É como um time que leva um gol logo nos primeiros minutos e passa o tempo restante buscando se recuperar: assim começa Nelson Freire o seu álbum de Scherzos de Chopin (ou Scherzi, já que a palavra é italiana) gravados na década de 1970. Isso porque o seu 1º Scherzo se inicia muito rápido, sem a seriedade e a grandeza de outras interpretações como a de Sviatoslav Richter e a de Maurizio Pollini. Nos Scherzos, Chopin faz uma arte profundamente contraditória onde o nome remete à piada, certos momentos também têm ritmos bem-humorados mas ao mesmo tempo o clima geral é de preocupação e tensão. No quarto Scherzo a tensão é um pouco mais suave, mas nos três primeiros a sensação é de que uma catástrofe está sempre no horizonte. E Nelson Freire inicia o 1º Scherzo mais como uma obra técnica virtuosa do que com essa gravidade teatral. Mas lá pelo meio desse Scherzo o pianista mineiro consegue convencer. Cada Scherzo tem uma seção central contrastante e mais lenta e suave. Ali, Freire começa a encantar. No 2º e no 3º, o encantamento permanece, chegando a uma conclusão no último e mais maduro dos Scherzos. No conjunto, uma gravação notável dessas quatro peças de Chopin. E o disco traz ainda alguns bônus de peso, incluindo a Balada nº 3, peça que foi muito tocada por Guiomar Novaes, pianista que Freire tinha na mais alta estima. Sem dúvida, as interpretações de Chopin por Novaes (nas Baladas, no Concerto nº 2, etc.) influenciaram bastante Nelson Freire. O álbum fecha com as Três Ecossaises, danças curtas e simples, que poucos pianistas tocam, mas Guiomar também as tinha no seu repertório.
Um lindo trabalho de Gaillard sobre estas obras notáveis de Vivaldi. Tudo muito bonito e bem gravado. As Sonatas para Violoncelo do Padre Vermelho são um capítulo à parte em sua obra, revelando uma faceta mais íntima e contemplativa do compositor, distante da exuberância de seus famosos concertos. Ele nutria uma particular afeição pelo violoncelo. Para além dos mais de 25 concertos que compôs para o instrumento, legou à posteridade nove sonatas para violoncelo e baixo contínuo, além de uma décima que se perdeu. Escritas em sua maioria entre 1720 e 1730, estas obras não foram concebidas para o grande público. Acredita-se que tenham sido criadas para um círculo restrito de alunos, amigos e patronos influentes. Entre esses patronos, destacavam-se aristocratas que eram violoncelistas amadores, como o Conde Rudolf Franz Erwein von Schönborn, que mantinha um rica biblioteca com várias destas partituras. Esta origem “privada” confere às sonatas um caráter mais pessoal e intimista. Elas seguem a forma da sonata barroca em quatro movimentos, com um padrão de andamentos Lento – Rápido – Lento – Rápido. Esta estrutura cria uma narrativa musical equilibrada, onde a calma e a reflexão se alternam com a agilidade e o virtuosismo. São um ponto fora da curva de Vivaldi, mas que ponto!
Antonio Vivaldi (1678-1741): As Sonatas Completas para Violoncelo (Gaillard, Pulcinella)
Sonate No.3 En La Mineur
CD1-1 Largo 4:21
CD1-2 Allegro 3:09
CD1-3 Largo 4:12
CD1-4 Allegro 2:55
Sonate No.5 En Mi Mineur
CD1-5 Largo 3:11
CD1-6 Allegro 2:44
CD1-7 Largo 4:12
CD1-8 Allegro 2:55
Sonate No.9 En Sol Mineur
CD1-9 Preludio Largo 4:30
CD1-10 Allemanda Andante 3:43
CD1-11 Sarabanda Largo 4:55
CD1-12 Gigue Allegro 2:09
Sonate No.2 En Fa Majeur
CD1-13 Largo 3:03
CD1-14 Allegro 2:23
CD1-15 Largo 3:34
CD1-16 Allegro 2:33
Sonate No.7 En La Mineur
CD1-17 Largo 2:14
CD1-18 Allegro Poco 2:25
CD1-19 Largo 3:30
CD1-20 Allegro 2:27
Sonate No.6 En Si Bémol Majeur
CD2-1 Preludio Largo 2:23
CD2-2 Allemanda Allegro 2:26
CD2-3 Largo 2:46
CD2-4 Allegro Corrente 2:28
Sonate No.4 En Si Bémol Majeur
CD2-5 Largo 4:05
CD2-6 Allegro 2:33
CD2-7 Largo 4:49
CD2-8 Allegro 3:01
Sonate No.1 En Si Bémol Majeur
CD2-9 Largo 3:32
CD2-10 Allegro 3:08
CD2-11 Largo 3:21
CD2-12 Allegro 2:02
Sonate No.8 En Mi Bémol Majeur
CD2-13 Larguetto 4:05
CD2-14 Allegro 2:44
CD2-15 Andante 2:38
CD2-16 Allegro 2:52
Cello [Continuo] [Pulcinella] – Emmanuel Jacques (2)
Cello [Soloist] [Pulcinella] – Ophélie Gaillard
Double Bass, Violone [Pulcinella] – David Sinclair (9)
Ensemble – Pulcinella
Guitar [Baroque] [Pulcinella] – Thor-Harald Johnsen
Harp [Baroque] [Pulcinella] – Giovanna Pessi
Harpsichord, Organ [Positive] [Pulcinella] – Maude Gratton
Theorbo, Guitar [Baroque] [Pulcinella] – Thomas C. Boysen*
Esqueci o nome da praga, mas houve um comentarista aqui no PQP, que odiava o grande Bernard Haitink de cabo a rabo. Era inacreditável, tanto mais que Haitink foi aquele tipo correto, gentil, tranquilo, inteligente… E até era bem musical! Chego à conclusão que tínhamos um psicopata, talvez bolsomínion, nos visitando, porque era um ódio gratuito a quem nunca mordeu ninguém. Numa de nossas discussões, citamos o finlandês Klaus Mäkelä, que também foi espinafrado pelo cara logo após ser escolhido como regente titular do Concertgebouw de Amsterdam. Pelo jeito os músicos do Concertgebouw não acertam uma! Depois da frieza de Haitink e do Gatti assediador — foi inocentado –, chamaram mais um farsante pra comandá-los…
Imaginem que Mäkelä ocupa o cargo de Maestro Chefe da Filarmônica de Oslo desde 2020 e Diretor Musical da Orquestra de Paris desde setembro de 2021. Ele assumirá o título de Maestro Chefe da Royal Concertgebouw Orchestra em setembro de 2027 e na mesma temporada começa como Diretor Musical da Orquestra Sinfônica de Chicago. Todos idiotas: noruegueses, franceses, holandeses e estadunidenses. Mais de 400 músicos de algumas das maiores orquestras do mundo totalmente equivocados. Votaram nele. Estou impressionado até hoje. Ainda bem que faz tempo que o comentarista hostil sumiu.
Pois meus amigos, este trio de Sinfonias de Shostakovich receberam um belo tratamento por parte de Mäkelä — hoje com apenas 29 anos, esta gravação é de agosto de 2024, quando KM tinha 28. E os filarmônicos de Oslo… Noossa! Que orquestra e que maestro! Que gravação maravilhosa! Vai ouvir logo, vai, vai!
D. Shostakovich (1906-1975): Sinfonias Nº 4, 5 & 6 (Mäkelä / Oslo Philharmonic)
Symphony No. 4 In C Minor Op. 43
1-1 I. Moderato Poco Moderato – 16:11
1-2 Presto 12:35
1-3 II. Moderato Con Moto 9:03
1-4 III. Largo – 6:51
1-5 Allegro 22:20
Symphony No. 5 In D Minor Op. 47
2-1 I. Moderato – Allegro Non Troppo – Poco Sostenuto – Largamente – Più Mosso – Moderato 15:56
2-2 II. Moderato – Largamente – Poco Più Mosso 5:20
2-3 III. Largo 13:57
2-4 IV. Allegro Non Troppo – Allegro – Più Mosso 11:36
Symphony No. 6 In B Minor Op. 54
2-5 I. Largo 18:53
2-6 II. Allegro 5:43
2-7 III. Presto 6:45
Conductor – Klaus Mäkelä
Orchestra – Oslo Philharmonic
O título espertinho do CD esconde um trabalho extraordinário sobre a música do inspirado e por vezes cômico Biber. Que compositor!
Há dez anos, Rachel Podger fez uma excelente gravação das Sonatas do Rosário de Biber para violino solo e baixo contínuo, cada uma retratando um episódio da vida de Cristo. Agora, ela acrescenta um disco com mais sonatas daquele que é indiscutivelmente o mais importante compositor barroco para violino depois de J.S. Bach – cinco das oito sonatas que Biber publicou em 1681, bem como a Sonata Representativa, de caráter quase teatral, que pode ou não ter sido composta por Biber e provavelmente data de 1669. As peças são todas caracterizadas por sua extrema dificuldade técnica, especialmente pelo uso extensivo da scordatura, quando as cordas individuais do violino são afinadas de forma diferente do usual. Podger lida com todos esses desafios de maneira brilhante, inclusive imitando sons de animais na Sonata Representativo; ela demonstra uma liberdade expressiva que nunca se excede, mas permanece fiel ao espírito da música. Embora as obras em si não sejam tão surpreendentes e vívidas quanto as Sonatas do Rosário, quem apreciou o trabalho anterior de Podger com Biber certamente também apreciará este.
Heinrich Ignaz Franz von Biber (1644-1704): Just Biber (Rachel Podger, Brecon Baroque)
Sonata No. 5 In E Minor, C. 142
1 – (Untitled) 2:53
2 – Variatio – Allegro 3:56
3 – Presto 1:42
4 – Aria – Variations 3:19
Sonata No. 1 In A Major, C. 138
5 – (Untitled) 1:28
6 – Adagio 1:56
7 – (Untitled) 0:45
8 – Variatio 5:28
9 – Finale 1:58
Sonata No. 2 In D Minor, C. 139
10 – (Untitled) 1:15
11 – Aria 0:52
12 – Variatio 2:40
13 – Adagio 1:04
14 – (Untitled) 1:34
15 – Finale 1:01
Sonata Violino Solo Representativa In A Major, C. 146
16 – Allegro 2:08
17 – Die Nachtigal 1:53
18 – Der Cu Cu 0:46
19 – Der Fresch 1:22
20 – Die Henne Und Der Hann 0:40
21 – Die Vachtel 1:07
22 – Die Katz 0:53
23 – Musquetier Mars 1:31
24 – Allamande 2:18
Recentemente, postamos mais duas versões das Mystery Sonatas de Biber. A versão apresentada na segunda postagem é inferior a esta. Já a primeiraé tão boa quanto. As Sonatas do Rosário de Heinrich Biber — 15 sonatas para violino e contínuo, retratando os 15 Mistérios do Rosário, e uma extensa passacaglia para violino solo — constituem um dos pontos mais altos na música virtuosa de violino barroco. O violinista Daniel Sepec apresenta uma bela interpretação autêntica do famoso ciclo sonata de Biber sobre violinos originais do célebre fabricante de violinos tirolês Jakob Stainer (c. 1617-1683), com luxuoso acompanhamento contínuo de Hille Perl, Lee Santana e Michael Behringer.
Heinrich Ignaz Franz von Biber (1644-1704): The Mystery Sonatas
Disc 1
1 Der freudenreiche Rosenkranz: No. 1 in D Minor, Die Verkündigung Mariae 5:43
2 Der freudenreiche Rosenkranz: No. 2 in A Major, Marias Besuch bei Elisabeth 4:20
3 Der freudenreiche Rosenkranz: No. 3 in B Minor, Christi Geburt, Anbetung der Hirten 6:36
4 Der freudenreiche Rosenkranz: No. 4 in D Minor, Christi Darstellung im Tempel 8:00
5 Der freudenreiche Rosenkranz: No. 5 in A Major, Der zwölfjährige Jesus im Tempel 7:29
6 Der schmerzensreiche Rosenkranz: No. 6 in C Minor, Leiden Christi am Ölberg 7:49
7 Der schmerzensreiche Rosenkranz: No. 7 in F Major, Christi Geißelung 8:03
8 Der schmerzensreiche Rosenkranz: No. 8 in B-Flat Major, Die Dornenkrönung 5:41
9 Der schmerzensreiche Rosenkranz: No. 9 in A Minor, Der Kreuzgang 6:58
10 Der schmerzensreiche Rosenkranz: No. 10 in G Minor, Die Kreuzigung 9:06
Disc 2
1 Der glorreiche Rosenkranz: No. 11 in G Major, Die Auferstehung 9:00
2 Der glorreiche Rosenkranz: No. 12 in C Major, Christi Himmelfahrt 6:53
3 Der glorreiche Rosenkranz: No. 13 in D Minor, Ausgießung des Heiligen Geistes 6:59
4 Der glorreiche Rosenkranz: No. 14 in D Major, Mariä Himmelfahrt 9:14
5 Der glorreiche Rosenkranz: No. 15 in C Major, Die Krönung der Jungfrau Maria 13:48
6 Der glorreiche Rosenkranz: No. 16 in G Minor, Passacaglia, Schutzengel-Sonate 8:46
Daniel Sepec, violino
Hille Perl, viola da gamba
Lee Santana, tiorba
Michael Behringer, cravo
Este CD é uma reedição. Foi mega premiado, inclusive recebendo o Gramophone Award de 1991 de melhor instrumental barroco. As Mystery Sonatas são uma coleção de 15 curtas e belíssimas sonatas para violino e contínuo, com uma passacaglia final para violino solo. Cada uma tem um título relacionado à prática de devoção do Rosário Cristão e possivelmente à Festa dos Anjos da Guarda. Presume-se que as Mystery Sonatas foram concluídas por volta de 1676, mas eram desconhecidas até sua publicação em 1905. A música de Biber nunca foi inteiramente esquecida devido à alta habilidade técnica necessária para desempenhar muitas de suas obras; isso é especialmente verdadeiro em seus trabalhos para violino. Uma vez redescobertas, as Mystery se tornaram a composição mais conhecida de Biber. O trabalho é valorizado por seu estilo virtuosístico, afinações de scordatura e sua estrutura programática.
Pretendo postar outras versões da Mystery nos próximos dias, mas creio que essa seja a melhor delas.
Heinrich Ignaz Franz von Biber (1644-1704): The Mystery Sonatas
01 – The Five Joyful Mysteries I The Annunciation – 1
02 – The Five Joyful Mysteries I The Annunciation – 2
03 – The Five Joyful Mysteries I The Annunciation – 3
04 – The Five Joyful Mysteries I The Annunciation – 4
05 – The Five Joyful Mysteries II The Visitation – 1
06 – The Five Joyful Mysteries II The Visitation – 2
07 – The Five Joyful Mysteries II The Visitation – 3
08 – The Five Joyful Mysteries II The Visitation – 4
09 – The Five Joyful Mysteries III The Nativity – 1
10 – The Five Joyful Mysteries III The Nativity – 2
11 – The Five Joyful Mysteries III The Nativity – 3
12 – The Five Joyful Mysteries III The Nativity – 4
13 – The Five Joyful Mysteries IV The Presentation
14 – The Five Joyful Mysteries V The Finding in the Temple – 1
15 – The Five Joyful Mysteries V The Finding in the Temple – 2
16 – The Five Joyful Mysteries V The Finding in the Temple – 3
17 – The Five Joyful Mysteries V The Finding in the Temple – 4
18 – The Five Joyful Mysteries V The Finding in the Temple – 5
19 – The Five Sorrowful Mysteries VI The Sweating of Blood – 1
20 – The Five Sorrowful Mysteries VI The Sweating of Blood – 2
21 – The Five Sorrowful Mysteries VI The Sweating of Blood – 3
22 – The Five Sorrowful Mysteries VII The Scourging at the Pillar – 1
23 – The Five Sorrowful Mysteries VII The Scourging at the Pillar – 2
24 – The Five Sorrowful Mysteries VII The Scourging at the Pillar – 3
25 – The Five Sorrowful Mysteries VII The Scourging at the Pillar – 4
26 – The Five Sorrowful Mysteries VIII The Crowning with Thorns – 1
27 – The Five Sorrowful Mysteries VIII The Crowning with Thorns – 2
28 – The Five Sorrowful Mysteries VIII The Crowning with Thorns – 3
29 – The Five Sorrowful Mysteries VIII The Crowning with Thorns – 4
30 – The Five Sorrowful Mysteries VIII The Crowning with Thorns – 5
31 – The Five Sorrowful Mysteries IX The Carrying of the Cross – 1
32 – The Five Sorrowful Mysteries IX The Carrying of the Cross – 2
33 – The Five Sorrowful Mysteries IX The Carrying of the Cross – 3
34 – The Five Sorrowful Mysteries IX The Carrying of the Cross – 4
35 – The Five Sorrowful Mysteries X The Crucification – 1
36 – The Five Sorrowful Mysteries X The Crucification – 2
37 – The Five Sorrowful Mysteries X The Crucification – 3
38 – The Five Sorrowful Mysteries X The Crucification – 4
39 – The Five Sorrowful Mysteries X The Crucification – 5
Disc 2
01 – The Five Glorious Mysteries XI The Resurrection – 1
02 – The Five Glorious Mysteries XI The Resurrection – 2
03 – The Five Glorious Mysteries XI The Resurrection – 3
04 – The Five Glorious Mysteries XII The Ascension – 1
05 – The Five Glorious Mysteries XII The Ascension – 2
06 – The Five Glorious Mysteries XII The Ascension – 3
07 – The Five Glorious Mysteries XII The Ascension – 4
08 – The Five Glorious Mysteries XII The Ascension – 5
09 – The Five Glorious Mysteries XIII The Descent of the Holy Ghost – 1
10 – The Five Glorious Mysteries XIII The Descent of the Holy Ghost – 2
11 – The Five Glorious Mysteries XIII The Descent of the Holy Ghost – 3
12 – The Five Glorious Mysteries XIII The Descent of the Holy Ghost – 4
13 – The Five Glorious Mysteries XIV The Assumption of the Virgin – 1
14 – The Five Glorious Mysteries XIV The Assumption of the Virgin – 2
15 – The Five Glorious Mysteries XIV The Assumption of the Virgin – 3
16 – The Five Glorious Mysteries XV The Coronation of the Virgin – 1
17 – The Five Glorious Mysteries XV The Coronation of the Virgin – 2
18 – The Five Glorious Mysteries XV The Coronation of the Virgin – 3
19 – The Five Glorious Mysteries XV The Coronation of the Virgin- 4
20 – Passagalia
São obras-primas tão esplêndidas que é estranho que tenham sido escritas por Schumann… Ambas surgiram durante o “ano de música de câmara” de Schumann, em 1842, um período em que o compositor, afastando-se temporariamente do ciclo de canções e da música para piano solo, mergulhou no estudo aprofundado dos grandes mestres do contraponto, como Haydn, Mozart e, especialmente, Bach. O Quinteto para Piano, Op. 44, composto primeiro, é frequentemente considerado uma das obras mais brilhantes e vigorosas de todo o período romântico. Escrito para piano e quarteto de cordas, Schumann inovou ao tratar o piano não como um mero acompanhante, mas como um solista integrado ao diálogo camerístico, criando uma textura sinfônica de rara riqueza. A obra é marcada por um primeiro movimento impetuoso, uma Marcia funebre de lirismo pungente no movimento lento (Fanny e Alexander, de Bergman) , e um finale que inicialmente causa estranheza pela sua explosividade, mas que se revela magistral ao integrar temas anteriores em uma conclusão unificada e triunfante.
Já o Quarteto para Piano em Mi bemol Maior, Op. 47, composto logo em seguida, demonstra uma maturidade camerística ainda mais íntima e refinada. Se o quinteto tende à grandiosidade sinfônica, o quarteto — escrito para a formação mais reduzida de piano, violino, viola e violoncelo — explora texturas mais transparentes e um diálogo mais equilibrado entre os quatro instrumentos. A obra se destaca pela engenhosidade estrutural, como a inversão dos movimentos centrais (o Scherzo precede o movimento lento) e a utilização de uma fuga no finale, evidenciando o domínio contrapontístico de Schumann. O coração da obra reside no terceiro movimento, Andante cantabile (A Patriota, de Kluge) , onde o violoncelo introduz uma das melodias mais profundamente melancólicas já escritas pelo compositor, tema que se desenvolve em uma série de variações de intimidade comovente, contrastando com o brilho virtuosístico do quinteto e revelando um lado mais contemplativo e introspectivo de sua arte.
Robert Schumann (1810-1856): Piano Quartet & Quintet (Faust, Schreiber, Tamestit, Queyras, Melnikov)
Piano Quartet Op. 47 E-Flat Major / Mi Bémol Majeur / Es-Dur
1 I. Sostenuto Assai – Allegro Ma Non Troppo 8:40
2 II. Scherzo. Molto Vivace 3:33
3 III. Andante Cantabile 6:21
4 IV. Finale. Vivace 7:20
Piano Quintet Op. 44 E-Flat Major / Mi Bémol Majeur / Es-Dur
5 I. Allegro Brillante 8:52
6 II. In Modo D’Una Marcia. Un Poco Largamente 7:50
7 III. Scherzo. Molto Vivace 4:47
8 IV. Allegro Ma Non Troppo 7:08
Cello – Jean-Guihen Queyras
Fortepiano – Alexander Melnikov
Viola – Antoine Tamestit
Violin – Anne Katharina Schreiber (tracks: 5 to 8), Isabelle Faust
Eu estava no Rio de Janeiro em fevereiro de 1981 quando abri o Jornal do Brasil e dei de cara com a manchete do Caderno B: “Morre o mensageiro de Bach”. Como eu, PQP, estava ali, lendo o jornal, o morto só podia ser Karl Richter ou Gustav Leonhardt. Era Karl Richter (1926-1981) e a manchete era justa. Para os de minha geração, Karl Richter e sua Orquestra Bach de Munique eram a garantia do melhor Bach. Ele morreu quando as performances com instrumentos históricos estavam engatinhando. Tinha uma forma excessivamente romântica de dirigir seus músicos absolutamente fantásticos e eu já tinha comprado em 1975 a gravação decisiva em meu amor pelas interpretações autênticas: os Concertos de Brandenburgo pelo Collegium Aureum com direção de Franzjosef Maier (violinista) e que tinha um cravista que vou contar para vocês… Era apenas Gustav Leonhardt. Eu estava sendo apresentado a ele naquela gravação e ele fazia misérias no Concerto Nº 5. Mas, voltando a Karl Richter, ele ainda era em 1981 o mais bachiano de todos os músicos vivos e tinha sido vitimado por um reles ataque cardíaco aos 54 anos. Hoje, ouvindo novamente sua gravação da Missa, realizada em 1962 porém com som que parece ter sido gravado ontem, a emoção do primeiro Bach que ouvi retornou mais ou menos como se fosse o primeiro sutiã da propaganda.
Uma das maiores burrices que um ser humano pode cometer é a de não mudar de opinião. Hoje, eu acho esta versão muito ruim. Ela é patchy, uma colcha de retalhos às vezes estranhos um ao outro, mas há a excepcional participação de Hertha Töpper no Agnus Dei e o melhor Cum Sancto Spiritu que já ouvi. Algo arrebatador.
Johann Sebastian Bach – Missa em Si Menor – BWV 232
CD1
1-01 Missa: Kyrie: Kyrie eleison
1-02 Missa: Kyrie: Christe eleison
1-03 Missa: Kyrie: Kyrie eleison
1-04 Missa: Gloria: Gloria in excelsis Deo
1-05 Et in terra pax
1-06 Missa: Gloria: Laudamus te
1-07 Missa: Gloria: Gratias agimus tibi
1-08 Missa: Gloria: Domine Deus
1-09 Missa: Gloria: Qui tollis
1-10 Missa: Gloria: Qui Sedes
1-11 Missa: Gloria: Quoniam tu solus
1-12 Missa: Gloria: Cum Sancto Spiritu
2-01 Symbolum Nicenum: Credo: Credo in unum Deum
2-02 Symbolum Nicenum: Credo: Patrem omnipotentem
2-03 Symbolum Nicenum: Credo: Et in unum Dominum
2-04 Symbolum Nicenum: Credo: Et incarnatus est
2-05 Symbolum Nicenum: Credo: Crucifixus
2-06 Symbolum Nicenum: Credo: Et resurrexit
2-07 Symbolum Nicenum: Credo: Et in Spiritum
2-08 Symbolum Nicenum: Credo: Confiteor
2-09 Symbolum Nicenum: Credo: Ex expecto
2-10 Sanctus: Sanctus
2-11 Osanna, Benedictus, Agnus Dei et Dona nobis pacem: Osanna
2-12 Osanna, Benedictus, Agnus Dei et Dona nobis pacem Benedictus
2-13 Osanna, Benedictus, Agnus Dei et Dona nobis pacem: Osanna
2-14 Osanna, Benedictus, Agnus Dei et Dona nobis pacem: Agnus Dei
2-15 Osanna, Benedictus, Agnus Dei et Dona nobis pacem: Dona nobis pacem
Maria Stader, soprano
Hertha Töpper, contralto
Ernst Haefliger, tenor
Dietrich Fischer-Dieskau, baixo
Kieth Engen, baixo
Coro Bach de Munique
Orquestra Bach de Munique
Karl Richter
Sempre fui fascinado pela música de Mussorgsky, mas durante muitos anos, infelizmente, a única obra a que tive acesso era a já tão comentada “Pictures at an Exhibition”, já postada aqui diversas vezes. Mas a obra que mais me impressionou deste compositor foi “Uma Noite no Monte Calvo”, na versão do Stokowsky para o clássico desenho da Disney, “Fantasia”. Fiquei fascinado pela música, e, depois de muito procurar, e encontrar apenas a versão orquestral, a versão de Rimsky-Korsakov, eis que encontro esta fantástica versão do Claudio Abbado, com direito a solista, coro e orquestra. Um cd simplesmente espetacular. Imperdível. Pelo que entendi, esta versão para solista, coro e orquestra é muito rara de ser executada. Mas minha busca terminou. Na verdade, até pouco tempo atrás eu desconhecia esta versão, e quando postei um cd com obras de compositores russos há algum tempo atrás, alguém, não lembro se foi o Exigente, comentou que procurava a outra versão. Fui então atrás, e graças aos recursos da WEB, a encontrei.
Se puderem, ouçam em um volume bem alto, para poderem captar melhor as nuances da obra. Claudio Abbado fez um excepcional trabalho.
PQP completa:
O poema sinfônico Uma noite no Monte Calvo, ou, para usar seu nome completo, Noite de São João no Monte Calvo, do compositor russo Modest Mussorgsky (1839-1881), foi inspirado em um conto de Gogol. Este descreve um Sabá que, segundo a crença medieval, é uma reunião de bruxas, sob o comando de Satanás, na véspera da festa de São João. Mussorgsky assim descreve sua obra: “Sua forma e seu caráter são russos e originais. É uma peça de sangue quente e tumultuada”. Com sua orquestração colorida, suas poderosas harmonias e seu tom “tumultuado e de sangue quente”, a composição pinta um quadro terrível do festim das bruxas. A música de Mussorgsky combina com o mundo do pintor holandês Hieronymus Bosch (1450-1516), cheio de sonhos e pesadelos, em que as formas parecem se transmutar diante de nossos olhos.
Modest Mussorgsky (1839-1881): St. Johns Night on the Bare Mountain, Khovanshchina, Scherzo in B-flat Major, Intermezzo Symphonique in modo classico, Festive March from ‘Mlada’ (Filarmônica de Berlim, Abbado)
1 – St. Johns Night on the Bare Mountain
2 – Khovanshchina, Prelude
3 – Khovanshchina, Aria of Shaklovity
4 – Khovanshchina, The Departure of Prince Golizyn
5 – Khovanshchina, Aria of Maria
6 – Khovanshchina, Dance of the Persian Slave Girls
7 – Scherzo in B-flat Major
8 – Intermezzo Symphonique in modo classico
9 – Festive March from ‘Mlada’
Anatoli Kotcherga – Bass-Baritone
Mariana Tarasova – Mezzo-Soprano
Rundkunkchor Berlin
Südtiroler Kinderchor
Berliner Philharmoniker
Claudio Abbado – Conductor
Baita orquestra, baita coral, baita regente, música expressionista, bem escandalosa e bela. Uma gravação 100% satisfatória. O registro de Quadros de uma Exposição e Uma Noite no Monte Calvo reunidos por Claudio Abbado à frente da Filarmônica de Berlim é um encontro de refinamento técnico. Em Quadros de uma Exposição (orquestração de Ravel), Abbado evita tanto o peso excessivo quanto o exibicionismo fácil: sua leitura é fluida, transparente, quase narrativa, como se cada quadro surgisse com naturalidade diante do ouvinte. Abbado era um mestre, credo. A orquestra responde com brilho impressionante — madeiras cheias de cores, metais lindos e uma paleta dinâmica que valoriza tanto os momentos grandiosos quanto os mais íntimos. Já em Uma Noite no Monte Calvo, Abbado opta por um clima menos brutal. Em vez de enfatizar apenas o aspecto demoníaco, ele constrói uma tensão progressiva, explorando contrastes e texturas com grande controle. O resultado é menos selvagem do que em algumas leituras tradicionais, mas muiro mais elegante. Trata-se de um disco que privilegia clareza e sofisticação, revelando um Mussorgsky menos rude e mais sutil — filtrado pela sensibilidade de um maestro que sempre soube o que é poesia.
Modest Mussorgsky (1839-1881): Pictures at an exhibition / Night on Bald Mountain / Sennacherib / Salammbô / Oedipus / Joshua (Filarmônica de Berlim, Abbado)
A Night On The Bare Mountain 12:47
The Destruction Of Sennacherib 6:05
Salammbô – Chorus Of Priestesses 5:15
Oedipus In Athens – Chorus Of People In The Temple 3:09
Joshua 5:18
Pictures At An Exhibition
Promenade 1:48
Gnomus 2:20
Promenade 1:04
The Old Castle 4:21
Promenade 0:34
The Tuileries Gardens 1:11
Bydlo 2:51
Promenade 0:45
Ballet Of The Chickens In Their Shells 1:14
Samuel Goldenberg And Schmuyle 2:10
The Market-place At Limoges 1:20
The Catacombs (Sepulchrum Romanum) 2:01
Cum Mortuis In Lingua Mortua 2:04
The Hut On Fowl’s Legs (Baba-Yaga) 3:28
The Great Gate Of Kiev 5:16
Prager Philharmonischer Chor
Berliner Philharmoniker
Claudio Abbado
Beyond the Limits (Além dos Limites) é o título deste álbum e qualquer um que imagine CPE Bach como um trabalhador diligente na corte de Frederico, o Grande, vai levar um susto quando descobrir estas suas Sinfonias (de Hamburgo) para cordas. Este é o CPE desimpedido, seguindo o exemplo de seu igualmente inventivo padrinho Telemann. As seis sinfonias, encomendadas em 1773 pelo infatigável Gottfried van Swieten (o da Criação de Haydn) são mini-obras-primas extravagantemente originais, perfeitamente calculadas para emocionar um patrono que era simultaneamente especialista e entusiasta. Há muito de alegria nessas performances de instrumentos de época por Gli Incogniti sob sua diretora-fundadora Amandine Beyer. Os andamentos são rápidos, às vezes sensacionais, e Beyer aproveita ao máximo os contrastes dinâmicos de CPE. O conjunto é ressonante e encorpado – soando como se fosse maior do que os 14 músicos listados – e não há escassez de virtuosismo. Van Swieten supostamente instruiu Bach a escrever desconsiderando as dificuldades que os músicos possam enfrentar e o Gli Incogniti justifica essa confiança – mesmo que o contínuo do cravo seja às vezes quase inaudível sob os tuttis torrenciais e agressivos do grupo. Os movimentos lentos são bem feitos e poéticos. Beyer vai além das seis sinfonias de van Swieten para incluir uma obra anterior, o Wq177. Esta nova gravação de Amandine Beyer pode muito bem se tornar minha favorita deste repertório, embora eu ainda tenha em alta estima pela leitura de Pinnock. Beyer é conhecida por sua execução enérgica, e esta música se encaixa nela como uma luva. Os contrastes de tempo são perfeitamente realizados, e os músicos não têm medo de explorar ao máximo. O que é especialmente importante é que uma versão que faz justiça à imprevisibilidade dessas sinfonias, e aqui Beyer e seus colegas têm sucesso com louvor.
Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1788): Beyond The Limits: Complete String Symphonies (Gli Incogniti, Amandine Beyer)
Symphony No. 1 In G Major H.657
1 I. Allegro Di Molto 3:14
2 II. Poco Adagio 3:16
3 III. Presto 3:43
Symphony No.6 In E Major H.662
4 I. Allegro Di Molto 2:08
5 II. Poco Andante 2:50
6 III. Allegro Spirituoso 3:36
Symphony No.5 In B Minor H.661
7 I. Allegretto 3:55
8 II. Larghetto 2:28
9 III. Presto 3:32
Symphony No.4 In A Major H.660
10 I. Allegro Ma Non Troppo 4:14
11 II. Largo Ed Innocentemente 3:07
12 III. Allegro Assai 4:07
Symphony No.3 In C Major H.659
13 I. Allegro Assai 2:23
14 II. Adagio 2:45
15 III. Allegretto 4:53
Sinfonia Wq. 177 (H652)
16 I. Allegro Assai 3:49
17 Ii. Andante Moderato 3:06
18 III. Allegro 3:24
Symphony No.2 In Bb Major H.658
19 I. Allegro Di Molto 3:07
20 II. Poco Adagio 2:56
21 III. Presto 4:29
Conductor – Amandine Beyer
Ensemble – Gli Incogniti
Nos últimos anos, não tenho perdido ocasião de ouvir András Schiff, seja o dos anos 1970 e 80 (aqui), seja o deste disco de hoje gravado em 2010, seja o senhor de cabelos brancos que rapidamente se adaptou às lives dos anos 2020, generosamente permitindo que gente de todo o mundo o assistisse durante a pandemia de COVID-19, quando ele fez seus recitais ao vivo no Wigmore Hall para públicos presenciais muito reduzidos (mas ao vivo no YouTube) tocando Schubert com Mozart, Bach com Beethoven, Schumann com Janáček, Trios de Haydn…
Pela lista acima, dá pra notar que Schiff é um especialista no repertório germânico e da Europa Central. Sua gravações de Bartók também são imperdíveis. No disco de hoje, Schiff aborda várias obras de Schumann, a maioria delas compostas quando ele tinha menos de 30 anos, mas também as Cenas da Floresta (Waldszenen), de quando o compositor já se aproximava dos 40, e as Variações-Fantasma (Geistervariationen), sua última obra, que teria sido ditada por vozes que ele ouvia em seus difíceis últimos anos: em um momento ele disse que era a voz de anjos, em outro, garantia que era o espírito de Schubert.
O pianista e professor francês Alfred Cortot costumava dizer sobre Schumann: “O que torna sua arte tão emocionante, tão próxima de nós, tão fraternal, é que antes de sentir a sua genialidade, sentimos os batimentos de um coração parecido com o nosso. Com Schumann, não pensamos nos problemas composicionais que ele resolveu, só temos ouvidos para as emoções que surgem de sua música. Como se se tratasse de um constante estado de improvisação, do qual jorram maravilhosas melodias, cada uma delas contando segredos – incluindo os nossos.” Há outras interpretações de Schumann em que todas essas emoções queimam com um fogo mais quente (aqui e aqui), outras com mais delicadeza (aqui e aqui), mas o que Schiff traz de forma muito única é um certo sarcasmo, um senso de humor que coloca Schumann como um improvável precursor de Bartók, Prokofiev e outros compositores que expressam um amplo espectro de emoções sarcásticas e cômicas. Sem perder com isso o sentimentalismo, é claro, pois Schiff nos apresenta as belas paisagens e o pássaro das Cenas da Floresta, toda a força e seriedade da Fantasia op. 17 em homenagem a Beethoven, etc. Tudo isso, porém, Schiff o faz sem tirar o sorriso do rosto.
E mais um detalhe para os fãs de Schumann: Schiff gravou a Fantasia op. 17 utilizando uma partitura alternativa do último movimento, com correções escritas à mão por Schumann e conservada em uma biblioteca em Budapeste. Na última página, segundo Schiff, essa versão alternativa tem uma grande surpresa em relação à versão mais famosa… e mais não falaremos, afinal vamos deixar que nossos leitores-ouvintes mais atentos encontrem a tal surpresa.
Robert Schumann (1810-1856):
CD1:
Papillons (Butterflies), Op. 2
Piano Sonata No. 1 in F sharp minor, Op. 11
Kinderszenen (Scenes from Childhood), Op. 15
CD2:
Fantasie (Obolen auf Beethovens Monument) in C major, Op. 17
Waldszenen (Forest Scenes), Op. 82
Variations on an original theme, in E flat major (Geistervariationen), WoO 24
András Schiff, piano
Recorded: june 2010, Historical Reitstadel, Neumarkt
O álbum foi gravado no Reitstadel em Neumarkt, Alemanha. O antigo depósito de grãos e armas construído em 1539, foi convertido para uma sala de concertos
P.S. Também revalidei os links dos dois excelentes CDs de Schiff tocando sonatas de Scarlatti AQUI.
Digamos que eu tivesse que escolher as dez maiores gravações que ouvi até hoje. Talvez não precisasse pensar muito nas primeiras três ou quatro e uma delas seria o incrível vinil onde Yevgeny Mravinsky rege a Sinfonia Nº 7 de Sibelius e a Música para Cordas, Percussão e Celesta de Bartók. Gosto tanto daquele disco com gravações de 1965 que nunca procurei os CDs correspondentes. Qual não foi minha surpresa ao ver no blog O Ser da Música a gravação de 1965 da obra de Sibelius, acompanha da Sinfonia Nº 4 de Brahms. Não sei de onde o Carlinus tirou este CD, interessa-me mais sua declaração:
Afirmo ousada e destemidamente que Yevgeny Mravinsky é o grande nome da regência no século XX. (…) Tudo aquilo que Yevgeny punha as mãos para reger, transformava-se em arte imorredoura. Um exemplo são as duas sinfonias deste post, uma de Sibelius e outra de Brahms. Não sou de ouvir a mesma música duas vezes seguidas, mas confesso que fiz isso no dia de hoje ao ouvir este registro. Detalhe: é preciso ouvir estas duas peças com um volume do som um pouco “alto” para perceber a maravilha que era o casamento Mravinsky-LPO.
E eu concordo com ele. Mravinsky foi um grande gênio, mesmo para este ouvinte que costuma fazer questão de gravações modernas em razão da qualidade de som. Há tosses em meio à gravação e o som da orquestra não é o que poderia ser, mesmo para uma gravação de 1965. Mas a interpretação… É indescritível! O destaque dado ao solo de trombone na Sinfonia de Sibelius, o primeiro movimento de Brahms… Dizer o quê? Ah!
Devo dizer que espero que uma boa alma me aponte onde está a gravação da Música de Bartók por Mravinsky. Por favor! (Afinal, este foi o motivo de eu ter repetido o post do Ser da Música aqui no PQP).
Importante: a Sinfonia de Sibelius é contínua, são cinco movimentos interligados. Aliás, nem se nota quando passamos de um para outro. Desta forma, ela sempre é apresentada em apenas uma faixa, OK?
Jean Sibelius (1865-1957) – Sinfonia No. 7 em C, Op. 105 (Live 1965)
01. Adagio — Un Pochettino Meno Adagio — Poco Rallentando All’Adagio — Allegro Molto Moderato — Vivace
Johannes Brahms (1833-1897) – Sinfonia No. 4 in E minor, Op. 98 (Live 1973)
02 Allegro Non Troppo
03 Andante Moderato
04 Allegro Giocoso, Poco Meno Presto, Tempo
05 Allegro Energico E Passionato, Più Allegro
Jascha Heifetz, alguma dúvida? Aqui ele toca o espetacular e ultra conhecido Concerto de Sibelius, o ótimo Concerto de Prokofiev com seus esplêndidos segundo e terceiro movimentos e outro bem ruinzinho de Glazunov, autor cujo maior mérito foi o ter sido professor de Shostakovich, que não o suportava nem como pessoa e ainda menos como compositor. BAITA DISCO!
Talvez as crianças não saibam quem é Heifetz, então vamos lá. Jascha Heifetz, nascido em 1901 em Vilnius ou Vilna (Lituânia, então pertencente ao Império Russo), foi um violinista russo-americano amplamente reconhecido como um dos maiores instrumentistas de todos os tempos. Prodigio precoce, estudou com o lendário Leopold Auer e ainda criança já deixava plateias estupefatas, levando o consagrado violinista Fritz Kreisler a declarar, após ouvi-lo: “É melhor pegarmos nossos violinos e quebrá-los sobre os joelhos”. Sua técnica impecável e som inconfundível estabeleceram um novo padrão para o instrumento, influenciando gerações. Após uma estreia triunfal no Carnegie Hall em 1917, Heifetz construiu uma carreira lendária, combinando uma precisão quase sobre-humana com uma dedicação altruísta, apresentando-se em inúmeros concertos beneficentes durante as guerras e, posteriormente, dedicando-se ao magistério. Ele, por si só, é IMPERDÍVEL.
Sibelius / Prokofiev / Glazunov: Concertos para Violino (Heifetz)
Violin Concerto In D Minor, Op. 47 Composed By – Jean Sibelius (26:43)
1 Allegro Moderato 13:37
2 Adagio Di Molto 6:18
3 Allegro Ma Non Tanto 6:48
Violin Concerto No. 2 In G Minor, Op. 63 Composed By – Sergei Prokofiev (23:12)
4 Allegro Moderato 9:02
5 Andante Assai 7:59
6 Allegro Ben Marcato 6:11
Violin Concerto In A Minor, Op. 82 Composed By – Alexander Glazunov (18:56)
7 Moderato 3:59
8 Andante Sostenuto 3:24
9 Tempo I 6:04
10 Allegro 5:29
Conductor – Charles Munch (faixas: 4 to 6), Walter Hendl (faixas: 1 to 3, 7 to 10)
Orchestra – Boston Symphony Orchestra (faixas: 4 to 6), Chicago Symphony Orchestra (faixas: 1 to 3), RCA Victor Symphony Orchestra (faixas: 7 to 10)
Violin – Jascha Heifetz
Muito bom CD! Lisa Batiashvili é ótima, mas ele vale mais pela qualidade da música do que pela interpretação. Batiashvili é perfeita — nasceu na Georgia, ex-União Soviética, em 1979. Estudou, mora na Alemanha e, bem, é linda. Boa para capas de discos. Também é excelente violinista, mas nós do PQP temos aquela mania da grande gravação, da melhor interpretação e, enfim, Heifetz nos deixou viciados. Pois Heifetz no Concerto de Sibelius é absolutamente fluente, de uma forma que parece inimitável. O esplêndido Concerto do também finlandês Lindberg finaliza o CD de forma inesperada. Ah, nem preciso dizer que Lindberg escreveu seu Concerto especialmente para a beldade. Olha, eu baixaria o CD.
Jan Sibelius (1865-1957) e Magnus Lindberg (1958): Concertos para Violino (Batiashvili. Oramo)
Jean Sibelius (1865 – 1957) Violin Concerto in D minor, Op. 47 1)Allegro moderato (16:17)
2) Adagio di molto (8:33)
3) Allegro, ma non tanto (7:36)
Magnus Lindberg (1958 – ) Violin Concerto 4) 1st movement (12:04)
5) 2nd movement (10:07)
6) 3rd movement (3:45)
Lisa Batiashvili, violin
Finnish Radio Smphony Orchestra
Sakari Oramo
Stanford? Quem é? PQP enlouqueceu? Não! E vou lhes dizer que a CD é bastante bom! É muito bem gravado e sedutor desde o primeiro solo de violino, o qual é imediatamente seguido pela orquestra. Stanford é um desses românticos perdidos num mundo que não o era mais. Sua música é muito boa e penso que não seja tão divulgada porque nada se espera de um compositor inglês. Afinal, a Inglaterra têm excelentes orquestras, instrumentistas e concertos. Compositores? são poucos bons. A especialidade é o rock. O disco foi…
GRAMOPHONE ‘RECORDING OF THE MONTH’,
GRAMOPHONE EDITOR’S CHOICE,
GRAMOPHONE CRITICS’ CHOICE (chosen by three critics) e
CD REVIEW DISC OF THE WEEK.
Não é pouco e é merecido. Confira!
Charles Villiers Stanford (1852-1924): Violin Concerto, Op. 74 & Suite for Violin and Orchestra, Op. 32 (Marwood, BBC Scottish SO, Brabbins)
Suite For Violin And Orchestra Op 32 (28:20)
1 Ouverture 7:51
2 Allemande 3:24
3 Ballade 6:44
4 Tambourin 3:37
5 Rondo Finale 6:42
Violin Concerto In D Major Op 74 (38:09)
6 Allegro 17:37
7 Canzona – Andante 12:38
8 Allegro Moderato 7:53
Conductor – Martyn Brabbins
Leader [Of Orchestra] – Justine Watts
Orchestra – BBC Scottish Symphony Orchestra
Violin – Anthony Marwood
Ele nasceu Ludwig Spohr, porém é mais conhecido como Louis. Não chega a ser surpreendente que Spohr tenha escrito para a obscura harpa. Afinal, ainda jovem, apaixonou-se pela bela harpista de 18 anos Dorette Scheidler. Casou-se com ela. Durante o casamento, Dorette abandonou a carreira de harpista e se concentrou em criar os filhos. É a mesma história de Clara Schumann, apesar de Dorette ter morrido jovem, causando grande dor em Louis. Foi um compositor prolífico, que produziu mais de 150 obras com número de opus, além de muitas outras não catalogadas por numeração de opus. Escreveu música em todos os gêneros. Spohr era um conceituado violinista, e inventou a queixeira para violinos por volta de 1820.
O CD da Orfeo que posto hoje é bem interessante e agradável. Eram obras escritas para sua mulher, cheia das delicadezas de um casamento recém iniciado… Apesar de não ser devoto da sonoridade da harpa, ouvi-lo foi uma boa experiência. Méritos para o maridão.
Louis Spohr (1784-1859): Obras para Harpa e Flauta (Adorjan, Nordmann)
Sonata for flute and harp in D major/E flat major (“Sonata Concertante”), Op. 113
01. Allegro brillante
02. Adagio
03. Rondo, Allegretto
Sonata for flute and harp in G major/A flat major (“Sonata Concertante”), Op. 115
04. Larghetto G-Dur
Sonata for flute and harp in C minor, WoO 23
05. Adagio
06. Andante
Fantasia on themes by Handel and Vogler, for flute and harp or piano, Op. 118
07. Fantasie über Themen
Um esplêndida gravação da música romântica mais digna que se possa imaginar. Um registro que rivaliza com os do Beaux Arts. Nos Quartetos para Piano Nº 2 e 3, Brahms revela duas faces complementares de sua escrita camarística: no Segundo, predomina uma amplitude quase sinfônica, com movimentos largos, arquitetura sólida e uma energia rítmica que faz o piano dialogar de igual para igual com as cordas, criando uma sensação de expansão. Já o Terceiro, frequentemente associado a um período de crise pessoal, é mais sombrio e introspectivo, marcado por tensões contidas, contrastes abruptos e uma expressividade quase trágica, especialmente no primeiro movimento. Juntos, esses quartetos mostram Brahms oscilando entre o domínio clássico da forma e uma intensidade emocional profundamente romântica, em que a densidade estrutural nunca sufoca a urgência do sentimento. Vocês não precisam chorar durante o Andante do Nº 3, mas, se acontecer, somos solidários.
J. Brahms (1833-1897): Quartetos para Piano Nº 2 & 3 (Zimerman. Nowak, Bubnik, Okamoto)
Piano Quartet No. 3 In C Minor, Op. 60
1 I. Allegro Non Troppo 10:08
2 II. Scherzo. Allegro 3:41
3 III. Andante 9:47
4 IV. Finale. Allegro Comodo 9:56
Piano Quartet No. 2 In A Major, Op. 26
5 I. Allegro Non Troppo 14:31
6 II. Poco Adagio 11:42
7 III. Scherzo. Poco Allegro. Trio 10:28
8 IV. Finale. Allegro 8:57
Cello – Yuka Okamoto
Piano – Krystian Zimerman
Viola – Katarzyna Budnik
Violin – Maria Nowak
Pois bem, um argentino louco resolveu postar este CD, mas tratou de ignorar a Irish Rhapsody Nº 3 e a Concert Piece para Órgão e Orquestra e acompanham a Sinfonia Nº 7. Talvez justificadamente ressentido pela insistência dos ingleses em permanecer nas Malvinas, tratou de cortar pela metade o CD de Sir Charles (diz-se Tials, em pronúncia cockney) Stanford.
A Sinfonia é bastante boa com seus dois últimos movimentos grudadinhos coisa e tal, mas o disco não é tão bom quanto o Stanford anterior que postamos. Vale a pena baixar e ouvir, claro. O fato de não ser tão bom quando o anterior não implica em ruindade.
1. Symphony No. 7 in D minor, Op. 124: I. Allegro 7:20
2. Symphony No. 7 in D minor, Op. 124: II. Tempo di minuetto [Allegretto molto moderato] 5:47
3. Symphony No. 7 in D minor, Op. 124: III. Variations and Finale: Andante 7:52
4. Symphony No. 7 in D minor, Op. 124: III. Variations and Finale: Allegro giusto – Poco piu lento – Allegro maestoso [alla breve] 7:38
A Sinfonia Nº 9, Op. 70, de Shostakovich, surpreendeu profundamente seu tempo. Composta em 1945, logo após a vitória soviética na Segunda Guerra, esperava-se uma obra grandiosa, triunfal, monumental — algo à altura da propaganda oficial. Em vez disso, Shostakovich entregou uma sinfonia leve, irônica, quase mozartiana em sua clareza e concisão. Essa aparente leveza, no entanto, carrega uma ambiguidade mordaz: por trás do humor e da transparência, há um gesto de recusa, talvez até de subversão, que desarma qualquer leitura simplista de celebração heroica.
Já a Sinfonia Nº 15, Op. 141, sua última sinfonia, composta em 1971, é uma obra enigmática e profundamente introspectiva. Aqui, o compositor parece olhar para trás e revisitar não apenas sua própria trajetória, mas toda a tradição musical que o formou. A sinfonia é atravessada por citações — de Rossini a Wagner — que surgem como memórias sonoras, fragmentos de um passado que reaparece de forma quase fantasmagórica. O clima é rarefeito, por vezes irônico, por vezes inquietante, como se a música hesitasse entre o jogo e a despedida.
Se a Nona parece negar o peso da história com um sorriso ambíguo, a Décima Quinta nos encara de forma oblíqua. Entre uma e outra, vemos dois gestos extremos de Shostakovich: o da ironia diante das expectativas externas e o da meditação diante do fim. Ambas, à sua maneira, recusam o grandioso em favor de algo mais sutil — e talvez mais perturbador: uma música que, em vez de afirmar, insinua.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral das Sinfonias – 9 e 15 (Kondrashin)
Nada de especial. O álbum quíntuplo do Alta Ripa dá um baile neste CD aqui. Aliás, normalmente não gosto das duras gravações de Harnoncourt. Porém… Os livros de Nikolaus Harnoncourt são grandes lições de um gênio e devem ser lidos por todos que queiram entender a música barroca e o classissismo. O Diálogo Musical e O Discurso dos Sons são grandes lições. Mas, se Harnoncourt escreve maravilhosamente e é um teórico de peso — sendo um dos caras que criaram a interpretação por instrumentos originais — , raramente acerta como regente. É o caso este CD duplo. Aqui, ele perde vários gols. Apesar de muito mais popular do que Bach, Telemann foi bem menor. A distância que o separa de meu pai não é tão grande quanto o abismo que há entre Michel Teló e Chico Buarque ou entre Philip Glass e Steve Reich ou John Adams.
George Philipp Telemann (1681-1767): Darmstadt Overtures (Completas) (Harnoncourt)
Disc: 1
1. Ov in g for 3 ob, bn, 2 vn, va and bass bc, TWV 55: g 4: Overture (Grave-Allegro-Grave)
2. Ov in g for 3 ob, bn, 2 vn, va and bass bc, TWV 55: g 4: Rondeau (Gayement)
3. Ov in g for 3 ob, bn, 2 vn, va and bass bc, TWV 55: g 4:Les Irresoluts (a discretion)
4. Ov in g for 3 ob, bn, 2 vn, va and bass bc, TWV 55: g 4:Les Capricieux
5. Ov in g for 3 ob, bn, 2 vn, va and bass bc, TWV 55: g 4:Loure
6. Ov in g for 3 ob, bn, 2 vn, va and bass bc, TWV 55: g 4:Gasconnade
7. Ov in g for 3 ob, bn, 2 vn, va and bass bc, TWV 55: g 4:Menuet I alternativement Menuet II
8. Ov in C for 3 ob, 2 vn, va, and bass bc, TWV 55: C 6: Overture (Grave-Allegro-Allegro)
9. Ov in C for 3 ob, 2 vn, va, and bass bc, TWV 55: C 6: Harlequinade
10. Ov in C for 3 ob, 2 vn, va, and bass bc, TWV 55: C 6: Espagnol
11. Ov in C for 3 ob, 2 vn, va, and bass bc, TWV 55: C 6: Bouree en Trompette
12. Ov in C for 3 ob, 2 vn, va, and bass bc, TWV 55: C 6: Sommeille
13. Ov in C for 3 ob, 2 vn, va, and bass bc, TWV 55: C 6: Rondeau
14. Ov in C for 3 ob, 2 vn, va, and bass bc, TWV 55: C 6: MenuetI alternativement Menuett II
15. Ov in C for 3 ob, 2 vn, va, and bass bc, TWV 55: C 6: Gigue
16. Ov in d for 3 ob, bn, 2 vn, va and bass bc, TWV 55: d 3: Overture (Grave-Allegro-Grave)
17. Ov in d for 3 ob, bn, 2 vn, va and bass bc, TWV 55: d 3: Menuet I alternativement Menuet II
18. Ov in d for 3 ob, bn, 2 vn, va and bass bc, TWV 55: d 3: Gavotte
19. Ov in d for 3 ob, bn, 2 vn, va and bass bc, TWV 55: d 3: Courante
20. Ov in d for 3 ob, bn, 2 vn, va and bass bc, TWV 55: d 3: Air
21. Ov in d for 3 ob, bn, 2 vn, va and bass bc, TWV 55: d 3: Loure
22. Ov in d for 3 ob, bn, 2 vn, va and bass bc, TWV 55: d 3: Hornpipe
23. Ov in d for 3 ob, bn, 2 vn, va and bass bc, TWV 55: d 3: Canaries
24. Ov in d for 3 ob, bn, 2 vn, va and bass bc, TWV 55: d 3: Gigue
Disc: 2
1. Ov in D for 3 ob, 2 vn, va and bass bc, TWV 55: D 15: Overture
2. Ov in D for 3 ob, 2 vn, va and bass bc, TWV 55: D 15: Prld (Tres vite)
3. Ov in D for 3 ob, 2 vn, va and bass bc, TWV 55: D 15: Gigue
4. Ov in D for 3 ob, 2 vn, va and bass bc, TWV 55: D 15: Menuet I-Menuet II
5. Ov in D for 3 ob, 2 vn, va and bass bc, TWV 55: D 15: Harlequinade
6. Ov in D for 3 ob, 2 vn, va and bass bc, TWV 55: D 15: Loure
7. Ov in D for 3 ob, 2 vn, va and bass bc, TWV 55: D 15: Rondeau
8. Ov in D for 3 ob, 2 vn, va and bass bc, TWV 55: D 15: Rejouissance
9. Ov in a for solo recorder, 2 vn, va and bc, TWV 55: a 2: Overture
10. Ov in a for solo recorder, 2 vn, va and bc, TWV 55: a 2: Les Plaisirs
11. Ov in a for solo recorder, 2 vn, va and bc, TWV 55: a 2: Air a l’Italien
12. Ov in a for solo recorder, 2 vn, va and bc, TWV 55: a 2: Menuet l Alternativement Menuet II
13. Ov in a for solo recorder, 2 vn, va and bc, TWV 55: a 2: Rejouissance
14. Ov in a for solo recorder, 2 vn, va and bc, TWV 55: a 2: Passepied I/II
15. Ov in a for solo recorder, 2 vn, va and bc, TWV 55: a 2: Polonaise
16. Ov in f for 2 vn, va, 2 recorders and bc, TWV 55: f 1: Overture
17. Ov in f for 2 vn, va, 2 recorders and bc, TWV 55: f 1: Menuet I alternativement Menuett II
18. Ov in f for 2 vn, va, 2 recorders and bc, TWV 55: f 1: Rondeau
19. Ov in f for 2 vn, va, 2 recorders and bc, TWV 55: f 1: Sarabande
20. Ov in f for 2 vn, va, 2 recorders and bc, TWV 55: f 1: Passepied
21. Ov in f for 2 vn, va, 2 recorders and bc, TWV 55: f 1: Plainte
22. Ov in f for 2 vn, va, 2 recorders and bc, TWV 55: f 1: Allemande
23. Ov in f for 2 vn, va, 2 recorders and bc, TWV 55: f 1: Chaconne
24. Ov in f for 2 vn, va, 2 recorders and bc, TWV 55: f 1: Gigue
Eu gosto de Stockhausen, falecido dias atrás, mais exatamente em 5 de dezembro. Sua música sempre me fascinou e posso passar horas ouvindo Stock, mesmo sem absolutamente compreendê-lo.
Karlheinz Stockhausen foi certamente um dos mais talentosos e influentes compositores alemães do pós-guerra. Suas obras são de um abstracionismo talvez só possível em música, essa arte intangível, puro ar sonoro, como nos ensinou Busoni. São complexas e desarmônicas, mas por um motivo que não sei explicar, caem em meu ouvido com naturalidade. Quando dizem que tratava-se de um grande gênio, concordo. Era mesmo. Suas peças diferenciam-se claramente das de seus pares menos talentosos.
Stockhausen nasceu a 22 de agosto de 1928 em Mödrath, perto de Colônia, Alemanha. De 1947 a 1951, estudou na Escola Superior de Música de Colônia (piano e pedagogia musical) e na Universidade desta mesma cidade (germanística, filosofia e musicologia). Em 1952, realizou em Paris um curso de rítmica e estética musical com Oliver Messiaen, personagem fundamental em sua formação.
Durante tal curso, Stockhausen foi colega de estudos de outro grande pensador da música, Pierre Boulez. Nesse mesmo ano participou, também em Paris, das investigações com sons concretos realizadas por Pierre Schaeffer na Radio Française; em 1952 cria, nos estúdios da Rádio de Colônia, a primeira síntese de espectros sonoros sinusoidais produzidos eletronicamente e que fazem parte de nossa postagem. Foi, desde maio deste mesmo ano, diretor do Estúdio de música eletrônica desta rádio e, até 1977, seu diretor artístico.
Stockhausen compôs entre 1954 e a década de 60 uma percentagem substancial das obras que lhe renderam fama mundial, entre as quais o fenomenal “Klavierstücke”, peça para piano seguindo o princípio da música aleatória. Nesses anos, compôs também, entre outras, “Gesang der juenglinge”, “Kontakte”, “Momente” ou”Microphonie”, paradigmas de um compositor único.
Gostava de polêmica, escreveu “Helikopter-Streichquartett”, peça para quarteto de cordas e quatro helicópteros, onde a pauta de cada músico tinha apenas a cor que lhe correspondia. Os integrantes do quarteto subiam separados nos quatro helicópteros que ficavam parados, no ar, sobre a audiência. De lá, tocavam… Obviamente, só se ouviam os helicópteros, mas era bonito de ver. Vi na TV. Era engraçado, curioso e chegava a parecer mesmo uma obra de arte do gênero “instalação”. Podia ser lida de muitas formas, podia parecer um protesto risonho, por que não? Os helicópteros foram alugados pelo próprio Stock. Considerou o 11 de setembro de Nova Iorque outra obra de arte e teve defensores, muitos defensores. Não se manifestou sobre o 11 de setembro de Santiago do Chile.
Durante mais de 25 anos, Stockhausen escreveu a ópera monumental “Licht”, que dura 29 horas.
Este genial maestro, intérprete, pianista e criador tinha autenticamente uma visão peculiar do mundo, o que nem sempre foi bem acolhido pelo senso comum. Mas os leitores-ouvintes do PQP Bach são desprovidos de senso comum e gostarão da postagem, creio.
Karlheinz Stockhausen – Elektronische Musik 1952-1960
01 – Etude (1952)
02 – Studie I (1953)
03 – Studie II (1954)
04 – Gesang der Juenglinge (1955-56)
05 – Kontakte (1959-60) – Struktur I
06 – Kontakte (1959-60) – Struktur II
07 – Kontakte (1959-60) – Struktur III
08 – Kontakte (1959-60) – Struktur IV
09 – Kontakte (1959-60) – Struktur V
10 – Kontakte (1959-60) – Struktur VI
11 – Kontakte (1959-60) – Struktur VII
12 – Kontakte (1959-60) – Struktur VIII
13 – Kontakte (1959-60) – Struktur IX
14 – Kontakte (1959-60) – Struktur X
15 – Kontakte (1959-60) – Struktur XI
16 – Kontakte (1959-60) – Struktur XII
17 – Kontakte (1959-60) – Struktur XIII A
18 – Kontakte (1959-60) – Struktur XIII B
19 – Kontakte (1959-60) – Struktur XIII C
20 – Kontakte (1959-60) – Struktur XIII D
21 – Kontakte (1959-60) – Struktur XIII E
22 – Kontakte (1959-60) – Struktur XIII F
23 – Kontakte (1959-60) – Struktur XIV
24 – Kontakte (1959-60) – Struktur XV
25 – Kontakte (1959-60) – Struktur XVI A
26 – Kontakte (1959-60) – Struktur XVI B
27 – Kontakte (1959-60) – Struktur XVI C
28 – Kontakte (1959-60) – Struktur XVI D
29 – Kontakte (1959-60) – Struktur XVI E
Tenho uma teoria. Ou melhor, uma hipótese, sem grandes evidências, mas que para mim está colocada: Lutoslawski viveu bastante, até 1994, compôs obras relevantes entre as décadas de 1940 e 1990 (muito tempo!), essas obras foram bastante gravadas nos anos logo antes e logo depois da sua morte e depois houve um injusto encerramento no fluxo de gravações porque o mercado fonográfico já contava com 2 ou 3 bons CD, às vezes mais, pra cada obra importante.
Ele não era prolífico como Shostakovich com suas 15 Sinfonias e vários balés e obras diversas que podem sempre ser redescobertas por alguém. As principais obras que ele deu à luz são para orquestra – 4 sinfonias, um concerto para orquestra, um para violoncelo, um para piano – e mais um único quarteto de cordas. A concorrência é forte: apenas na década dele também nasceram Dutilleux, Ginastera e outros mestres das orquestrações sublimes. E ele não compôs para instrumentos mais, digamos, de nicho, como Messiaen (órgão), Mignone (fagote), Rodrigo (violão).
Minha impressão, então, é que mais ou menos de 2020 pra cá nós não temos visto boas gravações de Lutoslawski e isso é uma pena. Ele era bom demais.
Witold Lutosławski (1913-1994): Sinfonias nº 2 e 4
1. Symphony No 2 (1965-67) – 1. Hesitant
2. Symphony No 2 (1965-67) – 2. Direct
3. Symphony No 4 (1988-92)
Rundfunk-Sinfonieorchester Saarbrücken, RomanKofman
Recorded: 1995
Hoje, dia 25, faz 101 anos que Shostakovich nasceu. P.Q.P. Bach lembrou e homenageia o mais humano dos compositores. Utilizamos versões clássicas um CD de versões clássicas a cargo de Leonard Bernstein e de Rudolf Barshai.
Sinfonia Nº 5, Op. 47 (1937)
Porta de entrada mais utilizada para Shostakovich, a Sinfonia N° 5 é sua obra mais popular. Recebeu incontáveis gravações e não é para menos. O público costuma torcer o nariz para obras mais modernas e aqui o compositor retorna no tempo para compor uma grande sinfonia ao estilo do século XIX. Sim, é em ré menor e possui quatro movimentos, tendo bem no meio um scherzo (o Alegretto) composto por um Haydn mais parrudo. Mesmo para os aficcionados, é uma obra apetitosa, por transformar a linguagem do compositor em algo mais sonhador do que o habitual. Foi a primeira sinfonia de Shostakovich que ouvi. Meu pai a trouxe dizendo que era uma sinfonia muito melhor que as de Prokofiev, exceção feita à Nº 1, Clássica, que ele, outro clássico, amava. Alguns consideram a quinta uma grande paródia; eu a vejo como uma homenagem ao glorioso passado sinfônico do século anterior. A abertura e a coda do último movimento (Allegro non troppo) costuma aparecer, com boa freqüência, em programas de rádio que se querem sérios e influentes…
Chamber Symphony
Sim, sim, não me culpem. É a quinta vez que publicamos esta pequena sinfonia de câmara, na verdade um arranjo do extraordinário Quarteto Nº 8 de Shosta. O que posso fazer se tal obra tornou-se a sobremesa padrão de muitos CDs? É uma iguaria triste, com um estranho gosto de morte, mas bela, muito bela. Houve uma postagem de três versões muito diferentes entre si num só arquivo (lembram?) e depois ela retornou naquele CD funéreo que também apresentava A Morte e a Donzela de Schubert. É grande música, vale a pena ouvir e reouvir.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonia Nº 5 e Sinfonia de Câmara (Bernstein, New York Philharmonic, Barshai, Mito Chamber Orchestra)
Symphony No. 5, Op. 47
Conductor – Leonard Bernstein
Orchestra – New York Philharmonic
1 Moderato 17:42
2 Allegretto 5:23
3 Largo 16:02
4 Allegro Non Troppo 10:13
Chamber Symphony For String Orchestra, Op. 110a
Conductor – Rudolf Barshai
Orchestra – Mito Chamber Orchestra
5 Largo 4:34
6 Allegro Molto 3:33
7 Allegretto 4:25
8 Largo 4:54
9 Largo 3:41 This work is Rudolf Barshai’s 1960 arrangement of Shostakovich’s String Quartet No. 8.
Nada excepcional. Não pedimos algo que chegue perto de um Rattle ou de um Bernstein ou de um Haitink, mas também não precisa ficar tão abaixo, né? Podemos combinar que esta é uma música de alto impacto? Pois é, parece que Santtu dá uma hesitada em ir com tudo nestes momentos. É estranho como a interpretação parece oscilar entre o prosaico e o exagerado. Basta observar a exposição do primeiro movimento: as páginas iniciais eletrizantes, ficaram carentes daquela tensão angustiante e arrebatadora. Em seguida, o segundo movimento demonstra qualidade, mas tenta, de forma autoconsciente, tocar as cordas de nossos corações como se fosse Hamnet. Uma coisa que Santtu faz bem e segue à risca são aqueles sprints impetuosos e vertiginosos que Mahler adora nos apresentar. Também atenta às pausas angustiantes, às súbitas inspirações, que pontuam momentos de grande drama. Por outro lado, ele estraga o clímax assustador do desenvolvimento, inserindo partes mais lentas que anulam o impacto de cair pesadamente naquela dissonância colossal e impiedosa. Rattle e Bernstein captam isso perfeitamente – a tática de choque que Mahler imaginou. OK, é uma boa Ressurreição, mas existem gravações superiores.
Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia Nº 2, “Ressurreição” (Philharmonia, Santtu-Matias Rouvali)
Symphony No. 2 In C Minor “Resurrection”
1-01 I Allegro Maestoso 21:55
2-01 II Andante Moderato 9:43
2-02 III In Ruhig Fließender Bewegung 9:19
2-03 IV “Urlicht” – Sehr Feierlich, Aber Schlicht 4:57
2-04 V(a) Im Tempo Des Scherzos 19:48
2-05 V(b) Langsam Misterioso ‘Aufersteh’n’ 6:04
2-06 V(c) Etwas Bewegter ‘O Glaube, Mein Herz’ 9:25