurante italiano – Sparafucile – mas, o destino joga sujo com o corcunda. Para mais detalhes, vá para a postagem oficial. Mas, aqui você encontrará uns bons trechos, como as duas árias do Duque – Questa o quella – logo no início da ópera, e a famosa ‘La donna è mobile’, que ele canta ao sair da taberna para onde fora atraído pelo Sparafucile, com a ajuda de sua irmã, Madalena.
Outro trecho impressionante é de Rigoletto, que canta ‘Cortegiani, vil razza dannata’, maldizendo de volta a turba de baba-ovos que vive em torno do Duque.
Há também momentos de conjunto, com o Rigoletto e sua ‘figlia’, ou com vários personagens cantando juntos. Verdi foi mesmo um bamba!
Giuseppe Verdi (1813 – 1901)
Rigoletto (Highlights)
Act I: Prelude
Act I Scene 1: Ballata: Questa o quella per me pari sono (Duca)
Act I Scene 2: Pari siamo! (Rigoletto)
Act I Scene 2: Figlia! … Mio padre! – Gia da tre lune – Ah! Veglia, o donna (Rigoletto, Gilda, Giovanna, Duca)
Act I Scene 2: E il sol dell’anima (Duca, Gilda)
Act I Scene 2: Gualtier Malde – Caro nome che il mio cor (Gilda)
Act I Scene 2: Zitti, zitti, moviamo a vendetta (Chorus)
Act II: Ella mi fu rapita! – Parmi veder le lagrime (Duca)
Com árias suaves e arrebatadoras como “Questa o quella” e a incrivelmente cativante “La donna è mobile” (tão cativante, aliás, que Verdi se recusou a revelá-la ao elenco até os ensaios finais para manter a melodia em segredo), o lascivo Duque de Mântua prova que nem todos os tenores são heróis.
Rigoletto é considerada uma das melhores e mais eficazes obras de Verdi, combinando situações intensas e dramáticas com um brilhantismo melódico.
Aproveite!
René Denon
Rahbari de olho nas violas da PQP Bach Sinfonieta durante uma apresentação em Bagé
Um disco maravilhoso de um baterista. Lembro que emprestei o vinil para um baterista amigo meu e ele devolveu o disco cheio de partituras e anotações sobre os tempos. Claro que ele comprou o disco após enlouquecer desta maneira. Me contou que começou ouviu o disco às 22h e terminou às 7 da manhã. Ah, lembrei: ele ficou com o meu disco. me devolveu um novo porque disse que meu tinha sido muito usado. Bem, o álbum Special Edition, de Jack DeJohnette, marca um momento decisivo na trajetória do baterista como líder. Lançado no início dos anos 1980, o disco apresenta um quarteto poderoso — com David Murray, Arthur Blythe e Peter Warren — que se move com liberdade entre o pós-bop, o free jazz e estruturas mais abertas. Desde as primeiras faixas, percebe-se que não se trata apenas de um grupo de apoio, mas de um organismo coletivo vibrante, em que cada músico contribui com forte identidade, criando uma música tensa, expansiva e profundamente comunicativa. O que distingue Special Edition é justamente essa combinação entre energia bruta e senso de forma. A bateria de DeJohnette não é apenas rítmica, mas arquitetônica — ela conduz, comenta e reorganiza constantemente o fluxo musical. Os sopros alternam momentos de lirismo com explosões quase selvagens, enquanto o conjunto mantém uma coesão impressionante, mesmo nos trechos mais livres. O resultado é um álbum que soa ao mesmo tempo cerebral e visceral, afirmando-se como um dos registros mais marcantes do jazz contemporâneo daquele período — um encontro de forças criativas em estado de alerta permanente. Ouça ou, se for burro, morra!
Jack DeJohnette – Special Edition (1979)
1. One For Eric (DeJohnette)
2. Zoot Suite (DeJohnette)
3. Central Park West (Coltrane)
4. India (Coltrane)
5. Journey To The Twin Planet (DeJohnette)
David Murray – Clarinet (Bass), Sax (Tenor)
Arthur Blythe – Sax (Alto)
Jack DeJohnette – Drums, Synthesizer, Guitar, Piano, Melodica, Main Performer, Producer, Keyboards, Mellophonium
Peter Warren – Bass, Cello
Estivemos no meio de uma enxurrada de postagens de Mozart, e agora temos uma enxurrada de Shostakovichs. Mas não creio que alguém vai reclamar. Estas gravações que ora vos trago são históricas, gravadas no apogeu da Guerra Fria. Esqueçam Haitink, Barshai, e não sei mais quem. Kirill Kondrashin é o nome do cara. Sim, claro que estou exagerando, o ideal é deixar todas estas gravações juntas, para serem analisadas, comparadas, etc. Ouvi-las à exaustão, para melhor identificarem as diferenças de leitura de cada um destes grandes maestros. E vamos ao que viemos.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Complete Symphonies, CD 2 de 11 – Symphony No. 4 in C minor, Op. 43 – Kondrashin, MPSO
01. Symphony No. 4 in C minor, Op. 43 I. Allegretto poco moderato
02. Symphony No. 4 in C minor, Op. 43 II. Moderato con moto
03. Symphony No. 4 in C minor, Op. 43 III. Largo
Nascida em 1942 em Tibilisi, capital da Geórgia e cidade natal também do compositor Aram Khachaturian, Elisso tem um estilo mais ou menos parecido com o de Richter, pianista com quem conviveu por muitos anos em Moscou. Ambos tinham muita afinidade com as obras de Schumann e Prokofiev, além de tocarem peças menos óbvias do classicismo vienense: no caso de Richter, sonatas de Haydn; no de Elisso, peças avulsas de Mozart como as Fantasias e Rondós para piano. A outra Fantasia em dó menor, K. 475, também foi gravada por ela, assim como as obscuras variações sobre o tema “Ah vous dirai-je, Maman”.
Aqui, temos a mistura de dois recitais de piano, um de 1991 (Milão) e um de 1997 (Stuttgart). Wirssaladze começa com um Mozart mais sério do que o das sonatas para piano. A seriedade da Fantasia nº 2 é um elemento em comum com as Fantasias para piano nº 3 (em ré menor) e nº 4 (também em dó menor, aqui) do mesmo compositor. Depois temos obras curtas de Brahms e Prokofiev e uma série de bises: Mozart, Chopin, Schumann.
Na verdade a já citada Fantasia K. 396 de Mozart é apenas um fragmento. O número de catálogo K. 385f também é usado para indicar que a obra foi finalizada pelo Abade Maximilian Stadler poucos anos depois da morte de Mozart. Stadler teve acesso a inúmeros papéis deixados pelo jovem falecido e falava, digamos, o mesmo “idioma” do que hoje chamamos classicismo vienense, mas não faltariam puristas apontando tal e tal diferença entre os seus “remendos” e os originais de Mozart. Eu gosto muito dessa Fantasia, então não me incomodo com os puristas.
O selo alemão Live Classics lançou nos anos 1990 e 2000 muita coisa dos pianistas Sviatoslav Richter e Elisso Wirssaladze, da violoncelista Natalia Gutman, do violinista Oleg Kagan e mais um punhado de artistas, quase todos oriundos da ex-URSS e tudo ao vivo como o nome já indica.
Elisso Wirsaladze:
1. W.A. Mozart:
Fantasy No. 2 in C Minor, K. 396
2-5. J. Brahms:
Klavierstucke, op. 119
6-11. S. Prokofiev:
Sarcasmes, op. 17
Toccata, op. 11
12. W.A. Mozart:
Romance in A-Flat Major, K. Ann. 205
13. F. Chopin:
Valse op. 34 no. 1
14. R. Schumann:
Waldszenen, op. 82 – Der Vogel als Prophet
Este disco foi gravado em 2009, para as comemorações dos 100 anos da polonesa Grażyna Bacewicz, uma pioneira dentre as compositoras mulheres. O CD envolve apenas músicos polacos e é muitíssimo bom. Zimerman e seu grupo dá interpretações de altíssima temperatura emocional às obras de sabor neoclássico de Bacewicz.
Uma grande surpresa: um CD de primeira linha dedicado a uma compositora que não tinha obras postadas aqui no PQP! (Postagem original de 2017)
Grażyna Bacewicz (1909-1969): Sonata para Piano Nº 2 e Quintetos para Piano Nº 1 e 2 (Zimerman)
Piano Quintet No.1
1. 1. Moderato molto espressivo [8:19]
2. 2. Presto [4:31]
3. 3. Grave [8:02]
4. 4. Con passione [5:11]
Sonata No. 2 for Piano
5. Maestoso [6:15]
6. Largo [8:56]
7. Toccata [3:36]
Sim, sim, um disco extraordinário. Aqui, há várias lições: (1) John Adams ensina como o minimalismo pode ser mais legal sem vidro, (2) como uma orquestra formada por jovens jazzistas acompanhados por músicos eruditos rendem e exploram adequadamente a irreverência deste espetacular repertório, (3) como meu pai tinha razão ao dizer e repetir que da música do século XX, a mais ampla, ventilada, livre e bela fora o jazz e (4) como estão corretos aqueles músicos que olham para cá e para lá. Boa diversão!
Adams, Antheil, Bernstein, Gershwin, Hindemith, Milhaud, Stravinsky, Raskin: New World Jazz (Tilson Thomas)
1 Lollapalooza
Composed By – John Adams
6:32
2 Rhapsody In Blue
Clarinet – Jerome Simas
Composed By – George Gershwin
Piano – Michael Tilson Thomas
17:16
3 Prelude, Fugue And Riffs
Clarinet – Tad Calcara
Composed By – Leonard Bernstein
8:23
4 La Création Du Monde
Composed By – Darius Milhaud
17:45
5 Ebony Concerto
Clarinet – Jerome Simas
Composed By – Igor Stravinsky
Trumpet – Mark Niehaus
9:24
6 Ragtime
Composed By – Paul Hindemith
3:14
7 A Jazz Symphony
Composed By – George Antheil
Piano – Michael Linville
Trumpet – Mark J. Inouye*
11:45
8 Theme From The Bad And The Beautiful
Composed By – David Raksin
3:39
Meu pai ouvia muita música em casa e, no final dos anos 60, quando eu tinha uns 12 anos, iniciou-se uma luta: eu queria ouvir Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin, The Who e Mutantes e ele seus sambas e compositores eruditos românticos. Tínhamos poucos pontos de concordância: Chico Buarque, Paulinho da Viola e a bossa nova em geral. Até hoje tenho dificuldades em ouvir Chopin, Rachmaninov, Schumann, Berlioz e outros. Não consigo realmente entender os românticos, à exceção de Brahms e dos tardios.
Naquela época, num fim de tarde que jamais esqueci, eu estava dentro do banheiro, me secando após um banho, quando fui obrigado a sair correndo para a sala, pois estava ouvindo algo absolutamente espetacular, lindo, inteligente, de força rítmica e pensamentos musicais profundos, algo nunca ouvido. Perguntei a meu pai o que era aquilo e ele me disse que era o Concerto Nº 3 de Brandenburgo, da autoria de um sujeito que se localizava como o campeão na mitologia dos compositores e que eu nunca tinha ouvido: Johann Sebastian Bach, o aniversariante de hoje.
Desde aquele dia, Bach se transformou numa espécie de companheiro de vida. Nunca me foi hostil, sempre me trouxe alegria e beleza. Celebrar seu aniversário de 341 anos é, de certo modo, celebrar nossa amizade — um pobre diabo apaixonado por um monumento — e a própria ideia de ordem no mundo — uma ordem que não exclui a emoção, mas a organiza, a eleva e a torna compreensível. Ninguém conseguiu unir com tamanha perfeição o rigor da arquitetura e a liberdade da expressão. Nele, tudo tem sentido, cada linha carrega uma intenção, e no entrelaçamento das diversas vozes surge algo que ultrapassa o humano — não por negar a experiência humana e suas grandezas e fraquezas, mas por levá-la ao seu grau mais alto de transparência e beleza.
Há em Bach uma espécie de confiança radical na inteligência e na lógica. Obras como o Cravo Bem Temperado, a Missa em Si Menor ou a Paixão Segundo Mateus (retirem o “São”, Bach não pôs “Sankt” no título) não são apenas composições: são sistemas vivos, universos autônomos onde emoção, fé e razão existem sem conflito. Seus contrapontos não são exercícios intelectuais estéreis, masturbatórios, mas uma forma de dar voz à complexidade do mundo — como se múltiplas verdades pudessem soar ao mesmo tempo, sem se anularem.
Porém, é claro que o que mais me impressiona é a humanidade dessa grandeza. Bach jamais escreveu para a posteridade, mas para circunstâncias concretas — igrejas, cortes, alunos, ocasiões específicas. Ainda assim, dessa prática cotidiana nasceu uma música transcende qualquer ocasião e que nos fala de perto ainda hoje. Ouvi-lo é perceber que o tempo não diminui certas obras — ao contrário, torna-as mais necessárias. Porque em Bach encontramos uma forma de equilíbrio — uma promessa de que, mesmo no caos, a harmonia é possível.
Bach não precisa de defesa (quem precisa é o Inter) — ele se impõe por si mesmo. Mas hoje é o dia de você ouvir uma de suas Paixões, um de seus prelúdios, uma de suas fugas ou beber uma cerveja — como as que ele produzia. Que a música de Bach continue a nos ensinar que o rigor pode ser apaixonado, que a fé pode ser artesanal (e pessoal, por favor), que o tempo — esse mesmo tempo que hoje nos faz lembrar de sua data de nascimento — pode ser, por alguns instantes, suspenso. Bach foi um presente que recebemos. O mais duradouro, o mais profundo, o mais sublime dos presentes.
Neste mês dedicado a Sergei Rachmaninoff (post original de 2023), compositor romântico tardio e também grande virtuose do piano, recordaremos alguns outros pianistas do século passado que, de uma maneira ou de outra, cruzaram suas trajetórias com as do homenageado. O pianista de hoje é Shura Cherkassky (1909 – 1995): embora mais de 30 anos mais jovem que Sergei, eles têm em comum o fato de terem saído da Rússia na década de 1910 em meio às turbulências da 1ª Guerra e da Revolução. O corpo dos dois saiu da Rússia, mas a alma continuou profundamente russa, fazendo um tipo de música característica das expressões do romantismo tardio na Europa Oriental, como veremos a seguir.
A mãe de Shura, Lydia Cherkassky, era uma pianista conhecida em São Petersburgo, tendo tocado para Tchaikovsky, que aliás era um compositor importante no repertório de Shura, não só com seu famoso concertos mas também com peças para piano solo pouco tocadas por outros pianistas. Cherkassky foi, portanto, o continuador de uma certa tradição pianística da Europa Oriental, não só por suas origens russas mas também como aluno do polonês Josef Hofmann (1876-1957). Hofmann foi um dos pianistas mais célebres do mundo na virada do século XIX para o XX, embora por volta de 1930 sua prodigiosa técnica já não fosse a mesma devido ao alcoolismo, o que significa que poucas gravações fazem jus ao seu talento. Em 1909, Rachmaninoff dedicou seu 3º Concerto – o mais difícil dos quatro – para Hofmann. Anos depois, constatando o declínio do polonês, Rach afirmou: “Hofmann ainda é um grande … o maior pianista vivo se ele estiver sóbrio e em forma. Se não for o caso, é impossível reconhecer o antigo Hofmann.” O polonês, por sua vez, foi aluno de Anton Grigoryevich Rubinstein (1829-1894), pianista russo que foi frequentemente considerado o maior do mundo em sua época, além de compor cinco concertos para piano quase esquecidos hoje em dia. Anton Rubinstein, aliás, não era parente de Arthur Rubinstein, embora ambos tivessem origens judaicas. (Para um comentário sobre a “escola” dos alunos de Anton Rubinstein, confira o interessantíssima postagem do colega Alex aqui).
A partir de várias resenhas em jornais e outros textos do século XIX, o crítico Harold C. Schonberg, no livro The Great Pianists (1963), resume que Anton Rubinstein tocava com “extraordinária amplitude, vitalidade e virilidade, imensa sonoridade e grandiosidade”. Características também do romantismo tardio de Rachmaninoff, e que tinham como tradição mais ou menos rival o pianismo francês de compositores como Debussy, Fauré, Saint-Saëns e Ravel. Estes últimos evitavam as sonoridades exageradamente barulhentas – notem a quantidade de expressões masculinas na descrição de Harold Schonberg, muitas delas caberiam em um anúncio daquele remédio que os Generais brasileiros adoram – e se associaram a grandes intérpretes do início do século como Alfred Cortot, Ricardo Viñes, o próprio Saint-Saëns e muitas mulheres, incluindo Guiomar Novaes, Marguerite Long e Clara Haskil.
Mas o pianista do dia, de certa forma herdeiro daquela tradição romântica russa/polonesa, é Cherkassky, que foi um grande intérprete das obras de Rach (aqui) e também de uma pequena fantasia chamada Caleidoscópio, composta por Hofmann:
O que mais me interessa neste disco de hoje, registro de um recital de Cherkassky em Lugano (Suíça), é a sua reinvenção da sonata de um outro compositor romântico, Robert Schumann. Embora Shura também seja impecável em seu Debussy, Berg e Stravinsky – ou seja, ele não se limita como apenas um pianista romântico – o que me impressiona mesmo é a diversidade de emoções que ele extrai da 1ª Sonata de Schumann, já iniciando pelo sarcasmo das primeiras notas, seguido por alternâncias típicas de Schumann entre seriedade, melancolia e humor.
Robert Schumann foi um grande estudioso das obras de Bach e Beethoven mas, ao contrário deste último, ele não compôs sonatas para piano de grande invenção contrapontística em um estilo “maduro” no fim de sua vida. Se quisermos ouvir o Schumann maduro é melhor buscarmos outras obras como o o muito original concerto para violoncelo.
Talvez por isso, as três sonatas para piano de Schumann raramente (pra não dizer: nunca) são tocadas em bloco em um único recital ao vivo: ao contrário das sonatas de Beethoven, que mostram as mudanças no percurso do compositor, as de Schumann ficam nessa alternância de humores e sabores tipicamente românticos, sem apontar para uma evolução estilística. Se isso pode ser considerado um defeito, por outro lado é uma qualidade, sobretudo em nossos tempos já calejados quanto a essas ideias sobre evolução e progresso como o objetivo da humanidade, não é mesmo? Quando o progresso se mostra violento e sujo, sentimentos românticos parecem reaparecer com toda a força hipnotizante do som do piano de Cherkassky. Uma última observação: assim como Sviatoslav Richter (1915-1997), Cherkassky parecia detestar as gravações em estúdio, talvez porque sua arte – como a dos pianistas mais velhos Anton Rubinstein, Hofmann e Rach – tivesse esse aspecto tão importante da atração hipnótica sobre uma plateia presente.
Shura Cherkassky – Lugano, 1963 Felix Mendelssohn: Rondo Capriccioso in E major op. 14 Robert Schumann: Sonata no. 1 in F-sharp minor op. 11
I. Introduzione (Un poco adagio) – Allegro vivace; II. Andante cantabile; III. Scherzo e Intermezzo (Allegrissimo); IV. Finale (Allegro un poco maestoso) Alban Berg: Sonata op. 1 Claude Debussy: L’Isle joyeuse Igor Stravinsky: Trois mouvements de Petrouchka
I. Danses russes; II. Chez Petrouchka; III. La Semaine grasse Francis Poulenc: Toccata
Shura Cherkassky – piano
Recorded at Auditorio Radiotelevisione della Svizzera italiana, Lugano, 5/12/1963
As três últimas Sonatas para Piano de Franz Schubert, incrivelmente compostas em setembro de 1828, poucas semanas antes de sua morte prematura, constituem um testamento sonoro de rara grandeza e introspecção. Longe de serem meras heranças beethovenianas, elas revelam um Schubert já plenamente visionário: a estrutura clássica é invadida por harmonias inquietantes e uma expressividade que oscila entre o desespero e a transcendência. A D. 958 ecoa a fúria dramática de Beethoven, mas com a melancolia tipicamente schubertiana. A D. 959 expande-se em um Andantino de dor quase expressionista, seguido de um Scherzo fantasmagórico. A D. 960 coroa essa trilogia. Abre com um tema de simplicidade celeste, só para submergir em regiões de silêncio perturbador e nostalgia cósmica. Juntas, formam uma viagem ao abismo e à redenção — não como confissão biográfica, mas como geografia da alma humana, onde a forma clássica se rompe para dar voz ao inefável. São, nas palavras de Alfred Brendel, “a despedida de um poeta que já habitava um mundo além do seu tempo”.
Esta interpretação é “ao pianoforte”. Ou seja, é historicamente informada. Eu, acostumado a ouvir estas Sonatas no piano moderno — Brendel e Pollini –, às vezes me surpreendo pedindo uma sonoridade mais cheia e aumento o volume inutilmente. De qualquer forma, o trabalho do talentosíssimo Staier é primoroso, belíssimo, meticuloso.
Franz Schubert (1797-1828): As Últimas Sonatas para Piano (Staier)
Sonata In C Minor D 958
1-1 Allegro 11:08
1-2 Adagio 8:43
1-3 Menuetto: Allegro · Trio 2:58
1-4 Allegro 9:31
Sonata In A Major D 959
1-5 Allegro 16:19
1-6 Andantino 8:18
1-7 Scherzo: Allegro Vivace · Trio: Un Poco Più Lento 4:32
1-8 Rondo: Allegretto 12:44
Sonata In B Flat Majpr D 960
2-1 Molto Moderato 21:59
2-2 Andante Sostenuto 9:48
2-3 Scherzo: Allegro Vivace · Trio 4:18
2-4 Allegro Ma Non Troppo 8:48
Três obras-primas absolutas de Schubert. A gravação de Sepec / Staier / Dieltiens é excelente e imbatível no âmbito dos instrumentos originais. (Sim, prefiro o Beux Arts, mas este aqui é um registro de alta qualidade). “Um vislumbre dos trios de Schubert e a agitação e a angústia da existência humana desaparecem”, escreveu Robert Schumann em 1836, elogiando o Op. 99. Ele também admirava enormemente o esplêndido Op. 100 do compositor vienense, principalmente o Andante con moto — uma das mais belas peças de todos os tempos, na opinião de PQP Bach –, que lembra uma marcha fúnebre e que foi utilizado por Stanley Kubrick em Barry Lyndon. Staier, Sepec e Dieltiens trazem à tona novas nuances dessas obras fascinantes em instrumentos de época, que incluem uma cópia de um pianoforte vienense de 1827. Sim, há muitas gravações desses trios por aí. Esta é muito especial.
Franz Schubert (1797-1828): Piano Trios Op. 99 & 100 / Noturno (Sepec, Staier, Dieltiens)
Piano Trio No. 1. Op. 99
1-1 Allegro Moderato 14:45
1-2 Andante Un Poco Mosso 11:01
1-3 Scherzo. Allegro 6:46
1-4 Rondo. Allegro Vivace 9:25
Desde a década de 1980 ou 90 a Europa conta com uma ampla variedade de grupos historicamente informados dedicados à música pré-romântica. Cada um foi encontrando seu nicho e é possível afirmar que os belgas liderados por Kuijken são especialistas na música do período próximo à Revolução Francesa, ou seja: principalmente Haydn e Mozart mas também C.P.E. Bach e Glück. Alguém poderá recordar que esse conjunto também gravou uma penca de coisas de Bach além de Monteverdi, Schütz, Rameau, etc. É verdade, mas ainda assim é nas Sinfonias e Concertos de Haydn que eles se esbaldam, jogam em casa, se apresentam como peixes dentro d’água.
As Sinfonias nº 103 e 104 são as duas últimas, compostas no período de guerras europeias logo após a Revolução de 1789 e, assim como as Missas tardias de Haydn, contestam a visão de classicismo confortável e conformista que adere até certo ponto ao bocado maior da obra desse longevo compositor. Compostas para sua segunda viagem a Londres, ambas estão entre as obras de Haydn mais apresentadas hoje em dia. Nada contra a 104, mas a 103 tem um lugar muito especial no meu coração, provavelmente pelo uso inventivo e emocionante que se faz ali da percussão.
Recordemos, finalmente, que viajar da Áustria para Londres aos 62 anos de idade não era nada comum à época: a qualidade das estradas e dos navios, os incômodos e imprevistos devem ter sido vários, e Haydn se mostra um personagem, digamos, mais “mochileiro” do que Beethoven ou mesmo Mozart, pois as viagens deste último foram principalmente na juventude. O sucesso de Haydn em Londres foi enorme e ele era uma celebridade na época, conhecido – ao menos de nome – por gente que não era especialista em música, como por exemplo Napoleão Bonaparte.
Franz Joseph Haydn (1732-1809):
Symphony In E Flat Major, Hob I:103 ‘Mit Dem Paukenwirbel’
1 Adagio – Allegro Con Spirito 9:31
2 Andante Più Tosto Allegro 10:56
3 Menuet – Trio 3:55
4 Finale. Allegro Con Spirito 5:34
Symphony In D Major, Hob I:104 ‘Salomon’
5 Adagio – Allegro 8:37
6 Andante 8:45
7 Menuetto. Allegro – Trio 3:22
8 Finale Spirituoso 6:50
La Petite Bande, Sigiswald Kuijken
Recorded: 1995, Doopgsgezinde Kerk, Haarlem (NL)
Post-scriptum: este outro CD foi parar no meu HD há uns anos, não sei mais dizer como. Traz uma gravação ao vivo semi-oficial, provavelmente de rádio, da Sinfonia 102 de Haydn, também estreada em Londres, com o maestro Ferdinand Leitner (1912-1996), outro sujeito que se dava muito bem com esse repertório dos vienenses, como ilustrado na sua famosa gravações dos Concerto de Beethoven com Kempff, tendo em vista que os dois primeiros concertos têm uma sensibilidade bem próxima de Haydn. A orquestra não usa instrumentos antigos e às vezes o legato das cordas pode ser estranhado por ouvidos já mais acostumados com La Petite Bande e Kuijken, mas o maestro fez o estilo de Haydn e de Mozart reviver diante das plateias em 1988, no que devem ter sido concertos muito especiais.
Wolfgang Amadeus Mozart: Symphony no. 35
Franz Joseph Haydn: Symphony no. 102
Ferdinand Leitner, Bavarian RSO, 1988
Ninguém deve roubar ou matar por este CD. Ele é bom, mas também não é extraordinário. As Cantatas de Alessandro Scarlatti (1660-1725) — em especial suas mais de 600 cantatas para voz solo e baixo contínuo — representam o ápice da cantata profana barroca italiana, moldando um gênero que equilibrava drama, lirismo e intimidade. Não se comparam às Cantatas Italianas de Handel, que humilha AS de cima a baixo. Compostas predominantemente para vozes de castrato ou soprano, essas obras são micro-óperas sem cenário, estruturadas em uma sequência de recitativos expressivos (onde a palavra avança a ação) e árias. Scarlatti refinou a forma do recitativo acompanhado e consolidou a ária com orquestração rica, utilizando o baixo contínuo não apenas como suporte, mas como personagem ativo no diálogo com a voz. Seus temas — quase sempre extraídos da mitologia clássica — ganham vida através de uma escrita vocal que exige tanto agilidade técnica quanto profundidade retórica, enquanto as linhas do baixo prenunciam o Classicismo, mas não se entusiasme muito. Em suas cantatas, Scarlatti lançou as bases para a ópera séria do século XVIII, tornando-se assim um arquiteto fundamental da expressão vocal barroca.
Alessandro Scarlatti (1660-1725): Cantatas para Soprano & Música de Câmara (Rottsolk, Tempesta di Mare)
Bella Dama Di Nome Santa
Arranged By – Richard Stone (4)
(12:57)
1 I. Introduzzione 3:13
2 II. Recitativo. ‘Tu Sei Quella, Che Al Nome Sembre Giusta’ 0:59
3 III. Aria. ‘Dal Nome Tuo Credei’ 3:26
4 IV. Recitativo. ‘Fedeltade Ne Pur Ottien Ricetto’ 1:20
5 Aria. ‘Il Nome Non Vanta Di Santa Colei’ 3:57
Bella, S’io T’amo (11:20)
6 I. Recitativo. ‘Bella, S’io T’amo’ 0:51
7 II. Aria. “Ardo È Ver Per Te D’amore” 5:58
8 III. Recitativo. ‘T’amo Sì, T’amo O Cara’ 1:25
9 IV. Aria. “Quel Vento Che D’intorno” 3:24
Concerto IX In A Minor (9:18)
10 I. Allegro 1:36
11 II. Largo 1:31
12 III. Fuga 2:33
13 IV. Largo 1:32
14 V. Allegro 2:02
Quella Pace Gradita (17:09)
15 I. [Sinfonia] 3:45
16 II. Recitativo. ‘Quella Pace Gradita’ 0:59
17 III. Aria. ‘Crudel Tiranno Amore’ 3:25
18 IV. Recitativo. ‘O Voi Selve Beate’ 0:53
19 V. Aria. ‘Care Selve Soggiorni Di Quiete’ 3:05
20 VI. Recitativo. ‘Lungi, Lungi Da Me Tiranno Amore’ 1:05
21 VII. Aria. ‘Teco O Mesta Tortorella’ 3:52
Cantata Pastorale A Canto Solo Con Violini: ‘Non So Qual Più M’ingonbra’ (16:55)
22 I. Recitativo Accompagnato. ‘Non So Qual Più M’ingonbra’ 2:31
23 II. Aria. “Che Sarà! Chi A Me Lo Dice!’ 5:08
24 III. Recitativo. ‘È Nato, Alfin Mi Dice’ 1:08
25 IV. Aria Pastorale. ‘Nacque Col Gran Messia’ 8:06