.: interlúdio :. Summit ou Reunión Cumbre ou Tango Nuevo – Ástor Piazzolla & Gerry Mulligan #Piazzolla100

Quase lhes trouxe esse disco durante nosso Piazzollaço de centenário, há algumas semanas, mas a colaboração dos colegas naquela data magna foi tão rica e significativa que achei melhor esperar para publicá-lo em separado.

Sim, “Summit”, “Tango Nuevo” e “Reunión Cumbre” são, para efeitos discográficos, todos sinônimos. Gerry Mulligan e Ástor Piazzolla gravaram “Summit” em Milão, acompanhados de músicos argentinos e italianos, entre setembro e outubro de 1974. Ástor mudara-se para lá depois de separar-se de Amelita Baltar e ter um infarto (desconheço se houve correlação entre os eventos). Gerry, por sua vez, aproveitou a visita para conhecer a futura esposa, uma condessa jornalista. A colaboração dos dois deu muita liga, o que é óbvio tanto pelo que se ouve quanto pela efusiva capa – pois não era todo dia que se via o muy blasé Piazzolla abraçar um parceiro. O repertório é quase todo da lavra do argentino, com uma ambiência musical que está muito mais para a praia de “Jeru”, com ecos do cool jazz em que fez sua fama, embora o material temático, claro, tenha a cara do Tango Nuevo do compositor. Talvez por isso mesmo, a Europa transalpina conheceu esse álbum como “Tango Nuevo” – muito para minha cara de tacho, que tanto o procurei, admirador que sou de “Summit”, a pensar que se tratasse dum LP diferente com material inédito da dupla. A América Latina o conheceu como “Reunión Cumbre” – uma tradução de “Summit” -, e volta e meia ele reaparece, chamado de alguma variação sobre seus títulos anteriores e com nova capa (muitas vezes parecida com a que minha tia nonagenária faria no Paint), embora nenhuma bata em ilegibilidade a versão com letras  verdes de “Summit – Reunión Cumbre”.




Ástor Pantaleón PIAZZOLLA
(1921-1992)
1 – 20 Years Ago
2 – Close Your Eyes and Listen
3 – Years of Solitude
4 – Deus Xangô
5 – 20 Years After

Gerald Joseph “GERRY” MULLIGAN (1927-1996)
6 – Aire de Buenos Aires

Ástor PIAZZOLLA
7 – Reminiscence
8 – Summit

Ástor Piazzolla, bandoneon
Gerry Mulligan, saxofone barítono
Ángel ‘Pocho’ Gatti,  piano, piano elétrico Fender Rhodes 73, órgão
Tullio de Piscopo, bateria, percussão
Giuseppe Prestipino, baixo
Alberto Baldan e Gianni Ziloli, marimbas
Filippo Daccò e Bruno de Filippi, guitarras elétricas
Umberto Benedetti Michelangeli (sim, sobrinho do próprio), violino
Renato Riccio, viola
Enio Miori, violoncelo

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“Ma vení acá, belloooo”

Vassily

 

.: interlúdio :. 100 anos de Astor Piazzolla: Escalandrum ‎– Piazzolla Plays Piazzolla #Piazzolla100

.: interlúdio :. 100 anos de Astor Piazzolla: Escalandrum ‎– Piazzolla Plays Piazzolla #Piazzolla100

Um bom disco de Piazzolla para fechar o dia dos 100 anos de Piazzolla. Escalandrum é um dos conjuntos musicais de tango e jazz mais bem-sucedidos da Argentina, liderado por Daniel “Pipi” Piazzolla, baterista e compositor multipremiado e neto do mestre do tango Astor Piazzolla. O repertório de Escalandrum inclui uma ampla gama de composições de tango de Astor Piazzolla, bem como a própria música da banda, que se baseia muito mais no jazz contemporâneo e reúne o melhor desses dois mundos. Curiosamente, Escalandrum não inclui bandoneonista nem vocalista.

Bem, poucas figuras na história da música argentina levaram o conceito de vanguarda tão a sério quanto Piazzolla. Traidor do tango para alguns, renovador do tango para outros, é inegável sua contribuição para que o ritmo portenho por excelência rompesse com uma certa rigidez do compasso de dois por quatro e voasse mais livre, como só o jazz pode ser. Aqui, temos um grupo competentíssimo comprovando isso.

Escalandrum ‎– Piazzolla Plays Piazzolla

1 Lunfardo 6:27
2 Buenos Aires Hora Cero 5:17
3 Vayamos Al Diablo 3:41
4 Oblivion 4:56
5 Tanguedia 1 4:37
6 Fuga 9 5:04
7 Escualo 4:00
8 Romance Del Diablo 5:37
9 Adios Nonino 8:52
10 Libertango 8:25

Alto Saxophone, Soprano Saxophone – Gustavo Musso
Bass Clarinet, Baritone Saxophone – Martin Pantyrer
Double Bass – Mariano Sivori
Drums – Daniel “Pipi” Piazzolla
Piano, Arranged By – Nicolás Guerschberg
Tenor Saxophone – Damián Fogiel

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A alegria contagiante do Escacandrum durante a festa de inauguração da sede portenha do PQP Bach.

PQP

.: interlúdio :. 100 anos de Astor Piazzolla: Piazzolla ‘78 #Piazzolla100

.: interlúdio :. 100 anos de Astor Piazzolla: Piazzolla ‘78 #Piazzolla100

11 de março de 2021 – ‘Astor faz Cem Anos’- poderia ser título de um filme de Saura, ele que nos deu o magnífico ‘Tango’. Enfim, aos grandes, a grandeza. E Astor, como seu nome bem o denota, andava neste mundo desviando a fronte das tramas estelares, donde vez por outra colhia melodias sem igual. Despertei essa manhã com a súbita consciência de que sendo um Piazzóllatra apaixonado não poderia cometer o desatino de não homenageá-lo com uma postagem. Sem qualquer receio de jazer datado, quero dizer que na noite ontem, dia 6 de março, no Teatro Colón, se deu o segundo concerto da série de 13 dedicados ao mestre, transmitidos ao vivo pelas rádios de Buenos Aires. Que noite, amigos! Que música, que músicos, que arranjos, que emoções! Foi revivido o seu octeto eletrônico com o repertório dos tempos de Libertango; mais a presença da monumental Amelita Baltar cantando os seus lapidares sucessos junto a Astor. A mais plena glória concedida ao que muitos chamaram de “assassino do tango”. Consideremos, Astor era pirracento e costumava lançar um balde de gasolina nesse fogaréu, falando por exemplo que La Cumparsita seria o pior dos tangos que já tocara ou criticando antigos mestres e estilos nos quais sua própria obra encontrava raízes. Peço perdão se esse texto sai engessado, carente de graça ou leveza. Nesse momento, sob um mundo adoecido e a cidade em estado de lei seca, devo poupar os últimos quatro dedos de whisky para o terceiro concerto logo mais às 17 horas. Caminhemos, como diria Herivelto Martins.

Esse disco, também lançado como ‘Mundial 78’ na época, foi um trabalho ligado a um campeonato de futebol. Seus títulos se remetem ao nobre esporte. Sou a pessoa menos indicada do mundo para falar de futebol, tarefa que deveria, pelo maior zelo da justiça, caber ao compadre mestre Milton Ribeiro. Todavia, na infância, em casa dos meus avós e pais, testemunhava a emoção que efervescia nas Copas do Mundo. Lembro de momentos verdadeiramente mágicos, onde via nomes como Garrincha, Pelé, Rivelino, Tostão, um filosófico e etílico Dr. Sócrates; e nomes estranhos como Cafuringa e Beto Fuscão. Sei que eram verdadeiros deuses, voavam, para eles não existiria limites de gravidade e inércia. A bola os obedecia. Eram magos, certamente. Hoje não sei se isso ainda existe. Astor não foi ligado ao futebol até se encantar com o magnífico Maradona. Preferia pescar tubarões, conforme nos conta a excelente biografia de Maria Susana Azzi, que tive a grande sorte de conseguir. Que livro, uma obra definitiva sobre Piazzolla. No presente disco, cada faixa se remete a elementos do futebol, como poderemos ler abaixo. É um disco pequeno, porém concentrado. Um pequeno frasco com matéria radioativa. Toda beleza e intensidade da música de Astor se encontra nessa miniatura. Seu estilo, diríamos, melodinâmico, que evoca pelejas de facas e amores lancinantes, emoções intensas e melodias inebriantes, se adapta perfeitamente à ideia da peleja esportiva, com suas tensões, disputas, anseios, suor e esforços, tropeços, faltas, pênaltis, gols, fracassos, esperanças, vitórias por vezes amargas…

Sintonizo agora a rádio La 2×4 de Buenos Aires, já vai começar o terceiro concerto em honra ao grande Piazzolla. Não perderei nenhum. Encerro esse texto mal engendrado com um breve trecho do filósofo romeno Emil Cioran, como prece e reflexão nesses tempos enfermos. E que as emoções e a beleza da obra de Astor nos fortaleçam, encorajem e abençoem.

“Que o entusiasmo irrompa na existência e que a alegria se assemelhe aos grandes êxtases, e que nosso desejo de ser seja tão universal quanto a tristeza de ser. Em sua luta, que o desejo de ser encha de paixão as trevas das tristezas e que nossa sede de absoluto sacie sua infinitude na obscuridade.”

Astor Piazzolla: Piazzola ‘78

1 Mundial 78
2 Marcación
3 Penal
4 Gambeta
5 Golazo
6 Wing
7 Corner
8 Campeón

Astor Piazzolla – Bandoneón, arranjos e direção
Arnaldo Ciato – Piano
Giani Zilioli – Órgão
Sergio Farina – Guitarra
Gigi Cappellotto, Giorgio Azzolini – Eletric Bass
Tullio de Piscopo – Drums
Sergio Almagano – Violino
Elsa Parravicini – Sax Alto
Hugo Heredia, Sergio Rigon, Giuseppe Parmigiani – Flautas
Paulo Salvi – Cello

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Astor faz 100 Anos

Wellbach

.: interlúdio :. 100 anos de Astor Piazzolla: Luna #Piazzolla100

.: interlúdio :. 100 anos de Astor Piazzolla: Luna #Piazzolla100

Este incrível álbum é um dos poucos documentos registrados do sex-tet e que representa a última fase da carreira de Astor Pantaleón Piazzolla (1921-1992). A música é extremamente apaixonante e intensa. Este CD apresenta sete faixas extraídos de um concerto ao vivo em Amsterdam gravado em junho de 1989, as notas do álbum afirmam que foi o último concerto de Piazzola com o seu sex-tet. Inclui clássicos do repertório como “Hora Cero” (originalmente intitulada “Buenos Aires Hora Cero”), “Milonga del Angel” e “Preludio y Fuga”. As outras quatro composições são geralmente menos conhecidas e pertencem ao período mais inovador do compositor, ou seja, quando a sua música se afastou mais do que nunca do ritmo estruturado do tango ao encontro do jazz do clássico moderno, influenciado por Bartók.

As faixas evoluem e o sex-tet toca mais como um apoio ao gênio de Piazzola, sem solos prolongados de violino ou piano. Além disso, são usados dois bandoneons em vez de um, o violoncello substitui o violino e as partes do piano e da guitarra reforçam os tempos rítmicos juntamente com o uso de um contrabaixo. A interpretação soberba e a gravação excelente.

Apesar das inúmeras gravações feitas por este gigante do Bandoeon, esta gravação é uma das que mais gosto. Nas mãos de Astor e do sex-tet, a expressão da música é elevada, as modulações, dissonâncias, mudanças dinâmicas conferem a este álbum um dos melhores do mestre.

As faixas maravilhosas seriam “Hora Cero”, “Tanguedia”, a impressionante atuação de “Milonga del Angel”, o mestre está em ótima forma, o que dizer do duelo com o piano de Gerardo Gandini em “Camorra 3” com virtuosismo quase violento, e a maravilhosa “Luna” que encerra o álbum – pode ser esta versão a mais rica e sublime das inúmeras atuações feitas por este músico da poesia – nos transportam ao núcleo deste sensual, misterioso e fascinante universo de sombras, parcialmente iluminado onde a desilusão e a fragmentação se fundem para conformar uma espécie de tragédia noturna delirante.

Divirtam-se com a grande viagem pelo maravilhoso álbum “Luna”, como concerto final do mestre, gravado ao vivo em Amsterdam, a 26 de junho de 1989.

Astor Piazzolla – LUNA

1-Hora Cero
2-Tanguedia
3-Milonga del Angel
4-Camorra 3
5-Preludio y Fuga
6-Sex-Tet
7-Luna

Astor Piazzolla New Tango Sex-Tet
Astor Piazzolla – Bandoneon
Daniel Binelli – Bandoneon
Horacio Malvicino – Guitar
Gerardo Gandini – Piano
José Bragato – Violoncello
Hector Console – Double Bass

Amsterdam, a 26 de junho de 1989

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Ammiratore

.: interlúdio :. 100 anos de Astor Piazzolla: Complete Tango! – Isabelle van Keulen Ensemble #Piazzolla100

Como definir um gênio? Difícil, não acham? Um músico do porte de Astor Piazzolla nasce a cada 100 anos, e olha lá. Nesta data, dia 11 de março, há exatos 100 anos nascia este imenso compositor e bandoneonista, Ástor Piazzola, que revolucionou o tango, e consequentemente, a música do Século XX.

O PQPBach não podia deixar esta data passar despercebida, então, em um esforço coletivo, e com poucos dias disponíveis, encaramos este desafio em fazer uma homenagem que faça jus à genialidade do aniversariante.

Infelizmente não poderei postar o meu disco favorito dele, que tenho apenas em LP, e no momento não tenho condições de converter para o formato digital. Trata-se do clássico álbum que a grande intérprete de Piazzolla, a cantora Amelita Baltar, gravou com canções do próprio e de seu fiel companheiro, Horacio Ferrer, onde ela faz o melhor registro que já ouvi da ‘Balada de un Loco’. Para quem não conhece, coloquei um link do Youtube aí embaixo parar conhecerem. Coisa de gênio …

Já venho postando cds do mestre argentino desde os primórdios do PQPBach, e nunca deixei de realçar suas qualidades, tanto quanto compositor quanto intérprete. O que estou trazendo para os senhores hoje são três cds que a violinista Isabelle van Keylen gravou em homenagem à ele, tendo para isso montado um conjunto que intitulou ‘Isabelle van Keulen Essemble’, um quarteto com um contrabaixo acústico, piano, o bandoneon e o violino de van Keulen. Alguém pode reclamar, ‘mas o que os holandeses entendem de tango?’, pode até ser que não entendam nada, mas entendem a importância da obra, e por isso fazem uma homenagem à altura. com o perdão da redundância. Aplicaria a mesma questão a três outros excepcionais músicos que também dedicaram álbuns a Piazzola, gravando com ele, inclusive, com o saxofonista norte americano Gerry Mulligan, o violinista lituano Gidon Kremer ou o acordeonista francês Richard Galliano. O que importa é que entenderam as ideias, os conceitos, e conseguiram nos proporcionar grandes e prazerosos momentos de audição para nós, meros mortais, apreciadores da bela arte.

Não quero me estender muito mais, pois quase todos os atuais membros do PQPBach toparam participar da empreitada. então, vamos ao que viemos.

CD1

1 Escualo
2 Verano Porteño
3 Invierno Porteño
4 Tristezas de un Doble A
5 Michelangelo ’70
6 Contrabajísimo
7 Oblivion
8 Libertango
9 Tangata
10 Tanti anni prima
11 Concierto para Quinteto

CD 2

1 Bando
2 Otoño porteño
3 Le grand tango (arr. Christian Gerber)
4 Soledad
5 Tres minutos con la realidad
6 Kicho
7 Primavera porteña
8 Adiós nonino
9 Tango para una ciudad

CD 3

1 Allegro tangabile
2 La Camorra I
3 Romance del diablo
4 Vayamos al diablo
5 Tango del diablo
6 Poema valseado
7 Fuga y misterio
8 Introducción al ángel
9 Milonga del ángel
10 Muerte del ángel
11 Resurrección del ángel

Isabelle van Keulen Ensemble
Isabelle van Keulen Violin
Christian Gerber bandoneon
Ulrike Payer piano
Rüdiger Ludwig double bass

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.: interlúdio :. 100 anos de Astor Piazzolla: Piazzolla (1921-1992) por Piazzolla — mais 4 CDs, resultado de pedidos carinhosamente atendidos por nossa consultoria #Piazzolla100

.: interlúdio :. 100 anos de Astor Piazzolla: Piazzolla (1921-1992) por Piazzolla — mais 4 CDs, resultado de pedidos carinhosamente atendidos por nossa consultoria #Piazzolla100

Nosso consultor ignora o funcionamento do SAC do PQP. Aqui, os pedidos raramente são atendidos e a gente costuma dar gostosas gargalhadas com as repetidas súplicas. “O link deixou de funcionar”, “Quero este CD”, “Preciso ouvir isso, disso depende minha vida”, tsc, tsc, tsc. Mas ele, o consultor, contrariamente a nós, revelou ter bom coração e resolveu, imaginem, atender alguns pedidos desesperados. Acabo de ouvir o quarteto de discos que ele nos enviou e ele é novamente portentoso, não tanto quanto este quinteto, mas mesmo assim portentoso, repito. É Piazzolla.

Abaixo, antes da relação de discos, obras e links, faço uma singela homenagem a meu pai, que amava especialmente a canção Los Paraguas de Buenos Aires, colocada no início do lado B de algum disco de Piazzolla-Baltar. Como ele sabia bem mais espanhol do que eu — costumava ouvir rádios de Buenos Aires na infância e na adolescência, talvez em busca de um mundo mais culto do que o de nossa triste província — , certamente entendia de ouvido a bela poesia que Horacio Ferrer escreveu para a música e que coloco agora para os pequepianos. Hoje sei que orillas não são orelhas e sim calçadas ou beiradas ou margens, que paraguas não são paraguaios e sim guarda-chuva, que fruteros devem ser pomares, etc.

Los Paraguas de Buenos Aires

Voz de Amelita Baltar
Letra de Horacio Ferrer
Música de Astor Piazzolla

Está lloviendo en Buenos Aires, llueve
Y en los que vuelven a sus casas pienso
Y en la función de los teatritos pobres
Y en los fruteros que a las rubias besan
Pensando en quienes ni paraguas tienen
Siento que el mío para arriba tira
“No ha sido el viento si no hay viento”, digo
Cuando de pronto mi paraguas vuela
“No ha sido el viento si no hay viento”, digo
Cuando de pronto mi paraguas vuela
Vuela…

Y cruza lluvias de hace mucho tiempo
La que al final mojó tu cara triste
La que alegró el primer abrazo nuestro
La que llovió sin conocernos antes
Y desandamos tanta lluvia, tantas
Que el agua esta recién nacida, vamos
Que está lloviendo para arriba, llueve
Y con los dos nuestro paraguas sube
Que está lloviendo para arriba, llueve
Y con los dos nuestro paraguas sube
Sube…

A tanta altura va querido mío
Camino de un desaforado cielo
Donde la lluvia a sus orillas tiene
Y está el principio de los días claros
Tan alta el agua nos disuelve juntos
Y nos convierte en uno solo uno
Y solo uno para siempre, siempre
En uno solo, solo, solo, pienso
Y solo uno para siempre, siempre
En uno solo, solo, solo, pienso
Pienso…

Pienso en quien vuelve hacia su casa
Y en la alegría del frutero
Y en fin, lloviendo en Buenos Aires sigue
Yo no he traido ni paraguas, llueve
Y en fin, lloviendo en Buenos Aires sigue
Yo no he traido ni paraguas, llueve
Llueve…

.oOo.

1965
CONCIERTO EN EL PHILARMONIC HALL DE NEW YORK (Quinteto)
Polydor 27136 L.P. Grabado en estudios en Buenos Aires.
TANGO DIABLO.
ROMANCE DEL DIABLO.
VAYAMOS AL DIABLO.
CANTO DE OCTUBRE.
MAR DEL PLATA ’70.
TODO BUENOS AIRES.
MILONGA DEL ANGEL.
RESURRECCION DEL ANGEL.
LA MUFA.
(Todos temas de A.Piazzolla).
Formación: Astor Piazzolla (bandoneón), Jaime Gosis (piano), Antonio Agri (violín), Kicho Díaz
(contrabajo), Oscar López Ruiz (guitarra).

ANOS 70
CON AMELITA BALTAR
PRELUDIO PARA EL AÑO 3001 (A.Piazzolla – H.Ferrer).
BALADA PARA MI MUERTE (A.Piazzolla – H.Ferrer).
BALADA PARA UN LOCO (A.Piazzolla – H.Ferrer).
VAMOS NINA (A.Piazzolla – H.Ferrer).
LAS CIUDADES (A.Piazzolla – H.Ferrer).
LOS PARAGUAS DE BUENOS AIRES (A.Piazzolla – H.Ferrer).
LA PRIMERA PALABRA (A.Piazzolla – H.Ferrer).
NO QUIERO OTRO (A.Piazzolla – H.Ferrer).
PEQUEÑA CANCION PARA MATILDE (A.Piazzolla – P.Neruda).
VIOLETAS POPULARES (A.Piazzolla – M.Trejo).
Várias formações

1985
MILVA – PIAZZOLLA (Quinteto)
Polydor 825 125-1-B L.P. Grabado en vivo en París en el teatro Bouffes du Nord.
BALADA PARA MI MUERTE (A.Piazzolla – H.Ferrer).
LOS PAJAROS PERDIDOS (A.Piazzolla – M.Trejo).
DECARISIMO (A.Piazzolla).
AÑOS DE SOLEDAD (A.Piazzolla – M.Le Forestier).
BALADA PARA UN LOCO (A.Piazzolla – H.Ferrer).
VAMOS NINA (A.Piazzolla – H.Ferrer).
YO OLVIDO (A.Piazzolla – D.McNeil).
CHE TANGO CHE (A.Piazzolla – J.C. Carriere).
PRELUDIO PARA EL AÑO 3001 (A.Piazzolla – H.Ferrer).
FINALE ENTRE BRECHT ET BREL (A.Piazzolla – C.Lemesle).
FORMACION:
Astor Piazzolla (bandoneón), Pablo Ziegler (piano), Fernando Suárez Paz (violín), Oscar López Ruiz
(guitarra), Héctor Console (contrabajo).

1986
HORA ZERO (Quinteto)
American Clave CD AMCL 1013. Grabado en EE.UU.
TANGUEDIA III.
MILONGA DEL ANGEL.
CONCIERTO PARA QUINTETO.
MILONGA LOCA.
MICHELANGELO ’70.
CONTRABAJISIMO.
MUMUKI.
(Todos temas de A.Piazzolla).
FORMACION:
Astor Piazzolla (bandoneón), Pablo Ziegler (piano), Fernando Suárez Paz (violín, Horacio Malvicino
(guitarra), Héctor Console (contrabajo).

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tango

PQP

.: interlúdio :. 100 anos de Astor Piazzolla: Piazzolla (1921-1992) por Piazzolla — 5 CDs criteriosamente escolhidos por nossa consultoria #Piazzolla100

.: interlúdio :. 100 anos de Astor Piazzolla: Piazzolla (1921-1992) por Piazzolla — 5 CDs criteriosamente escolhidos por nossa consultoria #Piazzolla100

IM-PER-DÍ-VEL !!!!

Foda. Sim, PQP Bach é foda. Um de nossos consultores entrou em contato conosco através do Facebook declarando possuir 60 LPs e 20 CDs de Astor. Em outras palavras, ele tem a atual discografia completa.

Algumas palavras de nosso consultor:

Posso colaborar com Piazzollas se precisar. Tenho tudo. // tens algum disco em mente? // passo pra mp3 e te mando // ou posso escolher? // vamos homenagear o velho // vou te mandar 4 (Mandou 5)  // dois novos e 2 com 10 anos de diferença // é que subir os 80 discos fica meio complicado // hehehe // mas tenho só Piazzolla por Piazzolla // nada de interpretações de outros // todos com ele tocando // não gosto muito de outras interpretações, perdem muito da violência intrínseca // que me (nos) gusta // para quem viu o velho tocando bem de perto … // ah sim, vi 3 vezes aqui (vi uma) // vou até ver se acho os ingressos para postar // acho que tenho ainda // essa minha mania de guardar coisas // hehehe // to pensando num disco bem antigo pra subir // não decidi ainda, só sei que não será dos de 78 rpm // um com interpretações bem diferentes // vou lá ver enquanto sobe aqui // coloquei tudo em 192 KBPs, acho é bom // vou subir depois o Piazzolla 1960, de vinil, no original, só vou tirar uns clicks.

Pedi-lhe la crème de la crème e abaixo está o resultado. Tchê, estou ouvindo o último disco. Cara, SÃO DEMAIS. Grandes discos, estou muito feliz.

Fonte das informações abaixo: aqui. Mais leitura aqui.

-=-=-=-=-=-

PIAZZOLLA INTERPRETA A PIAZZOLLA (Quinteto) — 1961
RCA Victor AVL 3383 L.P.

ADIOS NONINO
BERRETIN
CONTRABAJEANDO (A.Piazzolla – A.Troilo)
TANGUISIMO
DECARISIMO
LO QUE VENDRA
LA CALLE 92
CALAMBRE
LOS POSEIDOS
NONINO.

Todos os temas são de Piazzolla, menos os indicados.

Astor Piazzolla (bandoneón), Jaime Gosis (piano), Simón Bajour (violin), Kicho Díaz (contrabajo), Horacio Malvicino (guitarra).

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PULSACION (Orquesta) — 1970
Trova ST 5038 L.P.

PULSACION 1
PULSACION 2
PULSACION 4
PULSACION 5
FUGA Y MISTERIO
CONTRAMILONGA A LA FUNERALA
ALLEGRO TANGABILE
TOCATA REA
TANGATA DEL ALBA.

Todos os temas são de Piazzolla.

Astor Piazzolla (bandoneón), Jaime Gosis (piano), Antonio Agri, Hugo Baralis (violines), Víctor Pontino (cello), Néstor Panik (viola), Kicho Díaz (contrabajo), Cacho Tirao (guitarra), Arturo Schneider (flauta y saxo), José Corriale (percusión), Tito Bisio (vibrafón, xilofón , campanelli). En los temas de Pulsación, Dante Amicarelli (piano) por Jaime Gosis, Simón Zlotnik (viola) por Néstor Panik y José Bragato (cello) por Victor Pontino.

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PIAZZOLLA 77 (Orquesta) — 1977
Trova DA 5011 L.P. Grabado en Italia. Sello Original: Carosello. Productor: Aldo Pagani.

CIUDAD TANGO
PLA-SOL-LA-SOL
LARGO TANGABILE
PERSECUTA
WINDY
MODERATO TANGABILE
CANTO Y FUGA.

Todos os temas são de Piazzolla.

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TANGO APASIONADO — 1988
American Clave Nº 1019. Grabado en EE.UU.

PROLOGUE TANGO APASIONADO
MILONGA FOR THREE
STREET TANGO
MILONGA PICARESQUE
KNIFE FIGHT
LEONORA’S SONG
PRELUDE TO THE CYCLICAL NIGHT
BUTCHER’S DEATH
LEIJIA’S GAME
MILONGA REPRISE
BAILONGO
LEONORA’S LOVE
FINALE TANGO APASIONADO
PRELUDE TO THE CYCLICAL NIGHT (Part Two).

Todos os temas são de Piazzolla.

FORMACION:
Astor Piazzolla (bandoneón). Pablo Zinger (piano; no hay error se trata de otro pianista; Zinger suele colaborar con Paquito D’ Rivera), Fernando Suárez Paz (violín). Paquito D’Rivera (saxo alto). Andy González (bajo). Rodolfo Alchourrón (guitarra).

-=-=-=-=-=-

LA CAMORRA (Quinteto) — 1989
American Clave Nº 1021. Grabado en EE.UU.

SOLEDAD
LA CAMORRA I
LA CAMORRA II
LA CAMORRA III
FUGATA
SUR – LOS SUEÑOS
REGRESO AL AMOR.

Todos os temas são de Piazzolla.
Histórico: es la última grabación del Quinteto.

FORMACION:
Astor Piazzolla (bandoneón), Pablo Ziegler (piano), Fernando Suárez Paz (violín), Horacio Malvicino (guitarra), Héctor Console (contrabajo).

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Ainda bem que abriste os botões da camisa, Astor
Ainda bem que abriste os botões da camisa, Astor

PQP

.: interlúdio :. 100 anos de Astor Piazzolla: Concierto para bandoneón – Tres tangos – Piazzolla – Schifrin #Piazzolla100

De Ástor não lhes falarei – meus colegas falarão mais, e melhor. Limitar-me-ei a contribuir, na justa homenagem a seu centenário, com uma entre as tantas gravações desse gênio multifacetado que esparramou criatividade para todos os gêneros, como se prisma fosse, a partir de suas firmes fundações tanguísticas.

Se escolhi este disco entre tantos, claro, não foi sem bons motivos. Afinal, um dos mimimis mais consistentes durante a carreira de Piazzolla foi o dos que protestavam contra as audições de sua  música nos sacrossantos palcos em que, criam eles, só se deveria ouvir música de concerto. Hoje, quase três décadas depois de sua morte, tantos são os grandes concertistas a levarem suas obras no repertório a todos os palcos do mundo que nos fica difícil imaginar possível um reproche desses. No entanto, muitos tomates zuniam sobre Piazzolla a cada tentativa, usualmente magistral, de integrar as tradições da música de concerto, do tango e do jazz, e dá-las ao mundo através de seu Nuevo Tango. Imagino, assim, que sua vontade de provocar os detratores e ganhar uma tomatina privê fosse a maior de sua vida ao compor, em 1979, seu concerto para bandoneon e orquestra.

Ainda que composto na tradicional forma de três movimentos, sendo um lento flanqueado por dois rápidos, o concerto mostra de quem é criatura logo nos primeiros, vigorosos compassos, com a entrada imediata do solista num assertivo tango, acompanhado por uma orquestra que, claramente, é tão só um disfarce camerístico para o tradicional quinteto piazzolliano. A notável adição à turma de cordas, piano e percussão é a harpa, de participação marcante no primeiro movimento e convidada de honra do bandoneon no belo dueto do segundo. O finale, claramente inspirado em La Muerte del Ángel, cita um tango composto para a trilha sonora de Con alma y vida – escolha que, como Ástor nos contou, também,não foi à toa:

Não sabia como o terminar. Então disse a mim mesmo: vou-lhes dar um tango, de modo que os eruditos saibam que, quando quero, eu posso compor como eles, e que quando eu quero eu faço as coisas do meu jeito”

Se os “eruditos” tivessem qualquer dúvida disso, bastar-lhes-ia acompanhar a engenhosa transformação da seção assinalada como Melancolico final na erupção rítmica que arremata o concerto: coisa de consumado mestre, cujo legado viverá muito mais que o desses pobres-diabos.

 

Ástor Pantaleón PIAZZOLLA (1921-1992)

Concierto para Bandoneón y Orquesta

1 – Allegro marcato
2 – Moderato
3 – Presto – Melancolico final

Tres Tangos para Bandoneón y Orquesta

4 – Allegro tranquillo
5 – Moderato místico
6 – Allegro molto marcato

Ástor Piazzolla, bandoneón
Orchestra of St. Luke’s
Lalo Schifrin, regência

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“Diminuto bandoneonista argentino”: anúncio da estreia profissional de Piazzolla na Argentina, em 1936, depois de voltar com sua família dos Estados Unidos, onde viveram.
O “disminuto bandoneinista” Ástor, como menino-jornaleiro, e seu ídolo Carlos Gardel no filme “El día que me quieras” (1935). O filme foi rodado em “Nueva York”, onde os Piazzollas viviam, e o astro afeiçoou-se ao jovem músico, convidando-o para fazer essa ponta. Fez-lhe também o convite para se juntar à turnê de seu conjunto, mas o pai do moleque não permitiu. Essa recusa salvaria a vida de Ástor: Gardel e seus músicos morreriam num desastre aéreo em Medellín, no ano em que o filme foi lançado. Mais tarde, superado o trauma colossal da morte de “Carlitos”, Piazzolla comentaria jocosamente que, se tivesse desobedecido seu pai e acompanhado Gardel, ele estaria “tocando harpa, e não bandoneón”

Vassily

P. S.: Para completar a homenagem a Ástor, restaurei dois links quebrados:

Astor Piazzolla (1921-1992): Five Tango Sensations com Piazzolla e o Kronos Quartet – LINK REVALIDADO

.: interlúdio :. Astor Piazzolla (1921-1992) — Los Tangueros (com Pablo Ziegler e Emanuel Ax)

Astor Piazzolla: os 100 anos do combativ(d)o vanguardista

Essa semana a gente deveria ser arrogante como um portenho. Deveria ser literariamente perfeito como um portenho. Deveria só beber té con leche. E deveria manter profundo respeito pela música deles. Afinal, dia 11 comemora-se os 100 anos de nascimento de Astor Pantaleón Piazzolla (1921-1992).

O homem no centro da cena do filme abaixo é o argentino, uruguaio ou francês Carlos Gardel (1890-1935). E o menino de 13 anos que faz o papel de um jornaleiro e que está à esquerda na cena de El día que me quieras chamava-se Astor Piazzolla e era o filho único dos imigrantes italianos Vicente Piazzolla e Asunta Manetti que, anos depois, revolucionaria o tango argentino. Desnecessário dizer que esta cena possui um poderoso valor emblemático na história do tango. El día que me quieras foi filmado no ano de morte de Gardel e ali casualmente aparecia, ainda menino, aquele que, anos depois, viraria o tango de cabeça para baixo. Por que justamente o menino Astor foi figurante na película? Ora, o filme foi rodado em Nova Iorque, naquela época a família de Piazzolla morava na cidade, conhecia Gardel e, bem, o garoto estava disponível.

É claro que a maioria de nós não tem a mesma imagem do tango que os argentinos têm. Para nós, Piazzolla é a estrela internacional que é gravado tanto por pequenos grupos de tangueiros como por grandes orquestras sinfônicas ou de câmara, pois sua música efetivamente abarca o popular e o erudito, como tentaremos comprovar abaixo. Aos estrangeiros como nós surpreende ler, sempre associada a seu nome, a palavra Revolução. Por exemplo, a página oficial de Astor Piazzolla na Internet, onde consta sua biografia, começa com letras garrafais: Astor Piazzolla: Cronología de una Revolución, ou seja, a briga com os tangueiros tradicionais não foi esquecida e, quando lemos que os deuses de Piazzolla eram Bach, Stravinsky, Bartók e o jazzista Stan Kenton e, mais, que ele estudou com Nadia Boulanger na Paris dos anos 50, começamos a entender alguma coisa. Ele bebeu de tantas fontes que sua criação haveria de ser muito diversa do habitual.

Astor Piazzolla | Foto: Carlos Ebert

Piazzolla nasceu em 11 de março de 1921 em Mar Del Plata e, quando tinha 4 anos, sua família mudou-se para Nova Iorque. Residiram nos EUA entre 1925 e 1936. Foi lá que, aos 8 anos de idade, ele ganhou de seu pai o primeiro bandoneón — , comprado numa loja de penhores por 19 dólares. Estudou o instrumento por um ano com Andrés DÁquila e aos 10 anos de idade, em 1931, realizou sua primeira gravação, Marionete Spagnol, um acetato não comercial resultado de uma participação radiofônica numa rádio de Nova Iorque. Em 1933, começou a ter aulas de piano com o húngaro Bela Wilda, discípulo de Rachmaninov, e sobre o qual Piazzolla diria mais tarde “Com ele, comecei a amar Bach”.

Retornou em 1936 com sua família para Mar del Plata, onde fez sua segunda grande descoberta, bem longe do barroco tardio de Bach. Ouviu no rádio o sexteto de Elvino Vardaro. A forma diferente que o sexteto tinha de interpretar tangos impressionou Piazzolla profundamente e levou-o a Buenos Aires em 1938. Tinha apenas 17 anos. Tudo foi muito rápido. No ano seguinte, já estava entrando como bandeonista na orquestra de Anibal “Pichuco” Troilo.

Troilo e Piazzolla

Sentindo a necessidade de avançar musicalmente — mesmo já sendo o arranjador da orquestra Troilo — , em 1941 tornou-se aluno do compositor erudito Alberto Ginastera e depois estudou piano com Raúl Spivak. Seus arranjos e obras tornaram-se avançados demais para Troilo, que obrigava-se a cortes e mais cortes de modo a não assustar os bailarinos na pista…

Em 1943, Piazzolla começou a escrever composições de caráter “erudito”, como a Suite para cordas, harpa e orquestra, e decidiu abandonar orquestra de Troilo a fim de participar de outra: a que acompanhava o cantor Francisco Fiorentino. Ficou nela até 1946, quando criou sua primeira orquestra. Ela tinha formação semelhante às outras orquestras da época, porém as composições e orquestrações tinham cada vez maiores complexidades harmônicas. Datam desta época as primeiras rusgas com os tangueiros tradicionais.

Em 1949, Piazzolla dissolveu a orquestra e voltou a estudar. Desta vez, seu foco era Bartók e Stravinsky. Estudou regência com o extraordinário maestro Hermann Scherchen e passou a ouvir a montanhas de disco de jazz. Torna-se obsessão a busca por um novo estilo, por um novo tango. Tinha 28 anos.

Entre 1950 e 1954 cria um grupo de obras inteiramente fora da concepção de tango da época e onde começa a definir seu estilo: Para lucirse, Tanguango, Prepárense, Contrabajeando, Triunfal, Lo que vendrá. Em 1953, inscreve Buenos Aires (Tres movimientos Sinfónicos) — trabalho de 1951 — no concurso Fabien Sevitzky. Vence o concurso e a obra é mostrada na Faculdade de Direito de Buenos Aires pela Orquestra Sinfônica da Rádio do Estado com a adição de dois bandoneóns, tudo sob a direção do próprio Sevitzky. Foi um enorme escândalo: o setor “culto” da plateia indignou-se em razão da presença de dois instrumentos estranhos e populares com a sinfônica.

Nadia Boulanger e Astor Piazzolla em Paris no ano de 1955

Outro dos prêmios que Piazzolla ganhou neste concurso foi uma bolsa do governo francês para estudar em Paris com Nadia Boulanger, considerada na época como a melhor educadora do mundo da música. De início, Piazzolla tentou esconder seu passado tangueiro no bandeonón, pensando em tornar-se um compositor erudito. Mas a velha mestra descobriu seu tango Triunfal, ouviu-o, e fez a histórica recomendação: “Astor, suas peças clássicas são bem escritas, mas o Piazzolla está nisto que me mostraste”.

Convencido, Piazzolla retorna ao tango e a seu instrumento, o bandoneón. O que antes era música erudita ou tango, agora será música erudita e tango, ou melhor dizendo, música erudita sob a paixão do tango, ou o contrário… Em Paris, ele compõe e grava uma série de tangos com uma orquestra de cordas e passa a tocar o bandoneón em pé, com uma perna sobre uma cadeira, algo que iria caracterizá-lo para sempre e será mais uma incomodação para os tradicionalistas que o queriam sentado.

Quando Piazzolla retornou à Argentina em 1955 retomou a orquestra de cordas e também formou outro grupo, o Octeto Buenos Aires, que marca efetivamente o início da era do tango contemporâneo. Com dois bandonéons, dois violinos, baixo, violoncelo, piano e guitarra elétrica, produziu obras inovadoras e interpretações que produziram uma ruptura com o tango tradicional. Era uma música que fugia ao modelo clássico da orquestra de tango e onde não tinha espaço para o cantor. Começava sua revolução solitária e a inimizade eterna para com o pessoal do tango ortodoxo, despertando contra si as críticas mais impiedosas. As gravadoras e as rádios organizaram um boicote contra sua música, admirada apenas pelos vanguardistas.

Enquanto os eruditos foram rapidamente dobrados pela qualidade de sua música, os tradicionalistas criaram um problema de estado. Estavam mexendo no tango. Piazzolla não colaborava muito para a paz, mantendo sua postura e respondendo com ironias.

Cansado, em 1958, Astor “no es tango” Piazzola dissolveu o octeto e a orquestra a fim de viajar para Nova York. Trabalharia como arranjador e viveria com maior conforto. Na Argentina, a controvérsia sobre se sua música seria tango ou não seguiu seu curso, mas agora seu sucesso no exterior começava a gerar intensa inveja entre a comunidade tangueira, o que não melhorava em nada o ambiente. Ele acenou com a possibilidade de paz chamado sua música de “música contemporânea da cidade de Buenos Aires”, mas continuava provocando com sua vestimenta informal e sua pose de tocar o bandoneón em pé (por que não senta?) e com suas respostas nada reverentes.

Entre 1958 e 1960, trabalhou nos EUA. Lá, escreveu Adiós Nonino, homenagem a seu pai que morrera. Ao retornar, forma o primeiro de seus grandes quintetos, o Nuevo Tango (bandoneon, violino, piano, baixo e guitarra). A partir de então, o quinteto seria o formato preferencial — era a síntese que melhor expressava suas ideias.

Jorge Luis Borges e Astor Piazzolla em 1965

É de 1963 a peça Três Tangos Sinfónicos e de 1965 a gravação de dois de seus discos mais importantes: Piazzolla en el Philarmonic Hall de Nova York e El Tango, resultado de uma parceria com Jorge Luis Borges.

Em 1968, compõe a “pequena ópera” María de Buenos Aires e, pela primeira vez chega ao tango canción. Não é casual que isto ocorresse durante seu namoro com a cantora Amelita Baltar. No ano seguinte, compõe com Horacio Ferrer Balada para un loco, canção de alta temperatura emocional apresentada no Primeiro Festival da Canção da América Latina, onde foi premiada com um muito polêmico segundo lugar. Foi seu primeiro grande sucesso popular. Amelita Baltar costumava cantar a canção tendo o próprio Piazzolla com regente de orquestra.

Mais um ano e é a vez do oratório El Pueblo Joven, cuja estreia acontece em Saarbruck (Alemanha) em 1971. Nesse mesmo ano, ele formou o Conjunto 9, atuando em Buenos Aires e na Itália, onde gravou vários programas para a RAI. Este grupo foi como um sonho para Piazzolla: o grupo de câmara que ele sempre quis ter e para o qual produziu sua música mais elaborada. Porém era muito caro e Piazzolla não conseguiu mantê-lo.

Em 1972, seu tango chegou ao Teatro Colón em Buenos Aires, mas junto com o tango tradicional. No ano seguinte, após um período de grande produtividade como compositor, teve um ataque cardíaco que o obrigou a reduzir suas atividades artísticas.

Reduziu, pero no mucho. Naquele mesmo ano, decidiu mudar-se para a Itália, onde empreendeu inacreditável série de gravações. Foram 5 anos. Libertango, seu disco mais famoso, é desta época e serviu como carta de apresentação para o público europeu, que nunca mais o largaria.



Durante esses anos, forma o Conjunto Electrónico: um octeto formado por bandoneón, piano elétrico ou acústico, guitarra, órgão, baixo elétrico, bateria, sintetizador e violino, mais tarde substituído por flauta ou saxofone. Era algo muito original e alguns falam em jazz-rock. Mas Piazzola negava: “Aí está minha música, muito tango e nada de rock”.

Em 1974, separou-se de Baltar. Naquele mesmo ano, gravou com o saxofonista Gerry Mulligan um outro grande disco: Summit, com uma orquestra italiana. A música que Piazzolla compôs para este disco revela profundo respeito pela forma. São melodias para bandoneón e sax barítono sobre uma base rítmica, obra feita por ele e um gigante do jazz, Mulligan. Um esforço muito bem sucedido.

Os dez anos seguintes são de colheita. Ele intensifica seus shows em todo o mundo: Europa, América do Sul, Japão e Estados Unidos. A série de concertos é feita em sua maioria com o quinteto ou como solista de orquestras de câmara. Existem inúmeras gravações ao vivo desses concertos, em CD. Na época, dizia-se que a música de Piazzolla não existia sem ele, o que hoje é apenas uma piada.

Em 1982, escreve Le Grand Tango para Violoncelo e Piano, dedicado ao violoncelista russo Mtislav Rostropovich e, fi-nal-men-te,  em 1983, o Teatro Colón de Buenos Aires, o local da música clássica na Argentina, convida-o para um concerto inteiramente dedicado a sua música. Para a ocasião, ele reúne o Conjunto 9 e sola em seu célebre Concerto para bandoneón e orquestra. Vencera os argentinos. Ou contornara os tradicionalistas.

No final da década de 80, Piazzolla lança mais uma extraordinária série de discos, desta vez nos EUA de sua infância: Tango Zero Hour, Tango Apasionado, La Camorra, Five Tango Sensations (com o Kronos Quartet), Piazzolla con Gary Burton, etc.

Em 1988, poucos meses após a gravação do que seria o último registro com o quinteto La Camorra, recebe quatro pontes de safena. Seguem os concertos até 4 de agosto de 1990, em Paris, onde sofre um acidente vascular cerebral. Morre em Buenos Aires em 4 de julho de 1992.

Hoje, basta caminhar pelas ruas de Buenos Aires para ouvir Piazzolla. Pode não ser uma música de sua autoria, mas sentimos sua presença. A notável forma como os músicos eruditos adotaram sua obra é também digna de nota, mas ela também influencia músicos populares como os japoneses do mama!milk…

eruditos brasileiros…

o multinacional nascido em Paris Gotan Project…

E os argentinos do Escalandrum, sensacional grupo do neto Daniel Piazzolla (baterista).

Com contribuições do site http://www.piazzolla.org/, de onde alguns trechos foram simplesmente traduzidos, e de muitas outras fontes que não saberia precisar.

Astor Piazzolla (1921-1992): The Piazzolla Project 2009

Com a devida permissão do nosso Grão Mestre PQPBach, trago para os senhores novamente essa pérola de gravação, um dos melhores registros da obra de Piazzolla que já tive a oportunidade de ouvir. A postagem original é de 2009.

Ando meio angustiado, sem tempo para nada, sequer para preparar postagens, a vida da gente virou de cabeça para baixo depois que adentramos neste período de pandemia. Até psicólogo estou consultando. 

Este CD de Piazzolla é tão bom quanto o do Kronos que postei ontem e traz obras mais conhecidas. Não conhecia nem o Artemis Quartet, nem o pianista Ammon. Mas, olha, são sensacionais. A gravação é recentíssima.

IM-PER-DÍ-VEL!!!

The Piazzolla Project 2009

1. Concierto Para Quinteto For Piano Quintet: Introduction, Allegro – Lento, Improvisando – Piu Vivo Fugato – Artemis Quartet/Jacques Ammon 9:48

2. Estaciones Portenas (Seasons In Buenos Aires) For Piano Trio: Otono Porteno – Tempo Di Tango – Artemis Quartet/Jacques Ammon 6:04
3. Estaciones Portenas (Seasons In Buenos Aires) For Piano Trio: Invierno Porteno – Andante – Artemis Quartet/Jacques Ammon 7:05
4. Estaciones Portenas (Seasons In Buenos Aires) For Piano Trio: Primavera Portena – Fuga – Artemis Quartet/Jacques Ammon 5:57
5. Estaciones Portenas (Seasons In Buenos Aires) For Piano Trio: Verano Porteno – Tempo Di Tango – Artemis Quartet/Jacques Ammon 6:40

6. Fuga Y Misterio For Piano Quintet: Movido – Lento – Artemis Quartet/Jacques Ammon 4:25

7. Suite Del Angel (Angel Suite) For String Quartet: Introduccion Al Angel – Tango, Moderato – Artemis Quartet 4:56
8. Suite Del Angel (Angel Suite) For String Quartet: Tango Del Angel – Tempo Di Tango – Artemis Quartet 4:37
9. Suite Del Angel (Angel Suite) For String Quartet: Milonga Del Angel – Melancolico – Artemis Quartet 6:45
10. Suite Del Angel (Angel Suite) For String Quartet: La Muerte Del Angel – Fuga, Movido – Artemis Quartet 3:36

Artemis Quartet
Jacques Ammon, piano

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PQPach atualizado por FDPBach, onze anos depois … !!!

Astor Piazzolla (1921-1992) – Cuatro Estaciones Porteñas, etc. – Leticia Moreno, Andrés Orozco-Estrada, LPO

A estonteante violinista espanhola Leticia Moreno não é apenas mais um rostinho bonito contratada pela poderosa Deutsche Grammophon. Ao contrário, é uma excepcional musicista, com uma técnica muito apurada, e não teme em encarar o genial Piazzolla neste espetacular CD, lançado em 2017. Mostra ao que veio com muita competência, e principalmente, ainda mais em se tratando do argentino, sensibilidade.
Já discutimos em outras ocasiões que Piazzolla exige sangue, suor e lágrimas. E a espanhola nos deixa literalmente arrepiados com sua performance. Ela conta com a cumplicidade do excelente Andrés Orozco-Estrada, jovem maestro colombiano / austríaco, que vem apresentando um trabalho muito consistente, que aqui está a frente da Filarmônica de Londres, orquestra que dispensa maiores apresentações.
Podemos classificar facilmente este CD como IM-PER-DÍ-VEL. Vale cada minuto de sua audição.

01. Cuatro Estaciones Porteñas – Arr. Desyatnikov Verano Porteño
02. Cuatro Estaciones Porteñas – Arr. Desyatnikov Otoño Porteño
03. Cuatro Estaciones Porteñas – Arr. Desyatnikov Invierno Porteño
04. Cuatro Estaciones Porteñas – Arr. Desyatnikov Primavera Porteña
05. Oblivion (Bandoneon Part Transcribed For Violin)
06. Concierto Para Quinteto (Guitar Part Transcribed For Harp)
07. Adios Nonino (Guitar Part Transcribed For Harp)
08. Le Grand Tango (Arranged For Violin And Piano)
09. La Muerte Del Ángel (Guitar Part Transcribed For Harp)
10. Milonga Del Ángel (Guitar Part Transcribed For Harp)

Leticia Moreno – Violin
Remy van Kesteren – Harp
Pablo Manetti – Bandoneon
Jose Gallardo – Piano
Janne Sakssala – Double Bass

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Leticia posou para foto na piscina da sede campestre do PQPBach em Madrid.

Martha Argerich & Friends – Live from Lugano Festival – 2008

Fiz uma pausa nas postagens dessa série da nossa amada Martha Argerich em seu Festival de Lugano para dar lugar às comemorações dos 210 anos de nascimento de Robert Schumann. Hoje trago mais um volume, mais três CDs que mostram todo talento e versatilidade desta excepcional artista.

Não preciso dizer o quanto Martha ama Schumann, tanto que temos aqui no primeiro CD a belíssima Sonata nº 2 para Violino e Piano, acompanhando o violinista Renaud Capuçon. Outro momento a destacar é sua parceria com o ex marido pianista Stephen Kovacevich, tocando uma peça de Mozart.

Mas o mais belo, lírico e pungente é o terceiro CD, onde abre tocando seu conterrâneo Piazzolla, em versões matadoras para dois pianos, claro que ele não poderia faltar, assim como Ravel. Martha distribui o repertório desta série entre seus convidados, alguns conhecidos, outros desconhecidos, dando chance e permitindo que sejam conhecidos.

A relação dos músicos envolvidos está no booklet em anexo.

Vamos ao que viemos?

CD 1
01. Variations (5) on an original theme for piano, 4 hands in G major, K. 501
02. Sonata for violin & piano No. 2 in D minor, Op. 121- 1. Ziemlich langsam – Le
03. Sonata for violin & piano No. 2 in D minor, Op. 121- 2. Sehr lebhaft
04. Sonata for violin & piano No. 2 in D minor, Op. 121- 3. Leise, einfach
05. Sonata for violin & piano No. 2 in D minor, Op. 121- 4. Bewegt
06. Piano Quintet in D major, Op. 51- 1. Allegro moderato
07. Piano Quintet in D major, Op. 51- 2. Andante con variazioni
08. Piano Quintet in D major, Op. 51- 3. Scherzo- Allegro vivace
09. Piano Quintet in D major, Op. 51- 4. Allegro moderato
10. Scherzo for 2 pianos, Op. 87

CD 2
01. Piano Trio No. 1 in C minor, Op. 8
02. Suite No. 1 (-Fantaisie-tableaux-) for 2 pianos in G minor, Op. 5- 1. Barcarolle
03. Suite No. 1 (-Fantaisie-tableaux-) for 2 pianos in G minor, Op. 5- 2. La Nuit
04. Suite No. 1 (-Fantaisie-tableaux-) for 2 pianos in G minor, Op. 5- 3. Les Larmes
05. Suite No. 1 (-Fantaisie-tableaux-) for 2 pianos in G minor, Op. 5- 4. Pâques
06. Concertino for piano, 2 violins, viola, clarinet, horn & bassoon, JW 7-11- 1
07. Concertino for piano, 2 violins, viola, clarinet, horn & bassoon, JW 7-11- 2
08. Concertino for piano, 2 violins, viola, clarinet, horn & bassoon, JW 7-11- 3
09. Concertino for piano, 2 violins, viola, clarinet, horn & bassoon, JW 7-11- 4
10. Slavonic Dance No. 1 for piano, 4 hands in C major, B. 78-1 (Op. 46-1)
11. Slavonic Dance No. 12 for piano, 4 hands in D flat major, B. 145-4 (Op. 72-4)
12. Slavonic Dance No. 7 for piano, 4 hands in C minor, B. 78-7 (Op. 46-7)
13. Slavonic Dance No. 10 for piano, 4 hands in E minor, B. 145-2 (Op. 72-2)

CD 3

01. Tres minutos con la realidad, tango
02. Oblivion, tango
03. Libertango, tango
04. Introduction & Allegro for harp, flute, clarinet & string quartet
05. Cuatro estaciónes porteñas (The Four Seasons), tango cycle- 1. Verano porteño
06. Cuatro estaciónes porteñas (The Four Seasons), tango cycle- 2. Otoño porteño
07. Cuatro estaciónes porteñas (The Four Seasons), tango cycle- 3. Invierno porteño
08. Cuatro estaciónes porteñas (The Four Seasons), tango cycle- 4. Primavera porteña
09. Fantasia elvetica (-Swiss Fantasy-), for 2 pianos & orchestra- 1. Maestoso
10. Fantasia elvetica (-Swiss Fantasy-), for 2 pianos & orchestra- 2. Tranquillo
11. Fantasia elvetica (-Swiss Fantasy-), for 2 pianos & orchestra- 3. Tempo di marcia – Andante
12. Fantasia elvetica (-Swiss Fantasy-), for 2 pianos & orchestra- 4. Tempo di polka – Piú vivo – Allegro

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Martha Argerich & Friends – Live from Lugano Festival 2003

Repostagem de uma original lá de 2016, para comemorar os 79 anos de Martha Argerich, essa verdadeira lenda do piano. Mesmo com a idade, continua em ação. Parabéns, Martha, é um grande privilégio ter acompanhado sua carreira nestas últimas quatro décadas. Estes três cds tem momentos brilhantes, mas prestem atenção aos Duos, op. 11, de Rachmaninov, em que ela faz parceria com Lilya Zilberstein. é absolutamente estonteante. Coisa de gênio. 

Após o choque inicial que a primeira postagem causou, vamos trazer a caixa referente ao ano de 2003. Esqueci de comentar em postagem anterior, mas o titulo deixa claro que o festival é de Música de Câmara. E o repertório explora obras dos séculos XVIII ao século XX. Papa finíssima, eu diria.

Os irmãos Capuçon, Gabriela Montero e Lilya Zilberstein serão presença frequente nestes CDs. A integração entre eles é única, coisa de gente que sabe o que faz.

Então vamos ao que viemos.

CD 1

01. Haydn – Piano Trio in G (Gypsy Rondo) – I. Andante
02. Piano Trio in G (Gypsy Rondo) – II. Poco adagio
03. Piano Trio in G (Gypsy Rondo) – III. Rondo all’ongarese Presto

Martha Argerich, Renaud Capuçon, Gautier Capuçon

04. Rachmaninov Six Duets op.11 – I. Barcarolle
05. Six Duets op.11 – II. Scherzo
06. Six Duets op.11 – III. Chanson russe
07. Six Duets op.11 – IV. Valse
08. Six Duets op.11 – V. Romance
09. Six Duets op.11 – VI. Slava (Gloria)

Lilya Zilberstein, Martha Argerich

10. Grieg Cello Sonata in A minor – I. Allegro agitato
11. Cello Sonata in A minor – II. Andante molto tranquillo
12. Cello Sonata in A minor – III. Allegro – Allegro molto

Gautier Capuçon, Gabriela Montero

CD 2

01. Arensky Piano Trio No.1 in D Minor Op.32 – I. Allegro Moderato – Adagio
02. Piano Trio No.1 in D Minor Op.32 – II. Scherzo Allegro Molto
03. Piano Trio No.1 in D Minor Op.32 – III. Elegia Adagio
04. Piano Trio No.1 in D Minor Op.32 – IV. Finale Allegro non troppo – Andante –

Polina Leschenko, Renaud Capuçon, Gautier Capuçon

05. Lutoslawsky  – Variations on a Theme by Paganini for two pianos
06. Franck Piano Quintet in F minor – I. Molto moderato quasi lento
07. Piano Quintet in F minor – II. Lento con molto sentimento
08. Piano Quintet in F minor – III. Allegro non troppo ma con fuoco

Martha Argerich, Giorgia Tomassi

CD Bônus

01. Piazzola Tangos Revirado
02. Tangos Adiós Nonino

Karin Lechner, Sergio Tiempo

03. Monteiro – Improvisation on a Theme from Beethoven´s First Piano Concerto

Gabriela Montero

04. Piazzola – Oblivion

Dora Schwarzberg, Jorge Andres Bosso
The Cello Concept

05. Rodrigues 0 La Cumparsita

Dora Schwarzberg, Jorge Andres Bosso
The Cello Concept

06. Music from the Gypsy, Hungarian and Romanian Traditions – I
07. Music from the Gypsy, Hungarian and Romanian Traditions – II
08. Music from the Gypsy, Hungarian and Romanian Traditions – III

Géza Hosszu-Legocki, The Five DeVils

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O que podemos falar de Martha Argerich que ainda não tenha sido falado? Parabéns, Martha !!!

A Quatro Mãos: Reimagine – Anderson & Roe Piano Duo

71nqPbHmeIL._SX355_Fred Astaire e Ginger Rogers transpostos da pista de dança para o teclado“.

Só este veredito acerca do trabalho do duo pianístico de Greg Anderson e Elizabeth Joy Roe já bastaria, cauteloso que sou acerca das sensibilidades da ala ultrarradical de nossos leitores-ouvintes, para colocar um sinal de .:interlúdio:. na frente do título. O duo Anderson & Roe, afinal, é jovem, bem-apessoado, bastante performático nos palcos, faz sucesso entre públicos que jamais sonhariam em escutar música para dois pianistas e, sacrilégio talvez maior ainda, usam amplamente a internet para granjearem sua fama.

Não coloquei qualquer ressalva .:interlúdica:., incluí os jovens em meio a gravações de Argerich, Barenboim e Lupu, e já ouço, por isso, os tomates zunindo em minha direção. Apresso-me em alcançar-lhes o contraponto: estes dois egressos da Juilliard School são excelentes pianistas, ótimos arranjadores e, de quebra, ainda têm um sensacional trabalho de duo. Vê-los tocando (e convido os leitores-ouvintes a explorarem a cybersfera para tanto) é se embasbacar com a precisão com que esses jovens dividem um teclado, entrecruzando as mãos de maneiras que não parecem fisiologicamente plausíveis, e a clareza que mantêm linhas melódicas que mesmo grandes pianistas deixam nubladas. Talvez falte um tanto de “peso” a este CD, que, à exceção da boa interpretação para a “Sagração da Primavera” de Stravinsky, é um bonito balaio de gatos composto tão só de transcrições e paráfrases de curtas obras alheias. O duo lançou posteriormente álbuns mais coesos, entre os quais um primoroso “The Art of Bach” que, depois que eu sair da base da pilha de pedras, eu postarei para vocês se os bramidos nas caixas de comentários não forem tão ferozes.

ANDERSON & ROE – REIMAGINE

01 – “Danse Macabre (remix)”, sobre “Dança Macabra, Poema Sinfônico Op. 40 de Charles-Camille SAINT-SAËNS (1835-1921)

02 – “The Swan”, sobre “O Cisne” de “O Carnaval dos Animais”de Charles-Camille SAINT-SAËNS (1835-1921)

03 – “A New Account of the Blue Danube Waltzes”, baseado em “An die schönen blauen Donau”, Op. 314 de Johann STRAUSS, filho (1825-1899)

04 – “The Cat’s Fugue”, sobre o tema da Sonata em Sol menor, K. 40, “A Fuga do Gato”, de Giuseppe Domenico SCARLATTI (1685-1757)

05 – Libertango, sobre obra de Astor Pantaleón PIAZZOLLA (1921-1992)

06 – “The Cuckoo in Sussex”, sobre “Le Coucou” de Louis-Claude DAQUIN (1694-1772)

07 – “Erbarme dich”, sobre ária da “Paixão segundo Mateus” de Johann Sebastian BACH (1685-1750)

Igor Fyodorovich STRAVINSKY (1882-1971)

A Sagração da Primavera, para dois pianos
08 – Introduction to Part I
09 – The Augurs of Spring
10 – Ritual of Abduction
11 – Spring Rounds
12 – Ritual of the Two Rival Tribes
13 – Procession of the Oldest
14 – The Kiss of the Earth
15 – The Dancing Out of the Earth
16 – Introduction to Part II
17 – Mystic Circle of the Young Girls
18 – Glorification of the Chosen One
19 – Evocation of the Ancestors
20 – Ritual Actions of the Ancestors
21 – Sacrificial Dance

Charles-Camille SAINT-SAËNS (1835-1921)
22 – Danse Macabre, Op. 40 (arranjo de Anderson & Roe)

Greg Anderson e Elizabeth Joy Roe, pianos e arranjos

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Eu disse que eles eram performáticos!
Eu disse que eles eram performáticos!

 

Vassily Genrikhovich

A Família das Cordas: Playing for the World – The New Violin Family

newviolinfamilyPois a história de Grigoriy Sedukh e seus violinos miúdos não parou em sua gravação que apresentamos ontem: esses instrumentos são apenas três duma série de oito, concebidos e confeccionados pela luthier Carleen Hutchins para reproduzir, em diferentes tamanhos, as qualidades sônicas do violino.

A luthier buscava criar um conjunto de instrumentos, ao estilo dos consorts de violas do século XVII, que tivessem características sonoras homogêneas, baseadas no violino. Seu trabalho, que envolveu colaboração com físicos, resultou num octeto de instrumentos que vão do sopranino ao contrabaixo, mas que são, essencialmente, violinos.

octet horizontal

Um desses instrumentos, o violino contralto, foi usado por Yo Yo Ma para tocar o Concerto para viola de Bartók, com recepção mista. Alguns saudaram o som como “revelador”, mas muita gente estranhou. A riqueza de timbre da viola se perde em prol de mais brilho e projeção, que é… bem, justamente aquilo que a gente não espera de uma viola.

Não obstante, várias instituições dedicam-se à divulgação do legado de Hutchins, alguns com devoção quase religiosa a sua figura, e comissionando novas composições para o peculiar conjunto instrumental.

Sério: olhem o T A M A N H O do violino contrabaixo!!!
Sério: olhem o T A M A N H O do violino contrabaixo!!!

Nesse álbum, gravado no que parece ser um congresso da The New Violin Family Association, várias peças de exibição são tocadas nos diversos instrumentos do octeto. A qualidade um tanto precária da gravação deixa para a nossa imaginação muito do tão apregoado brilho desses novos instrumentos, mas ouvir a Fantasia de Vaughan Williams tocada por eles, numa massa sonora mais homogênea que uma orquestra de cordas moderna, faz pensar que o sonho de Hutchins pode ter virado realidade.

Mais sobre a The New Violin Family Association em seu sítio na grande rede.

THE NEW VIOLIN FAMILY – PLAYING FOR THE WORLD

Johann Sebastian BACH (1685-1750)
01 – Suíte no. 2 em Si menor, BWV 1067 – Badinerie

Jean-Marie LECLAIR (1703-1777)
02 – Sonata em Mi maior – Adagio

Johann Sebastian BACH
03 – Concerto em Ré menor para dois violinos e orquestra, BWV 1043 – Largo

Marin MARAIS (1656-1728)
04 – L’Agréable

05 – Improvisação de Stephen Nachmonavitch e Sera Smolen

Jules Émile Frédéric MASSENET (1842-1912)
06 – Thaïs – Méditation

Diana GANNETT (1947)
07 – Simple Grace

Pyotr Ilyich TCHAIKOVSKY (1840-1893)
08 – Evgenyi Onegin, Op. 24 – Ária de Lensky

Ottorino RESPIGHI (1879-1936)
09 – Danze ed Arie Antiche – Danza d’il Conte Orlando

George GERSHWIN (1898-1937)
10 – Porgy and Bess – Summertime

Ástor Pantaleón PIAZZOLLA (1921-1992)
11 – Libertango

Ralph VAUGHAN WILLIAMS (1872-1958)
12 – Fantasia em vinte e três partes sobre um tema de Tallis

Albert Consort
Hutchins Consort
The New Violin Family Association Festival Orchestra

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A família completa
A família completa

Vassily Genrikhovich

Astor Piazzolla (1921-1992) – Soul of the Tango – The Music of Astor Piazzolla – Yo-Yo Ma

A despeito do destaque na capa, o ótimo Yo-Yo Ma não tem tanto protagonismo neste álbum de pérolas de Astor Piazzolla. Com a reverência que lhe é tão própria, ele se alinha a grandes nomes do tango, ao Duo Assad e, notavelmente, ao próprio Astor Piazzolla (no dueto “Tango Rememberances”, cujas partes foram gravadas com dez anos de diferença) para render tributo ao mestre argentino. Claro que há muito mais em sua obra desenfreada do que cabe num só CD, e que existem roupagens muito mais radicais dessas composições já tantas vezes regravadas. Ainda assim, o que ouvimos nesta “Alma do Tango” é uma tremenda introdução a Piazzolla, com um belíssimo “Libertango” que eu deixaria tocando em loop pelo resto dos meus dias.

YO-YO MA – SOUL OF THE TANGO – THE MUSIC OF ASTOR PIAZZOLLA

Astor Pantaleón PIAZZOLLA (1921-1992)

1 – Libertango

2 – Tango suite, para dois violões: Andante

3 – Tango suite, para dois violões: Allegro

4 – Regreso al Amor (da trilha sonora do filme “Sur”)

5 – Le Grand Tango

6 – Fugata

Astor Pantaleón PIAZZOLLA e Jorge CALANDRELLI (1939)

7 – Tango Rememberances

Astor Pantaleón PIAZZOLLA

8 – Mumuki

9 – Tres Minutos con la Realidade

10 – Milonga del Ángel

11 – Café 1930

Yo-Yo Ma, violoncelo

Astor Piazzolla, bandoneón (faixa 7)

Sergio e Odair Assad, violões

Kathrin Scott, piano

Nestor Marconi, bandoneón

Antonio Agri, violino

Horacio Malvicino, violão

Hector Console, contrabaixo

Leonardo Marconi, piano

Gerardo Gandini, piano

Frank Corliss, piano

Edwin Barker, contrabaixo

Jorge Calandrelli, direção musical

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Vassily

De quando Piazzolla aprendeu a fazer caipirinha, por Beto Barreiros (https://www.revistaversar.com.br/memorias-do-box-quando-astor-piazzolla-aprendeu-a-fazer-caipirinha/)

 

 

 

 

 

Piazzolla (1921-92) / Ustvolskaya (1919-2006) / Schnittke (1934-98) / Schnittke: Le Grand Tango / Grand Duet / Cello Sonata No. 2 / Epilogue

Piazzolla (1921-92) / Ustvolskaya (1919-2006) / Schnittke (1934-98) / Schnittke: Le Grand Tango / Grand Duet / Cello Sonata No. 2 / Epilogue

RostroIM-PER-DÍ-VEL !!!

Vamos voltar à Rússia com o Grand Duet (1959) para violoncelo e piano de Galina Ustvolskaya. A compositora, morta em 2006, teve um caso amoroso com Shostakovich; talvez um pouco traumático, já que aquela, nos últimos anos de sua vida, vilipendiava a imagem do compositor. A mulher era o cão e sua música retrata bem essa personalidade. O Grand Duet tem cinco movimentos com nenhum momento de alívio ou encanto. Uma obra genial por sua economia e sonoridade. No disco ainda temos a Sonata Nº 2 para Cello e Piano de Alfred Schnittke, no mesmo nível de “humor”. Já Epilogue, também de Schnittke, é uma OBRA-PRIMA. Engraçado é encontrar no início do disco uma peça de Piazzola; bem fora do contexto, mas ótima. A interpretação de Rostropovich é esplêndida.

Piazzolla (1921-92) / Ustvolskaya (1919-2006) / Schnittke (1934-98) / Schnittke: Le Grand Tango / Grand Duet / Cello Sonata No. 2 / Epilogue

1 Le Grand Tango
(Composed By – Piazzolla) 9:33
Mstislav Rostropovich (cello), Igor Uriash (piano)

Grand Duet
(Composed By – Ustvolskaya)
2 Quaver = 276 3:07
3 Crotchet = 120 2:29
4 Crotchet = 116 3:00
5 Crotchet = 160 1:45
6 Crotchet = 112 13:20
Mstislav Rostropovich (cello), Alexei Lubimov (piano)

Cello Sonata No. 2
(Composed By – Schnittke)
7 I. Senza Tempo 4:11
8 II. Allegro 2:05
9 III. Largo 4:26
10 IV. Allegro 3:41
11 V. Lento 2:26
Mstislav Rostropovich (cello), Igor Uriash (piano)

12 Epilogue For Cello, Piano And Tape (From The Ballet, Peer Gynt)
(Composed By – Schnittke) 25:49
Mstislav Rostropovich (cello), Igor Uriash (piano)

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Galina Ustvolskaya. Shosta se ligou nela e deixou a fera ferida.
Galina Ustvolskaya: a crush de Shosta que virou fera.

CDF

Astor Piazzolla (1921-1992): Sinfonía Buenos Aires, Concierto para Bandoneón, Las Cuatro Estaciones Porteñas

Astor Piazzolla (1921-1992): Sinfonía Buenos Aires, Concierto para Bandoneón, Las Cuatro Estaciones Porteñas

Piazzolla SBAUm pouco antes de sofrer a trombose cerebral que o matou, Piazzolla se apresentou no Brasil, mas infelizmente não tive a oportunidade de vê-lo no Teatro Municipal de São Paulo pelo simples fato de já se terem esgotados os ingressos. Uma curiosidade: no dia desta apresentação, no final de 1989, ocorreu um eclipse lunar. Nunca esqueci deste detalhe, e hoje, ou melhor, nesta madrugada de 20 para 21 de dezembro de 2010, início de verão no hemisfério sul, teremos novamente um eclipse lunar. Uma amiga jornalista teve a oportunidade de assistir a este espetáculo. Contou no dia seguinte que quando acabou a apresentação, ao sair do Teatro, viu o eclipse ocorrendo. Ela e diversos outros espectadores, ainda anestesiados pelo magnífico espetáculo que tinham assistido, sentaram-se nas escadarias do Teatro e ficaram olhando para o céu, observando aquele outro espetáculo, desta vez da natureza.

Minha relação com a música de Astor Piazzolla é de longa data. Meu primeiro contato foi com um disco absolutamente magnífico, no qual interpreta a inesquecível “Balada para un Loco”, cantada por sua eterna musa, Amelita Baltar. Posteriormente tive acesso a outros discos, e a admiração só cresceu.

Este disco que ora posto não é o melhor, nem a interpretação é das melhores, apesar das 4 estrelas e meia dadas pela Amazon. Mas é Piazzolla. Particularmente prefiro ele mesmo interpretando sua obra, mas vamos dar chance aos outros. Eles também tem o direito de explorar a genialidade de sua música, de tentar buscar no fundo de suas almas a emoção que ela exige ao ser interpretada. Em minha opinião, falta a alma latina na interpretação desta Orquestra de Nashville.

Mas há curiosidades nos arranjos para As 4 Estações Portenhas: há refrescantes citações de Vivaldi em cada movimento. Assim, os verões e invernos e primaveras e outonos de ambos os compositores se misturam. Fica bonito.

Assim que possível trago mais música deste monstro sagrado da música do século XX. Não posso apenas rotulá-lo como um músico de tango. Ele foi muito mais do que isso.

Astor Piazzolla (1921-1992): Sinfonia Buenos Aires, Concierto para Bandoneón, Las Cuatro Estaciones Porteñas

1. Sinfonía Buenos Aires, for orchestra: 1. Moderato – Allegretto
2. Sinfonía Buenos Aires, for orchestra: 2. Lento, con anima
3. Sinfonía Buenos Aires, for orchestra: 3. Presto marcato

4. Concerto for bandoneón & orchestra: 1. Allegro marcato
5. Concerto for bandoneón & orchestra: 2. Moderato
6. Concerto for bandoneón & orchestra: 3. Presto

7. Cuatro estaciónes porteñas (The Four Seasons), tango cycle: Otoño Porteno (Autumn)
8. Cuatro estaciónes porteñas (The Four Seasons), tango cycle: Inviero Porteño (Winter)
9. Cuatro estaciónes porteñas (The Four Seasons), tango cycle: Primavera Porteña (Spring)
10. Cuatro estaciónes porteñas (The Four Seasons), tango cycle: Verano Porteño (Summer)

Daniel Binelli – Bandoneón
Tianwa Yang – Violin
Nashville Symphony Orchestra
Giancarlo Guerrero – Conductor

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Astor Piazzolla
Astor Piazzolla

FDPBach

.: interlúdio :. Astor Piazzolla: Angeles Y Diablos

.: interlúdio :. Astor Piazzolla: Angeles Y Diablos

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IM-PER-DÍ-VEL !!!

É curioso. A esmagadora maioria dos grupos atuais que se dedicam a releituras de Piazzolla tratam de amenizá-lo. Alguns comentaristas chegam a dizer que o executante mais selvagem de Piazzolla é o próprio. Tal conceito não pode ser atribuído ao Isabelle van Keulen Ensemble. O grupo da violinista é um dos que mais se aproximam das concepções do autor. Eu curti demais. Em 1961, o escritor Alberto Rodriguez Muñoz se aproximou de Piazzolla com um pedido para que ele escrevesse música para sua peça Tango del angel, sobre um anjo que aparece em um bloco de apartamentos em Buenos Aires para limpar as almas de seus habitantes. Foram criadas as peças Introducción al ángel, Milonga del ángel e Muerte del ángel. Esta última, uma fuga de quatro partes com harmonias e ritmos duros, mostra de forma impressionante até que ponto Piazzolla forçaram as fronteiras do tango tradicional. A coisa surpreende até hoje. Eu acho outras peças — como Romance Del Diablo e Milonga del Angel — ultra sensuais, nossa. Mas eu tenho cruza com o Diabo, não adianta. E o que dizer das maravilhosas e Fuga y MisterioMuerte Del Ángel?

Astor Piazzolla: Angeles Y Diablos

1 Allegro Tangabile 3:04
2 La Camorra I 9:10
3 Romance Del Diablo 5:58
4 Vayamos Al Diablo 2:52
5 Tango Del Diablo 4:16
6 Poema Valseado 3:18
7 Fuga Y Misterio 4:49
8 Introducción Al Ángel 4:42
9 Milonga Del Ángel 6:11
10 Muerte Del Ángel 2:57
11 Resurrección Del Ángel 6:52

Isabelle van Keulen Ensemble
Bandoneon – Christian Gerber
Double Bass – Rüdiger Ludwig
Piano – Ulrike Payer
Violin – Isabelle van Keulen

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Tom Jobim?
Tom Jobim?

PQP

.:interlúdio:. Fernando Suárez Paz – Cuerdas para Piazzolla

Lá vem ele com mais um Piazzolla: eis o que todos estão dizendo. Aviso que o engano é verdadeiramente ledo! Não venho outra vez naufragar no rio de conhaque e rosas do mestre argentino. O boêmio aposentou as chuteiras (até o próximo episódio). No entanto, que me inspire Heráclito de Éfeso, não se trata aqui nem do mesmo rio nem do mesmo homem! Mas de outro muito chegado ao mestre. O fabuloso e incomparável violinista Fernando Suárez Paz, com um dos mais belos discos que podemos conhecer neste mundo – se é que haveria outro; e havendo, que valha à pena por conter a música que por aqui vicejou. Paz, fidelíssimo comparsa de grandes e maravilhosos estragos nas almas inebriadas pela beleza. Que com o seu violino e junto ao mago do bandoneón bordou com fina agulha e fio de ouro belos arabescos nos músculos cardíacos de tantos pobres coitados como este que vos fala.

xqb0irO violino! Ah, o violino, este nosso tão amado e rutilante comensal! Que perpassa como um espectro, porém sem jamais ser mencionado, pela obra do bardo de Avon, William Shakespeare – Bill Shaks, para os íntimos. Dando tratos ao que me resta de memória após inúmeras circum-navegações etílicas e musicais, me recordo de que o gentilíssimo bardo se refere muitas vezes a diversos instrumentos, como violas, flautas – que por vezes trata como tubos; trombetas, tambores e alaúdes… Este último, o príncipe das cordas dedilhadas, companheiro de menestréis e romançais, advindo dos longínquos e mágicos desertos das mil e uma noites. O bardo inglês o define como ‘um instrumento belo e frágil, que funciona permanentemente à beira do colapso’. Ora, que melhor definição para o violino? Que tanto quanto o seu primo mourisco também vibra em virtude da tensão de retesadas cordas, na iminência da explosão, feridas pela crina de Pégaso! Se bem recordo está em ‘Muito Barulho para Nada’ uma inspirada observação que reflete sobre o poder da música: ‘Não é estranho que as tripas de ovelha retesadas sobre a madeira afetem a alma humana?’ Amigos, sobre isso, e conhecendo-nos como os melômanos que somos, dispenso quaisquer argumentos sobre a veracidade desta lapidar reflexão shakespeariana.

Fernando Suárez Paz (1941) nasceu em Ramos Mejía, uma província de Buenos Aires. Ingressou bastante jovem na Orquestra Sinfônica Juvenil da Rádio del Estado, mais tarde na Sinfônica Nacional e por quase vinte anos esteve entre os primeiros violinos da Orquestra Filarmônica de Buenos Aires. Tendo começado a tocar com cinco anos, quando seu pai lhe presenteou com um violino – apesar de acalentar o sonho que o rebento seguisse a medicina, como invariavelmente acontece. Não sabia ele que o violino do filho seria o que se costuma chamar de médico de almas – quando não está causando colapsos. Paz logo cedo também ingressou no universo do Tango e tocou com as mais representativas orquestras; sendo o nome mais requisitado como principal violino para as orquestras de diversos e famosos maestros que aportaram na Argentina: Lalo Schifrin, Burt Bacharach, Michael Legrand… Foi em 1978 que Paz foi convocado por Astor Piazzolla para integrar o seu Quinteto Nuevo Tango, no qual atuaria por dez anos e através do qual Paz apareceu para o mundo. Até 1988 gravariam dezoito álbuns, com diversos trabalhos em estúdio, trilhas sonoras, concertos internacionais e festivais como o de Montreux ao lado do vibrafonista Gary Burton. Em 1991 Paz foi o solista do ‘Concierto de Nácar’ de Astor, junto à Orquestra Filarmônica de Buenos Aires. Neste mesmo ano foi nomeado membro da Academia Nacional do Tango e ainda neste mesmo ano gravou este soberbo disco que aqui se apresenta. Esta é apenas uma parte da trajetória desse imenso artista que felizmente está ainda entre nós e a produzir beleza.

2naqxa8A ele Astor dedicou a difícil peça Escualo – tubarão, pois que Astor adorava pescar esta adorável espécie aquática. Segundo Paz, Astor a dedicara com amor, porém, a dificuldade da peça não lhe parecia nada amorosa. É uma peça bastante impressionista, na qual podemos quase que ver o animal em sua sanha voraz, coleios e ataques; algo que funciona até melhor do que aquele filmezinho famoso de décadas atrás. Outra faixa das mais impressionantes é a Fuga y Mistério, uma fuga-tango, ou vice-versa. Complexa, erudita, bela, brilhante, que me recorda o que Beethoven intentava com relação à fuga, que era dotar este gênero com algo mais, um conteúdo poético para além do engenho contrapontístico. ‘Anõs de soledad’, tema de incrível beleza vindo do celebrado disco que Astor gravou com Gerry Mulligan. ‘Invierno Portenho’, um dos mais belos momentos de sua ‘Suíte Porteña’. Todas as demais faixas são belas e arrebatadoras. Um disco raro, imperdível. Como somos felizes em saber que existe mais música entre a terra e o céu do que podemos sonhar!

Cuerdas para Piazzolla

  • Decaríssimo
  • Invierno Porteño
  • 3 minutos com la realidade
  • Final – entre Brecht et Brel
  • Fuga y Mistério
  • Concierto para Quinteto
  • Años de Soledad
  • Escualo
  • Inédito

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El Maestro ao violino, arrebatador.
El Maestro ao violino, arrebatador.

 

Wellbach

.:interlúdio:. Astor Piazzolla – “El Infierno tan Temido”

.:interlúdio:. Astor Piazzolla – “El Infierno tan Temido”

Confesso que bebi. Não, não aludo a um simpático livro do cartunista Jaguar, que por sua vez alude a Neruda. Jurei, sim, por São Gregório Magno e Santa Hildegarda von Bingen que bastava de Piazzolla; que afastaria de mim esse cálice de perdição. Ora, mas por que tanto alarde em torno de Piazzolla? São apenas truques sonoros envolvendo sequências harmônicas, dominantes secundárias, cromatismos e ostinatos, artifícios rítmicos e percussivos, melodias lancinantes… Certa vez até me disseram que ele nem seria lá grande coisa (!) – assevero que quando ouvi isso não estava bêbado ainda, mas depois tive de ficar. Mas bebi e vou vivendo, e como dizia o samba famoso, tem gente que não bebe e está morrendo. Um dois, três tragos de tanguedias – lembrando Platão: ‘duas e três vezes ainda, a beleza.’ Acho que esse texto está um escrito de bebum. ‘E dai?’, diz ainda o fantasma do velho Platão. Ok, zoopsia talvez, somente porque estou a divisar um casal de centopeias dançando tango vão dizer que é Delirium Tremens, mas diante desse transe apoteótico trago em meu socorro o Sr. Fernando Antônio Nogueira Pessoa, mestre absoluto da poesia e também exímio bebedor:

D.T. – Delirium Tremens – Poema alcoólico (ou pós-alcoólico)

Na realidade outro dia,
Batendo o meu sapato na parede
Matei uma centopeia
Que lá não estava de forma alguma.
Como é que pode?
É muito simples, como vê
Só o início do D.T.
Quando o jacaré cor-de-rosa
E o tigre sem cabeça
Começam a crescer
E exigir serem alimentados.
Como não tenho sapatos
Para os matar
Penso que devo começar a pensar:
Será que eu deveria parar de beber?

Quando as centopeias vierem,
Sem problema
Posso vê-las bem,
Até duplicadas!
Mando-as para casa
Com meu sapato
E, quando todas forem para o inferno,
Irei também.
Então, como um todo
estarei verdadeiramente feliz,
Porque com um sapato Real e verdadeiro
Matarei a verdadeira centopeia:
Minha perdida alma…

Fernando Pessoa – 1935

4kwy7sOra, já confessei minha piazzollatria e minha condição de Farrapo Humano à Billy Wilder por culpa do bandoneon de Mister Pantaleón e do seu violinista, aquele impiedoso reciário de corações chamado Fernando Suares Paz – que Deus o conserve! Estou ébrio, como o celebérrimo pau d’água de Vicente Celestino. Todavia, como dizia Graham Greene, “sempre existe um lugarzinho para os bêbados no coração das pessoas”. E como se não bastasse encontro também alento nas quadras (Rubaiyat) daquele gentilíssimo astrônomo, matemático e doce poeta persa de um milênio, o Omar. É, Omar Khayyam!

“Olha com indulgência aqueles que se embriagam: os teu defeitos não são menores. Se queres paz e serenidade, lembra-te da dor de tantos outros, e te julgarás feliz.”

“Busca a felicidade agora, nada sabes do amanhã. Apanha um grande copo repleto de vinho, senta-te ao luar e pensa: Talvez amanhã a lua me procure em vão.”

“Bebe o teu vinho. Vais dormir muito tempo debaixo da terra. Sem amigo ou amores. Confio-te um grande segredo: não reflorescem as tulipas murchas.”

“Vinho, bálsamo para o meu coração doente. Vinho da cor das rosas, vinho perfumando, para calar a minha dor. Vinho e o teu alaúde de cordas de seda, minha amada.”

“Do meu túmulo se erguerá um tal perfume de vinho que embriagará os passantes; e será tal a serenidade que dele não conseguirão se apartar os amantes.”

“Alguns amigos me dizem: Não bebas mais, Khayyam! Respondo: Quando bebo ouço o que me dizem as rosas, as tulipas, os jasmins: ouço até o que não diz a minha amada.”

“O vinho te dá o calor que te falta, suaviza o julgo do passado e te alivia das brumas do futuro. Inunda-te de luz e te liberta desta prisão.”

“Cansado de indagar aos sábios, indaguei à taça: Para onde irei depois da morte? Ela de respondeu murmurando: Bebe em minha boca. Bebe longamente: Não voltarás.”

2r6nz4mDiante disso, que pensar? Quem poderia condenar-me o vício? Que círculo dantesco me poderia requisitar? Talvez não um inferno dantesco, mas um piazzolesco! Este belo disco chama-se “El infierno tan temido”. Ah, se o inferno for isso, que me aguarde com escancarados portais; e que sobre eles se escrevam o dístico famoso na Comédia da “águia dos latifúndios florentinos” – no dizer de Augustinho dos Anjos; serei tão indiferente quanto o seria Khayyam. Astor escreveu inúmeras trilhas sonoras e esta foi para uma película de 1980, “El infierno tan temido” dirigida por Raúl de la Torre, diretor de filmes que misturam tango com erotismo – nada mais eloquente. Por sua vez, o título advém de um poema que figura em um conto do escritor uruguaio Juan Carlos Onetti:

No me mueve, mi Dios, para quererte 
el cielo que me tienes prometido, 
ni me mueve el infierno tan temido
para dejar por eso de ofenderte. 
Tú me mueves, Señor, muéveme el verte 
clavado en una cruz y escarnecido, 
muéveme ver tu cuerpo tan herido, 
muévenme tus afrentas y tu muerte. 
Muéveme, en fin, tu amor, y en tal manera, 
que aunque no hubiera cielo, yo te amara, 
y aunque no hubiera infierno, te temiera. 
No me tienes que dar porque te quiera, 
pues aunque lo que espero no esperara,
lo mismo que te quiero te quisiera.

Não falarei da música do disco, não é preciso. Basta somente sentar-se ao luar como Khayyam e ouvir mais este espetáculo do mestre argentino; com vinho, whisky, cerveja ou cachaça, pois que a ordem dos fatores não altera o produto. Vale enfim embriagar-se nesta beleza e bronzear-se nesse inferno sonoro – e que este fogo seja eterno, in saecula saeculorum, amém!

Dedico esta postagem ao amigo de aventuras musicológicas e enológicas, o musicólogo uruguaio-bahiano Pablo Sotuyo Blanco.

Astor Piazzolla – El infierno tan temido
1 El infierno tan temido, part 1
2 El infierno tan temido, part 2
3 El infierno tan temido, part 3
4 El infierno tan temido, part 4
5 Isa Rizzo, part 1
6 Isa Rizzo, part 2
7 Tema di Grazia, part 1
8 Tema di Grazia, part 2
9 Tema di Grazia, part 3
10 Tema di Grazia, part 4
11 Tema di Grazia, part 5
12 Desesperado
13 Gracia alegre
14 Tangueria, part 1
15 Introduzione
16 Tangueria, part 2
17 Tangueria, part 3
18 Gracia Amor
19 Tema di Grazia, part 6
20 Effetti
21 Fotografia (solo bandoneon)
22 Final (solo bandoneon)

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O Sr. Fernando Antônio Nogueira Pessoa, "em flagrante delitro"
O Sr. Fernando Antônio Nogueira Pessoa, “em flagrante delitro”

Wellbach

.: interlúdio :. Daniel Barenboim, Rodolfo Mederos e Hector Console dão show de Piazzolla

mi-buenos-aires-querido-tangos-among-friendsTangos

Daniel Barenboim, ao piano
Rodolfo Mederos, ao bandoneón
Hector Console, no baixo

 

Uma coleção de tangos, dos mais refinados e nostálgicos, interpretados por 3 monstros sagrados: Daniel Barenboim, ao piano, diretor da  Chicago Symphony Orchestra de 1991 a 2006, nascido na Argentina onde viveu até seus 9 anos de idade; Rodolfo Mederos, ao bandoneón, que por muitos anos tocou com Piazzolla, e Hector Console, no baixo, considerado um dos melhores intérpretes de Piazzolla, com quem tocou por muitos anos, também.

A inspiração clássica de Barenboim brilha na sua performance ao piano, e o sabor do tango é ditado pelo bandonéon de Rodolfo Mederos, evocando a doce melancolia de lembranças passadas, principalmente em Adiós Nonino. A coleção também inclui uma das mais refinadas interpretações de El Dia Que Me Quieras.

Viaje pelos tangos imortais da “Guardia Vieja” como Gardel e Troilo (Pichuco), através do genial Ginastera e se delicie com o revolucionário Astor Piazzolla.

Tudo temperado com o molho de Piazzolla.

1. Mi Buenos Aires Querido (Gardel, Le Pera)
2. Verano Porteño (Astor Piazzolla)
3. La Moza Donosa (Alberto Ginastera)
4. Don Agustin Bardi (Horacio Salgan)
5. Tzigane Tango (Astor Piazzolla)
6. Invierno Porteño (Astor Piazzolla)
7. Aquellos Tangos Camperos (Ubaldo De Lio, Horacio Salgan)
8. Adiós Nonino (Astor Piazzolla)
9. El Dia Que Me Quieras (Gardel, Le Pera)
10. Primavera Porteña (Astor Piazzolla)
11. A Fuego Lento (Horacio Salgan)
12. Otoño Porteño (Astor Piazzolla)
13. Contrabajeando (Astor Piazzolla, Anibal Troilo)
14. Bailecito (José Resta)

Mi Buenos Aires Querido – Tangos Among Friends – 1996
Daniel Barenboim (piano)
Rodolfo Mederos (bandoneón)
Héctor Console (Bass)

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE
MP3 320 kbps – 108,3 MB – 51,6 min
powered by iTunes 12.5.1

Boa audição!

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Avicenna

.:interlúdio:. Astor Piazzolla – “The Roug Dancer and the Cyclical Night” (Tango Apasionado).

.:interlúdio:. Astor Piazzolla – “The Roug Dancer and the Cyclical Night” (Tango Apasionado).

Confissões de um Piazzóllatra Anônimo: Com esta postagem imagino que fica bem clara a minha condição de viciado, junky, em Piazzolla; como diria Augusto dos Anjos, “como o ébrio ama a garrafa tóxica de rum”, naufrago na dipsomania da música de Astor. Porque me faz bem? longe disso, é como 15 rounds contra Cassius Clay! Masoquismo musical? Talvez, se é que algum maluco psicanalista freudiano descobriu essa anomalia. Me recordo de algo que escreveu o acerbo-cômico filósofo romeno Cioran: “Com as tuas veias repletas de noites jazes como um epitáfio em meio a um circo”. É por aí a minha relação com essa música dilacerante e este texto assume um tom confessional: Sim, de viciado, que ao três anos descobriu o paraíso artificial da garrafa de Maracujina que ficava em um móvel ao meu alcance; e que ingeria goma-arábica e cabeças de palitos de fósforo… Triste sina a de um drogado. E que mais tarde, achando-se salvo do abismo, se depara com um bandoneón lancinante, capitoso, hipnótico, deletério… Sou mesmo o que Billy Wilder chamaria de Farrapo Humano. É fácil para os que não são afetados pela isca da beleza. Ah, a beleza! Nos estupores opiáticos das milongas me ressoam as linhas de Baudelaire, seu soneto à beleza ‘La Beauté’: “Eu sou bela, ó mortais! como um sonho de pedra.” Ou ainda, do mesmo vate boêmio curtido em absinto e papoulas, o seu Hino à Beleza: “Vens tu do céu profundo ou sais do precipício, Beleza? Teu olhar, divino porém daninho, Doidamente verte o bem e o malefício, E podemos por isso comparar-te ao vinho!” Eis que em meu socorro, para justificar meu fado, me vêm as palavras do grande Wilde: “A beleza é uma forma da genialidade, aliás, é superior à genialidade na medida em que não precisa de comentário. Ela é um dos grandes fatos do mundo, assim como a luz do Sol, ou a primavera, ou a miragem na água escura daquela concha de prata que chamamos de lua. Não pode ser interrogada, é soberana por direito divino.” Voilà! Non, rien de rien, non, je ne regrette rien! Não me arrependo de nada e vou afundar os dois pés na jaca, chafurdar no lodo de conhaque e mirra da música de Piazzolla até a consumação dos séculos. Ufa! O que cachaça não faz! Este é mais um disco lindo, impactante, como tantos outros de Astor, porém me parece que traz peculiaridades, com um destaque para o fenomenal músico cubano Paquito d’Rivera, que participa da gravação! A obra foi composta para um espetáculo idealizado e dirigido pela coreógrafa argentina Graciela Daniele em NY. Por mais que pesquisasse não encontrei o enredo da peça. Sei que o disco traz dois títulos: “O dançarino rude e a noite cíclica” e “Tango Apaixonado”. Não saber da temática é até melhor, pois ouvir a música nos leva a impressões talvez mais interessantes do que seria a trama do espetáculo. A mim, à parte todos os elementos piazzolescos contidos no disco, me sabe também a uma melancolia circense; algo Felliniano. Quem viu a sua joia “Ginger e Fred” (que filme, meu Deus!) saberá o que estou tentando expressar; ou o excelente filme do Patrice Leconte, recentemente lançado em DVD, “A mulher e o atirador de facas” – La Fille sur le Pont; que recomendo vivamente. Algo também do final de “O Circo” de Chaplin, enfim.

Astor Piazzola, por Pablo Morales de los Rios.
Astor Piazzola, por Pablo Morales de los Rios.

Discorremos muito sobre Astor nas postagens anteriores e sempre há o que se falar. Só para acrescentar, Astor adorava pescar tubarões. O Cavaleiro Negro do Bandonéon compôs uma ode a isso – ‘Escualo’, que dedicou ao seu digníssimo escudeiro Fernando Suarez Paz, o magnífico violinista. Disse-lhe que era uma obra que lhe dedicava com amor. Paz, numa entrevista, ironiza dizendo que a dificuldade da peça não é nada amorosa (risos). Esta obra não vai aqui, ficará para outra postagem. Mais outra?! Prometo largar o vício! Chega de tanta beleza. Só pode fazer mal. Mas, amigos, lhes garanto: Piazzolla não dá ressaca. É whisky de fina cepa; Bourbon de primeira linha; ou Falerno, se assim preferirem – ou ainda cachaça mineira da mais nobre estirpe. Hélas! Eis que retorno trôpego à pipa de Baudelaire! Como dizia o nosso poeta pernambucano Antônio Maria: “Ninguem me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de Baudelaire.” Embriagai-vos!:

2ica45g“É preciso estar sempre embriagado. Eis tudo! Eis a única questão! Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo que vos parte os ombros e vos dobra para o chão é preciso embriagar-se sem piedade. Mas de que? De vinho, de poesia, de virtude, como preferirdes! Mas embriagai-vos. E se por vezes, nos degraus de um palácio, na relva verde de uma vala, na solitude melancólica da vossa alcova, despertais com a embriaguez já evolada ou desaparecida, indaga ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que se vai, a tudo o que geme, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala; indaga que horas são e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio vos dirão: “É hora de embriagar-se! Para não ser o cativo mártir do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem termo! De vinho, de poesia, de virtude, como quiserdes!” (Caricatura – Charles Baudelaire, por Jeff Stahl)

Gostaria de oferecer esta postagem ao amigo escritor, professor, cineasta e colega de trompete e de copo Gabriel Lopes Pontes.

“The Roug Dancer and the Cyclical Night” (Tango Apasionado).

Astor Piazzola – Bandoneón
Fernando Suarez Paz – Violino
Paquito d’Rivera – Clarineta e Sax alto
Rodolfo Alchourron – Guitar
Pablo Ziegler – Piano
Andy Gonzalez – Bass
Gravado em Radio City Studio, A & R Studio e Sorcerer Studio, Nova York; agosto e setembro de 1987.

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Wellbach

.: interlúdio:. Suíte Troileana / Lumière – Astor Piazzolla

.: interlúdio:. Suíte Troileana / Lumière – Astor Piazzolla

Numa postagem anterior contamos como Dom Nonino, pai de Astor, salvou o filho para si e o gênio para nós, impedindo que o mesmo embarcasse no avião fatal de Gardel. Também contamos como Nadia Boulanger aconselhou o discípulo argentino a trilhar a senda do ‘si mesmo’, após vê-lo provar suas habilidades na imitação da arte de nomes como Debussy e Ravel. Um detalhe, segundo o próprio Astor, é que ela, após pedir-lhe que tocasse o que sabia de fato fazer, indagou se ele seria idiota de abandonar sua real natureza para ser um bom compositor erudito quando poderia ser único no que sabia fazer de fato – Tango; ou melhor, Novo Tango. Esta postagem traz duas obras: Suíte Troileana e Lumière. Lumière é a trilha sonora de um filme de 1976 com Jeanne Moreau, na qual destacamos a primeira faixa ‘Soledad’ pela sua profunda beleza e intensidade, tipicamente piazzólica; a segunda faixa ‘Muerte’ é uma daqueles momentos em que Astor nos desafia – convite aos fortes; seguida do luminoso tema ‘El Amor’ ou ‘Lumière’.

ehayieA Suíte Troileana, que se inicia na quinta faixa, foi uma dedicatória ao amigo, mentor e mestre do bandoneón Anibal Troilo (1914-1975), apelidado Pichuco, ou também Gordo Triste numa outra dedicatória de Astor. Aos 10 anos, o pequeno Anibal apaixonado pelo som dos bandoneóns que ressoavam nos bares do seu bairro em Buenos Aires, pediu a sua mãe Dona Felisa, que lhe desse uma daquelas caixas mágicas. Com este mesmo instrumento atravessaria toda a vida e Piazzolla em entrevista diz o quanto era inacreditável que conseguisse tocar daquela maneira naquele bandoneón velho e cheio de buracos no fole. Estreou aos 11 anos, mais tarde tocou num grupo de senhoritas e aos 14 anos tinha seu próprio quinteto, primeiro grupo dentre outros, dentre os quais contaria com Astor ao seu lado em sua orquestra e com quem gravou duas faixas em duo de bandoneóns, numa verdadeira conversa de cavalheiros. Dom Nonino, ao saber que o jovem filho andava em companhia de Troilo, dirigiu-se a ele e pediu que cuidasse bem do seu rebento. Troilo disse somente “deixe comigo”. ‘El Gato’, como o apelidou Troilo, aos 19 anos já era macaco velho nas noitadas e assim, ambos, de tango em tango e de um bife de chouriço a outro (maravilha das maravilhas portenhas); e claro, de garrafa em garrafa, viam o sol retornar invariavelmente ao fim de cada odisseia musical e boêmia, noite após noite – que inveja. Troilo se casou com uma grega, Dona Ida Dudui Kalacci, a ‘Zita’, homenageada na segunda peça da suíte de Astor. Comenta-se que Anibal, além de beber exemplarmente, também seria adepto das trilhas de pó cândido – e dai? Como diria o fantasma do velho Platão naquele poema do Yeats. Com a palavra Mr. Wilde: ‘não lamentemos que o poeta seja bêbado, mas que nem todo bêbado seja poeta’. Ora, este texto acaba se afigurando uma homenagem a Anibal, mas por que não, se a música presente já o é? Dando uma de Xenofonte para com Sócrates, vão aqui uns ‘ditos e feitos memoráveis’ de Pichuco. Quase à maneira de um teórico musical barroco discorrendo sobre a ‘teoria dos afetos’, Troilo nos diz: “El tono de la gente triste es el re menor. Re, fa, la es el acorde de los pobres, porque tiene color gris. La gente que sufre está toda en re menor.” Ainda em tom filosófico: “El sacrificio no está nunca en renunciar a lo que uno es. El verdadero sacrificio está en seguir siendo lo que uno es.” Palavras de Dona Zita: “Hoy va a tocar como Dios. Siempre toca como Dios cuando anda cerca del Diablo”. A um passo do fim Anibal deu todas suas camisas para um amigo, alegando que lá em cima não faria frio. O disco foi gravado em Milão, em 1975, ano da morte de Troilo e obviamente da composição da suíte a ele dedicada. Na gravação temos a participação do violinista Antonio Agri e de Daniel Piazzolla (filho do homem) aos sintetizadores.

xp22igAmbas as suítes têm algo em comum: beleza, densidade, intensidade, tanguedia, tragédia, tragicomédia, todas as dores e delícias do abismo de maravilhas que é a música de Astor. Talvez seja uma heresia, mas acresci ao disco as duas faixas de Astor em companhia de Troilo, descidas do youtube, que me parecem bem raras e fenomenais: ‘Volver’ e ‘El Motivo’. Se for pecado, o fogo eterno não me assusta depois dos verões bahianos. Estas suítes são o que certo escritor chamaria de uma longa jornada noite adentro. Coragem! Vale a pena, pois que de pequena a alma nada tem quando se trata de Piazzolla. Para que esse texto tenha sabor de filmes de James Bond, com alguma emoção a mais antes do final verdadeiro, só gostaria de mencionar que existe um Dia do Bandoneón, instituído pelo congresso Argentino em 2005, na data de 11 de julho, aniversário de Aníbal Troilo, um dos maiores em seu instrumento e no gênero musical, o imorredouro Tango.

Suíte Troileana / Lumière – Astor Piazzolla
Suite Troileana:
1) Bandoneón
2) Zita
3) Whiski
4) Escolaso

Lumiere (banda de sonido del film de J. Moreau):
5) Soledad
6) Muerte
7) El Amor
8) Evasión

9 El Motivo – Astor e Troilo duo
10 Volver – Astor e Troilo duo

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El Gato, Dona Zita e Pichuco. Felicidade e música.
El Gato, Dona Zita e Pichuco. Felicidade e música.

Wellbach

 

.:interlúdio:. Libertango – Astor Piazzolla

.:interlúdio:. Libertango – Astor Piazzolla

Libertango foi gravado na Itália em 1974 com excelentes arranjos e intérpretes em torno do mestre. É uma suíte – assim como foi no princípio, para todo o sempre, desde o Pai João Sebastião de Eisenach, que também gostava de suítes. Libertango, Tristango, Undertango… Um trem bala de emoções, ou talvez um Expresso do Oriente – para ser mais clássico, com rosas e navalhas; pois que a música do mestre argentino talvez pudesse ser representada numa flor com pétalas de gillettes. Acho que furei o vinil desta gravação há umas três décadas atrás e por falar em vinil, falemos a boca pequena como as remasterizações costumam ser mal vindas, pois que os técnicos dos artefatos sonoros não são artistas, apenas cientistas e não fazem ideia que existem faces e interfaces em uma gravação. Existem solistas e acompanhadores e no seu ‘nobre’ esforço por ressaltar todos os matizes dos antigos registros, acabam por impor a cozinha à frente da sala. Dissecam as gravações e os mergulham em alguma mistura daquelas que o Heródoto em sua História nos aponta como a receita ideal para ser fazer múmias. Depois penduram os sons em algum varal no terraço de algum laboratório por uns dias e recolhem para colar tudo, nivelando com precisão geométrica as alturas. O resultado é que se ouvem mais os acompanhadores que os solistas e é uma bosta. Mas fazer o que… Sempre pagamos algum preço nesta vida.

25s283mMas a qualidade soberba do material não se discute. Sobre o tema que intitula o disco, é um dos mais reciclados do mestre, por ele mesmo e por uma infinidade de artistas. Já se comentou que se referiria á liberdade composicional do seu Tango Nuevo e quando estive em Buenos Aires numa formidável casa de espetáculos na qual até os cavalos dançavam tango – é sério! Serviram o tema com uma coreografia de caráter sexual, o que não me parece ter nada a ver, embora certamente Astor nada tivesse contra isso. Mas me parece que Libertango se referiria à sua sensação de liberdade ao se instalar nos EUA e lá dar curso às suas inovações sem o enchimento de saco dos conservadores da Argentina. Sabe-se que ele e sua família chegaram a sofrer ameaças e que ele mesmo foi atacado durante um ensaio, porém, homem precavido, armara-se de um sifão de metal e o estrago foi apreciável. Em uma entrevista ele ressalta a importância do músico fazer karatê e estar preparado a literalmente lutar por sua música – concordo inteiramente.

Sobre Astor comentamos à farta nas postagens anteriores, assim, pedindo socorro à poesia, trago aqui um dos meus poemas preferidos do formidável Ferreira Gullar. Me parece que neste arranjo de palavras estaria inscrito algo do sentido e intensidade e beleza deste disco, mas não pontifico sobre nada:

Pela rua

Sem qualquer esperança
detenho-me diante de uma vitrina de bolsas
na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, domingo,
enquanto o crepúsculo se desata sobre o bairro.
Sem qualquer esperança
te espero.
Na multidão que vai e vem
entra e sai dos bares e cinemas
surge teu rosto e some
num vislumbre
e o coração dispara.
Te vejo no restaurante
na fila do cinema, de azul
diriges um automóvel, a pé
cruzas a rua
miragem
que finalmente se desintegra com a tarde acima dos edifícios
e se esvai nas nuvens.
A cidade é grande
tem quatro milhões de habitantes e tu és uma só.
Em algum lugar estás a esta hora, parada ou andando,
talvez na rua ao lado, talvez na praia
talvez converses num bar distante
ou no terraço desse edifício em frente,
talvez estejas vindo ao meu encontro, sem o saberes,
misturada às pessoas que vejo ao longo da Avenida.
Mas que esperança! Tenho
uma chance em quatro milhões.
Ah, se ao menos fosses mil
disseminada pela cidade.
A noite se ergue comercial
nas constelações da Avenida.
Sem qualquer esperança
continuo
e meu coração vai repetindo teu nome
abafado pelo barulho dos motores
solto ao fumo da gasolina queimada.

Toda Poesia 1950 – 1980 – Ferreira Gullar
Editora Civilização Brasileira – 2ª edição 1981

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(…) Uma das faixas é o seu maior sucesso de público, Adios Nonino, tema pelo qual homenageou seu pai Dom Nonino. A quem devemos muito, como foi contado em postagens anteriores. Boa sorte a todos que aqui entrais – o que poderia estar escrito nos portais da música de Piazzolla, se acaso fosse alguma espécie de Inferno de dantescas maravilhas.

Libertango – Astor Piazzolla

  1. Libertango
  2. Meditango
  3. Undertango
  4. Adiós Nonino
  5. Violentango
  6. Novitango
  7. Amelitango
  8. Tristango

Bandoneon – Astor Piazzolla
Bass Guitar [E-BassGui] – Giuseppe Prestipino
Cello [1.Cello] – Paolo Salvi (tracks: 1)
Drums [Schlagzeug], Percussion [Perkussion] – Tullio De Piscopo
Flute [Baßflöte] – Gianni Bedori, Marlene Kessik
Flute [Flöten] – Gianni Baiocco, Hugo Heredia
Guitar [Gitarre] – Filippo Daccò
Marimba – Gianni Zilioli
Organ [Hammond C3] – Felice Da Vià, Gianni Zilioli
Piano – Felice Da Vià
Timpani, Percussion [Perkussion] – Andrea Poggi
Viola [1.Bratsche] – Elsa Parravicini
Violin [1.Geige] – Umberto Benedetti Michelangeli

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Wellbach