Quando certa manhã PQP Bach acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama tomado por uma monstruosa vontade de ouvir as “Quatro Últimas Canções” de Strauss com a Jessye Norman e o Kurt Masur. Estava deitado sobre suas costas duras de torcedor colorado e, ao levantar um pouco a cabeça, olhou para a estante e não encontrou esse disco. Procurou na caixinha de busca do site e ele tampouco estava ali. Suas duas pernas, torneadas pelos quilômetros corridos nas calçadas da capital gaúcha, repousavam desamparadas diante de seus olhos.
“Eu é que não vou ouvir esse disco no YouTube”, pensou.
Não era um sonho. E foi assim que, como o bater de asas da famosa borboleta e seu efeito, nasceu a cadeia de acontecimentos que fez esse disco vir parar aqui no blog. Lacuna braba, que agora a gente vem mui humildemente preencher. O próprio PQP diria: Im-per-dí-vel! Incontornável, basilar, seminal, referência, enfim, dê o nome que quiser, esse disco é tudo isso e mais um pouco. João Gilberto dizia que não sabia se a perfeição existe, mas que a perfeição o incomodava pra caramba. Pois bem, existe sim, e é esse disco aqui.
Jessye Norman clicada por Irving Penn, 1983
Um repertório transcendental, uma cantora estupenda e uma orquestra em estado de graça, sob o comando de um de seus Kapellmeister mais marcantes. Ruim, não teria como ser, mas putz, que encontro, que milagre, que grande feito humano que é esse disquinho. Se Deus está morto, como querem alguns (entre os que acreditam que Ele(a)/ele(a) existe), esse disco bem que poderia ter sido tocado em seu funeral — que, segundo os relatos, foi um senhor rolê, com o trio final de Der Rosenkavalier regido por Sir Georg Solti, nas vozes de Marianne Schech, Maud Cunitz e Gerda Sommerschuh. Mas essa é outra história, para outro dia.
Compostas quando Strauss tinha 84 anos e já vislumbrava o doce suspiro da morte, as Vier letzte Lieder são algumas das mais belas canções de todo o repertório de concerto. O sublime como poucas vezes foi atingido na história dessa nossa combalida espécie. Quem as reuniu como um ciclo de quatro pontas não foi o compositor, mas seu amigo e editor Ernest Roth, da Boosey & Hawkes. As três primeiras canções são a partir de poemas de Hermann Hesse, e a última, Im Abendrot, de Joseph von Eichendorff. Aliás, um poemaço:
Im Abendrot
Wir sind durch Not und Freude gegangen Hand in Hand; vom Wandern ruhen wir nun überm stillen Land. Rings sich die Täler neigen, es dunkelt schon die Luft. Zwei Lerchen nur noch steigen nachträumend in den Duft. Tritt her und laß sie schwirren, bald ist es Schlafenszeit. Daß wir uns nicht verirren in dieser Einsamkeit. O weiter, stiller Friede! So tief im Abendrot. Wie sind wir wandermüde— Ist dies etwa der Tod?
A tradução da Wikipedia, não creditada, vai assim:
No crespúsculo
Através de dores e alegrias, nós caminhamos de mãos dadas; agora descansamos da nossa errância sobre uma terra silenciosa. Em torno de nós se inclinam os vales e já escurece o céu. Apenas duas cotovias alçam voo, sonhando no ar perfumado. Aproxime-se, e deixe-as voejar. Logo será hora de dormir. Venha, que não nos percamos nesta grande solidão. Ó paz imensa e tranquila tão profunda no crepúsculo! Como nós estamos cansados dessa jornada — Seria talvez isso já a morte?
Strauss infelizmente não viveu para ouvir a obra; a estreia foi em maio de 1950, com Kirsten Flagstad cantando e ninguém mais, ninguém menos que Wilhelm Furtwängler regendo a Philharmonia Orchestra. O lado B do disco é um apanhado de seis outras canções orquestrais de Strauss, de diferentes opuses e poetas. Uma mais linda que a outra. Você, caro leitor, cara leitora, tem alguma preferida?
O velho Strauss sorrindo para você que, além de nos ler, comenta nas postagens do blog
Richard Strauss (1864-1949)
Vier Letzte Lieder
1 – Frühling (Hesse)
2 – September (Hesse)
3 – Beim Schlafengehen (Hesse)
4 – Im Abendrot (Eichendorff)
Lançado em maio de 2024 pelo selo Chandos, este álbum que reúne a Sinfonia nº 13 de Dmitri Shostakovich e o De profundis de Arvo Pärt, sob a direção de John Storgårds, é mais do que um simples registo de duas obras do repertório do século XX, o disco propõe um diálogo sombrio e contemplativo entre a memória da tragédia e a esperança. A escolha de Storgårds por abrir o programa com a breve peça de Arvo Pärt revela-se, desde o primeiro instante, uma declaração de intenções. Composto em 1980 e aqui apresentado na versão de 2008 para coro masculino e orquestra de câmara, De profundis é uma meditação sobre o Salmo 130, construída na característica linguagem “tintinnabuli” do compositor . Sob a batuta de Storgårds, e com o Estonian National Male Choir a revelar uma precisão e uma profundidade textual notáveis, a peça soa como um lento cortejo fúnebre, uma descida às profundezas da alma onde a dor se encontra com a possibilidade da redenção. A atmosfera é de uma serenidade gelada, e o toque final do sino, que se extingue no silêncio, prepara de forma magistral o terreno para o turbilhão de angústia que se seguirá.
É esse turbilhão que ocupa o centro do disco: a Sinfonia nº 13, op. 113, “Babi Yar”. Escrita por Shostakovich em 1962 sobre poemas de Yevgeny Yevtushenko, esta é uma obra de uma coragem e uma subversão raras, que denuncia o antissemitismo e a opressão na União Soviética, começando pelo massacre de 33.771 judeus na ravina de Babi Yar, na Ucrânia. É aqui que a interpretação de John Storgårds se diferencia mais radicalmente das abordagens tradicionais. O seu “estilo britânico” afasta-se do expressionismo visceral e da fúria contida que caracterizam as leituras de maestros russos como Kirill Kondrashin. Em vez disso, Storgårds opta por uma leitura contida, de uma clareza quase analítica, onde a tragédia é sugerida mais pela tensão acumulada e pelo relevo dado ao texto do que por gestos ostensivos. Este enfoque é corroborado pela escolha do solista, o baixo-barítono alemão Albert Dohmen. A sua voz, mais conhecida pelos papéis wagnerianos de Wotan e Gurnemanz, não possui o peso agreste e a cor negra de um baixo russo “à Boris Godunov”. Dohmen canta com uma sobriedade e uma elegância que, à primeira escuta, podem parecer deslocadas na ferocidade poética de Yevtushenko. No entanto, esta abordagem permite que a ironia corrosiva de Shostakovich se imponham por si mesmas, sem o véu de um pathos demasiado evidente. A sua interpretação é particularmente eficaz nos momentos de reflexão e no sarcasmo do movimento final, “Career”, onde a sua linha vocal mais introspetiva se ajusta perfeitamente à crítica irónica aos burocratas e à defesa dos verdadeiros criadores.
A resposta da BBC Philharmonic e do Estonian National Male Choir é de uma excelência inquestionável. O coro é impecável, com uma projeção clara e um sentido dramático apurado, que vai do sussurro ao ataque incisivo no movimento satírico “Humour”. A orquestra, por seu lado, tira de letra a complexa e multifacetada partitura de Shosta. As madeiras são ácidas e zombeteiras, os metais soam rudes e ameaçadores, e as cordas criam camadas de textura de uma frieza gélida, especialmente nos movimentos “In the Store” e “Fears”, onde o clima de paranoia e desolação é magistralmente construído. A qualidade da gravação capta com impressionante clareza o peso do tímpano, o toque lúgubre do sino e os mais recatados pianíssimos do coro.
Este não é um álbum para quem procura uma catarse imediata ou uma recriação visceral da estreia russa da obra. A proposta de John Storgårds é deliberadamente mais intelectual, mais fria e, curiosamente por isso, profundamente melancólica. Ao colocar o grito de revolta de Shostakovich ao lado do recolhimento religioso de Pärt, o maestro finlandês convida-nos a uma escuta que transcende o protesto político e se aproxima de uma meditação sobre o sofrimento humano. Para alguns críticos, esta abordagem soou comedida, para outros representou uma visão poderosamente alternativa, que encontra a sua força não na tempestade, mas na profundidade silenciosa do seu olhar. É um registo que não se impõe facilmente, mas que, uma vez compreendido, revela grande integridade artística e coerência.
Shostakovich: Symphony No. 13 ‘Babi Yar’ / Arvo Pärt: De Profundis (Albert Dohmen, Estonian National Male Choir, BBC Philharmonic, John Storgårds)
Arvo Pärt– De Profundis (2008) 6:50
Dmitri Shostakovich Symphony No. 13 In B Flat Minor, Op. 113 ‘Babiy Yar’ (1962)
Bass-Baritone Vocals – Albert Dohmen
(1:02:35)
2 – 1. Babiy Yar. Adagio ‒ Più Mosso ‒ Adagio ‒ Più Mosso ‒ Allegro ‒ Adagio ‒ Poco Più Mosso ‒ Adagio ‒ Più Mosso 16:07
3 – 2. Humour. Allegretto 8:31
4 – 3. In The Store. Adagio ‒ Meno Mosso. Sostenuto ‒ Adagio ‒ Meno Mosso ‒ [Più Mosso] ‒ Meno Mosso ‒ Largo ‒ Adagio ‒ 12:00
5 – 4. Fears. Largo ‒ Sostenuto ‒ Più Mosso ‒ Moderato ‒ Largo ‒ Poco Più Mosso ‒ Sostenuto ‒ Allegretto ‒ Largo ‒ 12:00
6 – 5. Career. Allegretto ‒ Pesante ‒ Meno Mosso ‒ Allegretto ‒ Adagio ‒ Allegretto ‒ Adagio ‒ Allegretto ‒ Meno Mosso 13:49
Choir – Estonian National Male Choir
Conductor – John Storgårds
Leader – Zoë Beyers
Orchestra – BBC Philharmonic
Vocal Coach [Language Coach] – Alexandre Naoumenko
Eu adoro esta Sinfonia Nº 3 de Mahler. Para mim, é a melhor. É uma das obras mais monumentais do repertório sinfônico, ultrapassando muitas vezes os 100 minutos de duração. Mahler a descreveu como “a coisa mais louca que já escrevi”, tamanha sua ambição e complexidade. Neumann e seus tchecos são realmente muito bons! A obra está dividida em seis movimentos que traçam uma jornada filosófica ascendente desde a natureza primitiva até o amor divino:
1. Pã Desperta: o Verão Marcha: um enorme movimento de abertura enorme (cerca de 40 min) que emerge de uma textura densa e “primitiva”.
2. O que as Flores do Campo me Contam.
3. O que os Animais da Floresta me Contam: inclui um famoso solo de trompa, que cria uma atmosfera nostálgica e distante.
4. O que o Homem me Conta: um movimento para contralto solo, dá-lhe Christa!
5. O que os Anjos me Contam: envolve coro feminino e infantil, celebrando a alegria celestial.
6. O que o Amor me Conta: um adágio final muito bonito e comovente, onde as cordas e metais criam uma sensação de redenção.
Para Mahler, “uma sinfonia deve ser como o mundo. Deve conter tudo”. Assim, a obra transita entre o assustador e o sublime, combinando momentos de pura exuberância e profunda melancolia .
Gustav Mahler (1860-1909): Sinfonia Nº 3 (Neumann, Orquestra Filarmônica Tcheca)
I. Kräftig. Entschieden (Beg.) 26:28
I. Kräftig. Entschieden (Concl.) 4:33
II. Tempo Di Menuetto. Sehr Mässig 8:42
III. Comodo. Scherzando. Ohne Hast 16:27
IV. Sehr Langsam. Misterioso 9:50
V. Lustig Im Tempo Und Keck Im Ausdruck 4:36
VI. Langsam. Ruhevoll. Empfunden 19:58
Chorus – Kühnův Dětský Sbor (tracks: D1), Pražský Filharmonický Sbor*
Chorus Master – Jiří Chvála (tracks: D1), Josef Veselka
Conductor – Václav Neumann
Contralto Vocals – Christa Ludwig
Orchestra – Česká Filharmonie*
Este é o volume 15 da maravilhosa série capitaneada por Giovanni Antonini e a Orquestra de Câmara de Basel, assim como Il Giardino Armonico. A ideia da série é a de gravar todas as sinfonias até 2032, quando Haydn completará 300 de vida, pois está vivo até hoje. Diferentemente de uma abordagem cronológica tradicional, Antonini opta por agrupar as sinfonias por temas ou conceitos. O fio condutor do volume 15 são as figuras reais, fazendo referência direta à Sinfonia nº 85, apelidada de “La Reine”. A lenda conta que esta era a sinfonia favorita da Rainha Maria Antonieta da França. As outras obras do disco também possuem conexões reais, ainda que menos diretas: a Sinfonia nº 50 foi apresentada durante uma visita da Imperatriz Maria Teresa da Áustria, e a Sinfonia nº 62 foi composta no ano da morte da mesma imperatriz. A regência de Antonini recebe elogios quase unânimes da crítica especializada. O estilo é descrito como uma combinação feliz de vigor rítmico e sensibilidade lírica, sem recorrer a exageros ou efeitos que possam cansar em audições repetidas. Este Volume 15 – “La Reine” é um triunfo. Ele captura a essência do que torna a música de Haydn tão especial: a capacidade de ser ao mesmo tempo previsível e surpreendente, elegante e robusta, cheia de humor e profunda emoção. Com uma combinação inteligente de obras conhecidas e injustamente negligenciadas, com performances que respiram vitalidade e inteligência musical, este disco é um presente para os amantes de Haydn e um testemunho da importância de se ter um projeto de integrais bem planejado e executado.
F. J. Haydn (1732-1809): Sinfonias Nº 85, 62 e 50 (Kammerorchester Basel, Antonini)
Symphony No.85 In B Flat Major, Hob. I:85 ‘La Reine’
1 I. Adagio – Vivace 10:51
2 II. Romance. Allegretto 6:55
3 III. Menuet. Allegretto – Trio 3:18
4 IV. Finale. Presto 3:18
Symphony No.62 In D Major, Hob. I:62
5 I. Allegro 7:39
6 II. Allegretto 5:41
7 III. Menuet. Allegretto – Trio 2:19
8 IV. Finale. Allegro 7:57
Symphony No.50 In C Major, Hob. I:50
9 I. Adagio E Maestoso – Allegro Di Molto 4:42
10 II. Andante Moderato 4:38
11 III. Menuet – Trio 3:40
12 IV. Finale. Presto 5:23
Conductor – Giovanni Antonini
Orchestra – Kammerorchester Basel
A musicalidade natural e segura de Lukáš Vondráček, aliada a uma técnica notável, há muito o destacam como um músico talentoso e maduro.
Lukáš olhando a capa do disco de estreia e achando linda!
Após uma semana ouvindo canções napolitanas (e adorando isso) dei com meus costados neste disco que achei maravilhoso, refrescante, cheio de vigor e verve.
O pianista checo Lukáš Vondráček já nos brindou com uma ótima integral dos concertos para piano de Rachmaninov, que você pode desfrutar clicando aqui, numa ancestral postagem da coluna Dose Dupla – Dois pelo preço de um.
O disco desta postagem é mais antigo do que a gravação dos concertos, é o primeiro disco ‘comercial’ do moço. O repertório é de largo espectro, como convém para o primeiro projeto de um jovem talentoso artista. Começa com uma clássica sonata de Haydn com suas melhores características evidenciadas – humor memorável, ritmos marcantes e temas adoráveis. Em seguida, quase 20 minutos de romantismo tardio lançando um olhar sobre um tema marcante na história da música – La Folia – na peça Variações sobre um tema de Corelli, de Rachmaninov. Para terminar, um banho de modernidade, a espetacular Sonata No. 7, de Prokofiev, uma das Três Sonatas da Guerra.
Eu ouvi o disco umas três vezes de enfiada e continuo voltando a ele, especialmente pelas sonatas. Ah, mas o tema de Corelli também é muito bonito.
Franz Joseph Haydn (1732-1809)
Sonata in C major, Hob. XVI:50
Allegro
Adagio
Allegro molto
Sergei Rachmaninoff (1873-1943)
Variations on a Theme by Corelli, Op. 42
Variations
Sergei Prokofiev (1891-1953)
Sonata No. 7, Op. 83
Allegro inquieto
Andante caloroso
Precipitato
Lukáš Vondráček, piano
Recorded at: Endler Hall, StellenboschUniversity, South Africa, 29 – 30/09/2012
TwoPianists Records is delighted to introduce Lukáš in his first major solo disc. […] What appealed to us about his playing is Lukáš’ immense musical personality – untamed, fresh, individual and above all, effortless. In an industry filled with talent, Lukáš Vondráček is most certainly a name to watch!
Czech pianist Lukáš Vondráček’s album featuring Haydn, Rachmaninov, and Prokofiev showcases his immense, untamed musical personality. Critics praise his effortless technique, where he balances volatile, thunderous power in Rachmaninov and Prokofiev with a rare, crystalline clarity and imagination in Haydn’s classical structures.
Não é um CD para todos. É de 1992 e eu acho lindo! Este álbum com o Ensemble InterContemporain sob a direção de Pierre Boulez e Michel Tabachnik, é uma das portas de entrada para o universo de Iannis Xenákis. Reunindo obras compostas entre 1965 e 1986, o disco apresenta um compositor que pensa a música como arquitetura sonora: massas de som em movimento, explosões de energia e texturas de uma força quase física. Esta gravação continua sendo indispensável para quem ouve a música quase contemporânea… Mais do que desafiar o ouvinte, Xenákis o coloca dentro de uma experiência sonora radical, em que a percepção é constantemente testada e renovada. Nestas interpretações precisas e intensamente comprometidas, Boulez e Tabachnik revelam não apenas a violência e a complexidade dessa música, mas também sua surpreendente beleza. Convém evitar os dois extremos: o entusiasmo vazio (“Uau, música revolucionária!”) e o tecnicismo excessivo. Ela sugere algo essencial sobre sua obra: por trás da matemática, da arquitetura e da violência sonora, há uma busca genuína pela beleza — uma beleza diferente da de Debussy ou Mahler, mas nem por isso menos intensa.
Este CD do Café Zimmermann com o contratenor Dominique Visse, é uma deliciosa incursão por um lado menos conhecido do barroco francês: o da sátira, da paródia e do humor musical. O programa reúne cantatas e concertos cômicos de compositores hoje pouco frequentados, mas que revelam um século XVIII espirituoso e surpreendentemente irreverente. o barroco também sabia rir de si mesmo. Não é um imperdível, mas eu me diverti com ele. O Marais é maravilhoso, assim como o La Garde. O Café Zimmermann, liderado pelo argentino Pablo Valetti é um grupo muito foda.
Corrette / La Garde / De Grandval / Marais / Courbois: Dom Quichotte – Cantates & concertos comiques (Visse, Café Zimmermann)
Concerto Comique V ‘La Femme Est Un Grand Embarras’
Composed By – Michel Corrette
1 Allegro 2:09
2 Adagio 1:57
3 Allegro 1:48
Cantate ‘La Sonate’
Composed By – Pierre de La Garde
4 – 5:03
5 N’Admirés Vous Pas Ce Tableau… 2:44
6 Ainsi Par Des Sons Tout S’Exprime… 3:21
7 La Sonnerie De Ste Geneviève Du Mont De Paris
Composed By – Marin Marais
7:10
Cantate ‘La Matrone D’Ephèse’
Composed By – Nicolas Racot De Grandval
8 – 3:24
9 Un Autre Mort En Grand Silence… 6:03
10 Vous Êtes Mon Vainqueur… 4:58
11 Qu’Entends-je !… 3:51
Concerto Comique XXIV ‘La Marche Du Huron’
Composed By – Michel Corrette
12 Allegro 3:09
13 Amorozo 2:08
14 Allegro 1:56
Cantate ‘Dom Quichotte’
Composed By – Philippe Courbois
15 – 3:08
16 Air : Loin Des Yeux Qui M’Ont Fait Captif 3:41
17 Signalons Sur Ces Monts 5:43
18 Le Fameux Chevalier À La Triste Figure 3:43
Countertenor Vocals – Dominique Visse (tracks: 4 to 11, 15 to 18)
Ensemble – Café Zimmermann
Flute – Diana Baroni
Harpsichord, Organ – Céline Frisch
Lute, Guitar [Baroque Guitar] – Eric Bellocq
Other [Thank You] – Reiko Arai
Viola da Gamba – Guido Balestracci
Violin – David Plantier
Violin, Concertmaster – Pablo Valetti
Violoncello – Petr Skalka
Que país europeu melhor inspiraria algum de seus poetas a escrever versos como estes que não fosse a Itália? Lembremo-nos da Sinfonia Italiana, de Mendelssohn. Há alguma sinfonia ainda mais ensolarada do que ela?
Pois na Itália há lugares lindos, como a região de Nápoles, com sua cidade entre o mar e o vulcão. Suas belezas inspiram seus habitantes há muitos séculos. Com uma cultura riquíssima, gastronomia e música entre elas, é certamente um lugar para se conhecer. Ainda não deu tempo de ir? Então, não deixe de ler o livro de Susan Sontag – O Amante do Vulcão –, e de ouvir as canções da postagem.
Primeira edição da coluna ‘Dois Pelo Preço de Um – Dose Dupla’ do tipo .: interlúdio :. , com dois álbuns contrastantes, mas sobre o mesmo tema e, em algum sentido, complementares.
Carmine no Borello
Você pode estar se perguntando: como esse cara foi dar com seus costados em tais paragens? Pois bem, eu explico: perto de onde moro há um restaurante que serve comida italiana e em algumas noites da semana, terças e quintas-feiras, por exemplo, há música ao vivo. Tudo por conta de um simpaticíssimo chef-cantor, o Carmine. Nas quintas ele é acompanhado pelo maestro pianista que também o persegue levando o acordeão quando o tenor sai brindando algumas das mesas com uma canção específica, seja por um pedido especial, seja por ter aparecido algum comensal em dia de aniversário, e o contrabaixista, que dá deveras profundidade à música que eles produzem com clara cumplicidade e alegria. Canções napolitanas fazem parte forte do repertório e aprendi rápido que há algumas pérolas que brilham mesmo quando a interpretação não é perfeita, contanto que venha do coração. Marechiaro é uma delas, assim como a animada Funiculì, funiculà, você certamente já a ouviu por aí. Cada frequentador do restaurante que aparece mais de uma vez começa a desenvolver uma predileção por esta ou aquela. Eu adorei ‘O surdato ‘nnamurato. Foi assim que comecei a ouvir essas ‘canções napuletanas’ também fora do restaurante.
Este tipo de música popular tem raízes bem antigas nesta região de Nápoles e floresceu com muita força no fim do século XIX e início do século XX, com verdadeiros hits, tais como O sole mio, Torna a Surriento e o já mencionado hino aos bondinhos do vulcão, o Funiculì, funiculà, todas aí nos dois discos da postagem. O gênero é popular, mas sempre atraiu os grandes cantores de óperas – os tenores famosos –, desde Enrico Caruso, Tito Schipa, Mario Lanza, Giuseppe Di Stefano e Franco Corelli. É uma grande oportunidade para o cantor aproximar-se de um público que nem sempre está inclinado a ouvir música erudita. Os temas, como é de esperar, são de grande apelo: amores interrompidos, dores de cotovelo, saudades de algum lugar especial…
Eu escolhi dois álbuns que estão recheados de sucessos e, ao mesmo tempo, oferecem perspectivas diferentes destas tais ‘canções napuletanas’. O disco do Pene Pati – Serenata a Napoli – eu achei lindo e é bem recente. Ele tem uma voz muito bonita e a usa com leveza e suavidade. Além disso, o acompanhamento é primoroso, colocado ao encargo do grupo Il Pomo d’Oro, sob a liderança do guitarrista Antonello Paliotti, que nasceu em Nápoles. Além das canções, você ouvirá alguns números instrumentais.
Para uma perspectiva mais próxima da ópera, temos o disco do tenor José Carreras, gravado já há um bom tempo. Carreras é um dos vértices do famoso triângulo dos tenores, os outros dois, Pavarotti e Plácido Domingo. Eles também gravaram discos no gênero, mas eu me sinto mais à vontade com a abordagem do José. Ah, ia me esquecendo, no disco do Carreras o acompanhamento é da English Chamber Orchestra, aquela a que recorríamos para segurança da música barroca, antes do movimento dos instrumentos e práticas de época.
Para saber mais detalhes sobre as canções, seus compositores e letristas, busquei bastante e achei muito boa a página criada por Natalia Chernega, que você pode acessar aqui.
Nesta mencionada página há gravações antigas das canções lá mencionadas. Acabei assim montando um arquivo para cada disco, com gravações alternativas, são assim uma versão ‘genérica’ dos discos, completados por uma ou duas outras gravações que busquei no Youtube. A qualidade do som não chega a atender os requisitos do selo PQP Bach-Iso de Qualidade, mas a diversão é certamente garantida, com algumas boas surpresas.
Uma delas é o cantor Roberto Murolo, que canta a versão genérica da canção Marechiaro, uma pérola. Roberto é filho de um poeta, Ernesto Murolo, que escreveu letras de muitas canções napolitanas. Creio que ele merece uma postagem própria, mas primeiro vamos de Pati e Carreras.
Quais são as canções que eu gostei mais, que Carmine e eu recomendaríamos sem dúvida, aquelas que grudaram por mais tempo nos meus ouvidos?
Pois bem, ‘O surdato ‘nnamurato é minha mais preferida, ela grudou mesmo, especialmente o pedacinho em que se canta
Oje vita, oje vita mia!
Oje core ‘e chistu core!
Sì stata ‘o primmo ammore
E ‘o primmo e ll’urdemo sarraje pe’ mme!
A canção foi composta em 1915, durante a Primeira Grande Guerra e dá para entender o tema a partir daí.
Mas, Maria, Marì, Era di Maggio e ‘A vucchella são também belíssimas. Maggio, como você deve adivinhar, é o mês de Maio, que no Norte é o mês da Primavera. Lembram do lindo Lied de Schumann, Im wunderschönen Monat Mai?
Vucchella, vocês sabem o que é? Eu meio que custei a descobrir… Vucca significa boca no dialeto napolitano e vucchella significa boquinha, assim como no Português a terminação faz o diminutivo. Aliás, ouvindo o Roberto Murolo cantar me fez lembrar da nossa língua, de vez em quando.
Falando nisso, não deixe de ouvir a canção Marechiaro, outra que eu ouço sem cançar. Core ‘ngrato é bonita, começa com o cara dizendo o nome da moça: Catarì, Catarì… e Dicitencello vuie chegou a aparecer no álbum da Zizi Possi, que canta lá umas coisas bem bonitas, ainda vou passar algum tempo ouvindo a moça.
Assim, você poderá também explorar e descobrir um pouco dessa arte tão popular, mas também bem próxima do canto lírico.
Eduardo Di Capua / Giovanni Capurro
O sole mio
Paolo Costa (Pasquale Mario Costa) / Salvatore Di Giacomo
Napulitanata
Eduardo Di Capua / Vincenzo Russo
Maria, Marì
Antonello Paliotti
Variazioni sul Basso di Tarantella: I. Preludio
Variazioni sul Basso di Tarantella: II. Variazioni
Paolo Costa (Pasquale Mario Costa) / Salvatore Di Giacomo
Era di maggio
Francesco Paolo Tosti / Gabriele D’Annunzio
A vucchella
Antonello Paliotti
Inquietudine
Enrico Cannio / Aniello Califano
O surdato ‘nnammurato
Francesco Buongiovanni / Aniello Califano
Mandulinata a mare
Paolo Costa (Pasquale Mario Costa) / Salvatore Di Giacomo
Serenata Napoletana
Antonello Paliotti
Romance
Salvatore Gambardella / Gennaro Ottaviano
‘O marenariello
Francesco Paolo Tosti
Marechiaro
Gaetano Lama / Libero Bovio
Silenzio Cantatore
Antonello Paliotti
Tarantella storta
Gaetano Lama / Libero Bovio
Reginella
Francesco Buongiovanni / Salvatore Di Giacomo
Palomma ‘e notte
Ermes Alessandro Mario
Canzone appassiunata
Antonello Paliotti
Fronna e Ballo del Pomo d’Oro: I. Fronna d’o limone
A voz de tenor brilhante de Pene Pati, descrita pelo Le Monde como “cheia de luz solar”, faz dele o intérprete ideal para papéis como Rodolfo em La bohème e o Duque de Mântua em Rigoletto. Agora, com Serenata a Napoli, ele traz seu calor singular para outra forma de arte tipicamente italiana: a canção napolitana. Além de grandes sucessos como “O sole mio” e “Funiculì funiculà”, a era de ouro da canzone napoletana (1880-1930) produziu abundantes expressões líricas de paixão, melancolia e alegria. Evocando uma autêntica atmosfera napolitana, Pene Pati é acompanhado por oito instrumentistas do Il Pomo d’Oro, liderados pelo guitarrista napolitano Antonello Paliotti, que tocam instrumentos de corda friccionada, dedilhada e percussão – e castanholas.
“Abordei essas canções da mesma forma que abordaria as canções tradicionais da minha própria herança samoana”, diz Pene Pati. “Sejam de Samoa ou de Nápoles, canções como essas sempre contam uma história – falam de amor, família, da sua terra natal… Não se tratava apenas de escolher as peças mais populares, mas sim de encontrar as canções que evocam as memórias e conexões mais profundas. Também quis prestar muita atenção a cada detalhe em relação ao povo napolitano – o sotaque, a atmosfera, as emoções – queria tentar fazê-los acreditar que eu era napolitano… Trabalhei em estreita colaboração com o Il Pomo d’Oro, ouvindo as letras, as histórias dos napolitanos e, a partir daí, moldando a minha própria compreensão.”
José Carreras traz seu calor lírico característico, interpretação apaixonada e fraseado delicado para canções napolitanas e italianas. Críticos e fãs elogiam sua narrativa emotiva em clássicos como “Core ‘ngrato” e “Torna a Surriento”, embora os puristas observem que seu estilo operístico, inerentemente vigoroso, por vezes carece das nuances mais leves e idiomáticas dos cantores nativos.
Aproveite! Aproveite!
René Denon
PS: Nas listas com os créditos dos discos, os nomes estão colocados aos pares: Compositor / Letrista. As eventuais fotos são sempre do compositor.
Felix Mendelssohn foi um dos mais espantosos prodígios da história da música. Se Mozart impressionava aos cinco anos, Mendelssohn, aos 13, já compunha obras de uma complexidade e frescor que desmentiam sua idade. Este CD, com o trio Andreas Staier (fortepiano), Rainer Kussmaul (violino) e o Concerto Köln, oferece um mergulho fascinante nesse universo, capturando a energia bruta e a elegância em formação do compositor. A grande sacada deste disco é o uso de instrumentos de época e uma orquestra de câmara reduzida. Afinal, estas obras foram concebidas para serem ouvidas nos salões da família Mendelssohn, não em grandes salas de concerto. O Concerto Köln respeita essa origem intimista, utilizando, em certos momentos, apenas um instrumento por parte. Acho a abordagem do Concerto Köln ácida até mesmo para os padrões de instrumentos de época, tornando os tutti orquestrais (especialmente nos movimentos lentos) uma experiência um tanto estranha. Em vez de um tapete aveludado, o acompanhamento é pontiagudo — uma escolha que prioriza a clareza rítmica e a energia juvenil sobre a doçura. Se a orquestra é agressiva, os solistas são a alma poética do disco. Andreas Staier, craque na arte da performance historicamente informada, toca um fortepiano Fritz de 1825. O som do instrumento é muito diferente do piano de concerto moderno: tem menor projeção e ataque mais seco. Isso explica por que Mendelssohn escreveu tantas passagens em arpejos e escalas — era a forma de fazer o som aparecer. Staier navega com virtuosismo por essas águas, mas é no Concerto Duplo que a dinâmica fica mais interessante. O grande destaque, contudo, é o violinista Rainer Kussmaul. Ele toca com uma rara pureza, usando o vibrato de forma contida. Enquanto o piano de Staier muitas vezes se perde em meio à escrita juvenil (cheia de notas, mas nem sempre melódica), o violino de Kussmaul canta com uma doçura lírica que prende a atenção. Há um diálogo interessante no Concerto Duplo: Kussmaul puxa a emoção, enquanto Staier (que também rege a orquestra a partir do teclado) sustenta a estrutura. Este CD não é para quem busca uma audição relaxante ou uma entrada fácil no mundo de Mendelssohn. A abordagem do Concerto Köln é ríspida e vibrante, o que pode incomodar tanto quanto impressiona. No entanto, para os aficionados por música de época e para quem se interessa pelo processo criativo dos grandes compositores, este é um documento precioso. Andreas Staier e Rainer Kussmaul são guias excepcionais, mostrando como estas obras “menores” já continham as sementes do gigante romântico. A experiência é a de olhar um esboço de Leonardo da Vinci: não é a Mona Lisa, mas a genialidade do traço é inconfundível.
Felix Mendelssohn (1809-1847): Concerto para Piano e Cordas em lá menor / Concerto para Violino, Piano e Cordas em ré menor (Staier, Kussmaul, Concerto Köln)
Concerto For Piano And Strings In A Minor
1 Allegro 15:13
2 Adagio 9:11
3 Finale: Allegro Ma Non Troppo 10:16
Concerto For Violin, Piano And Strings In D Minor
4 Allegro 17:59
5 Adagio 10:03
6 Allegro Molto 8:40
Nessas gravações da década de 1950, Géza Anda mostra grande afinidade com as alterações bruscas de humor nesses três ciclos de Schumann.
Os Estudos Sinfônicos (Études symphoniques, Sinfonischen Etüden) seguem a forma “Tema e Variações”, bem conhecida dos ouvintes de J.S. Bach e Beethoven. Em uma edição revisada no fim de sua vida, Schumann mudou o nome da obra para Estudos em forma de variações, mas este segundo nome não pegou. A obra contém algumas das passagens mais difíceis da pena do compositor alemão, e faz parte do repertório de outros pianistas especialistas em Schumann, como Novaes (aqui), Richter e Arrau, mas para mim os grandes destaques do álbum são os outros dois ciclos.
No Carnaval, Schumann também faz variações sobre quatro notas: Lá Mi bemol, Dó e Si, o que na notação alemã corresponde a A S C H – letras que aparecem no seu sobrenome, assim como na palavra alemã para carnaval, entre outros possíveis criptogramas. O fato é que cada movimento vai se apresentando com um caráter muito próprio, de modo que rapidamente o aspecto mais intelectual das variações é esquecido e a apreciação musical, digamos, torna-se mais romântica e menos racional.
Na Kreisleriana, assim como no Carnaval, os movimentos vão se alternando de forma mais imprevisível do que nos Estudos. Os temas que reaparecem são fluidos e vagos como memórias do passado, nunca rígidos e idênticos à sua aparição anterior. Schumann, aqui, se situa entre a forma miniatura (usada, por exemplo, nos Noturnos e Mazurkas de Chopin, Impromptus de Schubert e Bagatelas de Beethoven) e as formas mais amplas, porque cada momento tem sua lógica interna de miniatura e, ao mesmo tempo, a publicação do ciclo como um conjunto dá aos pianistas uma certa obrigação de tocar tudo junto, o que (antes da era dos LPs e CDs) nunca tinha sido o caso com os Noturnos e Mazurkas e Chopin, publicados separados ao longo de décadas. O dicionário Grove de 1980 fala o seguinte sobre as formas cíclicas: o termo “cíclico” descreve as obras em que ocorrem ligações temáticas entre diferentes movimentos. Exemplos podem ser encontrados em obras instrumentais do século 17, e em diversas obras sacras, como a Missa em Si Menor de Bach. Mas os exemplos são raros no século 18. Beethoven e Berlioz estabeleceram as fundações sobre as quais Mendelssohn, Schumann, Liszt e Franck elevariam princípios cíclicos a grande importância, estabelecendo uma coesão em obras com múltiplos movimentos.
Robert Schumann (1810-1856):
1-21. Carnaval, op. 9
22-36. Etudes symphoniques, op. 13
37-46. Kreisleriana, op. 16
Géza Anda, piano
Recorded in Abbey Road, London, 1953 & 1955
“A música barroca é uma celebração da beleza e da diversidade da experiência humana.”
[William Christie]
Para esta edição da coluna ‘Dois Pelo Preço de Um – Dose Dupla’, escolhi dois álbuns de um conjunto musical espanhol que bastante me impressionou, o Ars Combinatoria, orquestra e coro. Se bem que nos discos ouviremos apenas a orquestra.
Esse grupo surgiu em 1991 com o intuito de interpretar música polifônica espanhola do Século XVI, cantigas medievais e interpretar música de Bach, como conta a página do grupo, que você pode acessar clicando aqui.
Nestes dois discos estão reunidos apenas quatro concertos – dois de Handel, do opus 6, e dois de Vivaldi, do Estro Armonico. Acreditem, pouco tempo de música, mas muita qualidade.
Os dois concertos de Handel têm a adequada gravidade (gravitas), pomposidade, ajudada pela acústica do local de gravação (dos dois discos), o Mosteiro de Madalena, Sarria, na Galícia (no Caminho de Santiago).
Os dois concertos de Vivaldi, Nos. 8 e 11 (que tem uma fuga no seu primeiro movimento) e devem ter impressionado o padroeiro do blog, Sr. João Sebastião Ribeiro, quando este ainda jovem entrou em contato com a obra do Padre Vermelho. Tanto que fez transcrições para instrumentos de teclas de cinco deles, incluindo estes dois. Veja referências: [Rinaldo Alessandrini], [Simon Preston] ou [Keiko Nakata].
Como sugeriu WC em sua citação, vamos celebrar a experiência humana, pelo menos as positivas, ouvindo ótima música barroca!
Este álbum pode ser encontrado na plataforma de streaming Tidal.
Trecho da página da gravadora sobre o disco de Handel: Estes concertos destacam-se pela energia e contrastes dinâmicos. O seu carácter festivo e luminoso alternado com melodias doces refletem a capacidade de Handel em combinar técnica e expressão.
Trecho da página da gravadora sobre o disco de Vivaldi: Ars combinatoria escolhe os mesmos concertos que Johann Sebastian Bach escolheu para fazer as famosas transcrições de órgão, estes No. 8 em lá menor (BWV 593) e No. 11 em Ré menor (BWV 596).
Aproveite! Aproveite!
René Denon
Canco aproveitando o conforto das poltronas do Great Hall do PQP Bach Coo. em Gravataí
Belíssimo disco do pianista cubano, por um selo francês, tocando peças de um catalão e de um argentino. Entre outras semelhanças, ambos os compositores passarem parte de sua vida no exílio (Mompou em Paris, Ginastera em Genebra) quando seus países de origem eram governados por ditaduras militares. O libreto do CD diz o seguinte:
Mompou compôs suas doze Canções e Danças entre 1918 e 1962 (para sermos mais exatos, ele escreveu uma 13ª, para violão, em 1960, e uma 14ª, para piano, em 1980). De todas suas composições – pouco numerosas e essencialmente dedicadas ao piano e à voz – as Canções e Danças são as únicas a se inspirarem em melodias populares catalãs. Mas, para além da homenagem a sua terra e da evocação de suas cores e perfumes, Mompou evita todo artifício, todo kitsch de cartão postal ou efeito pitoresco.
Formalmente, Mompou teve uma ideia brilhante ao associar a cada canção, com andamento mais lento, uma dança de ritmo mais acelerado, sempre buscando formar uma dupla coerente. Uma certa nostalgia aparece nessas obras e, como a maioria delas foi escrita quando Mompou residia em Paris, entre as duas Guerras Mundiais, não é abdurda a comparação com as Mazurkas que Chopin escreveu, também em Paris, pensando na sua Polônia natal. Não seria, aliás, o único ponto em comum entre os dois músicos, que se interessaram igualmente pelo estudo dos mistérios da escrita pianística e da disposição dos acordes na partitura, ao ponto que o pianista Ferdinand Motte-Lacroix (1882-1955) não hesitou em chamar Federico Mompou de “Frédéric II”.
Apesar da distância temporal entre a 1ª e a 12ª peça, o ciclo apresenta uma homogeneidade notável: desde suas primeiras obras, Mompou soube encontrar seu estilo. Ele inventou um sistema harmônico pessoal, nem verdadeiramente consonante, nem brutalmente dissonante, temperando a escrita mais tradicional com algumas notas aberrantes, estrangeiras aos acordes usuais, e com uma atenção particular às ressonâncias.
Por seu lado, Ginastera compôs seus Prelúdios americanos em 1944: nessas peças, também doze, encontra-se uma síntese de toda sua arte. Apesar das divergências de estilo (Ginastera parece mais pitoresco, barulhento e rude, Mompou mais sonhador e mais suave), diversas ligações existem entre as duas faces deste programa.
(traduzido do texto do encarte: Jérôme Bartianelli, 2017)
A partir daqui eu continuo a comparação de Mompou com Chopin. Com exceção dos dois Concertos do polonês, as obras de ambos são feitas para serem tocadas em salas na escala de dez, vinte, trinta pessoas. Não é música grandiosa como boa parte da música de concerto europeia dos séculos XIX e XX. Na Paris dos anos 1830 e 1840, Chopin vivia cercado de adoradores de Beethoven, como por exemplo o compositor Berlioz e o escritor Balzac, para citar apenas dois fãs de carteirinha do alemão então recém-falecido. O pintor Delacroix, em carta a um amigo em 1842, relatava um momento na casa da escritora George Sand e comparava Balzac “que não veio, e não lamento. Ele é um falador barulhento” e Chopin: “de quem gosto muito e que é um homem de rara distinção.”
Note-se, então, que Chopin colocava-se na minoria quando tinha como grandes mestres do passado Mozart e Bach. Naquela época, toda a Europa descobria com espanto a grandeza de Beethoven, as cidades construíam grandes salas de concerto e as orquestras sinfônicas iam aumentando os naipes de cordas e sopros… nada disso com a admiração do introspectivo Chopin. Essa rara distinção, citada por Delacroix, lembra um pouco o gosto musical de Federico Mompou: sonoridades e acordes cuidadosamente escolhidos, jamais banais, mas ao mesmo tempo menos vanguardistas do que a dodecafonia dos discípulos de Schoenberg nos anos 1940 a 1960 ou os experimentos eletroacústicos nos anos 1960 a 70.
1 – 6. Federico Mompou:
Cançó i Dansa (Canción y Danza) No. 1. Quasi moderato – Allegro non troppo
Cançó i Dansa (Canción y Danza) No. 2 Lento – Molt amable
Cançó i Dansa (Canción y Danza) No. 5 Lento litúrgico – Senza rigore. Ritmado
Cançó i Dansa (Canción y Danza) No. 6 Cantabile epressivo – Ritmado
Cançó i Dansa (Canción y Danza) No. 8. Moderato cantabile con sentimento – Danza
Cançó i Dansa (Canción y Danza) No. 10. Larghetto molto cantabile – Amabile
7 – 18. Alberto Ginastera:
Doce americanos preludios, Op. 12
I. Para los accentos. Vivace
II. Triste. Lento
III. Danza criolla. Rustico
IV. Vidala. Adagio
V. En el primer modo pentáfono menor. Andante
VI. Homenaje a Roberto Garcia Morillo. Presto
VII. Para las octavas. Allegro molto
VIII. Homenaje a Juan José Castro. Tempo di Tango
IX. Homenaje a Aaron Copland. Prestissimo
X. Pastoral. Lento
XI. Homenaje a Heitor Villa-Lobos. Vivace
XII. En el primer modo pentáfono mayor. Lento
19 – 24. Federico Mompou:
Cançó i Dansa (Canción y Danza) No. 3. Modéré – Sardana
Cançó i Dansa (Canción y Danza) No. 4. Moderato – Viv
Cançó i Dansa (Canción y Danza) No. 7. Lento – Danza
Cançó i Dansa (Canción y Danza) No. 9. Cantabile espressivo – Allegro
Cançó i Dansa (Canción y Danza) No. 11. Lent et majestueux. Allegro moderato – Grazioso
Cançó i Dansa (Canción y Danza) No. 12. Molto cantabile – Danza
25-26: Gabriel Urgell Reyes:
Piezas Familiares
II. Aqui contigo (Très intime et expressif)
III. Más de ti
A versão de Andris Nelsons que inaugura seu ciclo das gravações das Sinfonias de Mahler com a Filarmônica de Viena é muito digna de nota. É uma abordagem recomendada para ouvintes que valorizam interpretações ousadas, intelectualmente elaboradas e tecnicamente impecáveis — mesmo que isso venha às custas de um certo calor visceral. Não é recomendada para puristas que desejam uma Quinta Sinfonia tradicional, com um Adagietto romântico e uma narrativa dramática mais linear. Mahler linear? Ficaram loucos? A Quinta Sinfonia de Mahler é uma das obras mais monumentais e difíceis do repertório sinfônico — uma jornada de quase 80 minutos que parte da escuridão de uma marcha fúnebre e avança, através de tormentas e danças, rumo a um finale radiante. O problema é que Mahler não facilita: cada intérprete precisa decidir como contar essa história.
A sinfonia abre com a famosa fanfarra do trompete solo — um chamado que anuncia a Trauermarsch (marcha fúnebre). Nelsons conduz este movimento insistindo na solenidade do ritual fúnebre, sem pressa. O segundo movimento é uma explosão de fúria que contrasta com a marcha inicial. Aqui, Nelsons demonstra domínio da orquestração mahleriana — os metais soam poderosos e o diálogo entre seções é cuidadosamente esculpido. Uma joia. O terceiro movimento, um Scherzo vienense gigantesco para orquestra (com destaque para as trompas), é frequentemente um ponto polêmico. Mahler exige uma Viena dançante e vertiginosa — mas também um senso de estrutura para sustentar mais de quinze minutos de música. Nelsons inicia com leveza e alegria de viver, mas acho que essa energia se dissipa ao longo do movimento. Ou não? O famoso Adagietto para cordas e harpa é, para muitos, a alma da sinfonia — uma declaração de amor a Alma Mahler. Nelsons, porém, recusa uma leitura romântica. Ele o apresenta não como uma canção de amor, porém mais como uma tranquila meditação. Seu tempo é lento (cerca de dez minutos) e o tom é profundo e comovente, realçando a fragilidade e a introspecção. O Rondo-Finale é uma explosão de energia, com citações de temas anteriores que precisam soar como uma espécie de vitória. Nelsons conduz este movimento com “alegria e vivacidade”, e os últimos acordes são retumbantes.
Como considero Mahler um romântico tardio, herdeiro da tradição germânica, expressão extrema e obsessão pelos temas da morte e da transcendência, talvez Nelsons seja meio traidor, mas acho que não muito. Está tudo lá, só que sem derramamentos desnecessários.
P.S. — Para mim, esta sinfonia está muito associada ao covid. Em fevereiro de 2020, em nossa última viagem internacional, eu e minha mulher estávamos em Roma e vimos o último concerto na Academia Nacional de Santa Cecília antes de fechar em razão da pandemia. O grande Daniele Gatti foi o regente. As primeiras máscaras já apareciam. Quando chegamos em Porto Alegre, ninguém usava ainda.
Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia Nº 5 (Nelsons, Orquestra Filarmônica de Viena)
1 I. Trauermarsch: A. In Gemessenem Schritt 1:15
2 I. Trauermarsch: B. Etwas Gehaltener 2:02
3 I. Trauermarsch: C. Wieder Etwas Gehaltener 2:44
4 I. Trauermarsch: D. Plötzlich Schneller 0:48
5 I. Trauermarsch: E. A Tempo. F. Tempo I. 1:49
6 I. Trauermarsch: G. Schwer (15). H. Klagend 5:47
7 II. Stürmisch Bewegt, Mit Grösster Vehemenz: A. Sturmisch Bewegt 1:28
8 II. Stürmisch Bewegt, Mit Grösster Vehemenz: B. Bedeutend Langsamer 2:29
9 II. Stürmisch Bewegt, Mit Grösster Vehemenz: C. Tempo I Subito 0:53
10 II. Stürmisch Bewegt, Mit Grösster Vehemenz: D. Langsam Aber Immer 1:19
11 II. Stürmisch Bewegt, Mit Grösster Vehemenz: E. Tempo Moderato 1:36
12 II. Stürmisch Bewegt, Mit Grösster Vehemenz: F. Plötzlich Wieder Bedeutend Langsamer 1:36
13 II. Stürmisch Bewegt, Mit Grösster Vehemenz: G-J. Tempo I Subito. Etwas Langsamer. Nicht Eilen. Wuchtig 3:55
14 II. Stürmisch Bewegt, Mit Grösster Vehemenz: K. Pesante 1:29
15 II. Stürmisch Bewegt, Mit Grösster Vehemenz: L. Tempo I Subito 1:50
16 III. Scherzo. Kräftig, Nicht Zu Schnell: A-B. Kräftig, Nicht Zu Schnell 2:33
17 III. Scherzo. Kräftig, Nicht Zu Schnell: C. Etwas Ruhiger 1:05
18 III. Scherzo. Kräftig, Nicht Zu Schnell: D-E. Tempo I. Lansamer 1:50
19 III. Scherzo. Kräftig, Nicht Zu Schnell: F. Etwas Zurückhaltend 1:31
20 III. Scherzo. Kräftig, Nicht Zu Schnell: G-H. Molto Moderato. Nicht Eilen 3:28
21 III. Scherzo. Kräftig, Nicht Zu Schnell: I. A Tempo Molto Moderato 1:14
22 III. Scherzo. Kräftig, Nicht Zu Schnell: J-L. Poco Rit. A Tempo I. Nicht Eilen – Vorwärts Drängen 4:13
23 III. Scherzo. Kräftig, Nicht Zu Schnell: M-N. Tempo I. A Tempo Moderato 1:56
24 III. Scherzo. Kräftig, Nicht Zu Schnell: O. Tempo I Subito 0:59
25 IV. Adagietto. Sehr Langsam: A-B. Sehr Langsam. Wieder äußerst Langsam 4:47
26 IV. Adagietto. Sehr Langsam: C. Fliessender 1:57
27 IV. Adagietto. Sehr Langsam: D. Fliessend 0:52
28 IV. Adagietto. Sehr Langsam: E. Zurückhaltend 2:21
29 IV. Adagietto. Sehr Langsam: F. Zögernd 2:28
30 V. Rondo-Finale. Allegro: A-B. Allegro. Allegro Giocoso 1:19
31 V. Rondo-Finale. Allegro: C-D. Sempre L’Istesso Tempo. Grazioso 1:34
32 V. Rondo-Finale. Allegro: E. A Tempo I 0:35
33 V. Rondo-Finale. Allegro: F. Sempre L’Istesso Tempo 1:19
34 V. Rondo-Finale. Allegro: G. A Tempo 1:21
35 V. Rondo-Finale. Allegro: H-I. Sempre L’Istesso Tempo. Nicht Eilen 2:15
36 V. Rondo-Finale. Allegro: J. Nicht Eilen. A Tempo 1:31
37 V. Rondo-Finale. Allegro: K-L. Plötzlich Wieder Wie Zu Anfang. Unmerklich Etwas Einhaltend 2:36
38 V. Rondo-Finale. Allegro: M. Grazioso 2:08
39 V. Rondo-Finale. Allegro: N. Sehr Drängend 1:45
Esta gravação da Sinfonia Nº 5, de Bruckner, por Bernard Haitink à frente da Orquestra Sinfônica da Rádio Bávara é uma interpretação que privilegia a arquitetura da obra acima do efeito imediato. Haitink não procura monumentalidade teatral nem êxtases exagerados. Sua abordagem é de uma lucidez clássica, permitindo que a gigantesca construção de Bruckner apareça claramente ao ouvinte. A grande virtude desta leitura está no equilíbrio. Os tempos são raramente pesados e a extraordinária polifonia do último movimento emerge com clareza exemplar. A Orquestra da Rádio Bávara responde com sonoridade magnífica, especialmente nos metais, ricos e profundos. O resultado é uma Quinta menos dramática do que as de Furtwängler ou Jochum, mas mais transparente. Haitink conduz a música com paciência e inteligência, confiando que a força da partitura basta por si mesma. Para alguns críticos, essa objetividade chega a parecer excessivamente contida — para outros, trata-se justamente de uma das grandes realizações do catálogo moderno. É uma gravação para quem prefere contemplar a catedral em toda a sua grandiosidade estrutural, em vez de se deixar deslumbrar apenas pelos vitrais. Haitink nos mostra Bruckner como um mestre da forma — e, ao fazê-lo, alcança uma beleza serena e duradoura.
Anton Bruckner (1824-1896): Sinfonia Nº 5 (Haitink, Orquestra Sinfônica da Rádio Bávara)
I. Adagio – Allegro 20:38
II. Adagio 16:10
III. Scherzo: Molto vivace 13:40
IV. Finale: Adagio – Allegro moderato 25:14
Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks
Bernard Haitink
It Might as Well Be Swing é uma celebração da elegância. Com seu fraseado leve, inventivo e irresistivelmente melódico, Stéphane Grappelli (1908-1997) demonstra por que foi um dos grandes responsáveis por transformar o violino em instrumento do jazz. O disco transborda alegria sem jamais cair na superficialidade. Cada tema parece conversar com a tradição do swing ao mesmo tempo em que exibe a personalidade inconfundível de Grappelli: refinada, espirituosa e cheia de charme. É música que flui com naturalidade, como uma conversa entre velhos amigos, lembrando-nos que o jazz pode ser virtuoso sem perder a graça e sofisticado sem perder o sorriso.
.: interlúdio :. Stéphane Grapelli: It might as well be swing
1 You Took Advantage Of Me 4:56
2 Star Eyes 4:17
3 Anything Goes 4:32
4 Don’t Blame Me 5:04
5 Moonlight In Vermont 2:36
6 Caravan 7:15
7 It Might As Well Be Spring 4:53
8 Have You Met Miss Jones 4:02
9 Love Song 3:13
10 Sing Hallelujah 3:56
11 I Didn’t Know What Time It Was 5:50
Alto Saxophone, Tenor Saxophone, Clarinet – Phil Woods
Bass – Jean-Philippe Viret (tracks: 11), John Burr*
Drums – Louis Bellson
Guitar – Marc Fosset
Piano – McCoy Tyner (tracks: 11)
Violin – Stéphane Grappelli
Contemplativo and very english, este CD me encheu o saco. Há poucas boas músicas eruditas inglesas entre os dois gênios maiores da ilha: Purcell e Britten. O romance imensamente popular e “quintessencialmente inglês” de Vaughan Williams para violino e orquestra, The Lark Ascending, recebeu muitas gravações. Não há nenhuma evidência que sugira que o próprio compositor tenha considerado a peça de alguma forma excepcional, então por que ele se transformou no sucesso clássico que quase todo mundo conhece? Enquanto outrora este romance despretensioso era ouvido como uma evocação direta dos 12 versos de George Meredith que prefaciam a partitura, o público mais amplo de hoje desconhece em grande parte a sua fonte poética. A etiqueta “quintessencialmente inglesa” aplicável aos versos vitorianos parece cada vez mais inadequada para explicar o apelo global da música. Em 2011, quando a rede de rádio pública de Nova York perguntou aos ouvintes o que eles gostariam de ouvir no 10º aniversário do 11 de setembro, The Lark Ascending ficou em segundo lugar, atrás de Adagio de Barber. Eu não entendo. E vocês?
Vaughan Williams / Delius / Walton: Greensleeves · The Lark Ascending · Summer Night on the River · On Hearing the First Cuckoo in Spring (Zukerman / Black / Orquestra de Câmara Inglesa / Barenboim)
1 Fantasia sobre “Greensleeves” para orquestra de cordas, harpa e duas flautas (1934)
Composta por – Ralph Vaughan Williams
4:29
Concerto para oboé e orquestra de cordas em lá menor (1944)
Composta por – Ralph Vaughan Williams
Oboé – Neil Black (3)
2 1. Rondo Pastoral: Allegro Moderato 6:54
3 2. Minueto e Musette: Allegro Moderato 2:48
4 3. Finale (Scherzo): Presto 8:54
Duas peças para pequena orquestra
Composta por – Frederico Delius
5 1. Ao ouvir o primeiro cuco na primavera (1912) 7:12
6 2. Noite de verão no rio (1911) 5:41
Duas Aquarelas (1938)
Organizado por – Eric Fenby
Composta por – Frederick Delius
7 1. Lento, Ma Non Troppo 2:44
8 2. Alegremente, mas não rápido 2:10
9 Intermezzo (da ópera “Fennimore e Gerda”) (1909-10)
Composta por – Frederico Delius
5:50
Duas peças para cordas da música do filme “Henrique V” (1943-44)
Composta por – William Walton *
10 1. Passacaglia: Morte de Falstaff 2:47
11 2. “Toque seus lábios macios e parte” 2:01
12 The Lark Ascendente (Romance para violino e orquestra) (1914, Rev. 1920)
Composta por – Ralph Vaughan Williams
Violino – Pinchas Zukerman
Maestro – Daniel Barenboim
Orquestra – Orquestra de Câmara Inglesa
Eu não entendo nada dos românticos e nem dou muita bola pra eles, então o fato de eu ter gostado desta gravação talvez signifique que ela é uma merda. Estas talvez sejam interpretações musculosas demais. É justamente essa natureza “exagerada” que apreciei. Em fóruns de pianistas, ouvintes comuns elogiam Biret por colocar “muito sentimento e expressão”, enquanto que os especialistas não gostam muito. A gravação das Polonaises de Chopin pela turca Idil Biret representa uma visão muito pessoal e tecnicamente impecável dessas obras do período romântico. Porém, enquanto intérpretes mais clássicos podem buscar mais delicadeza, Biret aposta no drama, o que resulta em uma escuta vibrante e que certamente vai capturar sua atenção. Afinal, a coisa aqui é patriótica, né? Querem patriotismo sutil? Ah, vsf…
A gravação de L’Orfeo de Claudio Monteverdi conduzida por Sergio Vartolo e lançada pela Naxos em 1997 é uma das raras versões da obra protagonizada por um elenco predominantemente italiano. Ela foi gravada em agosto de 1996 no Théâtre Municipal de Puy-en-Velay, na França. O que diferencia esta gravação é sua sonoridade deliberadamente grandiosa — Vartolo empregou cerca de 40 instrumentistas, uma orquestra consideravelmente maior do que a utilizada em sua regravação da obra uma década depois. Ficou pior… Esta edição de Vartolo possui uma característica única entre as gravações de L’Orfeo: ela inclui ambas as versões do finale da ópera. A primeira edição impressa do libreto (1607) termina com uma cena em que Orfeu é atacado por Bacantes enfurecidas — porém não há música preservada para essa cena. Em 1609, Monteverdi publicou uma versão alternativa com um final feliz, no qual Apolo desce e leva Orfeu aos céus. Vartolo opta por apresentar ambas: primeiro a cena das Bacantes com atores declamando — ou melhor, gritando — suas falas, uma sequência de arrepiar o sangue, e em seguida o finale musical de 1609 com o descenso de Apolo.
Claudio Monteverdi (1567-1643): L`Orfeo (San Petronio Cappella Musicale Orchestra, Vartolo)
Disc 1
Monteverdi, Claudio
Striggio, Alessandro – Lyricist
L’Orfeo
1 Toccata 01:55
2 Prologue 07:18
3 Act I: Shepherd: In questo lieto e fortunato giorno 04:09
4 Act I: Chorus: Lasciate i monti 03:04
5 Act I: Orpheus: Rosa del ciel 03:37
6 Act I: Chorus: Lasciate i monti 02:19
7 Act I: Shepherd: Ma se il nostro gioir 07:32
8 Act II: Orpheus: Ecco pur ch’a voi 01:11
9 Act II: Shepherd: Mira ch’a se n’alletta 03:28
10 Act II: Orpheus: Vi ricorda, o bosch’ombrosi 03:00
11 Act II: Messenger: Ahi caso acerbo 10:51
12 Act II: Chorus: Ahi caso acerbo 02:59
13 Act II: Sinfonia 09:29
Disc 2
1 Act III: Orpheus: Scorto da te 05:58
2 Act III: Charon: O tu ch’innanzi 02:34
3 Act III: Orpheus: Possente spirto 15:15
4 Act III: Charon: Ben mi lusinga 05:51
5 Act III: Chorus: Nulla impresa per uom 02:56
6 Act IV: Proserpina: Signor, quell’infelice 08:18
7 Act IV: Chorus: Pietade, oggi, e Amore 00:53
8 Act IV: Orpheus: Qual onor di te 03:56
9 Act IV: Eurydice: Ahi, vista troppo dolce 03:24
10 Act IV: E la virtute un raggio 03:31
11 Act V: Orpheus: Questi i campi 08:38
12 Act V: Moresca 01:08
13 Act V: Baccanti 07:31
14 Act V: Sinfonia for Entry of Apollo 07:19
15 Act V: Final Chorus: Vanne Orfeo 01:01
16 Act V: Moresca 00:51
A palavra gagliarda deriva do francês antigo gaillart e do provençal galhart, possuindo provável raiz celta (gal, que significa “força” ou “energia”)
Ashley Solomon
O título do disco – Três séculos de música italiana – pode parecer propaganda enganosa, afinal três séculos é um bocado de tempo para se enfiar em um CD, mas se olharmos para o rol dos compositores – e o período no qual eles viveram – a conta fecha.
O mais antigo é Giovanni Maria Radino, de quem não sabemos a data exata de nascimento, mas estima-se por volta de 1550. O disco traz quatro elegantes gagliardas compostas por ele – lindas, vigorosas, mostrando todo o frescor e a inventividade da música daqueles dias.
Não faltam obras de Corelli, Frescobaldi, Domenico Scarlatti (mesmo que apenas uma sonata) e Vivaldi. Se bem que o conjunto de sonatas sob o título Il Pastor Fido pode ter sido colocado na conta do Padre Vermelho por conta do sucesso de venda de suas músicas impressas. Mas, com tantas belezuras, você vai se importar?
De um dos mais recentes compositores, Francesco Maria Veracini, temos uma sonata composta para violino e contínuo, mas aqui interpretada lindamente à flauta pelo ótimo Ashley Solomon.
O disco pode também ser ouvido em alguma das plataformas de streaming, como Qobuz ou Tidal…
Active as a soloist and chamber musician, Ashley is the director of Florilegium, and much of his time is spent working and performing with this ensemble that he co-founded in 1991. As a soloist, he has performed worldwide, including concertos in the Sydney Opera House, Esplanade (Singapore), Teatro Colon (Buenos Aires), Concertgebouw (Amsterdam), Konzerthaus (Vienna), Beethoven-Haus (Bonn) and Frick Collection (New York). He also records as a solo artist with Channel Classics, and his recording of the complete Bach’s Flute Sonatas was voted the best overall version of these works on either modern or period flute by Gramophone Magazine (February 2017):
In 1996, he expanded his exploration of Italian music with Il Flauto Dolce: Italian Music from Three Centuries on Meridian, a collection spanning Renaissance, Baroque, and early Classical periods, including sonatas and canzonas by composers like Giovanni Paolo Cima (?) and Arcangelo Corelli. Accompanied by harpsichordist Terence Charlston and organist Jan Spencer, the album demonstrated Solomon’s command of the recorder across stylistic evolutions, from polyphonic Renaissance forms to more expressive Baroque lines.
O laborioso setor de imagens da PQP Bach Publishing House enviou essa ilustração para a postagem após ter acesso à lista de nomes dos compositores… Resta a pergunta: Como Vito descobriu que foi Emilio Barzini?
Pois bem, após várias solicitações, não apenas do Sander, mas de vários outros de nossos leitores / ouvintes, trago para os senhores a Missa Solemnis. Sempre citando Maynard Solomon, temos a seguinte descrição e detalhes da obra:
“Tal como a primeira missa de Beethoven, a Missa Solemnis, op. 123, foi escrita para uma ocasião específica: destinava-se a celebrar a investidura do arquiduque Rudolph (1788-1831) como arcebispo de Olmütz (na Morávia) em 9 de março de 1820. Rudolph, filho do imperador Leopold II e irmão do imperador Franz era o mais importante dos mecenas de Beethoven desde 1809 em diante, e o beneficiário de nada menos que 15 dedicatórias, incluindo as dos Concertos para Piano nº 4 e 5, o Trio, op 97 (Arquiduque), as Sonatas opp. 106 e 111, e a Grosse Fugue, op. 133.
(…) A Missa tornou-se a paixão absorvente de Beethoven durante quatro anos, substituíndo Fidélio como a grande ‘obra problemática’ de sua carreira; Com efeito, há um sentido em que a Missa Solemnis passou a ser encarada por Beethoven como uma composição talismática, cujo valor para ele era tão grande que – como vimos antes – enveredou por uma série incomum de negociações e manipulações financeiras a respeito de sua publicação, o que lhe custou não poucas amizades e lhe granjeou a desagradável reputação de práticas comerciais desonestas.
(…) Embora possamos estar certos de que Beethoven verteu na Missa Solemnis seus mais profundos sentimentos religiosos, podemos estar certos de que não foi a adesão ao catolicismo que inspirou a obra. Conforme tem sido frequentemente assinalado, a peça nunca esteve inteiramente à vontade na sala de concerto nem na igreja. Em várias ocasiões, Beethoven sugeriu que ela poderia ser executada como “um grande oratório” (…)
(…) Entretanto, deve-se reconhecer também o papel desempenhado pela imaginação produtiva, e, embora existam muitos ‘caminhos novos para velhas ideias’, na Missa Solemnis, sua importância histórica reside predominantemente no modo como, muito mais do que reproduzidas, nela foram remodeladas as tradições da música litúrgica. Isso foi feito praticamente pelo mesmo método que criou a grande música religiosa dos predecessores de Beethoven, de Dufay a Josquin, a Handel e Bach, ou seja, uma recusa em aceitar as formas e linguagens recebidas como modelos eternos, e uma infusão de elementos seculares derivados de estilos musicais não-litúrgicos que ampliaram as possibilidades expressivas da forma, dando origem a novos significados associacionistas que, por seu turno, se embutiram na matriz da gramática musical mais recente.” (SOLOMON, p. 406-411)
Lendo este texto, não pude deixar de concordar quando ele diz que a Missa Solemnis sente-se pouco a vontade se executada numa igreja. Ou seja, Beethoven criou uma nova música sacra que, embora imbuída de profunda religiosidade, não necessariamente pode ser considerada música sacra, nos moldes a que nos acostumamos ao ouvir dos grandes mestres do gênero, como papai Bach, ou Handel. O próprio Beethoven teria escrito que considerava a música a capella o único estilo eclesiástico verdadeiro, “talvez por não desejar que a obra servisse a sua normal função apaziguadora como uma idealização da perpetuidade e imutabilidade da crença (SOLOMON, p. 409-410).
Curiosamente, enquanto escrevo este texto, ouço uma das melhores versões da 9º sinfonia que já tive a oportunidade de ouvir, uma contribuição da Laís Vogel, que está me ajudando entender esta análise tão pormenorizada de Solomon. Em outras palavras, antes o homem que a fé. “A religião permanece constante, só O homem é inconstante”, terie escrito Beethoven a um amigo, discutindo sobre a imortalidade.
Para concluir, basta acrescentar que Beethoven considerava essa Missa a maior obra que compusera até então. Gosto muito da conclusão de Solomon em sua análise desta obra:
“(…) E assim, o conflito em curso entre a fé e a dúvida em Beethoven é revelado na Missa Solemnis. Como Riezler sabia, no “Donna nobis pacem”, com seus sons de discórdia e guerra, e seus angustiados clamores de paz, interior e exterior, Beethoven ‘atrevera-se a permitir que a confusão do mundo exterior invadisse o domínio sagrado da música eclesiastica’. Neste sentido, a Missa Solemnis antevê as questões e dúvidas teológicas – a par da guerra travada entre ciência e religião – que dominariam o campo da batalha intelectual do século XIX.”
Ludwig van Beethoven (1770-1827): Missa Solemnis, Op. 123 (Herreweghe)
1 – Kyrie 11`55
2 – Gloria 16`59
3 – Credo 17`41
4 – Sanctus 5`16
5 – Benedictus 9`22
6 – Agnus Dei 16`09
Rosa Mannion – Soprano
Birgit Remmert – Contralto
James Taylor – Tenor
Cornelius Hauptmann – baixo
Choir de la Chapelle Royale et du Collegium Vocale
Orchestre des Champs Elysées
Phillipe Herreweghe – Director
Seu sobrenome é Baiano, mas ele pode fazer as coisas velozmente… O cravista Enrico Baiano parece uma figura retirada das páginas de um livro de Pirandello. Bigodudo, e com uma incrível cara de quem está maquinando alguma coisa contra alguém. Mas ele se acabou se ralando, pois sua gravadora (a obscura Symphonía Digital italiana) fechou e este CD tornou-se uma raridade a ponto de os sites ostentarem a palavrinha “discontinued” nas apresentações que fazem do disco. Com tanta porcaria por aí, é uma ocorrência imerecida para este bom Baiano de movimentos rápidos cercando os delicados os adágios, largos, andantes e que tais vivaldianos. Os concertos foram retirados do Estro Armonico e da Stravaganza o que é garantia de um pedigree veneziano autêntico. Abaixo, mostro a vocês a latinha de Enrico Baiano. Não, não o acho bonito, contudo confesso que ela (a cara dele) me faz como se visse um personagem muito esperto de uma comédia italiana do passado. A propósito, Baiano gravou elogiados CDs de Sonatas de Domenico Scarlatti. Basta ouvir este CD para concluir que ele nasceu para tocar Scarlatti, o homem que tinha um caso com a princesa portuguesa Maria Bárbara de Bragança, fato verídico que Clara Schumann, direto da cidade do Porto, insiste em negar.
Vivaldi – Concerti pour clavecin, du Manuscrit de Ann Dawson (Bibliothèque de Manchester)
Origem dos concertos: Op. IV:10, IV:6, IV:3, IV:4, IV:1 de La Stravaganza; Op. III:7, III:9, III:5, III:12 de L’Estro Armonico
01 Opus IV, 10-1-Spiritoso
02 Opus IV, 10-2-Adagio
03 Opus IV, 10-3-Allegro
04 Opus IV, 6-1-Allegro
05 Opus IV, 6-2-Largo
06 Opus IV, 6-3-Allegro
07 Opus IV, 3-1-Allegro
08 Opus IV, 3-2-Largo
09 Opus IV, 3-3-Allegro Assai
10 Opus III, 7-1-Andante
11 Opus III, 7-2-Adagio, Allegro
12 Opus III, 7-3-Adagio, Allegro
13 Opus VII, 4-1-Allegro
14 Opus VII, 4-2-Grave
15 Opus VII, 4-3-Allegro assai
16 Opus III, 9-1-Allegro
17 Opus III, 9-2-Andante
18 Opus III, 9-3-Allegro
19 Opus III, 5-1-Allegro
20 Opus III, 5-2-Adagio e cantabile
21 Opus III, 5-3-Allegro
22 Opus IV, 1-1-Allegro
23 Opus IV, 1-2-Largo e cantabile
24 Opus IV, 1-3-Allegro assai
25 Opus III, 12-1-Allegro
26 Opus III, 12-2-Largo
27 Opus III, 12-3-Allegro
Enrico Baiano, clavecin François-Etienne Blanchet de 1733, copie de Olivier Fadini
Tenho mil razões para acreditar que esta é uma gravação pirata. E duas mil razões para mostrá-la aqui no PQP. Talvez vocês não saibam que eu e Bluedog temos verdadeira paixão pelas gravações ao vivo. E quanto menos maquiadas melhor. É ao vivo que o artista faz o contato direto com aquilo que imagina ser seu público; é ao vivo e no entusiasmo causado pela interação física do artista e seu público, que temos a expressão mais sincera e direta; é sem a mediação de engenheiros de som, produtores e outros que tais que o verdadeiro artista criará a expressão só possível de ser reinventada na presença do receptor. Para mim, o concerto ao vivo é a prova de que temos um artista autêntico ou algo produzido em laboratório. E a genial Viktoria Mullova, na esplêndida companhia do Il Giardino Armonico de Giovanni Antonini, dão uma das maiores demonstrações de musicalidade e tesão de amor pela música que tenho visto. Há erros? Sim, Mullova até desafina e se atrasa. E isto é que é sensacional. Ela deixou-se levar de tal maneira pelo clima e pela velocidade proposta por Antonini que mandou às favas a técnica na tentativa de fazer o melhor Vivaldi daquele dia de 2004, naquela Lugano, naquele teatro, para servir àquele público.
Trata-se de um CD arrepiante, entremeado de tosses e espirros da platéia e com os entusiasmados aplausos cortados subitamente por nosso “editor” pirata. E não adianta, eu não sei quem toca alaúde no R. 93.
CD espetacular! (Ah, a qualidade de som é inteiramente aceitável).
VIVALDI – CONCERTI R281, R187, R580, R93, R208. MULLOVA. GIARDINO. ANTONINI. EN VIVO
1 Concerto in Mi minore R281 «Il Favorito». I Allegro.mp3
2 Concerto in Mi minore R281 «Il Favorito». II Largo.mp3
3 Concerto in Mi minore R281 «Il Favorito». III Allegro.mp3
4 Concerto in Do Maggiore R187. I Allegro.mp3
5 Concerto in Do Maggiore R187. II Largo ma non molto.mp3
6 Concerto in Do Maggiore R187. III Allegro.mp3
7 Concerto in Si minore R580. I Allegro.mp3
8 Concerto in Si minore R580. II Largo.mp3
9 Concerto in Si minore R580. III Allegro.mp3
10 Concerto per Liuto in Re Maggiore R93. I Allegro.mp3
11 Concerto per Liuto in Re Maggiore R93. II Largo.mp3
12 Concerto per Liuto in Re Maggiore R93. III Allegro.mp3
13 Concerto in Re Maggiore R208. «Grosso Mogul» I Allegro.mp3
14 Concerto in Re Maggiore R208. «Grosso Mogul» II Largo.mp3
15 Concerto in Re Maggiore R208. «Grosso Mogul» III Allegro.mp3
Viktoria Mullova
Il Giardino Armonico
Giovanni Antonini
Grabación en vivo. Lugano, Palacio de Congresos, 7.6.2004.
Monk Suite: Kronos Quartet Plays Music of Thelonious Monk é um daqueles encontros improváveis que acabam parecendo inevitáveis depois de acontecidos. O Kronos Quartet transporta o universo cheio de pontas, irônico e melancólico de Thelonious Monk para o território da música de câmara sem domesticá-lo. Pelo contrário: os arcos parecem revelar ainda mais as dissonâncias, os silêncios e o humor torto de Monk. A presença de Ron Carter dá peso e pulsação jazzística ao projeto, especialmente em “Off Minor/Epistrophy”, enquanto peças como “‘Round Midnight” e “Crepuscule with Nellie” ganham uma beleza quase fantasmagórica. Não é jazz tradicional nem música clássica convencional: é um disco raro, elegante e inquieto, feito por músicos que compreendem que Monk sempre foi, sobretudo, um grande compositor contemporâneo.
Kronos Quartet: Monk Suite: Kronos Quartet Plays Music Of Thelonious Monk with Ron Carter
1 Well, You Needn’t
Written-By – Thelonious Monk
4:58
2 Rhythm-a-ning
Written-By – Monk*
3:04
3 Crepuscule With Nellie
Written-By – Monk*
2:39
4 Off Minor / Epistrophy
Written-By – Monk*
8:10
5 ‘Round Midnight
Written By – Monk-Williams
Written-By – Williams*, Monk*
4:33
6 Misterioso
Written-By – Monk*
4:00
“Monk Plays Ellington”:
7 It Don’t Mean A Thing (If It Ain’t Got That Swing)
Written By – Ellington-Mills
Written-By – Ellington*, Mills*
4:03
8 Black And Tan Fantasy
Written By – Ellington-Miley
Written-By – Miley*, Ellington*
3:42
9 Brilliant Corners
Written-By – Monk*
5:04
Bass – Chuck Israels (tracks: B3, B4), Ron Carter (tracks: A1 to A4)
Cello – Joan Jeanrenaud
Drums – Eddie Marshall (2) (tracks: B3, B4)
Viola – Hank Dutt
Violin [First] – David Harrington
Violin [Second] – John Sherba
Há discos que são clássicos instantâneos e discos que se tornam clássicos com o tempo. Este aqui é ambas as coisas. O álbum reúne três dos quartetos mais importantes do repertório russo — o Quarteto de Cordas nº 1, Op. 11 de Tchaikovsky, o Quarteto de Cordas nº 2 de Borodin e o Quarteto de Cordas nº 8, Op. 110 de Shostakovich — interpretados por dois grupos lendários. A escolha dos intérpretes já é um golpe de gênio. O Gabrieli String Quartet (ingleses conhecidos pela precisão e elegância) assume o Tchaikovsky, gravado em 1976 . Já o Borodin Quartet — em sua formação original de 1962, com Rostislav Dubinsky no primeiro violino — interpreta Borodin e Shostakovich. E por que isso importa? Porque o Borodin Quartet trabalhou pessoalmente com o próprio Shostakovich, que supervisionou suas interpretações.
O resultado é um contraste fascinante. No Quarteto de Tchaikovsky, a execução do Gabrieli é limpa, elegante e precisa, com uma certa contenção emocional tipicamente inglesa . O famoso Andante Cantabile — que fez Tolstói chorar ao ouvi-lo — ganha aqui uma leitura refinada, talvez até distante do sentimentalismo eslavo que muitos esperam.
Já no Borodin e no Shostakovich, o Borodin Quartet vem com o oposto. Não que sejam selvagens, são extatos, perfeitos, sensíveis, mas o clima é muito mais emocional. O Notturno do Quarteto nº 2 de Borodin — originalmente dedicado à esposa do compositor — é uma das peças mais belas já escritas para quarteto de cordas, e esta gravação é considerada a versão de referência. O violoncelo de Valentin Berlinsky conduz a melodia com uma ternura de cortar a alma.
E então vem Shostakovich. O Quarteto nº 8 é outro tipo de animal. Escrito em apenas três dias em 1960, o compositor o dedicou “à memória das vítimas do fascismo e da guerra” — mas todos sabiam que ele estava escrevendo seu próprio réquiem. As iniciais DSCH (Ré-Mi-Si-Dó em alemão, seu monograma musical) aparecem como um mantra obsessivo ao longo dos cinco movimentos . O Borodin Quartet interpreta isso com um conhecimento de causa que nenhum outro grupo pode reivindicar.
No fim das contas, não é um cedezinho de peças famosas, mas sim um documento histórico. O Borodin Quartet é a tradição dessas obras. Ouvir esta gravação é o mais próximo que podemos chegar de ouvir Shostakovich explicar sua própria música.
Veredito final: Essencial para qualquer coleção de música de câmara. O Borodin sozinho já vale o preço do disco.
Pyotr Ilyich Tchaikovsky String Quartet No. 1 In D Major, Op.11
Ensemble – Gabrieli String Quartet*
(28:05)
1 – I. Moderato E Semplice 10:37
2 – II. Andante Cantabile 6:32
3 – III. Scherzo & Trio: Allegro Non Tanto E Con Fuoco 3:53
4 – IV. Finale: Allegro Giusto 6:50
Alexander Borodin String Quartet No. 2 In D Major
Ensemble – Borodin String Quartet
(27:47)
5 – I. Allegro Moderato 7:52
6 – II. Scherzo 4:44
7 – III. Notturno: Andante 8:09
8 – IV. Finale: Andante – Vivace 6:54
Dmitri Shostakovich String Quartet No. 8 In C Minor, Op.110
Ensemble – Borodin String Quartet
(19:41)
9 – I. Largo – 4:24
10 – II. Allegro Molto – 2:43
11 – III. Allegretto – 3:59
12 – IV. Largo – 5:12
13 – V. Largo 3:25
Cello – Keith Harvey (faixas: 1 to 4), Valentin Berlinsky (faixas: 5 to 13)
Viola – Dmitri Shebalin (faixas: 5 to 13), Ian Jewel (faixas: 1 to 4)
Violin [II] – Brendan O’Reilly (4) (faixas: 1 to 4), Yaroslav Alexandrov (faixas: 5 to 13)
Violin [I] – Kenneth Sillito (faixas: 1 to 4), Rostislav Dubinsky (faixas: 5 to 13)
Coletâneas são desiguais, mas têm a vantagem de nos darem uma visão bastante clara das diversas vertentes de um artista, se ele as tiver, claro. Algumas das faixas abaixo já foram divulgadas no PQP, casos de Edges Of Illusion e Gone to the dogs, mas há outras extraordinárias, que me fazem desejar conhecer inteiramente os álbuns de onde saíram. Esta coletânea é uma espécie de isca. E eu a fisguei e estou bem feliz de ser puxado pelo anzol de Surman. A qualidade do som dos saxes e clarinetes do inglês é inacreditável.
John Surman – Selected Recordings (1976-1999)
1 Druid’s Circle
2 Number Six
3 Portrait of a Romantic
4 Ogeda
5 The Returning Exile
6 Edges Of Illusion
7 The Buccaneers
8 The Snooper
9 Mountainscape VIII
10 Figfoot
11 Piperspool
12 Gone To The Dogs
13 Stone Flower
John Surman – Soprano Saxophone, baritone saxophone, bass clarinet, recorder, synthesizer, keyboard
John Abercrombie – guitar
Paul Bley – piano
Gary Peacock – double-bass
Barre Phillips – double-bass
Chris Pyne – trombone
Terje Rypdal – guitar