Uma obra religiosa escrita por um ateu, uma obra inspirada pelo amor não consumado a uma mulher casada e uma obra para homenagear a cultura eslava. Este é o resumo do que é a extraordinária Missa Glagolítica do tcheco Leoš Janáček. Mas não vamos ficar apenas no resumo. Vamos adiante.
Alexandre Pushkin foi o escritor que, para além de seus grandes méritos literários, recebeu o crédito de ter ampliado significativamente o vocabulário do idioma, normatizando várias expressões populares e codificando o russo literário. Sabemos da importância que o idioma tem para a identidade e cultura de um povo, da parte fundamental que ele ocupa em sua autoafirmação e independência.
A Morávia do compositor Leoš Janáček foi, por quase toda sua vida, dominada por estrangeiros. Até a Primeira Guerra Mundial, em 1918, por exemplo, existia o Império Austro-Húngaro, que ia do centro da Europa até a fronteira com a Ucrânia. Então, finalmente, o povo tcheco pôde celebrar sua independência… Mas esta valeu apenas até 1938, quando os nazistas resolveram anexar o país. Depois veio a URSS.
Ou seja, a região da República Tcheca foi, até a queda do Muro de Berlim, em 1989, uma região constantemente esmagada pelas potências ocidentais de um lado e pela Rússia de outro.
Em 1926, Janáček, resolveu comemorar a efêmera independência de seu país escrevendo uma Missa. Mas não com uma Missa comum: optou, como ato de afirmação étnica, por uma missa cantada na antiga língua litúrgica eslava, o eslavônico. Por isso o nome da obra – “Missa Glagolítica”, ou seja, missa numa língua escrita no alfabeto glagolítico, antecessor do cirílico.
A Missa Glagolítica (Mša glagolskaja) foi apresentada pela primeira vez em 26 de junho de 1926 em Praga.
A opção do ateu Janáček por escrever uma missa de tintas étnicas é muito simbólica. Janáček apoiava o pan-eslavismo e a obra era um modo de celebrar a identidade e a cultura eslava. Não é uma mera Missa nacionalista tcheca, ela celebra todo o patrimônio pan-eslavo, usando a língua litúrgica que foi utilizada em diversos países eslavos.
Fora as cinco seções tradicionais da missa -– aqui com títulos em eslavônico: o “Credo” virou “Veruju”, o “Gloria” virou “Slava” e assim por diante — Janáček adicionou uma introdução orquestral e, perto do final, um sensacional solo de órgão seguido de um poslúdio sinfônico curiosamente chamado de “Intrada”, sei lá para onde, mas dá para imaginar.
A linguagem musical de Janáček não costuma ser delicada, mas é de originalidade, beleza e modernidade impressionantes. Os ritmos da Glagolítica refletem tanto a aspereza da língua antiga quanto a bagagem folclórica. A orquestração e o uso da voz humana são absolutamente pessoais e convincentes. E o drama da expressão – como na passagem da crucificação de Cristo, na qual o órgão assume papel fundamental – demonstra a vocação de Janáček para o teatro.
A música começa e termina com fanfarras. Há ainda muitos trechos de grande originalidade rítmica — principalmente para ouvidos treinados para formas diferentes –, além de memoráveis passagens para solistas e coro, e o famoso solo de órgão do qual falaremos mais a seguir.
Milan Kundera escreveu: “A Missa Glagolítica é uma orgia, não uma missa”. Vamos a mais um pouco de história: o pai de Kundera — um pianista e musicólogo que faleceu em 1971 — trabalhou com Janáček e ajudou o compositor nos ensaios para a estreia. Ela é uma das várias obras, justamente as melhores de Janáček, que é marcada por dois fatos que o motivaram muito no final da vida: a independência de seu país obtida em 1918 e, bem, seu enorme amor por Kamila Stösslová, uma mulher casada e 40 mais jovem que jamais compartilhou deste sentimento amoroso, mas que jamais afastou-se dele. Sim, os dois mantiveram por anos uma profunda amizade. Janáček parecia não se incomodar muito e mantinha suas juras de amor mesmo sem a contrapartida física.

Então, a musa Kamila Stösslová ocupa um lugar incomum na história da música. Leoš Janáček, ao conhecê-la em 1917 na Morávia, apaixonou-se profundamente, apesar de ambos serem casados e do fato de que ele sera quase quarenta anos mais velho. Ela influenciou profundamente o compositor em sua última década de vida. Kamila estava morando em Luhačovice (Morávia) com seu marido, David Stössel, e seus dois filhos, Rudolf e Otto. David estava no exército e até ajudou Janáček na obtenção de alimentos no tempo de guerra. Provavelmente o serviço militar de Stössel só deixava que ele passasse poucos dias em Luhačovice, dando a Janácek a chance de caminhar e conversar com Kamila durante o resto do tempo. Ele a conheceu em 3 de julho de 1917. Cinco dias depois, já escrevia apaixonadamente sobre ela em seu diário. Uma correspondência cerrada entre a dupla começou em 24 de julho.
Kamila devia ser muito inspiradora, apesar de impedir que o sexo se concretizasse. Foi para ela que Janáček criou várias mulheres de suas óperas, a Katya de Katya Kabanová, a raposa de A Pequena Raposa Astuta e Emilia Marty de O Caso Makropulos. Outros trabalhos que foram inspirados por sua paixão foram O Diário de Um Desaparecido, a Missa Glagolítica, a Sinfonietta e o Quarteto de Cordas No. 2 (Cartas Íntimas), ou seja, suas obras mais importantes. Na dedicatória das Cartas Íntimas, Janáček escreveu: “A música descreverá o medo que sinto de você”.

Como já disse, o ateu Janáček era um entusiasta do “pan-eslavismo”, movimento que valorizava mais as línguas eslavas do que o latim e as germânicas. Kundera tem razão em chamar a Glagolítica de orgia, pois há tanta música feliz, dançante e efusiva, que nem parece que estamos celebrando uma Missa, não obstante a participação do órgão. Ah, o ateísmo é libertador! Tudo na Glagolítica é moderno e original. O soprano solista parece uma guerreira, o baixo parece ter saído direto de um culto da Igreja Ortodoxa. Talvez seja a mais bela Missa do século XX, talvez melhor que a de Bernstein, que também é um espanto.
Voltando ao pai de Kundera, Ludvík: ele escreveu, numa crônica de 1927, que a Glagolítica fora “escrita por um velho homem religioso”. Janáček não parece ter gostado muito: “Não sou nem velho nem religioso”. Toma, Ludovico!
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O alfabeto glagolítico (glagólitsa nas línguas eslavas) é o mais antigo dos alfabetos eslavos que se conhece. Foi criado por São Cirilo e São Metódio por volta de 862-863 para traduzir a Bíblia e outros textos para as línguas eslavas. O nome vem da palavra glagola, que em búlgaro antigo significa palavra. Já glagolati significa falar e pode-se dizer, um tanto poeticamente, que glagolítico são “símbolos que falam”.
O alfabeto glagolítico original constava de 41 letras, embora a quantidade tenha variado levemente com os séculos. Das 41 letras glagolíticas originais, 24 são derivadas, provavelmente, de grafemas do grego medieval, os quais receberam um desenho mais ornamental.
Os caracteres restantes são de origem desconhecida. Acredita-se que alguns podem ter vindo de caracteres hebraicos e samaritanos, que Cirilo teria aprendido em suas viagens.
O nome “Glagolítico” é em checo hlaholice, em eslovaco hlaholika, em polaco głagolica, em russo, macedónio e búlgaro глаго́лица (transliterado glagólitsa), em croata glagoljica, em ucraniano глаголиця (transliterado hlaholytsia), em bielorrusso глаголіца (transliterado hlaholitsa), em esloveno glagolica, etc.
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Agora, um caso com o órgão presente nesta Missa. Ao folhear o livro Tudo tem a ver, de Arthur Nestrovski, dei de cara com um artigo que descreve o pânico de um organista que sumiu por medo de tocar o famoso movimento solo da Missa Glagolítica. Isso dois ou três dias antes do concerto da Osesp. Nestrovski narra seu desespero e a brilhante solução, obtida quase que por sorte. Ah, querem spoilers? Nada disso, comprem o livro — que é bom demais, com ensaios sobre literatura, música popular e erudita.
Leoš Janáček (1854-1928): Missa Glagolítica & O Diário de um Desaparecido (Griffel, Haefliger, Kubelik)
1. Glagolitic Mass – 1. Uvod (Introduction)
2. Glagolitic Mass – 2. Gospodi pomiluji (Kyrie)
3. Glagolitic Mass – 3. Slava (Gloria)
4. Glagolitic Mass – 4. Veruju (Credo)
5. Glagolitic Mass – 5. Svet (Sanctus)
6. Glagolitic Mass – 6. Agnece zij (Agnus Dei)
7. Glagolitic Mass – 7. Varhany solo (organ solo)
8. Glagolitic Mass – 8. Intrada
Evelyn Lear – Soprano
Hilde Rössel-Majdal – Alt
Ernst Haefliger – Tenor
Franz Crass – Bass
Bedrich Janacek – Organ
Choir und Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunk
9. The Diary of One Who Disappeared – Übersetzung: Max Brod – 1. “Traf eine junge Zigeunerin”/”One day I met a gypsy girl” (Tenor)
10. The Diary of One Who Disappeared – Übersetzung: Max Brod – 2. “Ist sie noch immer da”/”That black-eyed gypsy girl” (Tenor)
11. The Diary of One Who Disappeared – Übersetzung: Max Brod – 3. “Wie der Glühwürmchen Spiel”/”Throug the twilight glow-worms” (Tenor)
12. The Diary of One Who Disappeared – Übersetzung Max Brod – 4. “Zwitschern im Nest schon die Schwalben”/”Already swallows are” (Tenor)
13. The Diary of One Who Disappeared – Übersetzung: Max Brod – 5. “Heut ist’s schwer zu pflügen”/”Weary work is ploughing” (Tenor)
14. The Diary of One Who Disappeared – Übersetzung: Max Brod – 6. “Heissa, ihr grauen Ochsen!”/”Hey, There my tawny oxen” (Tenor)
15. The Diary of One Who Disappeared – Übersetzung: Max Brod – 7. “Wo ist das Pflöcklein hin”/”I’ve got a loose axie” (Tenor)
16. The Diary of One Who Disappeared – Übersetzung: Max Brod – 8. “Seht nicht, ihr Öchselein”/”Don’t look; my Oxen” (Tenor)
17. The Diary of One Who Disappeared – Übersetzung: Max Brod – 9. ” Sei willkommen, Jan”/” Welcome, my handsome one” (Alt, Tenor, Chor)
18. The Diary of One Who Disappeared – Übersetzng: Max Brod – 10. “Gott dort oben, mag”/”Go all-powerful, God eternal” (Alt, Chor)
19. The Diary of One Who Disappeared – Übersetzung: Max Brod – 11. “Vor der Heidin Wangen”/”From the rip’ning Cornfield” (Alt, Tenor)
20. The Diary of One Who Disappeared – Übersetzung: Max Brod – 12. “Dunkler Erlenwald”/”Forest’s shady height” (Tenor)
21. The Diary of One Who Disappeared – Übersetzung: Max Brod – 13. Piano Solo
22. The Diary of One Who Disappeared – Übersetzung: Max Brod – 14. “Sonn’ ist aufgegangen”/”See how high the sun is!” (Tenor)
23. The Diary of One Who Disappeared – Übersetzung: Max Brod – 15. “Meine grauen Ochsen”/”Now my tawny oxen” (Tenor)
24. The Diary of One Who Disappeared – Übersetzung: Max Brod – 16. “Was hab’ ich da getan?”/”What has come over me?” (Tenor)
25. The Diary of One Who Disappeared – Übersetzung: Max Brod – 17. “Flieh, wenn das Schicksal ruft”/”Who can escape his fate” (Tenor)
26. The Diary of One Who Disappeared – Übersetzung: Max Brod – 18. “Nichts mehr denk ich”/”Nothing matters now” (Tenor)
27. The Diary of One Who Disappeared – Übersetzung: Max Brod – 19. “Wie die Elster wegfliegt”/”See that thieving magpie” (Tenor)
28. The Diary of One Who Disappeared – Übersetzung: Max Brod – 20. “Hab’ ein Jüngferlein”/”Now she bears my child” (Tenor)
29. The Diary of One Who Disappeared – Übersetzung: Max Brod – 21. “Vater, dam Tag’ fluch ich”/”Father, how wrong you were” (Tenor)
30. The Diary of One Who Disappeared – Übersetzung: Max Brod – 22. “Leb denn wohl, Heimatland”/”Then farewell, dearest land” (Tenor)
Kay Griffel – Alt
Ernst Haefliger – Tenor
Frauenchoir / Women´s Choir
Rafael Kubelik – Piano / Conductor
PQP



IM-PER-DÍ=VEL !!!




Infelizmente, Rostropovich não gravou este excelente concerto de Kabalevsky. Kaba prova que é um sub-Shostakovich de respeito. E o que faz este menino Lidström também é sensacional! E no Khachaturian então? O Concerto de Khatcha não é tão bom quanto o de Kaba, mas faz-lhe belo par. Anotem este nome: Mats Lidström é um grande celista. Tanto que quase consegue salvar Rachmaninov!


Um CD low profile de Piazzolla e de alguns compositores ingleses que se arriscaram no tango. O grande destaque é a London Concertante, conjunto semiclássico que desconhecia e que dá uma boa demonstração de competência — clássica, jazzística e tangueira. Depois de um Libertango bastante apaixonado, as outras peças são interpretadas com delicadeza algo rara nos grupos vizinhos (argentinos). Eu adorei. Surpreendentemente, é um CD da Harmonia Mundi, o que mostra que o mundo se move em direções inesperadas. A ECM vai para o clássico, a HM para o tango, o Inter para a Série B e nós vamos vivendo de amor. Eu achei a peça de David Gordon, Augmented Tango de extrema sensualidade. Até tasquei uns beijos de língua na patroa. Um inglês escrever uma peça que parece um tango moderno e que este entusiasme um habitante do Rio Grande do Sul é a prova de que o ponto de umbanda norte-coreano ainda dominará o mundo.
O Brandis Quartett foi formado por membros da Filarmônica de Berlim. Suas interpretações combinavam a poderosa tradição da orquestra com uma liberdade e alegria que muitas vezes faltavam às gravações mais solenes sob Karajan. O álbum apresenta um programa curioso, saltando do popularíssimo ao mais denso. A Serenata para Cordas, K. 525 (“Eine kleine Nachtmusik”) é a peça mais popular de Mozart para conjunto de cordas. A versão do Brandis Quartett, com a adição do contrabaixista Rainer Zepperitz, cria uma sonoridade que se aproxima de uma pequena orquestra de câmara . É uma abordagem historicamente fundamentada, já que os editores da New Mozart Edition apontam que mesmo um quarteto ou quinteto pode realizar a obra. O Quarteto de Cordas, K. 168 é uma obra mais “clássica” e menos conhecida, que serve como um interessante contraponto às outras peças do disco. Já o Quarteto de Cordas, K. 465 (“Dissonâncias”) é o ponto alto do programa. O apelido vem do famoso Adagio inicial, cujas harmonias ousadas e cromáticas parecem antecipar a inquietação harmônica do Romantismo. A forma como o quarteto aborda essa introdução, com vibrato denso e um som “sombrio”, é o momento mais poderoso do disco.
![Igor Stravinsky (1882 – 1971): Le Baiser de la fée & Scènes de ballet – BBC Scottish Symphony Orchestra & Ilan Volkov [Hyperion] ֎](https://pqpbach.ars.blog.br/wp-content/uploads/2026/08/La_Baiser_De_La_Fee-960x540.jpg)








“Finalmente”, alguém dirá, “algo novo nessas plagas”. É verdade, as composições são bem recentes e escritas pela compositora finlandesa Kaija Saariaho, considerada uma das mais importantes compositoras do momento. Nascida em Helsink em 1952 e graduada em composição em 1980. Escreveu música eletrônica nos anos 1980 como ninguém, fazendo também uma mistura com instrumentos clássicos. Ela tem sido muito bem recebida pelo público, apesar dela não fazer concessões. Sua música lembra muito o som “New Age”, mas claro, muito superior.

Na minha opinião, uma obra-prima do jazz contemporâneo. Jazz? Será mesmo? Não será erudito? Estranhamente, fiquei entusiasmadíssimo ouvindo este CD com fones, na rua. Tal entusiasmo diminuiu um pouco quando o ouvi em casa. Quem sabe é algo para se ouvir com som muito alto? Pode ser. A faixa que mais me deixou feliz foi talvez a menos erudita, Furrow 6, de tema espetacularmente jazzistíco. 






IM-PER-DÍ-VEL !!!
Esta gravação da DG, realizada em 1972 e 1973 no Musikverein de Viena, reúne dois pilares do repertório romântico para violino sob a direção de Claudio Abbado e com a Filarmônica de Viena, tendo como solista o lendário Nathan Milstein. O resultado é um disco que, décadas depois, mantém o status de referência, com uma abordagem que une a inteligência musical de Milstein à elegância de Abbado. Milstein é descrito como “talvez o último grande russo entre os violinistas russos” e oferece aqui leituras que são tudo menos acadêmicas ou frias. Seu toque, caracterizado pelo uso relativamente parcimonioso do vibrato, revela uma pureza e luminosidade fascinantes . Essa qualidade confere às interpretações uma sensação de que não há outra maneira de tocar estas obras. No Allegro molto appassionato de Mendelssohn ou no vertiginoso finale do concerto de Tchaikovsky, sua virtuosidade é de tirar o fôlego, mas sempre a serviço da música.
Este disco documenta um encontro histórico: a estreia fonográfica de Anne-Sophie Mutter, com apenas 15 anos, sob a batuta de seu mentor, Herbert von Karajan, à frente da Filarmônica de Berlim. Lançado em 1978, o registro permanece como um testemunho de um momento único na música. Há, de fato, uma profundidade que transcende a idade da solista, uma abordagem que ecoa a estética “romântica” que Karajan buscava na época, conferindo às obras um caráter contemplativo e, por vezes, melancólico. Ouvindo agora, décadas depois, o que se destaca é a combinação entre a sonoridade exuberante (e antiquada) da Orquestra Filarmônica de Berlim sob o comando de Karajan, e o toque de Mutter — belo, expressivo e de uma segurança técnica impressionante para sua idade. A execução tem um ar que pode soar um pouco pesado ou menos espontâneo do que outras abordagens mais “autênticas”. No entanto, é justamente essa solenidade que confere à gravação seu caráter especial, transformando-a em algo mais próximo de uma declaração artística do que de uma mera exibição de virtuosismo juvenil. A comparação com as regravações posteriores da própria Mutter, já como uma artista madura, é inevitável e revela a diferença. Se a versão de 1978 possui encanto, ela também carece da liberdade rítmica e da leveza que Mutter viria a explorar em suas performances mais recentes. Este é o registro de uma jovem artista em seu primeiro voo. Para os admiradores da obra de Mozart, é uma gravação que oferece uma visão particular e poderosa, ainda que não seja a única possível.
IM-PER-DÍ-VEL !!!
Sim, jazz de vanguarda. Quem não gosta, que fuja. Este álbum documenta três noites de improviso em duetos ou em trio de três saxofonistas, todos com sax soprano. Não há outros instrumentos e, na verdade, só há um trio: a curtíssima Three Blokes. O disco é uma fascinante integração entre 3 grandes instrumentistas que se revesam em duplas. Um levando o tema e o outro, digamos, correndo atrás. Gostei muito, mas sei que é para poucos. Afinal, quem diria que uma série de duetos de saxofone soprano seria tão fascinante? Em pleno voo, essa compreensão um do outro fica incrivelmente intrincada como uma fuga barroca. É música tão pura e simples quanto pode ser.
Esta é uma gravação que perdeu muito com os anos. Molho pesado demais, execução totalmente destituída de humor e leveza. A crítica é dura, mas encontra eco em parte da recepção que este CD, com a Filarmônica de Los Angeles e a Orquestra Sinfônica de Chicago, acumulou ao longo do tempo. Carlo Maria Giulini, um respeitado maestro em sua época, oferece aqui leituras que dividem opiniões: para alguns, são visões transcendentes e solenes; para outros, são interpretações que afogam a vivacidade das partituras em um excesso de gravidade (minha opinião).
IM-PER-DÍ-VEL !!!


Este CD é um retrato fiel da arte de Karl Böhm: o mestre da clareza, equilíbrio e respeito à arquitetura musical. A sua leitura de Haydn pode não ter a irreverência de abordagens mais modernas, mas a sua solidez, beleza e integridade musical fazem dela uma referência. É uma gravação que nos lembra porque a velha escola vienense continua a ser tão apreciada, oferecendo uma escuta que é ao mesmo tempo confortável e estimulante. Este CD é uma oportunidade para apreciar a versatilidade de um dos maiores maestros do século XX. Sou um pouco hostil a Richard Strauss, mas sei que a parceria Böhm / Viena para Strauss é lendária. A crítica moderna descreve o maestro como um intérprete que “domina soberbamente a forma” e o “sentido da cor” orquestral. A sua abordagem, grandiosa mas nunca pesada, é ideal para a arquitetura complexa e o virtuosismo descritivo de Strauss. Aprecio mais o extreordinário feito orquestral do que propriamente a música.
Muitas vezes a gente diz, ao ver um músico de jazz tocando com descontração, que “fulano toca como se estivesse brincando” – é preciso afirmar que ninguém se divertiu mais com sua própria música do que Thelonious Monk. Diz-se dele que tinha predileção em fazer as notas erradas soarem corretas. Monk, o compositor, era uma criança irriquieta: alterações de tempo/ritmo e predileções por harmonias dissonantes fizeram-no fundar e, depois, redescobrir o bebop em uma década.

Ba-lue Bolivar Ba-lues-are. O lado B abre com a balada Pannonica, dedicada à “Baronesa do Bebop”, Nica (Rotschild) de Koenigswarter, amiga de Monk, Charlie Parker e diversos músicos do jazz à época. Nesta faixa Monk toca também 
IM-PER-DÍ-VEL !!!