Lançado em 2024 pelo próprio selo da Orquestra de Cleveland, este CD apresenta um programa bem audacioso: o Quarteto de Cordas Nº 3 de Bartók numa nova transcrição para orquestra de cordas (da autoria do violista da orquestra, Stanley Konopka), junto com a extraordinária Suite de O Mandarim Miraculoso. Gravado ao vivo no Mandel Concert Hall em janeiro de 2024, o disco é um testemunho do virtuosismo e da aposta em repertório pouco convencional que marcam a atual direção musical de Franz Welser-Möst na excelente orquestra da cidade. A novidade deste disco é a transcrição de Konopka para o Quarteto Nº 3. Considerado por muitos o mais “duro” e concentrado dos seis quartetos de Bartók, a obra, composta em 1927, é uma estrutura contínua de implacável lógica interna. Konopka, inspirado por arranjos semelhantes, optou por não apenas dobrar as partes originais, mas por reconceber a obra para duas orquestras de cordas separadas, seguindo o exemplo de Bartók na sua Música para Cordas, Percussão e Celesta. O resultado é surpreendente. As cordas de Cleveland, em estado de graça, aproveitam a oportunidade para trazer uma perspectiva sonora completamente diferente a uma obra familiar. Welser-Möst suaviza algumas arestas, tornando a obra, paradoxalmente, mais acessível e próxima do espírito da Música para Cordas do que da agressividade do quarteto original. A escolha da Suite de O Mandarim Miraculoso como complemento é ideal, contrastando a densidade do quarteto com uma música crua e forte. A orquestra dá uma execução virtuosística, com solos de sopros muito expressivos. No entanto, a abordagem de Welser-Möst revela estranha dualidade: se a dança final recebe a injeção de adrenalina adequada, a Introdução, com as suas sonoridades de paisagem urbana, é por demais polida para uma música que deveria transmitir violência. Porém o final, com a perseguição frenética, mostra que a orquestra sabe arder quando conduzida a isto.
Béla Bartók (1881-1945): Quarteto de Cordas Nº 3 (arranjado para orquestra de cordas) / O Mandarim Miraculoso (Cleveland Orch, Welser-Möst)
1 String Quartet No. 3, Sz. 85, BB 93 (Arr. Stanley Konopka for Double String Orchestra) 16:02
2 Suite from The Miraculous Mandarin, Op. 19, Sz. 73, BB 82: I. Introduction
The Cleveland Orchestra 2:46
3 Suite from The Miraculous Mandarin, Op. 19, Sz. 73, BB 82: II. First Decoy Game
The Cleveland Orchestra 3:27
4 Suite from The Miraculous Mandarin, Op. 19, Sz. 73, BB 82: III. Second Decoy Game
The Cleveland Orchestra 3:10
5 Suite from The Miraculous Mandarin, Op. 19, Sz. 73, BB 82: IV. Third Decoy Game
The Cleveland Orchestra 2:19
6 Suite from The Miraculous Mandarin, Op. 19, Sz. 73, BB 82: V. The Girl Dances
The Cleveland Orchestra 4:32
7 Suite from The Miraculous Mandarin, Op. 19, Sz. 73, BB 82: VI. The Chase
The Cleveland Orchestra 2:05
Amo Bartók e este é mais um grande trabalho de Leonard Slatkin, um notável maestro estadunidense que, além de seu enorme talento, brinda-nos há anos com uma super bem-humorada presença nas redes sociais. Lançado em 1994 pelo Red Seal da RCA Victor, este CD reúne duas obras-primas orquestrais de Béla Bartók: o balé completo O Mandarim Miraculoso, Op. 19 (Sz. 73), e o Concerto para Orquestra (Sz. 116). A gravação apresenta a Orquestra Sinfônica de St. Louis sob a direção de Leonard Slatkin, com a participação do Coro da Sinfônica de St. Louis no Mandarim.
O Mandarim Miraculoso é um balé de sensualidade e violência chocantes, com uma partitura que capta perfeitamente a tensão e o grotesco da história. A decisão de Slatkin de gravar a obra na íntegra, em vez da suite mais comum, é um dos grandes atrativos do disco, permitindo ao ouvinte experimentar a narrativa completa, incluindo o famoso clímax da fuga final.
O Concerto para Orquestra, uma das obras mais populares do século XX, é aqui apresentado com a espetacular ressonância que a acústica da sala de concertos de St. Louis proporciona. A crítica da Gramophone descreve a abordagem de Slatkin como a de um “pintor tonal”, privilegiando uma sonoridade “mais suave, menos corajosa” em comparação com outras gravações mais incisivas. O seu andamento no final do concerto é elogiado pela “aceleração eficaz” e pela excelência das cordas de St. Louis. Uma característica única desta edição é a inclusão de ambos os finais do concerto: o original, abrupto, e o alternativo, mais comum, permitindo ao ouvinte comparar as duas versões.
Slatkin oferece uma abordagem refinada e atmosférica de Bartók, com especial destaque para a inclusão do balé completo e para a possibilidade de comparar os dois finais do Concerto para Orquestra. Embora a interpretação não seja a mais feroz ou visceral disponível, a produção de Joanna Nickrenz, ainda segundo a Gramophone, possui uma “notável perspetiva e atmosfera”, e a execução da orquestra é de excelente qualidade. É uma gravação que se distingue mais pela elegância sonora e completude do que pela crueza rítmica, constituindo uma adição valiosa para qualquer pequepiano.
Béla Bartók (1881-1945): O Mandarim Miraculoso e Concerto para Orquestra (Slatkin, St. Louis Symph Orch)
The Miraculous Mandarin, Op.19 (Sz73) / Pantomime In One Act · Pantomime In Einem Akt · Pantomime En Un Acte Choir – Members of the Saint Louis Symphony Chorus* Chorus Master – Thomas Peck (31:11)
1 Allegro 3:02
2 First Decoy Game 4:03
3 Second Decoy Game 3:32
4 Third Decoy Game 2:28
5 General Consternation. – The Tramps Make Signs From Their Hiding Place That The Girl Should Start, Lure The Mandarin A Little Closer, Ensnare Him. 1:38
6 At Last She Overcomes Her Reluctance And Begins A Hesitant Dance. 3:16
7 A Tempo (Meno Mosso) 1:02
8 The Girl Sinks To Embrace Him; He Begins To Tremble In Feverish Excitement. 2:07
9 The Tramps Leap Out, Seize The Mandarin And Tear Him Away From The Girl. They Strip Him Of His Jewelry And His Money. 1:47
10 Suddenly The Mandarin’s Head Appears Between The Pillows And He Looks Longingly At The Girl. The Four Shudder And Stand Aghast. 2:24
11 Suddenly He Draws Himself Up And Leaps At The Girl. The Three Tramps Stop Him And Hold Him Fast Again. 0:48
12 They Drag The Resisting Mandarin To The Centre Of The Room And Hang Him On The Lamp Hook. 1:06
13 The Body Of The Mandarin Begins To Glow With A Greenish Blue Light. His Eyes Are Fixed On The Girl. 2:58
14 The Mandarin’s Longing Is Now Stilled, His Wounds Begin To Bleed, He Becomes Weaker And Dies After A Short Struggle. 1:00
Concerto For Orchestra Commissioned By – Serge Koussevitsky* (39:14)
15 Introduzione: Andante Non Troppo; Allegro Vivace 10:05
16 Giuoco Delle Coppie: Allegretto Scherzando 6:21
17 Elegia: Andante Non Troppo 8:12
18 Intermezzo Interrotto: Allegretto 4:25
19 Finale: Presto (Up To Bar 573) 8:50
20 Finale: Alternative Ending/Alternativer Schluß/Version Alternative) 0:33
21 Finale: Original Ending/Ursprünglicher Schluß/Version Originelle) 0:22
Conductor – Leonard Slatkin
Orchestra – Saint Louis Symphony Orchestra
Este CD reúne gravações da violinista sul-coreana Kyung-Wha Chung em dois momentos distintos de sua parceria com grandes orquestras e regentes. (A carreira de Chung infelizmente foi interrompida em 2005 por uma lesão no dedo indicador esquerdo). De um lado, Dvořák sob Riccardo Muti com a Philadelphia Orchestra (1988); de outro, as Rapsódias de Bartók dirigidas por Sir Simon Rattle com a City of Birmingham Symphony Orchestra (1992). O resultado é um disco que exibe o virtuosismo e a sensibilidade de Chung, mas que é duvidoso quanto à sintonia entre solista e regentes. Não vou falar do Dvořák, que detestei (pareceu-me que Muti e Chung se odiaram), mas sim das obras de Bartók, que são mais a minha praia: Rattle costuma compreender e obedecer aos solistas, mas, novamente, aqui há uma disparidade de estilos. Enquanto Chung traz a cor e a energia do grande húngaro, Rattle e a orquestra vêm com “a angústia e a ansiedade de Schoenberg”. Vai ver que a Chung é uma baita chata.
Antonín Dvořák
Concerto For Violin And Orchestra In A Minor, Op. 53
1 I. Allegro Ma Non Troppo 11:51
2 II. Adagio Ma Non Troppo 10:53
3 III. Finale. Allegro Giocoso, Ma Non Troppo 10:40
4 Romance In F Minor, Op. 11 12:59
Béla Bartók
Rhapsody For Violin And Orchestra No. 1 BB 94
5 Lassú. Moderato 4:53
6 Friss. Allegretto Moderato 5:16
Rhapsody For Violin And Orchestra No. 2 BB 96
7 Lassú. Moderato 4:58
8 Friss. Allegretto Moderato 6:03
Conductor – Riccardo Muti (tracks: 1 to 4), Sir Simon Rattle (tracks: 5 to 8)
Orchestra – City Of Birmingham Symphony Orchestra (tracks: 5 to 8), The Philadelphia Orchestra (tracks: 1 to 4)
Violin – Kyung-Wha Chung
Aceite nosso convite para um encontro com Jiří Bělohlávek, que amava a música acima de tudo e a serviu com a lealdade de um cavaleiro até o fim.
[frase citada no site Presto Classic]
As gravações reunidas neste disco são do início da carreira do grande maestro tcheco Jiří Bělohlávek, que amava a música acima de tudo, e o mostram preocupado em revelar as muitas qualidades da excelente orquestra. Eu presumo que a gravação foi feita na casa de concertos Rodolfinum, em Praga, reconhecida mundialmente por sua acústica espetacular, o que acrescenta ainda mais beleza no som capturado.
As obras não poderiam ser mais contrastantes, apesar da peça de Bartók haver sido composta apenas duas décadas depois da Suíte de Ravel. A Pavane pour une infante défunte e a Suíte Ma mère l’oye são para orquestra completa, o Divertimento, de Bartók, foi composto para orquestra de cordas. Essa peça foi encomendada por Paul Sacher, o maestro e mecenas suíço, que regia sua própria orquestra.
As peças de Ravel surgiram em versões para piano ou piano a quatro mãos, mas ganharam suas versões (magníficas) para orquestra e evocam outras épocas ou o universo dos contes de fada.
A peça de Bartók tem um que de neoclassicismo, com seus três movimentos, rápido-lento-rápido, evocando o concerto grosso. O lento movimento central, com seu caráter de noturno, é ladeado por dois movimentos que evocam danças e tem ritmos acelerados, com texturas realçadas por cordas beliscadas. Achei o primeiro movimento realmente irresistível.
As obras deste disco estão [também] em um conjunto de 8 CDs, fazendo parte de uma antologia da carreira do maestro. Os trechos a seguir foram extraídos de uma crítica deste pacote e pode ser lida na íntegra aqui.
Then we delve back into the vaults for the Ravel diptych, performances dating from 1973 and the very early days of his LP catalogue – with the Czech Philharmonic […].
Bartók’s Divertimeto has been on CD before – it dates from 1973 – possibly because it’s with the Czech Philharmonic[…]. It’s quite a rare example of Bělohlávek conducting Bartók.
These eight CDs offer a fair and thoughtful summation of Bělohlávek’s studio legacy and demonstrate the high level of interpretative control and consistency he displayed throughout his career.
Aproveite!
René Denon
Se você gostou desta postagem, talvez queira visitar essa outra:
O Quarteto Arditti foi fundado em 1974 e seus membros são especialistas na música dos séculos XX e, já há alguns anos, tabém na do século XXI. Uma breve ida ao google me informa que em 2025 eles gravaram uma estranhíssima obra do compositor cipriota Evis Sammoutis (Ρίμες – Rhymes, composto em 2012) que você pode conferir aqui. Então, em comparação, para eles o 4º quarteto de Bartók é uma das obras mais tradicionais do seu repertório.
Diferentes entre si em muitos sentidos, os quartetos de Bartók, Schnittke e Gubaidulina escolhidos pelo Arditti têm também algumas coisas em comum como o uso de técnicas pouco comuns ou até comuns mas aqui exageradas: momentos em que o glissando ou o pizzicato é levado a extremos que podem causar desconforto, admiração ou outros sentimentos no ouvinte. Para os músicos, certamente não são de tranquila execução.
Arditti Quartet:
1-5. Bartók: Quartet No. 4 (1928)
6. Gubaidulina: Quartet No. 3
7-10. Schnittke: Quartet No. 2
I. Arditti (vl.), D. Alberman (vl.), L. Andrade (vla.), R. de Saram (vc.)
Recorded: New York, 1990
Falar sobre a importância destas duas obras na evolução musical do Século XX é como chover no molhado. Muito já se falou sobre elas, inclusive aqui no PQPBach, que já trouxe gravações de altíssimo nível, mas pesquisando no histórico de nossas postagens, nem são tantas assim. Destacaria Pierre Boulez, talvez um dos principais intérpretes do húngaro do final do século, em uma postagem de nosso mentor, PQPBach, lá de 2015.
Hoje trago aqui para os senhores a gravação do maestro suíço Charles Dutoit, em um registro de 1988, frente à Orquestra Sinfonica de Montreal, que dirigiu por 25 anos, e com quem gravou quase 100 discos. Vale a pena conhecer, Dutoit foi um craque nesse repertório, e conseguiu extrair da orquestra canadense uma interpretação coesa e extramente virtuosística.
Concerto For Orchestra
I. Introduzione
II. Giuoco Delle Coppie
III. Elegia
IV. Intermezzo Interrotto
V. Finale
Music For Strings, Percussion And Celesta
I. Andante Tranquillo
II. Allegro
III. Adagio
IV. Allegro Molto
O que dizer deste surpreendente álbum duplo de Viktoria Mullova? Que ela é doida? Que ela é uma perfeita cigana? Que ela é uma das melhores violinistas de todos os tempos? Que ela não se importa de correr riscos?
Acho que todas as possibilidades acima estão corretas.
Mullova pegou um repertório belíssimo e pouco divulgado para estabelecer com clareza o estrago que a música cigana causou no século XX. Ou seja, dentro de um programa altamente eclético, ela reflete sobre a profunda influência cigana na música clássica e no jazz (SIM!) no século 20. Sob roupagem erudita ou jazzística, a música dos ciganos está em nossas vidas com seu acelerado e marcado pulso. O CD apresenta obras de Bartók e Kodály ao lado de coisas do mundo do jazz, incluindo John Lewis e Django Reinhardt além de faixas da banda Weather Report. A russa Mullova tem fortes ligações pessoais com o campo e os ciganos. Parte de sua família é ucraniana e, quando criança, ela passava temporadas numa pequena aldeia do interior do país, convivendo com camponeses. A música destes CDs nos permite vislumbrar um outro lado desta artista fascinante e de, pelamor, sangue quentíssimo.
(Maiores detalhes sobre as faixas estão no arquivo que vocês, creio, vão baixar).
The Peasant Girl, com Viktoria Mullova
1. For Nedim (For Nadia) 5:36
2. Django 6:44
3. Dark Eyes 6:53
4. Er Nemo Klantz , Bartók Duos 8:20
5. The Peasant 9:35
6. 7 Duos with Improvisations 10:51
7. Yura 4:44
1. Bi Lovengo 3:06
2. The Pursuit of the Woman with the Feathered Hat 5:58
3. Life 4:42
4. Kodaly: Duo for Violin and Cello, Op. 7: I. Allegro serioso 7:39
5. Kodaly: Duo for Violin and Cello, Op. 7: II. Adagio 8:11
6. Kodaly: Duo for Violin and Cello, Op. 7: III. Maestoso e largamente, ma non troppo 8:07
Para honrar a memória e celebrar o legado extraordinário de Arthur Moreira Lima, um dos maiores brasileiros de todos os tempos, publicaremos a integral da coleção Meu Piano/Três Séculos de Música para Piano – seu testamento musical – de 16 de julho, seu 85° aniversário, até 30 de outubro de 2025, primeiro aniversário de seu falecimento. Esta é a nona das onze partes de nossa eulogia ao gigante.
Arthurzinho das massas estava em todas nos anos 80.
O embrião de tal onipresença foi sua participação no Circuito Universitário, iniciativa que desde o começo da década anterior levava grandes nomes da MPB para campi, teatros, ginásios e quaisquer outros espaços em que eles coubessem. Sempre destemido, Arthur foi o primeiro músico de concerto a embarcar numa turnê do Circuito – e, convenhamos, o único capaz de aceitar um convite desses. Partiu de São Paulo, onde então morava, e prosseguiu de Kombi para Campinas e outras dez cidades do interior do estado. A experiência foi-lhe como um Caminho de Damasco: habitué de tantas paragens mundo afora, conhecedor de cada parada ao longo da Trans-Siberiana, Arthur enfim começava a descobrir seu país e a acolhida que as massas nos ginásios davam àquele pianista de raríssima figura, com cabeleira roqueira, calças de brim e a inseparável jaqueta de couro de alce.
Ó lá ela, a guerreira.
Não que tenha deixado a casaca de lado, como atesta, entre outros, o projeto Bach-Chopin que realizou com João Carlos Martins. Tampouco deixou de ter preocupações fonográficas: farto da miríade de percalços para que seus discos fossem distribuídos pelas gravadoras e decidido decerto a cultivar mais uma úlcera, fundou o selo L’Art, tendo como sócio Lauro Henrique Alves Pinto, um dos “Filhos da Pauta”. Inda assim, preferia os mocassins e os pés na estrada. Xodó das multidões, para as quais era quase sinônimo de piano brasileiro, desfrutava uma liberdade incomum de escolher onde, como e com quem aparecer: mais que arroz de festa, o rei do rolê aleatório.
Até no gibi.
Se não, vejamos: depois de quase tocar com Elomar no formigueiro humano de Serra Pelada – com direito a transporte em avião da FAB, piano incluso -, acabou na não menor muvuca do Festival de Águas Claras, o “Woodstock” brasileiro, onde dividiu palco com Luiz Gonzaga (“esse cabra é tão bom que toca até Luiz Gonzaga”, foi o veredito do próprio) numa noite encerrada por João Gilberto. Às línguas de trapo que o acusavam de buscar as massas por estar em decadência técnica, respondia dando um tempo às turbas para, numa visita à Polônia, tocar (e gravar) Rachmaninoff desse jeito:
Sossegou? Claro que não: deixou São Paulo e mudou-se para o Rio, o qual voltou a chamar de morada depois de vinte anos. Foi fagocitado quase que de imediato pela boemia e requisitado em cada cantina, restaurante ou boteco onde, entre biritas, se cultivasse a boa prosa. Na confraria conhecida como “Clube do Rio”, aproximou-se de Millôr Fernandes, que prontamente reconheceu o potencial da avis rara e lhe escreveu um show, que também dirigiu – e assim, não mais que de repente, nascia “De Repente”.
Alternando textos de Millôr com bitacos de Arthur e grande música dos dois lados do muro da infâmia entre o dito “erudito” do assim chamado “popular”, o show foi um triunfo. Não demoraria para que o showman chegasse às telinhas, a convite de Adolpho Bloch, fundador da Rede Manchete. Conhecera-o em Moscou, nos seus tempos de Conservatório, mas estreitaram o convívio no Rio, frequentando o mesmo barbeiro, praticando o idioma russo e divertindo-se a falar, sem que ninguém mais compreendesse, bandalheiras impublicáveis. Conquistado por aquele tipo maravilhoso que parecia pronto para TV, Bloch ofereceu-lhe carta branca para criar um programa semanal. Arthur pediu alto e levou: recebeu duas orquestras, dirigidas por Paulo Moura, que também lhe fazia os arranjos, e a crème de la crème da música brasileira no rol de convidados. Nascia Um Toque de Classe, carregado daqueles momentos que, ao imaginá-los na TV aberta, fazem-me questionar em que sentido, enfim, roda a fita da civilização:
Arthur, que nunca foi muito afeito ao canto, ficou especialmente impressionado com a voz de Ney Matogrosso, que buscava novos rumos para sua carreira depois do frisson que causou com suas performances no extinto conjunto Secos & Molhados:
Ney, inacreditavelmente, ainda não se convencera de que era cantor. Arthur sugeriu que deixasse de lado a maquiagem e figurinos estrambólicos que até então tinham marcado sua carreira e que, de cara lavada, apostasse em sua rara voz. Não demorou até que o belíssimo contralto de Ney, tratado como afinado instrumento, estivesse a dividir o palco com outros quatro virtuoses.
Assim, na luxuosa companhia de Arthur, Paulo Moura (saxofone), Chacal (percussão) e Raphael Rabello (violão de sete cordas), Ney inaugurou uma nova fase em sua carreira com o show O Pescador de Pérolas. De lambujem, aproximou-se de Rabello, há já muitos anos um dos maiores violonistas do mundo, com quem mais adiante gravaria À Flor da Pele, que, em minha desimportante opinião, é um dos álbuns mais sensacionais que Pindorama deu ao mundo. O Pescador de Pérolas também virou disco, ainda que se lamente que o som do piano de Arthur, aparentemente, tenha sido captado do fundo duma lata de azeite:
Lambuzado de mel pelas massas e com saudades, talvez, de ferroadas, Arthur resolveu atirar-se no vespeiro: instigado por seu guru Darcy Ribeiro, aceitou a nomeação para alguns cargos públicos no Governo do Rio. Sob sua direção, o Theatro Municipal e a Sala Cecília Meireles receberam em seus palcos muita gente que seus habitués não deixariam nem entrar pela porta dos fundos, como a Velha Guarda da Portela. Divertindo-se com o previsível reproche de quem via violados seus espaços exclusivos e sacrossantos. Arthur ligou aquele famoso botão e prosseguiu: tocou em favelas (uma imagem de “Rocinha in Concert”está no cabeçalho dessa postagem) e chamou a Orquestra de Câmara de Moscou para tocar com ele em teatros, ao ar livre e em presídios. Quem o chamava de decadente – nem sempre por méritos artísticos – acabava por ter que deglutir cenas como as do Projeto Aquarius, em que o suposto ex-pianista e a Sinfônica Brasileira tocavam para Fla-Flus de gente:
Sim, 200 mil
Para refrescar-se das saraivadas de tomates, o Rei do Rolê Aleatório foi harmonizar seu piano com uma das vozes mais distintas do Brasil, o barítono de Nelson Gonçalves. Com alguns milhares de canções no repertório, escolher o que iria para o álbum foi por si só uma empreitada. O mais difícil, com sobras, era a incompatibilidade de relógios biológicos: Nelson acordava na hora em que Arthur ia dormir. Ainda assim, com cantor no fuso horário de Bagdá e pianista no de Honolulu, a parceria deu liga e rendeu um dos melhores álbuns de suas imensas discografias, O Boêmio e o Pianista:
Miacabo com Arthur e sua cara de “acordei agora”
Durante a extensa turnê com Nelson por mais de trinta cidades brasileiras, Arthur encantou-se com a tranquilidade e o clima ameno de Florianópolis e resolveu, enfim, lançar nela sua âncora. Trouxe seus pianos para perto do mar e até deve ter contemplado a ideia de sossegar. O sucesso da coleção “Meu Piano”, que vendeu um milhão de CDs a preços módicos em bancas de revistas, mostrou-lhe que o público não queria seu sossego. Pelo contrário: ainda havia muito mais gente a conquistar, nos vastos horizontes brasileiros, a ser buscada em seus últimos recantos, mesmo nas grotas que nunca tinham visto um piano. Assim, o rei das harmonizações improváveis juntou um Steinway com uma caçamba de Scania e partiu, como orgulhoso Camelô da Música (o termo é dele), para a mais épica jornada jamais empreendida por um artista brasileiro.
ARTHUR MOREIRA LIMA – MEU PIANO/TRÊS SÉCULOS DE MÚSICA PARA PIANO Coleção publicada pela Editora Caras entre 1998-99, em 41 volumes Idealizada por Arthur Moreira Lima Direção artística de Arthur Moreira Lima e Rosana Martins Moreira Lima
Volume 24: CLÁSSICOS FAVORITOS V
Johann Sebastian BACH (1685-1750)
Do Pequeno Caderno para Anna Magdalena Bach:
Christian PETZOLD (1677–1733) 1 – No. 2: Minueto em Sol maior, BWV Anh. 114
Johann Sebastian BACH
2 – No. 20: Minueto em Ré menor, BWV Anh. 132
Anton DIABELLI (1781-1858)
Das Sonatinas para piano, Op. 168: 3 – Moderato cantabile
4 – Andantino
Ludwig van BEETHOVEN (1770-1827)
Das Duas Sonatinas para piano, WoO Anh. 5 5 – Sonatina em Sol maior
Robert Alexander SCHUMANN (1810-1856)
Do Álbum para Jovens, Op. 68 6 – O Camponês Alegre
7 – O Cavaleiro Selvagem
8 – Siciliana
9 – Um Pequeno Romance
10 – São Nicolau
Béla Viktor János BARTÓK (1881-1945)
Seis DançasPopulares Romenas, Sz. 56 11 – Do Bastão
12 -Do Lenço
13 – Sem Sair Do Lugar
14 – Da Trompa
15 – Polka Romena
16 – Finale: Presto
Heitor VILLA-LOBOS (1887-1959)
Do Guia Prático para Piano, Primeiro Álbum: ,17 – Acordei de Madrugada
18 -A Maré Encheu
19 – A Roseira
20 -Manquinha
21 – Na Corda Da Viola
[as obras de Villa-Lobos não estão disponíveis pelos motivos aqui listados]
Pyotr Ilyich TCHAIKOVSKY (1840-1893)
Das Doze Peças para piano, Op. 40: 22 – No. 2: Chanson triste
Enrique GRANADOS Campiña (1867-1916)
Das Doze Danças Espanholas: 23 – No. 5, “Andaluza”
Gravação: St. Philip’s Church, Londres, Reino Unido, 1998-99 Engenharia de som: Peter Nicholls Piano: Steinway & Sons, Hamburgo Produção, edição e masterização: Rosana Martins Moreira Lima, na Cia. de Áudio, São Paulo, 1999.
Antônio CARLOS GOMES (1836-1896) Transcrição de Nicolò Celega (1846-1906)
Da ópera Il Guarany: 1 – Protofonia
Carl Maria Friedrich Ernst von WEBER (1786-1826)
2 – Convite à Dança, Op. 65
Franz Peter SCHUBERT (1979-1828)
Dos Quatro Improvisos para piano, D. 899: 3 – No. 4 em Lá bemol maior
Jakob Ludwig Felix MENDELSSOHN Bartholdy (1809-1847)
4 – Rondo Capriccioso, Op. 14
Johannes BRAHMS (1833-1897)
Das Valsas para piano, Op. 39: 5 – No. 1 em Si maior
6 – No. 2 em Mi maior
7 – No. 3 em Sol sustenido menor
8 – No. 6 em Dó sustenido maior
9 – No. 15 em Lá bemol maior
George GERSHWIN (1898-1937)
10 – Rhapsody in Blue
Gravação: St. Philip’s Church, Londres, Reino Unido, 1999 Engenharia de som: Peter Nicholls Piano: Steinway & Sons, Hamburgo Produção, edição e masterização: Rosana Martins Moreira Lima, na Cia. de Áudio, São Paulo, 1999.
Volume 38: CLÁSSICOS FAVORITOS IX – TRANSCRIÇÕES CÉLEBRES
Ferenc LISZT (1811-1886)
Dos Doze Lieder de Franz Schubert, S. 558: 1 – No. 9: Ständchen
2 – Miserere du Trovatore de Giuseppe Verdi, S. 433
Do Wagner-Liszt Album:
3 – Isoldes Liebestod
4 – Liebeslied, S. 566 (baseada em Widmung, Op. 25 no. 1 de Robert Schumann)
De Années de Pèlerinage – Deuxième Année: Italie, S. 161:
5 – No. 5: Sonetto 104 del Petrarca
Johannes BRAHMS Transcrição de Percy Grainger (1882-1961)
Das Cinco Canções, Op. 49: 6 – No. 4: Wiegenlied
Aleksandr Porfirevich BORODIN (1833-1887) Transcrição de Felix Blumenfeld (1863-1931)
De Príncipe Igor, ópera em quatro atos: 7 – Dança Polovetsiana no. 17
George GERSHWIN Transcrição de Percy Grainger
8 – The Man I Love
Oscar Lorenzo FERNÁNDEZ (1897-1948) Transcrição de João de Souza Lima (1898-1982)
Da Suíte Reisado do Pastoreio: 9 – No. 3: Batuque
Arthur Moreira Lima, piano
Gravação: All Saints Church, Tooting, Londres, Reino Unido, 1999 Engenharia de som: Peter Nicholls Piano: Steinway & Sons, Hamburgo Produção, edição e masterização: Rosana Martins Moreira Lima, na Cia. de Áudio, São Paulo, 1999
Manuel de FALLA y Matheu (1876-1946) Transcrição do compositor
Do balé El Sombrero de Tres Picos: 12 – Danza del Molinero
Gabriel Urbain FAURÉ (1845-1924) Transcrição de Percy Grainger
Das Três Melodias, Op. 7:
13 – No. 1: Après un Rêve
Ludomir RÓŻYCKI (1883-1953) Transcrição de Grigory Ginzburg (1904-1961)
14 – Valsa da Opereta Casanova
Antônio CARLOS GOMES
15 – Quem Sabe?
Arthur Moreira Lima, piano
Gravação: All Saints Church, Tooting, e Rosslyn Hill Chapel, Londres, Reino Unido, 1999 Engenharia de som: Peter Nicholls Piano: Steinway & Sons, Hamburgo Produção, edição e masterização: Rosana Martins Moreira Lima, na Cia. de Áudio, São Paulo, 1999
“9ª parte da entrevista do pianista Arthur Moreira Lima a Alexandre Dias, em que ele abordou os seguintes tópicos, sobre sua carreira na década de 1990: concertos que tocou no morro da Mangueira e na Rocinha; período em que foi diretor da Sala Cecília Meireles; período em que foi subsecretário de cultura do estado do RJ, encarregado do interior; sua colaboração com o cantor Nelson Gonçalves; o recital que realizou juntamente com Ana Botafogo; seu disco dedicado ao compositor Brasílio Itiberê; a grande coleção de 41 CDs “Meu piano”, lançada pela Caras em 1998; a caixa de 6 CDs “MPB – Piano collection”, dedicada a Dorival Caymmi, Chico Buarque, Tom Jobim, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Roberto Carlos; disco dedicado a Astor Piazzolla, com arranjos de Laércio de Freitas”
Em homenagem a Fluminense Moreira Lima, seguimos com o álbum de figurinhas dos campeões da Copa Rio de 1952. Eis o ponta-esquerda Joaquim Albino, o Quincas (1931-2000).
Entre 1899 e 1903, Béla Bartók estudou na Real Academia de Música de Budapeste. Mas o principal aprendizado foi de 1908 a 1914 quando se dedicou a estudar e coletar melodias folclóricas húngaras, romenas e de vários outros povos da Europa do leste. A outra grande influência de Bartók, especialmente para sua música orquestral, foi Claude Debussy: menos no que se refere à busca por sonoridades únicas (mas também um pouco nisso) e sobretudo pela quebra que Debussy faz na narratividade musical da música romântica. O tipo de desenrolar não linear de cenas como no Fauno, em La Mer e nos Noturnos, que buscam evitar os desenvolvimentos grandiosos rumos aos céus tão típicos da música austro-germânica (Beethoven, Wagner, Bruckner, Mahler, Strauss). Isso tudo foi absorvido tanto por Bartók como por Stravinsky, lembrando aliás que estes dois nasceram a um ano de distância. Então há diversos momentos no Mandarim de Bartók em que as viradas e paradinhas orquestrais nos fazem crer que estamos ouvindo algo de Debussy ou de Stravinsky.
Nesta gravação, com o compositor Bruno Maderna regendo a orquestra de Mônaco, não temos tutti orquestrais tão impactantes quanto os de Boulez/Chicago (aqui), Rattle/Birmingham (aqui) ou Salonen/Los Angeles (aqui), o destaque aqui fica com os vários momentos solos dos sopros: oboé, fagote… Além das percussões e outros detalhes da composição do jovem Bartók que, aliás, gerou um pequeno escândalo na época pela temátca escandalosa que envolvia prostituição e crimes.
Na Sonata para Dois Pianos e Percussão, o estilo é mais fortemente característico de Bartók. Composta em 1937 e estreada em 38 pelo compositor e sua esposa como pianistas – portanto, doze anos após a estreia do Mandarim que foi composto entre 1918 e 24 -, ela tem elementos já desenvolvidos em obras como Out of doors (1926, aqui) e os Concertos para Piano nº 1 e 2 (1926 e 1931, aqui), como os momentos percussivos dos pianos e o uso de clusters (várias notas próximas tocadas ao mesmo tempo). A pianista Geneviève Joy era uma especialista na música do século XX: basta dizer que ela estreou a belíssima sonata para piano de Henri Dutilleux.
Béla Bartók (1881-1945):
1. O Mandarim Miraculoso
2-4. Sonata para dois pianos e percussão
5. Suíte de Danças (Maderna, Monte Carlo / Joy, Robin, Casadesus, Drouet)
Orchestre National de l’Opéra de Monte-Carlo, Bruno Maderna (faixas 1, 5)
Pianos: Geneviève Joy, Jacqueline Robin (faixas 3-5)
Percussão: Jean-Claude Casadesus, Jean-Pierre Drouet (faixas 3-5)
Sim, esse disco tem que ir para o pódio. A Sonata para Piano, a Sonatina e principalmente a Sonata para Dois Pianos e Percussão são peças que não podem ser deixadas de lado. E a interpretação a cargo ou chefiada por Tiberghien, se tornará certamente referência. A Sonata para Dois Pianos e Percussão recebeu, desde a estreia, em 1938, críticas entusiasmadas. Bartók e sua esposa também tocaram as partes do piano para a estreia americana que aconteceu em Nova York em 1940. Desde então, tornou-se uma das obras mais reverenciadas de Bartók. A partitura requer quatro artistas: dois pianistas e dois percussionistas, os quais que tocam sete instrumentos. Bartók deu instruções altamente detalhadas para os percussionistas, estipulando, por exemplo, qual parte de um prato suspenso deve ser atingido por que determinado tipo de baqueta. Deve ter dado certo pois… Que música, meus senhores!
PS: Links reativados para toda essa coleção de Bartók por Tiberghien. Os outros discos estão aqui e aqui.
Piano Sonata Sz80[14’12]
1 Allegro moderato[4’53]
2 Sostenuto e pesante[5’30]
3 Allegro molto[3’49]
Three Hungarian Folksongs from the Csík District Sz35a[3’47]
4 Rubato[1’42]
5 L’istesso tempo[1’14]
6 Poco vivo[0’51]
Sonatina Sz55[4’24]
7 Movement 1, Bagpipers: Molto moderato[1’37]
8 Movement 2, Bear Dance: Moderato[0’42]
9 Movement 3, Finale: Allegro vivace[2’05]
Three Rondos on Slovak folk tunes Sz84[9’09]
10 Andante – Allegro molto[3’03]
11 Vivacissimo[2’55]
12 Allegro molto[3’11]
Études Sz72 Op 18[8’40]
13 Allegro molto[2’29]
14 Andante sostenuto[3’41]
15 Rubato[2’30]
Sonata for two pianos and percussion Sz110[25’24] with François-Frédéric Guy (piano), Colin Currie (percussion), Sam Walton (percussion)
16 Assai lento – Allegro molto[12’32]
17 Lento, ma non troppo[6’23]
18 Allegro non troppo[6’29]
Um sensacional álbum triplo que reúne gravações dos anos 90 de música moderna por Anne-Sophie Mutter e diversas orquestras. Tudo é um primor, a começar pelo Concerto neoclássico de Stravinsky. Aliás, cada um dos CDs inicia com uma obra-prima. Há o já citado Concerto de Strava, o belíssimo e insuperável Concerto Nº 2 para Violino e Orquestra de Bartók e o não menos de Berg. Este último tem a triste alcunha de “À Memória de um Anjo”. É que Berg recebeu a notícia da morte de Manon Gropius, filha do arquiteto Walter Gropius e de Alma Mahler. Manon faleceu aos 18 anos, vítima de poliomielite. Naquele momento, Berg estava finalizando o Concerto. Ele então transformou-se num tributo à memória da adolescente e também em um réquiem para si mesmo, que morreria logo depois de compô-lo. O restante tem menos história, mas não é de jogar fora, imagina! Destaque para obras de Lutoslawski, Moret e Rihm, compostas especialmente “Para Anne-Sophie Mutter”. Te mete com ela, rapaz! (Bem, adoraria que ela se metesse comigo).
Anne-Sophie Mutter Modern: Works by Stravinsky / Lutoslawski / Bartók / Moret / Berg / Rihm
Disc 1
Concerto en ré
Composed By – Igor Stravinsky
Conductor – Paul Sacher
Orchestra – Philharmonia Orchestra
1 1. Toccata 5:51
2 2. Aria I 4:09
3 3. Aria II 5:13
4 4. Capriccio 5:49
Partita (“For Anne Sophie Mutter”)
Composed By – Witold Lutoslawski
Piano – Phillip Moll
5 1. Allegro giusto 4:14
6 2. Ad libitum 1:12
7 3. Largo 6:22
8 4. Ad libitum 0:47
9 5. Presto 3:51
Chain 2 (“For Paul Sacher”)
Composed By – Witold Lutoslawski
Conductor – Witold Lutoslawski
Orchestra – BBC Symphony Orchestra
10 1. Ad libitum 3:48
11 2. A battuta 4:58
12 3. Ad libitum 4:58
13 4. A battuta – Ad libitum – A battuta 4:27
Disc 2
Violinkonzert Nr. 2
Composed By – Béla Bartók
Conductor – Seiji Ozawa
Orchestra – Boston Symphony Orchestra
1 1. Allegro non troppo 16:16
2 2. Andante tranquilo – Allegro scherzando – Tempo I 9:58
3 3. Allegro molto 12:13
En rêve (“pour Anne Sophie Mutter”)
Composed By – Norbert Moret
Conductor – Seiji Ozawa
Orchestra – Boston Symphony Orchestra
4 1. Lumière vaporeuse. Mystérieux et envoŭtant 7:13
5 2. Dialogue avec l’Etoile 5:44
6 3. Azur fascinant (Sérénade tessinoise). Exubérant, un air de fête
Disc 3
Violinkonzert (“To the memory of an angel”)
Composed By – Alban Berg
Conductor – James Levine
Orchestra – The Chicago Symphony Orchestra
1 I. Andante – Allegretto 11:31
2 II. Allegro – Adagio 16:12
“Gesungene Zeit” (“Time Chant”) – Dedicated To Anne-Sophie Mutter
Composed By – Wolfgang Rihm
Conductor – James Levine
Orchestra – The Chicago Symphony Orchestra
3 [Anfang / beginning / début / inizio] 14:27
4 [Takt / bar / mesure / battuta 179] 9:56
Assim como a obra de Beethoven, a de Bartók também tem suas fases, ainda que talvez não tão nitidamente demarcadas.
Entre 1899 e 1903 ele estudou na Real Academia de Música de Budapeste. Estudou piano com um aluno de Liszt e composição com um compositor e organista alemão, primo de Max Reger. Mas o grande período de aprendizado talvez tenha sido de 1908 a 1914 quando, junto com Kodaly, ele se dedicou a estudar e coletar melodias folclóricas húngaras, romenas e de vários outros povos da Europa do leste. Uma inovação tecnológica foi essencial: Bartók gravava essas melodias in loco, ao invés de usar papel e caneta, única tecnologia disponível para os compositores do século XIX.
E como muitos gênios, ele precisou negar em bloco o passado, no caso, ele dizia que o grande compositor das rapsódias húngaras usava temas vagamente ciganos e italianizados, de forma que pouca coisa das Rapsódias Húngaras seria realmente húngara: “Devo frisar que as rapsódias – especialmente as húngaras – são criações perfeitas no gênero. O material que Liszt nelas utiliza não poderia ser tratado com maior arte e beleza. Que o material em si não seja dos mais ricos é outro problema” (Bartók em artigo de 1936). Bartók também não poupou o mais famoso compositor polonês: “As Mazurkas de Chopin são prova de que ele não conhecia a autência música folclórica polonesa”. Entendo nessas citações um certo ar sarcástico do mochileiro que rodou por tantos cantos e não consegue mais admirar aqueles compositores estabelecidos que ficaram na ponte Paris-Viena tomando bons vinhos em salões burgueses.
Com a 1ª Guerra Mundial, as viagens ficaram mais difíceis e Bartók, que tinha o piano como seu 1º instrumento, compôs muita música em movimentos curtos, baseados em música folclórica, como as Quinze Canções Populares Húngaras, Sz. 71 (1914-18) ou os Três Rondós sobre temas eslovacos, Sz. 84 (1916-1927).
São obras desse período – década de 1910 e começo da de 20 – que András Schiff escolheu gravar neste álbum. A partir da década de 1926, Bartók integraria os temas populares em movimentos mais longos, com mais dissonâncias e clusters como na Sonata para Piano (1926) e nos Concertos para Piano e Orquestra nº 1 (1926) e 2 (1931).
Béla Bartók (1881-1945) – Obras para piano
1. Dance Suite, Hungarian Peasant Songs, Sz.77 16:46
2. Roumanian Folk Dances Sz.56 4:44
3. Three Rondos On Folk Tunes Sz. 84 7:45
4. 15 Hungarian Peasant Songs Sz.71 12:43
P.S. Postagem reativada e também reativei o link para as Danças Romenas (Sz. 56), as mesmas que Schiff gravou aqui, mas na versão para violino e piano.
Mais um outono para a Rainha, e desta feita ela nos presenteia com gravações novas – tão novas, claro, quanto podem ser as de alguém tão avessa aos estúdios e afeita a dividir a ribalta com jovens colegas e os parceiros de sempre. Estas que ora lhes apresento foram feitas algumas semanas depois do seu octagésimo aniversário, em junho de 2021, no festival que Martha vem consolidando em Hamburgo e no qual desfruta do privilégio de selecionar a pinça o tradicional petit comité que tem garantido muito de sua longeva alegria em pisar palcos.
No que tange a Sua Majestade, o melhor que ela nos oferece nesses volumes são a leitura da sonata Op. 30 no. 3 de Beethoven, com Renaud Capuçon – seu mais frequente e afiado parceiro ao arco, nos últimos anos -, um ebuliente Segundo Concerto de Ludwig, e o belíssimo Trio de Mendelssohn, ao lado de Mischa Maisky e da über-diva Anne-Sophie Mutter. A família Margulis – Jura, Alissa e Natalia – traz um azeitadíssimo Trio “Fantasma” e um mui tocante “Canto dos Pássaros”, joia folclórica catalã posta em pauta por Pau Casals. O variado cardápio também inclui as “Canções e Danças da Morte” de Mussorgsky, com o ótimo baixo Michael Volle, e uma Sonata para dois pianos e percussão de Bartók para a qual a Rainha, que tanto a tocou com nosso Nelson Freire, convidou seu outro Nelson favorito, o compatriota Goerner. O melhor retrogosto, entretanto, não foi o que veio de dedos hermanos, e sim das diminutas mãos de Maria João em Schubert – que maravilhosos, os dois improvisos! – e da última apresentação pública de Nicholas Angelich, um brahmsiano que sempre honrou o grande hamburguense e fez da Segunda Sonata para viola e piano seu canto de cisne.
ooOoo
Uma breve nota: a partir de hoje, mudarei a maneira de compartilhar música com os leitores-ouvintes. Cansei de ver a pedra rolar tantas vezes morro abaixo. Não farei mais comentários. Que venham os tomates.
Disco 1
Ludwig van BEETHOVEN (1770-1827)
Sete Variações para violoncelo e piano sobre “Bei Männern, welche Liebe fühlen”, da ópera “Die Zauberflöte” de Wolfgang Amadeus Mozart, WoO 46 1 – Thema. Andante
2 – Variation I
3 – Variation II
4 – Variation III
5 – Variation IV
6 – Variation V: Si prenda il tempo un poco più vivace
7 – Variation VI. Adagio
8 – Variation VII. Allegro ma non troppo
Mischa Maisky, violoncelo
Martha Argerich, piano
Das Três Sonatas para violino e piano, Op. 30:
Sonata no. 3 em Sol maior 9 – Allegro assai
10 – Tempo di Minuetto, ma molto moderato e grazioso
11 – Allegro vivace
Renaud Capuçon, violino
Martha Argerich, piano
Dos Dois Trios para piano, violino e violoncelo, Op. 70:
No. 1 em Ré maior, “Fantasma” 12 – Allegro vivace e con brio
13 – Largo assai ed espressivo
14 – Presto
Alissa Margulis, violino Natalia Margulis, violoncelo Jura Margulis, piano
Disco 2
Ludwig van BEETHOVEN
Concerto para piano e orquestra no. 2 em Si bemol maior, Op. 19
1 – Allegro con brio
2 – Adagio
3 – Rondo. Molto allegro
Martha Argerich, piano
Symphoniker Hamburg
Sylvain Cambreling, regência
Jakob Ludwig Felix MENDELSSOHN-Bartholdy (1809-1847)
Trio para piano, violino e violoncelo no. 1 em Ré menor, Op. 49
4 – Molto allegro agitato
5 – Andante con moto tranquillo
6 – Scherzo: Leggiero e vivace
7 – Finale: Allegro assai appassionato
Anne-Sophie Mutter, violino
Mischa Maisky, violoncelo
Martha Argerich, piano
Johannes BRAHMS (1833-1897)
Das Duas Sonatas para clarinete e piano, Op. 120 (transcritas para viola e piano pelo compositor):
Sonata no. 2 em Mi bemol maior 8 – Allegro amabile
9 – Allegro appassionato
10 – Andante con moto – Allegro – Più tranquillo
Gérard Caussé, viola
Nicholas Angelich, piano
Disco 3
Franz Peter SCHUBERT (1797-1828)
Dos Improvisos para piano, D. 935 (Op. Posth. 142): No. 2 em Lá bemol maior
1 – Allegretto
No. 3 em Si bemol maior, “Rosamunde” 2 – Andante
Sonata para piano em Lá maior, D. 664
3 – Allegro moderato
4 – Andante
5 – Allegro
Maria João Pires, piano
Wolfgang Amadeus MOZART (1756-1791)
Sonata para piano a quatro mãos em Dó maior, K. 521
6 – Allegro
7 – Andante
8 – Allegretto
Martha Argerich e Maria João Pires, piano
Disco 4
Pau CASALS i Defilló (1876-1973)
1 – El Cant dels Ocells, para violino, violoncelo e piano
Alissa Margulis, violino
Natalia Margulis, violoncelo
Jura Margulis, piano
Manuel de FALLA y Matheu (1876-1946)
Suite Popular Espanhola, para violino e piano
2 – El Paño Moruno
3 – Nana
4 – Canción
5 – Polo
6 – Asturiana
7 – Jota
Quinteto em Fá menor para dois violinos, viola, violoncelo e piano
8 – Molto moderato quasi lento – Allegro
9 – Lento, con molto sentimento
10 – Allegro non troppo ma con fuoco
Akiko Suwanai e Tedi Papavrami, violinos Lyda Chen, viola Alexander Kniazev, violoncelo Evgeni Bozhanov, piano
Disco 5
Astor Pantaleón PIAZZOLLA (1921-1992)
1 – Le Grand Tango
Gidon Kremer, violino Georgijs Osokins, piano
Leonard BERNSTEIN (1918-1990)
Danças Sinfônicas de West Side Story, para dois pianos
2 – Prologue
3 – Somewhere
4 – Scherzo
5 – Mambo
6 – Cha-cha
7 – Meeting Scen
8 – Cool Fugue
9 – Rumble Track
10 – Finale
Faço aqui a minha primeira postagem e começarei inclemente. Simplesmente, derrubando a porta. O primeiro post é em homenagem ao PQP que muito aprecia Bartók e, sobretudo, Yevgeny Mravinsky. Nas duas últimas semanas, eu escutei, com certa prioridade, peças de Bela Bartók. É como é bom descobri-lo. Bartók é instigante. A princípio amedronta. Com certa gradação e paciência, por fim, conseguimos chegar àquele momento em que ele se torna necessário. Essa é a lógica para aqueles que querem se aventurar no seu mundo. Hoje à tarde ao ouvir este CD, que me falta adjetivos para caracterizá-lo, eu fui imediatamente forçado, coagido, a postá-lo. Reúne um time extraordinário — Debussy, Bartók e Stravinsky e sedimentando, conectando tudo isso, Yevgeny Mravinsky. A “Música para cordas, percussão e celesta” de Bartók é uma das coisas mais fabulosas e assustadoras que já ouvir na minha vida. Não há como não se render ao gênio de Bartók. Mravinsky conduz com a autoridade, ao meu modo de ver, de maior regente do século XX este indescritível CD. Há CDs que direcionamos uma atenção demasiada e esse é um que se encaixa nesse quesito. Não hesite em ouvir. Boa contemplação espantada!
Claude Debussy (1862-1918): Prélude à l’après-midi d’un Faune / Béla Bartók (1881-1945): Música para Cordas, Percussão e Celesta / Igor Stravinsky (1882-1971): Agon (Mravinsky)
Claude Debussy (1862-1918) – Prelude a l’ ‘Apres-midi d’un faune’
01. Prelude a l’ ‘Apres-midi d’un faun’
Béla Bartok (1881-1945) – Music for string instruments, percussion and celesta, Sz. 106
02. I. Andante tranquillo
03. II. Allegro
04. III. Adagio
05. IV. Allegro molto
Igor Stravinsky (1882-1971) – Agon, ballet for twelve dancers
06. Pas de Quatre
07. Double Pas de Quatre (8 female dancers)
08. Triple Pas de Quatre (8 female dancers and 4 male dancers)
09. Prelude
10. Saraband-step (male dance solo)
11. Gaillliarde (2 female dancers)
12. Coda (1 male and 2 female dancers)
13. Interlude
14. Bransle simple (2 male dancers)
15. Bransle Gay (1 female dancer)
16. Bransle Double (2 male and 1female dancers)
17. Interlude
18. Pas de deux (male dancer and female dancer)
19. Coda
20. Four duos (male and female dancers)
21. Four trios (male and 2 female dancers)
22. Coda (all the dancers)
Recorded live at concerts in Great Hall of Moscow Philharmonics, February, 1965 (1-5), in Great Hall of Leningrad Philharmonics, October 30th, 1968, (6-22)
Um excelente CD realizado por especialistas no gênero. O violinista Levon Ambartsumian e o pianista Anatoly Sheludyakov se unem aqui para apresentar obras de dois dos maiores compositores da Europa oriental. A fase neoclássica de Igor Stravinsky, que se estendeu aproximadamente de 1920 a 1954, é marcada por um retorno deliberado às formas e estilos da música clássica e barroca, embora reinterpretados sob uma perspectiva modernista. Durante esse período, Stravinsky buscou inspiração em compositores como Bach, Mozart e Haydn, com uma abordagem que combinava estruturas tradicionais com sua linguagem harmônica e rítmica. Tanto a Suite italienne quanto o Divertimento são arranjos de partituras de balé, cada obra por sua vez uma transformação alquímica dos estilos barroco e romântico dentro do idioma distinto de Stravinsky. O enigmático, mas expressivo Duo Concertant foi a única obra original de Stravinsky nessa forma. A Rapsódia Nº 1, é a primeira de duas obras virtuosas para violino e piano, escritas por Béla Bartók em 1928 e posteriormente arranjadas em 1929 para violino e orquestra, bem como para violoncelo e piano. É dedicada ao violinista virtuoso húngaro Joseph Szigeti. A mesmíssima história ocorreu com a Rapsódia Nº 2, que é dedicada ao violinista Zoltán Székely.
Stravinsky: Suite italienne, Duo concertant, & Divertimento / Bartók: Rhapsodies Nos. 1 & 2 (Ambartsumian, Sheludyakov)
Stravinsky: Suite italienne
I. Introduzione. Allegro moderato 2:21
II. Serenata. Larghetto 2:57
III. Tarantella. Vivace 2:12
IV. Gavotte con 2 variazioni 4:10
V. Minuetto 1:39
VI. Finale 2:11
Stravinsky: Duo concertant
I. Cantilene 4:00
II. Eglogue I 2:18
III. Eglogue II 3:29
IV. Gigue 3:53
V. Dithyrambe 2:56
Stravinsky: Divertimento
I. Ouverture 6:12
II. Danses suisses. Tempo giusto 4:12
III. Scherzo 2:52
IV. Pas de deux 6:37
Bartók: Rhapsody for Violin & Piano No. 1, BB 94a, Sz. 86
I. Lassú. Moderato 4:37
II. Friss. Allegretto moderato 5:32
Bartók: Rhapsody for Violin & Orchestra No. 2, BB 96b, Sz. 90
I. Lassú. Moderato 4:20
II. Friss. Allegro moderato 6:55
A capa parece de comédia norte-americana. Um homem entre duas loiras. Seria melhor que ficassem juntos para sempre; afinal, tocam bem. Mas não sei se a cara deles revela alguma possível permissividade. Esqueçam. Este é um CD EXCELENTE que vale pelos Contrastes de Bartók e pelo sensacional Trio de Khachaturian. A redução da História do Soldado é boa, mas a versão original goleia. Contrastes — que é dedicada originalmente a Benny Goodman — é tão pouco tocada e Bartók é um compositor tão perfeito que a gente fica feliz de poder ouvir e reouvir a peça. O Trio de Khachaturian é maravilhosamente bem escrito, uma obra-prima mesmo. Cada um toca uma coisa diferente e sempre dá certo. E o Ensemble Incanto encanta… (peço desculpas pelo trocadalho do carilho). Falando sério, o conjunto é excelente, tem senso de estilo e apenas valoriza este excelente repertório.
Milhaud / Bartók / Stravinsky / Khachaturian: Trios para Clarinete, Violino e Piano
Darius Milhaud (1892-1974) – Suite
01. Ouverture – Vif et gai
02. Divertissement – Animé
03. Jeu – Vif
04. Introduction et Final
Igor Stravinsky (1882-1971) – L’Histoire du Soldat, Suite
08. Marche du Soldat
09. Le violon du Soldat
10. Petit concert
11. Tango – Valse – Rag
12. Danse du Diable
Muitas músicas me emocionam, mas estas Sonatas de Bartók me atingem especialmente. Elas me falam de muita tristeza, de um mundo como o nosso e o dele, ou seja, uma total desgraça. Penso que a dupla Bieler e Tichman enfatize os aspectos líricos das obras, mas ainda deixam-nas com muitos espinhos e ferocidade. Não é o CD ideal para fornecer uma entrada a novos ouvintes da obra de Bartók. São obras-primas de tremendo impacto e dificuldade. Jamais vou esquecer de uma vez em que as duas Sonatas foram apresentadas em Porto Alegre em excelente interpretação de Marcello Guerchfeld e Cristina Capparelli. Ao final, olhei para o lado e tinha dois chorando. Pois é, eles entenderam. As duas sonatas datam do início dos anos 20, quando o estilo de Bartók estava no seu auge de sua complexidade. Elas não são fáceis de ouvir, mas como os esforços e a concentração são recompensados! Certamente estão entre as maiores sonatas para violino já escritas. Ambas as obras são altamente dissonantes, poderosas e até agressivas, mas, além disso, são bem diversas em caráter. A primeira está em uma forma tradicional de três movimentos, com um primeiro movimento feroz e cintilante, um segundo movimento lírico e um terceiro bárbaro. A segunda é bem compacta e densa, com duas seções distintas, a primeira lenta e a segunda mais rápida.
Pois é, senhores, volto com os quartetos de Bartók. Sei que todos aqui conhecem bem esses quartetos e falar deles é como falar dos seis últimos quartetos de Beethoven, ou seja, não preciso falar nada. São obras clássicas que devem estar na discoteca de todos. Por isso o principal motivo de trazê-los aqui é apenas pela gravação histórica e raríssima do Julliard String Quartet. Existem três gravações da integral feita pelo grupo, a clássica gravação de 1950 (se não me engano, a primeira integral dos quartetos) e que continua sendo a preferida pra muita gente, a desastrosa gravação dos anos 80 (os caras precisavam de vitamina) e essa de 1963 que trago pra vocês.
Não sou daqueles ouvintes que perde muito tempo discutindo qual a melhor gravação. E no caso dos quartetos de Bartók, você está muito bem servido se tiver a integral com os Emerson (colocada logo no início do blog pelo PQPBach), ou com o excelente Tokyo String Quartet, como também a quase insuperável gravação com Takács (aliás, vi, ao vivo, esses caras tocando o quarteto n.2 e não tem nada melhor que aquilo). No entanto, ainda imaginando que o caso Bartók já tava fechado, dei de cara com uma gravação que muitos diziam estar perdida. É a primeira impressão feita em cd pela Sony da quase mitológica gravação dos Julliard nos anos 60. Comprei na hora (a capa aqui está diferente do meu disco, mas é esse aí).
Não foi surpresa perceber que tinha adquirido o melhor registro dos quartetos de Bartók. Rude, sombrio e preciso. Ouçam o quarteto n.4 (o último movimento avassalador) pra entenderem o que falo. E o n.3 é um exemplo de precisão. O pouco valorizado quarteto n.6 aqui ganha sua melhor defesa, é sombrio e magistral até não poder mais.
Enfim, senhores, este post foi uma homenagem a esta rara (espero que não mais) e fascinante gravação dessas obras clássicas.
Béla Bartók (1881-1945) – Os 6 Quartetos de Cordas (Juilliard)
Disco 1
1. String Quartet No.1, Sz. 40 (Op.7) – Lento
2. Allegretto
3. Introduzione. Allegro – Allegro vivace
4. String Quartet No.2, Sz. 67 (Op.17) – Moderato
5. Allegro molto capriccioso
6. Lento
7. String Quartet No.3, Sz. 85 – Moderato
8. Allegro
9. Ricapitulazione della prima parte. Moderato
10. Coda.Allegro molto
Disco 2
1. String Quartet No.4, Sz. 91 – Allegro
2. Prestissimo, con sordino
3. Non troppo lento
4. Allegretto pizzicato
5. Allegro molto
6. String Quartet No.5, Sz. 102 – Allegro
7. Adagio molto
8. Scherzo. Alla bulgarese
9. Andante
10. Finale
11. String Quartet No.6, Sz. 114 – 1. Mesto – Vivace
12. Mesto – Marcia
13. Mesto – Burletta (Moderato)
14. Mesto
O grande Dr. Cravinhos nos envia este CD de Músicas para Crianças do genial Béla Bartók. Ficamos muito gratos. Não é todo dia que recebemos um presente desses. E ele ainda nos manda texto sobre a música, etc. Como acredito que quase todo mundo aqui lê inglês, copio aqui o texto que foi enviado a nós:
Bartók for Children, written in 1908 & 1909 and originally including 85 pieces based on Hungarian & Slovakian folk tunes, was first published in four volumes. Some of the pieces were revised by the composer in the 1930’s and he made a complete revision of the whole work in 1943, writing thirteen new pieces and reducing to total number to 79, to be published postumously in 1947 in two volumes although Bartók had been able to correct the proposed new edition in 1944. The pieces are described as little pieces for beginners, without stretches of an octave. They are a direct reflection of Bartók’s interest in folk music. The melodies, in various modes, are never forced into the traditional strait-jacket of academic harmony but set off by simple accompaniments that preserve their original character. For Children, as with Mikrokosmos and his forty-four Violin Duets, they offer a much wider view of music than was once and perhaps is still usual in teaching material confined entirely to the major and minor scales and harmonies of common practice.
Quando me perguntam de quais compositores eu mais gosto, sempre respondo:
– Gosto de uns duzentos.
Porém, um dia, sonhei que me amarraram numa árvore e um implacável algoz me açoitou até que eu dissesse o nome de meus três preferidos.
– Bach, Brahms e Bartók. Mas prefiro morrer a ficar sem os últimos quartetos e sonatas de Beethoven…
E o chicote voltou a explodir sobre minhas costas.
– Diga um que não comece pela letra “B”, seu imbecil!
– Um quarto?
– O quarto você já disse, animal. Ou não ouvi o nome de Beethoven? — e mais uma terrível chicotada. Pobre de mim.
– Está bem. Escolho Shostakovich ou Mahler.
Meu algoz deu a volta na árvore, olhou bem dentro de meus olhos e questionou asperamente:
– Por que não disseste Mozart? E por que haveria dois socialistas na tua lista?
– Não sei. Talvez porque Mozart em excesso me cause enjôo.
– Enjoo???
Neste momento meu algoz caiu desfalecido, vítima de um mal súbito, e eu acordei. Ele era um homem sensível.
Meu sonho serve para que nossos quatorze leitores saibam o respeito que este bastardo bachiano guarda pelo húngaro Bartók e o motivo de sua pressa nessa repostagem. (Pois o antigo link foi para o espaço.)
Não lembro de gravação melhor do que esta para o Concerto para Orquestra. É uma coisa de louco, maravilhosa mesmo.
Béla Bartók (1881-1945): Cantata Profana / Concerto para Orquestra (Réti, Faragó, Ferencsik)
1. Cantata Profana, BB 100, “A kilenc csodaszarvas” (The 9 Enchanted Stags) (19min35)
Jozsef Reti, tenor
Andras Farago, baritone
Janos Ferencsik, conductor
Coro: Budapest Chorus
Budapest Symphony Orchestra
Concerto para Orquestra, BB 123
2. I. Introduzione (9min53)
3. II. Giuoco delle coppie (6min33)
4. III. Elegia (7min02)
5. IV. Intermezzo interrotto (3min49)
6. V. Finale (9min36)
Janos Ferencsik, Conductor
Hungarian State Orchestra
O ballet-pantomima O Mandarim Miraculoso narra uma curiosa história. Sons precipitados e tumultuados de rua apresentam três vagabundos que coagindo uma jovem mulher a fazer o papel de prostituta a fim de atrair homens a seu quarto para que eles pudessem roubá-los. (O chamado sedutor é soado três vezes pelo clarinete.) Primeiro, a jovem atrai a atenção de um senhor de idade. Mas seu interesse por ela é subitamente interrompido quando os três cúmplices o escorraçam porque ele não tem dinheiro. O chamado sedutor soa de novo, desta vez alcançando um jovem tímido. A jovem se sente atraída por ele e os dois dançam. Mas quando descobrem que ele também tem pouco dinheiro, é igualmente posto para fora.
O terceiro chamado traz à cena o macabro Mandarim. Os olhos traem-lhe os desejos. A jovem começa a dançar para ele- uma valsa que lentamente começa a se delinear – excitando-o ainda mais. No clímax da dança ela se lança a seus joelhos. Apaixonadamente, ele a abraça. A jovem, aterrorizada, foge dele quando um forte toque de trombone anuncia frenética perseguição em ostinado. O Mandarim a persegue e, quando alcança a mulher, os três delinquentes saltam de seu esconderijo e tentam asfixiá-lo sob uma pilha de almofadas. Mas o mandarim consegue se reerguer e com os olhos fixos ainda mais apaixonadamente sobre a jovem. Os homens o atravessam com uma espada enferrujada, mas o Mandarim não sangra. Enforcam-no num candelabra mas ele não morre. Finalmente, sua cabeça é decepada e a jovem, chorando toma-o nos braços. Só então começam a ferir as feridas do Mandarim e ele consegue morrer.
O Concerto para Orquestra não tem programa e faz parte da triste história da emigração de Bartók para os EUA. Não vou falar da luta contra a pobreza nem da falta de saúde. Vamos tentar falar da parte boa: apesar dos temores quanto ao futuro, da leucemia que acabaria por matá-lo e de suas preocupações com a humanidade, ele contava com amigos influentes. Benny Goodman encomendara Contrastes e, com outros amigos, aconselhara Koussevitsky a encomendar o Concerto para Orquestra. A encomenda tinha que ser feita com discrição para evitar qualquer sugestão de caridade que feriria o orgulho de Bartók. Mesmo assim, Koussevitsky teve dificuldade em persuadir o compositor enfermo a aceitar um adiantamento. O húngaro, um socialista cujo molde perdeu-se, não tinha mesmo o traquejo social de Stravinsky, cujo indiscutível talento como compositor aliava-se notável desejo de tornar-se um socialite, coisa que conseguiu ao final da vida. Anyway…
O Concerto para Orquestra não demonstra grande tristeza. É uma obra onde a orquestra literalmente ri no quarto movimento e há a brincadeira do segundo movimento com os instrumentos entrando em duplas – Gioco delle copie. Se o terceiro movimento é uma “Canção da Morte”, o quarto é alegre e o quinto é uma belíssima afirmação de vida.
A gravação de Simon Rattle com a CBSO é uma comprovação de que ele só foi para Berlim por cargo, salário e visibilidade. Não o critico por isso, mas vejam como era fantástica sua orquestra em Birmingham!
Béla Bartók (1881-1945): O Mandarim Miraculoso e Concerto para Orquestra (Rattle)
O Mandarim Miraculoso
1 The Miraculous Mandarin, Op 19 (Sz 73): The Beginning, the Curtain Rises 3:11
2 The Miraculous Mandarin, Op 19 (Sz 73): First Seduction Game 3:44
3 The Miraculous Mandarin, Op 19 (Sz 73): Second Seduction Game 3:16
4 The Miraculous Mandarin, Op 19 (Sz 73): Third Seduction Game, the Mandarin Enters 4:14
5 The Miraculous Mandarin, Op 19 (Sz 73): Dance of the Girl 4:18
6 The Miraculous Mandarin, Op 19 (Sz 73): The Chase, the Tramps Leap Out 4:26
7 The Miraculous Mandarin, Op 19 (Sz 73): Suddenly the Mandarin’s Head Appears, They Drag the Mandarin to the Centre of the Floor 6:25
8 The Miraculous Mandarin, Op 19 (Sz 73): The Mandarin Falls to the Floor 2:11
Concerto para Orquestra
9 Concerto for Orchestra (Sz 116): Introduzione (Andante non troppo – Allegro vivace) 10:15
10 Concerto for Orchestra (Sz 116): Giuoco delle coppie (Allegretto scherzando) 6:38
11 Concerto for Orchestra (Sz 116): Elegia (Andante non troppo) 7:23
12 Concerto for Orchestra (Sz 116): Intermezzo interrotto (Allegretto) 4:27
13 Concerto for Orchestra (Sz 116): Finale (Pesante – Presto) 9:52
City of Birmingham Symphony Orchestra
Simon Rattle
O que você faz naquele momento de grande atribulação? Como lidar com os dias nos quais seu coração se enche de dúvidas e angústias? Como beber daquele amargo copo? Hoje, eu danço…
Esse disco do pianista italiano Alessio Bax, radicado em Nova Iorque, oferece música que foi inspirada em danças. Dançar é uma das manifestações artísticas mais primitivas e definitivamente afeta a todos, mesmo aos mais desajeitados. Eu parafraseio o adágio antigo dizendo: quem dança, seus males espantam!
O disco começa com Suíte Inglesa No. 2 de Bach, que é uma sequência de danças: allemanda, courante, sarabanda, bourrées e gigue, precedidas por um dançante prelúdio. Um salto no tempo e no estilo nos leva à outra suíte de danças, agora composta por Bartók. O contraste não poderia ser mais forte. A modernidade da suíte de Bartók se deve muito à inspiração folclórica, de natureza mais primitiva do que as danças cortesãs de Bach.
Em seguida o mistério e a sensualidade das danças espanholas estão presentes em peças mais curtas, mas absolutamente características. Manuel de Falla e Isaac Albeniz são os culpados desses pequenos pecados em forma de música para dançar.
Valsas não poderiam faltar e Liszt, assim como o elegantíssimo Ravel proveem essa demanda. E para fechar o recital, duas pequenas e virtuosísticas peças: uma transcrição para piano de uma gavota de Bach, feita por Rachmaninov, e uma dança húngara, de Brahms, num arranjo de outro grande virtuose do piano, György Cziffra.
Você não precisa sair rodopiando ao ouvir o disco, mas se você nem batucar os dedos ou mexer com os pés, precisa rápida terapia de dança…
Johann Sebastian Bach (1685 – 1750)
English Suite No. 2 in A minor, BWV807
Prélude
Allemande
Courante
Sarabande
Bourrée I – VI. Bourrée II
Gigue
Belá Bartók (1881-1945)
Tanz-Suite, Sz. 77, BB 86b (Version for Piano)
Moderato
Allegro molto
Allegro vivace
Molto tranquillo
Comodo
Finale. Allegro
Manuel de Falla (1876-1946)
El sombrero de tres picos: Danza del molinero (Farruca)
[Version for Piano, with introduction transcribed by Alessio Bax]
Danza
Isaac Albéniz (1860–1909)
Tango (No. 2 from Espana, Op. 165)
Danza
Manuel de Falla
El amor brujo: Danza ritual del fuego, para ahuyentar los malos espíritus
Danza
Franz Liszt (1811-1886)
Valses oubliées, S. 215: No. 1
Valse
Maurice Ravel (1875–1937)
La Valse
Valse
Johann Sebastian Bach
Violin Partita No. 3 in E Major, BWV 1006 [Arr. Rachmaninov]
Gavotte en rondeau
Johannes Brahms (1833–1897)
Hungarian Dance No. 6 in D flat major [Arr. György Cziffra]
His ninth solo album on Signum Records, Alessio Bax combines exceptional lyricism and insight with consummate technique and is without a doubt “among the most remarkable young pianists now before the public” (Gramophone). Here he presents an album of works for dancing, including tangos and waltzes spanning three centuries. — [Página da gravadora]
How does Bax achieve such a powerful crescendo at the Bartók Dance Suite’s outset without the least banging …As for Falla’s Ritual Fire Dance, you rarely hear the music soar from the ground up, where booming bass lines ignite genuine right-hand fireworks: a wonderful performance. — [Gramophone Magazine, October 2024]
FDP Bach resolveu voltar ao século XX em suas próximas postagens. Teremos Bártok, Prokofiev, Stravinsky e talvez Strauss no pacote. Vamos começar com Bela Bártok. FDP tem um carinho especial para com esta coleção da integral das obras para piano e orquestra do genial pianista, compositor e pesquisador húngaro. Não sabe o por quê… Zoltan Kocsys é um intérprete que captura muito bem o espírito da obra, talvez pelo fato de também ser húngaro, e a direção de Ivan Fischer é sempre correta e segura. Enfim, uma gravação de excelência.
Béla Bartók (1881-1945): The Works for Piano & Orchestra (Kocsis, Fischer)
Piano Concerto No. 1
1-1 Allegro Moderato 8:40
1-2 Andante 6:47
1-3 Allegro Molto 6:37
Music For Strings, Percussion, And Celesta
1-4 Andante Tranquillo 7:22
1-5 Allegro 7:30
1-6 Adagio 7:24
1-7 Allegro Molto 7:01
Piano Concerto No. 2
2-1 Allegro 9:17
2-2 Adagio – Piu Adagio – Presto 12:51
2-3 Allegro Molto 6:00
Rhapsody For Piano And Orchestra, Op. 1
2-4 Adagio Molto 13:56
2-5 Poco Allegretto 9:55
Scherzo For Piano And Orchestra
3-4 Introduzione (Adagio Ma Non Troppo) 6:51
3-5 Allegro Vivace – Scherzo (Allegro) 9:46
3-6 Trio (Andante) 5:09
3-7 Scherzo Da Capo (Allegro Vivace) 8:15
Conductor – Ivan Fischer
Orchestra – Budapest Festival Orchestra
Piano – Zoltán Kocsis
Disquinho precioso com duas PEDRADAS absolutas do repertório orquestral: o balé-pantomima “O Mandarim Miraculoso”, Op. 19, composto entre 1918 e 1924, e o estupendo “Concerto Para Orquestra”, de 1943, ambas da pena do húngaro Bela Bartók (1881-1945). Gravado entre 1991 e 93, mostra uma Sinfônica de Saint Louis na ponta dos cascos, em pura sintonia com o regente Leonard Slatkin, que se encontrava à frente do grupo desde 1979 (ficaria até 96).
“O ballet-pantomima O Mandarim Miraculoso narra uma curiosa história. Sons precipitados e tumultuados de rua apresentam três vagabundos que coagindo uma jovem mulher a fazer o papel de prostituta a fim de atrair homens a seu quarto para que eles pudessem roubá-los. (O chamado sedutor é soado três vezes pelo clarinete.) Primeiro, a jovem atrai a atenção de um senhor de idade. Mas seu interesse por ela é subitamente interrompido quando os três cúmplices o escorraçam porque ele não tem dinheiro. O chamado sedutor soa de novo, desta vez alcançando um jovem tímido. A jovem se sente atraída por ele e os dois dançam. Mas quando descobrem que ele também tem pouco dinheiro, é igualmente posto para fora.
O terceiro chamado traz à cena o macabro Mandarim. Os olhos traem-lhe os desejos. A jovem começa a dançar para ele- uma valsa que lentamente começa a se delinear – excitando-o ainda mais. No clímax da dança ela se lança a seus joelhos. Apaixonadamente, ele a abraça. A jovem, aterrorizada, foge dele quando um forte toque de trombone anuncia frenética perseguição em ostinato. O Mandarim a persegue e, quando alcança a mulher, os três delinqüentes saltam de seu esconderijo e tentam asfixiá-lo sob uma pilha de almofadas. Mas o mandarim consegue se reerguer e com os olhos fixos ainda mais apaixonadamente sobre a jovem. Os homens o atravessam com uma espada enferrujada, mas o Mandarim não sangra. Enforcam-no num candelabro mas ele não morre. Finalmente, sua cabeça é decepada e a jovem, chorando toma-o nos braços. Só então começam a ferir as feridas do Mandarim e ele consegue morrer.”
Estreia italiana do balé “O Mandarim Miraculoso”. La Scala, Milão, 1942
Um detalhe curioso e simpático desse disco é que ele reúne os dois finais compostos por Bartók para o “Concerto para Orquestra”: o original, de 1943, e o revisto, de fevereiro de 1945, pouco antes da morte do compositor. É este segundo final que geralmente é tocado mundo afora e que vem em primeiro lugar no disco.
Uma curiosidade sobre a Saint Louis Symphony Orchestra: o diretor artístico entre 1963 e 1968 foi ninguém mais, ninguém menos que o cearense Eleazar de Carvalho (1912-1996), tendo regido pela primeira vez na história da SLSO obras fundamentais como “A Sagração da Primavera”, de Stravinsky, e a “Missa Solemnis”, de Beethoven”.
“O Mandarim Maravilhoso”, op. 19
1. The Miraculous Mandarin op.19: Beginning
2. The Miraculous Mandarin op.19: The curtain rises
3. The Miraculous Mandarin op.19: First seduction game: the shabby old rake
4. The Miraculous Mandarin op.19: Second seduction game
5. The Miraculous Mandarin op.19: The shy youth appears at the door
6. The Miraculous Mandarin op.19: Third seduction game
7. The Miraculous Mandarin op.19: The Mandarin enters-Encounter with the girl
8. The Miraculous Mandarin op.19: The girl’s dance
9. The Miraculous Mandarin op.19: She flees from him; he chases her wildly
10. The Miraculous Mandarin op.19: The Mandarin stumbles, but catches the girl; they fight. The…
11. The Miraculous Mandarin op.19: Suddenly the Mandarin’s head Appears. The Tramps drag him out,…
12. The Miraculous Mandarin op.19: They drag the Mandarin to the centre of the room and hang him on a…
13. The Miraculous Mandarin op.19: The tramps take him down. He falls to the floor and at once leaps…
14. The Miraculous Mandarin op.19: His longing stilled, the Manadrin’s wounds begin to bleed; he…
“Concerto para Orquestra”
15. Introduzione: Andante non troppo; Allegro vivace
16. Giuoco delle coppie: Allegretto scherzando
17. Elegia: Andante non troppo
18. Intermezzo interrotto: Allegretto
19. Finale: Presto (até o compasso 573)
20. Finale: final alternativo
21. Finale: final original
Membros do Coro da Sinfônica de Saint Louis (em O Mandarim Maravilhoso)
Thomas Peck, diretor do coro
Saint Louis Symphony Orchestra
Leonard Slatkin, regente
Talvez, quem sabe?, este seja um dos melhores CDs que já postei aqui. Na minha opinião é, sem dúvida. Como dois parênteses, dois extraordinários Concertos para Piano de Prokofiev cercam o Concerto Nº 3 do maior compositor do século XX (provocação gratuita do bem, mesmo que expresse minha opinião real, àqueles que votam em Stravinsky, outro gênio indiscutível). Ao piano, Marthita em sua melhor forma. Na última vez em que veio à Porto Alegre, pedi-lhe dois autógrafos, um num antigo vinil onde interpretava peças para dois pianos junto com Nelson Freire — ela olhou para a capa e gritou “Nossa, eu um dia fui jovem, eu era um pouco mais bonita do que a bruxa de hoje, não?”, ao que assenti com entusiasmo… — e este que posto hoje — “Nossa, neste aqui eu tocava muito bem!”, e caiu na gargalhada, completando: “Gravamos tudo rapidamente. Foi perfeito. Gastamos mais tempo conversando e tirando as fotos em preto e branco para o CD”.
Tinha razão, foi tudo perfeito. O que Martha Argerich faz nestes três concertos em termos de virtuosismo e temperatura emocional é efetivamente espantoso, apenas repetível sob outra forma, tão pessoal é sua abordagem.
Não é um CD normal este que você vai baixar hoje.
Prokofiev (1891-1953): Concertos para piano Nº 1 & 3 / Bartók (1881-1945): Concerto para piano Nº 3 (Argerich / Dutoit)
Prokofiev – Piano Concerto No. 1 in D flat Op. 10 1. First movement: Allegro brioso 6:57
2. Second movement: Andante assai 4:34
3. Third movement: Allegro scherzando 4:31
Bartók – Concerto for Piano and Orchestra No. 3 Sz119 4. First movement: Allegretto 7:22
5. Second movement: Adagio religioso -[poco più mosso] – tempo I 10:45
6. Third movement: Allegro vivace – [presto] 6:50
Prokofiev – Piano Concerto No. 3 in C Op. 26 7. First movement: Andante – Allegro 9:43
8. Second movement: Tema (Andatino) and Variations 9:39
9. Third movement: Allegro ma non troppo – meno mosso – Allegro 9:51
Martha Argerich, piano
Orchestre Symphonique De Montréal
Charles Dutoit