
Johann Sebastian Bach (1685-1750): The Wedding Cantatas (Kirkby, Hogwood)
IM-PER-DÍ-VEL !!!
Não sou um cara fino como o Milton Ribeiro, que entrevistou a Emma Kirkby, uma pena.
Sofrendo um grave crise de hipocantatemia bachiana, ontem botei este CD para tocar aqui em casa. Olha, que coisa maravilhosa! São cantatas solo e obras esparsas de Bach para soprano. A orquestra de Hogwood está impecável e Kirkby… O que dizer de Dame Emma Kirkby? Ela é perfeita, mas não devo elogiá-la muito porque meu colega FDP Bach morre de ciúmes.
Baita CD. Ouçam imediatamente, tá? Atenção para a primeira ária da Cantata 202. Não parece o lento caminhar de uma noiva? Alíás toda a 202 é fantástica, além do restante.
Johann Sebastian Bach (1685-1750) – The Wedding Cantatas
Cantata BWV 202, “Weichet nur, betrübte Schatten” [19:38]
01 – Arie – Weichet nur, betrübte Schatten
02 – Rezitativ – Die Welt wird wieder neu
03 – Arie – Phoebus eilt mit schnellen Pferden
04 – Rezitativ – Drum sucht auch Armor sein Vergnügen
05 – Arie – Wenn die Frühlingslüfte streichen
06 – Rezitativ – Und dieses ist das Glücke
07 – Arie – Sich üben im Lieben
08 – Rezitativ – So sei das Band der keuschen Liebe
09 – Gavotte – Sehet in Zufriedenheit
Aria “Bist Du bei mir”, BWV 508 (attrib. G.H. Stolzen) [2:21]
10 – Bist Du bei mir (Stolzen)
Aria “Gedenke doch, mein Geist”, BWV 509 (anon) [1:06]
11 – Gedenke doch, mein Geist (anon)
From Cantata BWV 82, Nr. 2 – Rezitativ- “Ich habe genug” [0:57]
12 – Nr. 2 – Rezitativ- Ich habe genug
From Cantata BWV 82, Nr. 3 – Arie- Schlummert ein, ihr matten Augen [7:31]
13 – Nr. 3 – Arie- Schlummert ein, ihr matten Augen
Cantata, BWV 210 – “O holder Tag, erwünschte Zeit” [32:00]
14 – Rezitativ – O holder Tag, erwünschte Zeit
15 – Arie – Spielet, ihr beseelten Lieder
16 – Rezitativ – Doch, haltet ein, ihr muntern Saiten
17 – Arie – Ruhet hie, matte Töne
18 – Rezitativ – So glaubt man denn, daß die Musik verführe
19 – Arie – Schweigt, ihr Flöten, schweigt ihr Töne
20 – Rezitativ – Was Luft was Grab
21 – Arie – Großer Gönner, dein Vergnügen
22 – Rezitativ – Hochteurer Mann, so fahre ferner fort
23 – Arie – Seid beglückt
Emma Kirkby, soprano
The Academy of Ancient Music
Christopher Hogwood, regente

PQP
Johann Sebastian Bach (1685-1750): Cantatas BWV 51, 82a e 199 (Dessay, Le Concert d’Astrée, Haïm)
É mais um disco de Cantatas bastante conhecidas de Bach para soprano. Eu amo a francesa Dessay, mas talvez aqui ela seja dramática demais em alguns momentos — por vezes canta Bach com um acento tipicamente handeliano –, mas, no geral, sua interpretação é ótima. O álbum é dedicado a Martin Luther King. A voz de Dessay brilha especialmente entre os trompetes da Cantata BWV 51, mas pesa demais em Ich habe genug, recuperando-se notavelmente logo depois na ária Schlummert ein, ihr matten Augen. Sem dúvida, trata-se de um CD desigual, mas que vale a pena conhecer.
Johann Sebastian Bach (1685-1750): Cantatas BWV 51, 82a e 199 (Dessay, Le Concert d’Astrée, Haïm)
Cantata “Jauchzet Gott In Allen Landen” BWV 51
1) I Aria: Jauchzet Gott In Allen Landen
2) II Recitativo: Wir Beten Zu Dem Tempel An
3) III Aria: Höchster, Mache Deine Güte
4) IV Chorale: Sei Lob Und Preis Mit Ehren – V Finale: Alleluja!
Cantata No. 82, ‘Ich Habe Genug’ BWV 82a
5) Aria: Ich Habe Genug
6) Recit: Ich Habe Genug
7) Aria: Schlummert Ein
8. Recit: Mein Gott! Wann Kommt Das Schöne Nun!
9) Aria: Ich Freue Mich Auf Meinen Tod
Cantata “Mein Herze Schwimmt Im Blut” BWV 199
10) I Recitativo: Mein Herze Schwimmt Im Blut
11) II Aria & Recitativo: Stumme Seufzer, Stille Klagen
12) III Recitativo: Doch Gott Muss Mir Genädig Sein
13) IV Aria: Tief Gebückt Und Voller Reue
14) V Recitativo: Auf Diese Schmerzensreu
15) VI Chorale: Ich, Dein Betrübtes Kind
16) VII Recitativo: Ich Lege Mich In Diese Wunden
17) VIII Aria: Wie Freudig Ist Mein Herz
Natalie Dessay, soprano
Le Concert d’Astrée
Emmanuelle Haïm

PQP
.: interlúdio :. Bezerra da Silva (Coletânea)
Poucos sambistas tiveram em repertório tão interessante quanto o ex-militar da Marinha Bezerra da Silva (1927-2005). Ao invés de sambas românticos, ele caprichou na crítica social e na descrição do cotidiano do povo das favelas, seja dos pobres trabalhadores ou dos contraventores. Tudo com muito humor e cantado com uma divisão rítimica impecável que nada deixa a dever aos maiores mestres do gênero.
Rodrigo Faour
Seus sambas corrosivos e sarcásticos retratavam com maestria a malandragem e os problemas sociais da periferia do Rio. Drogas, violência policial, roubos e problemas familiares era seus temas. Bezerra foi um vanguardista que, ao dar voz aos marginalizados, criou um estilo único de samba, por vezes chamado de “sambandido”, que conectou o samba de morro com a juventude do rock e do rap, ao menos no âmbito temático. A coragem de Bezerra de gravar letras politicamente incorretas para a época, que falavam abertamente sobre a figura de traficantes que ajudavam comunidades e a vida dura na favela, sempre gerou boas controvérsias. PQP gosta, apesar da repetição da fórmula.
Bezerra da Silva (Coletânea)
1 Bicho Feroz
2 Malandragem Dá Um Tempo
3 Malandro Rife
4 Seqüestraram Minha Sogra
5 Não É Conselho
6 Fui Obrigado A Chorar
7 É Esse Aí Que É O Homem
8 Legítima Defesa
9 O Rei Da Cocada Preta
10 Saudação Às Favelas
11 Candidato Caô Caô
12 Aos Donos Da Nação
13 S.O.S. Baixada
14 Se Não Fosse A Ajuda Da Rapaziada
15 Overdose De Cocada
16 Cachorrinho De Polícia
17 Meu Pai É General De Umbanda
18 Violência Gera Violência

PQP
Arvo Pärt (1935): Fratres / Festina Lente / Summa / Cantus in Memory of Benjamin Britten (Benedek)
Este é um disco excelente. Tem todas as diferentes orquestrações de Fratres, com Summa e Festina Lente como interlúdios e Cantus in Memoriam of Benjamin Britten como uma espécie de coda. Você pode questionar se ouvir o mesmo trabalho várias vezes não é chato. Respondo que não, pois cada uma é muito diferente da outra. O som é cintilante, claríssimo. Quase difícil de acreditar que é a mesma orquestra de cada vez. Os húngaros acertaram em cheio. Mas por que tantos Fratres? Ora porque a música é demais e recebeu várias versões de Pärt. Fratres (Irmãos) é uma composição do compositor do estoniano Pärt, que exemplifica um de seus estilos de composição, o tintinnabuli. É uma música de três partes, escrita em 1977, sem instrumentação fixa. Ela foi descrita como um “conjunto fascinante de variações sobre um tema que combina atividade frenética e imobilidade sublime que encapsula a observação de Pärt de que ‘o instante e a eternidade estão lutando dentro de nós'”. Fratres foi utilizada em Amor Pleno, de Terence Malick, em Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson, em O Clube, de Pablo Larraín, em Inverno Quente, de Tom Tykwer e em mais de dez outros filmes.
Arvo Pärt (1935): Fratres / Festina Lente / Summa
1. Fratres for Strings and Percussion 08:54
2. Fratres for Violin, Strings and Percussion 10:44
3. Festina Lente for Strings and Harp Ad Libitum 07:50
4. Fratres for String Quartet 08:42
5. Fratres for Cello and Piano 11:52
6. Summa for Strings 03:46
7. Fratres for Eight Cellos 11:51
8. Fratres for Wind Octet and Percussion (arr. B. Brinner) 07:45
9. Cantus in Memory of Benjamin Britten for Strings and Bells 07:39
Hungarian State Opera Orchestra
Tamás Benedek

PQP
Arvo Pärt (1935): Passio Domini Nostri Jesu Christi Secundum Joannem (The Hilliard Ensemble)
O Hilliard Ensemble apresenta solenemente a que deve ser a Paixão mais sombria e ritualística composta desde Heinrich Schutz em meados do século XVII. Arvo Pärt selecionou o estilo musical mais severo, distante e econômico para esta Paixão segundo São João. Mais um ato litúrgico do que uma peça de concerto, não faz nenhuma concessão às convenções modernas. Teimosamente repetitiva e monocromática, deliberadamente antidramático e neutra, alcança seu efeito extraordinário e nobre através dos meios mais simples: recitativos, refrões e um pequeno conjunto instrumental. A obra tem 70 minutos sem interrupções, fato enfatizado pelos engenheiros da ECM.
Arvo Pärt (1935): Passio Domini Nostri Jesu Christi Secundum Joannem (The Hilliard Ensemble)
1 Passio Domini Nostri Jesu Christi Secundum Joannem (1982) 1:10:52
Baritone Vocals [Evangelist Quartet] – Gordon Jones (2)
Bass Vocals [Jesus] – Michael George (3)
Bassoon – Catherine Duckett
Cello – Elisabeth Wilson (2)
Choir – The Western Wind Chamber Choir
Conductor – Paul Hillier
Countertenor Vocals [Evangelist Quartet] – David James (13)
Ensemble – Evangelist Quartet, The Hilliard Ensemble
Oboe – Melinda Maxwell
Organ – Christopher Bowers-Broadbent
Soprano Vocals [Evangelist Quartet] – Lynne Dawson
Tenor Vocals [Evangelist Quartet] – Rogers Covey-Crump
Tenor Vocals [Pilate] – John Potter (2)
Violin – Elizabeth Layton

PQP
Igor Stravinsky (1882-1871): Les Noces (As Bodas) e Missa (Bernstein, Argerich, Zimerman e grande elenco…)

Les Noces (em português: As Bodas) é um balé com cantores (cantata dançada) de Igor Stravinsky. Estreou em 13 de junho de 1923 pela Ballets Russes no Théâtre de la Gaîté-Lyrique, com coreografia de Bronislava Nijinska e condução por Ernest Ansermet.
Descrevendo a preparação duma festa camponesa de casamento típica da Rússia, a obra combina o folclore russo, ritmos irregulares, a sensibilidade modernista ou cubista. Está dividida em duas partes, quatro cenas: na primeira parte, a bênção da noiva (ou, na casa da noiva), a bênção do noivo (ou, na casa do noivo) e a saída da noiva; na segunda parte, a festa de casamento. Les Noces marca a transição do período russo para o neoclássico de Stravinsky.
Em 1913, Stravinsky começou a compor Les Noces sob comissão de Sergei Diaguilev. Escreveu o libreto por conta própria a partir de letras de canções russas de casamento coletadas por Pyotr Kireevsky (1911). As partituras para voz foram completadas na Suíça em meados de 1917. Durante seu desenvolvimento, a orquestração foi alterada dramaticamente. Foi primeiramente concebida para uma orquestra sinfônica estendida, à usada em A Sagração da Primavera, passou por diversas variações, incluindo a adição de uma pianola, címbalos e um harmônio. Terminada em 1919, essa versão da obra só estreou em 1981 em Paris, conduzida por Pierre Boulez. Entretanto, essa versão foi abandonada. A estrutura final foi finalmente montada em torno de 1921, resultando em soprano, mezzosoprano, tenor, baixo, coral misto, e dois grupos de instrumentos de percussão, e quatro pianos.
A influência da música de Les Noces é identificada em obras de Philip Glass, John Adams (Short Ride in a Fast Machine), George Antheil (Ballet mecanique), Carl Orff (Carmina Burana) e Leonard Bernstein (West Side Story). Por exemplo, em Carmina Burana também se destaca o coral, uma percussão rica na orquestra e harmonias que seguem os ritmos acentuados das vozes. Melodias extensas são substituídas por formas básicas que geram efeitos de abandono repentino.
Extraído DAQUI
Igor Stravinsky (1882-1871): Les Noces (As Bodas) e Missa (Bernstein, Argerich, Zimerman e grande elenco…)
Les Noces III (The Wedding), ballet in 4 tableaux for vocal soloists, chorus, 4 pianos & percussion
01. Svadebka: First Tableau
02. Svadebka: Second Tableau
03. Svadebka: Third Tableau
04. Svadebka: Fourth Tableau
Mass, for chorus & double wind quintet
05. Mass: Kyrie
06. Mass: Gloria
07. Mass: Credo
08. Mass: Sanctus
09. Mass: Agnus Dei
English Bach Festival Chorus English Bach Percussion Ensemble
Trinity Boys’ Choir
Leonard Bernstein, regente
Martha Argerich, piano
Krystian Zimerman, piano
Cyprien Katsaris, piano
Homero Francesch, piano
Anny Mory, soprano
Patricia Parker, mezzo-soprano
John Mitchinson, tenor
Paul Hudson, bass

Carlinus
.: interlúdio:. Yamandu Costa: Lida

Em sua mais recente passagem pelo país, o maestro alemão Kurt Masur apelidou Yamandu Costa de “o Paganini do violão”. O gaúcho de Passo Fundo achou a comparação exagerada e se apressou em dizer que não tinha pacto com o demônio – segundo a lenda, o violinista Niccolà Paganini tinha. Além de ser um magnífico elogio, a alcunha inventada por Masur serviu para ressaltar o vínculo de Yamandu com o universo erudito. No mesmo ano em que estreou sua peça Bachbaridade (uma suíte para violões) no palco do Municipal do Rio de Janeiro, o músico gravou um disco com o sanfoneiro Dominguinhos, talvez o maior expoente vivo do forró. Agora solta mais um álbum – o oitavo da carreira – em que a música regional dá as cartas. (daqui)
O disco em questão, Lida, foi lançado em 2007, de forma independente, e está esgotado – como todos os outros de Yamandu. Assim como no Duofel postado há um tempo atrás, este cão se envereda pela seara dos violonistas – que evocam Radamés Gnatalli, Baden Powell e um certo regionalismo que é difícil de encontrar em dose igual à do talento instrumental (ok, não vou falar de Hermeto hoje). O resultado é essa sempre procurada sensação antagônica – de relaxamento cerebral ao mesmo tempo em que ele põe-se louco a decifrar a complexidade do que se ouve. E para mim, pouco brilho pode ser maior que este, em que uma trama tão desafiadora dá forma a algo tão belo quanto simples. A isso rotulam “genial”, e eu concordo meneando a cabeça, em respeitoso silêncio.
Yamandu Costa – Lida (320)
Yamandu Costa: violão de 7 cordas
Guto Wirtti: baixo acústico
Nicolas Krassik: violino
download – 83MB
01 Baionga
02 Missionerita
03 Dayanna
04 Lida
05 Ana Terra
06 Bem Baguala
07 Brincante
08 Adentro
09 Encerdando
10 Ventos dos Mortos

Boa audição!
Blue Dog
Ludwig van Beethoven (1770-1827): Sonatas para Violoncelo (completas) (Isserlis, Levin)
Nesta gravação, Steven Isserlis, juntamente com seu colaborador habitual, o pianista Robert Levin, apresenta as obras completas de Beethoven para violoncelo e piano, incluindo o arranjo de Beethoven para a sua Sonata para Trompa. O uso do pianoforte abre uma riqueza de possibilidades sonoras para essas obras. As cinco sonatas de violoncelo abrangem todas as fases de composição de Beethoven e, creio, são o ciclo mais importante de sonatas de violoncelo de todo o repertório. Isserlis escreve que o compositor “primeiro transforma o violoncelista num virtuoso confiante da forma clássica e, em seguida, um místico explorando estranhos mundos novos de beleza sobrenatural”. Não chego a ser apaixonado por estas Sonatas, mas a Op. 102, Nº 2, é fodíssima. Vale a pena,
Ludwig van Beethoven (1770-1827): Sonatas pata Violoncelo (completas) (Isserlis, Levin)
CD 1 79:50
Cello Sonata In F Major Op 5 No. 1
1.1 Adagio Sostenuto 2:47
1.2 Allegro 14:11
1.3 Allegro Vivace 7:05
Cello Sonata In G Minor Op 5 No. 2
1.4 Adagio Sostenuto Ed Expressivo 5:19
1.5 Allegro Molto Più Tosto Presto 14:12
1.6 Rondo: Allegro 9:16
Cello Sonata In A Major Op 69
1.7 Allegro, Ma Non Tanto 12:35
1.8 Scherzo: Allegro Molto 5:24
1.9 Adagio Cantabile 1:30
1.10 Allegro Vivace 7:28
CD 2 79:08
Cello Sonata In C Major Op 102 No. 1
2.1 Andante 2:53
2.2 Allegro Vivace 5:11
2.3 Adagio Tempo D’andante 3:15
2.4 Allegro Vivace 4:28
Cello Sonata In D Major Op 102 No. 2
2.5 Allegro Con Brio 6:43
2.6 Adagio Con Molto Sentimento D’affetto 8:12
2.7 Allegro – Allegro Fugato 4:34
2.8 Variations In G Major On “See The Conqu’ring Hero Comes” From Handel’s Judas Maccabacus Wo 045 11:24
2.9 Variations In F Major On “Ein Mädchen Oder Weibchen” From Mozart’s Die Zauberflöte Op 66 9:17
2.10 Variations In E Flat Major On”Bei Männern, Weiche Liebe Fühlen” From Mozart’s Die Zauberflöte Wo 046 8:54
Horn Sonata In F Major Op 17, Arranged For Cello And Piano
2.11 Allegro Moderato 7:50
2.12 Poco Adagio, Quasi Andante 1:19
2.13 Rondo: Allegro Moderato 5:05

PQP
.:interlúdio:. Tom Jobim: Matita Perê
Tom inventou Matita Perê (1973) e começou a gravá-lo no Rio. Não estava gostando do resultado. Achou que precisava de melhores músicos e maior qualidade de gravação.
(Ouvindo o disco, você logo entende que a exigência era enorme. O álbum alterna canções com música instrumental, indo com naturalidade do popular ao erudito).
Foi para Nova Iorque com os poucos brasucas que se salvaram da experiência carioca, bancou tudo do próprio bolso e fez um dos melhores álbuns de música brasileira de todos os tempos. Estava com 46 anos e tinha todo o prestígio e consideração do mundo.
Os temas escolhidos por Jobim para Matita Perê passam da leveza e doçura, das praias, barquinhos e garotas, para a natureza e lendas do um Brasil profundo, sertanejo. Ele compõe a partir de suas observações e da leitura de autores como Guimarães Rosa e dos poetas Carlos Drummond de Andrade e Mário Palmério.
Para o crítico musical Zuza Homem de Mello, “Matita Perê é um disco que pouco a pouco foi sendo compreendido, entendido e principalmente admirado. É um marco na carreira de Tom Jobim”.
A faixa de abertura traz aquele que se tornaria um dos maiores clássicos do compositor, Águas de março, cujo título foi retirado de poema de Olavo Bilac.
Já a faixa-título, uma suíte, cita o folclore e nasce de suas leituras, em especial do conto Duelo de Guimarães Rosa, que contou com a colaboração de Paulo César Pinheiro na letra.
Paulo César Pinheiro falou sobre a parceria: “O Tom me procurou, porque eu tinha uma música no Festival da Canção chamada Sagarana, parceria com o João de Aquino. Tom ouviu, ficou impressionado e me ligou dizendo que tinha ideias semelhantes àquelas”.
(Quando vocês se depararem com a próxima lista de Melhores Canções Brasileiras de Todos os Tempos, procurem por uma chamada Matita Perê. Se ela não estiver presente, abandonem a lista e falem mal do criador dela).
Matita Perê marca o início da temática ecológica na obra de Tom Jobim, que seguiria com força em discos como Urubu (1975), Terra Brasilis (1980) e Passarim (1987).
Ao mesmo tempo, evidencia-se o Jobim sinfônico, claramente influenciado por Villa Lobos, em faixas como Crônica da casa assassinada, baseada no romance de Lúcio Cardoso, outra suíte com quase 10 minutos de duração, feita para a trilha do filme de Paulo César Sarraceni.
Não deixe de ouvir. É falha grave desconhecer este disco.
Tom Jobim: Matita Perê
1 Águas de Março (Antônio Carlos Jobim) — 3:56
2 Ana Luiza (Antônio Carlos Jobim) — 5:26
3 Matita Perê (Antônio Carlos Jobim, letra de Paulo César Pinheiro) — 7:11
4 Tempo do Mar (Antônio Carlos Jobim) — 5:09
5 The Mantiqueira Range (Paulo Jobim) — 3:31
6 Crônica da Casa Assassinada (Antônio Carlos Jobim) — 9:58
a. “Trem Para Cordisburgo”
b. “Chora Coração” (letra de Vinícius de Moraes)
c. “Jardim Abandonado”
d. “Milagre e Palhaços”
7 Rancho nas Nuvens (Antônio Carlos Jobim) — 4:04
8 Nuvens Douradas (Antônio Carlos Jobim) — 3:16
Antônio Carlos Jobim – piano, violão e vocal
Claus Ogerman – arranjos (exceto faixa 3) e regência
Dori Caymmi – arranjo da faixa 3
João Palma – bateria e percussão
Airto Moreira – bateria e percussão
George Devens – percussão
Harry Lookousky – spalla
Frank Laico – engenharia de áudio
Ray Beckenstein – flautas e madeiras
Phil Bodner – flautas e madeiras
Jerry Dodgion – flautas e madeiras
Don Hammond – flautas e madeiras
Romeo Penque – flautas e madeiras
Urbie Green – trombone
Ron Carter – baixo
Richard Davis – baixo

PQP, 2019 (com Teca Lima)
.: interlúdio :. Silvia Telles: Amor em Hi-fi

Há discos que funcionam como cápsulas do tempo, capturando não apenas um som, mas o próprio ar que se respirava em um dado momento. Amor em Hi-Fi, de Sylvinha Telles, é um desses raros artefatos: lançado em 1960, no exato instante em que a bossa nova deixava de ser uma promessa de estúdio para se tornar um fenômeno, o álbum registra o gesto elegante e um pouco incerto de uma cantora que já era moderna antes mesmo de a modernidade ganhar nome. Sylvia Telles (1934–1966) pertence a essa linhagem de artistas que a história meio que desprezou. Não apenas por sua morte precoce, aos 32 anos, em um acidente automobilístico, mas porque sua obra ficou por décadas fora de catálogo, aguardando que o interesse pelo período pré-bossa a resgatasse do esquecimento. Cantora de voz frágil, sim — como quase todos os intérpretes da bossa —, mas dotada de um frescor e uma naturalidade que poucas de sua geração alcançaram, Sylvia foi figura central na cena que fermentava nos apartamentos de Copacabana no final dos anos 1950. Namorou João Gilberto, gravou Jobim antes de Jobim ser Tom Jobim, e trouxe para o disco uma leveza que parecia desafiar o peso das orquestras e a empostação da era do rádio.
Amor em Hi-Fi é, em muitos sentidos, o retrato dessa transição. O título já diz muito: “amor em alta fidelidade” — a promessa tecnológica do som estéreo, a nitidez da gravação, a captação próxima da voz que os microfones modernos permitiam. É um disco consciente do meio em que se insere, e essa consciência técnica se traduz em uma produção elegante, com arranjos de cordas, flautas, vibrafone e coros suaves que ora aproximam o som do jazz de câmara, ora o puxam de volta para as convenções orquestrais do passado. Como disse, é um trabalho incerto, de transição. O repertório é dividido entre aquele que seria o cânone bossa-novista e um punhado de standards norte-americanos. No primeiro grupo, ela entrega leituras adoráveis de “Samba Tôrto”, “Corcovado” e “Samba de Uma Nota Só” — canções que ainda estavam quentes do forno de Tom Jobim e João Gilberto. A versão de “Dindi”, em particular, é uma das mais melancólicas — e lindas!!! — já gravadas, condizente com a fama de que Sylvia teria dado a definição da canção. No segundo grupo — uma das faixas mais comentadas do disco — ela enfrenta um medley com “All The Way”, “The Boy Next Door” e “They Can’t Take That Away From Me”, canções de Sammy Cahn e Gershwin que ela canta com clareza de dicção e boa intenção, mas com uma evidente falta daquela ginga que a língua inglesa, cantada por uma brasileira, ainda não havia aprendido. É como se sua voz, tão à vontade na melancolia tropical, subitamente ganhasse um peso escolar: correta, afinada, mas sem o balanço.
Essa dualidade — o encanto e a hesitação — é, talvez, a maior marca do disco. A crítica da época já notava que Sylvia, embora fosse musa e heroína do movimento bossa-novista, por vezes caía nas armadilhas dos produtores de estúdio, mais afeitos às fórmulas dançantes do que à inovação rítmica que João Gilberto estava impondo. Em “Oba-lá-lá”, por exemplo, ela quase parodia a alegria saltitante que João imprimiu à canção. O resultado é um álbum que oscila entre momentos de cristalina perfeição (“Samba Tôrto”, “Dindi”) e outros em que o arranjo parece datado, preso a uma certa “lustrosa” sonoridade de fim de década. Ainda assim, vale repetir: a voz de Sylvia Telles está entre as mais belas que o Brasil já produziu. Não pela potência, mas pela intimidade. Ela canta como quem confidencia, e essa qualidade — raríssima — sustenta o disco mesmo em seus momentos menos inspirados. Ouvir Amor em Hi-Fi hoje é, portanto, um exercício de escuta generosa. Não se busca nele a revolução rítmica e harmônica de Chega de Saudade (lançado um ano antes, em 1959), mas o eco de um instante em que tudo ainda estava em aberto: o jazz e o samba, o estúdio e a sala de estar, a cantora de rádio e a musa da bossa. É o retrato de alguém que viveu na fronteira entre dois mundos — e que, por pouco, não se tornou a maior ponte entre eles.
Ouvir, fechar os olhos, imaginar o Rio do fim dos anos 1950. E agradecer a Sylvia por ter deixado esse registro, mesmo que imperfeito, mesmo que datado. Como ela mesma canta no encerramento do disco, em “Não Gosto Mais de Mim”: há uma tristeza que não se explica, mas que, cantada assim, de leve, quase nos reconcilia com a vida.
Silvia Telles: Amor em Hi-fi
A1 Samba Tôrto
Written-By – Aloysio De Oliveira, Antonio Carlos Jobim
A2.1 All The Way
Written-By – S. Cahn – J.V. Heusen*
A2.2 The Boy Next Door
Written-By – H. Martin*, R. Blane*
A2.3 They Can’t Take That Away From Me
Written-By – G. Gershwin-I. Gershwin*
A3 Corcovado
Written-By – Antonio Carlos Jobim
A4 Têtê
Written-By – Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli*
A5 Se É Tarde Me Perdoa
Written-By – Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli*
B1 Chora Tua Tristeza
Written-By – Luvercy Fiorini, Oscar Castro Neves*
B2 Dindi
Written-By – Aloysio De Oliveira, Antonio Carlos Jobim
B3 Oba-Lá-Lá
Written-By – Aloysio De Oliveira, João Gilberto
B4 Samba De Uma Nota Só
Written-By – Antonio Carlos Jobim, Newton Mendonça
B5 Por Causa De Você (Gardez Moi Pour Toujours)
Lyrics By [Versão De] – Serge Rodhe
Written-By – Antonio Carlos Jobim, Dolores Duram*
B6 Não Gosto Mais De Mim
Written-By – Sérgio Ricardo

PQP
Josquin Desprez (1440-1521): Missa Hercules dux Ferrariae (A Sei Voci)
Confesso ter me apaixonado por este disco mais devido ao trabalho impecável do time de músicos que participam da gravação do que pelas obras interpretadas. Desprez é um precursor da música francesa e, como tal, acerta de forma espetacular assim como erra bisonhamente, mas sempre mantendo um ar blasé. Talvez eu esteja sendo injusto com Desprez, porém aqui há falta de unidade. Há movimentos belíssimos ao lado de coisas para cumprir carnê. A missa é um carnê, não? Bom, vou parar por aqui. Tenho receio de que Clara Schumann fique muito indignada comigo. Ah, CD de som espetacular. Aumente o volume! E, ah!, o nome dele, em francês, é bem deprê.
Josquin Desprez (1440-1521) – Missa Hercules dux Ferrariae (A Sei Voci)
A Sei Voci – Maitrise Notre-Dame de Paris – Les Saqueboutiers de Toulouse –
Ensemble Labyrinthes
Year: 1996
Style: Sacred music
Country: France
TrackList:
01 – Josquin Desprez – Deus, In Nomine tuo salvum me fac
02 – Johannes Martini – Perfunde coeli rore
Josquin Desprez: Missa Hercules Dux Ferrariae:
03 – Josquin Desprez – Introit
04 – Josquin Desprez – Kyrie, Christe, Kyrie
05 – Josquin Desprez – Gloria
06 – Josquin Desprez – Credo
07 – Josquin Desprez – Sanctus, Benedictus
08 – Josquin Desprez – Agnus Dei
09 – Josquin Desprez – Inviolata, integra, et casta es, Maria
10 – Josquin Desprez – Miserere mei, Deus
11 – Eneas Dupre – Chi a martello dio gl’il toglia
A Sei Voci:
Raoul Le Chenadec – countertenor
Thierry Brehu – tenor
Eric Gruchet – tenor
James Gowings – baritone
Didier Bolay – bass
Maitrise Notre-Dame de Paris:
William Anger, Ambroise Audoin-Rouseau, Raphael Audoin-Rouseau,
Benjamin Limonet, Raphael Mas, Francois-Xavier Casadavant – treble
Aino Lund, Marie-Pierre Wattiez, Valerie Rio, Cyprile Meier,
Mathilde Ambrois – soprano
Andres Rojas Urrego, Cecile Pilorger, Helene Bordes – alto
Pascal Lefebvre, Christophe Poncet, Marc Manodritta, Nicolas Maire – tenor
Eric Lavoipierre, Robert Labrosse, Emmanuel Bouquey, Emmanuel Vistorky,
Serge Schoonbroodt – bass
Les Saqueboutiers de Toulouse:
Jean-Pierre Canihac – cornett
Daniel Lassalle, Stefan Legee – sackbut
Thierry Durant – bass sackbut
Gisele David – percussions

PQP
Johann Gottlieb Graun (1703–1771): Concertos (Wiener Akademie, Martin Haselböck)
Esse é um daqueles CDs a respeito do qual eu não esperava nada e que me surpreendeu positivamente, muito positivamente. Graun é uma espécie de Carl Phillip Emanuel sem zumbido na cabeça (o que torna CPE genial, bem entendido). Então, de forma um pouco mais convencional, Graun nos entusiasma com sua grande inventividade. Agora, vai entender porque está tão fora do repertório… Atenção, orquestras de câmara, confiram!
Johann Gottlieb Graun (1703–1771): Concertos (Wiener Akademie, Martin Haselböck)
1. Sinfonia Grosso in D major: I. Allegro maestoso 3:31
2. Sinfonia Grosso in D major: II. Arietta: Grazioso 2:59
3. Sinfonia Grosso in D major: III. Allegro scherzando 3:37
4. Violin Concerto in D minor: I. Allegro 5:37
5. Violin Concerto in D minor: II. Adagio 5:30
6. Violin Concerto in D minor: III. Allegro assai 6:00
7. Violin Concerto in A major: I. Allegretto 6:28
8. Violin Concerto in A major: II. Largo 6:17
9. Violin Concerto in A major: III. Allegro assai 5:50
10. Viola da Gamba Concerto in A major: I. Allegretto 9:13
11. Viola da Gamba Concerto in A major: II. Adagio 8:02
12. Viola da Gamba Concerto in A major: III. Allegro 5:32
Wiener Akademie
Martin Haselböck

PQP
W. A. Mozart (1756-1791): Réquiem, K. 626 (Celibidache, ORTF)
A Missa de Réquiem é uma das obras mais populares de Mozart e ocupava no repertório de Sergiu Celibidache uma posição tão importante quanto as sinfonias de Beethoven, Brahms e Bruckner. Entre as décadas de 1960 e 90, há gravações ao vivo do Réquiem com Celibidache regendo em Turim, Milão, Paris e Munique. Isso se eu não tiver perdido alguma na breve busca que fiz a respeito. Note-se ainda que, ao contrário de outros maestros como Klemperer, Abbado e Karajan, o romeno não se notabilizou por reger óperas de Mozart. Já a música coral e religiosa era bem mais frequente em seu repertório: Missa de Bruckner, Sinfonia de Salmos de Stravinsky e os outros Réquiem mais famosos, os de Verdi, Fauré e Brahms.
A Orquestra da Rádio-Teledifusão Francesa estava em uma excelente fase, tendo gravado poucos anos antes a inesquecível série de obras de Debussy com Jean Martinon (aqui) e discos também muito bons de Saint-Säens com o mesmo maestro. O naipe de cordas dos franceses, muito bem guiados aqui por Celibidache e pouco antes por Martinon, contribui com uma sonoridade que mistura beleza e gravitas. Outro destaque é a bela e suave voz de Arleen Auger nos solos para soprano.
Uma última observação: não são raros os casos de intérpretes que vão tocando ou regendo mais devagar conforme avançam em idade. Aqui, a orquestra de Paris e Celibidache (aos 61 anos) fazem todos os movimentos do Réquiem de Mozart em andamentos mais rápidos do que na gravação de 1995 em Munich, quando o maestro tinha mais de 80 anos. Especialmente no movimento inicial, com sua introdução orquestral misteriosa, Celibidache escolhe aqui um passo mais lento que o da maioria das gravações, mas em 1995 esse movimento duraria um minuto a mais. Em ordem decrescente, algumas minutagens do Introitus para comparação: Celibidache em Munique – 7:51 / Celibidache em Paris – 6:47 / Schreier em Dresden – 5:15 / Marriner em Londres – 5:01 / Abbado em Berlim – 4:28
W. A. Mozart (1756-1791): Réquiem em Ré Menor, K626
1. Introitus: Requiem aeternam
2. Kyrie eleison
3. Dies irae
4. Tuba mirum
5. Rex tremendae majestatis
6. Recordare, Jesu pie
7. Confutatis maledictis
8. Lacrimosa dies illa
9. Domine Jesu Christe
10. Hostias et preces
11. Sanctus
12. Benedictus
13. Agnus Dei
14. Lux aeterna
Arleen Auger, soprano
Gurli Plesner, contralto
Adalbert Kraus, tenor
Roger Soyer, bass
Choeur et Orchestre National de l’ORTF, Sergiu Celibidache
Recorded: Paris, 22 fev 1974

Pleyel
.: interlúdio :. John Surman Quartet: Stranger Than Fiction
IM-PER-DÍ-VEL !!!
Alguém aí já deve ter notado que eu adoro John Surman. E é grande o número de downloads a cada postagem. O homem é mesmo espantoso. Este trabalho é muito mais jazzístico do que os últimos que postei. Não obstante, Surman segue interessado na música folclórica e religiosa da Inglaterra, mas desta vez dá-lhe outra feição. A banda é toda inglesa. O disco começa calma e livremente, com Canticle with response, de clara influência religiosa, e A distant spring. Fecha da mesma forma, com a totalmente improvisada Triptych, quase 15 minutos de interação altamente inteligente e empática entre os quatro músicos. No meio do disco há música vigorosa, incluindo Tess — Surman é um grande leitor, fã de Thomas Hardy — e Across the Bridge. Surman é sempre lírico e apaixonado. Muito estimulante. Dá-lhe.
John Surman Quartet: Stranger Than Fiction
1. Canticle With Response 6:09
2. A Distant Spring 7:42
3. Tess 6:39
4. Promising Horizons * 5:30
5. Across The Bridge 7:52
6. Moonshine Dancer 6:42
7. Running Sands 9:07
8. Triptych * 14:43
composed by Surman except * by Surman/Taylor/Laurence/Marshall
recorded December 1993, Rainbow Studio, Oslo
John Surman, baritone and soprano saxophones, alto and bass clarinets;
John Taylor, piano;
Chris Laurence, bass;
John Marshall, drums

PQP
Franz Joseph Haydn (1732-1809): Cello Concertos / Sinfonia concertante (Suzuki, La Petite Bande, Kuijken)
IM-PER-DÍ-VEL !!!
Difícil encontrar melhores gravações destes concertos. Hidemi Suzuki e Sigiswald Kuijken fazem misérias nos belíssimos concertos de Haydn e na Concertante. Não é nada surpreendente o fato deste CD ter aparecido em todas as listas de melhores do ano quando de seu lançamento. Equilíbrio, musicalidade, senso de estilo, tudo parece ter sido minuciosamente pensado e executado.
Franz Josef Haydn (1732-1809):
Cello Concertos / Sinfonia concertante
1. Cello Concerto No. 1 in C major, H. 7b/1: 1. Moderato
2. Cello Concerto No. 1 in C major, H. 7b/1: 2. Adagio
3. Cello Concerto No. 1 in C major, H. 7b/1: 3. Allegro molto
5. Cello Concerto No. 2 in D major, H. 7b/2 (Op. 101): 1. Allegro moderato
6. Cello Concerto No. 2 in D major, H. 7b/2 (Op. 101): 2. Adagio
7. Cello Concerto No. 2 in D major, H. 7b/2 (Op. 101): 3. Rondo. Allegro
8. Sinfonia Concertante for violin, cello, oboe, bassoon & orchestra, H. 1/105: 1. Allegro
9. Sinfonia Concertante for violin, cello, oboe, bassoon & orchestra, H. 1/105: 2. Andante
10. Sinfonia Concertante for violin, cello, oboe, bassoon & orchestra, H. 1/105: 3. Allegro con spirito
Hidemi Suzuki, violoncelo
La Petite Bande
Sigiswald Kuijken

PQP
.: interlúdio :. Miles Davis: My Funny Valentine (1964)
Centenário de Miles Davis (26 de maio de 1926 – 28 de setembro de 1991)
🎂
Gravado no New York Philharmonic Hall, sala inaugurada em 1962 para abrigar a N.Y. Philharmonic – a casa anterior da orquestra era o famoso Carnegie Hall, onde Miles também tocou – esse álbum marca o peso do nome de Miles Davis, para lotar uma sala daquela proporção e renome. Gravado no dia 12 de fevereiro de 1964, dois dias antes do dia dos namorados norte-americano, talvez esse seja o motivo para o grupo ter tocado o standard originado em um musical da Broadway de 1937 com música de Richard Rodgers, autor de vários outras melodias que seriam adotadas por gênios do jazz, com destaque para My Favorite Things, gravada por Coltrane. Rodgers, aliás, era filho de um judeu cujo sobrenome (Rogazinsky) foi americanizado. Triste constatação: há 90 anos alguns dos judeus mais famosos criavam belas melodias (Rodgers, Gershwin) ou não tão belas mas complexas e influentes (Schöenberg), enquanto hoje alguns judeus famosos estão lançando bombas sobre crianças e idosos.
Voltando para Miles Davis: naquele ano de 1964 ele finalmente havia montado um novo grupo estável, após alguns anos de muitas mudanças após o seu famoso grupo que incluía John Coltrane e os pianistas Bill Evans e Winton Kelly. Os jovens músicos Herbie Hancock e Tony Williams, assim como os um pouco menos jovens Ron Carter e George Coleman ajudaram Miles a trilhar novos caminhos e, com exceção do saxofonista Coleman, todos eles seguiriam tocando com Miles – no estúdio e ao vivo – até 1968 ou 69. Sobre a saída Coleman, o seu substituto Wayne Shorter respondeu, em 1992, em uma entrevista, se talvez os outros músicos consideravam Coleman antiquado, ‘old-fashioned’. Shorter respondeu:
Não sei. Herbie, Ron e Tony nunca disseram nada negativo sobre George Coleman. Eles estavam voltando do Japão e o empresário de Miles Davis me ligou: “Quer tocar com Miles? Ele está sem saxofonista, em Los Angeles, com data no Hollywood Bowl.” Nunca comentaram nada sobre por que motivo George não estava mais lá. Mas eu sentia que quando alguém começava a comparar os saxofonistas que tocaram com Miles – George, John Coltrane, Sonny Sitt e eu – Herbie, Ron e Tony nunca deixavam essas comparações acontecer. Diziam: “Cada um é diferente.” Eram bastante protetores de modo natural. Não deixavam ninguém jogar pedras nos seus parceiros. (entrevista aqui)
Seja como for, naquele fevereiro de 1964 os sopros de George Coleman e Miles Davis estavam se entendendo bastante bem e aquele concerto rendeu dois LPs: um de baladas mais lentas, este aqui, e outro com faixas mais rapidinhas intitulado “Four & More”. Nos temas mais rápidos, segundo o próprio Miles, a banda se entusiasmou – talvez pelo nervosismo de tocar naquela sala tão especial – e acelerou os andamentos para além do usual. Nesses temas mais lentos, a intensidade emocional soa mais equilibrada e bem acabada. Em sua autobiografia Miles lembrou ainda que o dinheiro da bilheteria seria doado para instituições beneficentes e os músicos de sua banda ficaram sabendo disso minutos antes de entrarem no palco, o que não os deixou exatamente satisfeitos… “Acredito que a raiva criou um fogo, uma tensão que alcançou o instrumento de cada um, e talvez essa seja uma das razões de por que todos tocaram com tanta intensidade”, disse Miles Davis. Ao vivo é assim, cada dia é um dia.
Miles Davis Quintet: My Funny Valentine
Miles Davis – trumpet
George Coleman – tenor saxophone
Herbie Hancock – piano
Ron Carter – double bass
Tony Williams – drums
Recorded: February 12, 1964

Pleyel
Joseph Haydn (1732-1809): Complete Violin Concertos (Kussmaul, Hill)
Gents, este CD vale a pena pela raridade do repertório. Os concertos para violino de Haydn são fortemente mais ou menos. Não os achei muito apaixonantes. Como fiz anteontem e ontem com Vivaldi, primeiro um disco médio, depois um arrasa-quarteirão. Então, preparem-se porque programei um SENSACIONAL disco de Haydn para amanhã às 9h. Um puro mamilo: grande, desfrutável, irrecusável, abordável, indubitável, confortável, inseparável, saudável, violável, estável, palpável, inesgotável, abocanhável, acessível, disponível e leviano. Tudo para você!
Joseph Haydn (1732-1809): Complete Violin Concertos
Concerto for violin and orchestra in A major, ‘melk’, Ohb. VIIa:3
1. Con for vn & orch in A, Melk, Hob. Vlla: 3: I. Allegro moderato
2. Con for vn & orch in A, Melk, Hob. Vlla: 3: II. Adagio
3. Con for vn & orch in A, Melk, Hob. Vlla: 3: III. Allegro
Concerto for violin and orchestra in C major, Hob. VIIa:1
4. Con for vn & orch in C, Hob. Vlla: 1: I. Allegro moderato
5. Con for vn & orch in C, Hob. Vlla: 1: II. Adagio
6. Con for vn & orch in C, Hob. Vlla: 1: III. Presto
Concerto for violin, harpsichord and orchestra in F major, Hob. XVIII:6
7. Con for vn, harpsichord & orch in F, Hob. XVIII: 6: I. Allegro moderato
8. Con for vn, harpsichord & orch in F, Hob. XVIII: 6: II. Largo
9. Con for vn, harpsichord & orch in F, Hob. XVIII: 6: III. Presto
Concerto for violin and orchestra in G major, Hob. VIIa:4
10. Con for vn & orch in G, Hob. Vlla: 4: I. Allegro moderato
11. Con for vn & orch in G, Hob. Vlla: 4: II. Adagio
12. Con for vn & orch in G, Hob. Vlla: 4: III. Allegro
Rainer Kussmaul, violin, conductor
Robert Hill, harpsichord
Amsterdam Bach Soloists

PQP
Eleni Karaindrou (1941): Trilha Sonora de “A Eternidade e um Dia”
As definições e fronteiras estão cada vez mais bobas, não? Acho que esta trilha sonora não é música erudita, apesar de a grega Eleni Karaindrou ser considerada uma compositora deste gênero. É que hoje revi o belo filme de Theo Angelopoulos e me deu vontade de postar a trilha sonora aqui. Talvez devesse ser um “.:interlúdio:.”, sei lá. Trata-se quase só de variações sobre um certo tema chamado por Karaindrou / Angelopoulos de Eternidade. Talvez a postagem não faça sentido sem o filme, muito alegórico e no qual presente e passado misturam-se todo o tempo.
Tinha uma anotação sobre Eleni em meu micro, certamente copiada de algum brumoso site português: Eleni Karaindrou, compositora grega, com formação em etnomusicologia, para além de história e arqueologia, compõe principalmente para cinema e teatro. A sua música é simples, harmoniosa, romântica, serena, mas ao mesmo tempo trágica, nostálgica… Lembra-nos paisagens ensombradas de neblina, com uma réstia de sol ao fundo. Lembra cores sombrias que se transformam em arco-íris brilhantes. Todos os adjectivos que possa encontrar para descrever a sua música parecerão pobres depois de se ouvir.
Eleni Karaindrou – Trilha Sonora de “A Eternidade e um Dia”
1. Hearing The Time
2. By The Sea
3. Eternity Theme
4. Parting
5. Depart And Eternity Theme
6. Borders
7. Wedding Dance
8. Parting B
9. To A Dead Friend
10. Eternity Theme
11. Depart And Eternity Theme
12. Bus
13. Depart And Eternity Theme
14. Bus
15. Trio And Eternity Theme
16. Poet
17. Depart And Eternity Theme
18. Depart
Músicos: Eleni Karaindrou, Isabelle Renauld, Fabrizio Bentivoglio, Achileas Skevis, Alexandra Ladikou, Despina Bebedelli, Helene Gerasimidou, Iris Chatziantoniou, Nikos Kouros, Alekos Oudinotis, Nikos Kolovos, Efthimis Pappas, Vassilis Seimenis, Pemi Zouni, Michael Yannatos, Leonidas Vardaros, Petros Fyssoun, Yannis Mohlas, Andreas Chekouras, Petros Markaris.

PQP
Sergei Rachmaninov (1873 – 1943): Transcrições para Piano – Marek Kozák ֎
Transcrever obras orquestrais para piano pode ser uma tarefa ingrata, mas Rachmaninov recria com sucesso o som orquestral no teclado: Ainda não tive tempo de escrever para agradecer a Rachmaninov pelo arranjo feito.
[Glazunov]
Para esta postagem escolhi um disco com obras de um compositor e pianista – amado por tantos e desdenhado por alguns – Sergei Rachmaninov.
Como pianista ele foi maioral e a grana que ganhou com suas apresentações lhe permitiu viver em Beverly Hills, ter casa de veraneio na Suíça e satisfazer algumas de suas paixões, como ter carros, caríssimos naqueles dias, assim como hoje…
O disco traz as transcrições de diversas peças feitas para piano solo, pois que ele também fez transcrições para piano a quatro mãos, como uma das sinfonias de Glazunov. Rachmaninov segue a tradição estabelecida por outros compositores pianistas, como Franz Liszt e, posteriormente, Ferruccio Busoni. Ele aprendeu a técnica de fazer arranjos para piano ainda como estudante no Conservatório de Moscou, onde se matriculou aos doze anos de idade. Um dos desafios propostos pela transcrição, tanto para o trans(gressor)critor quanto para o intérprete, é recriar ao piano o som do conjunto original. No caso de uma canção, por exemplo, o piano já está lá e o teclado deve ‘cantar’ também.
Iniciando o discos temos três movimentos da Partita para violino solo BWV 1006, de Bach. Sobre essa minissuíte, o interessante artigo da página Interlude [aqui] diz: Não houve problemas com o reconhecimento do nome quando Rachmaninoff arranjou três movimentos da terceira partitura para violino de Johann Sebastian Bach para piano solo em 1933. Um comentarista escreveu: “Com algumas exceções, Rachmaninoff foi geralmente bastante fiel à música original em suas transcrições. Neste trabalho com Bach, no entanto, ele adicionou partes contrapontísticas e harmonias porque o original foi escrito para violino solo.” Rachmaninoff repensou completamente os três movimentos “para teclado com uma completude quase desconcertante… É muito característico do estilo conciso da escrita para teclado posterior de Rachmaninoff, e lamenta-se que ele não tenha feito paráfrases de outros movimentos da Partita.” Rachmaninoff apresentou a primeira execução dos três movimentos no início de sua temporada de 1933/34 em Harrisburg, Pensilvânia, e eles foram publicados naquele mesmo ano. Nem todos ficaram satisfeitos, e Rachmaninoff foi alvo de críticas por parte de “diversos puritanos e pseudo-intelectuais, especialmente porque a moda de confinar a música barroca para teclado ao cravo estava se intensificando na época”.
Como não sorrir ao ouvir a transcrição da canção Wohin, de Schubert, e Lilacs, do próprio Rchmaninov. Ele certamente tinha afinidade com essas peças. O Schezo, de Sonho de Uma Noite de Verão, de Mendelssohn, é também espetacular.
De olho em lindos encores, Rachmaninov transcreveu duas peças do violinista Fritz Kreisler, outro showman daqueles dias. Liebesleid e Liebesfreud são os nomes contrastantes… A propósito, Kreisler e Rachmaninov deram concertos juntos. Conta-se que em um recital da dupla em Nova Iorque, em um certo ponto, Fritz perdeu-se na partitura. Em pânico, sussurrou para Rachmaninoff: “Onde estamos?”. A resposta veio prontamente: “Carnegie Hall”.
Quem diria que por trás daquela cara melancólica haveria assim, bom humor?
Não faltam lolipops ao disco, como não poderia deixar de ser, e são todos ótimos: Hopák, de Mussorgsky, o Voo do Besouro, de Rimsky-Korsakov, uma Canção de Ninar, de Tchaikovsky. O Minueto, da Suíte L’arlésienne, de Bizet, foi uma de suas primeiras transcrições, feita logo após o sucesso de seu Concerto para Piano No. 2.
O disco é muito recente, foi gravado em 2025 e o selo Supraphon tem uma produção ótima. O arquivo traz o pdf do libreto com lindas fotos feitas na Villa Senar, casa que Rachmaninov tinha na Suíça. Marek Kozák, o pianista, é uma das figuras jovens mais notáveis da cena musical checa. Finalista do Concurso Internacional de Piano Ferruccio Busoni de 2019 em Bolzano, vencedor do Concurso Europeu de Piano em Bremen em 2018 e em 2021 ganhou o prestigioso Concurso Géza Anda, Zurique.

Johann Sebastian Bach (arranjo de Rachmaninov)
Partita No. 3 in E Major, BWV 1006:
- Preludio
- Gavotte
- Gigue
Franz Schubert (arranjo de Rachmaninov)
- Die schöne Müllerin, Op. 25: Wohin?
Felix Mendelssohn (arranjo de Rachmaninov)
- A Midsummer Night’s Dream, Op. 61: Scherzo
Modest Mussorgsky (arranjo de Rachmaninov)
- Sorochyntski Fair: Hopak
Georges Bizet (arranjo de Rachmaninov)
- L’arlésienne Suite No. 1, Op. 23bis: Minuet
Fritz Kreisler (arranjo de Rachmaninov)
- Liebesfreud
Franz Behr (arranjo de Rachmaninov)
- Lachtäubchen, Op. 303: Polka de W. R
Sergei Rachmaninov
- Twelve Romances, Op. 21:5: Lilacs
Peter Ilich Tchaikovsky (arranjo de Rachmaninov)
- Six Romances, Op. 16: Lullaby
Fritz Kreisler (arranjo de Rachmaninov)
- Liebesleid
Nikolai Rimsky-Korsakov (arranjo de Rachmaninov)
- The Tale of Tsar Saltan: Flight of the Bumblebee
Sergei Rachmaninov
- Six Romances, Op. 38:4: Daisies
Franz Liszt (cadência de Rachmaninov)
- Hungarian Rhapsody No. 2 in C-Sharp Minor
Marek Kozák, piano
BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE
MP3 | 320 KBPS | 146 MB
The new album by pianist Marek Kozák featuring all transcriptions by Sergei Rachmaninoff has received a superb review together with the Editor’s Choice in the May issue of Gramophone magazine
Aproveite!
René Denon

Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1788): Sinfonias de Berlim a Hamburgo (AKAMUS)
IM-PER-DÍ-VEL !!!
Que compositor e que orquestra! Cada sinfonia tendo personalidade própria sendo respeitada pela AKAMUS. Este disco tem momentos realmente surpreendentes. A Sinfonia Wq. 177 é talvez a mais impactante à primeira escuta. Tem um caráter dramático muito forte, com contrastes abruptos, nervosos — típico do espírito Sturm und Drang. O primeiro movimento já cria uma tensão inquieta, e a obra inteira soa como algo à beira de explodir. A Sinfonia Wq. 182/1 é outra joia. O que chama atenção aqui é a liberdade formal e a energia: o Presto final é vibrante, quase imprevisível, enquanto o movimento lento tem uma beleza suspensa, cheia de nuances. Já a Sinfonia Wq. 182/5 tem um clima mais sombrio e introspectivo. O contraste entre o Larghetto (muito expressivo, quase melancólico) e o Presto final cria um efeito dramático bem marcante. Ah, também vale a pena destacar a Sinfonia Wq. 182/4, especialmente pelo movimento lento (Largo ed innocentemente), que é de uma delicadeza quase mozartiana — mas com aquela estranheza harmônica típica de C.P.E. Bach. Essa música parece apenas elegante na superfície, mas por dentro está cheia de surpresas — como se o século XVIII estivesse começando a perder o equilíbrio.
Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1788): Sinfonias de Berlim a Hamburgo (AKAMUS)
Symphony in C major, Wq. 174 (H. 649)
1 Allegro assai
2 Andante
3 Allegro
Symphony in D major, Wq. 176 (H. 651)
4 Allegro assai
5 Andante
6 Presto
Symphony in E minor, Wq. 177 (H. 652)
7 Allegro assai
8 Andante moderato
9 Allegro
Symphony in G major, Wq. 182/1 (H. 657)
10 Allegro di molto
11 Poco adagio
12 Presto
Symphony in C major, Wq. 182/3 (H. 659)
13 Allegro assai
14 Adagio
15 Allegretto
Symphony in A major, Wq. 182/4 (H. 660)
16 Allegro ma non troppo
17 Largo ed innocentemente
18 Allegro assai
Symphony in B minor, Wq. 182/5 (H. 661)
19 Allegretto
20 Larghetto
21 Presto
Akademie für Alte Musik Berlin (AKAMUS)

PQP
Poulenc / Franck / Dutilleux: Sonatas para Violoncelo e Piano (Petrov, Misirlioğlu)
Ótimo disco, muito agradável e de enorme musicalidade. E francês, o que às vezes é um mau sinal, mas não hoje! As três obras que compõem o programa abrangem um século: a Sonata de Franck, na sua transcrição oficialmente aceita para violoncelo, foi retirada da sua popular sonata para violino de 1886. Foi composta como presente de casamento para o violinista Ysaÿe. A interpretação da dupla deste CD é efetivamente fora da curva. Trois Strophes Sur Le Nom De Sacher de Dutilleux foi composta para o aniversário de Paul Sacher e estreada por Rostropovich com o compositor ao piano. A composição estendeu-se ao longo de uma década, tendo começado em 1976. A Sonata para Violoncelo de Poulenc foi dedicada a Pierre Fournier e concluída em 1948. É uma obra fascinante, embora nada famosa. Trata-se de uma peça de maturidade, cheia da graça, da melancolia e das mudanças de humor súbitas que caracterizam Poulenc. Merece ser descoberta.
Poulenc / Franck / Dutilleux: Sonatas para Violoncelo e Piano (Petrov, Misirlioğlu)
Poulenc: Cello Sonata, Op. 143 (23:45)
I. Allegro tempo di Marcia (6:04)
II. Cavatina (7:03)
III. Ballabile (3:43)
IV. Finale (6:55)
Dutilleux: Trois strophes sur le nom de Sacher (11:03)
I. Un poco indeciso (4:30)
II. Andante sostenuto (3:23)
III. Vivace (3:10)
Franck, C: Cello Sonata in A major (29:54)
I. Allegro ben moderato (6:01)
II. Allegro molto (8:36)
III. Recitativo. Fantasia – Ben moderato (8:48)
IV. Allegretto poco mosso (6:29)
Michael Petrov (cello)
Erdem Misirlioğlu (piano)

PQP
Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1788): Sonatas para Violino e Teclado (Podger, Bezuidenhout)
IM-PER-DÍ-VEL !!!
Belíssimo CD com a grande Rachel Podger muito bem acompanhada pelo menino Bezuidenhout. Repertório de primeira, sonoridade que nem vou falar, tudo ótimo. As sonatas para violino e teclado de Carl Philipp Emanuel Bach distribuem-se ao longo de quase toda a sua trajetória criativa. Nos primeiros trabalhos, como a Sonata H.542.5 (antigamente atribuída a seu pai, J.S. Bach), ainda se percebe a herança do contraponto barroco e a densidade textural do aprendizado em Leipzig. No entanto, já nessas obras juvenis, é possível detectar uma voz que anuncia o caminho original que tomaria. O salto decisivo ocorre por volta de 1763, quando compôs três sonatas (e mais tarde uma quarta) para a corte de Frederico, o Grande, em Berlim . É nesse conjunto que a linguagem de CPE consolida-se plenamente, abandonando a polifonia densa em favor de uma textura mais leve e transparente, onde violino e teclado dialogam como verdadeiros parceiros, trocando argumentos com uma liberdade retórica que parecia, aos ouvidos da época, quase improvisada. Essas sonatas maduras, como a belíssima Sonata Wq. 78, conquistaram admiradores ilustres, incluindo Johannes Brahms, que não apenas as tocou em público como também publicou edições delas, maravilhado com sua “grande beleza”. O que encantava Brahms era provavelmente a mesma coisa que desconcertava os contemporâneos: a imprevisibilidade. As sonatas de C.P.E. Bach são feitas de contrastes súbitos de dinâmica, pausas eloquentes, melodias que parecem “suplicar” ou “hesitar”, e uma expressividade direta que afasta-se do barroco tardio.
Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1788): Sonatas para Violino e Teclado (Podger, Bezuidenhout)
Sonata In G Minor H.542.5 (Harpsichord And Violin)
1 I. Untitled 3:46
2 II. Adagio 2:40
3 III. Allegro 4:51
Sonata In C Minor WQ. 78 (Fortepiano And Violin)
4 I. Allegro Moderato 8:06
5 II. Adagio Ma Non Troppo 6:30
6 III. Presto 5:26
7 Arioso Con Variazioni Per Il Cembalo E Violino In A Major WQ. 89
Sonata In B Minor WQ. 76
8 I. Allegro Moderato 7:15
9 II. Poco Andante 5:13
10 III. Allegretto Siciliano 5:37
Sonata In D Major WQ. 71 (Harpsichord And Violin)
11 I. Poco Adagio 3:21
12 II. Allegro 2:16
13 III. Adagio 2:58
14 IV. Menuet I, II 2:53
Harpsichord, Fortepiano – Kristian Bezuidenhout
Violin – Rachel Podger

PQP
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Concertos para Violino Nº 1 e 2 (Pochekin, Russian National Orchestra, Uryupin)
Eu sou exagerado, então, acho o Concerto Nº 1 uma obra-prima e o segundo bem ruinzinho, mas vou tentar me acalmar.
Calma, PQP.
Os dois Concertos para Violino de Shostakovich parecem obras de mundos diferentes. O Nº 1, Op. 77, é sombrio, tenso, de grande força trágica — sobretudo na Passacaglia e na cadência, que parecem escavar até o fundo da experiência humana. Já o Nº 2, Op. 129, é seco e enigmático, de menos impacto imediato. Gostaram? Afinal, chamá-lo de “ruinzinho” talvez seja um pouco injusto — o segundo concerto não busca o mesmo efeito monumental do primeiro. Ele é mais tardio, mais contido, quase uma música de câmara ampliada, cheia de ironias discretas… Soa menos arrebatador, oferecendo, em vez de drama aberto, uma reflexão mais rarefeita, quase crepuscular, quase burra… O CD vale pelo PRIMEIRO CONCERTO!
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Concertos para Violino Nº 1 e 2 (Pochekin, Russian National Orchestra, Uryupin)
Violin Concerto No. 1 In A Minor Op. 77
1 I Nocturne (Moderato – Meno Mosso – Tempo I) 11:35
2 II Scherzo (Allegro – Poco Più Mosso – Allegro – Poco Più Mosso) 6:37
3 III Passacaglia (Andante) – Cadenza 13:54
4 IV Burlesque (Allegro Con Brio – Presto) 5:02
Violin Concerto No. 2 In C Sharp Minor Op. 129
5 I Moderato 13:13
6 II Adagio 10:46
7 III. Adagio. Allegro 9:29
Conductor – Valentin Uryupin
Orchestra – Russian National Orchestra
Violin – Ivan Pochekin

PQP
C.P.E. Bach (1714-1788) / J.S. Bach (1685-1750): Fantasias (Häkkinen)
Um lindo disco! Poderia ouvir mil vezes sem cansar.
Carl Philipp Emanuel Bach escreve fantasias como monólogos de um romântico antes do romantismo: fraturas súbitas de andamento, pausas eloquentes, silêncios que dizem mais do que as notas e uma impetuosidade que parecia, para os contemporâneos, quase de mau gosto. Onde o pai construía catedrais, o filho improvisava poemas em prosa. As Fantasias de C.P.E. Bach são feitas de gestos bruscos e confidentes: acordes que suspendem o tempo, recitativos ao piano, quedas para o nada, retomadas furiosas.
Na Fantasia e Fuga Cromática, o velho Bach antecipa o futuro sem saber: as cadências ousadas e os cromatismos febris que abrem a fantasia parecem romper não apenas as regras do contraponto, mas o próprio tecido barroco. A fuga que se segue é um prodígio de disciplina, mas de uma disciplina trêmula. Ele foge, hesita, suspira. A obra toda respira aquele paradoxo bachiano: a máxima liberdade expressiva contida pela arquitetura mais rigorosa.
A diferença entre a Fantasia e Fuga Cromática de Johann Sebastian e as Fantasias de Carl Philipp Emanuel é a diferença entre um visionário que ainda acredita na ordem e um herdeiro que só acredita na crise. O pai solta a razão no limite do abismo e a reconduz para casa com uma fuga. O filho empurra o abismo para dentro da sala e recusa a mobília da época. J.S. Bach faz uma fantasia que parece improvisada, mas é arquitetura pura. C.P.E. Bach faz fantasias que parecem arquitetura, mas são improviso puro. Ambos estão à beira do colapso.
C.P.E. Bach (1714-1788) / J.S. Bach (1685-1750): Fantasias (Häkkinen)
Sonata In F Minor, Wq. 63/6 (H. 75)
1 I. Allegro Di Molto
2 II. Adagio Affettuoso
3 III. Fantasia
Fantasia And Fugue In C Minor, Wq.119/7 (H.75.5)
4 I. Fantasia
5 II. Fugue
6 Fantasia In D Major, Wq.117/14 (H.160)
7 Fantasia in G Minor, Wq.117/13 (H.225)
8 Fantasia in E-Flat Major, Wq. Deest (H.348)
Fantasia in D Minor, Wq. Deest (H.349)
9 I. Fantasia
10 II. Fugue
Chromatic Fantasia And Fugue In D Minor, VWC 903
Composed By – Johann Sebastian Bach
11 I. Fantasia
12 II. Fugue
13 Rondo In E Minor, Abschied von Meinem Silbermannischen Claviere, Wq.66 (H.272)
14 Fantasia In F-Sharp Minor, C.P.E. Bachs Empfindungen, Wq.67 (H.300)
Cravo, Pianoforte – Aapo Häkkinen

PQP




