
Há discos que funcionam como cápsulas do tempo, capturando não apenas um som, mas o próprio ar que se respirava em um dado momento. Amor em Hi-Fi, de Sylvinha Telles, é um desses raros artefatos: lançado em 1960, no exato instante em que a bossa nova deixava de ser uma promessa de estúdio para se tornar um fenômeno, o álbum registra o gesto elegante e um pouco incerto de uma cantora que já era moderna antes mesmo de a modernidade ganhar nome. Sylvia Telles (1934–1966) pertence a essa linhagem de artistas que a história meio que desprezou. Não apenas por sua morte precoce, aos 32 anos, em um acidente automobilístico, mas porque sua obra ficou por décadas fora de catálogo, aguardando que o interesse pelo período pré-bossa a resgatasse do esquecimento. Cantora de voz frágil, sim — como quase todos os intérpretes da bossa —, mas dotada de um frescor e uma naturalidade que poucas de sua geração alcançaram, Sylvia foi figura central na cena que fermentava nos apartamentos de Copacabana no final dos anos 1950. Namorou João Gilberto, gravou Jobim antes de Jobim ser Tom Jobim, e trouxe para o disco uma leveza que parecia desafiar o peso das orquestras e a empostação da era do rádio.
Amor em Hi-Fi é, em muitos sentidos, o retrato dessa transição. O título já diz muito: “amor em alta fidelidade” — a promessa tecnológica do som estéreo, a nitidez da gravação, a captação próxima da voz que os microfones modernos permitiam. É um disco consciente do meio em que se insere, e essa consciência técnica se traduz em uma produção elegante, com arranjos de cordas, flautas, vibrafone e coros suaves que ora aproximam o som do jazz de câmara, ora o puxam de volta para as convenções orquestrais do passado. Como disse, é um trabalho incerto, de transição. O repertório é dividido entre aquele que seria o cânone bossa-novista e um punhado de standards norte-americanos. No primeiro grupo, ela entrega leituras adoráveis de “Samba Tôrto”, “Corcovado” e “Samba de Uma Nota Só” — canções que ainda estavam quentes do forno de Tom Jobim e João Gilberto. A versão de “Dindi”, em particular, é uma das mais melancólicas — e lindas!!! — já gravadas, condizente com a fama de que Sylvia teria dado a definição da canção. No segundo grupo — uma das faixas mais comentadas do disco — ela enfrenta um medley com “All The Way”, “The Boy Next Door” e “They Can’t Take That Away From Me”, canções de Sammy Cahn e Gershwin que ela canta com clareza de dicção e boa intenção, mas com uma evidente falta daquela ginga que a língua inglesa, cantada por uma brasileira, ainda não havia aprendido. É como se sua voz, tão à vontade na melancolia tropical, subitamente ganhasse um peso escolar: correta, afinada, mas sem o balanço.
Essa dualidade — o encanto e a hesitação — é, talvez, a maior marca do disco. A crítica da época já notava que Sylvia, embora fosse musa e heroína do movimento bossa-novista, por vezes caía nas armadilhas dos produtores de estúdio, mais afeitos às fórmulas dançantes do que à inovação rítmica que João Gilberto estava impondo. Em “Oba-lá-lá”, por exemplo, ela quase parodia a alegria saltitante que João imprimiu à canção. O resultado é um álbum que oscila entre momentos de cristalina perfeição (“Samba Tôrto”, “Dindi”) e outros em que o arranjo parece datado, preso a uma certa “lustrosa” sonoridade de fim de década. Ainda assim, vale repetir: a voz de Sylvia Telles está entre as mais belas que o Brasil já produziu. Não pela potência, mas pela intimidade. Ela canta como quem confidencia, e essa qualidade — raríssima — sustenta o disco mesmo em seus momentos menos inspirados. Ouvir Amor em Hi-Fi hoje é, portanto, um exercício de escuta generosa. Não se busca nele a revolução rítmica e harmônica de Chega de Saudade (lançado um ano antes, em 1959), mas o eco de um instante em que tudo ainda estava em aberto: o jazz e o samba, o estúdio e a sala de estar, a cantora de rádio e a musa da bossa. É o retrato de alguém que viveu na fronteira entre dois mundos — e que, por pouco, não se tornou a maior ponte entre eles.
Ouvir, fechar os olhos, imaginar o Rio do fim dos anos 1950. E agradecer a Sylvia por ter deixado esse registro, mesmo que imperfeito, mesmo que datado. Como ela mesma canta no encerramento do disco, em “Não Gosto Mais de Mim”: há uma tristeza que não se explica, mas que, cantada assim, de leve, quase nos reconcilia com a vida.
Silvia Telles: Amor em Hi-fi
A1 Samba Tôrto
Written-By – Aloysio De Oliveira, Antonio Carlos Jobim
A2.1 All The Way
Written-By – S. Cahn – J.V. Heusen*
A2.2 The Boy Next Door
Written-By – H. Martin*, R. Blane*
A2.3 They Can’t Take That Away From Me
Written-By – G. Gershwin-I. Gershwin*
A3 Corcovado
Written-By – Antonio Carlos Jobim
A4 Têtê
Written-By – Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli*
A5 Se É Tarde Me Perdoa
Written-By – Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli*
B1 Chora Tua Tristeza
Written-By – Luvercy Fiorini, Oscar Castro Neves*
B2 Dindi
Written-By – Aloysio De Oliveira, Antonio Carlos Jobim
B3 Oba-Lá-Lá
Written-By – Aloysio De Oliveira, João Gilberto
B4 Samba De Uma Nota Só
Written-By – Antonio Carlos Jobim, Newton Mendonça
B5 Por Causa De Você (Gardez Moi Pour Toujours)
Lyrics By [Versão De] – Serge Rodhe
Written-By – Antonio Carlos Jobim, Dolores Duram*
B6 Não Gosto Mais De Mim
Written-By – Sérgio Ricardo

PQP

Confesso ter me apaixonado por este disco mais devido ao trabalho impecável do time de músicos que participam da gravação do que pelas obras interpretadas. Desprez é um precursor da música francesa e, como tal, acerta de forma espetacular assim como erra bisonhamente, mas sempre mantendo um ar blasé. Talvez eu esteja sendo injusto com Desprez, porém aqui há falta de unidade. Há movimentos belíssimos ao lado de coisas para cumprir carnê. A missa é um carnê, não? Bom, vou parar por aqui. Tenho receio de que Clara Schumann fique muito indignada comigo. Ah, CD de som espetacular. Aumente o volume! E, ah!, o nome dele, em francês, é bem deprê.
Esse é um daqueles CDs a respeito do qual eu não esperava nada e que me surpreendeu positivamente, muito positivamente. Graun é uma espécie de Carl Phillip Emanuel sem zumbido na cabeça (o que torna CPE genial, bem entendido). Então, de forma um pouco mais convencional, Graun nos entusiasma com sua grande inventividade. Agora, vai entender porque está tão fora do repertório… Atenção, orquestras de câmara, confiram!


IM-PER-DÍ-VEL !!!
IM-PER-DÍ-VEL !!!


Gents, este CD vale a pena pela raridade do repertório. Os concertos para violino de Haydn são fortemente mais ou menos. Não os achei muito apaixonantes. Como fiz anteontem e ontem com Vivaldi, primeiro um disco médio, depois um arrasa-quarteirão. Então, preparem-se porque programei um SENSACIONAL disco de Haydn para amanhã às 9h. Um puro mamilo: grande, desfrutável, irrecusável, abordável, indubitável, confortável, inseparável, saudável, violável, estável, palpável, inesgotável, abocanhável, acessível, disponível e leviano. Tudo para você!
As definições e fronteiras estão cada vez mais bobas, não? Acho que esta trilha sonora não é música erudita, apesar de a grega Eleni Karaindrou ser considerada uma compositora deste gênero. É que hoje revi o belo filme de Theo Angelopoulos e me deu vontade de postar a trilha sonora aqui. Talvez devesse ser um “.:interlúdio:.”, sei lá. Trata-se quase só de variações sobre um certo tema chamado por Karaindrou / Angelopoulos de Eternidade. Talvez a postagem não faça sentido sem o filme, muito alegórico e no qual presente e passado misturam-se todo o tempo.









IM-PER-DÍ-VEL !!!

Ótimo disco, muito agradável e de enorme musicalidade. E francês, o que às vezes é um mau sinal, mas não hoje! As três obras que compõem o programa abrangem um século: a Sonata de Franck, na sua transcrição oficialmente aceita para violoncelo, foi retirada da sua popular sonata para violino de 1886. Foi composta como presente de casamento para o violinista Ysaÿe. A interpretação da dupla deste CD é efetivamente fora da curva. Trois Strophes Sur Le Nom De Sacher de Dutilleux foi composta para o aniversário de Paul Sacher e estreada por Rostropovich com o compositor ao piano. A composição estendeu-se ao longo de uma década, tendo começado em 1976. A Sonata para Violoncelo de Poulenc foi dedicada a Pierre Fournier e concluída em 1948. É uma obra fascinante, embora nada famosa. Trata-se de uma peça de maturidade, cheia da graça, da melancolia e das mudanças de humor súbitas que caracterizam Poulenc. Merece ser descoberta.
IM-PER-DÍ-VEL !!!
Eu sou exagerado, então, acho o Concerto Nº 1 uma obra-prima e o segundo bem ruinzinho, mas vou tentar me acalmar.

Um lindo disco! Poderia ouvir mil vezes sem cansar.
Brahms + Pollini + Abbado + Filarmônica de Berlim, querem mais? Difícil. O Concerto para Piano Nº 2 de Brahms é, talvez, a mais monumental síntese entre o piano e a orquestra em todo o romantismo. Escrito em quatro movimentos — e não três como de costume —, ele não se esquiva da herança sinfônica: caindo em lugar comum, digo que o piano dialoga com a orquestra de igual para igual, sem jamais cair no virtuosismo oco. O primeiro movimento é uma paulada bem forte, onde o piano constrói acordes maciços e melodias que parecem pesar sobre os ombros do mundo. O segundo movimento, um scherzo feroz e cortante, revela um Brahms nervoso, dramático, poucas vezes tão agressivo. No terceiro, porém, tudo se aquieta: é um Andante de beleza melancólica, com um violoncelo solista que canta uma canção de amor serena e contida, como uma memória que se despede sem pressa. E o finale, saltitante e “húngaro”, encerra a obra com uma alegria cuidadosa, que não esquece as sombras anteriores mas escolhe dançar sobre elas. Ouvindo esse concerto, percebe-se que Brahms não escreveu uma peça de concerto no sentido usual — ele escreveu uma sinfonia com piano obbligato, uma sinfonia privada que exige do solista não apenas dedos, mas uma alma inteira.




IM-PER-DÍ-VEL !!!
Uma gravação muito, mas muito boa! Os últimos três Quartetos do Op. 18, escritos entre 1798 e 1800, mostram Beethoven se despedindo do classicismo de Haydn e Mozart para ensaiar seus primeiros gestos de, digamos, rebeldia. O Quarteto Nº 4 é o mais tempestuoso do conjunto. Ele pulsa com a urgência dramática e os contrastes bruscos que antecipam o Beethoven maduro. O segundo movimento, um scherzo nervoso e sincopado, parece menos uma dança e mais um tique nervoso… Já o Nº 5 funciona como uma pausa luminosa. Seu primeiro movimento é gracioso e arioso, quase mozartiano — o tema do minueto já carrega um sotaque campestre e a voz tipicamente beethoveniana. O destaque vem do movimento lento, um conjunto de variações sobre uma melodia melancólica que ganha contornos de ária trágica, intercalada por súbitos lampejos de furor. Por fim, o Nº 6 fecha o opus com um enigma. O quarteto é conhecido pelo final, intitulado “La Malinconia” (A Melancolia). Beethoven introduz um adagio lento e arrastado, cheio de pausas e harmonias dissonantes que parecem suspensas no ar, e então, sem aviso, irrompe em uma alegre dança vienense. É como se a melancolia fosse a sombra inevitável da leveza. Com esses quartetos, Beethoven prova que já dominava a forma herdada dos mestres, mas seu temperamento inquieto — e uma certa tristeza — já começava a rachar a moldura clássica por dentro.
IM-PER-DÍ-VEL !!!
Os seis quartetos de cordas do Op. 18 representam a primeira grande abordagem de Beethoven a uma forma que Haydn e Mozart haviam levado à perfeição. Publicados em 1801 mas compostos ao longo de vários anos, esses quartetos ainda respiram o ar do classicismo vienense, porém com uma tensão muscular e um ímpeto dramático que já anunciam o homem de Bonn. Os três primeiros quartetos, numerados de 1 a 3, são particularmente fascinantes por revelarem um compositor praticando as regras enquanto testa suas fronteiras. O Quarteto número 1, talvez o mais direto do conjunto, abre com uma elegância quase haydniana, mas logo exibe surpresas rítmicas e ousadias harmônicas que nenhum mestre do período teria se permitido. O segundo é um compêndio de contrastes: o primeiro movimento dança com graça, enquanto o Adagio cantabile e sonhador parece antecipar a languidez de Chopin. Já o terceiro quarteto, guarda no seu coração um movimento lento de beleza comovente e sombria, quase operística, como se Beethoven já ensaiasse as lágrimas que mais tarde vertaria nos quartetos finais. O que une os três é a clareza da escrita e o respeito pela conversa entre os quatro instrumentos – vozes que se interrompem, se imitam, se abraçam. Não há ainda o Beethoven fraturado dos quartetos tardios, mas há um jovem mestre que, ao herdar uma forma, já a empurra para o abismo. Essas obras respiram a liberdade recém-conquistada do compositor que se despede do século dezoito. E ao ouvi-las, imaginamos um Beethoven que sorri enquanto dobra a meta.





