IM-PER-DÍ-VEL !!!
Lançado em 2023 pela harmonia mundi, este CD duplo apresenta uma das leituras mais vibrantes e controversas das Sonatas do Rosário de Heinrich Ignaz Franz Biber. Com mais de 105 minutos de música, Amandine Beyer e o seu Gli Incogniti oferecem uma interpretação que privilegia o ritmo e a energia, fruto de uma colaboração com uma companhia de dança.
As 15 Sonatas do Rosário (c. 1675), coroadas por uma linda Passacaglia final, são um dos cumes do virtuosismo barroco para violino. Cada sonata medita sobre um dos Mistérios do Rosário (Gozosos, Dolorosos e Gloriosos), recorrendo à scordatura — afinações alternativas do violino — para criar timbres e efeitos expressivos, desde sonoridades mais brilhantes até texturas intencionalmente dissonantes e opacas.
Intermezzo:
Não sou nada religioso, então dei uma guglada (hoje o Google está invadido por uma IA) perguntando que porra são esses mistérios do Rosário. São os 15 episódios principais da vida de Jesus e Maria, segundo a tradição católica do Rosário. A explicação foi péssima, mas o que interessa vem no parágrafo abaixo que começa por “Digo-lhes”. Seguindo, os Mistérios dividem-se em três grupos de 5:
— Os Gozosos (ex: Anunciação, Visitação, Natividade) que são alegres e luminosos. OK.
— Os Dolorosos (ex: Flagelação, Coroação de Espinhos, Crucificação) que são sombrios, tensos, cheios de dissonâncias. Confere.
— Os Mistérios Gloriosos (ex: Ressurreição, Ascensão, Coroação de Maria), que são triunfantes e radiantes. Nem tanto.
No final, há uma Passacaglia para violino solo, que não está ligada a um mistério específico, mas serve como coroação do ciclo.
Fim do Intermezzo.
Digo-lhes que a abordagem de Beyer não é nada contemplativa. A sua leitura é descrita como “rápida”, “magra” e “incisiva”, com uma articulação que beira a agressividade. A abertura da “Anunciação” é executada a um ritmo rápido, mas que não soa forçada.
O grande trunfo da gravação é o seu carácter dançante. Tudo começa pela capa, digamos. Melhor dizendo, tudo começa pela genialidade de Beyer, que trata as sonatas quase como suítes de dança, enfatizando as suas raízes rítmicas e coreográficas. Esta leitura desvia o foco do aspecto meditativo e sacro, que outras gravações, como a de Andrew Manze, exploraram, aproximando a música de Biber do universo de J.S. Bach, onde o sagrado e o secular se interpenetram .
Acompanhada por um grupo de contínuo bem variado (alaúde, teorba, violone, cravo, órgão), Beyer utiliza quatro violinos diferentes para acomodar as diversas afinações. A sua performance é tecnicamente irrepreensível, superando com “charme e graça” os desafios diabólicos da partitura.
Beyer sai do réquiem sombrio de outras gravações, indo para um “tour de force” vibrante e teatral. A interpretação de Beyer pode não agradar a quem procura a devoção introspetiva de outras versões, mas a sua coerência e identidade tornam-na uma das gravações mais envolventes e cativantes das últimas décadas. É uma leitura ousada e virtuosística, cheia de personalidade e musicalidade, que celebra Biber através do movimento e da pura energia musical. Imperdível, sim.
Heinrich Ignaz Franz Biber (1644-1704) : Mystery Sonatas (Amandine Beyer, Gli Incogniti)
The Five Joyful Mysteries / Les Cinq Mystères Joyeux / Die Fünf Freudenreichen Mysterien
Sonata I – The Annunciation / L’Annonciation / Maria Verkündigung D Minor / Ré Mineur / D-Moll
I. Praeludium 2:00
II. Variatio – Aria Allegro – Variatio – Adagio – [Variatio] 2:01
III. Finale 0:56
Sonata II – The Visitation / La Visitation / Maria Heimsuchung A Major / La Majeur / A-Dur
I. Sonata – Presto 1:29
II. Allaman[da] 1:58
III. Presto 0:42
Sonata III – The Nativity / La Nativité / Die Geburt Jesu B Minor / Si Mineur / H-Moll
I. Sonata – Presto – Adagio 1:11
II. Courente – Double 2:22
III. Adagio 1:26
Sonata IV – The Presentation Of Jesus In The Temple / La Présentation de Jésus Au Temple / Die Darstellung Jesu Im Tempel D Minor / Ré Mineur / D-Moll
Ciacona – Adagio 6:19
Sonata V – The Finding Of Jesus In The Temple / Jésus Perdu Retrouvé Au Temple / Der Zwölfjährige Jesu Im Tempel A Major / La Majeur / A-Dur
I. Praeludium – Presto 0:50
II. Allaman[da] 1:20
III. Guigue 1:09
IV. Saraban[da] – Double 3:02
The Five Sorrowful Mysteries Les Cinq Mystères Douloureux / Die Fünf Schmerzhaften Mysterien
Sonata VI – The Agony In The Garden / L’Agonie Au Jardin Des Oliviers / Jesu In Gethsemane C Minor / Do Mineur / C-Moll
I. Lamento – Presto 2:52
II. [ ] 2:07
III. Adagio 0:41
IV. [ ] 0:50
Sonata VII – The Scourging At The Pillar / La Flagellation / Die Geißelung F Major / Fa Majeur / F-Dur
I. Allamanda – Variatio 2:58
II. Sarab[anda] – Variatio – [Variatio] – [Variatio] 4:16
Sonata VIII – The Crowning With Thorns / Le Couronnement D’épines / Die Dornenkrone B-flat Major / Si Bémol Majeur / B-Dur
I. Adagio – Presto – [Adagio] 1:55
II. Guigue – Double I [Presto] – Double II 3:28
Sonata IX – The Carrying Of The Cross / Le Chemin de Croix / Der Kreuzweg A Minor / La Mineur / A-Moll
I. Sonata 1:51
II. Courante – Double – [Double] 2:59
III. Finale 1:19
Sonata X – The Crucifixion And Death Of Jesus / La Crucifixion Et la Mort de Jésus / Kreuzigung Und Jesu Tod / G Minor / Sol Mineur / G-Moll
I. Praeludium 1:08
II. Aria – Variatio – [Variatio] 3:00
III. Adagio – [Variatio] – [Variatio] 3:33
The Five Glorious Mysteries Les Cinq Mystères Glorieux / Die Fünf Glorreichen Mysterien
Sonata XI – The Resurrection / La Résurrection / Die Auferstehung G Major / Sol Majeur / G-Dur
I. Sonata 2:23
II. Surexit Christus Hodie 4:13
III. Adagio 1:09
Sonata XII – The Ascension / L’Ascension / Die Himmelfahrt C Major / Do Majeur / C-Dur
I. Intrada 0:36
II. Aria Tubicinum 1:13
III. Allamanda 1:40
IV. Courente – Double 2:20
Sonata XIII – The Descent Of The Holy Spirit / La Pentecôte / Die Ausgießung Des Heiligen Geistes D Minor / Ré Mineur / D-Moll
I. Sonata 3:02
II. Gavott[a] 1:19
III. Guigue 1:26
IV. Sarabanda 1:36
Sonata XIV – The Assumption Of Mary Into Heaven / L’Assomption de Marie Aux Cieux / Die Aufnahme Mariä In Den Himmel D Major / Ré Majeur / D-Dur
I. [Praeludium] 1:56
II. Aria – Guigue 5:30
Sonata XV – The Coronation Of Mary As Queen Of Heaven And Earth / Le Couronnement de Marie, Reine Des Cieux Et de la Terre / Die Krönung Mariä Zur Königin Des Himmels Und Der Erde C Major / Do Majeur / C-Dur
I. Sonata 1:22
II. Aria – [Variatio] – [Variatio] – [Variatio] 4:03
III. Canzon[a] 1:22
IV. Sarabanda – [Double] 2:48
Sonata XVI – The Guardian Angel / L’Ange Gardien / Der Schutzengel G Minor / Sol Mineur / G-Moll
Passacaglia 7:50
Ensemble – Gli Incogniti
Harpsichord, Organ [Positive] – Anna Fontana
Theorbo – Nacho Laguna (2)
Viola da Gamba, Violone [in G] – Baldomero Barciela
Violin, Directed By, Liner Notes – Amandine Beyer

PQP
![W. A. Mozart (1756 – 1791): Sinfonias Nos. 35, 36 & 38 – J. V. Voříšek (1791 – 1825): Sinfonia em ré maior – Prague Philharmonia & Jiří Bělohlávek [harmonia mundi & Supraphon] [Dose Dupla] ֎֎](https://pqpbach.ars.blog.br/wp-content/uploads/2026/07/Jiri-Belohlavek_04_c_Petra-Hajska-960x413.jpg)










IM-PER-DÍ-VEL !!!

Este CD maravilhoso estava comigo há mais de um ano, mas foi somente hoje que eu o escutei. A Cantata Itaipu foi composta por Glass no ano de 1989 em homenagem à hidrelétrica de mesmo nome, construída sobre o Rio Paraná, entre o Brasil e o Paraguai. O trabalho foi encomendado pela Orquestra Sinfônica de Atlanta. Atualmente, o presidente paraguaio Fernando Lugo, quer “um preço de mercado justo” (palavras dele) pela energia que o Paraguai vende ao Brasil. Mas isso é outra história. O texto da cantata de Glass foi composta em guarani, com tradução feita por Daniela Thomas, por informações não oficiais, parece que ela é filha do cartunista Ziraldo. Corrijam-me se estiver errado. Aproveitem!

Este é um álbum que sempre aparece nas minhas listas de mp3 para ouvir enquanto dirijo. O disco é composto por seis faixas de uma música predominantemente indiana e da melhor qualidade. É interessante salientar que apesar das distancias geográficas que separam os dois compositores, Glass em Nova Yorque e Shankar em Madras, o álbum possui uma unidade surpreendente.![Beethoven (1770 – 1828): Concerto para Piano No. 3 – Caroline Shaw (1982 – ): Watermark – Jonathan Biss (piano), Swedish Radio Symphony Orchestra & Malin Broman – [Orchid Classics] ֎](https://pqpbach.ars.blog.br/wp-content/uploads/2026/07/JonathanBissHeader2024copy-960x576.jpg)







Há compositores que não são para amadores ou diletantes. Mahler tem sorte; raramente ouvi gravações de suas obras que não fossem de alto nível. Herreweghe realiza um excelente trabalho em Des Knaben Wunderhorn e, se não chega ao nível dos grandes mahlerianos, dá-nos uma boa versão de uma das mais importantes obras do marido de Alma.
Tenho meus problemas com Herbert von, porém, apesar do molho pesado de sempre, gostei deste CD. Quase chorei no Lacrimosa, não pela regência, mas pela lembrança do final de Vá e Veja. Aqui temos 

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Sem delongas, que a tarde vai caindo e o fim de semana nos espera.
Este CD com o poema sinfônico Also sprach Zarathustra (Assim falou Zaratustra) e as Quatro Últimas Canções, de Richard Strauss, oferece um retrato fascinante do compositor em dois extremos de sua carreira — o jovem audacioso de 1896 e o octogenário que, em 1948, compôs uma despedida serena e comovente.
Tentar definir a música – que em todo caso não é um produto mas um processo – é quase como tentar definir a poesia, ou seja: trata-se de uma operação felizmente impossível, considerando a futilidade de querer estabelecer uma fronteira entre o que é música e o que não é, entre poesia e não-poesia. Talvez a música seja justamente isto: a procura de uma fronteira constantemente deslocada. (Luciano Berio)
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Eugène Ysaÿe foi o extravagante sucessor de Wieniawski na tradição francesa de virtuosismo violinístico. No entanto, ele se elevou a um novo patamar – o de bom compositor — com suas seis sonatas para violino solo de 1924. Cada sonata é dedicada a uma das estrelas em ascensão da nova geração de virtuosos e o trabalho seria uma resposta do século XX para o Seis Sonatas e Partitas para violino solo de Bach… As duas obras para violino e piano nesta gravação estão numa vertente menos virtuosa e datam de cerca de trinta anos antes. Rêve d’enfant é uma canção de ninar e combina curto concurso no espírito de Fauré, enquanto o Élégiaque Poème nos dá uma curiosa mistura de Fauré com Wagner.

Este CD reúne duas faces do talento de Leonard Bernstein como regente: o Tchaikovsky mais pungente com a New York Philharmonic e o Stravinsky mais vibrante com a Israel Philharmonic Orchestra. É uma combinação que demonstra seu estilo apaixonado e teatral, ainda que com resultados distintos, para o bem e, eventualmente, para o mal. A Sinfonia Nº 6 “Patética”, foi gravada ao vivo em 1986, esta é uma interpretação que prioriza o drama. Bernstein oferece uma leitura intensa e profundamente pessoal, explorando a angústia e o desespero da obra. Fãs de interpretações mais contidas podem achar exagerada, mas para quem busca uma “Patética” visceral, é uma escuta, digamos, poderosa. Em contraste, as Scènes de ballet de Stravinsky, gravadas em 1982 com a Filarmônica de Israel, mostram um Bernstein que domina a linguagem do compositor. Esta é uma obra mais leve e neoclássica e Bernstein se diverte. A energia da execução ao vivo confere um brilho especial à gravação. Em resumo, o CD é um excelente retrato de… o Bernstein. A “Patética” não é uma gravação de referência, mas é uma declaração artística fascinante. Já as Scènes de ballet são um deleite, apresentando o lado mais sofisticado e dançante de Stravinsky sob a batuta de um maestro que entendia profundamente o teatro musical.
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Eu não sei que CD é este. Só sei que ele está no 
Este CD reúne gravações da violinista sul-coreana Kyung-Wha Chung em dois momentos distintos de sua parceria com grandes orquestras e regentes. (A carreira de Chung infelizmente foi interrompida em 2005 por uma lesão no dedo indicador esquerdo). De um lado, Dvořák sob Riccardo Muti com a Philadelphia Orchestra (1988); de outro, as Rapsódias de Bartók dirigidas por Sir Simon Rattle com a City of Birmingham Symphony Orchestra (1992). O resultado é um disco que exibe o virtuosismo e a sensibilidade de Chung, mas que é duvidoso quanto à sintonia entre solista e regentes. Não vou falar do Dvořák, que detestei (pareceu-me que Muti e Chung se odiaram), mas sim das obras de Bartók, que são mais a minha praia: Rattle costuma compreender e obedecer aos solistas, mas, novamente, aqui há uma disparidade de estilos. Enquanto Chung traz a cor e a energia do grande húngaro, Rattle e a orquestra vêm com “a angústia e a ansiedade de Schoenberg”. Vai ver que a Chung é uma baita chata.













Os intérpretes deste dois CDs não chegam a ser brastemps, ou seja, talvez não façam jus à fragrância vivaldiana do raríssimo Zani, mas servem para demonstrar a tremenda qualidade da música violinística italiana — não enche o saco, eu sei que a Itália nem existia — daquele período. Zani é consistente, vale tranquilamente a audição, mas acho que principalmente o segundo CD mereceria melhores instrumentistas. Estes são mais dois discos enviados ao PQP Bach por nosso leitor-ouvinte S. Leal. Obrigado!
Concerti Op. 4


