A música de Tchaikovsky é mais profundamente russa do que a música que há muito tem recebido o rótulo simplista de ser pitorescamente moscovita.
I. Stravinsky

Em 1921, Serge Diaghilev estava planejando a primeira produção no ocidente de ‘A Bela Adormecida’, balé com música de Tchaikovsky, e é bem possível que tenha pedido a Stravinsky para orquestrar algumas peças que haviam sido cortadas da versão do score de que ele dispunha. Pasmem, não havia internet naqueles dias, muito menos IA. Igor-Língua de Trapo-Stravinsky, que costumava fustigar vários de seus colegas compositores, mortos ou vivos, conterrâneos ou não, louvou a simplicidade da música de Tchaikovsky, sua veia melódica e o grande poder criativo evidente em sua música para o balé ‘A Bela Adormecida’.

Alguns anos depois, por sugestão de Alexander Benois, pintor que trabalhara com Diaghilev, Stravinsky compôs a música para um balé a ser apresentado no verão europeu de 1928 pela companhia de Ida Rubinstein. A escolha caiu sobre uma história de Hans Andersen, A Donzela de Gelo, em óbvia ressonância com Tchaikovsky. O que parecia uma tarefa simples, tornou-se uma fonte que despertou a criatividade de Stravinsky, produzindo um balé que lembra Tchaikovsky, mas que é verdadeiramente Stravinsky. Eu adoro o tema logo no início do segundo quadro, sempre que ouço essa parte, ele gruda em meus ouvidos por bastante tempo.
A outra obra do disco é música composta em 1944 para um empresário da Broadway, Billy Rose, e faria parte como dança clássica do show ‘The Seven Lively Arts’. Ele queria uma versão curta do segundo ato de Giselle. O primeiro compositor a ser consultado para o trabalho foi Kurt Weill, que não aceitou, passando a empreitada para o Strava, que era do ramo (Apollo, Jeux de cartes) e bem sensível a moedas sonantes. O resultado está aí, 15 minutos de música para balé com base em regras clássicas e sem intenção de drama, mas com aquele abertura dramática, a la Stravinsky!
Igor Stravinsky (1882 – 1971)
Le Baiser De La Fée (42:25)
- First Scene (Prologue) Lullaby In The Storm: Andante
- Second Scene A Village Fete: Tempo Giusto
- Third Scene At The Mill – Pas De Deux: Moderato
- Fourth Scene (Epilogue) Lullaby In The Land Of Eternity: L’istesso Tempo
Scène De Ballet (16:08)
- Introduction: Andante
- Danses Corps De Ballet: Moderato
- Variation Ballerina: L’istesso Tempo
- Pantomime: Lento
- Pas De Deux: Adagio
- Pantomime: Agitato Ma Tempo Giusto
- Variation Dancer: Risoluto
- Variation Ballerina: Andantino
- Pantomime: Andantino
- Danses Corps De Ballet: Con Moto
- Apothéose: Poco Meno Mosso
Orchestra – BBC Scottish Symphony Orchestra
Conductor – Ilan Volkov
Producer [Recording Producer] – Andrew Keener
BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE
MP3 | 320 KBPS | 143 MB
Link para a plataforma [Qobuz]
Link para a plataforma [Tidal]
O disco é um primor, com produção geral de Andrew Keener e todos os acabamentos primorosos que a Hyperion oferece em cada um de seus lançamentos. O libreto, cuidadosamente escrito e muito bem ilustrado (veja a linda capa, no alto da postagem) com muita informação, está no site do selo e também nos arquivos da postagem.
A crítica do Classics Today é bastante favorável: Ilan Volkov’s first disc of the less-usual Stravinsky ballets was excellent, and so is this one. [… Há um outro disco do selo Hyperion com música para balé, de Stravinsky, pelo mesmo conjunto.] The BBC Scottish Symphony plays both works with elegance and panache. Solo winds relish their many opportunities to shine, and rhythms, particularly in Scènes de ballet, are appropriately clean without ever turning dry.
The Fairy’s Kiss, based on Tchaikovsky, is a tricky piece to play well; you need to capture something of the older Russian composer’s lyrical juice while remaining mindful of the younger man’s emotional coolness and ironic sense of distance. Volkov walks the tightrope very well; the music sings and flows, but never wallows. Fine sonics complement the performances, making this release easily recommendable.
Fácilmente recomendável, pois é ótimo disco…
Aproveite!
René Denon


![Igor Stravinsky (1882 – 1971): Le Baiser de la fée & Scènes de ballet – BBC Scottish Symphony Orchestra & Ilan Volkov [Hyperion] ֎](https://pqpbach.ars.blog.br/wp-content/uploads/2026/08/La_Baiser_De_La_Fee-960x540.jpg)




“Finalmente”, alguém dirá, “algo novo nessas plagas”. É verdade, as composições são bem recentes e escritas pela compositora finlandesa Kaija Saariaho, considerada uma das mais importantes compositoras do momento. Nascida em Helsink em 1952 e graduada em composição em 1980. Escreveu música eletrônica nos anos 1980 como ninguém, fazendo também uma mistura com instrumentos clássicos. Ela tem sido muito bem recebida pelo público, apesar dela não fazer concessões. Sua música lembra muito o som “New Age”, mas claro, muito superior.

Na minha opinião, uma obra-prima do jazz contemporâneo. Jazz? Será mesmo? Não será erudito? Estranhamente, fiquei entusiasmadíssimo ouvindo este CD com fones, na rua. Tal entusiasmo diminuiu um pouco quando o ouvi em casa. Quem sabe é algo para se ouvir com som muito alto? Pode ser. A faixa que mais me deixou feliz foi talvez a menos erudita, Furrow 6, de tema espetacularmente jazzistíco. 






IM-PER-DÍ-VEL !!!
Esta gravação da DG, realizada em 1972 e 1973 no Musikverein de Viena, reúne dois pilares do repertório romântico para violino sob a direção de Claudio Abbado e com a Filarmônica de Viena, tendo como solista o lendário Nathan Milstein. O resultado é um disco que, décadas depois, mantém o status de referência, com uma abordagem que une a inteligência musical de Milstein à elegância de Abbado. Milstein é descrito como “talvez o último grande russo entre os violinistas russos” e oferece aqui leituras que são tudo menos acadêmicas ou frias. Seu toque, caracterizado pelo uso relativamente parcimonioso do vibrato, revela uma pureza e luminosidade fascinantes . Essa qualidade confere às interpretações uma sensação de que não há outra maneira de tocar estas obras. No Allegro molto appassionato de Mendelssohn ou no vertiginoso finale do concerto de Tchaikovsky, sua virtuosidade é de tirar o fôlego, mas sempre a serviço da música.
Este disco documenta um encontro histórico: a estreia fonográfica de Anne-Sophie Mutter, com apenas 15 anos, sob a batuta de seu mentor, Herbert von Karajan, à frente da Filarmônica de Berlim. Lançado em 1978, o registro permanece como um testemunho de um momento único na música. Há, de fato, uma profundidade que transcende a idade da solista, uma abordagem que ecoa a estética “romântica” que Karajan buscava na época, conferindo às obras um caráter contemplativo e, por vezes, melancólico. Ouvindo agora, décadas depois, o que se destaca é a combinação entre a sonoridade exuberante (e antiquada) da Orquestra Filarmônica de Berlim sob o comando de Karajan, e o toque de Mutter — belo, expressivo e de uma segurança técnica impressionante para sua idade. A execução tem um ar que pode soar um pouco pesado ou menos espontâneo do que outras abordagens mais “autênticas”. No entanto, é justamente essa solenidade que confere à gravação seu caráter especial, transformando-a em algo mais próximo de uma declaração artística do que de uma mera exibição de virtuosismo juvenil. A comparação com as regravações posteriores da própria Mutter, já como uma artista madura, é inevitável e revela a diferença. Se a versão de 1978 possui encanto, ela também carece da liberdade rítmica e da leveza que Mutter viria a explorar em suas performances mais recentes. Este é o registro de uma jovem artista em seu primeiro voo. Para os admiradores da obra de Mozart, é uma gravação que oferece uma visão particular e poderosa, ainda que não seja a única possível.
IM-PER-DÍ-VEL !!!
Sim, jazz de vanguarda. Quem não gosta, que fuja. Este álbum documenta três noites de improviso em duetos ou em trio de três saxofonistas, todos com sax soprano. Não há outros instrumentos e, na verdade, só há um trio: a curtíssima Three Blokes. O disco é uma fascinante integração entre 3 grandes instrumentistas que se revesam em duplas. Um levando o tema e o outro, digamos, correndo atrás. Gostei muito, mas sei que é para poucos. Afinal, quem diria que uma série de duetos de saxofone soprano seria tão fascinante? Em pleno voo, essa compreensão um do outro fica incrivelmente intrincada como uma fuga barroca. É música tão pura e simples quanto pode ser.
Esta é uma gravação que perdeu muito com os anos. Molho pesado demais, execução totalmente destituída de humor e leveza. A crítica é dura, mas encontra eco em parte da recepção que este CD, com a Filarmônica de Los Angeles e a Orquestra Sinfônica de Chicago, acumulou ao longo do tempo. Carlo Maria Giulini, um respeitado maestro em sua época, oferece aqui leituras que dividem opiniões: para alguns, são visões transcendentes e solenes; para outros, são interpretações que afogam a vivacidade das partituras em um excesso de gravidade (minha opinião).
IM-PER-DÍ-VEL !!!


Este CD é um retrato fiel da arte de Karl Böhm: o mestre da clareza, equilíbrio e respeito à arquitetura musical. A sua leitura de Haydn pode não ter a irreverência de abordagens mais modernas, mas a sua solidez, beleza e integridade musical fazem dela uma referência. É uma gravação que nos lembra porque a velha escola vienense continua a ser tão apreciada, oferecendo uma escuta que é ao mesmo tempo confortável e estimulante. Este CD é uma oportunidade para apreciar a versatilidade de um dos maiores maestros do século XX. Sou um pouco hostil a Richard Strauss, mas sei que a parceria Böhm / Viena para Strauss é lendária. A crítica moderna descreve o maestro como um intérprete que “domina soberbamente a forma” e o “sentido da cor” orquestral. A sua abordagem, grandiosa mas nunca pesada, é ideal para a arquitetura complexa e o virtuosismo descritivo de Strauss. Aprecio mais o extreordinário feito orquestral do que propriamente a música.
Muitas vezes a gente diz, ao ver um músico de jazz tocando com descontração, que “fulano toca como se estivesse brincando” – é preciso afirmar que ninguém se divertiu mais com sua própria música do que Thelonious Monk. Diz-se dele que tinha predileção em fazer as notas erradas soarem corretas. Monk, o compositor, era uma criança irriquieta: alterações de tempo/ritmo e predileções por harmonias dissonantes fizeram-no fundar e, depois, redescobrir o bebop em uma década.

Ba-lue Bolivar Ba-lues-are. O lado B abre com a balada Pannonica, dedicada à “Baronesa do Bebop”, Nica (Rotschild) de Koenigswarter, amiga de Monk, Charlie Parker e diversos músicos do jazz à época. Nesta faixa Monk toca também 
IM-PER-DÍ-VEL !!!

Talvez desse para fazer uma parede com as capas das reedições da DG para esta gravação clássica. Mutter, em seus dias jovens, foi uma pupila de Karajan e esta capa a mostra bochechuda e não a elegante e magérrima senhora de hoje. Coerente.
IM-PER-DÍ-VEL !!!
Postagem original de CVL em 6 de março de 2009, revalidado por Carlinus em 12 de agosto de 2012, com links restaurados por Vassily em 28 de novembro de 2015, atendendo a pedido de um leitor-ouvinte. Ah, e o codinome “Nitsuga”, que tão indígena soou aos contemporâneos, nada mais é que “Agustín” ao contrário!
O Op. 8 de Torelli é uma obra que marca a transição do concerto grosso para o concerto para solista, e este disco explora essa riqueza com uma seleção variada de concertos para dois violinos, violino solo e trompetes. A abordagem do Collegium Musicum 90 é descrita como “sensata e musicalmente descomplicada”, com uma sonoridade arejada que se beneficia da “omissão deliberada (e autêntica) dos contrabaixos”. Concordo. Nos Concertos para Dois Violinos, a parceria entre Simon Standage e Catherine Weiss é um dos pontos altos do disco. Nos Concertos para Violino Solo, Standage mostra seu virtuosismo, com uma tremenda energia nas cordas graves. E nos Concertos para Trompete, Crispian Steele-Perkins toca com leveza e delicadeza, apesar de, bem, de serem trompetes. A gravação, realizada na All Saints’ Church em Londres, captura bem a atmosfera do local.![Bach (1685 – 1750): Concertos para Violino – Hilary Hahn (violino) – Los Angeles Chamber Orchestra – Jeffrey Kahane [DG] ֎](https://pqpbach.ars.blog.br/wp-content/uploads/2026/08/HilaryHahnWebsite-960x528.jpg)






The Berlin Concert é o ótimo registro ao vivo da estreia de Simone Dinnerstein na Kammermusiksaal da Filarmônica de Berlim, a 22 de novembro de 2007. Mais do que um recital, é uma declaração artística que explora a profunda e duradoura influência de Johann Sebastian Bach, tecendo um fio condutor que liga a música de três séculos num programa de uma notável coerência. Dinnerstein programou obras que, embora separadas por centenas de anos, mantêm um diálogo íntimo entre si, todas enraizadas no universo de Bach. A Suíte Francesa nº 5, BWV 816, de J.S. Bach, recebe uma interpretação de grande vitalidade, revelando uma abordagem cheia de sutileza. As 12 Variações sobre um Coral de J.S. Bach, de Philip Lasser é o momento mais “contemporâneo” do disco e a sua gravação de estreia mundial. O compositor norte-americano, amigo de longa data da pianista, cria uma peça que oscila estilisticamente entre o Impressionismo e o Jazz, pendulando entre a energia contrapontística e momentos de percussão ou de impressionismo etéreo. A Sonata para Piano nº 32, Op. 111, de Ludwig van Beethoven é a derradeira sonata de Beethoven. Ela é aqui apresentada como um marco de transição. O primeiro movimento, com a sua escrita angulosa, olha para o futuro (Liszt), enquanto o segundo movimento, um conjunto de variações sobre uma arietta semelhante a um coral, olha para trás, para Bach, e até para a frente, para o Jazz.
![Bartók (1881 – 1945): Os Concertos para Piano – (Zimerman | Andsnes | Grimaud) – (Chicago Symphony Orchestra | Berliner Philharmoniker | London Symphony Orchestra) – (Pierre Boulez) [DG] ֎](https://pqpbach.ars.blog.br/wp-content/uploads/2026/08/bartok_n.jpg)





