Eu sou exagerado, então, acho o Concerto Nº 1 uma obra-prima e o segundo bem ruinzinho, mas vou tentar me acalmar.
Calma, PQP.
Os dois Concertos para Violino de Shostakovich parecem obras de mundos diferentes. O Nº 1, Op. 77, é sombrio, tenso, de grande força trágica — sobretudo na Passacaglia e na cadência, que parecem escavar até o fundo da experiência humana. Já o Nº 2, Op. 129, é seco e enigmático, de menos impacto imediato. Gostaram? Afinal, chamá-lo de “ruinzinho” talvez seja um pouco injusto — o segundo concerto não busca o mesmo efeito monumental do primeiro. Ele é mais tardio, mais contido, quase uma música de câmara ampliada, cheia de ironias discretas… Soa menos arrebatador, oferecendo, em vez de drama aberto, uma reflexão mais rarefeita, quase crepuscular, quase burra… O CD vale pelo PRIMEIRO CONCERTO!
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Concertos para Violino Nº 1 e 2 (Pochekin, Russian National Orchestra, Uryupin)
Violin Concerto No. 1 In A Minor Op. 77
1 I Nocturne (Moderato – Meno Mosso – Tempo I) 11:35
2 II Scherzo (Allegro – Poco Più Mosso – Allegro – Poco Più Mosso) 6:37
3 III Passacaglia (Andante) – Cadenza 13:54
4 IV Burlesque (Allegro Con Brio – Presto) 5:02
Violin Concerto No. 2 In C Sharp Minor Op. 129
5 I Moderato 13:13
6 II Adagio 10:46
7 III. Adagio. Allegro 9:29
Conductor – Valentin Uryupin
Orchestra – Russian National Orchestra
Violin – Ivan Pochekin
Um lindo disco! Poderia ouvir mil vezes sem cansar.
Carl Philipp Emanuel Bach escreve fantasias como monólogos de um romântico antes do romantismo: fraturas súbitas de andamento, pausas eloquentes, silêncios que dizem mais do que as notas e uma impetuosidade que parecia, para os contemporâneos, quase de mau gosto. Onde o pai construía catedrais, o filho improvisava poemas em prosa. As Fantasias de C.P.E. Bach são feitas de gestos bruscos e confidentes: acordes que suspendem o tempo, recitativos ao piano, quedas para o nada, retomadas furiosas.
Na Fantasia e Fuga Cromática, o velho Bach antecipa o futuro sem saber: as cadências ousadas e os cromatismos febris que abrem a fantasia parecem romper não apenas as regras do contraponto, mas o próprio tecido barroco. A fuga que se segue é um prodígio de disciplina, mas de uma disciplina trêmula. Ele foge, hesita, suspira. A obra toda respira aquele paradoxo bachiano: a máxima liberdade expressiva contida pela arquitetura mais rigorosa.
A diferença entre a Fantasia e Fuga Cromática de Johann Sebastian e as Fantasias de Carl Philipp Emanuel é a diferença entre um visionário que ainda acredita na ordem e um herdeiro que só acredita na crise. O pai solta a razão no limite do abismo e a reconduz para casa com uma fuga. O filho empurra o abismo para dentro da sala e recusa a mobília da época. J.S. Bach faz uma fantasia que parece improvisada, mas é arquitetura pura. C.P.E. Bach faz fantasias que parecem arquitetura, mas são improviso puro. Ambos estão à beira do colapso.
Sonata In F Minor, Wq. 63/6 (H. 75)
1 I. Allegro Di Molto
2 II. Adagio Affettuoso
3 III. Fantasia
Fantasia And Fugue In C Minor, Wq.119/7 (H.75.5)
4 I. Fantasia
5 II. Fugue
6 Fantasia In D Major, Wq.117/14 (H.160)
7 Fantasia in G Minor, Wq.117/13 (H.225)
8 Fantasia in E-Flat Major, Wq. Deest (H.348)
Fantasia in D Minor, Wq. Deest (H.349)
9 I. Fantasia
10 II. Fugue
Chromatic Fantasia And Fugue In D Minor, VWC 903
Composed By – Johann Sebastian Bach
11 I. Fantasia
12 II. Fugue
13 Rondo In E Minor, Abschied von Meinem Silbermannischen Claviere, Wq.66 (H.272)
14 Fantasia In F-Sharp Minor, C.P.E. Bachs Empfindungen, Wq.67 (H.300)
Brahms + Pollini + Abbado + Filarmônica de Berlim, querem mais? Difícil. O Concerto para Piano Nº 2 de Brahms é, talvez, a mais monumental síntese entre o piano e a orquestra em todo o romantismo. Escrito em quatro movimentos — e não três como de costume —, ele não se esquiva da herança sinfônica: caindo em lugar comum, digo que o piano dialoga com a orquestra de igual para igual, sem jamais cair no virtuosismo oco. O primeiro movimento é uma paulada bem forte, onde o piano constrói acordes maciços e melodias que parecem pesar sobre os ombros do mundo. O segundo movimento, um scherzo feroz e cortante, revela um Brahms nervoso, dramático, poucas vezes tão agressivo. No terceiro, porém, tudo se aquieta: é um Andante de beleza melancólica, com um violoncelo solista que canta uma canção de amor serena e contida, como uma memória que se despede sem pressa. E o finale, saltitante e “húngaro”, encerra a obra com uma alegria cuidadosa, que não esquece as sombras anteriores mas escolhe dançar sobre elas. Ouvindo esse concerto, percebe-se que Brahms não escreveu uma peça de concerto no sentido usual — ele escreveu uma sinfonia com piano obbligato, uma sinfonia privada que exige do solista não apenas dedos, mas uma alma inteira.
Johannes Brahms (1833-1897): Concerto para Piano Nº 2 (Pollini, Abbado)
Konzert Für Klavier Und Orchester Nr. 2 B-dur Op. 83
1. Allegro Non Troppo
2. Allegro Appassionato
3. Andante
4. Allegretto Grazioso
Maurizio Pollini, piano
Berliner Philharmoniker
Claudo Abbado
Jazz waltzes were still fairly rare back in 1961, and Paul Chambers’ pedal point intro keeps the meter a mystery during the opening seconds. Cobb is part of the conspiracy, and refuses to signal the downbeat, while Wynton Kelly floats over their throbbing pulse. These opening feints — forty seconds of sweetness and light — are worth the price of admission alone . . . but then Miles enters and shows how he can put his stamp on a song just by playing the melody. His solo is a minimalist canvas, perfectly matched by Kelly’s crisp comping. The swing gets stronger with Mobley’s tenor and during Kelly’s solo, but when Coltrane enters with his “sheets of sound” the temperature in the studio rises at least ten degrees. The handsome prince has arrived on a Harley, ready to burn rubber. But Chambers rushes back like a protective dueña, instilling decorum with his pedal point, and this magical performance makes a complete circle back to its starting point. What a ride! (jazz.com)
Este é um disco que, talvez injustamente, ficou marcado pela faixa-título – onde, como se não bastasse o arranjo brilhante, ainda se ouve dois solos grandiosos de John Coltrane. Someday My Prince Will Come é também um período de trasição para Miles: gravado em três sessões, entre 7 e 21 de março de 1961, marcava a saída de Kind of Blue para um período de diversidade de estilos, até fixar-se nas bandas do fusion ao final daquela década. Se, por um lado, foi brilhante revendo uma valsa, as composições de Miles são, na verdade, o melhor neste álbum. Há cool jazz uptempo em “Pfrancing”, há (um adequadíssimo) blues em “Drad Dog”, e outra show de Trane em “Teo”, homenagem ao produtor e amigo. Exige do ouvinte, apenas, paciência com Hank Mobley; essas faixas seriam as últimas que Coltrane gravaria com Davis, e o “peso-médio” Mobley (nas palavras do All About Jazz), se não compromete, é prejudicado pelo desnível imediato que a assinatura sonora de Coltrane traz quando entra em campo.
Não se pode culpar Mobley, claro.
Quanto à moça da capa, uma curiosidade pessoal antiga, não encontrei nenhuma informação – a não ser que Miles condicionou o lançamento do álbum à obrigatoriedade de sua foto na fronte. Fico imaginando Miles atrás do fotógrafo, talvez um meio sorriso, amarrando com um pouco de autobiografia outro de seus grandes trabalhos. [Pleyel, ao repostar em 2026, copia a informação do comentário do Victor: A moça da capa é a Frances Taylor,segunda esposa do Miles, que dançou West Side Story na Brodway.]
Miles Davis – Someday My Prince Will Come
01 Someday My Prince Will Come (Churchill, Morey) 9’04
02 Old Folks (Robison, Hill) 5’14
03 Pfrancing (Davis) 8’31
04 Drad Dog (Davis) 4’29
05 Teo (Davis) 9’34
06 I Thought About You (Van Heusen, Mercer) 4’53
07 Blues No. 2 (Davis) 7’08
08 Someday My Prince Will Come [alt take] 5’34
Miles Davis: trumpete
Hank Mobley: sax tenor (exceto faixa 5)
John Coltrane: sax tenor (faixas 1 e 5)
Wynton Kelly: piano
Paul Chambers: baixo
Jimmy Cobb: bateria (exceto faixa 7)
Philly Joe Jones: bateria (faixa 7)
Gravado em março de 1961 – New York City, USA
Produzido por Teo Macero para a Columbia
Brouwer tem um grande número de peças para violão solo e concertos para violão e orquestra. Mas as suas obras para trio (violino, violoncelo e piano) também são numerosas a ponto de ocuparem, sozinhas, um CD.
Posicionado com certo ecletismo entre diferentes tendências da música de concerto de sua época, Brouwer dá uns acenos de cabeça para neoclassicismos e temas populares, ao mesmo tempo que tem como fundamentos centrais concepções das vanguardas europeias que buscavam ampliar o leque de possibilidades sonoras. Os modos maior e menor, na música de Brouwer e outros compositores, não estão proibidos, ao mesmo tempo que uma longa e previsível sucessão de acordes de tônica e dominante seria banal demais para ser cogitada.
Isso significa que ouvidos menos acostumados à música contemporânea terão, sim, momentos de desconforto, mas eles não duram tanto tempo assim.
Leo Brouwer:
01 Pictures at another exhibition – I. La jungla (Wifredo Lam)
02 Pictures at another exhibition – II. Nude (Amedeo Modigliani)
03 Pictures at another exhibition – III. The garden of earthly delights (Heronimus Bosch)
04 Pictures at another exhibition – IV. Portrait of Chopin (Eugene Delacroix)
05 Pictures at another exhibition – V. Los desastres de la guerra (Francisco de Goya)
06 Pictures at another exhibition – VI. Pop construction (Robert Rauschenberg)
07 El Triangulo de las Bermudas
08 Manuscrito antiguo encontrado en una botella – I. La palabra amor escrita mil veces
09 Manuscrito antiguo encontrado en una botella – II. Sobre la vida y la muerte
10 Sones y danzones – I. Contradanza sonera
11 Sones y danzones – II. Son de ‘La niña bonita’
12 Sones y danzones – III. Danzon
Recorded 10-13 June 2008, Valencia, Spain
B3: Brouwer Trio
Jenny Guerra, violin (L Widhalm, Nüremberg 1772)
David Apellániz, cello (B Cison, Chicago 2003)
Carlos Apellaniz, piano
O Quarteto Op. 74, conhecido como “das Harpas”, foi composto em 1809, durante os anos em que Napoleão sitiou Viena. A alcunha vem do primeiro movimento: Beethoven cria um efeito de harpa através de pizzicatos que se espalham pelos quatro instrumentos, uma textura leve e mágica que ilumina todo o quarteto. É uma obra de surpreendente serenidade para um período tão conturbado. O movimento lento, um adágio de beleza contida, desenha longas linhas melódicas que parecem flutuar acima da agitação de Donald Trumpo. O Scherzo irrompe com violência rítmica, quase brutal, mas é o finale que impressiona: uma variação com contratempos e síncopes que desafiam o ouvinte a encontrar o tempo, num jogo de desorientação deliciosa. O Op. 74 é Beethoven no meio de sua vida: maduro, contido, mas ainda capaz de explosões de humor e invenção.
Já o Op. 130, composto entre 1825 e 1826, pertence ao território do último Beethoven, onde as regras já foram “flexibilizadas”… A obra tem seis movimentos, uma estrutura inédita, e o primeiro movimento alterna momentos de dança quase ingênua com interjeições violentas. O segundo movimento é um Presto curto e frenético, uma corrida alucinada de dois minutos. O terceiro, um “Andante con moto ma non troppo”, desenha uma melodia simples que vai sendo quebrada e reconstruída a cada repetição. O quarto movimento é uma dança alemã, a Danza tedesca, de uma leveza que parece vir de outro século. Mas é o quinto movimento, a “Cavatina”, que rasga a coração: Beethoven escreveu-a em prantos, segundo testemunhas, e ela é uma página de tal desnudamento emocional que parece parar o tempo. E então vem o finale original, a “Grande Fuga”, um monstro sagrado de contraponto e dissonância que os editores da época pediram que Beethoven deixasse separado. Hoje sabemos que a Fuga é uma das portas para o século XX. Beethoven então escreveu um novo finale, mais leve e dançante, e o Op. 130 ganhou dois finais possíveis – um que encerra em paz, outro que explode o quarteto em mil pedaços. É o próprio Beethoven: a um passo do abismo, dançando sobre o vazio. Aqui, encerramos em paz.
Ludwig van Beethoven (1770-1827): String Quartets, Op. 74 & 130 (Chiaroscuro Quartet)
String Quartet No.10 In E Flat Major, ‘Harp’, Op. 74 (29:29)
1 I. Poco Adagio — Allegro 9:28
2 II. Adagio Ma Non Troppo 8:59
3 III. Presto — Più Presto Quasi Prestissimo — Tempo I 4:56
4 IV. Allegretto Con Variazioni 5:51
String Quartet No.13 In B Flat Major, Op.130 (41:10)
5 I. Adagio Ma Non Troppo — Allegro 13:23
6 II. Presto 2:08
7 III. Andante Con Moto Ma Non Troppo. Poco Scherzoso 6:47
8 IV. Alla Danza Tedesca. Allegro Assai 3:09
9 V. Cavatina. Adagio Molto Espressivo 5:54
10 VI. Finale. Allegro 9:22
Uma gravação muito, mas muito boa! Os últimos três Quartetos do Op. 18, escritos entre 1798 e 1800, mostram Beethoven se despedindo do classicismo de Haydn e Mozart para ensaiar seus primeiros gestos de, digamos, rebeldia. O Quarteto Nº 4 é o mais tempestuoso do conjunto. Ele pulsa com a urgência dramática e os contrastes bruscos que antecipam o Beethoven maduro. O segundo movimento, um scherzo nervoso e sincopado, parece menos uma dança e mais um tique nervoso… Já o Nº 5 funciona como uma pausa luminosa. Seu primeiro movimento é gracioso e arioso, quase mozartiano — o tema do minueto já carrega um sotaque campestre e a voz tipicamente beethoveniana. O destaque vem do movimento lento, um conjunto de variações sobre uma melodia melancólica que ganha contornos de ária trágica, intercalada por súbitos lampejos de furor. Por fim, o Nº 6 fecha o opus com um enigma. O quarteto é conhecido pelo final, intitulado “La Malinconia” (A Melancolia). Beethoven introduz um adagio lento e arrastado, cheio de pausas e harmonias dissonantes que parecem suspensas no ar, e então, sem aviso, irrompe em uma alegre dança vienense. É como se a melancolia fosse a sombra inevitável da leveza. Com esses quartetos, Beethoven prova que já dominava a forma herdada dos mestres, mas seu temperamento inquieto — e uma certa tristeza — já começava a rachar a moldura clássica por dentro.
Ludwig van Beethoven (1770-1827): String Quartets, Op. 18 Nos. 4-6 (Chiaroscuro Quartet)
String Quartet N°4 In C Minor Op.18 N°4 (23:28)
1 I. Allegro Ma Non Tanto 8:31
2 II. Andante Scherzoso Quasi Allegretto 6:28
3 III. Menuetto 3:48
4 IV. Allegro – Prestissimo 4:53
String Quartet N°5 In A Major Op.18 N°5 (30:13)
5 I. Allegro 9:19
6 II. Menuetto 4:15
7 III. Andante Cantabile 9:45
8 IV. Allegro 7:08
String Quartet N°6 In B Flat Major Op.18 N°6 (25:11)
9 I. Allegro Con Brio 8:33
10 II. Adagio Ma Non Troppo 6:27
11 III. Scherzo 2:57
12 IV. La Malinconia 7:45
Andrew Manze é um violinista barroco, um tremendo violinista barroco, desses que tocam em instrumentos originais. É natural que uma orquestra sinfônica regida por ele tivesse seu principal destaque nas cordas. E, com efeito, a Orquestra Sinfônica de de Helsingborg (Suécia) demonstra aqui que seu forte é a espantosa qualidade de suas cordas. Os andamentos escolhidos por Manze e sua orquestra de instrumentos modernos é quase sempre mais veloz que o habitual e me agradaram muito. É o tipo de gravação que o ouvinte mais tradicional talvez custe a engolir, mas duvido que ele não sinta o frescor que vem das águas da pequena e belíssima cidade portuária de Helsingborg, de menos de 150 mil habitantes e com uma orquestra portentosa como essa.
Johannes Brahms (1833-1897): Integral das Sinfonias / Variações sobre um tema de Haydn / Abertura Trágica / Abertura do Festival Acadêmico
DISCO 01
01. Symphony No.1 in C minor, Op.68 – I. Un poco sostenuto – Allegro – Meno Allegro
02. Symphony No.1 in C minor, Op.68 – II. Andante sostenuto
03. Symphony No.1 in C minor, Op.68 – III. Un poco Allegretto e grazioso
04. Symphony No.1 in C minor, Op.68 – IV. Adagio – Piu andante – Allegro non troppo, ma con brio
05. Variations on a theme of Joseph Haydn, Op.56a – Thema. Chorale St. Antoni
06. Variations on a theme of Joseph Haydn, Op.56a – Variation 1 Poco piu animato
07. Variations on a theme of Joseph Haydn, Op.56a – Variation 2 Piu vivace
08. Variations on a theme of Joseph Haydn, Op.56a – Variation 3 Con moto
09. Variations on a theme of Joseph Haydn, Op.56a – Variation 4 Andante con moto
10. Variations on a theme of Joseph Haydn, Op.56a – Variation 5 Vivace
11. Variations on a theme of Joseph Haydn, Op.56a – Variation 6 Vivace
12. Variations on a theme of Joseph Haydn, Op.56a – Variation 7 Grazioso
13. Variations on a theme of Joseph Haydn, Op.56a – Variation 8 Presto non troppo
14. Variations on a theme of Joseph Haydn, Op.56a – Finale Andante
DISCO 02
01. Symphony No.2 in D major, Op.73 – I. Allegro non troppo
02. Symphony No.2 in D major, Op.73 – II. Adagio non troppo
03. Symphony No.2 in D major, Op.73 – III. Allegretto grazioso (Quasi andantino)
04. Symphony No.2 in D major, Op.73 – IV. Allegro con spirito
05. Tragic Overture, Op.81
06. Academic Festival Overture, Op.80
DISCO 03
01. Symphony No.3 in F major, Op.90 – I. Allegro con brio
02. Symphony No.3 in F major, Op.90 – II. Andante
03. Symphony No.3 in F major, Op.90 – III. Poco Allegretto
04. Symphony No.3 in F major, Op.90 – IV. Allegro – Un poco sostenuto
05. Symphony No.4 in E minor, Op.98 – I. Allegro non troppo
06. Symphony No.4 in E minor, Op.98 – II. Andante moderato
07. Symphony No.4 in E minor, Op.98 – III. Allegro giocoso – Poco meno presto
08. Symphony No.4 in E minor, Op.98 – IV. Allegro energico e passionato
Helsingborg Symphony Orchestra
Andrew Manze, regente
Os seis quartetos de cordas do Op. 18 representam a primeira grande abordagem de Beethoven a uma forma que Haydn e Mozart haviam levado à perfeição. Publicados em 1801 mas compostos ao longo de vários anos, esses quartetos ainda respiram o ar do classicismo vienense, porém com uma tensão muscular e um ímpeto dramático que já anunciam o homem de Bonn. Os três primeiros quartetos, numerados de 1 a 3, são particularmente fascinantes por revelarem um compositor praticando as regras enquanto testa suas fronteiras. O Quarteto número 1, talvez o mais direto do conjunto, abre com uma elegância quase haydniana, mas logo exibe surpresas rítmicas e ousadias harmônicas que nenhum mestre do período teria se permitido. O segundo é um compêndio de contrastes: o primeiro movimento dança com graça, enquanto o Adagio cantabile e sonhador parece antecipar a languidez de Chopin. Já o terceiro quarteto, guarda no seu coração um movimento lento de beleza comovente e sombria, quase operística, como se Beethoven já ensaiasse as lágrimas que mais tarde vertaria nos quartetos finais. O que une os três é a clareza da escrita e o respeito pela conversa entre os quatro instrumentos – vozes que se interrompem, se imitam, se abraçam. Não há ainda o Beethoven fraturado dos quartetos tardios, mas há um jovem mestre que, ao herdar uma forma, já a empurra para o abismo. Essas obras respiram a liberdade recém-conquistada do compositor que se despede do século dezoito. E ao ouvi-las, imaginamos um Beethoven que sorri enquanto dobra a meta.
Ludwig van Beethoven (1770-1827): String Quartets, Op. 18 Nos. 1-3 (Chiaroscuro Quartet)
String Quartet No. 1 In F Major, Op. 18
I. Allegro Con Brio 8:59
II. Adagio Affetoso Ed Appassionato 9:42
III. Scherzo. Allegro Molto 3:17
IV. Allegro 6:52
String Quartet No. 2 In G Major, Op. 18
I. Allegro 7:42
II. Adagio Cantabile 5:19
III. Scherzo. Allegro 4:12
IV. Allegro Molto, Quasi Presto 5:46
String Quartet No. 3 In D Major, Op. 18
I. Allegro 7:58
II. Andante Con Moto 7:08
III. Allegro 3:03
IV. Presto 6:25
Gostaria de dedicar esta postagem, na verdade, repostagem, à memória de meu irmão mais velho, Maurício, que faleceu há pouco menos de quatro anos, e que faria aniversário no dia de hoje, 16 de setembro. Ele era um entusiasta da música, e foi em uma caixa de discos que ele me mandou que encontrei uma gravação deste imortal concerto, nas imortais mãos de David Oistrakh. Descanse em paz, mano, um dia nos reencontraremos novamente para ouvir boa música !!!
Nosso querido mentor, PQPBach, e sua namorada, que é violinista, consideram James Ehnes um dos principais violinistas da atualidade. E não há como negarmos tal afirmativa. O cara tem um talento incrível, e sempre nos oferece novas possibilidades, mesmo naquelas obras tão conhecidas do repertório, como neste concerto de Beethoven, que creio que todos conhecem de cor e já devem ter ouvido dezenas de vezes com diversos outros intérpretes. Ouçam a cadenza escrita pelo lendário Fritz Kreisler para entenderem do que estou falando.
Além do concerto, também temos aqui os dois Romances, também escritos para Violino e Orquestra, e o belíssimo Rondo in A major, de Schubert.
Para completar o pacote, o regente é o Andrew Manze, que conhecemos bem com um excelente violinista, especializado no repertório barroco. Em outras palavras, os senhores estão em muito boas mãos.
Resumindo, trata-se de um esplêndido CD, seríssimo candidato a lançamento do mês da Revista Gramophone, quiçá, melhor lançamento do ano, da mesma revista.
LUDWIG VAN BEETHOVEN (1770-1827)
VIOLIN CONCERTO in D major op61 1 i Allegro ma non troppo* 23.24
2 ii Larghetto 9.40
3 iii Rondo*: Allegro 9.52
*Cadenzas by Fritz Kreisler
4 ROMANCE No.1 in G major for violin & orchestra op40 6.40
5 ROMANCE No.2 in F major for violin & orchestra op50 8.08
FRANZ SCHUBERT (1797-1828)
6 Rondo in A major for violin & orchestra D438 13.33 Adagio – Allegro giusto
O 250º aniversário de Beethoven está chegando em 2020, mas os maiores craques, orquestras e gravadoras estão comemorando antes. Pela DG, Andris Nelsons já lançou uma extraordinária integral das sinfonias e Ehnes vem a passos largos gravando as Sonatas. Talvez isso acabe esvaziando a data de 17 de dezembro de 2020. Nós, por exemplo, postaremos a integral de Nelsons em 17 de dezembro de 2019… Este disco é excelente, apesar dessas primeiras Sonatas não serem tudo aquilo. Mas gosto muito da alegria da Sonata Nº 2 e das 12 Variações sobre um tema de Mozart. Tudo muito lindinho.
Beethoven (1770-1827): Sonatas para Violino de 1 a 3 (Op. 12) – Variações sobre ‘Se vuol’ballare’
Beethoven: Violin Sonata No. 1 in D major, Op. 12 No. 1 20:19
I. Allegro con brio 8:47
II. Tema con Variazioni 6:42
III. Rondo – Allegro 4:50
Beethoven: Violin Sonata No. 2 in A major, Op. 12 No. 2 16:57
I. Allegro vivace 6:45
II. Andante, piu tosto Allegretto 5:00
III. Allegro piacevole 5:12
Beethoven: Violin Sonata No. 3 in E flat major, Op. 12 No. 3 18:19
I. Allegro con spirito 8:21
II. Adagio con molt’ espressione 5:37
III. Rondo – Allegro molto 4:21
Beethoven: Variations (12) for piano & violin in F major on Mozart’s ‘Se vuol’ballare’, WoO 40 10:41
Este é um lançamento recentíssimo que me apresso a postar antes da data máxima. Ouvi-o rapidamente e fiquei muito feliz com ele. Duas excelentes Sonatas executadas pela incrível competência e elegância de Ehnes, acompanhado por seu fiel escudeiro Armstrong. Este disco, que finaliza a integral das Sonatas de Beethoven da dupla, confirma as qualidades especiais dos lançamentos anteriores: conjunto imaculado, equilíbrio, uma sensação da estrutura da música estar se desdobrando perfeitamente e com espontaneidade, criando a impressão de que os músicos vão descobrindo as qualidades especiais da música como se fosse a primeira vez. Ehnes não é um bobão, faz música sem o menor indício de ser um “solista em ação”. Alguns podem achar que a personalidade criativa de Beethoven é um pouco subprojetada aqui. No entanto, a perfeição de Ehnes — cada nota possui especial brilho — é uma fonte constante de admiração. O mesmo ocorre com a habilidade fantástica de Armstrong de fazer parceria com o violino de uma forma que sutilmente disfarça a disparidade entre o potencial de sonoro dos dois instrumentos (da qual Beethoven estava bem ciente).
Ludwig van Beethoven (1770-1827): Sonatas para Violino Nos. 7 & 10 (Ehnes / Armstrong)
01. Violin Sonata No. 7 in C Minor, Op. 30 No. 2: I. Allegro con brio
02. Violin Sonata No. 7 in C Minor, Op. 30 No. 2: II. Adagio cantabile
03. Violin Sonata No. 7 in C Minor, Op. 30 No. 2: III. Scherzo (Allegro)
04. Violin Sonata No. 7 in C Minor, Op. 30 No. 2: IV. Finale (Allegro)
05. Violin Sonata No. 10 in G Major, Op. 96: I. Allegro moderato
06. Violin Sonata No. 10 in G Major, Op. 96: II. Adagio espressivo
07. Violin Sonata No. 10 in G Major, Op. 96: III. Scherzo (Allegro)
08. Violin Sonata No. 10 in G Major, Op. 96: IV. Poco allegretto
James Ehnes é o violinista dos violinistas. Deu para sentir isso em fevereiro deste ano, quando o vimos em ação ao vivo no Wigmore Hall. Bem, as duas primeiras sonatas deste CD são extraordinárias. A célebre Primavera nem se fala, mas não conhecia a fundo o lindo Op. 23. Este é o terceiro CD das sonatas de violino de Beethoven com James Ehnes e Andrew Armstrong e era aguardado com muita expectativa pelo mundo erudito. Os álbuns anteriores — Nº.9 ‘Kreutzer’ e 6 e Nº.1-3, Variações WoO40 — receberam críticas excelentes. A Gramophone escreveu sobre este lançamento: “Com alguns discos, você pode dizer antecipadamente que tudo vai dar certo”. E aqui, a popular sonata Primavera é emoldurada pela estranha e sedutora quarta sonata e a modesta oitava — apesar do irresistível último movimento (Allegro vivace). Um antigo Rondó e um conjunto de danças alemãs completam o generoso programa.
Ludwig van Beethoven (1770-1827): Sonatas para Violino Nos. 4, 5, 8 Rondó & Seis Danças Germânicas (Ehnes / Armstrong)
01. Violin Sonata No. 4 in A Minor, Op. 23: I. Presto
02. Violin Sonata No. 4 in A Minor, Op. 23: II. Andante scherzoso piu Allegretto
03. Violin Sonata No. 4 in A Minor, Op. 23: III. Allegro molto
04. Violin Sonata No. 5 in F Major, Op. 24 “Spring”: I. Allegro
05. Violin Sonata No. 5 in F Major, Op. 24 “Spring”: II. Adagio molto espressivo
06. Violin Sonata No. 5 in F Major, Op. 24 “Spring”: III. Scherzo. Allegro molto
07. Violin Sonata No. 5 in F Major, Op. 24 “Spring”: IV. Rondo. Allegro ma non troppo
08. Six German Dances, WoO 42
09. Rondo for violin & piano in G Major, WoO 41
10. Violin Sonata No. 8 in G Major, Op. 30/3: I. Allegro assai
11. Violin Sonata No. 8 in G Major, Op. 30/3: II. Tempo di Minuetto, ma molto moderato e grazioso
12. Violin Sonata No. 8 in G Major, Op. 30/3: III. Allegro vivace
Muito me surpreenderei se James Ehnes não for um interessado em literatura, artes plásticas ou outro gênero de arte. É muito cultura envolvida, muito conhecimento e fineza de estilo, isso não vem apenas da música. Esta é a opinião de minha mulher, também uma violinista. Ehnes e o pianista Andrew Armstrong tocam juntos como só velhos parceiros de crime conseguem. Ambos fizeram notáveis gravações de Franck, Bartók, Strauss, Debussy e Elgar; agora eles se voltam para Beethoven com a mesma combinação de toque leve e clareza de ideias. Eles nunca precisam exagerar — tome a frase inicial da Kreutzer, a maneira impecavelmente eloquente com que o acorde de abertura toma-se de esplendor.
Este é o primeiro disco de sonatas de Beethoven gravado por James Ehnes e eu espero que ele e Armstrong sigam até gravar todas. O acoplamento da Kreutzer com a Op. 30/1 também é astuto, pois — poucos sabem disso — o Presto da Kreutzer era, originalmente, o movimento final do Op. 30/1.
Eles iniciam pela Kreutzer e seu movimento de abertura é incrivelmente bem tocado. Os silêncios são bem utilizados e os pizzicatos na casa dos 3min, a 6min31 e na casa dos 11 min estão suficientemente presentes. Os momentos finais são levados com extrema classe, reduzindo a dinâmica e o ritmo antes da explosão final.
Eles são um pouco mais lentos no Andante do que, por exemplo, Dumay e Pires ou Faust e Melnikov, mas assim que as variações começam, a coisa decola lindamente. Ibragimova e Tiberghien formam um dupla capaz de enfrentar Ehnes e seu parceiro, mas estes são muito mais atraentes no finale, mesmo sem deixar de lado a delicadeza.
A Op 30 nº 1 vem de um outro mundo. A abertura se desenrola muito bem. Faust e Melnikov parecem melhores, mas… Ehnes e Armstrong são arrebatadores no movimento lento, verdadeiramente molto espressivo, enquanto uma sensação de diversão fica latente, colocando o selo de IMPERDÍVEL à já notável discografia de Ehnes e Armstrong.
Ludwig van Beethoven (1770-1827): Violin Sonatas Nos.6 & 9 ‘Kreutzer’
Violin Sonata No.9 in A op.47 ‘Kreutzer’
1 Adagio sostenuto 13min43
2 Andante con variazioni 16min07
3 Finale: Presto 8min23
Violin Sonata No.6 in A op.30/1
4 Allegro 7min54
5 Adagio molto espressivo 7min23
6 Allegretto con variazioni 8min16
Excelente CD de Ehnes tocando as Sonatas de Bach para Violino e Cravo. Ehnes é quase sempre brilhante, quando não é, é corretíssimo. Toca demais. As Sonatas para Violino e Cravo de Bach ocupam um lugar singular na música de câmara do período barroco. Em vez de seguir o modelo tradicional da sonata com baixo contínuo, Bach concebe aqui uma escrita a três vozes plenamente realizada, em que o cravo deixa de ser mero acompanhante e passa a dialogar de igual para igual com o violino. A mão direita do cravista assume uma linha melódica independente, enquanto a esquerda sustenta o baixo. É quase um trio. O resultado é uma música de equilíbrio raro, em que cada voz tem autonomia e função expressiva. Bach explora uma ampla variedade de formas: movimentos lentos de intensa introspecção alternam-se com andamentos rápidos de grande vitalidade rítmica. Há momentos de lirismo quase vocal, outros de energia dançante, sempre sustentados por uma clareza estrutural admirável. Mais do que peças de virtuosismo, essas sonatas propõem uma escuta atenta, quase conversacional — uma música em que o sentido nasce do encontro entre as vozes. São, em suma, uma das realizações mais sofisticadas de Bach no campo da música de câmara.
J. S. Bach (1685-1750): Sonatas para Violino, Vol. 2 (Ehnes, Beauséjour)
Sonata for violin & keyboard No. 5 in F minor, BWV 1018
1 Adagio 06:31
2 Allegro 04:27
3 Adagio 03:40
4 Vivace 02:26
Sonata for violin & keyboard No. 6 in G major, BWV 1019
5 Allegro 03:44
6 Largo 01:33
7 Allegro 04:43
8 Adagio 02:59
9 Allegro 03:41
Sonata for violin & keyboard No. 6 in G major (variant), BWV 1019a
10 Cantabile, ma un poco Adagio 06:44
11 Cembalo solo 05:20
12 Adagio 02:07
13 Violino solo e Basso l’accompagnato 02:10
Sonata for violin & continuo in G major, BWV 1021
14 Adagio 03:37
15 Vivace 00:58
16 Largo 02:23
17 Presto 01:22
Sonata for violin & continuo in E minor, BWV 1023
18 Allegro 01:04
19 Adagio ma non troppo 03:18
20 Allemanda 03:58
21 Gigue 02:43
É uma gravação muito boa, corretíssima. A melhor que ouvi em violino moderno. As quatro primeiras Sonatas para Violino e Cravo de Johann Sebastian Bach — BWV 1014 a 1017 — formam um belo conjunto, onde o compositor rompe com o modelo tradicional de acompanhamento e cria um verdadeiro diálogo entre os instrumentos. No lugar do cravo apenas sustentando o baixo contínuo, temos uma escrita a três vozes plenamente desenvolvida: a mão direita do cravo conversa com o violino, enquanto a esquerda mantém a base. O resultado é música de câmara de altíssimo refinamento, onde equilíbrio e invenção caminham juntos.
A Sonata para Violino e Cravo Nº 1, BWV 1014, é talvez a mais introspectiva: já no primeiro movimento, um Adagio de grande profundidade, percebe-se uma densidade quase meditativa, que se desdobra em contrastes elegantes nos movimentos seguintes.
Na Sonata para Violino e Cravo Nº 2, BWV 1015, o clima se torna mais luminoso e fluido. Destaca-se o andamento lento, de uma beleza cantável, quase vocal, onde o violino parece “cantar” sobre um tecido harmônico delicado.
A Sonata para Violino e Cravo Nº 3, BWV 1016, traz um caráter mais expansivo e virtuoso. Há maior brilho, especialmente nos movimentos rápidos, mas sempre sustentado por um rigor estrutural admirável.
Por fim, a Sonata para Violino e Cravo Nº 4, BWV 1017, retoma um tom mais sério e dramático. O primeiro movimento é particularmente intenso, com linhas entrelaçadas que criam uma tensão expressiva muito rica.
Em conjunto, essas quatro sonatas mostram um Bach profundamente inovador na música de câmara: não há hierarquia entre os instrumentos, mas uma conversa contínua — equilibrada, inteligente e cheia de vida.
J. S. Bach (1685-1750): Sonatas para Violino, Vol. 1 (Ehnes, Beauséjour)
1 Sonata No. 1 in B Minor, BWV 1014: I. Adagio 03:57
2 Sonata No. 1 in B Minor, BWV 1014: II. Allegro 02:49
3 Sonata No. 1 in B Minor, BWV 1014: III. Andante 03:16
4 Sonata No. 1 in B Minor, BWV 1014: IV. Allegro 03:29
5 Sonata No. 2 in A Major, BWV 1015: I. Dolce 03:12
6 Sonata No. 2 in A Major, BWV 1015: II. Allegro 03:21
7 Sonata No. 2 in A Major, BWV 1015: III. Andante Un Poco 02:58
8 Sonata No. 2 in A Major, BWV 1015: IV. Presto 04:05
9 Sonata No. 3 in E Major, BWV 1016: I. Adagio 04:44
10 Sonata No. 3 in E Major, BWV 1016: II. Allegro 03:00
11 Sonata No. 3 in E Major, BWV 1016: III. Adagio ma non tanto 05:06
12 Sonata No. 3 in E Major, BWV 1016: IV. Allegro 03:48
13 Sonata No. 4 in C Minor, BWV 1017: I. Largo 03:54
14 Sonata No. 4 in C Minor, BWV 1017: II. Allegro 04:23
15 Sonata No. 4 in C Minor, BWV 1017: III. Adagio 02:58
16 Sonata No. 4 in C Minor, BWV 1017: IV. Allegro 04:20
Não importa o que ele toque, a música está sempre repleta de espírito, perspicácia e reverência pelo gênero do momento.
[Mark Small]
Para inaugurar a coluna ‘Dois Pelo Preço de Um – Dose Dupla’, escolhi dois álbuns do violonista americano Jason Vieaux. Os dois discos não poderiam ser mais diferentes, registrando dois momentos de sua vitoriosa carreira.
Seville, The Music of Isaac Albeniz é um disco de música para violão clássico, gravado em 2003. Todas as peças são transcrições de originais escritas para piano, e mesmo assim, não poderiam ser mais idiomáticas. Se você tem visto algumas de minhas postagens sabe que adoro esse gênero e o disco eu achei espetacular.
O outro álbum, denominado apenas Play, é de 2014 e bem mais variado, podendo mesmo ser considerado um .: interlúdio :. Neste, a escolha das músicas / compositores vai do clássico ao popular, de Torrega, Leo Brouwer e Segóvia a Paulo Bellinati, Tom Jobim e Duke Ellington. Mas, como frisou no seu artigo e crítico Mark Small, a música está sempre repleta de espírito.
Eu ouvi muitas vezes os dois discos, inicialmente mais os o que coloquei primeiro. Estes dias, no entanto, tenho ouvido com frequência o Play, Ambos estão nas plataformas de streaming, como a TIDAL ou qobuz, o que facilita especialmente quando dirijo ou estou fora de casa.
Jongo é um batuque só, a Felicidade de Jobim é imensa e a Cavatina de The Deer Hunter não podia ser mais pungente. Tarrega tem uma pegada mais clássica em seu belíssimo Capricho Árabe, assim como Recuerdos de la Alhambra, algumas faixas logo depois. Sunburst foi uma grata surpresa para mim e é outra que passou por John William, que foi também padrinho da Cavatina. As Abelhas de Augustín Barrios é uma peça bem bonita, assim como foi o Tango en Skai de Roland Dyens. Pode seguir ouvindo o disco até a peça do Duke e não terá um momento que não esteja repleto de beleza e bom gosto.
Aqui, Vieaux percorre o terreno já bastante explorado do recital de violão latino-americano, mas, mais uma vez, imprime sua marca pessoal com peças incomuns, como uma seleção da trilha sonora de O Franco-Atirador, In a Sentimental Mood, de Duke Ellington, e A Felicidade, de António Carlos Jobim. Mesmo nas escolhas mais convencionais, Vieaux demonstra uma segurança própria; ele parece transitar com desenvoltura entre as tradições nacionais, como se as estivesse apresentando a um pequeno grupo. Sua execução no violão é limpa e elegante. Talvez o melhor aspecto do álbum seja o som: o pequeno Azica, tocando em um local não especificado, alcança uma ressonância natural do violão que coloca o ouvinte perto do guitarrista, mas não, como em tantas outras gravações, dentro do instrumento. Há um fator X nesta gravação, proveniente de seu ecletismo descontraído, que a torna muito atraente.
Excellent choice of pieces (from Tarrega, Segovia to Brouwer, Andrew York and Ellington) played with gusto and virtuosity; justly rewarded with a Grammy award earlier this year (for the Best Classsical Instrumental Solo). Equally interesting for estabished fans of the instrument as for newcomers – a real treat. Clearly, I am a fan – solo guitar rarely sound so good!
É inútil tentar rotular as inclinações musicais do vencedor do Grammy, Jason Vieaux. Um dos guitarristas clássicos mais proeminentes da Geração X, ele embarcou em uma aventura musical que inclui incursões profundas na literatura clássica justapostas a expedições sérias pelo pop, jazz e outros gêneros musicais. Não importa o que ele toque, a música está sempre repleta de espírito, perspicácia e reverência pelo gênero do momento.
Aproveite! Aproveite!
René Denon
Ilustração enviada pela industriosa equipe de artes do PQP Bach Publishing House para a postagem de hoje
E finalmente chegamos à Missa em Si Menor, BWV 232, tida por muitos como a maior obra de Bach e quiçá de todos os tempos. A gravação de Harnoncourt é realmente muito boa, assim como a das Missas Breves dos CDs 3 e 4 desta caixa. As faixas estão indicadas de forma miraculosamente correta, coisa anormal nesta coleção algo confusa.
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Bach 2000 – Caixa 6, CD 1
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BWV0232 Mass in B minor 01 Kyrie eleison
BWV0232 Mass in B minor 02 Christe eleison
BWV0232 Mass in B minor 03 Kyrie eleison
BWV0232 Mass in B minor 04 Gloria in excelsis Deo
BWV0232 Mass in B minor 05 Laudamus te
BWV0232 Mass in B minor 06 Gratias agimus tibi
BWV0232 Mass in B minor 07 Domine Deus
BWV0232 Mass in B minor 08 Qui tollis
BWV0232 Mass in B minor 09 Qui sedes
BWV0232 Mass in B minor 10 Quoniam tu solus
BWV0232 Mass in B minor 11 Cum Sancto Spiritu
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Bach 2000 – Caixa 6, CD 2
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BWV0232 Mass in B minor 12 Credo in unum Deum
BWV0232 Mass in B minor 13 Patrem omnipotentem
BWV0232 Mass in B minor 14 Et in unum Dominum
BWV0232 Mass in B minor 15 Et incarnatus est
BWV0232 Mass in B minor 16 Crucifixus
BWV0232 Mass in B minor 17 Et resurrexit
BWV0232 Mass in B minor 18 Et in Spiritum
BWV0232 Mass in B minor 19 Confiteor
BWV0232 Mass in B minor 20 Et expecto
BWV0232 Mass in B minor 21 Sanctus
BWV0232 Mass in B minor 22 Osanna
BWV0232 Mass in B minor 23 Benedictus
BWV0232 Mass in B minor 24 Osanna
BWV0232 Mass in B minor 25 Agnus Dei
BWV0232 Mass in B minor 26 Dona nobis pacem
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Bach 2000 – Caixa 6, CD 3
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BWV0233 Mass in F major 1 Kyrie
BWV0233 Mass in F major 2 Gloria
BWV0233 Mass in F major 3 Domine Deus
BWV0233 Mass in F major 4 Qui tollis
BWV0233 Mass in F major 5 Quoniam
BWV0233 Mass in F major 6 Cum Sancto Spiritu
BWV0234 Mass in A major 1 Kyrie
BWV0234 Mass in A major 2 Gloria
BWV0234 Mass in A major 3 Domine Deus
BWV0234 Mass in A major 4 Qui tollis
BWV0234 Mass in A major 5 Quoniam
BWV0234 Mass in A major 6 Cum Sancto Spiritu
BWV0239 Sanctus in D minor
BWV0240 Sanctus in G major
BWV0241 Sanctus in D major
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Bach 2000 – Caixa 6, CD 4
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BWV0236 Mass in G major 1 Kyrie
BWV0236 Mass in G major 2 Gloria
BWV0236 Mass in G major 3 Gratias agimus tibi
BWV0236 Mass in G major 4 Domine Deus
BWV0236 Mass in G major 5 Quoniam
BWV0236 Mass in G major 6 Cum Sancto Spiritu
BWV0235 Mass in G minor 1 Kyrie
BWV0235 Mass in G minor 2 Gloria
BWV0235 Mass in G minor 3 Gratias agimus tibi
BWV0235 Mass in G minor 4 Domine Fili
BWV0235 Mass in G minor 5 Qui tollis
BWV0235 Mass in G minor 6 Cum Sancto Spiritu
BWV0237 Sanctus in C major
BWV0238 Sanctus in D minor
BWV0242 Christe eleison in G minor
Um bom e curioso CD. Cole Porter, George Gershwin – Canções, Versões é um projeto do letrista Carlos Rennó, reunindo pela primeira vez em disco um conjunto de seus trabalhos como autor de versões. Tudo é muito bom e as soluções encontrdas por Rennó são sempre brilhantes. Ele apresenta uma seleção de catorze canções — soberbamente interpretadas — dos dois grandes compositores da era clássica da canção americana – sete de cada. O repertório reúne canções dos anos 20 aos 40 que Cole Porter (1891 – 1962) e George (1898 – 1937) e Ira Gershwin (1896 – 1983) compuseram para musicais da Broadway ou Hollywood. A lista de cantores ao lado já dá o tom da qualidade dos caras.
Canções, versões de Carlos Rennó de músicas de Cole Porter & George Gershwin
01. EU SÓ ME LIGO EM VOCÊ
Intérprete: Zélia Duncan
Autoria: Cole Porter
02. QUE DE-LINDO
Intérprete: Caetano Veloso
Autoria: Cole Porter
Aproveito que presenteei vocês no Natal com Sivuca para presenteá-los novamente com uma pérola discográfica do sanfoneiro paraibano.
Cinco das composições aqui são transcrições – para sanfona e orquestra – de obras de Sivuca, em parceria ou não, e de compositores diletos dele – o bandolinista pernambucano Luperce Miranda (neste caso não é Lupércio) e Paganini. Luiz Gonzaga motivou a composição das outras duas obras.
Como este CD é daqueles de que não há muito a dizer e, sim, a ouvir, desejo desde já um 2009 com muita música a todos nós.
***
Sivuca Sinfônico
01. Rapsódia Gonzaguiana (Sivuca, sobre temas de Luiz Gonzaga)
02. Aquariana (Sivuca)
03. João e Maria (Sivuca / Chico Buarque)
04. Feira de Mangaio (Sivuca / Glória Gadelha)
05. Quando me Lembro (Luperce Miranda)
06. Moto Perpétuo (Paganini)
07. Concerto Sinfônico para Asa Branca (Sivuca, sobre temas de Luiz Gonzaga)
Arranjos, transcrições e orquestrações (e solista, claro): Sivuca
Com a participação da Orquestra Sinfônica do Recife, regida por Osman Giuseppe Gióia
Severino Dias de Oliveira, vulgo Sivuca (1930-2006), está na história da música brasileira por ter sido um de seus maiores acordeonistas – no Nordeste, diga-se sanfoneiros. Com isso se pensa que ele só compôs forrós e mesmo no Nordeste é difícil para os fãs do apontar outro sucesso de Sivuca que não seja Feira de mangaio (e ainda assim, muitos não sabem o nome da música), porém sua discografia se situa entre as mais ricas dentre os músicos nordestinos e seu catálogo abrange frevos, choros, jazz, canções e outros gêneros.
Pra quem pensa que o sanfoneiro em questão era músico prático (e rústico), Sivuca tem em seu histórico o privilégio de ter sido aluno (junto com Clóvis Pereira, Jarbas Maciel e Capiba) de Guerra-Peixe no Recife, no início da década de 50, quando ambos estavam na Rádio Jornal do Commércio. Nas décadas de 60 e 70, o músico paraibano rodou pelo mundo, tocando, compondo e fazendo arranjos – o arranjo original de Pata Pata, hit da recentemente falecida Miriam Makeba, foi feito por Sivuca.
Nos anos 70, viria a conhecer sua companheira inseparável até a morte: a médica conterrânea Glória Gadelha, também instrumentista e compositora, com quem Sivuca criou seus maiores sucessos. A ela, dedicou Aquariana, um presente e ao mesmo tempo pedido de desculpas por ter se esquecido do aniversário da esposa.
Ela o avisara três dias: comprou o próprio presente e deu pra ele dizendo “Se lembre”, pois sabia que o marido era muito distraído. Ele não se lembrou – e a culpa pela conseqüente crise de choro da mulher o forçou a se trancar no quarto e a só sair de madrugada com a partitura nas mãos.
Todas as peças de Sivuca e Glória Gadelha neste CD foram arranjadas pelo sanfoneiro, que passou a se dedicar a transcrições sinfônicas de suas músicas, nas últimas duas décadas de vida (espere meu post do dia 31).
Muito engenhosa, entre parênteses, é Chibanca no Uirapuru, de Hercílio Antunes, contrabaixista do Quinteto Uirapuru. O quinteto de João Pessoa é liderado por Rucker Bezerra, spalla da Sinfônica da Paraíba, que também assina peças neste disco.
Este é meu presente de Natal para vocês.
***
Sivuca e Quinteto Uirapuru
01. Choro de Cordel (Sivuca/ Glória Gadelha)
02. Em Nome do Amor (Glória Gadelha)
03. Sanhauá (Sivuca/ Glória Gadelha)
04. Luz (Rucker Bezerra)
05. Filhos da Lua (Glória Gadelha)
06. Chibanca no Uirapuru (Hercílio Antunes)
07. Canção Piazzollada (Sivuca/ Glória Gadelha)
08. Minha Luiza (Rucker Bezerra)
09. Aquariana (Sivuca)
10. Um Tom Para Jobim (Sivuca/ Oswaldinho do Acordeon)
11. Espreguiçando (Hercílio Antunes)
12. Feira de Mangaio (Sivuca/ Glória Gadelha)
Aqui, a coisa fica mais alemã e indiscutivelmente melhor do que o grupo de CDs anteriores. O show de Leonhardt está no Froberger e no Kuhnau — apesar da narrativa — dos CDs 17 e 18, em minha opinião, mas ouvi apenas uma vez. Posso estar errado, claro.
CD 16:
Heinrich Ignaz Franz von Biber
Harmonia Artificiosa-Ariosa: Diversi Mode Accordata
01. Pars III
Mensa Sonora: Seu Musica Instrumentalis
02. Pars III
CD 17:
Johann Jakob Froberger
01. Capriccio No. 2
02. Fantasia No. 3
03. Toccata No. 11, “Da Sonarsi Alla Levatione”
04. Ricercar No. 2
05. Canzona No. 2
06. Toccata No. 9
Suite No. 18
07. I Allemande
08. II Gigue
09. III Courante
10. IV Sarabande
11. Toccata No. 18
Suite No. 12
12. I Lamento Sopra La Dolorosa Perdita Della Real Msta
Di Ferdinando IV, Re De Romani (Allemande) – Gigue
13. II Courante
14. III Sarabande
Musicausche Vorstellung Einiger Biblischer Historien
Musical Depiction Os Certain Biblical Stories
Representation Musicale De Quelques Histoires Bibliques
01-10. Sonata No. 1: Der Streit Zwischen David Und Goliath
The Combat Between David And Goliath
Le Combat Entre David Et Goliath
11-14. Sonata No. 2: Der Von David Vermittelst Der Music Curirte Saul
Saul Healed By David With The Help Of Music
Sauel Gueri Par David Grace A La Musique
15-23. Sonata No. 3: Jacobs Heyrath
The Marriage Of Jacob – Le Marriage De Jacob
Gustav Leonhardt, organ / harpsichord / narration
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Bach 2000 – Caixa 5, CD 1
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BWV 134a – Die Zeit, die Tag und Jahre macht, serenata (secular cantata) for 2 voices, chorus & orchestra, (BC G5)
Performed by Amsterdam Baroque Orchestra
with Michael Chance, Paul Agnew
Conducted by Ton Koopman
1. Recitativo(alto, tenor): Die Zeit, die tag und Jahre macht
2. Aria(tenor): Auf, Sterbliche, lasset ein Jauchzen ertönen
3. Recitativo(alto, tenor): So bald, als dir die Sternen hold
4. Aria Duetto(alto, tenor): Es treiten, es siegen/prangen die kunftigen/voringen Zeiten
5. Recitativo (alto, tenor: Bedenke nur, beglucktes Land
6. Aria (alto): Der Zeiten Herr hat viel vergnugte Stunden
7. Recitativo alto, tenor): Hilf, Hochster, hilf, dass mich die Menschen preisen
8. Coro: Ergotzet auf Erden, erfreuet von oben
BWV 173a – Durchlauchtster Leopold, serenata for 2 voices (soprano, bass), flute, bassoon, strings & continuo, (BC G9)
Composed by Johann Sebastian Bach
Performed by Amsterdam Baroque Orchestra
with Lisa Larsson, Klaus Mertens
Conducted by Ton Koopman
9. Recitativo: Durchlauchtster Leopold
10. Aria: Güldner Sonnen frohe Stunden
11. Aria: Leopolds Vortrefflichkeiten
12. Aria: Unter seinem Purpursaum
13. Recitativo: Durchlauchtigster, den Anhalt Vater nennt
14. Aria: So schau dies holden Tages Licht
15. Aria: Dein Name gleich der Sonnen geh
16. Nimm auch, großer Fürst, uns auf
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Bach 2000 – Caixa 5, CD 3
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BWV0202 Cantata 1 Aria (soprano) “Weichet nur,betrübte Schatten”
BWV0202 Cantata 2 Recitativo (soprano) “Die Welt wird wieder neu”
BWV0202 Cantata 3 Aria (soprano) “Phoebus eilt”
BWV0202 Cantata 4 Recitativo (soprano) “Drum sucht auch Amor sein Vergnügen”
BWV0202 Cantata 5 Aria (soprano) “Wenn die Frühlingslüfte streichen”
BWV0202 Cantata 6 Recitativo (soprano) “Und dieses ist das Glücke”
BWV0202 Cantata 7 Aria (soprano) “Sich üben im Lieben”
BWV0202 Cantata 8 Recitativo (soprano) “So sei das Band der keuschen Liebe”
BWV0202 Cantata 9 Gavotte (soprano) “Sehet in Zufriedenheit”
BWV0203 Cantata 1 Aria (bass) “Amore traditore”
BWV0203 Cantata 2 Recitativo (bass) “Voglio provar”
BWV0203 Cantata 3 Aria (bass) “Chi in amore ha nemica la sorte”
BWV0209 Cantata 1 Sinfonia
BWV0209 Cantata 2 Recitativo (soprano) “Non sa che sia dolore”
BWV0209 Cantata 3 Aria (soprano) “Parti pur e con dolore”
BWV0209 Cantata 4 Recitativo (soprano) “Tuo saver al tempo e l’età contrasta”
BWV0209 Cantata 5 Aria (soprano) “Ricetti gramezza e pavento”
Não sou um apaixonado por Dvořák, mas esta gravação é esplêndida. A parceria entre Yo-Yo Ma e Kurt Masur na Sony Classical, em 1995, é um desses registros que se impõem menos pela pirotecnia e mais pela serena gravidade e categoria. Trata-se de uma leitura do Concerto para Violoncelo, de Antonín Dvořák, que respira naturalidade e onde o violoncelo de Ma nunca se sobrepõe à orquestra, mas antes flutua sobre ela como uma voz lírica e melancólica. Masur, longe de qualquer gesto efusivo, permite que os temas folclóricos do compositor tcheco revelem sua faceta mais sombriaa, sem perder o ímpeto dramático. O que impressiona é a escuta mútua: o violoncelo canta, chora e exulta dentro da massa orquestral, não contra ela. Já no Concerto para Violoncelo em Mi menor, de Victor Herbert – uma obra mais rara, de inspiração romântica e leveza quase operística –, Ma e Masur giram a chave com naturalidade. Aqui, a gravação recupera o charme da belle époque: o violoncelo exibe seu lado mais cantabile e virtuosístico, com passagens de agilidade solar. A sonoridade é quente, detalhada e analógica no melhor sentido. No fim, o que fica é a impressão de que os dois concertos, tão díspares em espírito, foram unificados por uma visão de rara integridade musical: a de que o violoncelo é, acima de tudo, a voz humana.
Dvořák (1841-1904) / Herbert (1859-1924): Concertos para Violoncelo e Orquestra (Yo-Yo Ma, NYP, Masur)
Dvořák: Concerto For Cello And Orchestra In B Minor, Op. 104
1 I. Allegro 15:04
2 II. Adagio, Ma Non Troppo 12:34
3 III. Finale. Allegro Moderato 12:50
Herbert: Concerto For Cello And Orchestra No. 2 In E Minor, Op. 30
4 I. Allegro Imperuoso 8:14
5 II. Andante Tranquillo 6:49
6 III. Allegro 5:39
Cello – Yo-Yo Ma
Conductor – Kurt Masur
Orchestra – New York Philharmonic
Como os visitantes mais atentos deste blog já leram por aqui, Domenico Scarlatti esteve em Florença no mínimo duas vezes na década de 1700, foi apresentado ao príncipe Ferdinando de’ Medici por seu pai Alessandro Scarlatti e conheceu os primeiros pianofortes criados por Bartolomeo Cristofori na corte dos Medici. As 555 Sonatas que garantiram a perenidade do nome de Domenico foram compostas anos depois, para serem tocadas principalmente ao cravo, mas é quase certo que o compositor ou seus contemporâneos também as tocavam ao órgão e ao piano, instrumento que a rainha Maria Bárbara importava de Florença.
O primeiro requisito a ser cumprido por um pianista que toca as sonatas de D.Scarlatti é tocar com as duas mãos de forma bem articulada, com peso igual em ambas, evitando que uma voz esconda a outra. O segundo requisito é uma atenção aos ornamentos, como trinados e appogiaturas, que são notas curtas e próximas à nota principal da melodia. Os ornamentos na música barroca devem ter ao mesmo tempo um ar de enfeites improvisados no momento e um caráter bem definido que só vem após um estudo profundo da partitura: um ornamento em um Andante é diferente de um outro em um Presto.
Atendendo a essas duas condições obrigatórias, resta ainda ao pianista muita imaginação para tocar as sonatas de forma variada, porque é difícil aguentar um CD ou um recital inteiro com 14 ou 18 sonatas soando parecidas. Normalmente essa variedade é alcançada alternando entre movimentos mais rápidos e mais lentos, aliás um erro comum com Scarlatti é tocar tudo muito apressado e como em uma competição de quem chega primeiro na linha de chegada… De fato, se Scarlatti era respeitado por seus contemporâneos como um virtuose do cravo, é verdade também que a maioria das sonatas foi composta nas suas últimas décadas de vida, provavelmente a maioria quando ele tinha mais de 60 anos de idade. O músico e historiador inglês Charles Burney (1726-1814) relata que teve acesso, por intermédio de um amigo, a um manuscrito com quarenta e duas peças de Scarlatti compostas nos seu penúltimo anos de vida, “entre as quais há vários movimentos lentos, e das quais apenas três ou quatro eu conhecia anteriormente, mesmo tendo colecionado composições de Scarlatti por toda minha vida. Elas foram compostas em 1756, quando ele estava gordo demais para cruzar suas mãos como costumava fazer, então elas não são tão difíceis quanto suas obras anteriores, que foram criadas para sua patroa, a rainha de Espanha, quando ainda era princesa das Astúrias.”
Maria Bárbara de Bragança, a patroa de Scarlatti (circa 1750)
Aqui cabem algumas explicações sobre o que escreveu Burney: as sonatas de maturidade também foram compostas para Maria Bárbara de Bragança, sob cuja proteção Domenico esteve até o fim da vida. E quando o autor fala em um corpo que engordou e não conseguia cruzar as mãos, é possível que se trate sobretudo da rainha de Espanha, vejam na foto ao lado…
O búlgaro Pascal Pascaleff, em seu primeiro álbum dedicado a Scarlatti, atende a todas as condições que mencionei acima. Ele se mostra especialmente cuidadoso com o cantabile – som que imita a voz humana – nas sonatas mais lentas, de andamento Allegretto (isto é, um pouco mais lento que um Allegro e com um certo humor que lembra os Scherzos das sonatas de Beethoven), Andante commodo ou simplesmente Andante. Sua gravação é o 25º CD na integral das Sonatas pela Naxos, integral que vem sendo lentamente gravada desde 1999 por mais de dez pianistas e ainda não terminou. Como dizem em inglês, “first come first served” ou, com significado não tão diferente por aqui, “quem chega por último é mulher do padre“, ou seja, as sonatas mais famosas já foram gravadas por quem chegou lá no começo: K.141 e K.208 no CD2 por Lewin, K.10 no CD3 por Jandó, K.96 no CD8 por Lee… Isso significa que Pascaleff, chegando na reta final da integral (faltam uns 6 a 10 CDs), pegou 18 sonatas mais ou menos desconhecidas entre as 555, mas ele claramente dedicou a elas toda sua atenção, passou longe de tratá-las como menos importantes. Nessas integrais lentamente gravadas, os músicos têm tempo de saborear as obras aos poucos, como foi o caso das inesquecíveis gravações das 32 Sonatas de Beethoven por Pollini (anos 1970 até anos 2010) ou dos Concertos de Mozart por Brendel/Marriner (1970 até 1985).
Domenico Scarlatti (1685-1757): 18 Sonatas
1. Sonata in F major, K.167, Allegro
2. Sonata in E major, K.206, Andante
3. Sonata in C major, K.243, Allegro
4. Sonata in E flat major, K.307, Allegro
5. Sonata in F major, K.350, Allegro
6. Sonata in E flat major, K.371, Allegro
7. Sonata in B minor, K.409, Allegro
8. Sonata in F major, K.437, Andante commodo
9. Sonata in A minor, K.451, Allegro
10. Sonata in D major, K.480, Presto
11. Sonata in C major, K.501, Allegretto
12. Sonata in G major, K.538, Allegretto
13. Sonata in G major, K.153, Vivo
14. Sonata in A major, K.221, Allegro
15. Sonata in E flat major, K.252, Allegro
16. Sonata in D major, K.281, Andante
17. Sonata in F major, K.297, Allegro
18. Sonata in A major, K.343, Allegro Andante
Pascal Pascaleff, piano
Recorded 19–21 August 2019 at The Bradshaw Hall, Royal Birmingham Conservatoire, UK
Curiosidade: na capa do álbum, vemos o Palácio Real de Aranjuez, uma das residências do Reis da Espanha, onde havia um cravo e um “clavicordio de piano hecho en Florencia”, segundo o inventário da Rainha.