IM-PER-DÍ-VEL !!!
Que compositor e que orquestra! Cada sinfonia tendo personalidade própria sendo respeitada pela AKAMUS. Este disco tem momentos realmente surpreendentes. A Sinfonia Wq. 177 é talvez a mais impactante à primeira escuta. Tem um caráter dramático muito forte, com contrastes abruptos, nervosos — típico do espírito Sturm und Drang. O primeiro movimento já cria uma tensão inquieta, e a obra inteira soa como algo à beira de explodir. A Sinfonia Wq. 182/1 é outra joia. O que chama atenção aqui é a liberdade formal e a energia: o Presto final é vibrante, quase imprevisível, enquanto o movimento lento tem uma beleza suspensa, cheia de nuances. Já a Sinfonia Wq. 182/5 tem um clima mais sombrio e introspectivo. O contraste entre o Larghetto (muito expressivo, quase melancólico) e o Presto final cria um efeito dramático bem marcante. Ah, também vale a pena destacar a Sinfonia Wq. 182/4, especialmente pelo movimento lento (Largo ed innocentemente), que é de uma delicadeza quase mozartiana — mas com aquela estranheza harmônica típica de C.P.E. Bach. Essa música parece apenas elegante na superfície, mas por dentro está cheia de surpresas — como se o século XVIII estivesse começando a perder o equilíbrio.
Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1788): Sinfonias de Berlim a Hamburgo (AKAMUS)
Symphony in C major, Wq. 174 (H. 649)
1 Allegro assai
2 Andante
3 Allegro
Symphony in D major, Wq. 176 (H. 651)
4 Allegro assai
5 Andante
6 Presto
Symphony in E minor, Wq. 177 (H. 652)
7 Allegro assai
8 Andante moderato
9 Allegro
Symphony in G major, Wq. 182/1 (H. 657)
10 Allegro di molto
11 Poco adagio
12 Presto
Symphony in C major, Wq. 182/3 (H. 659)
13 Allegro assai
14 Adagio
15 Allegretto
Symphony in A major, Wq. 182/4 (H. 660)
16 Allegro ma non troppo
17 Largo ed innocentemente
18 Allegro assai
Symphony in B minor, Wq. 182/5 (H. 661)
19 Allegretto
20 Larghetto
21 Presto
Akademie für Alte Musik Berlin (AKAMUS)

PQP


Ótimo disco, muito agradável e de enorme musicalidade. E francês, o que às vezes é um mau sinal, mas não hoje! As três obras que compõem o programa abrangem um século: a Sonata de Franck, na sua transcrição oficialmente aceita para violoncelo, foi retirada da sua popular sonata para violino de 1886. Foi composta como presente de casamento para o violinista Ysaÿe. A interpretação da dupla deste CD é efetivamente fora da curva. Trois Strophes Sur Le Nom De Sacher de Dutilleux foi composta para o aniversário de Paul Sacher e estreada por Rostropovich com o compositor ao piano. A composição estendeu-se ao longo de uma década, tendo começado em 1976. A Sonata para Violoncelo de Poulenc foi dedicada a Pierre Fournier e concluída em 1948. É uma obra fascinante, embora nada famosa. Trata-se de uma peça de maturidade, cheia da graça, da melancolia e das mudanças de humor súbitas que caracterizam Poulenc. Merece ser descoberta.
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Eu sou exagerado, então, acho o Concerto Nº 1 uma obra-prima e o segundo bem ruinzinho, mas vou tentar me acalmar.

Um lindo disco! Poderia ouvir mil vezes sem cansar.
Brahms + Pollini + Abbado + Filarmônica de Berlim, querem mais? Difícil. O Concerto para Piano Nº 2 de Brahms é, talvez, a mais monumental síntese entre o piano e a orquestra em todo o romantismo. Escrito em quatro movimentos — e não três como de costume —, ele não se esquiva da herança sinfônica: caindo em lugar comum, digo que o piano dialoga com a orquestra de igual para igual, sem jamais cair no virtuosismo oco. O primeiro movimento é uma paulada bem forte, onde o piano constrói acordes maciços e melodias que parecem pesar sobre os ombros do mundo. O segundo movimento, um scherzo feroz e cortante, revela um Brahms nervoso, dramático, poucas vezes tão agressivo. No terceiro, porém, tudo se aquieta: é um Andante de beleza melancólica, com um violoncelo solista que canta uma canção de amor serena e contida, como uma memória que se despede sem pressa. E o finale, saltitante e “húngaro”, encerra a obra com uma alegria cuidadosa, que não esquece as sombras anteriores mas escolhe dançar sobre elas. Ouvindo esse concerto, percebe-se que Brahms não escreveu uma peça de concerto no sentido usual — ele escreveu uma sinfonia com piano obbligato, uma sinfonia privada que exige do solista não apenas dedos, mas uma alma inteira.




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Uma gravação muito, mas muito boa! Os últimos três Quartetos do Op. 18, escritos entre 1798 e 1800, mostram Beethoven se despedindo do classicismo de Haydn e Mozart para ensaiar seus primeiros gestos de, digamos, rebeldia. O Quarteto Nº 4 é o mais tempestuoso do conjunto. Ele pulsa com a urgência dramática e os contrastes bruscos que antecipam o Beethoven maduro. O segundo movimento, um scherzo nervoso e sincopado, parece menos uma dança e mais um tique nervoso… Já o Nº 5 funciona como uma pausa luminosa. Seu primeiro movimento é gracioso e arioso, quase mozartiano — o tema do minueto já carrega um sotaque campestre e a voz tipicamente beethoveniana. O destaque vem do movimento lento, um conjunto de variações sobre uma melodia melancólica que ganha contornos de ária trágica, intercalada por súbitos lampejos de furor. Por fim, o Nº 6 fecha o opus com um enigma. O quarteto é conhecido pelo final, intitulado “La Malinconia” (A Melancolia). Beethoven introduz um adagio lento e arrastado, cheio de pausas e harmonias dissonantes que parecem suspensas no ar, e então, sem aviso, irrompe em uma alegre dança vienense. É como se a melancolia fosse a sombra inevitável da leveza. Com esses quartetos, Beethoven prova que já dominava a forma herdada dos mestres, mas seu temperamento inquieto — e uma certa tristeza — já começava a rachar a moldura clássica por dentro.
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Os seis quartetos de cordas do Op. 18 representam a primeira grande abordagem de Beethoven a uma forma que Haydn e Mozart haviam levado à perfeição. Publicados em 1801 mas compostos ao longo de vários anos, esses quartetos ainda respiram o ar do classicismo vienense, porém com uma tensão muscular e um ímpeto dramático que já anunciam o homem de Bonn. Os três primeiros quartetos, numerados de 1 a 3, são particularmente fascinantes por revelarem um compositor praticando as regras enquanto testa suas fronteiras. O Quarteto número 1, talvez o mais direto do conjunto, abre com uma elegância quase haydniana, mas logo exibe surpresas rítmicas e ousadias harmônicas que nenhum mestre do período teria se permitido. O segundo é um compêndio de contrastes: o primeiro movimento dança com graça, enquanto o Adagio cantabile e sonhador parece antecipar a languidez de Chopin. Já o terceiro quarteto, guarda no seu coração um movimento lento de beleza comovente e sombria, quase operística, como se Beethoven já ensaiasse as lágrimas que mais tarde vertaria nos quartetos finais. O que une os três é a clareza da escrita e o respeito pela conversa entre os quatro instrumentos – vozes que se interrompem, se imitam, se abraçam. Não há ainda o Beethoven fraturado dos quartetos tardios, mas há um jovem mestre que, ao herdar uma forma, já a empurra para o abismo. Essas obras respiram a liberdade recém-conquistada do compositor que se despede do século dezoito. E ao ouvi-las, imaginamos um Beethoven que sorri enquanto dobra a meta.











Excelente CD de Ehnes tocando as Sonatas de Bach para Violino e Cravo. Ehnes é quase sempre brilhante, quando não é, é corretíssimo. Toca demais. As Sonatas para Violino e Cravo de 
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![Jason Vieaux: Seville, The Music of Isaac Albeniz & Play – [Dose Dupla] ֎֎](https://pqpbach.ars.blog.br/wp-content/uploads/2026/04/lohkte993dqe1-2.jpeg)









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Um bom e curioso CD. Cole Porter, George Gershwin – Canções, Versões é um projeto do letrista Carlos Rennó, reunindo pela primeira vez em disco um conjunto de seus trabalhos como autor de versões. Tudo é muito bom e as soluções encontrdas por Rennó são sempre brilhantes. Ele apresenta uma seleção de catorze canções — soberbamente interpretadas — dos dois grandes compositores da era clássica da canção americana – sete de cada. O repertório reúne canções dos anos 20 aos 40 que Cole Porter (1891 – 1962) e George (1898 – 1937) e Ira Gershwin (1896 – 1983) compuseram para musicais da Broadway ou Hollywood. A lista de cantores ao lado já dá o tom da qualidade dos caras.
Aproveito que presenteei vocês no Natal com Sivuca para presenteá-los novamente com uma pérola discográfica do sanfoneiro paraibano.
Severino Dias de Oliveira, vulgo Sivuca (1930-2006), está na história da música brasileira por ter sido um de seus maiores acordeonistas – no Nordeste, diga-se sanfoneiros. Com isso se pensa que ele só compôs forrós e mesmo no Nordeste é difícil para os fãs do apontar outro sucesso de Sivuca que não seja Feira de mangaio (e ainda assim, muitos não sabem o nome da música), porém sua discografia se situa entre as mais ricas dentre os músicos nordestinos e seu catálogo abrange frevos, choros, jazz, canções e outros gêneros.
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