Henry Purcell (1659-1695): “Come Ye Sons Of Art” – Ode For The Birthday Of Queen Mary (1694) / Music For The Funeral Of Queen Mary (1695) (Gardiner)

Henry Purcell (1659-1695): “Come Ye Sons Of Art” – Ode For The Birthday Of Queen Mary (1694) / Music For The Funeral Of Queen Mary (1695) (Gardiner)

John Eliot Gardiner gravou as obras da Rainha Mary — a Ode de Aniversário e a Música para o Funeral — lá em 1976. A Orquestra e o Coro Monteverdi já eram espetaculares, só que esta gravação analógica do Aniversário, feita na Capela Rosslyn Hill, em Londres, não é tão bem equilibrada, com os solistas às vezes soando pequenos demais para competir com o conjunto de apoio. No entanto, a execução da Música Funeral por Gardiner é um acontecimento grandioso e imponente, e é uma pena que a gravação não lhe faça maior justiça. O Funeral — com o perdão da palavra — é um verdadeiro deleite, especialmente os quartetos de trombones. Há um verdadeiro sentimento de luto, mas sem deixar a música totalmente sombria. Interpretação suntuosa e altamente dramática. Talvez insuperável ainda hoje, apesar de seus problemas.

Henry Purcell (1659-1695): “Come Ye Sons Of Art” – Ode For The Birthday Of Queen Mary (1694) / Music For The Funeral Of Queen Mary (1695) (Gardiner)

“Come Ye Sons Of Art” Ode For The Birthday Of Queen Mary (1694) = Ode Pour L’Anniversaire De La reine Mary = Geburtstagsode Für Königin Maria
1 Ouverture 4:06
2 “Come, Ye Sons Of Art, Come Away” 1:58
3 “Sound The Trumpet” 2:28
4 “Come, Ye Sons Of Art, Come Away” 1:23
5 “Strike The Viol” 4:43
6 “The Day That Such A Blessing” 2:29
7 “Bid The Virtues” 3:31
8 “These, Are The Sacred Charms” 1:38
9 “See Nature, Rejoicing” 2:54

Music For The Funeral Of Queen Mary (1695) = Musique Funèbre Pour La Reine Mary = Trauermusik Für Königin Maria
10 Marche 2:12
11 “Man That Is Born” 3:46
12 Canzona 1:43
13 “In The Midst Of Life” 5:53
14 Canzona 0:49
15 “Thou Knowest, Lord, The Secrets Of Our Hearts” 2:18
16 March 2:15

Bass Vocals – Thomas Allen
Cello [Continuo] – Marilyn Sansom
Choir – Monteverdi Choir*
Composed By – Henry Purcell
Conductor – John Eliot Gardiner
Contrabass [Continuo] – Barry Guy
Countertenor Vocals – Charles Brett, John Williams (41)
Ensemble – Equale Brass Ensemble*
Harpsichord [Continuo] – Trevor Pinnock
Orchestra – Monteverdi Orchestra*
Sackbut [Equale Brass Ensemble] – Peter Harvey (2)
Soprano Vocals – Felicity Lott
Timpani [Equale Brass Ensemble] – David Corkhill
Trombone [Equale Brass Ensemble] – Peter Goodwin
Trumpet [Equale Brass Ensemble] – Graham Whiting, Michael Laird (2)

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Muito cuidado com Gardiner. Ele pode, subitamente, tornar-se pugilista.

PQP

Khachaturian / Prokofiev / Glazunov: Russian Violin Concertos (Fischer, Russian National Orchestra, Kreizberg)

Khachaturian / Prokofiev / Glazunov: Russian Violin Concertos (Fischer, Russian National Orchestra, Kreizberg)

Este foi o álbum de estreia de Julia Fischer. Sua colaboração com Yakov Kreizberg já vinha de algum tempo. Ela o considerava o mais simpático dos maestros, e ele a ajudou a concretizar a gravação. Ele compartilhava com ela a admiração pelo concerto de Khachaturian e apoiou o plano de gravar esta peça imerecidamente negligenciada. Ela achava difícil até vendê-la para os promotores de concertos, que sem dúvida teriam preferido a milésima versão do concerto de Tchaikovsky. Mas ambos os artistas acreditaram em todos os trinta e sete minutos da obra, que é mesmo magnífica. Kreizberg, imaginem, morreu em 2011 com apenas 51 anos. No Concerto de Khat, há um “apelo de sabor armênio”, às vezes soando folclórico, até mesmo oriental. Há poesia também, como no tratamento do segundo tema, e de todo o comovente Andante sostenuto, com mais cor armênia. David Oistrakh estreou este concerto. O Primeiro Concerto para Violino de Prokofiev é a obra mais familiar deste programa, tanto em concerto como em disco. Nas notas do livreto de Fischer, ela menciona sua ironia, sarcasmo, e seu lirismo, no qual ela diz que pretendeu focar. Ela faz justiça a todos os os estados de espírito, pois saborear esses contrastes é essencial, né? E ela tem razão — este é um concerto principalmente lírico, e sua estrutura incomum de dois movimentos externos lentos emoldurando um scherzo central influenciou alguns outros concertos de cordas. A abordagem de Fischer é bastante íntima e convincente. O Glazunov é aceitável, com um allegro final bem dançável e assobiável.

Khachaturian / Prokofiev / Glazunov: Russian Violin Concertos (Fischer, Russian National Orchestra, Kreizberg)

Khachaturian* Violin Concerto In D Minor (1940)
1 – 1. Allegro Con Fermezza Cadenza – Aram Khatchaturian 14:54
2 – 2. Andante Sostenuto 12:28
3 – 3. Allegro Vivace 9:16

Prokofiev* Violin Concerto No. 1 In D Op. 19 (1916-1917)
4 – 1. Andantino – Andante Assai 10:09
5 – 2. Scherzo (Vivacissimo) 3:37
6 – 3. Moderato – Allegro Moderato – Più Tranquillo 8:14

Glazunov* Violin Concerto In A Minor Op. 82 (1905)
7 – 1. Moderato – 4:19
8 – 2. Andante – Cadenza – Alexander Glazunov 10:29
9 – 3. Allegro 5:40

Julia Fischer, violin
Russian National Orchestra
Yakov Kreizberg

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Julia Fischer

PQP

Johannes Brahms (1833-1897): Trios para Piano (Trio Fontenay)

Pretendo com esta postagem voltar a me dedicar a meu compositor favorito, o bom e velho Johannes Brahms, e trago seus trios para piano, obras primas incontestes desse repertório.

Já trouxe essas mesmas obras em outras ocasiões, principalmente a versão do Beaux Arts Trio, talvez o melhor registro já realizado, mas existem outras gravações de excelente qualidade, como essa que trago hoje, com os alemães do “Trio Fontenay“, em dois cds lançados entre 1988 e 1990.

Já encontramos o DNA de Brahms presente no op. 8, obra de juventude, mas que foi revisada pelo compositor já no final de sua vida. Talvez a melhor maneira de entendermos e conhecermos esse compositor tão especial seja exatamente por essas obras com menor número de instrumentos. Nelas, Brahms consegue se expressar com muita propriedade, nos fascinando com suas escolhas e principalmente, com uma perfeita interação entre os instrumentos, não deixando nenhum deles se sobressair muito, em perfeita harmonia.

Para quem não conhece a obra de Brahms, ou a teme por algum motivo (já comentaram comigo que a achavam por demais hermética), creio que os Trios sejam a melhor apresentação. Líricas e muito expressivas, revelam a alma de um compositor que viveu sua vida em função da música.

Espero que apreciem.

Johannes Brahms (1833-1897): Trios para Piano (Trio Fontenay)

CD 1

01. Piano Trio No. 1 in B major, op. 8 (revised 1889) – I. Allegro con brio
02. Piano Trio No. 1 in B major, op. 8 (revised 1889) – II. Scherzo Allegro molt
03. Piano Trio No. 1 in B major, op. 8 (revised 1889) – III. Adagio
04. Piano Trio No. 1 in B major, op. 8 (revised 1889) – IV. Finale Allegro
05. Piano Trio No. 2 in C major, op. 87 – I. Allegro
06. Piano Trio No. 2 in C major, op. 87 – II. Tema con variazioni Andante con moto
07. Piano Trio No. 2 in C major, op. 87 – III. Scherzo Presto – Trio Poco meno
08. Piano Trio No. 2 in C major, op. 87 – IV. Finale Allegro giocoso

CD 2

01. Piano Trio No. 3 in C minor, op. 101 – I. Allegro energico
02. Piano Trio No. 3 in C minor, op. 101 – II. Presto non assai
03. Piano Trio No. 3 in C minor, op. 101 – III. Andante grazioso
04. Piano Trio No. 3 in C minor, op. 101 – IV. Finale Allegro molto
05. Piano Trio in A major, op. posth. (1853) – I. Moderato
06. Piano Trio in A major, op. posth. (1853) – II. Vivace – Trio
07. Piano Trio in A major, op. posth. (1853) – III. Lento
08. Piano Trio in A major, op. posth. (1853) – IV. Presto

Trio Fontenay:
Wolf Harden – Piano
Michael Mücke – Violin
Niklas Schimdt – Cello

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FDP

BRUCKNER 200 ANOS! Anton Bruckner (1824 – 1896): Sinfonia No. 7 em mi maior – Wiener Philharmoniker & Herbert von Karajan ֎

BRUCKNER 200 ANOS! Anton Bruckner (1824 – 1896): Sinfonia No. 7 em mi maior – Wiener Philharmoniker & Herbert von Karajan ֎

BRUCKNER

Sinfonia No. 7

Wiener Philharmoniker

Herbert von Karajan

 

Qual é a melhor gravação da Sétima de Bruckner?

Esse tipo de pergunta costumava levar o grupo de habitués da loja de discos a acirradas e calorosas discussões. Estamos falando dos fins da década de 80, início de 90 do século passado, período que viu surgimento dos CDs e uma tsunami de lançamentos e relançamentos inundava as caçambas das lojas, para grande desespero de nossas magras economias. Temas como gravações ao vivo ou feitas em estúdio, com tecnologia digital ou analógica eram enfileirados ao lado das opiniões sobre os estilos dos regentes e suas orquestras. Havia radicalismo, mas também opiniões bastante aproveitáveis. Os nomes mais citados eram Giulini, Bohm, Jochum, Klemperer, Walter, Celi (os íntimos o tratavam assim) e aquele menino, o Haitink. O nome que eu não coloquei na lista é aquele que mais radicalizava entre lovers and haters. Estamos falando do fim da década de 80 do século passado e assistíamos ao crepúsculo de um deus. O maestro que havia abocanhado a tríplice coroa e que havia exercido maior poder no mundo da música estava no fim de sua longa carreira. Herbert von Karajan dividia opiniões e certamente dava motivos tanto para seus fãs como para os que detestavam seu estilo, incluindo aqueles que ficava em cima do muro.

HvK teve oportunidade de gravar com as melhores orquestras um repertório enorme durante um longo período, passou pelos grandes avanços tecnológicos, que ele sempre usou como trampolim para mergulhar em uma nova onda de gravações. Deixou pelo menos três ciclos completos das Sinfonias de Beethoven: com a Philharmonia Orchestra para a EMI (Walter Legge) no início dos anos 50, o mais interessante deles no início da década de 60, já com a Berliner Philharmoniker, para a DG, e depois mais um, glossy, na era digital.

Mas nossa conversa é sobre Bruckner, cuja música sempre despertou o melhor das habilidades de Herbert. Ele certamente se interessava mais pelas sinfonias famosas, especialmente pelas três últimas, mas chegou a gravar um ciclo ‘completo’, para a DG.

A gravação desta postagem desafia algumas armadilhas comuns a essas situações. Karajan detinha o controle absoluto sobre a Berliner Philharmoniker num contrato fechado para toda a sua vida, mas nos fins dos anos 80 a vida havia sido longa e os ressentimentos se amontoavam de tal forma que o rompimento foi inevitável. Em abril de 1989 ele abriu mão desse poder. Neste mesmo mês ele deu um concerto e gravou essa sinfonia com sua ‘outra’ orquestra, a Wiener Philharmoniker, com a música que ele definitivamente amava. Seria um gesto para despertar ciúmes na outra orquestra, seria mesmo um consciente adeus à música ou simplesmente uma ocasião onde a mágica voltou a funcionar? De qualquer forma, esse registro merece seu lugar em qualquer séria discussão sobre a obra de Bruckner, inclusive nessa comemoração pelos duzentos anos do nascimento do Anton.

Seja você partidário, detrator ou simples figurante no que tange às interpretações musicais de Karajan, caso você se interesse pela obra de Bruckner, você precisa ouvir esse disco. Depois me diga se essa gravação pode ser pelo menos uma boa candidata à resposta da pergunta que abriu o texto.

Anton Bruckner (1824 – 1896)

Sinfonia No. 7 em mi maior (Ed. Robert Haas)

  1. Allegro moderato
  2. Sehr feierlich und sehr langsam
  3. Sehr schnell
  4. Bewegt, doch nicht schnell

Wiener Philharmoniker

Herbert von Karajan

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“The Vienna Philharmonic also feature on what was Karajan’s last recording, an equally idiomatic account of the Seventh Symphony, lighter and more classical in feel than either of Karajan’s two Berlin recordings yet loftier, too. When Abbado’s in many ways very fine Vienna Philharmonic recording was released a couple of years ago (DG, 5/94), I noted, “With Karajan we appear to have clambered to a higher track where the footing is as firm, yet where the views are even more breathtakingly complete”.  [Gramophone, na ocasião do relançamento da gravação, na série Karajan Gold]

Anton Bruckner (1824 – 1896)

Vivaldi (1678-1741): Bizzarie Venetiane. Concerti per vari strumenti – Musica ad Rhenum & Jed Wentz ֎

Vivaldi (1678-1741): Bizzarie Venetiane. Concerti per vari strumenti – Musica ad Rhenum & Jed Wentz ֎

 

Vivaldi

Concerti per vari strumenti

Musica ad Rhenum

Jed Wentz

 

Visitar Veneza por uns dias é sonho de muitos turistas amantes das artes tanto hoje quanto nos séculos passados. Além do cenário diferente de todas as outras cidades da Europa, com seus canais no lugar de ruas, seus museus, igrejas e inúmeros palácios com um universo de belezas a ser visto.

A Basílica de San Marco, com seus degraus de pedra gastos pelos inúmeros passos de visitantes desde os dias de Monteverdi, a Piazza San Marco com sua vastidão e imponência, o Grande Canal… só isso já vale metade da viagem.

Além da arquitetura e das artes expostas nos museus, os viajantes buscavam também a música de Veneza, sublime, maravilhosa.

E a música de Vivaldi, desde seus primeiros concertos, representa essa riqueza cultural mais do que qualquer outra.

Pois não é que andávamos aqui no blog distantes, esquecidos do Padre Vermelho até que esse álbum de concertos com muitos instrumentos cruzou meu caminho. Me animei com o som logo de cara e como o disco continuou tocando sem que nenhuma vontade de o interromper irrompeu no meu sistema, acabei o considerando para uma postagem. Fui atrás de informações sobre o conjunto Musica ad Rhenum, que é de Amsterdam e toca com instrumentos de época, e só ouvi boas coisas. O flautista que o dirige, Jed Wentz, tem vários discos editados pelo selo Brillante e merece atenção e audição.

Pois vamos então começar por aqui… uma belezura de álbum, com uma documentação rica e uma variedade sonora impressionante.

Antonio Vivaldi (1678 – 1741)

Concerto for Violin, Organ, Strings and Continuo in C Major, “Il rosignuolo”, RV 335a

  1. Allegro
  2. Largo
  3. Allegro

Concerto for 2 Traversos, Strings and Continuo in C Major, RV 533

  1. Allegro molto
  2. Largo
  3. Allegro

Concerto for Violin, Organ, Strings and Continuo in D Minor, RV 541

  1. Allegro
  2. Grave
  3. Allegro

Concerto for Traverso, 2 Violins, Violoncello and Continuo in G Minor, RV 107

  1. Allegro
  2. Largo
  3. Allegro

Concerto for Violin, Violoncello, Organ, Strings and Continuo in C Major, RV 554a

  1. Allegro
  2. Andante
  3. Allegro

Concerto for Recorder, Strings and Continuo in C Minor, RV 441

  1. Allegro non molto
  2. Largo
  3. Allegro

Concerto for Violoncello, Strings and Continuo in G Minor, RV 417

  1. Allegro
  2. Andante
  3. Allegro

Concerto for Traverso, Organ, Strings and Continuo in F Major, RV 767

  1. Alla breve
  2. Larghetto
  3. Allegro

Concerto for Strings and Continuo in G Major, “Alla rustica”, RV 151

  1. Presto
  2. Adagio
  3. Allegro

Concerto for Traverso, Strings and Continuo in D Major, “Il cardellino”, Op. 10 No. 3, RV 428

  1. Allegro
  2. Cantabile
  3. Allegro

Concerto for Violin, Organ, Strings and Continuo in C Minor, RV 766

  1. Allegro
  2. Largo
  3. Allegro

Sonata for Violin, Traverso and Organ in C Major, RV 779

  1. Andante
  2. Allegro
  3. Largo e cantabile
  4. Allegro

Concerto for Traverso, Violin, Violoncello and Continuo in D Major, RV 92

  1. Allegro
  2. Aria
  3. Allegro

Concerto for Violin, Strings and Continuo in G Minor, RV 155

  1. Adagio
  2. Allegro
  3. Largo
  4. Allegro

Concerto for Traverso, Strings and Continuo in D Major, RV 783

  1. Allegro
  2. Largo
  3. Allegro

Concerto for Violin, Organ, Strings and Continuo in F Major, RV 542

  1. Allegro
  2. Alla franchese
  3. Allegro

Marcelo Bussi, órgão

Manfred Kraemer, violino

Marion Moonen, flauta

Balász Maté, violoncelo

Gustavo Zarba, violino

Peter Holtslag, flauta doce

Musica ad Rhenum

Jed Wentz, flauta e direção

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Jed explicando para o pessoal do PQP Bach a vitalidade que há na música de Vivaldi

Momento “The Book is on the Table”: “Musica ad Rhenum lets music-making be always an exciting adventure. It is fun, it grants joy of life, gives courage to be spontaneous, and awakens one’s own creativity.”

“All of the pieces tested the musicians’ expressive and technical abilities. The results were triumphant blends of refinement and bold personality.”

Aproveite!

René Denon

Franz Joseph Haydn (1732-1809): Sinfonias Nº 44 “Trauer”, 88 e 104 “London” (Capella Istropolitana, Wordsworth)

Franz Joseph Haydn (1732-1809): Sinfonias Nº 44 “Trauer”, 88 e 104 “London” (Capella Istropolitana, Wordsworth)

Haydn escreveu 104 sinfonias, das quais a última é apresentada neste disco interpretado pelos eslovacos da Capella Istropolitana e seu regente inglês Barry Wordsworth, grupo de crescente reputação na Europa. E você vê o porquê neste disco. Eles conseguem levar Haydn de uma forma que captura o espírito e o frescor de seu trabalho. As três sinfonias são tocadas lindamente. E com Haydn isso é muito. Ele é reconhecido hoje como o “pai” da sinfonia, não porque tenha criado a forma — houve sinfonias antes dele, mas não soavam como hoje. Foi Haydn quem moldou e desenvolveu a sinfonia na forma clássica madura. A de Nº 44 é facilmente reconhecida como uma sinfonia moderna com quatro movimentos. É um trabalho agradável, mas certamente não está classificado entre os trabalhos mais importantes de Haydn, mas já dá a promessa das coisas maiores que estão por vir. A música de Haydn está repleta de felicidade e de belas melodias para as quais ele parecia ter um suprimento inesgotável. A Sinfonia Nº 88 representa mais um avanço no crescimento de Haydn como compositor. Continua sendo uma das sinfonias mais populares de Haydn e é frequentemente gravada e tocada em concertos. Aqui temos mais consistência do que na 44. Já é uma joia, mas a pepita do disco, no entanto, é a Sinfonia Nº 104, facilmente uma daquelas poucas sinfonias classificadas entre as maiores já escritas. Este é Haydn no pleno reflexo de sua genialidade. Nela, o compositor combina seu inato senso de estilo com uma grande competência e é uma alegria ouvi-la mais uma vez. Uma palavra sobre a Capella Istropolitana e Wordsworth: cresci numa época em que as sinfonias traziam consigo um molho pesado, às vezes indigesto. Minha introdução à Sinfonia Nº 104 de Haydn foi com Otto Klemperer e a Philharmonia. A interpretação era majestosa, grandiosa, bem executada e totalmente sem noção. Aqui, tudo é mais íntimo. A Capella Istropolitana é uma orquestra menor e de toque muito mais leve. É Haydn. Sua genialidade foi nos levar até às portas de Beethoven, mas ele não foi Beethoven.

Franz Joseph Haydn (1732-1809): Sinfonias Nº 44 “Trauer”, 88 e 104 “London” (Capella Istropolitana, Wordsworth)

Symphony No. 44 in E Minor, Hob.I:44, “Trauersinfonie” (Mourning)
1 I. Allegro con brio 07:08
2 II. Menuet and trio 06:23
3 III. Adagio 04:35
4 IV. Finale: Presto 03:48

Symphony No. 88 in G Major, Hob.I:88
5 I. Adagio – Allegro 06:40
6 II. Largo 05:34
7 III. Menuetto: Allegretto 04:13
8 IV. Finale: Allegro con spirito 03:53

Symphony No. 104 in D Major, Hob.I:104, “London”
9 I. Adagio – Allegro 08:22
10 II. Andante 09:29
11 III. Menuet – Trio 05:26
12 IV. Finale: Spiritoso 06:51

Orchestra: Capella Istropolitana
Conductor: Wordsworth, Barry

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A Capellla Istropolitana é de Bratislava

PQP

Gustav Mahler (1860-1911): A Canção da Terra (arranjo de Schoenberg e Riehn)

Gustav Mahler (1860-1911): A Canção da Terra (arranjo de Schoenberg e Riehn)

Meus amigos, Mahler escreveu uma redução de A Canção da Terra (Das Lied von der Erde) para piano e voz… Quem conhece a obra sabe que não pode ter ficado grande coisa, claro, mas estas reduções eram uma prática comum numa época em que havia frequentes saraus musicais. Por incrível que pareça, Shostakovich também fazia versões para piano de suas sinfonias. Pois bem, Arnold Schoenberg adorava Das Lied von der Erde e resolveu fazer um arranjo para pequeno grupo que estivesse mais próximo da grandiosidade do original. São 15 instrumentos, dentre os quais um piano — principalmente para “simular” os tutti — e duas vozes.

Philippe Herreweghe, que não é trouxa e conhece a capacidade de Schoenberg para reearranjar peças de outros (conhecem seus trabalhos orquestrais sobre peças para órgão de Bach e quartetos de Brahms e Schubert? Pois deviam!) resolveu gravar a versão em 1994 para a Harmonia Mundi.

A informação que tenho dos quinze instrumentistas foi retirada do CD que possuo. Nele não há a relação deles. Agora li um comentário de que seriam nove: flauta, clarinete, dois violinos, viola, cello, baixo, piano e harmônica. Deixo a pesquisa para vocês, OK?

A interpretação de Herreweghe e seus músicos é para deixar qualquer um pasmo. É uma coisa de louco este CD.

Texto da Canção da Terra com traduções e análises: AQUI. Basta clicar no cabeçalho, cada imagem representa um dos movimentos.

Recomendo para todos! Imperdível para mahlerianos!

Gustav Mahler (1860-1911): A Canção da Terra (arranjo de Schoenberg e Riehn)

1. I. Das Trinklied vom Jammer der Erde – 8:13
2. II. Der Einsame im Herbst – 9:25
3. III. Von der Jugend – 3:50
4. IV. Von der Schönheit – 7:30
5. V. Der Trunkene im Frühling – 4:47
6. VI. Der Abschied – 28:55

Alto Vocals – Birgit Remmert
Composed By – Gustav Mahler
Conductor – Philippe Herreweghe
Ensemble – Ensemble Musique Oblique
Instrumentation By – Arnold Schoenberg, Rainer Riehn
Tenor Vocals – Hans Peter Blochwitz

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Mahler trabalhando no jardim

PQP

Beethoven (1770-1827): Algumas Sonatas para Piano – Rachmaninov (1873 – 1943): Concerto para Piano No. 1 – Richard Strauss (1864 – 1949): Burleske – Byron Janis (piano) ֎

Beethoven (1770-1827): Algumas Sonatas para Piano – Rachmaninov (1873 – 1943): Concerto para Piano No. 1 – Richard Strauss (1864 – 1949): Burleske – Byron Janis (piano) ֎

 

Homenagem ao pianista Byron JANIS (1928 – 2024)

Imagine ser um pianista virtuose no período no qual reinavam nomes como Gilels, Horowitz, Rubinstein, Richter. O pelotão de frente era espetacular, estelar… Pois isso foi o que viveu profissionalmente Byron Janis, que faleceu há alguns dias, em 14 de março de 2024, pouco antes de completar 96 anos.

Viver 96 anos é um feito reservado a poucos, ainda mais se pensarmos que esses anos decorreram entre 1928 e 2024, podemos imaginar quantas mudanças ele testemunhou.

Nascido na Pensilvânia, estreou como pianista aos 15 anos com a orquestra do maestro Toscanini e aos 18 anos tornou-se o mais novo aluno de Horowitz. Também nessa idade tornou-se o mais novo pianista a ser contratado pela RCA Victor.

Em 1960 foi o primeiro artista americano a participar de um pioneiro Intercâmbio Cultural entre os Estados Unidos e a então União Soviética.

A partir dos anos 1970 passou a sofrer de um tipo de artrite que lhe causava muitas dores, mesmo assim prosseguiu na carreira e essa condição só se tornou pública em 1985, quando deu um concerto na Casa Branca, na era Reagan. Desde então passou a ser o porta voz da Arthritis Foundation e também seu Embaixador para as Artes.

Eu conhecia suas gravações dos enormes concertos para piano, como os ultra-românticos Rach #2 e #3 e o espetacular Prkfv #3, originalmente gravados pelo selo Mercury, mas para essa postagem escolhi algumas gravações mais antigas, talvez menos conhecidas, mas de maneira alguma desinteressantes.

As Sonatas para piano de Beethoven estão supimpas e há de bônus um impromptu de Schubert que está delicioso.

Para representar sua arte como pianista com orquestra escolhi um disco com o primeiro concerto de Rachmaninov, que esbanja juventude e impetuosidade, acompanhado da Burleske, de Strauss, uma peça intrigante e aqui muito bem apresentada. Para garantir que tudo fosse nos trinques, essas peças veem acompanhadas pela Orquestra Sinfônica de Chicago regida pelo seu tiranossauro mor, Fritz Reiner!

Ludwig van Beethoven (1770 – 1828 )

Piano Sonata No. 17 in D minor, Op. 31 No. 2 ‘Tempest’

  1. Largo – Allegro
  2. Adagio
  3. Allegretto

Franz Schubert (1797 – 1828)

  1. Impromptu in E flat major, D899 No. 2

Byron Janis (piano)

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Ludwig van Beethoven (1770 – 1828 )

Piano Sonata No. 21 in C major, Op. 53 ‘Waldstein’

  1. Allegro con brio
  2. Introduzione – Adagio molto
  3. Rondo – Allegro comodo

Piano Sonata No. 30 in E major, Op. 109

  1. Vivace, ma non troppo
  2. Prestissimo
  3. Andante molto cantabile ed espressivo

Byron Janis (piano)

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Sergey Vassilievich Rachmaninov (1873-1943)

Piano Concerto No. 1 in F sharp minor, Op. 1

  1. Vivace
  2. Andante cantabile
  3. Allegro vivace

Richard Strauss (1864–1949)

Burleske for Piano and orchestra in D minor, AV85

  1. Burleske

Byron Janis (piano)

Chicago Symphony Orchestra

Fritz Reiner

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Maestro Reiner com o jovem Byron nos ensaios para a gravação do disco
Postagem com selo Jurássico!

In 1967, Janis accidentally discovered two previously unknown manuscripts of Chopin waltzes in France and later found two others while teaching at Yale University.

“In spite of adverse physical challenges throughout his career, he overcame them, and it did not diminish his artistry,” Maria Cooper Janis, 86, wrote. “Music is Byron’s soul, not a ticket to stardom, and his passion for and love of creating music informed every day of his life of 95 years.

Foi um bamba do teclado…

Aproveite!

René Denon

 

J. S. Bach (1685-1750): Missae Breves, BWV 234 & 235 (Pygmalion)

J. S. Bach (1685-1750): Missae Breves, BWV 234 & 235 (Pygmalion)

Como vocês sabem, sofro de hipobachemia, mal que aflige algumas pessoas que ficam muito tempo longe de J.S. Bach. Durante as crises causadas pela síndrome, ficamos trêmulos, irritadiços como se fôssemos menstruar e não conseguimos ouvir compositores que desperdiçam notas como se estivessem bebendo água na torneira da praça. Então, sempre PRECISO voltar a ele como a um barco seguro. Este repertório é algo raro, apesar de sua alta qualidade. OK, não falemos em qualidade, é sinônimo de Bach.

J. S. Bach (1685-1750): Missae Breves, BWV 234 & 235 (Pygmalion)

1. Motet: “Der Gerechte kommt um” 6:23

2. Messe Brève en Sol Mineur, BWV 235: I. Kyrie 5:35
3. Messe Brève en Sol Mineur, BWV 235: II. Gloria 2:57
4. Messe Brève en Sol Mineur, BWV 235: III. Gratias 3:11
5. Messe Brève en Sol Mineur, BWV 235: IV. Domine fili 4:54
6. Messe Brève en Sol Mineur, BWV 235: V. Qui tollis peccata mundi 4:07
7. Messe Brève en Sol Mineur, BWV 235: VI. Cum sancto spiritu 4:07

8. Messe Brève en La Majeur, BWV 234: I. Kyrie 5:42
9. Messe Brève en La Majeur, BWV 234: II. Gloria 5:41
10. Messe Brève en La Majeur, BWV 234: III. Domine Deus 5:37
11. Messe Brève en La Majeur, BWV 234: IV. Qui tollis peccata mundi 6:53
12. Messe Brève en La Majeur, BWV 234: V. Quoniam tu solus 3:09
13. Messe Brève en La Majeur, BWV 234: VI. Cum sancto spiritu 3:14

Pygmalion
Raphaél Pichon, regente

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E aí está o pessoal do Pygmalion.

PQP

Robert Schumann – Sinfonias – Pablo Heras-Casado, Münchner Philharmoniker

Depois de Brahms, Schumann é meu compositor romântico favorito em se tratando de sinfonias. Desde os primeiros acordes da Primeira Sinfonia, vejo um mundo imenso de possibilidades e sentimentos. Mas ao contrário das sinfonias de seu amigo Brahms, sempre vendo o mundo de uma forma mais complexa e densa, Schumann consegue nos apresentar uma outra forma de ver o mundo, mais alegre, mais colorida e ensolarada. Não por acaso primeira Sinfonia é intitulada ‘Primavera’. Como sempre, sugiro fortemente a leitura do livreto em anexo.

Sabemos que Robert, até determinada fase de sua vida, se dedicava às composições para piano, mas graças à sua esposa, Clara, ele encarou o desafio e compôs a Sinfonia nº1. O depoimento abaixo de Clara Schumann nos dá uma ótima perspectiva do assunto:

“seria melhor se ele compusesse para orquestra; sua imaginação não encontra espaço suficiente no piano… Suas composições são todas orquestrais no sentimento… Meu maior desejo é que ele componha para orquestra – esse é o campo dele! Que eu consiga trazê-lo para isso!” (extraido da Wikipedia, tradução livre).

Ah, Clara, sábias e proféticas palavras, que ajudaram a nos trazer quatro obras primas fundamentais do repertório sinfônico.

Existem diversas gravações de excelente qualidade destas sinfonias, já trouxemos diversas opções. Pablo Heras-Casado vem se destacando nos últimos anos nos palcos do mundo inteiro, e essa sua parceria com a poderosa Filarmônica de Munique só ajuda a fortalecer seu nome. A gravação foi realizada em 2022, bem recente, e lançada pelo selo Harmonia Mundi.

CD 1

Symphony No. 1 Op.38 ‘Frühling’ B-Dur
1 | I. Andante un poco maestoso – Allegro molto vivace
2 | II. Larghetto
3 | III. Scherzo. Molto vivace
4 | IV. Allegro animato e grazioso

Symphony No.2 Op.61 C major
5 I. Sostenuto assai – Un poco più vivace – Allegro ma non troppo – Con fuoco
6 II. Scherzo. Allegro vivace
7 III. Adagio espressivo
8 IV. Allegro molto vivace

CD 3

Symphony No.3 Op.97 ‘Rhenish’ E-flat major
1 I. Lebhaft
2 II. Scherzo. Sehr mäßig
3 III. Nicht schnell
4 IV. Feierlich
5 V. Lebhaft

Symphony No.4 Op. 120 (1851 version) D minor
6 I. Ziemlich langsam – Lebhaft
7 II. Romanze. Ziemlich langsam
8 III. Scherzo. Lebhaft
9 IV. Langsam – Lebhaft

Münchner Philharmoniker
Pablo Heras-Casado

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FDP

Homenagem à pianista Dirce Bauer Knijnik

Homenagem à pianista Dirce Bauer Knijnik
Dirce Bauer Knijinik, pianista brasileira, nascida no Rio de Janeiro, 1929-2024.

Grande pianista carioca, ou “cariúcha”, como dizia, a trajetória de Dirce Bauer Knijnik ocorreu em duas etapas: 35 anos no Rio de Janeiro; e outros 60, em Porto Alegre…

No Rio, sua família morava próximo ao morro do Salgueiro, onde se emocionava com as batucadas e ronco das cuícas, daquela tradicional escola de samba. Sons que invadiam sua imaginação de criança e experiência única para família de imigrantes judaico-lituanos, que um dia aportaram na baía da Guanabara…

Dirce lembrava: “Comovida, ‘ouvia de joelhos’ aquela explosão rítmica, à passar em frente de nossa casa, no carnaval!” – e quem já esteve numa quadra de samba, sabe da imensa força…

Da vida na Lituânia, sua mãe recordava serem vizinhos da família de Jascha Heifetz, cujo pai tocava violino junto ao berço do futuro virtuose… E por tradição, família de Dirce respirava música… De início, meio desligada, fez musicalização, prática de ballet e outras atividades… Então, sua irmã decidiu: “vai estudar com professor mais rígido que houver!” E a inscreveu na “Escola Nacional de Música”…

Vista de Vilnius, Lituânia.

Para surpresa, Dirce encantou-se com Rossini Freitas – “mestre exigente, mas atencioso”. Seu único temor era a ponta do lápis do prof. Freitas. Não por reprimendas físicas, ou algo assim, mas que o temível lápis rasurasse suas partituras… Seu carinho, por aquelas antigas edições, era imenso e não combinava com os rabiscos do mestre – então, estudava com afinco, para não errar… E muito lamentou a perda do professor, pouco tempo após sua formatura…

Vista da Av. Rio Branco, Rio de Janeiro, 1930.

Suas infância e juventude ocorreram durante a “1ª Era Vargas”, com impactos na educação e na vida nacional. Quando Villa-Lobos organizava atividades coletivas e o nacionalismo adquiria maior vigor, em contribuições de Camargo Guarnieri, Lorenzo Fernandez e outros. Cresceu imersa naquele ambiente ufanista e musicalizada por eminentes pedadogos, como Sá Pereira e o casal Francisco e Liddy Mignone, 1ª esposa do maestro e compositor… E Dirce lembrava, certa ocasião, ser a única a identificar sons de um complexo acorde, que Mignone tocara ao piano…

Liddy Mignone, educadora musical, 1a esposa de Francisco Mignone.

À medida que amadurecia, participou de transmissões da “Rádio Nacional”, chamando atenção da mecenas carioca, sra. Alcina Navarro, que passou a convidá-la para saraus residenciais, onde conheceu algumas celebridades, como Jaques Klein, Guiomar Novaes e Arnaldo Rebello. E, mais tarde, o garoto Nelson Freire, cujas técnica e musicalidade a encantaram… Neste período, fez algumas aulas com Guiomar…

E aos 20 anos, finalizou, com ‘medalha de ouro’, curso da UFRJ, 1950, realizando recitais em Salvador, Recife e várias cidades argentinas… Nesta ocasião, apresentou-se em Pelotas, RS, regência de Jean-Jaques Pagnot, 1954. E contemplada com bolsa de estudos pelo governo português, foi à Europa estudar com Sequeira Costa, prestigiado pianista. Mas, este viajava muito e Dirce deparou-se sozinha para o “Concurso Vianna da Motta”, ouvindo apenas gravações de Guiomar Novaes… Neste período, ainda fez aulas com o italiano, Carlo Zecchi; e o espanhol, Tomas Terán…

Dirce Bauer Knijnik, Nelson Freire, Guiomar Novaes e Camargo Guarnieri.

De volta ao Rio de Janeiro, foi semifinalista do “2° Concurso Internacional”, 1959. E entre os jurados, Guiomar Novaes, que aproximou-se e perguntou com quem havia estudado… Dirce respondeu: “estudei com a Sra!”… E Guiomar: “mas, como?”… Admiradora da pianista, ouvia tão atentamente suas gravações, que as reproduzia em detalhes – fraseado, andamentos, etc… Assim havia preparado a “Fantasia” op. 49, de Chopin! E entre intérpretes como Brailowsky, Malcuzynski e Novaes, preferia, de pronto, a brasileira. Como diria Tom Jobim: “Só se imita a quem admira ou ama”, inevitavelmente…

E realizou iniciação da menina Cristina Ortiz – dos 4 aos 8 anos, que mais tarde iria à Paris, estudar com Magda Tagliaferro e, depois, vencer “Van Cliburn Competition”, 1969 – “Dirce me ensinou a amar a música e o piano”, disse Cristina… Por coincidência, pai de Cristina e irmão de Dirce eram colegas na Petrobrás, da Bahia. E, transferidos para o Rio, propiciaram aproximação…

Cristina Ortiz (esquerda) e Dirce Bauer Knijnik (centro), alunos Elaine e Fernando Cordella – “Estúdio Trilhas Urbanas”, Curitiba, 2018.

Cristina Ortiz, à ‘piano bleu’: “Je passais des jours entiers au piano, à jouer d’oreille tout-ce que je comprenais comme son… et c’est là qu’on à trouvé la merveilleuse Dirce Bauer, souer d’un collègue à papa (qui travaillait à la Petrobrás, d’abord à Bahia et pui à Rio).”

Então, Dirce soube de concurso em Porto Alegre, para o “Instituto de Artes”… Candidatou-se e aguardou eventual nomeação… Situações inusitadas, no entanto, a levaram aos USA… Quando conheceu irmão de timpanista da OSB, que, entendeu, seria boa esposa para sr. Miller, outro irmão, que morava em Nova York. Músico talentoso e septuagenário, não despertou maior entusiasmo… Ainda assim, Dirce viajou à Nova York… Simpático e atencioso, o pretendente senior se ofereceu para interceder junto à “Town Hall”, prestigiada sala de concertos…

Dirce Bauer, recital “Town Hall”, Nova York, 1964.

Então, procurou empresário e recomendou a pianista brasileira. Agenda estava completa, mas, insistente, Miller retornou ao mesmo “coffee shop”, do primeiro encontro, quando foi informado de que se abrira uma data… E Dirce Bauer podia ser programada!

Feliz, mas apreensiva, tinha poucos dias para definir programa, não sem incluir obra do dedicado amigo e compositor; além de Brahms, “Intermezzi” op. 117… E foi à “Steinway & Sons” escolher magnífico modelo “CD-12″… Por fim, recital foi um sucesso, com boa receptividade da crítica nova-iorquina, ensejando convites nos USA e outros lugares…

Da crítica: “Miss Bauer expressou verdadeira sonoridade de virtuose. E sua performance, com excelente e delicada gama de coloridos, revelou apurado senso de estrutura.”

Neste momento, 1964, outra surpresa, recebia correspondência de Porto Alegre, para cargo no “Instituto de Artes”, da UFRGS. E optou pela nomeação, em meio à turbulência que assolava o país, mudando-se para o sul do Brasil… Assim, encerravam-se 35 anos de atividades, entre Rio de Janeiro e Nova York; e iniciava nova etapa, no Rio Grande do Sul…

Profa. Dirce e alguns alunos, em Porto Alegre, RS.

Em Porto Alegre, casou-se com médico psiquiatra, Leão Knijnik, e passava a chamar-se Dirce Bauer Knijnik, dedicando-se à vida familiar e formação de pianistas, alguns com destacadas carreiras, nacionais e internacionais, como Olinda Alessandrini, Alexandre Dossin, André Loss, Alessandra Feris, José Prediger, Dimitri Cervo, Fernando Cordella, Rodolfo Faistauer e outros – “frutos do amor à música e ao magistério”… 

E passados alguns anos, retomou apresentações, realizando recitais solo e música de câmara, com Earl Carlyss, Elisa Fukuda e Lúcia Passos… Também concertos com orquestra, nas direções de Leo Perachi, Alceu Bochino, Eleazar de Carvalho, Arlindo Teixeira, Cláudio Ribeiro e John Neschling… Além de parcerias com músicos radicados em Porto Alegre, como Hubertus Hofmann, Fredi Gerling e Marcello Guerschfeld. Por fim, gravações em CD – “Presença musical da UFRGS” e “Músicas que mamãe gostava”…

CD “Presença musical da UFRGS”, Dirce Bauer Knijnik.

Intensa brasilidade, nostalgia e dolente fluidez percorrem as interpretações de Francisco Mignone, Radamés Gnattali, Villa-Lobos e Guarnieri. Além de notável repertório, barroco e romântico, com Bach, Brahms e Chopin… E pelos pagos riograndenses, tornava-se mais conhecida como Dirce Knijnik…

Para download: CD “Presença Musical da UFRGS”

  • J. S. Bach (Busoni): “Toccata, Adagio e Fuga”, BWV 564 (faixas 1-3) – Brahms: “Valsas” op. 39 (faixa 4) – Guarnieri: “Dansa Negra” (faixa 5) e “Ponteios 48 e 49” (faixa 6) – Chopin: “Barcarolle” op. 60 (faixa 7) e “4ª Ballade” op. 52 (faixa 8) – D. B. Knijnik: “Aleluia” (faixa 9)

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Para download: “9 valsas brasileiras” (Acervo do prof. D. Cervo, IA-UFRGS), mais “Choros n° 5 – Alma Brasileira”, de Villa-Lobos

  • Francisco Mignone: “Valsa Choro 7” (faixa 1), “Valsa Choro 3” (faixa 2), “Valsa Elegante” (faixa 3) e “Valsa de Esquina 2” (faixa 4) – Paulo Guedes: “Valsa” (faixa 5) – Gnattali: “Vaidosa (valsa)” (faixa 6) – Guarnieri: “Valsa 8 ” (faixa 7), “Valsa 9” (faixa 8) e “Valsa 10” (faixa 9) – Villa-Lobos: “Choros 5 (Alma Brasileira)” (faixa 10)

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Arte e ensino

Frédéric Chopin, por Delacroix.

De sua arte e atividade docente, depreendemos que enfatizava fraseado e sonoridade, pontos de partida e guias permanentes da técnica. Para Dirce, estudos estritamente físico-motores distanciavam-se da expressividade e da razão de ser da música, como prática e prazer estético…

E dizia, “o som é a voz da alma”, não apenas em performance, mas sempre… Especialmente, no trabalho árduo, das passagens complexas ou da base de escalas e arpejos, que demandavam concentração e disciplina; mas, necessariamente, almejavam poesia e encantamento – amálgamas entre motricidade e imaginário sonoro…

Portanto, nunca desconectar-se da fluidez melódica e dos sentimentos, em suas diversidade e nuances; do pensar musical e do estilo, em cada passagem, como elementos primordiais da arte…

Dirce Bauer Knijnik, pianista brasileira.

Além disto, Dirce incorporava tradições dos anos 1930/40, dos chorinhos, valsas e modinhas, retratos da vida carioca, dos chamados “pianeiros” e do vibrante nacionalismo, à preludiarem, em “rubatos” e suspensões de tempo, dolentes e elegantes sentimentalismos… Da livre musicalidade, escorreita e sedutora, que ouvimos em Chopin e no repertório brasileiro… Também, em Bach e Brahms, profundas e comoventes sonoridades…

Assim, desinteressava-se por virtuosismos predominantemente atléticos… E nas ausências de lirismo ou paixão, percebia “velocidade como sintoma de ansiedade”, reflexo da vida moderna e do imediatismo, quem sabe, descuido do tempo interior diante da pressa; do indivíduo frente à angústia e à solidão, entre o expressar e o reconhecer-se em suas peculiaridades e expectativas…

Então, preconizava disciplina e introspecção, através do controle rítmico e do “legato”; do relaxar e do ouvir-se; do domínio do tempo, para flexibilizá-lo, permanentemente… E no desenvolvimento sensorial, meio de conciliar sonoridade e prazer, com maiores emoção e comunicação – portanto, pouca dispersão e muita concentração!

“2a Valsa de Esquina”, Francisco Mignone.

Por fim, reiterava que tempos excessivos ou irregulares, em geral, atropelavam respiração e fraseado, truncando densidade e potencial interpretativo… Para tanto, modelar-se na voz humana era essencial – na sensível arte “do cantar e do respirar”… A combinar-se em diversos estilos e indivíduos, campo de possibilidades pedagógicas e universo de cada intérprete, presentes no detalhe musical e desdobrando-se no todo, orgânico e único…

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Vídeos e entrevistas: Sugerimos áudio e duas entrevistas, de onde colhemos alguns relatos, somados a outras fontes.

Áudio Youtube: “Sonata para violino e piano”, de Cesar Franck – Fredi Gerling (violino), Dirce Bauer Knijnik (piano)

Projeto Musicamara – Presto Produções: “homenagem à Dirce Knijnik”, com Lúcia Passos: 

Carmelo de los Santos – Live Instagram com Dirce Knijnik – “A essência da música”:

Aposentada do serviço público – UFRGS, 1988, profa. Dirce tornou-se membro da “European Piano Teachers Association”, 1997, realizando recital e “masterclasses”, em Londres, Inglaterra… E seguiu lecionando até os 95 anos, sempre cultivando amigos e interagindo com o mundo musical. Especial referência para os musicistas, deixa saudades em todos que usufruíram seus convívio, talento e sensibilidade…

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“Descanse em paz…”

“Nesta breve resenha, nossas homenagens, carinho e gratidão”  

Alex DeLarge

Francesco Durante: Magnificat / Emanuele D’Astorga: Stabat Mater / Giovanni Battista Pergolesi: Confitebor tibi Domine (Freiburg Baroque Orch / Hengelbrock)

Francesco Durante: Magnificat / Emanuele D’Astorga: Stabat Mater / Giovanni Battista Pergolesi: Confitebor tibi Domine (Freiburg Baroque Orch / Hengelbrock)

Confesso que até ouvir este cd, nunca tinha ouvido falar de Francesco Durante, ou Emmanuel D’Astorga, o que realmente me chamou a atenção foi o Pergolesi, autor de meu “Stabat Mater” favorito, já postado aqui no blog, na magnífica versão de Emma Kirkby e Christopher Hogwood. Mas qual não foi a minha supresa ao ouvir a “Magnificat” de Francesco Durante, e o Stabat Mater” de D’Astorga: músicas absolutamente maravilhosas, com corais próximos ao que imagino como corais de anjos, e de uma profundidade religiosa que não admite brincadeiras. Então, para esta data natalina, nada como música religiosa de extrema beleza. Maiores informações sobre Franceso Durante, que foi aluno de Scarlatti, pode encontrada aqui. Aproveito esta postagem para desejar a todos os nossos leitores-ouvintes um Feliz Natal e um excelente 2009, e prometo que continuarei trabalhando para possibilitar a vocês o privilégio de terem acesso a música de excelente qualidade com suas melhores interpretações.

Francesco Durante: Magnificat / Emanuele D’Astorga: Stabat Mater / Giovanni Battista Pergolesi: Confitebor tibi Domine (Freiburg Baroque Orch / Hengelbrock)

01 – Francesco Durante – Magnificat – Magnificat anima mea (coro)
02 – Francesco Durante – Magnificat – Et misericordia (Solo Soprano)
03 – Francesco Durante – Magnificat – Fecit potentiam (Coro)
04 – Francesco Durante – Magnificat – Deposuit potentes (Coro)
05 – Francesco Durante – Magnificat – Suscepit Israel (Duetto Tenore-Basso)
06 – Francesco Durante – Magnificat – Sicut locutus est (Coro)
07 – Francesco Durante – Magnificat – Gloria Patri (Coro)
08 – Francesco Durante – Magnificat – Sicut erat in principio (Coro)

Ekkehard Abele, Ann Monoyios, Johannes Happel, Bernhard Landauer, Hermann Oswald – Solistas
Freiburg Baroque Orchestra
Thomas Hengelbrock- Director

09 – Emanuele D’Astorga – Stabat Mater – Stabat Mater (Coro)
10 – Emanuele D’Astorga – Stabat Mater – O quam tristis (Terzetto Soprano-Tenore-Basso)
11 – Emanuele D’Astorga – Stabat Mater – Quis est homo (Duetto Alto-Soprano, Duetto Tenore-Basso)
12 – Emanuele D’Astorga – Stabat Mater – Eja mater (Coro)
13  – Emanuele D’Astorga – Stabat Mater – Sancta Mater (Solo soprano)
14  – Emanuele D’Astorga – Stabat Mater – Fac me tecum (Duetto Alto-Tenore)
15 – Emanuele D’Astorga – Stabat Mater – Virgo virginum (Coro)
16 – Emanuele D’Astorga – Stabat Mater – Fac me plagis (Solo Basso)
17  – Emanuele D’Astorga – Stabat Mater – Christe cum sit (Coro)

Ekkehard Abele, Johannes Happel, Bernhard Landauer, Hermann Oswald, Hans-Jorg Mammel – Solistas
Freiburg Baroque Orchestra
Thomas Hengelbrock- Director

18  – Giovanni Battista Pergolesi – Confitebor tibi Domine – Confitebor (Coro)
19  – Giovanni Battista Pergolesi – Confitebor tibi Domine – Confessio (Solo Soprano)
20 – Giovanni Battista Pergolesi – Confitebor tibi Domine – Fidelia omnia (Solo Soprano)
21 – Giovanni Battista Pergolesi – Confitebor tibi Domine – Redemptionem misit (Coro)
22  – Giovanni Battista Pergolesi – Confitebor tibi Domine – Sanctum et terribile (Solo Alto)
23  – Giovanni Battista Pergolesi – Confitebor tibi Domine – Intellectus bonus (Solo Alto)
24  – Giovanni Battista Pergolesi – Confitebor tibi Domine – Gloria Patri (Coro)
25  – Giovanni Battista Pergolesi – Confitebor tibi Domine – Sicut erat (Coro)

Ekkehard Abele,Johannes Happel, Bernhard Landauer, Stephanie Moller, Hermann Oswald, Hans-Jorg Mammel – Solistas

Freiburg Baroque Orchestra
Thomas Hengelbrock- Director

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Thomas Hengelbrock feliz após ver o Inter de Coudet.

FDP

J.S. Bach (1685-1750): 300 anos da Johannes-Passion (A Paixão Segundo João) – Dunedin Consort & John Butt ֎

J.S. Bach (1685-1750): 300 anos da Johannes-Passion (A Paixão Segundo João) – Dunedin Consort & John Butt ֎

Homenagem aos 300 anos da estreia da Paixão segundo João de Johann Sebastian Bach

7/4/1724 – 7/4/2024

 

Nesta obra de Fra Angelico João está representado

O dia 7 de abril de 1724 foi a sexta-feira da Semana Santa daquele ano e as pessoas que estiveram na Igreja de São Nicolau voltaram para casa com a sensação de terem presenciado algo muito especial. Durante o serviço religioso a música, composta pelo novo Cantor da Igreja de Santo Tomás, fora especialmente maravilhosa.

Bach havia sido nomeado recentemente para o cargo, substituindo o grande músico Johann Kuhnau. O cargo oferecido pela Igreja Protestante era muito prestigiado, mas demandava muito trabalho. As tarefas incluíam tocar órgão, ensinar Latim e Música na escola da igreja, compor a música para as igrejas de Santo Tomás e de São Nicolau, reger música e treinar os músicos de duas outras igrejas. Bach foi o terceiro candidato a ser escolhido para o cargo e possivelmente relutou em aceitá-lo, mas em casa havia muitas bocas para serem alimentadas.

Quando Bach se pôs a escrever sua Johannes Passion, conhecia alguns modelos antigos e outros contemporâneos. Os oratórios da Paixão apresentam a narrativa da morte de Jesus intercalada por árias refletivas, coros e corais. Seu antecessor Kuhnau teve uma obra desse tipo apresentada em 1721 e havia um libreto escrito por Barthold Heinrich Brockes (1680-1747) com o título Jesus torturado e morto pelos pecados deste mundo que havia sido musicado por Handel e por Telemann. Havia também uma Paixão segundo João, com libreto de J. G. Postel, que fora musicada pelo jovem Handel aos 19 anos.

John Butt

Bach estava com 39 anos, no auge de sua profissão e certamente queria mostrar aos conselheiros e aos fiéis que fazia jus ao cargo. Além disso, esse gênero tinha um apelo especial sobre a comunidade pelo fato de que a ópera de Leipzig havia colapsado um pouco antes da chegada de Bach. É verdade que o oratório é bem diferente de uma ópera, especialmente esse que já vem com spoiler, mas a expectativa devia ser grande, o que deve ter dado a João Sebastião motivação mais que suficiente para tratar a empreitada com grande cuidado e originalidade.

A versão ouvida naquela ocasião, há 300 anos atrás, foi modificada e reapresentada em 1725, depois mais uma vez em 1732. A versão que conhecemos é uma revisão que Bach fez em 1749, mas que não chegou a ser apresentada por Bach, que morreria pouco depois. Veja mais informações aqui e aqui.

O que se pode esperar da obra? Veja a tradução de um texto que poder ser encontrado na íntegra aqui, feita com a ajuda do Chat PQP: Na verdade, a Paixão de João contém vários ousados traços imaginativos aos quais Bach não voltaria na Paixão segundo São Mateus. O belo e plangente refrão de abertura, um exórdio dirigido a Jesus, é surpreendentemente dissonante e dá o tom para uma composição ousada de uma aparente espontaneidade que desmente sua cuidadosa construção. A parte 2 também começa com uma passagem particularmente memorável, embora por razões muito diferentes: é aqui que o coro realmente mostra seus dentes. Retratando a multidão que clamava pela execução de Jesus, o coro recebe uma música particularmente cruel e rancorosa com escalas cromáticas ascendentes e um turbilhão de cordas. Mesmo momentos suaves, como a ária soprano ‘Ich folge dir gleichfalls’, são frequentemente assombrados por seções cromáticas sutis e escuras.

As últimas fases da obra têm um notável sentido de impulso, sintetizado pela ária de baixo ‘Eilt, ihr angefocht’nen Seelen’ que é pontuada pelo coro que pergunta urgentemente ‘Wohin?’. Após a morte de Jesus, há uma seção reflexiva mais prolongada do que na Paixão de São Mateus, incluindo o terno “Ruht wohl”, uma peça de encerramento para coro (antes de um coral final) que forma um paralelo estrutural com a abertura da obra. Talvez como o próprio Evangelho de João, o que falta à partitura de Bach na lógica convencional e na transparência narrativa, compensa com uma beleza sobrenatural, convicção e um forte sentido poético.

John e sua turma na entrada do PQP Bach Theater em Edinburgh

A gravação escolhida para essa postagem especial é liderada por John Butt que já apareceu algumas vezes no blog e é um excelente músico. (John Butt é professor de música na Universidade de Glasgow, diretor musical da Dunedin Consort e artista principal da OAE. Sua carreira começou com sua nomeação como acadêmico de órgão no King’s College Cambridge, e isso levou a vários cargos acadêmicos e de desempenho (incluindo Organista da Universidade da Califórnia, Berkeley, 1989-97). Seu trabalho, como músico e estudioso, gravita em torno da música dos séculos 17 e 18, mas ele também está preocupado com as implicações do passado em nossa cultura atual).

O que ela tem diferente de outras recentes gravações é que a Paixão é apresentada em um contexto litúrgico, como poderá ser observado nos números extra de música ao início e ao fim dos arquivos. Essas partes assim como os detalhes das faixas da gravação estão nos arquivos no formato pdf.

Johann Sebastian Bach (1685 – 1750)

Johannes Passion

Nicholas Mulroy, Evangelista e tenor
Matthew Brook, Jesus e baixo
Robert Davies, Pedro e Pilatos
Joanne Lunn, soprano
Clare Wilkinson, contralto

Dunedin Consort

John Butt

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FLAC | 623 MB

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MP3 | 320 KBPS | 366 MB

John Butt treinando o coro dos aspirantes a contribuintes do blog do PQP Bach…

The recording was named a Gramophone Award Finalist, ‘Recording of the Month’ by three separate publications and topped the UK Specialist Chart upon its release in 2013.

Aproveite!

René Denon

Não deixe de visitar essa outra postagem com algumas informações sobre a obra e uma gravação também primorosa…

Johann Sebastian Bach (1685-1750): A Paixão Segundo São João, BWV 244 (Herreweghe, 2020) ֍

J. S. Bach (1685-1750): 6 Partitas, BWV 825-830 (Pinnock – Archiv)

J. S. Bach (1685-1750): 6 Partitas, BWV 825-830 (Pinnock – Archiv)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Vamos às explicações. Trevor Pinnock fez uma bela gravação das Partitas para o selo Archiv na década de 1980 — é esta que ora vos posto –, mas há uma gravação mais recente que é uma melhoria significativa tanto em termos do som gravado, quanto no que diz respeito à interpretação, que subiu vários degraus. Trata-se da gravação de Hänssler. O PQPBach tem ambas. Pinnock é sempre bom, mas ele parece estar no topo na outra versão. Os trinados e ornamentos são relaxados e uniformes, seu toque legato é incomparável. Os movimentos de dança são perfeitos, sem serem apressados ​​ou frenéticos. Tudo parece mais simples sem ser superficial. Mas esta versão aqui é também sensacional, é o trampolim para a outra. E é muito bom ver um grande artista evoluir. A competição é obviamente acirrada neste repertório e não farei nenhuma comparação com versões para piano. Huguette Dreyfus é uma concorrente, embora eu ache Pinnock mais flexível, mais interessante musicalmente e com melhor qualidade de som. Masaaki Suzuki é bom se você quiser tempos mais relaxados e um pouco mais de ar entre você e o instrumento. Aos meus ouvidos, Suzuki é menos “parecido com Bach” do que Pinnock. É elegante, mas de alguma forma um pouco distante e enigmático. Scott Ross é péssimo.  Excetuando Ross, eu viveria feliz com qualquer versão para cravo, mas estas duas de Pinnock moram no meu ventrículo esquerdo, que é onde o coração bate mais forte.

J. S. Bach (1685-1750): 6 Partitas, BWV 825-830 (Pinnock – Archiv)

Partita No. 1 In B Flat Major, BWV 825 = B-dur = En Si Bémol Majeur
1-1 1. Praeludium 1:57
1-2 2. Allemande 4:12
1-3 3. Corrente 2:50
1-4 4. Sarabande 4:09
1-5 5. Menuet I/II 2:35
1-6 6. Gigue 2:27

Partita No. 2 In C Minor, BWV 826 = C-moll = En Ut Mineur
1-7 1. Sinfonia. Grave Adagio 4:34
1-8 2. Allemande 5:30
1-9 3. Courante 2:00
1-10 4. Sarabande 2:48
1-11 5. Rondeaux 1:27
1-12 6. Capriccio 3:34

Partita No. 4 In D Major, BWV 828 = D-dur = En Ré Majeur
1-13 1. Ouverture 6:37
1-14 2. Allemande 5:37
1-15 3. Courante 2:28
1-16 4. Aria 1:33
1-17 5. Sarabande 4:28
1-18 6. Menuet 1:26
1-19 7. Gigue 4:04

Partita No. 5 In G Major, Bwv 829 = G-dur = En Sol Majeur
2-1 1. Praeambulum 2:50
2-2 2. Allemande 4:05
2-3 3. Corrente 1:53
2-4 4. Sarabande 3:49
2-5 5. Tempo Di Minuetto 1:15
2-6 6. Passepied 1:43
2-7 7. Gigue 4:18

Partita No. 3 In A Minor, BWV 827 = A-moll = En La Mineur
2-8 1. Fantasia 2:15
2-9 2. Allemande 3:22
2-10 3. Corrente 1:56
2-11 4. Sarabande 3:49
2-12 5. Burlesca 1:55
2-13 6. Scherzo 1:14
2-14 7. Gigue 3:31

Partita No. 6 In E Minor, BWV 830 = E-moll = En Mi Mineur
2-15 1. Toccata 7:41
2-16 2. Allemanda 3:03
2-17 3. Corrente 3:12
2-18 4. Air 1:43
2-19 5. Sarabande 4:17
2-20 6. Tempo Di Gavotta 1:24
2-21 7. Gigue 5:06

Harpsichord – Trevor Pinnock

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O grande Trevor Pinnock em foto atual.

PQP

Henri Dutilleux (1916-2013): Sonata para piano, Prelúdios / Franz Liszt (1811 -1886): Angelus, Klavierstucke, Mephisto, Valse Oubliée, Nuages Gris (Jonas Vitaud, piano)

Estreada em 1948, a Sonata para piano de Dutilleux é uma das grandes obras do repertório pianístico do século XX. É claro que devemos desconfiar desse tipo de afirmação categórica, normalmente acompanhada de provas por A+B que não costumam provar grandes coisas. Mas ao menos é o que dizem meus ouvidos: Dutilleux transita com grande liberdade dentro das três formas escolhidas para os três movimentos. É verdade que Liszt argumentou: “vinho novo pede garrafas novas” e nesse aspecto foi seguido por Wagner, Schoenberg, Debussy, Messiaen e tantos outros. Mas Dutilleux já chega bem depois e faz parte daqueles que voltaram às formas antigas para, a partir delas, produzir novidades. No piano de meados do século XX, isso rendeu obras como as Sonatas para Piano de Prokofiev e os Prelúdios e Fugas de Shostakovich, além dessa Sonata de peso do francês Dutilleux.

O primeiro movimento é um legítimo Allegro de sonata, o segundo um lento Lied com explorações harmônicas tipicamente francesas – Gary Higginson escreveu que esta é uma sonata que Debussy poderia ter escrito – e o movimento final é um Chorale (no sentido das obras de Bach para órgão) com variações. Uma curiosidade: os títulos dos movimentos variam entre italiano, alemão e francês, o que poderia indicar uma inclinação cosmopolita de Dutilleux, lembrando que a sonata veio logo após o fim da 2ª Guerra.

No disco gravado pelo também francês Jonas Vitaud, a sonata – que ele estudou, quando jovem, com o próprio compositor – eclipsa as outras obras. Ainda assim, este é um bom álbum para quem quer ouvir os Três Prelúdios (1973–1988) de Dutilleux e as Nuvens cinzentas (Nuages Gris), obra madura de Liszt na qual ele flerta com a música atonal. Também a primeira obra do disco, “Angelus! Prece aos anjos da guarda”, tem uma grandiosa interpretação. Mas na Mephisto Valse e na Valse Oubliée de Liszt, ficou faltando para Vitaud um certo espírito faustiano que habita essas obras: o velho tema do pacto com o coisa-ruim. Para esse Liszt de uma certa malícia, melhor ouvir Horowitz, Novaes, Foldes ou Kissin. Aluno de Brigitte Engerer, Jonas Vitaud é mais polido, mais preocupado com os belos coloridos e ornamentos. No Dutilleux isso funciona perfeitamente.

Liszt, o prolífico, parece o oposto de Dutilleux, compositor de catálogo reduzido, homem discreto e reservado. Mas eu encontro pontos em comum mais profundos. Ambos tiveram uma longa carreira, e seu estilo mudou consideravalmente com o tempo. São músicos da síntese, que assimilaram diversas correntes na sua própria linguagem. Em vida, mostraram-se curiosos e altruistas com seus pares e com as novas gerações. Quanto a Dutilleux, tive a sorte de conhecê-lo em 2004 no festival de Cordes-sur-Ciel, e estudar com ele várias peças, incluindo suas Figuras de ressonância para dois pianos, com Bertrand Chamayou. (Jonas Vitaud, no encarte do álbum)

01 Liszt: Angelus ! Prière aux anges gardiens (extrait des Années de Pèlerinage III)
02 Dutilleux: Prélude n°1 : D’ombre et de silence
03 Liszt: Klavierstück, S192 n°3
04 Dutilleux: Prélude n°2 : Sur un même accord
05 Liszt: Valse oubliée n°1
06 Liszt: Nuages gris
07 Dutilleux: Prélude n°3 : Le jeu des contraires
08 Liszt: Méphisto-Valse n°1
09-11 Dutilleux: Sonate opus 1 (I. Allegro con moto, II. Lied, III. Choral et variations)
Jonas Vitaud, piano
Recorded: Abbaye-école de Sorrèze, France, oct. 2014

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Dutilleux on whether chance procedures have a place in music: ‘A very small one, yes – homeopathic maybe!’ (Citado na BBC Music Magazine, December 2022)

Pleyel

Schubert (1797-1828): Schwanengesang – Andrè Schuen & Daniel Heide ֎

Schubert (1797-1828): Schwanengesang – Andrè Schuen & Daniel Heide ֎

FRANZ SCHUBERT

Schwanengesang, D. 957

Andrè Schuen, barítono

Daniel Heide, piano

 

É domingo e há uma clara ameaça de tempestade. São as águas de março…

Ultimamente tenho ouvido música no meu estúdio onde passo a maior parte de meu tempo produtivo. O computador está conectado a um DAC (digital audio converter) que por sua vez está conectado ao amplificador, um receiver Yamaha, provavelmente fabricado na China. O Yamaha já passou por uma intervenção eletrônica, possivelmente resultado de oxidação (zinabre para todos os lados), morar perto da praia tem seus custos. Ele está ligado a um par de caixas de som Bose, do tipo shelf, e mais nada, no subwoofer.

Isso é tudo que preciso para ouvir esse maravilhoso disco, Schubert, Schwanengesang.

Eu tenho uma certa birra com esse título, o Canto do Cisne, faça-me o favor. A despeito de minhas restrições pessoais, o título foi aposto numa coleção de canções, reunidas para a publicação pelo editor Tobias Haslinger, em 1829, depois da morte de Schubert. Claro que ele tinha em vista o sucesso dos dois ciclos de canções, Die schöne Müllerin (1824) e Winterreise (1828), publicados anteriormente. A diferença está no fato que os dois primeiros ciclos são sobre poemas do mesmo poeta, Wilhelm Müller, escritos como um ciclo de poemas. No caso de Schwanengesang temos 14 canções escritas no fim da vida de Schubert sobre poemas de três diferentes poetas,  não tratam de um único tema, nem tem uma sequência narrativa, como os ciclos anteriores. Apesar disso, o conjunto funciona maravilhosamente como um programa de um recital, no qual a densidade e a profundidade de algumas canções, especialmente aquelas com letra de Heinrich Heine, faz contraponto com as canções mais leves e brilhantes, algumas com letras de Ludwig Rellstab e aquela de Johann Gabriel Seidl, que como poeta não parece ter a mesma dimensão que Heine. Aliás, Heine (1797 – 1856) foi contemporâneo de Schubert (1797 – 1828), sendo que este teve vida mais breve. Os poemas de Heine também inspiraram outras compositores de Lied, especialmente Schumann, mas isso é outra postagem.

Os sete poemas de Rellstab, que se tornaram as sete primeiras canções do Schwanengesang, foram enviadas para serem musicadas por Beethoven, mas acabaram nas mãos de Schubert, encaminhadas pelo assistente-secretário-biógrafo-faz-tudo Anton Schindler. Não consigo deixar de pensar nas palavras ‘lista de Schindler’.

As gravações do ciclo são inúmeras, parece haver mais cantores de Lieder do que apreciadores. Na era dos CDs passou-se a acrescentar mais algumas canções ao disco, para engordar o tempo, mas antes disso, os LPs costumavam trazer apenas as tais 14 canções, assim como neste disco, pós CDs. Eu ouvi centenas de vezes um LP da gravadora de selo amarelo com o barítono Hermann Prey, que foi para Dietrich Fischer-Dieskau o equivalente ao que Roger Moore foi para Sean Connery, se é que você me permite essa liberdade… Desde então, não me canso de ouvir essas canções.

Mas chega de lero, vamos aos disco, que é maravilhoso. Não se deixe irritar pela capa, compare com aquela do disco do HP e verá como o departamento de arte da DG tem evoluído. O que conta é o conteúdo do pacote.

A dupla dando palhinha para a turma do PQP Bach logo depois da entrevista para a postagem…

A voz do Andrè Schuen é espetacular, muito bonita mesmo e ele está em excelente sintonia com o pianista que o acompanha já há um bom tempo, Daniel Heide.

Segue trechos da crítica que pode ser lida na íntegra aqui , na tradução feita com a ajuda do Chat PQP: […] O barítono ítalo-tirolês Andrè Schuen é uma figura cada vez mais destacada no mundo do Lieder. Schwanengesang não desperta sua forte imaginação interpretativa e não deveria. As tentativas de impor uma linha direta a este ciclo têm sido desastrosamente redutoras. Em vez disso, aprecia-se a voz de barítono fresca e lindamente contornada de Schuen, plena de controle de respiração que lhe permite navegar em longas linhas vocais com um senso iluminador de direção musical de longo prazo, além de uma articulação reveladora do texto. […] Da mesma forma, o pianista Daniel Heide leva em consideração a imagem completa de qualquer canção […] 

Franz Schubert (1797 – 1828)

Schwanengesang, D. 957

  1. Liebesbotschaft
  2. Kriegers Ahnung
  3. Frühlingssehnsucht
  4. Ständchen
  5. Aufenthalt
  6. In der Ferne
  7. Abschied
  8. Der Atlas
  9. Ihr Bild
  10. Das Fischermädchen
  11. Die Stadt
  12. Am Meer
  13. Der Doppelgänger
  14. Die Taubenpost, D. 965a

Andrè Schuen, barítono

Daniel Heide, piano

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MP3 | 320 KBPS | 136 MB

Andrè Schuen

Trecho do site da DG: Schubert’s enigmatic final collection of songs, Schwanengesang, is the subject of baritone Andrè Schuen and his longstanding accompanist Daniel Heide’s second release for DG. Baritone Andrè Schuen calls Schwanengesang “my greatest love among the Schubert lieder. Especially the Heine settings; they move me the most!” His admiration for the cycle dates back to a time before he had even become a professional singer: “It’s one of the first lied compositions I got to know. I remember a recording with Dietrich Fischer-Dieskau that I played over and over again.”

Escolha seu 007 preferido…

Da série ‘fortune cookie’: As comparações são odiosas!

Aproveite!

René Denon

Henry Purcell (1659-1695): Dido And Aeneas (Concentus Musicus Wien, Harnoncourt)

Henry Purcell (1659-1695): Dido And Aeneas (Concentus Musicus Wien, Harnoncourt)

Esta não é a melhor gravação de Dido e Aeneas que está em nosso blog. Há outras bem melhores, quase todas. Mas Harnoncourt é sempre Harnoncourt e merece nosso respeito. Trata-se de uma obra-prima composta por Purcell. É considerada a primeira ópera nacional inglesa, tendo sido a única escrita por Purcell (1659-1695), um dos maiores compositores britânicos de todos os tempos e mestre do barroco. Ainda que tenha vivido pouco, nos deixou um número expressivo de odes para coro e orquestra, cantatas, canções, hinos, serviços, sonatas de câmara e obras para teclado, além de mais de quarenta peças para música de cena (PQP Bach tem TODAS, VALE A PENA CONHECER). Henry Purcell alcançou em vida relativo prestígio.

A ópera foi escrita em 1689, para o internato feminino Josias Priest, de Chelsea, Londres, a partir de um libretto de Nahum Tate (1652-1715), poeta e dramaturgo inglês. O enredo segue a história de amor entre a lendária rainha de Cartago, Dido, e o refugiado troiano Enéas, narrada no livro IV da Eneida de Virgílio. Quando o mítico herói e sua tropa naufragam em Cartago, ele e a rainha se enamoram. Mas, por inveja, as bruxas conspiram contra os amantes e convencem Enéas a partir, pois seu destino, traçado pelos deuses, é o de fundar uma nova Tróia, a cidade de Roma. Enéas, mesmo blasfemando contra a inclemência dos deuses, aceita seguir viagem e comunica a Dido que partirá naquela manhã. A rainha, esmagada pela dor, imola-se, apesar de Enéas, comovido e mudando o desígnio, afirmar preferir enfrentar a cólera dos deuses a abandoná-la.

A partitura é uma obra-prima de concisão e uma modelo para toda ópera de bolso: a orquestra inclui cordas e contínuo, há uns poucos papéis principais e a duração dos seus três atos não ultrapassa uma hora. Nela, Purcell incorporou tanto os desenvolvimentos da escola inglesa do século XVII, como influências musicais continentais. Combina, por exemplo, danças e coros, elementos próprios da tradição francesa, com árias que seguem em geral os modelos das óperas barrocas italianas. Os recitativos, por seu turno, a cavaleiro das tradições francesas e italianas, nada têm de artificial – são livres, melódicos e plasticamente moldados ao texto.

A abertura é francesa: um adágio solene inicial dá lugar a uma seção mais animada que introduz a cena. Já os coros homofónicos construídos com base em ritmos de dança, recordam os de Lully, assim como o minueto do coro Fear não danger to ensue (“Não temas os perigos que possam vir”). No entanto, cabe salientar a melodia tipicamente inglesa de Pursue thy conquest, Love (“Persegue tua conquista, Amor”) e a do coro Come away, fellow sailors (“Vinde, camaradas de marinheiros”), no início do terceiro ato. Esta alegre e singela canção marinheira carrega evidente matiz popular.

Algumas árias da ópera foram construídas sobre um baixo ostinato. A última delas, e a mais importante, é o famoso lamento de Dido: When I am laid in earth (“Quando eu descer à terra”), uma das mais tocantes de todo repertório lírico. Nela, além do ostinato, os intervalos descendentes e as harmonias com retardos intensificam o infortúnio da rainha.

O coro final, With drooping wings (“Com asas caídas”) parece inspirado no de Vénus and Adonis, de Blow – de quem Purcell foi, aliás, discípulo. Possui forte caráter elegíaco, sugerido pelo uso de escalas menores descendentes e pelas impressionantes pausas após a expressão “never part” (“nunca parta”).

Texto retirado da Escola de Música da UFRJ.

Henry Purcell (1659-1695): Dido And Aeneas (Concentus Musicus Wien, Harnoncourt)

Dido And Aeneas, Opera, Z. 626

1.1 1. Overture 2:53

Act I
1.2 2. Song (Belinda) & Chorus “Shake The Cloud From Off Your Brow” 1:06
2.1 3. Song (Dido) “Ah! Belinda” 4:08
2.2 4. Recitative & Song (Belinda & Dido) “Grief Increases By Concealing” 0:32
2.3 5. Chorus “When Monarchs Unite” 0:14
2.4 6. Recitative (Dido & Belinda) “Whence Could So Much Virtue Spring?” 2:13
2.5 7. Duet (Belinda & Second Woman) & Chorus “Fear No Danger” 1:36
3.1 8. Recitative (Belinda, Aeneas & Dido) “See, Your Royal Guest Appears” 0:50
3.2 9. Chorus “Cupid Only Throws The Dart” 0:35
3.3 10. Recitative (Aeneas) “If Not For Mine, For Empire’s Sake” 0:23
3.4 11. Song (Belinda) “Pursue Thy Conquest, Love” 0:51
3.5 12. Chorus “To The Hills And The Vales” 1:20
4 13. The Triumphing Dance 1:21

Act II Scene 1
5.1 14. Recitative (Sorceress) “Wayward Sisters” 2:31
5.2 15. Chorus “Harm’s Our Delight” 0:14
5.3.1 16. Recitative (Sorceress) “The Queen Of Carthage”. 0:42
5.3.2 Chorus “Ho Ho Ho” 0:10
5.4.1 17. Recitative (Witches & Sorcerers) “Ruin’d Ere The Set Of Sun?” 1:20
5.4.2 Chorus “Ho Ho Ho” 0:10
5.5 18. Duet (Witches) “But Ere We This Perform” 1:10
6.1 19.Chorus “In Our Deep Vaulted Cell” 1:07
6.2 20. Echo Dances Of Furies 1:01

Act II Scene 2
7.1 21. Ritornelle 0:57
7.2 22. Song (Belinda) & Chorus “Thanks To These Lonesome Vales” 1:15
8.1 23. Song (Second Woman) “Oft She Visits This Lone Mountain” 1:38
8.2 24. Recitative (Aeneas & Dido) “Behold, Upon My Bending Spear” 0:35
8.3 25. Song (Belinda) & Chorus “Haste, Haste To Town” 0:43
9 26. Recitative (Spirit & Aeneas) “Stay, Prince” 3:00

Act III Scene 1
10.1 27. Song (Sailor) & Chorus “Come Away, Fellow Sailors” 1:32
10.2 28. The Sailors’ Dance 0:51
11.1 29. Recitative & Duets (Sorceress & Witches) “See The Flags And Streamers Curling” 1:06
11.2 30. Song (Sorceress) “Our Next Motion” 0:41
11.3 31. Chorus “Destruction’s Our Delight” 0:34
11.4 32. The Witches’ Dance 1:13

Act III Scene 2
12.1 33. Recitative (Dido, Belinda & Aeneas) “Your Counsel All Is Urg’d In Vain” 4:52
12.2 34. Chorus “Great Minds Against Themselves Conspire” 1:04
13 35. Recitative (Dido) “Thy Hand, Belinda” / Song (Dido) “When I Am Laid In Earth” 4:24
14 36. Chorus “With Droppings Wings Ye Cupids Come” 2:47

Chorus – Arnold-Schönberg-Chor*
Chorus Master – Erwin G. Ortner*
Composed By – Henry Purcell
Conductor – Nikolaus Harnoncourt
Libretto By – Nahum Tate
Orchestra – Concentus Musicus Wien
Vocals [Aeneas, A Trojan Prince] – Anton Scharinger
Vocals [Belinda, Dido’s Sister] – Rachel Yakar
Vocals [Dido, Or Elissa, Queen Of Carthage] – Ann Murray
Vocals [Sailor] – Josef Köstlinger
Vocals [Second Witch] – Helrun Gardow
Vocals [Second Woman • First Witch] – Elisabeth Von Magnus-Harnoncourt*
Vocals [Sorceress] – Trudeliese Schmidt
Vocals [Spirit] – Paul Esswood

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The Meeting of Dido and Aeneas (1766) — Sir Nathaniel Dance-Holland 1735-1811

PQP

Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonias Nº 1 (Haitink, Chicago S.O.) e 3 (Neumann, Czech P.O.)

O casal Gustav e Alma num passeio

Duas gravações muito convincentes de Mahler: uma de 1981 com a Filarmônica Checa e outra de 2008 com a Sinfônica de Chicago. A mais antiga faz parte de uma integral gravada por Vaclav Neumann e é bem conhecida pelos aficcionados por Mahler. Já a mais recente é menos conhecida do que o ciclo anterior de Mahler que Haitink havia gravado em Amsterdam, mas eu tive que postá-la para agradar o nosso chefe PQP. Estou brincando, é claro: é um Mahler de peso o da Sinfônica de Chicago, pendendo um pouco mais para a seriedade do que para a leveza, como nesta outra gravação de Haitink com a mesma orquestra. É grandioso quando a partitura pede grandiosidade, mas também os cantos de pássaros nas sopros são muito bem executados e gravados.

Mahler, assim como Kafka, era um tcheco que falava alemão, tendo se mudado para Viena com cerca de 15 anos de idade. Ele regeu muito em Praga, tendo inclusive estreado sua 7ª sinfonia naquela cidade. Desde então, da mesma forma que em Amsterdam (cidade onde Haitink se formou), também em Praga havia uma longa tradição de maestros especialistas em Mahler, com certos detalhes de interpretação que se estabeleceram ao longo das décadas como marcas dos tchecos ao tocarem esse compositor, e isso aparece muito bem nesta gravação da 3ª Sinfonia.

O ciclo de sinfonias de Mahler parece ser mais variado do que o de Bruckner ou o de Brahms: em conteúdo, dá pra debater, mas em termos de forma não resta dúvida, pois há sinfonias bem mais longas (como a 3ª), outras mais curtas (como a 1ª) e algumas têm cantores solistas e/ou coro (2ª, 3ª, 4ª e 8ª). Em relação ao conteúdo elas também variam bastante: entre os diferentes humores de Mahler, acho que o que mais me agrada é o momento pastoral, cheio de pássaros cantando. Esses cantos de pássaros e outros momentos campestres aparecem integrados nos movimentos, aparecendo no meio de outros trechos bem diferentes como valsas e outras danças. Nisso, o Mahler pastoral se diferencia de outros autores que colocam uma cerca bem delimitada nesses momentos: Beethoven em sua 6ª sinfonia, Berlioz na “cena no campo”, movimento mais longo da sua Sinfonia Fantástica, Messiaen e Villa-Lobos em certas obras orquestrais que são, inteiras, dedicadas a cenas na floresta ou nas montanhas.

Essa tendência de Mahler a misturar tudo – aqui um pássaro, ali uma dança, depois uma caótica cena urbana, uma ordenada e pesada marcha militar e de repente mais pássaros! – torna-o estranhamente contemporâneo aos nosso tempos acelerados e caóticos, quando o controle remoto e as redes sociais fazem com que essa colagem de experiências diversas seja mais ou menos o pão nosso de cada dia.

Apesar da mistura e de, portanto, as cenas pastorais aparecerem em quase todas as suas sinfonias (ou todas? seria preciso checar), tenho a impressão de que a 1ª e a 3ª são aquelas com mais animais passeando e cantando. Não é, repito, uma natureza selvagem e pura, pelo contrário, os animais convivem lado a lado com os humanos. Mahler, como um atento leitor de Nietzsche, não parecia acreditar nessa natureza tranquila e pura que aparece em Beethoven ou na Sinfonia Primavera de Schumann. Uma mentalidade fundamentalmente pessimista, mas ao mesmo tempo interessada em todas as belezas que encontra no caminho, talvez se cristalize mais exlpicitamente na 9ª de Mahler, nos dois movimentos centrais, um tranquilo e dançante Ländler (mas já com seus momentos caóticos) seguido de um Rondo Burlesco que é o caos completo e me lembra certos momentos orquestrais de Bartók. Mas nas Sinfonias nº 1 e 3 isso já aparece de modo menos maduro: na 3ª, sobretudo, após três primeiros movimentos com todos os pássaros possíveis, chega o ser humano cantando um texto enigmático do Zaratustra de Nietzsche. O timbre escolhido por Mahler é o de uma mulher com voz grave, e nesta gravação temos a alemã Christa Ludwig (1928 – 2021), uma das mais célebres mezzo-sopranos do século XX.

Gustav Mahler: Sinfonia nº 3 (1902)
Czech Philharmonic Orchestra (Česká Filharmonie / Orquestra Filarmônica Checa)
Václav Neumann (1920-1995), maestro
Christa Ludwig, contralto – 4º movimento
Kühnův Dětský Sbor, Pražský Filharmonický Sbor (Coro Filarmônico de Praga, Coro Infantil Kühn) – 5º movimento
Recording: House of Artists, Praga, 16-19 December, 1981
Neumann/CPO – BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE – mp3 320 kbps

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Gustav Mahler: Sinfonia nº 1, “Titã” (1889)
Chicago Symphony Orchestra
Bernard Haitink (1929-2021), maestro
Recorded live in Orchestra Hall at Symphony Center, Chicago, USA, May 1, 2 and 3, 2008
Haitink/CSO – BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE – mp3 320 kbps

Pleyel

BRUCKNER 200 ANOS! Anton Bruckner (1824-1896): Sinfonia Nº 5 (Gergiev / Münchner)

BRUCKNER 200 ANOS! Anton Bruckner (1824-1896): Sinfonia Nº 5 (Gergiev / Münchner)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Provavelmente, a Filarmônica de Munique deu mais apresentações da música de Anton Bruckner do que qualquer outra orquestra. Há um grande número de gravações de Bruckner conduzidas pelos maestros lendários que trabalharam na Filarmônica de Munique, incluindo Celibidache, Thielemann, Kempe e Wand. Tendo começado em setembro de 2017, no Mosteiro de St. Florian — um cenário com significado histórico único neste contexto –, a Filarmônica de Munique e Valery Gergiev apresentaram um ciclo espetacular das sinfonias de Anton Bruckner. A extraordinária e belíssima Quinta Sinfonia de Bruckner tem muitas gravações impressionantes. Penso em particular na gravação de Eugen Jochum, que regeu uma performance fantástica (1964) na Abadia de Ottobeuren. E depois um concerto de Chailly em 1991. E, mais recentemente, o último concerto que Nikolaus Harnoncourt deu com a Concertgebouw Orchestra em 2013. Harnoncourt e Bruckner simplesmente “se entenderam” fantasticamente. Mas certamente há apresentações ainda melhores, basta pensar em Celibidache, Karajan e Wand. Aqui, Gergiev nos dá de 80 minutos de pura emoção, sem nenhum tédio. Que profundidade, que brilho, que riqueza de detalhes, sem nenhuma superficialidade! Ele é intenso e envolvente a cada segundo. Este é realmente um acréscimo à discografia de Bruckner e merece um lugar junto aos maiores campeões citados. E, céus, que música!

Anton Bruckner (1824-1896): Sinfonia Nº 5 (Gergiev / Münchner)

ANTON BRUCKNER: Symphony No. 5, WAB 105
1. Introduction: Adagio – Allegro
2. Adagio: Sehr langsam
3. Scherzo: Molto vivace (Schnell) – Trio: Im gleichen Tempo
4. Finale: Adagio – Allegro moderato

RECORDING DATE: 23 / 24 September 2019
LOCATION: Stiftsbasilika St. Florian, Austria

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Ignoro quem é (foi) o autor.

PQP