Homenagem à pianista Dirce Bauer Knijnik

Homenagem à pianista Dirce Bauer Knijnik
Dirce Bauer Knijinik, pianista brasileira, nascida no Rio de Janeiro, 1929-2024.

Grande pianista carioca, ou “cariúcha”, como dizia, a trajetória de Dirce Bauer Knijnik ocorreu em duas etapas: 35 anos no Rio de Janeiro; e outros 60, em Porto Alegre…

No Rio, sua família morava próximo ao morro do Salgueiro, onde se emocionava com as batucadas e ronco das cuícas, daquela tradicional escola de samba. Sons que invadiam sua imaginação de criança e experiência única para família de imigrantes judaico-lituanos, que um dia aportaram na baía da Guanabara…

Dirce lembrava: “Comovida, ‘ouvia de joelhos’ aquela explosão rítmica, à passar em frente de nossa casa, no carnaval!” – e quem já esteve numa quadra de samba, sabe da imensa força…

Da vida na Lituânia, sua mãe recordava serem vizinhos da família de Jascha Heifetz, cujo pai tocava violino junto ao berço do futuro virtuose… E por tradição, família de Dirce respirava música… De início, meio desligada, fez musicalização, prática de ballet e outras atividades… Então, sua irmã decidiu: “vai estudar com professor mais rígido que houver!” E a inscreveu na “Escola Nacional de Música”…

Vista de Vilnius, Lituânia.

Para surpresa, Dirce encantou-se com Rossini Freitas – “mestre exigente, mas atencioso”. Seu único temor era a ponta do lápis do prof. Freitas. Não por reprimendas físicas, ou algo assim, mas que o temível lápis rasurasse suas partituras… Seu carinho, por aquelas antigas edições, era imenso e não combinava com os rabiscos do mestre – então, estudava com afinco, para não errar… E muito lamentou a perda do professor, pouco tempo após sua formatura…

Vista da Av. Rio Branco, Rio de Janeiro, 1930.

Suas infância e juventude ocorreram durante a “1ª Era Vargas”, com impactos na educação e na vida nacional. Quando Villa-Lobos organizava atividades coletivas e o nacionalismo adquiria maior vigor, em contribuições de Camargo Guarnieri, Lorenzo Fernandez e outros. Cresceu imersa naquele ambiente ufanista e musicalizada por eminentes pedadogos, como Sá Pereira e o casal Francisco e Liddy Mignone, 1ª esposa do maestro e compositor… E Dirce lembrava, certa ocasião, ser a única a identificar sons de um complexo acorde, que Mignone tocara ao piano…

Liddy Mignone, educadora musical, 1a esposa de Francisco Mignone.

À medida que amadurecia, participou de transmissões da “Rádio Nacional”, chamando atenção da mecenas carioca, sra. Alcina Navarro, que passou a convidá-la para saraus residenciais, onde conheceu algumas celebridades, como Jaques Klein, Guiomar Novaes e Arnaldo Rebello. E, mais tarde, o garoto Nelson Freire, cujas técnica e musicalidade a encantaram… Neste período, fez algumas aulas com Guiomar…

E aos 20 anos, finalizou, com ‘medalha de ouro’, curso da UFRJ, 1950, realizando recitais em Salvador, Recife e várias cidades argentinas… Nesta ocasião, apresentou-se em Pelotas, RS, regência de Jean-Jaques Pagnot, 1954. E contemplada com bolsa de estudos pelo governo português, foi à Europa estudar com Sequeira Costa, prestigiado pianista. Mas, este viajava muito e Dirce preparou-se sozinha para o “Concurso Vianna da Motta”, ouvindo apenas gravações de Guiomar Novaes… Neste período, ainda fez aulas com o italiano, Carlo Zecchi; e o espanhol, Tomas Terán…

Dirce Bauer Knijnik, Nelson Freire, Guiomar Novaes e Camargo Guarnieri.

De volta ao Rio de Janeiro, foi semifinalista do “2° Concurso Internacional”, 1959. E entre os jurados, Guiomar Novaes, que aproximou-se e perguntou com quem havia estudado… Dirce respondeu: “estudei com a Sra!”… E Guiomar: “mas, como?”… Admiradora da pianista, ouvia tão atentamente suas gravações, que as reproduzia em detalhes – fraseado, andamentos, etc… Assim havia preparado a “Fantasia” op. 49, de Chopin! E entre intérpretes como Brailowsky, Malcuzynski e Novaes, preferia, de pronto, a brasileira. Como diria Tom Jobim: “Só se imita a quem admira ou ama”, inevitavelmente…

E realizou iniciação da menina Cristina Ortiz – dos 4 aos 8 anos, que mais tarde iria à Paris, estudar com Magda Tagliaferro e, depois, vencer “Van Cliburn Competition”, 1969 – “Dirce me ensinou a amar a música e o piano”, disse Cristina… Por coincidência, pai de Cristina e irmão de Dirce eram colegas na Petrobrás, da Bahia. E, transferidos para o Rio, propiciaram aproximação…

Cristina Ortiz (esquerda) e Dirce Bauer Knijnik (centro), alunos Elaine e Fernando Cordella – “Estúdio Trilhas Urbanas”, Curitiba, 2018.

Cristina Ortiz, à ‘piano bleu’: “Je passais des jours entiers au piano, à jouer d’oreille tout-ce que je comprenais comme son… et c’est là qu’on à trouvé la merveilleuse Dirce Bauer, souer d’un collègue à papa (qui travaillait à la Petrobrás, d’abord à Bahia et pui à Rio).”

Então, Dirce soube de concurso em Porto Alegre, para o “Instituto de Artes”… Candidatou-se e aguardou eventual nomeação… Situações inusitadas, no entanto, a levaram aos USA… Quando conheceu irmão de timpanista da OSB, que, entendeu, seria boa esposa para sr. Miller, outro irmão, que morava em Nova York. Músico talentoso e septuagenário, não despertou maior entusiasmo… Ainda assim, Dirce viajou à Nova York… Simpático e atencioso, o pretendente senior se ofereceu para interceder junto à “Town Hall”, prestigiada sala de concertos…

Dirce Bauer, recital “Town Hall”, Nova York, 1964.

Então, procurou empresário e recomendou a pianista brasileira. Agenda estava completa, mas, insistente, Miller retornou ao mesmo “coffee shop”, do primeiro encontro, quando foi informado de que se abrira uma data… E Dirce Bauer podia ser programada!

Feliz, mas apreensiva, tinha poucos dias para definir programa, não sem incluir obra do dedicado amigo e compositor; além de Brahms, “Intermezzi” op. 117… E foi à “Steinway & Sons” escolher magnífico modelo “CD-12″… Por fim, recital foi um sucesso, com boa receptividade da crítica nova-iorquina, ensejando convites nos USA e outros lugares…

Da crítica: “Miss Bauer expressou verdadeira sonoridade de virtuose. E sua performance, com excelente e delicada gama de coloridos, revelou apurado senso de estrutura.”

Neste momento, 1964, outra surpresa, recebia correspondência de Porto Alegre, para cargo no “Instituto de Artes”, da UFRGS. E optou pela nomeação, em meio à turbulência que assolava o país, mudando-se para o sul do Brasil… Assim, encerravam-se 35 anos de atividades, entre Rio de Janeiro e Nova York; e iniciava nova etapa, no Rio Grande do Sul…

Profa. Dirce e alguns alunos, em Porto Alegre, RS.

Em Porto Alegre, casou-se com médico psiquiatra, Leão Knijnik, e passava a chamar-se Dirce Bauer Knijnik, dedicando-se à vida familiar e formação de pianistas, alguns com destacadas carreiras, nacionais e internacionais, como Olinda Alessandrini, Alexandre Dossin, André Loss, Alessandra Feris, José Prediger, Dimitri Cervo, Fernando Cordella, Rodolfo Faistauer e outros – “frutos do amor à música e ao magistério”… 

E passados alguns anos, retomou apresentações, realizando recitais solo e música de câmara, com Earl Carlyss, Elisa Fukuda e Lúcia Passos… Também concertos com orquestra, nas direções de Leo Perachi, Alceu Bochino, Eleazar de Carvalho, Arlindo Teixeira, Cláudio Ribeiro e John Neschling… Além de parcerias com músicos radicados em Porto Alegre, como Hubertus Hofmann, Fredi Gerling e Marcello Guerschfeld. Por fim, gravações em CD – “Presença musical da UFRGS” e “Músicas que mamãe gostava”…

CD “Presença musical da UFRGS”, Dirce Bauer Knijnik.

Intensa brasilidade, nostalgia e dolente fluidez percorrem as interpretações de Francisco Mignone, Radamés Gnattali, Villa-Lobos e Guarnieri. Além de notável repertório, barroco e romântico, com Bach, Brahms e Chopin… E pelos pagos riograndenses, tornava-se mais conhecida como Dirce Knijnik…

Para download: CD “Presença Musical da UFRGS”

  • J. S. Bach (Busoni): “Toccata, Adagio e Fuga”, BWV 564 (faixas 1-3) – Brahms: “Valsas” op. 39 (faixa 4) – Guarnieri: “Dansa Negra” (faixa 5) e “Ponteios 48 e 49” (faixa 6) – Chopin: “Barcarolle” op. 60 (faixa 7) e “4ª Ballade” op. 52 (faixa 8) – D. B. Knijnik: “Aleluia” (faixa 9)

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Para download: “9 valsas brasileiras” (Acervo do prof. D. Cervo, IA-UFRGS), mais “Choros n° 5 – Alma Brasileira”, de Villa-Lobos

  • Francisco Mignone: “Valsa Choro 7” (faixa 1), “Valsa Choro 3” (faixa 2), “Valsa Elegante” (faixa 3) e “Valsa de Esquina 2” (faixa 4) – Paulo Guedes: “Valsa” (faixa 5) – Gnattali: “Vaidosa (valsa)” (faixa 6) – Guarnieri: “Valsa 8 ” (faixa 7), “Valsa 9” (faixa 8) e “Valsa 10” (faixa 9) – Villa-Lobos: “Choros 5 (Alma Brasileira)” (faixa 10)

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Arte e ensino

Frédéric Chopin, por Delacroix.

De sua arte e atividade docente, depreendemos que enfatizava fraseado e sonoridade, pontos de partida e guias permanentes da técnica. Para Dirce, estudos estritamente físico-motores distanciavam-se da expressividade e da razão de ser da música, como prática e prazer estético…

E dizia, “o som é a voz da alma”, não apenas em performance, mas sempre… Especialmente, no trabalho árduo, das passagens complexas ou da base de escalas e arpejos, que demandavam concentração e disciplina; mas, necessariamente, almejavam poesia e encantamento – amálgamas entre motricidade e imaginário sonoro…

Portanto, nunca desconectar-se da fluidez melódica e dos sentimentos, em suas diversidade e nuances; do pensar musical e do estilo, em cada passagem, como elementos primordiais da arte…

Dirce Bauer Knijnik, pianista brasileira.

Além disto, Dirce incorporava tradições dos anos 1930/40, dos chorinhos, valsas e modinhas, retratos da vida carioca, dos chamados “pianeiros” e do vibrante nacionalismo, à preludiarem, em “rubatos” e suspensões de tempo, dolentes e elegantes sentimentalismos… Da livre musicalidade, escorreita e sedutora, que ouvimos em Chopin e no repertório brasileiro… Também, em Bach e Brahms, profundas e comoventes sonoridades…

Assim, desinteressava-se por virtuosismos predominantemente atléticos… E nas ausências de lirismo ou paixão, percebia “velocidade como sintoma de ansiedade”, reflexo da vida moderna e do imediatismo, quem sabe, descuido do tempo interior diante da pressa; do indivíduo frente à angústia e à solidão, entre o expressar e o reconhecer-se em suas peculiaridades e expectativas…

Então, preconizava disciplina e introspecção, através do controle rítmico e do “legato”; do relaxar e do ouvir-se; do domínio do tempo, para flexibilizá-lo, permanentemente… E no desenvolvimento sensorial, meio de conciliar sonoridade e prazer, com maiores emoção e comunicação – portanto, pouca dispersão e muita concentração!

“2a Valsa de Esquina”, Francisco Mignone.

Por fim, reiterava que tempos excessivos ou irregulares, em geral, atropelavam respiração e fraseado, truncando densidade e potencial interpretativo… Para tanto, modelar-se na voz humana era essencial – na sensível arte “do cantar e do respirar”… A combinar-se em diversos estilos e indivíduos, campo de possibilidades pedagógicas e universo de cada intérprete, presentes no detalhe musical e desdobrando-se no todo, orgânico e único…

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Vídeos e entrevistas: Sugerimos áudio e duas entrevistas, de onde colhemos alguns relatos, somados a outras fontes.

Áudio Youtube: “Sonata para violino e piano”, de Cesar Franck – Fredi Gerling (violino), Dirce Bauer Knijnik (piano)

Projeto Musicamara – Presto Produções: “homenagem à Dirce Knijnik”, com Lúcia Passos: 

Carmelo de los Santos – Live Instagram com Dirce Knijnik – “A essência da música”:

Aposentada do serviço público – UFRGS, 1988, profa. Dirce tornou-se membro da “European Piano Teachers Association”, 1997, realizando recital e “masterclasses”, em Londres, Inglaterra… E seguiu lecionando até os 95 anos, sempre cultivando amigos e interagindo com o mundo musical. Especial referência para os musicistas, deixa saudades em todos que usufruíram seus convívio, talento e sensibilidade…

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“Descanse em paz…”

“Nesta breve resenha, nossas homenagens, carinho e gratidão”  

Alex DeLarge

Marc-André Hamelin interpreta pianistas-compositores (Alkan, Busoni, Feinberg, Godowsky, Hamelin, Medtner, Rachmaninov, Scriabin, Sorabji)

Marc-André Hamelin interpreta pianistas-compositores (Alkan, Busoni, Feinberg, Godowsky, Hamelin, Medtner, Rachmaninov, Scriabin, Sorabji)

Neste interessante CD, Marc-André Hamelin interpreta gente como ele, ou seja, compositores-pianistas. OK, quase todos são, mas Hamelin se dedica aos grandíssimos virtuoses que, de vez em quando, achatam suas bundas numa cadeira para compor. O resultado é uma série de obras onde, em sua maioria, são exigidas habilidades demoníacas dos pianistas, o que não é problema para Hamelin, um pianista que parece ter e controlar uns 36 dedos sem se confundir. Há umas coisas decididamente bobas, outras lindas e outras em que a gente fica pensando: como ele consegue tocar essa coisa? Bem coloquemos as coisas em seus devidos lugares: o pianista canadense Marc-Andre Hamelin é um fenômeno, tendo uma série de gravações de tirar o fôlego. Ele se estabeleceu mais ou menos como o maior virtuose do planeta, e este disco só irá aumentar essa reputação — isto não significa que ele seja o melhor, claro. Hamelin faz parte de uma longa linhagem de compositores-pianistas. Alguns compuseram obras de dificuldade sobre-humana para exibir suas próprias proezas e fazer seus colegas se acovardarem, outros o fizeram para se apresentaram em público, ou seja, por razões financeiras (Rachmaninov e Medtner são bons exemplos). Este disco contém uma amostra representativa destes trabalhos, muitos dos quais não foram gravados anteriormente ou pelo menos são difíceis de encontrar. O CD também traz músicas de dois “gênios reclusos”: Charles-Valentin Alkan e Kaikhosru Shapurji Sorabji, ambos homens que produziram obras de desafios técnicos diabólicos enquanto se isolavam de quase todo contato humano e musical.

Marc-André Hamelin interpreta pianistas-compositores (Alkan, Busoni, Feinberg, Godowsky, Hamelin, Medtner, Rachmaninov, Scriabin, Sorabji)

1 Toccata In G Flat Major Op 13
Composed By – Leopold Godowsky
3:18

2 Poème Tragique Op 34
Composed By – Alexander Scriabin*
3:13

3 Etude No 9 (D’après Rossini)
Composed By – Marc-André Hamelin
3:48

4 Etude No 10 (D’après Chopin) (‘Pour Les Idées Noires’) 2:01

5 Schübler Chorale No 6 (transcription)
Composed By – Bach*
Transcription By – Samuel Feinberg*
3:29

6 Andante From Symphony No 94 (transcription)
Composed By – Haydn*
Transcription By – Charles-Valentin Alkan
5:48
Esquisses Op 63
Composed By – Charles-Valentin Alkan
7 No 46: Le Premier Billet Doux 1:05
8 No 47: Scherzetto 2:11

9 Fantasia Nach J S Bach
Composed By – Ferruccio Busoni
13:37

10 Moment Musical In E Flat Minor Op 16 No 2 (Revised Version 1940)
Composed By – Sergei Rachmaninov*
2:45

11 Etude-Tableau In E Flat Op 33 No 4 (Originally No 7)
Composed By – Sergei Rachmaninov*
1:37
Deux Poèmes Op 71
Composed By – Alexander Scriabin*
12 No 1: Fantastique 1:18
13 No 2: En Rêvant, Avec Une Grande Douceur 1:51

14 Berceuse Op 19a
Composed By – Samuel Feinberg*
4:53

15 Improvisation No 1 In B Flat Minor Op 31 No 1
Composed By – Nikolai Medtner
7:02

16 Pastiche On The Hindu Merchant’s Song From ‘Sadko’ By Rimsky-Korsakov
Composed By – Kaikhosru Shapurji Sorabji
4:05

17 Prelude And Fugue (Etude No 12)
Composed By – Marc-André Hamelin

Marc-André Hamelin, piano

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Hamelin aqui na Livraria Bamboletras. Quem dera…

PQP

Egon Petri (1881-1962) – His Recordings 1929-42, vol. 3– Chopin, Busoni, Franck, Schubert, Bach, Gluck (2 CDs)

Egon Petri (1881-1962) – His Recordings 1929-42, vol. 3– Chopin, Busoni, Franck, Schubert, Bach, Gluck (2 CDs)

Egon Petri (1881-1962) foi um pianista de cidadania holandesa nascido na Alemanha. Dono de uma técnica refinada, é alguém ainda por ser propriamente redescoberto pelos ouvintes do século XXI. Seu nome não é lembrado e louvado com a atenção que merece, talvez justamente por encarnar uma espécie de forma de tocar que tem algo de arcaica, com raízes profundas no século XIX.

Petri foi um dos discípulos mais dedicados do lendário pianista, compositor e professor italiano Ferruccio Busoni (1866-1924), e um ardoroso defensor de sua música, por toda a vida. Petri acompanhou Busoni à Suíça durante a Primeira Guerra Mundial e posteriormente seguiu o mestre para Berlim, onde também deu aulas. Entre seus alunos estavam Vitya Vronsky (do duo Vronsky & Babin), Gunnar Johansen e o comediante e pianista dinamarquês Victor Borge.

Em 1927 ele se estabeleceu em Zakopane, na Polônia, dedicando-se ao ensino e a gravações. Ele viveu lá até 1939, quando escapou às pressas literalmente na véspera da invasão alemã, em setembro daquele ano. Petri então passou a dar aulas na Cornell University, em Ithaca, e mais tarde no Mills College, em Oakland. Ele se naturalizaria americano nos anos 50, e teve entre seus pupilos em solo americano o brilhante pianista inglês John Ogdon (1937-89), aquele que dividiu o primeiro lugar do Concurso Tchaikovsky com Vladimir Ashkenazy em 1962 (as finais deste concurso foram lançadas em disco e logo mais vão pintar aqui no PQP).

As gravações presentes neste disco duplo são deste trágico período, em que Petri teve que cruzar um oceano para sobreviver, realizadas entre 1938 e 1942. São testemunhos sonoros de uma época e de uma filosofia musical e pianística.

Duas curiosidades desimportantes sobre Busoni. A primeira é que o nome completo dele é, no mínimo, pomposo: Dante Michelangelo Benvenuto Ferruccio Busoni. A segunda é que ele está enterrado no Friedhof Schöneberg III, também conhecido como Friedhof Stubenrauchstraße, mesmo endereço em que também desfrutam o repouso eterno a atriz Marlene Dietrich e o fotógrafo Helmut Newton.

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CD 1

1 – SCHUBERT-TAUSIG: Andante & Variations
2 a 25 – CHOPIN: Preludes, op. 28
26 a 28 – FRANCK: Prélude, choral et fugue

CD 2

1 – GLUCK-SGAMBATI: Mélodie
2 – J. S. BACH-PETRI: Menuet
3 – J. S. BACH-BUSONI: Ich ruf’ zu dir, Herr Jesu Christ
4 – J. S. BACH-BUSONI: In dir ist Freude
5 – J. S. BACH-BUSONI: Wachet auf, ruft uns die Stimme
6 – J. S. BACH-BUSONI: Nun freut euch, lieben Christen gemein
7 – BUSONI: Fantasia after J. S. Bach
8 – BUSONI: Serenade (Mozart, Don Giovanni)
9 – BUSONI: An die Jugend, no. 3
10 – BUSONI: Sonatina no. 3
11 – BUSONI: Sonatina no. 6
12 – BUSONI: Indianisches Tagebuch
13 – BUSONI: Albumblatt no. 3
14 – BUSONI: Elegie no. 2

Karlheinz

J. S. Bach (1685-1750): Transcrições – Gordon Fergus-Thompson, piano ֎

J. S. Bach (1685-1750): Transcrições – Gordon Fergus-Thompson, piano ֎

 

Bach

Transcrições

Gordon Fergus-Thompson

 

 

Traduttore – traditore, diria Umberto Eco, um autor largamente traduzido e um tradutor extremamente prolífico. Quando alguém traduz, precisa inventar, recriar, e, portanto, trair. Mas não fossem as traduções, quantas obras-primas ficariam restritas aos seus espaços culturais de origem? Não resisto a fazer um paralelo entre a literatura e a música e, guardadas as devidas proporções, o mesmo ocorreu com Johann Sebastian Bach.

Fico imaginando a avidez com que ele deve ter devorado as partituras de músicas italianas e francesas – Vivaldi e tantos outros – levadas pelo príncipe Johann Ernst, sobrinho do Duque de Saxe-Weimar, para esta corte, em sua visita por lá, por volta de 1713, após viajar pela Bélgica e Holanda.

Bach e seu amigo Telemann seguiam o conceito de imitatio e aemulatio,o princípio da imitação inicial, passando então a um estágio de desenvolvimento que buscava superar a imitação – vide o Concerto Italiano.

Bach começou a copiar as obras italianas e ao mesmo tempo passou a arranja-las, transcrevê-las para os seus próprios instrumentos – o cravo e o órgão.

Isso certamente legitima todos os compositores, maiores e menores, que se debruçaram sobre suas obras e as estudaram e as transcreveram, relendo-as segundo suas próprias perspectivas artísticas e seus próprios talentos. Com isso, as tornaram ainda mais acessíveis e as disponibilizaram para um público maior.

Algumas peças de Bach – a Chaconne da Partita em ré menor para violino eu conheci primeiro na transcrição feita por Ferruccio Busoni, para piano, peça que abre este disco. Algumas transcrições são mais traidoras, assim como esta Chaconne de Busoni, que parece maior, mais tonitruante, do que a peça original, para violino solo. Mas, quem sabe se essa mesma não seria uma transcrição de uma peça ainda mais anterior, para órgão?

Capitão Nemo verificando se a afinação do órgão estava adequada…

Outras guardam mais a singeleza do original, como ocorre nas transcrições feitas por Dame Myra Hess (Jesus, Alegria dos Homens…) e pelo incansável Wilhelm Kempff (Siciliano). Se o seu coração não se derreter com As Ovelhinhas Podem em Segurança Pastar, transcrição de Christopher Le Fleming, pode ir correndo fazer um exame no cardiologista mais próximo, pois que ele se transmutou em pedra.

A Suíte de Rachamaninov, arranjada de três peças da Partita em mi maior, vai surpreender muita gente, que associa este compositor aos arroubos românticos e acordes inalcançáveis.

E para arrematar, imagine o Capitão Nemo, tendo que ficar alguns dias em um porto, sem poder se deliciar com os sons do órgão, esperando uma completa revisão no Nautilus. É claro, ele alugaria um flat com um piano e atacaria a Toccata e Fuga em ré menor, na transgressão de Ferruccio Busoni, assim como está na peça que arremata o disco.

Este é um entre muitos discos com transcrições das obras de Bach para piano que tenho ouvido. Pretendo postar alguns mais, acrescentando mais insultos à esta injúria… O pianista da vez é inglês e bem conhecido por suas gravações das obras de Ravel, Debussy e Scriabin. Ele é atualmente professor do Royal College of Music de Londres.

Johann Sebastian Bach (1685 – 1750)

Transcrições:

Ferruccio Busoni (1866 – 1924)

  1. Chaconne da Partita em ré menor para violino, BWV 1004
  2. Prelúdio Coral BWV645 ‘Wachet auf, ruft uns die Stimme’
  3. Prelúdio Coral BWV659 ‘Nun komm, der Heiden Heiland’
  4. Prelúdio Coral BWV734 ‘Nun freut euch, lieben Christen gmein’
  5. Prelúdio Coral BWV639 ‘Ich ruf’ zu dir, Herr Jesu Christ’

Franz Liszt (1811 – 1886)

Prelúdio e Fuga em lá menor, BWV543
  1. Prelúdio
  2. Fuga

Lord Berners (1883 – 1950)

  1. In Dulci Jubilo, BWV 729

Dame Myra Hess (1890 – 1965)

Cantata BWV147 ‘Herz und Mund und Tat und Leben’
  1. Jesus, Alegria dos Homens

Wilhelm Kempff (1895 – 1991)

Sonata para flauta em mi bemol maior, BWV1031
  1. Siciliano
Christopher Le Fleming chegou atrasado para a foto e o DP de Arte do PQP Bach atacou de Christopher Lee…

Christopher Le Fleming (1908 – 1985)

  1. As Ovelhinhas Podem em Segurança Pastar, da Cantata BWV208

Sergei Rachmaninov (1873 – 1943)

Suíte da Partita em mi maior para violino, BWV1006
  1. Preludio
  2. Gavotte
  3. Gigue

Ferruccio Busoni

Toccata e Fuga em ré menor, BWV565
  1. Toccata e Fuga

Gordon Fergus-Thompson, piano

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FLAC | 224 MB

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MP3 | 320 KBPS | 176 MB

Gordon Fergus-Thompson no Salão de Pianos do PQP Bach
Lord Berners mostrando para a equipe do PQP Bach o piano no qual fez sua transcrição…

De todos os transcritores deste disco, de longe, o mais impressionante, não por sua obra, mas por sua excentricidade, é Lord Berners. Como não sou de dar spoiler, espero que você faça o dever de casa e descubra por você mesmo…

Aproveite!

René Denon

Arnold Schoenberg (1874-1951): Weihnachts Musik & Transcriptions – Arditti String Quartet ֍

Arnold Schoenberg (1874-1951): Weihnachts Musik & Transcriptions – Arditti String Quartet ֍

Quem tem medo de Arnold Sch… ?

Hasta la vista, baby!

Bem não estou falando do austríaco fortão que ficou famoso como fisiculturista e ator, chegando a ser o governador da Califórnia, mas sim do outro Arnold, o Schoenberg, inventor de uma maneira totalmente nova de compor.

Podemos dizer que Arnold Schoenberg foi o compositor mais estudado e falado do século 20, mas também teve sua música bem pouco executada. Uma de suas peças bem conhecidas é o Sexteto de Cordas Verklärte Nacht (Noite Transfigurada), escrita em 1899 e se enquadra perfeitamente ao lado das peças da época – do romantismo tardio de Richard Strauss, por exemplo. Mesmo esta, que hoje poderíamos considerar peça comum nos programas de concertos e discos, foi recebida com pouco entusiasmo nos dias de sua composição.

Auf Wiedersehen, baby!

Nesta época de vacas magérrimas, no primeiro quarto do século 20, quando sua própria música não tinha qualquer chance de ser executada, Arnold fez muitas adaptações e arranjos de música de outros compositores, regeu coros amadores e até orquestrou algumas operetas para compositores muito ocupados… Tudo para colocar das Brot auf den Tisch. Obras do escopo de Guerrelied estavam a caminho, mas tiveram que esperar. Quem sabe algum dos nossos colaboradores mais versados nas obras deste compositor e de seus discípulos se anime e prepare assim uma cesta básica para a iniciação nessas obras.

A motivação da postagem de hoje – 23 de dezembro de 2021 – é ilustrar uma parte mais intimista e mais acessível do Arnold, além de apresentar uma peça que estreou exatamente 100 anos atrás, no dia 23 de dezembro de 1921, a Weihnachtsmusik.

Além de compositor, Arnold fazia auto-retratos…

Como era essencialmente impossível ter suas peças apresentadas regularmente em Viena, no início do século 20, Schoenberg fundou em 1918 uma Sociedade para Performances Musicais Privadas, que oferecia concertos semanais de música de câmara para audiências que se subscreviam e estavam interessadas nas novidades.

As peças eram compostas ou arranjadas para os programas e estes arranjos eram feitos por diversos músicos, pois que havia um espírito de coletividade pairando sobre a sociedade, tudo sob a liderança do Arnold.

Este disco é uma boa mostra do que ocorria nestes concertos: obras de Mahler e Busoni ao lado de valsas de Strauss, Johann Strauss II. Com destaque para esta linda peça que Arnold compôs de olho no Natal de 1921.

Feliz Natal!

Arnold Schoenberg (1874 – 1951)

Weihnachtsmusik, para harmônio, piano e quarteto de cordas

Gustav Mahler (1860 – 1911)

Lieder eines fahrenden Gesellen

(arr. A. Schoenberg voz, piano, flauta, clarinete, harmônio e quarteto de cordas)

I Wenn mein Schatz Hochzeit macht

II Ging heut’ morgen ubers Feld

III Ich hab’ ein gluhend Messer

IV Die zwei blauen Augen

Ferrucio Busoni (1866 – 1924)

Berceuse élégiaque, Op. 42

(Arranjo para harmônio, flauta, piano, clarinete e quarteto de cordas)

Johann Strauss, II (1825 – 1899)

Kaiser-Walzer, Op. 437

(arranjo para piano, flauta, clarinete e quarteto de cordas)

Rosen aus dem Süden, Op. 388

(Arranjo para piano, harmônio e quarteto de cordas)

Jean-Luc Chaignaud, barítono (Mahler)

Isabelle Berteletti, percussão (Mahler)

Louise Bessette, piano

Hakon Austbo, harmônio

Michel Moragues, flauta

Paul Meyer, clarinete

Arditti Quartet

Irvine Arditti e Avid Alberman, violinos

Levine Andrade, viola

Rohan de Saram, violoncelo

Michel Béroff, direção

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FLAC | 253 MB

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MP3 | 320 KBPS | 158 MB

Quarteto Arditti apresentando um programa com peças de Kurtág e Ligeti no Salão Dourado do PQP Bach Building de San Francisco
Arnold, quando soube da postagem…

Nelson Freire – Ao Vivo

Em homenagem ao grande Nelson Freire (1944 – 2021), vamos trazer hoje gravações que vocês não encontram nos serviços de streaming nem na livraria digital com nome de floresta. Quem sabe faz ao vivo e no caso de Nelson o que ele sabia muito bem, entre outras coisas, era a arte dos recitais variados, com uma associação livre de ideias em que um impromptu (improviso) de Chopin é seguido de algumas mazurkas ou dois estudos do polonês, depois vem um Debussy, um Villa-Lobos, um Albéniz…

Há pianistas que fazem, às vezes ou sempre, recitais com temas bem definidos: três ou quatro grandes sonatas de Beethoven, como fazem Pollini e Levit. Ou só prelúdios e fugas de Bach do início ao fim, como fazem Hewitt e Schiff. Richter fez recitais especializados em Bach (1969), em Beethoven (1960, 1991) em Scriabin (1972), em Prokofiev (1960), em Chopin (1976) e alguns com o longo ciclo de quadros de Mussorgsky. Não é entre esses recitais cerebrais, estimulantes como um longo romance russo, que se enquadravam os de Nelson. Seus grandes ídolos, que ele sempre mencionava com saudades, eram Novaes e Horowitz e outros dessa turma, mestres das miniaturas pianísticas e dos programas que contrastavam Mozart com Scriabin, Chopin com Debussy, Scarlatti com Schumann. Por isso a Folha de SP acertou na mosca ao publicar, recentemente, uma manchete sensível e respeitosa: “Nelson Freire foi o elo entre a era de ouro do piano e o terceiro milênio”.

Nem sempre ele estava tocando obras tão curtinhas: a longa Fantasia de Schumann esteve no seu repertório desde jovem até os últimos anos e, como vocês sabem, sua gravação dos Concertos de Brahms com Chailly/Leipzig foi elogiada por várias revistas e indicada para o Grammy. Mas aqui em casa a medalha de ouro vai para o cuidado de Nelson ao preparar e executar essas charmosas peças curtas.

Em 2014, Nelson dizia que estava sempre mudando os programas dos recitais. “Sempre evito me comprometer com as coisas com um ano de antecedência. Às vezes eu mudo tanto os programas que, quando chego, tenho a impressão de que todo o mundo vai ficar com raiva. Gosto de decidir na hora”. E pra decidir na hora, nada melhor do que o(s) bis(es). Nos últimos vinte anos, Nelson tinha uma peça sempre à manga para o bis: o arranjo de Sgambati (1841 – 1914) para uma melodia da ópera Orfeu (1762), de Gluck. Permitindo ao pianista mostrar a delicadeza de seus timbres suaves, esse era o bis padrão da maioria das noites. Mas a depender do humor, outras obras apareciam de surpresa, muitas vezes de compositores pouco conhecidos, como o catalão Mompou (1893 – 1987) ou o polonês Paderewski (1860 – 1941). Também podiam aparecer pesos-pesados como Debussy ou Bach, na transcrição da pianista Myra Hess (1890 – 1965) da cantata “Jesus, alegria dos homens”.

Em um prefácio de sua edição (1898) de transcrições dos Prelúdios Corais de Bach, obras originalmente compostas para órgão, o pianista italiano F. Busoni escreveu que seus arranjos eram em “estilo música de câmara”. É bom lembrar que o órgão para o qual Bach escrevia tinha pedais, de forma que as composições têm três vozes: as duas mãos e os pés. Daí as Triosonatas para órgão, por exemplo. Isso tudo pra dizer que o interessante ao ouvir essas transcrições de Bach-Busoni e Bach-Hess ao vivo é acompanhar os malabarismos de Nelson pra tocar três vozes com duas mãos. É um pequeno desafio tocar todas as notas e um grande desafio fazer soar as três vozes de forma separada e musical.

Em seus últimos anos, Nelson Freire foi aclamado em Londres, em São Petersburgo, no Brasil, é claro, mas talvez o lugar onde mais tenha tocado em sua maturidade tenha sido Paris, onde ele passava parte do ano em uma casa de frente para a de sua amiga Martha Argerich.  Ao contrário do  Presidente do Brasil, o da França soltou uma nota homenageando, poucos dias após a morte, “o excepcional intérprete de Debussy que tantas vezes honrou o nosso país com a sua presença”.

Nelson Freire – Encores 2 – Live
Schumann: Arabeske in C major, op. 18
Chopin: Impromptu no. 2 in F-sharp major, op. 36
Mazurka op. 17 No.4 in A minor
Mazurka op. 33 No.4 in B minor
Mazurka op. 41 No.1 in C# minor
Étude op. 10 no. 3 “Tristesse”
Étude op. 10 no. 12 “Revolutionary”
Bach-Busoni: Ich ruf zu Dir, Herr Jesu Christ, BWV 639
Komm, Gott Schöpfer, heiliger Geist, BWV 667
Bach-Hess: Jesu, Joy of Man’s Desiring, BWV 147
Debussy: La plus que lente
Prokofiev: 10 Visions Fugitives
Debussy: Poissons d’or (bis)
Mompou: Jeunes filles au jardin (bis)
Albéniz-Godowsky: Tango (bis)
Grieg: “Wedding Day at Troldhaugen” from the Lyric Pieces (bis)
Paderewski: Nocturne in B-flat major, op. 16 (bis)
Gluck-Sgambati: Mélodie d’Orphée (bis)

Nelson Freire – piano
Live recordings from: Maryland 1975, Amsterdam 2005, La Chaux-de-Fonds 2012, Paris 2018 & 2019, Brasilia 2019, Bucharest 2019.

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“Cada vez que toco Chopin, mais eu gosto dele”, dizia Nelson

E ainda temos, de brinde, Freire tocando o 3º Concerto de Bartók com o luxuoso acompanhamento da orquestra alemã da NDR de Hannover regida por Ferdinand Leitner, maestro que fez sua fama regendo óperas de Wagner e Carl Orff. Leitner também gravou, nos anos 1960, discos históricos dos concertos de Beethoven com os veteranos A. Foldes e W. Kempff. Era um maestro daqueles que sabem criar o pano de fundo para os solistas – cantores ou instrumentistas – brilharem. Os momentos de “música noturna” do Adagio Religioso soam especialmente interessantes. No diálogo entre os músicos alemães e o então jovem brasileiro, o adjetivo religioso ganha aqui um caráter meditativo que nunca chega a uma solenidade exagerada como em outras gravações.

Béla Bartók (1881-1945): Piano concerto No. 3 in E major
I. Allegretto
II. Adagio religioso – poco più mosso – tempo I
III. Allegro vivace

Nelson Freire – piano
Ferdinand Leitner – conductor
Rundfunkorchester Hannover des NDR (NDR Radiophilharmonie)
22/10/1971, Funkhaus des NDR, Hannover

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No palco em Bucareste, Romênia, 2019. Obrigado, Nelson!

Pleyel

 

Bach/Busoni, Mendelssohn, Schubert/Liszt: Canções sem Palavras (Songs Without Words — Perahia)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Escrevo este textinho em 12 de junho, Dia dos Namorados, mas ele está programado para ir ao ar lá em 5 de julho, data em que está marcada a segunda dose de minha amada AstraZeneca, além de ser a dia de aniversário de minha mãe — ela faria 94 anos — e daquela pessoa que posso chamar de meu melhor amigo. Todas datas especiais, portanto. O disco do esplêndido Murray Perahia não tem nada a ver com isso. Mas é um bom disco, um disco, antes de tudo, inteligente. Ele explora os vários pontos fortes de Perahia. Estas peças exigem acima de tudo a capacidade de projetar e sustentar uma linha de canto, de moldar e dar forma a um som belo e cheio de nuances e de evocar a atmosfera de cada inspiração poética. Em suma, eles exigem um pianista com a sensibilidade e o temperamento de Perahia. Os Prelúdios Corais de Bach/Busoni são tocados com andamentos inteiramente naturais, não tão fúnebres como Nikolai Demidenko, mas nunca permitindo que os acompanhamentos, por mais floreados que sejam, soem apressados ​​ou agitados. Na seleção de canções de Mendelssohn, Perahia jamais chafurda nas peças mais lentas — um pecado comum em pianistas que as interpretam. Ele consegue trazer um sorriso ao nosso rosto com o final espirituoso. De todas essas riquezas, no entanto, eu estava mais interessado nas transcrições das canções de Schubert/Liszt. Perahia, um schubertiano natural e pianista de calor e pureza lírica, parece-me um candidato óbvio para esses arranjos maravilhosos e os resultados são sempre envolventes. A poesia pura deste disco é algo para se alegrar e a arte de Perahia brilha em cada compasso.

Bach/Busoni, Mendelssohn, Schubert/Liszt: Canções sem Palavras (Songs Without Words — Perahia)

Johann Sebastian Bach / Ferruccio Busoni
1 “Wachet Auf, Ruft Uns Die Stimme,” BWV 645 3:24
2 “Nun Komm, Der Heiden Heiland,” BWV 659 4:14
3 “Nun Freut Euch, Lieben Christen,” BWV 734 2:03
4 “Ich Ruf’ Zu Dir, Herr Jesu Christ,” BWV 639 3:04

Felix Mendelssohn
Lieder Ohne Worte
5 Opus 19, No. 3 2:07
6 Opus 67, No. 2 1:57
7 Opus 30, No. 4 2:27
8 Opus 19, No. 1 3:14
9 Opus 19, No. 5 2:13
10 Opus 30, No. 6 2:54
11 Opus 38, No. 3 2:13
12 Opus 102, No. 5 1:12
13 Opus 38, No. 2 1:58
14 Opus 30, No. 2 1:57
15 Opus 67, No. 1 2:02
16 Opus 38, No. 6 3:08
17 Opus 67, No. 4 1:43
18 Opus 53, No. 4 2:25
19 Opus 62, No. 2 1:47

Franz Schubert / Franz Liszt
20 “Auf Dem Wasser Zu Singen” 3:52
21 “In Der Ferne” 6:35
22 “Ständchen” 5:17
23 “Erlkönig” 4:28

Murray Perahia, piano

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OK, Murray eu sei dizer, mas e Perahia?

PQP

Ferruccio Busoni (1866-1924): Quartetos de Cordas Nros 1 e 2 (Pellegrini)

Ferruccio Busoni (1866-1924): Quartetos de Cordas Nros 1 e 2 (Pellegrini)

Busoni é mais conhecido por suas belas transcrições de Bach. Quando vi este CD por aí, logo fiquei espicaçado pela curiosidade. Pois gostei do que ouvi. Música bem escrita, de alta qualidade, de um estilo discreto e bonito. O nome completo de Busoni é apenas Dante Michaelangelo Benvenuto Ferruccio Busoni. É claro que sua admiração por Bach aparece em suas obras. A música de Busoni é de grande complexidade contrapontística, ou, dito de outra forma, ela é feita de diversas linhas melódicas entremeadas.

Este quartetos me deixaram com vontade de conhecer mais da obra deste italiano-europeu, que nasceu em Empoli, mas viveu também em Berlim, Moscou, Bolonha, Graz, Leipzig, Helsinque, etc. Ah, o Quarteto Pellegrini é ótimo.

Ferruccio Busoni (1866-1924): Quartetos de Cordas Nros 1 e 2 (Pellegrini)

String Quartett Op. 19 In C Major
1 Allegro Moderato, Patetico 8:46
2 Andante 5:35
3 Menuetto 5:11
4 Finale. Andante Con Moto, Alla Marcia 7:07

String Quartett Op. 26 In D Minor
5 Allegro Energico 8:44
6 Andante Con Moto 5:55
7 Vivace Assai 5:03
8 Andantino-Allegro Con Brio 6:47

Pellegrini-Quartett:
Cello – Helmut Menzler
Viola – Charlotte Geselbracht
Violin – Antonio Pellegrini, Thomas Hofer

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Busoni, ao ouvir de PQP Bach um relato sobre a situação política do Brasil atual e sua enorme vulgaridade

PQP

BTHVN250 – Max Reger (1873-1916): Variações sobre um tema de Beethoven, Op. 86 – Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791): Fuga, K. 426 e Sonata, K. 448/375a – Ferruccio Busoni (1866-1924): Fantasia Contrappuntistica, BV 256b – András Schiff – Peter Serkin

Ao longo de seus quarenta e cinco anos de carreira, Beethoven tomou emprestados dezenas de temas a seus colegas compositores. No começo, ele o fazia simplesmente porque a forma do tema com variações era muito popular entre os compositores-pianistas, e era praxe lucrativa compor sobre árias e canções em voga. Ao estabelecer-se como o melhor pianista de Viena, ele acostumou-se a usar temas alheios – às vezes já conhecidos, outras vezes ditados pelo público ou mesmo por rivais – para exibir seu talento como improvisador, pelo qual foi por um bom tempo até mais famoso do que como compositor. Por fim, e principalmente nas Variações “Diabelli”, ele mostrava a sua incomparável capacidade de transformar o mais frugal dos temas ao decompô-lo, parodiá-lo e reinventá-lo, enquanto exibia seu enciclopédico conhecimento das capacidades do teclado.

O bicho era tão bom nisso que não surpreende que poucos compositores depois dele tenham tomado seus temas para comporem variações – ninguém, enfim, quer mostrar seus pés pequenos sambando dentro de tão grandes chinelas. Um dos poucos insensatos a fazê-lo foi Max Reger…

ECCE HOMO (DP)

… que, só pela cara, a gente já vê que manjava de todos os paranauê.

De fato, sua vasta e mormente desconhecida obra demonstra duma forma quase fanfarronística seu domínio das técnicas de composição. Escrever fugas, por exemplo, parecia-lhe um passatempo. Compor variações E fuga sobre um tema de Beethoven, então, jamais o intimidaria – foi ele, enfim, o homem responsável pela transcrição de muito da obra de J. S. Bach para duo pianístico, o que fez com muita competência e resistindo firme à tomatina que lhe jogaram.

As “Variações e Fuga sobre um Tema de Beethoven” (1904) são uma obra fundamental do repertório para duo, e aliás uma das poucas composições de Reger que, infelizmente, aparecem com alguma frequência em qualquer repertório. O tema que escolheu foi o da breve bagatela para piano em Si bemol maior, Op. 119, no. 11, que ele passa por um rigoroso corredor-polonês contrapontístico que culmina – como era seu costume em obras com variações – com uma assertiva fuga final. Anos mais tarde, ele orquestraria oito das doze variações, mas a roupagem sinfônica não conquistou a relativa popularidade do original.

Neste álbum duplo que lhes apresento, a obra ganha um ótimo tratamento por dois artistas de primeiríssima. András Schiff e Peter Serkin apresentaram o repertório do disco numa série de recitais ao longo de 1999, para enfim gravá-lo em New York, e é evidente que se deram muito bem no processo. Tenho pena, só, das duas singelas obras de Mozart, eclipsadas pelas variações de Reger e pela tonitruante Fantasia Contrappuntistica de Busoni que, apesar de inicialmente intitulada Grosse Fuge, homenageia a “Arte da Fuga” de J. S. Bach. Talvez seja demais para uma quinta-feira à tarde, então compreenderia se, para prevenirem a saturação sensorial (se é que eu já não os saturei para sempre com tanto Beethoven), vocês salvassem o álbum para ouvi-lo depois dum bom tempo longe de mim.



Wolfgang Amadeus MOZART
 (1756-1791)

Fuga em Dó menor para dois pianos, K. 426
1 – Allegro Moderato

Johann Baptist Joseph Maximilian REGER (1873-1916)

Variações e fuga sobre um tema de Beethoven para dois pianos, Op. 86
2 – Thema: Andante
3 – Un poco più lento
4 – Agitato
5 – Andantino grazioso
6 – Andante sostenuto
7 – Appassionato
8 – Andante sostenuto
9 – Vivace
10 – Sostenuto
11 – Vivace
12 – Poco vivace
13 – Andante con grazia
14 – Allegro pomposo
15 – Fuge: Allegro con spirito

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Dante Michaelangelo Benvenuto Ferruccio BUSONI (1866-1924)

Fantasia Contrappuntistica para dois pianos, BV 256b
1 – Choral-Variationen
2 – Fuga I
3 – Fuga II
4 – Fuga III
5 – Intermezzo
6 – Variatio I
7 – Variatio II
8 – Variatio III
9 – Cadenza
10 – Fuga IV
11 – Corale
12 – Stretta

Wolfgang Amadeus MOZART

Sonata em Ré maior para dois pianos, K. 448/375a
13 – Allegro con spirito
14 – Andante
15 – Allegro Molto

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András Schiff e Peter Serkin, pianos

Vassily

Martha Argerich & Friends – Live from Lugano Festival – 2007 #BTHVN250

De acordo com a Wikipedia, Lugano é uma cidade com 65 mil habitantes, localizada no Sul da Suíça, um local paradisíaco, ao lado de um lago absolutamente magnífico.

Foi ali que Martha Argerich organizou por muitos anos um Festival de Música, revelando muitos músicos talentosos, e outros já famosos aproveitaram para desfilarem ainda mais seu talento.

A série começa com o genial Trio para Piano ‘Ghost’ de Beethoven, belamente interpretado por Martha, o Capuçon violinista, Renaud, e Mischa Maisky, que dispensa apresentações. Músicos deste nível tocando juntos, em um lugar como este, com certeza seria o passeio dos sonhos de muita gente.

CD 1:

Ludwig van Beethoven (1770-1827):
Piano Trio in D major “Ghost”, Op. 70,1

Ferruccio Busoni (1866-1924) / Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791):
Fantasie für eine Orgelwalze, arrangement for 2 pianos in F minor (after Mozart, K. 608)

Robert Schumann (1810-1856):
Andante and Variations for 2 pianos in B flat major, Op. 46
Kinderszenen, Op. 15

Martha Argerich – piano
Lilya Zilberstein – piano
Gabriela Montero – piano
Renaud Capuçon – violin
Mischa Maisky – cello

CD 2:

Ludwig van Beethoven (1770-1827):
Piano Quartet No. 2 in D major, WoO 36,2

Maurice Ravel (1875-1937):
Ma mère l’oye, suite for piano 4 hands

Mikhail Glinka (1804-1857):
Grand Sextet for piano, two violins, viola, cello and double-bass

Olivier Messiaen (1908-1992):
Theme and Variations, for violin & piano

Maurice Ravel (1875-1937):
Daphnis et Chloé, suite No. 2 (transcr. 2 pianos Lucien Garban)

Martha Argerich – piano
Alexander Mogilevsky – piano
Karin Lechner – piano
Francesco Piemontesi – piano
Sergio Tiempo – piano
Lucia Hall – violin
Alissa Margulis – violin
Lida Chen – viola
Nora Romanoff-Schwarzberg – viola
Mark Drobinsky – cello
Enrico Fagone – double bass

CD 3:

Béla Bartók (1881-1945):
Violin Sonata No.1 Sz75

Ernő von Dohnányi (1877-1960):
Piano Quintet No.1 in C minor, op.1

Witold Lutosławski (1913-1994):
Variations on a Theme by Paganini for 2 pianos

Martha Argerich – piano
Nicholas Angelich – piano
Mauricio Vallina – piano
Renaud Capuçon – violin
Dora Schwarzerg – violin
Lucia Hall – violin
Nora Romanoff-Schwarzberg – viola
Jorge Bosso – cello

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Bach – Busoni – Lutz – Brahms: Chaconne

Bach – Busoni – Lutz – Brahms: Chaconne

IM-PER-DÍ-VEL !!!! 

REVALIDADO POR VASSILY EM 2/8/2015

Atendendo a pedidos, nosso Serviço de Atendimento ao Chororô (SAC) disponibiliza links fresquíssimos para um belo álbum repleto da magistral Chaconne da Partita em Ré menor do Grande Pai Bach, em transcrições para piano (aquela célebre de Busoni, uma contemporânea de Lutz e a de Brahms para mão esquerda) e no original para violino solo. É daquelas obras que, na iminência do final do mundo, a gente desejaria colocar numa cápsula espacial para que se salve deste vale de lágrimas – e que muitos de nós outros, melômanos, certamente gostaríamos de ter nos ouvidos ao dele nos despedirmos. Uma tremenda gravação, acompanhada de uma das melhores resenhas jamais feitas pelo patrão PQP.

Vassily

POSTAGEM ORIGINAL DE PQP BACH EM 10/5/2012

Numa noite fria do século XVIII, Bach escrevia a Chacona da Partita Nº 2 para violino solo. A música partia de sua imaginação (1) para o papel (2), alternando-se com o violino (3), no qual era testada. Anos depois, foi copiada (4) e publicada (5). Hoje, o violinista lê a Chacona (6) e de seus olhos passa o que está escrito ao violino (9) utilizando para isso seu controverso cérebro (7) e sua instável, ou não, técnica (8). Do violino, a música passa a um engenheiro de som (10) que a grava em um equipamento (11), para só então chegar ao ouvinte (12), que se desmilingúi àquilo.

Na variação entre todas essas passagens e comunicações, está a infindável diversidade das interpretações. Mas ainda faltam elos, como a qualidade do violino – e se seu som for divino ou de lata, e se ele for um instrumento original ou moderno? E o calibre do violinista? E seu senso de estilo e vivências? E o ouvinte? E… as verdadeiras intenções de Bach? Desejava ele que o pequeno violino tomasse as proporções gigantescas e polifônicas do órgão? Mesmo?

E depois tem gente que acha chata a música erudita…

-=-=-=-=-

Este CD faz ainda pior. É um disco onde há três diferentes transcrições (13, 13 e 13) que foram para o papel (14), para o pianista, etc. As transcrições são muito boas.

E apenas uma certeza. Tudo muito bom, tudo muito bonito, mas a Chaconne foi mesmo escrita o VIOLINO. Quando Beyer entra, o sol aparece. É algo absurdamente luminoso, apesar de, ao que tudo indica, Bach tê-la escrito durante o luto pela morte de sua primeira esposa Maria Barbara e em honra a ela. 

Bach – Busoni – Lutz – Brahms: Chaconne

1. Chaconne After Bach’s Partita for Violin Solo No. 2 in D Minor, BWV 1004 (Transcribed for Piano By Busoni) 15:47

2. Chaconne After Bach’s Partita for Violin Solo No. 2 in D Minor, BWV 1004 (Transcribed for Piano By Lutz) 15:18

3. Chaconne After Bach’s Partita for Violin Solo No. 2 in D Minor, BWV 1004 (Transcribed for Piano By Brahms) 15:28

4. Partita for Violin Solo No. 2 in D Minor, BWV 1004: V. Chaconne 13:58

Edna Stern, piano
Amandine Beyer, violino

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Chaconne

PQP

J.S.Bach/F.Busoni: Ciaccona, B.Galuppi: Sonata No.5

cover-Michelangeli-Bach-Busoni-GaluppiJohann Sebastian Bach apagaria 333 velinhas dia 21 de março!

Quando Dante Michaelangelo Benvenuto Ferruccio Busoni nasceu, em 1866, perto de Florença, seu pai quis homenagear os grandes artistas toscanos dando ao filho esse nome longo e pomposo. E ao longo de toda a vida, Busoni nunca pensou pequeno. Considerado por muitos o sucessor de Liszt como compositor e pianista, foi um grande intérprete, entre outras, da Hammerklavier e da Diabelli de Beethoven, da Sonata de Liszt e das Variações Goldberg de Bach. Também compôs transcrições para piano de várias obras de Bach, atualizando-as para o gosto do romantismo do final do século XIX.

Hugo Leichtentritt, musicólogo alemão, era um de seus adoradores. Escreveu que “Busoni era um músico com uma elevação, uma força espiritual, uma completa ausência de materialismo. A impressionante clareza de sua polifonia, a elegância de seus ornamentos, a elasticidade e precisão de seus ritmos criam maravilhas sonoras nunca antes ouvidas.”

O crítico americano Harold Schoenberg, após a citação acima, questiona: Pode-se chamar isso de Bach? A erudição contemporânea diria que não. E mais uma vez, deve ser lembrado que pianistas da geração de Busoni refletiam as ideias de sua era, e não as do fim do século XX.

É verdade que o gosto atual considera a Chacona de Bach-Busoni exagerada. Mas  vamos lembrar que Bach transcreveu concertos de Vivaldi do violino para o órgão, entre outras transcrições que alteravam totalmente os originais. E também é provável que o ouvinte de daqui a cem anos perceba exageros nas interpretações de Bach que hoje achamos “corretas”. O mais importante é apreciar.

Estátua de Bach e seus belos cachos em sua cidade natal
Estátua de Bach e seus belos cachos em sua cidade natal

Baldassare Galuppi, nascido em 1706, foi maestro di cappella na Basílica de São Marco, em Veneza. Compôs cerca de cem óperas e ficou conhecido na sua época como o grande mestre da ópera cômica, influenciando Haydn e Mozart nesse gênero.

Michelangeli, sempre com suas sonoridades muito cuidadosamente executadas, recria aqui a arte pra violino de Bach sob o olhar de Busoni, a arte pra cravo de Galuppi com um som de piano que faz esquecer que o instrumento tem martelos – pra usar aqui uma expressão de Debussy, outro compositor com o qual o som de Michelangeli se encaixa perfeitamente.

Johann Sebastian Bach (1685–1750) / Ferruccio Busoni (1866–1924)
A1. Ciaccona from Partita No.2 BWV1004

Baldassare Galuppi (1706–1785)
Sonata No.5
B1. Andante
B2. Allegro
B3. Allegro assai

Arturo Benedetti Michelangeli, piano
Media: EP
Year: 1967
Label: Melodiya D-20427-8
Country of Origin: USSR

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Pleyel

Galuppi, também com cabelos cacheados seguindo a moda do século 18
Galuppi, também com cabelos cacheados seguindo a moda do século 18

J. S. Bach (1685-1750): B-A-C-H: Ich ruf zu Dir (Franz Liszt / Ferruccio Busoni)

J. S. Bach (1685-1750): B-A-C-H: Ich ruf zu Dir (Franz Liszt / Ferruccio Busoni)

Aurelia Shimkus nasceu em Riga, na Letônia, em 1997. É jovem demais e meio mão pesada e sem sutileza para sair interpretando Bach por aí. Tem bom desempenho na porrada lisztiana que abre o CD, mas depois deixa transparecer certas ânsias heavy metal, principalmente, na linda e delicadíssima Ich ruf’ zu dir, Herr Jesu Christ, onde trata de enfiar a mão em momentos em que esta ficaria melhor no bolso.  Também detestei a transcrição de Busoni para a Toccata and Fugue. E não seria natural que a pianista enfrentasse a maior peça de Bach transcrita para o piano por Busoni? Por que ela fugiu disso aqui? Ah, Aurelia…

J. S. Bach (1685-1750): B-A-C-H: Ich ruf zu Dir

1 Fantasia and Fugue on the Theme B-A-C-H, S529/R22 12:43, de Liszt
2 Capriccio sopra la lontananza del fratello dilettissmo in B-Flat Major, BWV 992 10:37
3 10 Chorale Preludes, BV B 27: Ich ruf’ zu dir, Herr Jesu Christ, BWV 639 (arr. F. Busoni for piano) 3:57
4 10 Chorale Preludes, BV B 27: Komm, Gott Schopfer, BWV 667 (arr. F. Busoni for piano) 1:58
5 10 Chorale Preludes, BV B 27: Durch Adams Fall ist ganz verderbt, BWV 705 (arr. F. Busoni for piano) 7:04
6 Toccata and Fugue in D Minor, BWV 565 (arr. F. Busoni for piano) 9:05
7 Die Kunst der Fuge, BWV 1080: Fuga a 3 Soggetti (Contrapunctus XIV) 8:39

Aurelia Shimkus, piano

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Aurelia, em foto Liszt-free
Aurelia, em foto Liszt-free

PQP

John Adams (1947): Short Ride in a Fast Machine / The Wound-Dresser / Berceuse elegiaque (Busoni) / Shaker Loops (version for string orchestra)

John Adams (1947): Short Ride in a Fast Machine / The Wound-Dresser / Berceuse elegiaque (Busoni) / Shaker Loops (version for string orchestra)

John Adams nasceu em Massachusetts e estudou composição em Harvard. Quando jovem procurava distanciar-se de uma formação musical europeia. A, na minha opinião, sensacional Shaker Loops, escrita no auge do minimalismo norte-americano, ajudou a dar-lhe um lugar como um dos mais importantes compositores vivos americanos. Ele utiliza a técnica de fragmentos da melodia em looping do primeiro Steve Reich. É, de longe, sua obra mais gravada e interpretada. Também estão neste disco Short Ride in a Fast Machine, quatro minutos de pura adrenalina e The Wound-Dresser, uma adaptação do poema de Walt Whitman sobre sua experiência como enfermeiro durante a guerra civil. A adaptação da obra de Busoni, acomodou-se muito bem em meu estômago. Marin Alsop é o regente titular Orquestra Sinfônica de Bournemouth desde 2002. Em 2003, ela recebeu o prêmio da revista Gramophone como regente do ano e o Prêmio do Royal Philharmonic Society de condução. Já gravou Weill e Bartók, bem como o completo ciclo das sinfonias de Brahms.

Adams: Short Ride in a Fast Machine / The Wound-Dresser / Berceuse elegiaque / Shaker Loops (version for string orchestra)

1. Short Ride in a Fast Machine 4:14

2. The Wound-Dresser 19:11

3. Berceuse elegiaque, Op. 42 (arr. J. Adams): Berceuse elegiaque (arr. J. Adams) 9:30
* Obra de Ferruccio Busoni (1866-1924) *

4. Shaker Loops (version for string orchestra): Shaking and Trembling 8:27
5. Shaker Loops (version for string orchestra): Hymning Slews 5:31
6. Shaker Loops (version for string orchestra): Loops and Verses 7:13
7. Shaker Loops (version for string orchestra): A Final Shaking 4:09

Nathan Gunn, baritone
Bournemouth Symphony Orchestra
Marin Alsop

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John Adams
John Adams: guri minimalista dos bons

PQP

Ferruccio Busoni (1866-1924) – String Quartet in C, Op.19 e String Quartet in D, Op.26

Não tenho conseguido parar de ouvir estes quartetos do compositor italiano Ferruccio Busoni. Ele apareceu pouco por aqui. Busoni era filho de músicos e possuía habilidades incomuns. Deu o seu primeiro concerto público aos sete anos de idade, o que o coloca na categoria de um Mozart ou de um Mendelssohn. Sua música é complexa. A wikipédia diz que a música de Busoni “é feita de diversas linhas melódicas entremeadas. Ainda que sua música não seja jamais de fa(c)to atonal no sentido schönbergiano do termo, suas obras tardias distinguem-se freqüentemente por uma tonalidade indeterminada, como as últimas de Franz Liszt. Nas notas de programa para sua Sonatina seconda de 1912, Busoni descreve sua peça como sendo senza tonalità (italiano para: sem tonalidade). Johann Sebastian Bach e Franz Liszt são regularmente citados como tendo tido uma influência decisiva sobre o compositor italiano, pois sua música contém elementos de neoclassicismo, e inclui melodias que se assemelham à aquelas de Wolfgang Amadeus Mozart. Busoni escreveu numerosas peças para piano”. Ouça e tire as suas conclusões. Uma boa experimentação.

Ferruccio Busoni (1866-1924) – String Quartet in C, Op.19 e String Quartet in D, Op.26

String Quartet in C, Op.19
01. I. Allegro moderato, patetico
02. II. Andante
03. III. Menuetto
04. IV. Finale. Andante con moto, alla marcia

String Quartet in D, Op.26
05. I. Allegro energico
06. II. Andante con moto
07. III. Vivace assai
08. IV. Andantino – Allegro con brio

Pellegrini-Quartett
Antonio Pellegrini, violino
Thomas Hofer, violino
Charlotte Geselbracht, viola
Helmut Menzler, cello

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Carlinus