Depois de muito tempo sem postar aqui no blog, tentando dar conta dessa coisa chamada vida adulta, voltei com algo que pra mim é puro deleite, aberturas de Gioachino Rossini (1792-1868)!
Ô, coisa boa que são essas pecinhas. Gosto de ouvir aberturas como gosto de ler contos, tem uma vida inteira ali, mil vidas, glórias, quedas, humor, drama, tudo. É realmente notável como elas funcionam tanto de forma autônoma, esses pequenos universos sonoros, como também desempenhando sua função primordial que é, afinal, abrir a ópera, criando um clima, uma ambientação, desenhando alguns contornos do caráter da ação que vai se desenrolar no palco.

Impossível, pra mim, escutar Rossini sem lembrar o meu pai, que tinha verdadeira paixão por essas obras. Música que realmente faz maravilhas pelo meu humor e pelo meu estado de espírito.
No “lado B” do disco, abertura e trechos orquestrais de “Carmen”, a famosíssima ópera de Georges Bizet (1838-1875). Francamente, não é música que me interesse taaanto assim, mas ninguém tem nada com isso, e está tão lindamente tocado, que ouvi com agradável deleite enquanto escrevia este post.
Aliás, esse é o grande tchans desse disco na minha opinião: a maravilhosa RIAS-Symphonie-Orchester Berlin, depois Radio-Symphonie-Orchester Berlin, hoje Deutsches-Symphonie-Orchester Berlin, e a Filarmônica de Berlim, dirigidas pelo gigante Ferenc Fricsay (1914-1963). Sempre admirei esse brilhante músico, e ultimamente tem se tornado uma quase obsessão, então devo trazer mais discos dele por aqui.
Sem mais delongas, a Rossini!
Gioachino Rossini
Overtures
1 – La Scala di seta
2 – Semiramide
3 – Il signor Bruschino
4 – L’italiana in Algeri
5 – Tancredi
6 – La gazza ladra
7 – Il barbiere di Siviglia
8 – Il viaggio a Reims
Georges Bizet
Carmen (trechos)
9 – Prélude 1
10 – Entracte I
11 – Entracte II
12 – Entracte III
Ballet music from Act IV:
13 – Farandole
14 – Pastorale
15 – Danse bohémienne
16 – Marche
RIAS-Symphonie-Orchester Berlin (2, 3, 5-16)
Berliner Philharmoniker (1, 4)
RIAS Kammerchor (14)
Ferenc Fricsay, regência

Karlheinz



Esse CD duplo com a Sinfônica de Londres regida por Kent Nagano é a mais sensacional incursão de Frank Zappa na música erudita. As obras de Zappa em questão talvez apresentem a orquestração mais complexa e colorida desde Ravel – e são nitidamente experimentais (estrutura zero, ou perto disso, e brainstorm dez). Apesar de intrincadas, os músicos desdenharam delas durante as gravações, como se o roqueiro não soubesse o que estava escrevendo. Mesmo assim, você releva numa boa os eventuais erros de execução (eu mesmo não os encontro – procurá-los mataria o prazer que sinto com essas peças).
IM-PER-DÍ-VEL !!!



IM-PER-DÍ-VEL !!!


Esta é uma gravação bem convincente, na qual John Butt e o Dunedin Consort demonstram o “parentesco musical” entre Mozart e C. P. E. Bach. O disco utiliza uma nova edição para completar as partes faltantes da Große Messe de Mozart, e a acopla ao Heilig ist Gott de CPE Bach — obra que muito provavelmente inspirou diretamente a escrita para coro duplo de Mozart. Justapor as duas peças devolve a uma obra conhecida um novo contexto histórico. A escolha da versão do K. 427 é o primeiro valor deste disco. Butt adota a nova edição de Clemens Kemme (Breitkopf & Härtel, 2018), cujo princípio é usar apenas a música que Mozart de fato escreveu para esta missa, sem reconstruções externas, apenas ajustes de instrumentação e detalhes vocais conforme a prática histórica. Kemme observa que o Heilig ist Gott de C. P. E. Bach é “a mais importante obra para coro duplo” no período em que Mozart compôs o K. 427, e que seus ecos de fuga podem seguramente ser ouvidos no Gloria mozartiano. Portanto, reunir as duas obras no mesmo disco não é uma justaposição casual, mas uma arqueologia musical deliberada. Butt mantém um efetivo pequeno: cerca de 16 a 18 cantores e aproximadamente oito violinos. Isso produz, nos trechos de fuga para coro duplo, uma transparência das linhas contrapontísticas difícil de ouvir em execuções de grande efetivo. Heilig ist Gott (Wq 217 / H 778) foi escrito por volta de 1776 e, após sua publicação em 1779, tornou-se rapidamente um modelo do “sublime musical”. Está repleto dos típicos silêncios súbitos, modulações selvagens e experimentos harmônicos estranhos de C. P. E. Bach. O grupo de Butt faz provavelmente apresentou a melhor interpretação já feita desta obra.

Este disco traz nove das doze Fantasias para Viola da Gamba de Telemann, na interpretação do gambista finlandês Markus Kuikka. O contexto da gravação é inseparável da história do próprio repertório: a coleção completa foi considerada perdida por mais de 300 anos, até que uma cópia sobrevivente foi descoberta em 2015 na biblioteca privada do Castelo de Ledenburg, no norte da Alemanha. Kuikka tocou as fantasias pela primeira vez em 2017, coincidindo com os 250 anos da morte de Telemann, e descreve a experiência como análoga à de estrear obras recém-compostas — tamanha a novidade que a música lhe parecia ter. Telemann escreveu estas fantasias em 1735, demonstrando um conhecimento íntimo das possibilidades da viola da gamba. Cada fantasia é composta por três ou quatro movimentos em estilo de sonata, mas com um caráter improvisado torna-as difíceis de classificar. As fantasias de Telemann lembram suas fantasias para violino. Kuikka parece apreciar a leve aspereza do registro agudo ainda mais do que o grave do instrumento — ele gosta do ronco da cuíca, naturalmente. Nos movimentos rápidos, ele evita a pressa, criando dramaticidade por outros meios que não a mera velocidade; nos lentos, deixa a meditação tomar conta. A gravação de Kuikka oferece uma porta de entrada para um repertório que, até poucos anos atrás, era praticamente inacessível. A combinação do frescor da descoberta com a maturidade interpretativa de um gambista que conhece o instrumento a fundo, resulta numa leitura que faz jus à riqueza dessas páginas redescobertas. Para quem se interessa pela viola da gamba ou pelo barroco tardio alemão, é uma gravação que vale conhecer.
Este lançamento em dois CDs registra ao vivo a integral das quatro sinfonias de Johannes Brahms (1833–1897), interpretadas pela Orquestra da Ópera de Zurique sob a regência de Gianandrea Noseda. Gravadas durante concertos na Ópera de Zurique, as performances capturam a energia e a espontaneidade do palco, documentando um momento em que Noseda voltou sua atenção para o universo sinfônico de Brahms após uma aclamada interpretação do Réquiem Alemão. Compostas entre 1876 e 1885, as quatro sinfonias representam um dos pontos culminantes do romantismo orquestral, conciliando o rigor formal herdado da tradição clássica com uma intensidade expressiva profunda. A interpretação de Noseda tem vigor dramático, clareza estrutural e lirismo. O resultado é uma leitura que destaca os múltiplos planos sonoros da escrita de Brahms, os detalhes das intervenções solistas e o grande arco arquitetônico que une as quatro obras. A abordagem de Noseda é fluida e dionisíaca. Um crítico observou que, ao final de uma apresentação da Segunda Sinfonia, Noseda fechou a partitura e a beijou — um gesto que simboliza a identificação profunda entre intérprete e obra. A Orquestra da Ópera de Zurique não é uma formação operística de alto nível. Essa origem confere às performances um caráter particular: há uma atenção ao detalhe teatral, uma sensibilidade ao fraseado como se fosse canto. Vale notar que Noseda já havia gravado uma integral das sinfonias de Brahms antes, também registrada ao vivo. Então, para quem busca uma integral das sinfonias de Brahms que una clareza estrutural a uma energia concertante genuína, esta gravação de Noseda com a Orquestra da Ópera de Zurique oferece uma leitura que se insere com destaque na vasta discografia dedicada ao compositor. É uma documentação de um maestro em plena maturidade interpretativa, dialogando com um repertório central da tradição sinfônica.




IM-PER-DÍ-VEL !!!
Este é um CD apenas OK, nada mais. A ideia foi boa, mas a escolha das árias parece ter passado por cima do conceito de beleza para abraçar outros critérios. O critério comercial? Sei lá. Como filho de Bach, tenho coleções de árias na minha cabeça e acho que este CD apenas acertou em 50% das tentativas. Ah, o disco é uma seleção de árias de Cantatas e Paixões que incluem voz e violino, certo? Pois é como ia dizendo, há dezenas delas, mas a escolha foi assim assim. Quem rouba o disco é o sensacional Matthias Goerne, que é um barítono alemão realmente maravilhoso. Já Christine Schafer é apenas aceitável. Não curti muito a cantora. Acho que foi isso. Paciência.
IM-PER-DÍ-VEL !!!

IM-PER-DÍ-VEL !!! (Apesar do romantismo todo da coisa).

IM-PER-DÍ-VEL !!!![Johannes Brahms (1833 – 1897): Peças para Piano – Anna Vinnitskaya [α] & Anna Fedorova [Channel Classics] – [Dose Dupla] ֎֎](https://pqpbach.ars.blog.br/wp-content/uploads/2026/09/cover-960x482.png)








![Robert Schumann (1810 – 1856): Sinfonias – Los Angels Philharmonic Orchestra & Gustavo Dudamel [Platoon] ֎](https://pqpbach.ars.blog.br/wp-content/uploads/2026/09/Dudamel-960x640.jpg)









A gravação do Réquiem de Mozart pelo Dunedin Consort sob a direção de John Butt, não é apenas mais uma versão da obra mais enigmática do repertório mozartiano. É uma reconstrução histórica que propõe ouvir o Réquiem como ele soava na sua primeira performance completa, em Viena, em 1793 — e o resultado é uma experiência que desafia décadas de tradição interpretativa. O ponto de partida de Butt é uma defesa de Franz Xaver Süssmayr, tão criticado desde o século XX. Enquanto a maioria das gravações recentes se baseia em novas versões da obra, Butt retorna à edição de David Black da versão de Süssmayr, argumentando que, apesar de suas fraquezas, foi ele quem conheceu Mozart e cuja versão dominou a história da obra por dois séculos. O resultado é uma performance que “reabilita Süssmayr” e “se aproxima muito mais do que Mozart fez”. A escolha mais radical é o efetivo reduzido: um coro de apenas 16 vozes, com os quatro solistas (Joanne Lunn, Rowan Hellier, Thomas Hobbs e Matthew Brook) emergindo do próprio coro, em vez de serem tratados como entidades separadas. A orquestra conta com cerca de 30 instrumentistas, incluindo um fortepiano no contínuo, em vez do órgão usual. Essa configuração, longe de enfraquecer a obra, revela detalhes contrapontísticos que normalmente se perdem em massas corais maiores. A revista Gramophone descreveu a textura como “quase granular”, com cada voz fazendo sua contribuição distinta. Boa versão, é interessante, mas não me apaixonei. Ainda ficamos com Celibidache.

Uma leitura solar e lírica da Sétima de Bruckner, que troca a solenidade austro-alemã por clareza e pulso. O traço mais marcante é a recusa do peso monumental. Rattle já havia gravado a Sétima em 1997, mas aqui ele acelera e alivia a textura. O primeiro movimento flui lírico em vez de pesado. O Adagio — o memorial para Wagner — é direto e sóbrio. O Scherzo é um dia de primavera, com os metais da LSO mandando bala. E o Finale, na visão otimista de Rattle, soa mais catártico do que os de outros rivais. A Diapason descreve essa abordagem como “uma versão aliviada e arejada”, com cordas de pianíssimos e um Bruckner que se desprende das tradições espiritualistas austro-alemãs. Em resumo, esta não é uma Sétima para quem busca a solenidade de Karajan ou Jochum. É uma leitura que confia na beleza estrutural da partitura e no brilho da LSO para oferecer um Bruckner claro, vibrante e afirmativo. Se você se cansou das versões pesadas, esta pode ser uma revelação.
O Concerto para Violino de Britten foi chamado por Heifetz de “impossível de tocar”, tamanha sua dificuldade técnica. Eu o amo perdidamente, principalmente o primeiro movimento. Steinbacher não foge da aspereza e da agressividade da partitura. Um crítico admitiu que, à primeira escuta, a interpretação soa “confusa, barulhenta, intensa” — mas é justamente esse caráter combativo que faz o ouvinte querer voltar. Na tensão entre “belo” e “bruto”, o que está latente na música de Britten ganha relevo. Destaque para a longa cadenza do segundo movimento e a passacaglia final. E para o primeiro movimento inteiro. Para tudo, na verdade.
Imaginemos que Lizzio existiu. Não o maestro de carne e osso que posou para as capas de selos econômicos nos anos oitenta, mas um verdadeiro regente italiano, nascido em Merano numa primavera de 1926, formado em Milão entre violino, composição e batuta, com uma biografia que incluía um casamento, a perda trágica de um filho num acidente de automóvel em 1980 e uma morte discreta em Dresden, em outubro de 1999. Imaginemos que esse Lizzio, com essa vida inteira por trás, entrou em estúdio para gravar Mozart com a Mozart Festival Orchestra e os solistas Peter Jancovic na flauta e Renata Modron na harpa. O resultado, editado originalmente pela Pilz e depois circulando por selos como Digital Concerto e Point Classics, é um disco que reúne três obras nas quais Mozart, com maior ou menor entusiasmo, escreveu para a flauta.

O disco que reúne Pinchas Zukerman interpretando Beethoven e Haydn é um registro lançado originalmente em 1977 pela DG. Nele, Zukerman aparece em duas funções distintas, o que por si só já faz do álbum uma peça interessante para quem acompanha sua trajetória. No Concerto para Violino, Op. 61, de Beethoven, ele atua como solista, acompanhado pela Orquestra Sinfônica de Chicago sob a regência de Daniel Barenboim, adotando a cadência de Fritz Kreisler. Já na Sinfonia Concertante, Hob. I:105, de Haydn, Zukerman deixa o violino e assume a regência da Filarmônica de Los Angeles, tendo como solistas Ronald Leonhard no violoncelo, Barbara Winters no oboé e David Breidenthal no fagote. As gravações foram realizadas em março de 1977, em Chicago e Los Angeles, respectivamente.