IM-PER-DÍ-VEL !!!
Esta gravação de András Schiff das Klavierstücke de Brahms, lançada pela ECM, é uma das interpretações mais reveladoras dos últimos anos das obras pianísticas tardias do compositor. O disco foi escolhido como “Editor’s Choice” pela Gramophone em outubro de 2026. Seu traço central: Schiff utiliza um piano histórico Blüthner de 1859 — que é utilizado exclusivamente por Schiff) para revelar, com transparência camerística e uma suavidade quase silenciosa, o lado frágil, íntimo e quase moderno da música tardia de Brahms. O CD duplo foi lançado pela ECM New Series e gravado em março de 2021. Ele já havia usado o mesmo instrumento ao gravar os concertos para piano de Brahms. Uma referência recorrente na crítica é a famosa descrição de Arthur Rubinstein dessas obras — “música de câmara escrita para um pianista solista”. Schiff leva essa ideia ao extremo. Schiff faz as vozes dialogarem entre si de maneira extraordinariamente destacada. É música de câmara entre dez dedos: aqui uma frase cantável, ali um comentário no baixo, ou uma linha intermediária inesperada — tecida com delicadeza em um diálogo terno. A melodia realmente “canta”, e a textura ganha uma transparência rara. O timbre do Blüthner é o aspecto mais controverso e singular do álbum duplo. A Gramophone o descreve como “suave, podendo-se dizer até bolorento” (mellow and arguably musty), mas a distinção tímbrica entre as diferentes regiões traz “uma rica variedade de cores”. O próprio Schiff compara a sequência de cores dessas “peças outonais” de Brahms à pintura Ancient Sound, de Paul Klee. Esta gravação das Klavierstücke de Brahms representa uma posição interpretativa específica: recusar a romantização ou a monumentalização do Brahms tardio e reduzi-lo a um monólogo interior privado, frágil, à beira do silêncio. Um grande disco!
Johannes Brahms (1833-1897): Klavierstücke (Peças para piano) — András Schiff
1-1 Albumblatt (Allegro Con Espressione) 2:04
Klavierstücke Op. 76
1-2 Capriccio (Un Poco Agitato) 3:23
1-3 Capriccio (Allegretto Non Troppo) 3:41
1-4 Intermezzo (Grazioso) 2:05
1-5 Intermezzo (Allegretto Grazioso) 1:56
1-6 Capriccio (Agitato, Ma Non Troppo Presto) 3:23
1-7 Intermezzo (Andante Con Moto) 3:14
1-8 Intermezzo (Moderato Semplice) 3:04
1-9 Capriccio (Grazioso Ed Un Poco Vivace) 3:31
Fantasien Op. 116
1-10 Capriccio (Presto Energico) 2:39
1-11 Intermezzo (Andante) 3:27
1-12 Capriccio (Allegro Passionato) 3:22
1-13 Intermezzo (Adagio) 4:12
1-14 Intermezzo (Andante Con Grazia Ed Intimissimo Sentimento) 2:43
1-15 Intermezzo (Andantino Teneramente) 2:54
1-16 Capriccio (Allegro Agitato) 2:58
Intermezzi Op. 117
2-1 Intermezzo (Andante Moderato) 4:05
2-2 Intermezzo (Andante Non Troppo E Con Molta Espressione) 4:25
2-3 Intermezzo (Andante Con Moto) 6:02
Klavierstücke Op. 118
2-4 Intermezzo (Allegro Non Assai, Ma Molto Appassionato) 1:50
2-5 Intermezzo (Andante Teneramente) 4:38
2-6 Ballade (Adagio Energico) 3:34
2-7 Intermezzo (Allegretto Un Poco Agitato) 2:52
2-8 Romanze (Andante – Allegretto Grazioso) 3:30
2-9 Intermezzo (Andante, Largo E Mesto) 5:04
Klavierstücke Op. 119
2-10 Intermezzo (Adagio) 3:39
2-11 Intermezzo (Andantino Un Poco Agitato) 4:41
2-12 Intermezzo (Grazioso E Giocoso) 1:52
2-13 Rhapsodie (Allegro Risoluto) 5:29
András Schiff, piano

PQP











Esse CD duplo com a Sinfônica de Londres regida por Kent Nagano é a mais sensacional incursão de Frank Zappa na música erudita. As obras de Zappa em questão talvez apresentem a orquestração mais complexa e colorida desde Ravel – e são nitidamente experimentais (estrutura zero, ou perto disso, e brainstorm dez). Apesar de intrincadas, os músicos desdenharam delas durante as gravações, como se o roqueiro não soubesse o que estava escrevendo. Mesmo assim, você releva numa boa os eventuais erros de execução (eu mesmo não os encontro – procurá-los mataria o prazer que sinto com essas peças).
IM-PER-DÍ-VEL !!!



IM-PER-DÍ-VEL !!!


Esta é uma gravação bem convincente, na qual John Butt e o Dunedin Consort demonstram o “parentesco musical” entre Mozart e C. P. E. Bach. O disco utiliza uma nova edição para completar as partes faltantes da Große Messe de Mozart, e a acopla ao Heilig ist Gott de CPE Bach — obra que muito provavelmente inspirou diretamente a escrita para coro duplo de Mozart. Justapor as duas peças devolve a uma obra conhecida um novo contexto histórico. A escolha da versão do K. 427 é o primeiro valor deste disco. Butt adota a nova edição de Clemens Kemme (Breitkopf & Härtel, 2018), cujo princípio é usar apenas a música que Mozart de fato escreveu para esta missa, sem reconstruções externas, apenas ajustes de instrumentação e detalhes vocais conforme a prática histórica. Kemme observa que o Heilig ist Gott de C. P. E. Bach é “a mais importante obra para coro duplo” no período em que Mozart compôs o K. 427, e que seus ecos de fuga podem seguramente ser ouvidos no Gloria mozartiano. Portanto, reunir as duas obras no mesmo disco não é uma justaposição casual, mas uma arqueologia musical deliberada. Butt mantém um efetivo pequeno: cerca de 16 a 18 cantores e aproximadamente oito violinos. Isso produz, nos trechos de fuga para coro duplo, uma transparência das linhas contrapontísticas difícil de ouvir em execuções de grande efetivo. Heilig ist Gott (Wq 217 / H 778) foi escrito por volta de 1776 e, após sua publicação em 1779, tornou-se rapidamente um modelo do “sublime musical”. Está repleto dos típicos silêncios súbitos, modulações selvagens e experimentos harmônicos estranhos de C. P. E. Bach. O grupo de Butt faz provavelmente apresentou a melhor interpretação já feita desta obra.

Este disco traz nove das doze Fantasias para Viola da Gamba de Telemann, na interpretação do gambista finlandês Markus Kuikka. O contexto da gravação é inseparável da história do próprio repertório: a coleção completa foi considerada perdida por mais de 300 anos, até que uma cópia sobrevivente foi descoberta em 2015 na biblioteca privada do Castelo de Ledenburg, no norte da Alemanha. Kuikka tocou as fantasias pela primeira vez em 2017, coincidindo com os 250 anos da morte de Telemann, e descreve a experiência como análoga à de estrear obras recém-compostas — tamanha a novidade que a música lhe parecia ter. Telemann escreveu estas fantasias em 1735, demonstrando um conhecimento íntimo das possibilidades da viola da gamba. Cada fantasia é composta por três ou quatro movimentos em estilo de sonata, mas com um caráter improvisado torna-as difíceis de classificar. As fantasias de Telemann lembram suas fantasias para violino. Kuikka parece apreciar a leve aspereza do registro agudo ainda mais do que o grave do instrumento — ele gosta do ronco da cuíca, naturalmente. Nos movimentos rápidos, ele evita a pressa, criando dramaticidade por outros meios que não a mera velocidade; nos lentos, deixa a meditação tomar conta. A gravação de Kuikka oferece uma porta de entrada para um repertório que, até poucos anos atrás, era praticamente inacessível. A combinação do frescor da descoberta com a maturidade interpretativa de um gambista que conhece o instrumento a fundo, resulta numa leitura que faz jus à riqueza dessas páginas redescobertas. Para quem se interessa pela viola da gamba ou pelo barroco tardio alemão, é uma gravação que vale conhecer.
Este lançamento em dois CDs registra ao vivo a integral das quatro sinfonias de Johannes Brahms (1833–1897), interpretadas pela Orquestra da Ópera de Zurique sob a regência de Gianandrea Noseda. Gravadas durante concertos na Ópera de Zurique, as performances capturam a energia e a espontaneidade do palco, documentando um momento em que Noseda voltou sua atenção para o universo sinfônico de Brahms após uma aclamada interpretação do Réquiem Alemão. Compostas entre 1876 e 1885, as quatro sinfonias representam um dos pontos culminantes do romantismo orquestral, conciliando o rigor formal herdado da tradição clássica com uma intensidade expressiva profunda. A interpretação de Noseda tem vigor dramático, clareza estrutural e lirismo. O resultado é uma leitura que destaca os múltiplos planos sonoros da escrita de Brahms, os detalhes das intervenções solistas e o grande arco arquitetônico que une as quatro obras. A abordagem de Noseda é fluida e dionisíaca. Um crítico observou que, ao final de uma apresentação da Segunda Sinfonia, Noseda fechou a partitura e a beijou — um gesto que simboliza a identificação profunda entre intérprete e obra. A Orquestra da Ópera de Zurique não é uma formação operística de alto nível. Essa origem confere às performances um caráter particular: há uma atenção ao detalhe teatral, uma sensibilidade ao fraseado como se fosse canto. Vale notar que Noseda já havia gravado uma integral das sinfonias de Brahms antes, também registrada ao vivo. Então, para quem busca uma integral das sinfonias de Brahms que una clareza estrutural a uma energia concertante genuína, esta gravação de Noseda com a Orquestra da Ópera de Zurique oferece uma leitura que se insere com destaque na vasta discografia dedicada ao compositor. É uma documentação de um maestro em plena maturidade interpretativa, dialogando com um repertório central da tradição sinfônica.




IM-PER-DÍ-VEL !!!
Este é um CD apenas OK, nada mais. A ideia foi boa, mas a escolha das árias parece ter passado por cima do conceito de beleza para abraçar outros critérios. O critério comercial? Sei lá. Como filho de Bach, tenho coleções de árias na minha cabeça e acho que este CD apenas acertou em 50% das tentativas. Ah, o disco é uma seleção de árias de Cantatas e Paixões que incluem voz e violino, certo? Pois é como ia dizendo, há dezenas delas, mas a escolha foi assim assim. Quem rouba o disco é o sensacional Matthias Goerne, que é um barítono alemão realmente maravilhoso. Já Christine Schafer é apenas aceitável. Não curti muito a cantora. Acho que foi isso. Paciência.
IM-PER-DÍ-VEL !!!

IM-PER-DÍ-VEL !!! (Apesar do romantismo todo da coisa).

IM-PER-DÍ-VEL !!!![Johannes Brahms (1833 – 1897): Peças para Piano – Anna Vinnitskaya [α] & Anna Fedorova [Channel Classics] – [Dose Dupla] ֎֎](https://pqpbach.ars.blog.br/wp-content/uploads/2026/09/cover-960x482.png)








![Robert Schumann (1810 – 1856): Sinfonias – Los Angels Philharmonic Orchestra & Gustavo Dudamel [Platoon] ֎](https://pqpbach.ars.blog.br/wp-content/uploads/2026/09/Dudamel-960x640.jpg)








