Imaginemos que Lizzio existiu. Não o maestro de carne e osso que posou para as capas de selos econômicos nos anos oitenta, mas um verdadeiro regente italiano, nascido em Merano numa primavera de 1926, formado em Milão entre violino, composição e batuta, com uma biografia que incluía um casamento, a perda trágica de um filho num acidente de automóvel em 1980 e uma morte discreta em Dresden, em outubro de 1999. Imaginemos que esse Lizzio, com essa vida inteira por trás, entrou em estúdio para gravar Mozart com a Mozart Festival Orchestra e os solistas Peter Jancovic na flauta e Renata Modron na harpa. O resultado, editado originalmente pela Pilz e depois circulando por selos como Digital Concerto e Point Classics, é um disco que reúne três obras nas quais Mozart, com maior ou menor entusiasmo, escreveu para a flauta.
O programa abre com o Concerto para Flauta nº 1, K. 313, encomendado por Ferdinand Dejean em 1778, num episódio em que Mozart aceitou o trabalho sobretudo pelos duzentos gulden prometidos e depois reclamou amargamente de ter de escrever para um instrumento que não apreciava. A música, porém, não traz qualquer desdém. O Allegro maestoso inicial tem uma elegância que não depende de virtuosismo, e Lizzio, na direção, parece compreender que o melhor serviço que pode prestar a Mozart é não se interpor. A orquestra sustenta, respira, deixa a flauta cantar. O Adagio ma non troppo é o coração do concerto, um movimento de uma serenidade quase suspensa, onde Jancovic encontra um tom doce sem se tornar melífluo. O Rondo final, com seu tema de minueto, fecha a obra com uma leveza que disfarça a complexidade da escrita.
Segue-se o Concerto nº 2, K. 314, que carrega uma história curiosa. Trata-se, na verdade, de uma adaptação do Concerto para Oboé que Mozart escrevera um ano antes para Giuseppe Ferlendis. Dejean havia encomendado três concertos novos, mas Mozart, atrasado e desinteressado, entregou apenas um inteiramente novo e reaproveitou o concerto do oboé, transpondo-o e reescrevendo passagens para acomodar a flauta. Dejean recusou-se a pagar pela obra adaptada, alegando que não era original. O disco de Lizzio não resolve esse imbróglio histórico, mas oferece uma leitura que trata o K. 314 como música de pleno direito. O Allegro aperto tem uma vivacidade contida, o Andante ma non troppo é uma página de lirismo discreto, e o Allegro final corre com uma alegria que faz esquecer as circunstâncias contratuais de sua origem.
O disco se encerra com o Concerto para Flauta, Harpa e Orquestra, K. 299, encomendado em Paris pelo duque de Guînes para ser tocado por ele e por sua filha harpista. É a única partitura de Mozart que inclui harpa, e a escrita para o instrumento revela as limitações técnicas da época: a parte da harpa parece, em vários momentos, uma adaptação de uma parte de piano, e Mozart nunca voltou a compor para o instrumento. Ainda assim, o resultado é encantador. O Allegro inicial tem uma conversa fluida entre flauta e harpa, o Andantino é um dos movimentos mais delicados de todo Mozart, e o Rondo final fecha com uma alegria solar. Renata Modron na harpa e Peter Jancovic na flauta encontram um equilíbrio raro, e Lizzio conduz com a mão leve que o repertório exige.
A questão, evidentemente, é que Lizzio não existiu. O nome foi inventado por Alfred Scholz, produtor austríaco que, entre os anos sessenta e noventa, construiu um império de gravações econômicas atribuídas a maestros fictícios, regravando fitas antigas, muitas vezes de origem obscura, e rebatizando-as com nomes que soavam plausíveis: Alberto Lizzio, Cesare Cantieri, Denis Zsoltay. A Mozart Festival Orchestra, nesse contexto, é uma designação tão inventada quanto o maestro, e as gravações que chegaram ao mercado sob essa capa têm origens que a documentação raramente esclarece por completo. Saber disso não invalida necessariamente a experiência de escuta, mas muda a natureza do que se ouve. Não estamos diante de um maestro italiano que deixou um legado, mas de um produto fonográfico construído para preencher prateleiras de selos baratos, com créditos que prometem uma autenticidade que não existe.
Ainda assim, há algo a dizer em favor do disco. As gravações, quaisquer que sejam suas origens reais, são competentes. Jancovic toca com um som claro e ágil, Modron tem uma harpa de timbre adequado, e a orquestra, seja lá quem for, acompanha sem tropeços. Não é uma leitura de referência — quem busca Mozart nesses concertos encontrará em Frans Brüggen, na Orpheus Chamber Orchestra ou em Peter-Lukas Graf versões mais reveladoras. Mas é um Mozart funcional, honesto dentro de suas limitações, e para quem topa com o disco numa loja de usados ou num streaming qualquer, sem expectativas grandiosas, pode render uma escuta agradável. O problema é que o nome na capa, aquele Alberto Lizzio com biografia inventada e trágica, existe justamente para que o ouvinte não faça perguntas. E talvez a pergunta mais interessante que este disco suscite não seja sobre Mozart, mas sobre a economia estranha que fez um maestro fictício gravar, sob um nome falso, música que um compositor real escreveu a contragosto.
Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791): Concertos para Flauta No. 1 & 2 / Concerto para Harpa e Flauta (Lizzio…, Jancovic, Modron, Mozart Festival Orchestra)
Flötenkonzert Nr. 1 G-Dur KV 313 – Flute Concerto No. 1 In G Major KV 313
1 Allegro Maestoso 8:30
2 Adagio Ma Non Troppo 8:17
3 Rondo: Tempo Di Menuetto 6:50
Flötenkonzert Nr. 2 D-Dur KV 314 – Flute Concerto No. 2 In D Major KV 314
4 Allegro Aperto 8:02
5 Andante Ma Non Troppo 5:26
6 Allegro 5:30
Konzert Fur Flöte, Harfe Und Orchester C-Dur KV 299 – Concerto For Flute, Harp And Orchestra In C Major KV 299
7 Allegro 10:52
8 Andantino 8:35
9 Rondo: Allegro 10:52
Conductor – Alberto Lizzio
Flute – Peter Jancovic
Harp – Renata Modron
Orchestra – Mozart Festival Orchestra

PQP

O disco que reúne Pinchas Zukerman interpretando Beethoven e Haydn é um registro lançado originalmente em 1977 pela DG. Nele, Zukerman aparece em duas funções distintas, o que por si só já faz do álbum uma peça interessante para quem acompanha sua trajetória. No Concerto para Violino, Op. 61, de Beethoven, ele atua como solista, acompanhado pela Orquestra Sinfônica de Chicago sob a regência de Daniel Barenboim, adotando a cadência de Fritz Kreisler. Já na Sinfonia Concertante, Hob. I:105, de Haydn, Zukerman deixa o violino e assume a regência da Filarmônica de Los Angeles, tendo como solistas Ronald Leonhard no violoncelo, Barbara Winters no oboé e David Breidenthal no fagote. As gravações foram realizadas em março de 1977, em Chicago e Los Angeles, respectivamente.
Composto entre 1974 e 1977, este extraordinário ciclo de 24 canções para barítono e piano parece, à primeira escuta, uma espécie de retorno ao romantismo: melodias delicadas, harmonias tonais, longos silêncios, uma atmosfera de nostalgia. Mas a simplicidade é enganosa. Silvestrov foi um dos nomes importantes da vanguarda ucraniana nos anos 1960 e, justamente quando a música soviética experimentava novas linguagens, encontrou uma radicalidade própria naquilo que parecia ser o contrário da radicalidade: voltar a cantar. O compositor dizia que o elemento avant-garde não havia desaparecido, mas simplesmente se tornado invisível, infiltrado na música como uma pitada de sal.
Consulte qualquer enciclopédia de música, leia qualquer musicólogo, acesse o Google e você concluirá que muita gente considera a Missa em Si Menor, BWV 232, uma das maiores obras já compostas. Grande parte daqueles comentaristas que tem o viciante hábito de criar classificações de maiores e melhores, costumam colocar a Missa como a maior obra musical de todos os tempos. Não gosto deste tipo de afirmativa e estou treinando intimamente para não sair impondo às pessoas frases do tipo “é um grande filme”, “é o maior dos livros”, etc. Melhor antecedê-las de um “em minha opinião…” ou “penso que…”, etc.
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Infelizmente, Rostropovich não gravou este excelente concerto de Kabalevsky. Kaba prova que é um sub-Shostakovich de respeito. E o que faz este menino Lidström também é sensacional! E no Khachaturian então? O Concerto de Khatcha não é tão bom quanto o de Kaba, mas faz-lhe belo par. Anotem este nome: Mats Lidström é um grande celista. Tanto que quase consegue salvar Rachmaninov!


Um CD low profile de Piazzolla e de alguns compositores ingleses que se arriscaram no tango. O grande destaque é a London Concertante, conjunto semiclássico que desconhecia e que dá uma boa demonstração de competência — clássica, jazzística e tangueira. Depois de um Libertango bastante apaixonado, as outras peças são interpretadas com delicadeza algo rara nos grupos vizinhos (argentinos). Eu adorei. Surpreendentemente, é um CD da Harmonia Mundi, o que mostra que o mundo se move em direções inesperadas. A ECM vai para o clássico, a HM para o tango, o Inter para a Série B e nós vamos vivendo de amor. Eu achei a peça de David Gordon, Augmented Tango de extrema sensualidade. Até tasquei uns beijos de língua na patroa. Um inglês escrever uma peça que parece um tango moderno e que este entusiasme um habitante do Rio Grande do Sul é a prova de que o ponto de umbanda norte-coreano ainda dominará o mundo.
O Brandis Quartett foi formado por membros da Filarmônica de Berlim. Suas interpretações combinavam a poderosa tradição da orquestra com uma liberdade e alegria que muitas vezes faltavam às gravações mais solenes sob Karajan. O álbum apresenta um programa curioso, saltando do popularíssimo ao mais denso. A Serenata para Cordas, K. 525 (“Eine kleine Nachtmusik”) é a peça mais popular de Mozart para conjunto de cordas. A versão do Brandis Quartett, com a adição do contrabaixista Rainer Zepperitz, cria uma sonoridade que se aproxima de uma pequena orquestra de câmara . É uma abordagem historicamente fundamentada, já que os editores da New Mozart Edition apontam que mesmo um quarteto ou quinteto pode realizar a obra. O Quarteto de Cordas, K. 168 é uma obra mais “clássica” e menos conhecida, que serve como um interessante contraponto às outras peças do disco. Já o Quarteto de Cordas, K. 465 (“Dissonâncias”) é o ponto alto do programa. O apelido vem do famoso Adagio inicial, cujas harmonias ousadas e cromáticas parecem antecipar a inquietação harmônica do Romantismo. A forma como o quarteto aborda essa introdução, com vibrato denso e um som “sombrio”, é o momento mais poderoso do disco.
![Igor Stravinsky (1882 – 1971): Le Baiser de la fée & Scènes de ballet – BBC Scottish Symphony Orchestra & Ilan Volkov [Hyperion] ֎](https://pqpbach.ars.blog.br/wp-content/uploads/2026/08/La_Baiser_De_La_Fee-960x540.jpg)








“Finalmente”, alguém dirá, “algo novo nessas plagas”. É verdade, as composições são bem recentes e escritas pela compositora finlandesa Kaija Saariaho, considerada uma das mais importantes compositoras do momento. Nascida em Helsink em 1952 e graduada em composição em 1980. Escreveu música eletrônica nos anos 1980 como ninguém, fazendo também uma mistura com instrumentos clássicos. Ela tem sido muito bem recebida pelo público, apesar dela não fazer concessões. Sua música lembra muito o som “New Age”, mas claro, muito superior.

Na minha opinião, uma obra-prima do jazz contemporâneo. Jazz? Será mesmo? Não será erudito? Estranhamente, fiquei entusiasmadíssimo ouvindo este CD com fones, na rua. Tal entusiasmo diminuiu um pouco quando o ouvi em casa. Quem sabe é algo para se ouvir com som muito alto? Pode ser. A faixa que mais me deixou feliz foi talvez a menos erudita, Furrow 6, de tema espetacularmente jazzistíco. 






IM-PER-DÍ-VEL !!!
Esta gravação da DG, realizada em 1972 e 1973 no Musikverein de Viena, reúne dois pilares do repertório romântico para violino sob a direção de Claudio Abbado e com a Filarmônica de Viena, tendo como solista o lendário Nathan Milstein. O resultado é um disco que, décadas depois, mantém o status de referência, com uma abordagem que une a inteligência musical de Milstein à elegância de Abbado. Milstein é descrito como “talvez o último grande russo entre os violinistas russos” e oferece aqui leituras que são tudo menos acadêmicas ou frias. Seu toque, caracterizado pelo uso relativamente parcimonioso do vibrato, revela uma pureza e luminosidade fascinantes . Essa qualidade confere às interpretações uma sensação de que não há outra maneira de tocar estas obras. No Allegro molto appassionato de Mendelssohn ou no vertiginoso finale do concerto de Tchaikovsky, sua virtuosidade é de tirar o fôlego, mas sempre a serviço da música.
Este disco documenta um encontro histórico: a estreia fonográfica de Anne-Sophie Mutter, com apenas 15 anos, sob a batuta de seu mentor, Herbert von Karajan, à frente da Filarmônica de Berlim. Lançado em 1978, o registro permanece como um testemunho de um momento único na música. Há, de fato, uma profundidade que transcende a idade da solista, uma abordagem que ecoa a estética “romântica” que Karajan buscava na época, conferindo às obras um caráter contemplativo e, por vezes, melancólico. Ouvindo agora, décadas depois, o que se destaca é a combinação entre a sonoridade exuberante (e antiquada) da Orquestra Filarmônica de Berlim sob o comando de Karajan, e o toque de Mutter — belo, expressivo e de uma segurança técnica impressionante para sua idade. A execução tem um ar que pode soar um pouco pesado ou menos espontâneo do que outras abordagens mais “autênticas”. No entanto, é justamente essa solenidade que confere à gravação seu caráter especial, transformando-a em algo mais próximo de uma declaração artística do que de uma mera exibição de virtuosismo juvenil. A comparação com as regravações posteriores da própria Mutter, já como uma artista madura, é inevitável e revela a diferença. Se a versão de 1978 possui encanto, ela também carece da liberdade rítmica e da leveza que Mutter viria a explorar em suas performances mais recentes. Este é o registro de uma jovem artista em seu primeiro voo. Para os admiradores da obra de Mozart, é uma gravação que oferece uma visão particular e poderosa, ainda que não seja a única possível.
IM-PER-DÍ-VEL !!!
Sim, jazz de vanguarda. Quem não gosta, que fuja. Este álbum documenta três noites de improviso em duetos ou em trio de três saxofonistas, todos com sax soprano. Não há outros instrumentos e, na verdade, só há um trio: a curtíssima Three Blokes. O disco é uma fascinante integração entre 3 grandes instrumentistas que se revesam em duplas. Um levando o tema e o outro, digamos, correndo atrás. Gostei muito, mas sei que é para poucos. Afinal, quem diria que uma série de duetos de saxofone soprano seria tão fascinante? Em pleno voo, essa compreensão um do outro fica incrivelmente intrincada como uma fuga barroca. É música tão pura e simples quanto pode ser.
Esta é uma gravação que perdeu muito com os anos. Molho pesado demais, execução totalmente destituída de humor e leveza. A crítica é dura, mas encontra eco em parte da recepção que este CD, com a Filarmônica de Los Angeles e a Orquestra Sinfônica de Chicago, acumulou ao longo do tempo. Carlo Maria Giulini, um respeitado maestro em sua época, oferece aqui leituras que dividem opiniões: para alguns, são visões transcendentes e solenes; para outros, são interpretações que afogam a vivacidade das partituras em um excesso de gravidade (minha opinião).