Como os visitantes mais atentos deste blog já leram por aqui, Domenico Scarlatti esteve em Florença no mínimo duas vezes na década de 1700, foi apresentado ao príncipe Ferdinando de’ Medici por seu pai Alessandro Scarlatti e conheceu os primeiros pianofortes criados por Bartolomeo Cristofori na corte dos Medici. As 555 Sonatas que garantiram a perenidade do nome de Domenico foram compostas anos depois, para serem tocadas principalmente ao cravo, mas é quase certo que o compositor ou seus contemporâneos também as tocavam ao órgão e ao piano, instrumento que a rainha Maria Bárbara importava de Florença.
O primeiro requisito a ser cumprido por um pianista que toca as sonatas de D.Scarlatti é tocar com as duas mãos de forma bem articulada, com peso igual em ambas, evitando que uma voz esconda a outra. O segundo requisito é uma atenção aos ornamentos, como trinados e appogiaturas, que são notas curtas e próximas à nota principal da melodia. Os ornamentos na música barroca devem ter ao mesmo tempo um ar de enfeites improvisados no momento e um caráter bem definido que só vem após um estudo profundo da partitura: um ornamento em um Andante é diferente de um outro em um Presto.
Atendendo a essas duas condições obrigatórias, resta ainda ao pianista muita imaginação para tocar as sonatas de forma variada, porque é difícil aguentar um CD ou um recital inteiro com 14 ou 18 sonatas soando parecidas. Normalmente essa variedade é alcançada alternando entre movimentos mais rápidos e mais lentos, aliás um erro comum com Scarlatti é tocar tudo muito apressado e como em uma competição de quem chega primeiro na linha de chegada… De fato, se Scarlatti era respeitado por seus contemporâneos como um virtuose do cravo, é verdade também que a maioria das sonatas foi composta nas suas últimas décadas de vida, provavelmente a maioria quando ele tinha mais de 60 anos de idade. O músico e historiador inglês Charles Burney (1726-1814) relata que teve acesso, por intermédio de um amigo, a um manuscrito com quarenta e duas peças de Scarlatti compostas nos seu penúltimo anos de vida, “entre as quais há vários movimentos lentos, e das quais apenas três ou quatro eu conhecia anteriormente, mesmo tendo colecionado composições de Scarlatti por toda minha vida. Elas foram compostas em 1756, quando ele estava gordo demais para cruzar suas mãos como costumava fazer, então elas não são tão difíceis quanto suas obras anteriores, que foram criadas para sua patroa, a rainha de Espanha, quando ainda era princesa das Astúrias.”

Aqui cabem algumas explicações sobre o que escreveu Burney: as sonatas de maturidade também foram compostas para Maria Bárbara de Bragança, sob cuja proteção Domenico esteve até o fim da vida. E quando o autor fala em um corpo que engordou e não conseguia cruzar as mãos, é possível que se trate sobretudo da rainha de Espanha, vejam na foto ao lado…
O búlgaro Pascal Pascaleff, em seu primeiro álbum dedicado a Scarlatti, atende a todas as condições que mencionei acima. Ele se mostra especialmente cuidadoso com o cantabile – som que imita a voz humana – nas sonatas mais lentas, de andamento Allegretto (isto é, um pouco mais lento que um Allegro e com um certo humor que lembra os Scherzos das sonatas de Beethoven), Andante commodo ou simplesmente Andante. Sua gravação é o 25º CD na integral das Sonatas pela Naxos, integral que vem sendo lentamente gravada desde 1999 por mais de dez pianistas e ainda não terminou. Como dizem em inglês, “first come first served” ou, com significado não tão diferente por aqui, “quem chega por último é mulher do padre“, ou seja, as sonatas mais famosas já foram gravadas por quem chegou lá no começo: K.141 e K.208 no CD2 por Lewin, K.10 no CD3 por Jandó, K.96 no CD8 por Lee… Isso significa que Pascaleff, chegando na reta final da integral (faltam uns 6 a 10 CDs), pegou 18 sonatas mais ou menos desconhecidas entre as 555, mas ele claramente dedicou a elas toda sua atenção, passou longe de tratá-las como menos importantes. Nessas integrais lentamente gravadas, os músicos têm tempo de saborear as obras aos poucos, como foi o caso das inesquecíveis gravações das 32 Sonatas de Beethoven por Pollini (anos 1970 até anos 2010) ou dos Concertos de Mozart por Brendel/Marriner (1970 até 1985).
Domenico Scarlatti (1685-1757): 18 Sonatas
1. Sonata in F major, K.167, Allegro
2. Sonata in E major, K.206, Andante
3. Sonata in C major, K.243, Allegro
4. Sonata in E flat major, K.307, Allegro
5. Sonata in F major, K.350, Allegro
6. Sonata in E flat major, K.371, Allegro
7. Sonata in B minor, K.409, Allegro
8. Sonata in F major, K.437, Andante commodo
9. Sonata in A minor, K.451, Allegro
10. Sonata in D major, K.480, Presto
11. Sonata in C major, K.501, Allegretto
12. Sonata in G major, K.538, Allegretto
13. Sonata in G major, K.153, Vivo
14. Sonata in A major, K.221, Allegro
15. Sonata in E flat major, K.252, Allegro
16. Sonata in D major, K.281, Andante
17. Sonata in F major, K.297, Allegro
18. Sonata in A major, K.343, Allegro Andante
Pascal Pascaleff, piano
Recorded 19–21 August 2019 at The Bradshaw Hall, Royal Birmingham Conservatoire, UK
Curiosidade: na capa do álbum, vemos o Palácio Real de Aranjuez, uma das residências do Reis da Espanha, onde havia um cravo e um “clavicordio de piano hecho en Florencia”, segundo o inventário da Rainha.
Pleyel


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A Banda Mantiqueira é um dos projetos mais sensacionais da música instrumental brasileira, reunindo alguns dos melhores sopros do país sob a liderança do saxofonista e arranjador Nailor Proveta. Com uma formação que remete às big bands, mas com espírito brasileiro muito marcado, o grupo transita com naturalidade entre o jazz e gêneros como o choro, o samba e o frevo. O que mais impressiona é a energia coletiva: arranjos sofisticados, cheios de humor e invenção, aliados a uma execução precisa e, ao mesmo tempo, profundamente solta — como se tradição e improviso conversassem o tempo todo. Já o disco Bixiga é um belo retrato dessa identidade. O repertório homenageia compositores brasileiros, sobretudo ligados ao universo do choro e da música urbana, com releituras que preservam o espírito original, mas expandem as possibilidades sonoras através de arranjos criativos. Há momentos de grande lirismo, outros de explosão rítmica, sempre com destaque para o diálogo entre os instrumentos. É um álbum que celebra não apenas um bairro — o Bixiga — mas uma forma de fazer música: coletiva, pulsante e profundamente enraizada na cultura brasileira.
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W.F. Bach (1710-1784): Kantaten, Vols. 1 e 2 (Max)
16. Sinfonia: Allegro maestoso
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Um lindo trabalho de Gaillard sobre estas obras notáveis de Vivaldi. Tudo muito bonito e bem gravado. As Sonatas para Violoncelo do Padre Vermelho são um capítulo à parte em sua obra, revelando uma faceta mais íntima e contemplativa do compositor, distante da exuberância de seus famosos concertos. Ele nutria uma particular afeição pelo violoncelo. Para além dos mais de 25 concertos que compôs para o instrumento, legou à posteridade nove sonatas para violoncelo e baixo contínuo, além de uma décima que se perdeu. Escritas em sua maioria entre 1720 e 1730, estas obras não foram concebidas para o grande público. Acredita-se que tenham sido criadas para um círculo restrito de alunos, amigos e patronos influentes. Entre esses patronos, destacavam-se aristocratas que eram violoncelistas amadores, como o Conde Rudolf Franz Erwein von Schönborn, que mantinha um rica biblioteca com várias destas partituras. Esta origem “privada” confere às sonatas um caráter mais pessoal e intimista. Elas seguem a forma da sonata barroca em quatro movimentos, com um padrão de andamentos Lento – Rápido – Lento – Rápido. Esta estrutura cria uma narrativa musical equilibrada, onde a calma e a reflexão se alternam com a agilidade e o virtuosismo. São um ponto fora da curva de Vivaldi, mas que ponto!

AB-SO-LU-TA-MEN- TE IM-PER-DÍ-VEL !!!

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São obras-primas tão esplêndidas que é estranho que tenham sido escritas por Schumann… Ambas surgiram durante o “ano de música de câmara” de Schumann, em 1842, um período em que o compositor, afastando-se temporariamente do ciclo de canções e da música para piano solo, mergulhou no estudo aprofundado dos grandes mestres do contraponto, como Haydn, Mozart e, especialmente, Bach. O Quinteto para Piano, Op. 44, composto primeiro, é frequentemente considerado uma das obras mais brilhantes e vigorosas de todo o período romântico. Escrito para piano e quarteto de cordas, Schumann inovou ao tratar o piano não como um mero acompanhante, mas como um solista integrado ao diálogo camerístico, criando uma textura sinfônica de rara riqueza. A obra é marcada por um primeiro movimento impetuoso, uma Marcia funebre de lirismo pungente no movimento lento (Fanny e Alexander, de Bergman) , e um finale que inicialmente causa estranheza pela sua explosividade, mas que se revela magistral ao integrar temas anteriores em uma conclusão unificada e triunfante.



Sempre fui fascinado pela música de Mussorgsky, mas durante muitos anos, infelizmente, a única obra a que tive acesso era a já tão comentada “Pictures at an Exhibition”, já postada aqui diversas vezes. Mas a obra que mais me impressionou deste compositor foi “Uma Noite no Monte Calvo”, na versão do Stokowsky para o clássico desenho da Disney, “Fantasia”. Fiquei fascinado pela música, e, depois de muito procurar, e encontrar apenas a versão orquestral, a versão de Rimsky-Korsakov, eis que encontro esta fantástica versão do Claudio Abbado, com direito a solista, coro e orquestra. Um cd simplesmente espetacular. Imperdível. Pelo que entendi, esta versão para solista, coro e orquestra é muito rara de ser executada. Mas minha busca terminou. Na verdade, até pouco tempo atrás eu desconhecia esta versão, e quando postei um cd com obras de compositores russos há algum tempo atrás, alguém, não lembro se foi o Exigente, comentou que procurava a outra versão. Fui então atrás, e graças aos recursos da WEB, a encontrei.
IM-PER-DÍ-VEL !!!
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