Claude Debussy (1862-1918): Prélude à l’après-midi d’un Faune, Nocturnes, La Mer, Images, Rapsódia para clarinete, Jeux, etc (Haitink/Concertgebouw) #DEBUSSY160

Toscanini faz um La Mer grandioso, mas apressa demais os Noturnos. Ansermet tem ideias geniais mas nem sempre sua orquestra está à altura. Haitink com a Orquestra do Concertgebouw de Amsterdam, pelo contrário, não erram jamais em suas gravações de Debussy. Onde é preciso suavidade, mistério, eles fazem isso com um colorido instrumental de primeira. E onde é preciso suor e potência, ou brilho e desejo, enfim, nada fica faltando.

De forma que, entre as gravações quase completas das obras de Debussy, esta aqui de Haitink é sempre uma das mais lembradas. É verdade que Jean Martinon gravou em Paris uma coleção maior, que hoje cabe em 4 CDs pois inclui obras de juventude (Fantasia para piano e orquestra…) e orquestrações de amigos de Debussy (Ravel, Koechlin, Büsser…) Então Martinon e Haitink dividem o pódio. É tudo tão bem feito que não vou mais me arriscar a comentar. Seguem abaixo as notas do encarte do disco.

Debussy e Satie: os dois eram amigos. O Buda no meio, não sei.

Pianista de formação, Debussy poderia se tornar um segundo Chopin, compondo quase exclusivamente para o piano, se não fosse sua sensibilidade exacerbada para as sonoridades mais raras, inclusive ao piano, o que o levaria a escrever para orquestra de uma maneira tão pessoal, buscando para cada instrumento o colorido mais incomum. Para o compositor Pierre Lalo – que hoje tem uma ou duas obras ainda lembradas, mas naquele tempo se achava em posição de dar lições ao compositor quatro anos mais velho que ele – isso era um defeito. Lalo escreveu em 1910, sobre Iberia: “Que abuso das percussões e madeiras, esses oboés e clarinetes e seu eterno som nasal! Esses metais sempre fechados [com surdina], esses instrumentos, nenhum deles empregado na sua função verdadeira e seu timbre normal, mas que sempre parecem rir com afetação, com uma voz de palhaço!”

Embora o objetivo fosse falar mal, a crônica de Lalo descreve bem o gosto de Debussy pelas madeiras, enquanto ele evita sempre fazer berrar os metais, defeito que ele via nos wagnerianos tão detestados, como Mahler. Ao mesmo tempo, as percussões deviam trazer alguns barulhos à memória (ressaca em La Mer) mais do que batidas fortes.

A orquestra de Debussy tem origem nos hábitos do fim do século XIX, mas com a presença de um timbre particular, como os címbalos antigos no fim do Prelúdio ao entardecer de um fauno, o coro feminino das Sereias (Noturnos) ou o oboé d’amour de Gigues. Uma invenção contínua sobre os timbres condiciona não somente a orquestração, mas também a forma, por assim dizer sui generis. Seu objetivo é reproduzir as atmosferas da vida e do mundo ao seu redor, transpostas com uma sensibilidade extrema para o plano musical, o que o compositor nomeava “a carne nua da emoção”. Não poderíamos definir melhor o conteúdo do “Prelúdio”, estreado triunfalmente em 22 de dezembro de 1894 e o único vestígio que sobrou de um tríptico planejado sobre “Églogue” do poeta Mallarmé (1842-1898), que evoca os desejos eróticos de um pequeno deus dos rebanhos no calor de uma tarde siciliana, assim como sua comunhão íntima com a paisagem. Para Ravel, era a obra musical mais perfeita jamais composta, tal era a ausência de “ligações” entre as seções.

“Gamins de Wissant”, por Virginie Demont-Breton (1859-1935)

A ideia de tríptico domina também as obras seguintes: os Três Noturnos, finalizados em 1899, concebidos inicialmente como “Cenas ao crepúsculo” para violino e orquestra. La Mer, estreado em 1905 em um ambiente de incompreensão geral, se assemelha mais a uma sinfonia edificada segundo os princípios de Franck, faltando somente a seção lenta: se Debussy não nos presenteou com um estático “luar no mar” (“clair de lune en mer”) como o fizeram outros, e ele mesmo na precedente Sirènes, é porque ele encontrou ali no elemento marinho uma maneira de empurrar a orquestra para o instante fugidio. Um dos grandes méritos dessa obra maior do século XX é associar o sentimento e a emoção do Prelúdio com a visão do universo explorada nos Noturnos, mas com uma objetividade mais explícita, pois para Debussy, não se tratava tanto de ver o mar quanto de recolher dele uma ambiência efetiva graças às sensações diversas provocadas pela música: gritos de gaivotas, ondas, vento violento ou gosto salgado.

E finalmente Images (1905-1912, não confundir com as Images para piano, da mesma época), tríptico que tem no meio um outro tríptico dedicado à Espanha. Para o compositor Manuel de Falla, Iberia “ensinou aos compositores espanhóis formas mais sutis de usarem seu próprio folclore”, embora a obra não cite nenhuma melodia espanhola. Já o movimento final de Images, “Rondes de printemps” (algo como cirandas de primavera), cita “Nous n’irons plus au bois”, canção infantil que Debussy dizia prefirir mil vezes ás Valquírias de Wagner. Em 1904, por encomenda da firma Pleyel, ele compôs Dança sagrada e dança profana para harpa, com o acompanhamento suave dedicado somente às cordas.

Jeux, sua última peça orquestral, foi escrita rapidamente, no verão de 1912, para os Ballets Russes, que já haviam estreado em Paris o Pássaro de Fogo de Stravinsky (1910), obra muito admirada por Debussy. Aqui, o colorido instrumental é mais do que nunca um fator predominante, com uma música elusiva, misteriosa, não-narrativa, não-cíclica, avançando de um momento para outro sem recapitulação. Jeux se manteve como uma das obras mais importantes para os vanguardistas do século XX, mas o balé foi um fracasso de público, o que não chega a ser uma surpresa, pois essa última obra-prima de Debussy, sem os elementos necessários para um sucesso teatral, tem a clareza luminosa e indecifrável de um sonho.

(Compilado das notas por Max Harrison e Bruno Gousset)

Claude Debussy (1862-1918):
CD1
01 – Berceuse Héroïque
Images pour Orchestre:
02 – I. Gigues
03-05 – II. Iberia: Par les rues et par les chemins; Les parfums de la nuit; Le Matin d’un jour de fête
06 – III. Rondes de Printemps
07 – Jeux (poème dansé)
08 – Marche Ecossaise

CD2
01 – Prélude à l’après-midi d’un faune
Nocturnes
02 – I. Nuages
03 – II. Fêtes
04 – III. Sirènes
La Mer
05 – I. De l’aube à midi sur la mer
06 – II. Jeux de vagues
07 – III. Dialogue du vent et de la mer
08 – Rapsodie pour orchestre avec clarinette principale
09 – Danses pour Harpe et Orchestre à Cordes – I. Danse Sacrée
10 – Danses pour Harpe et Orchestre à Cordes II. Danse Profane

Bernard Haitink
Eduard van Beinum (CD1 Track 1)
Royal Concertgebouw Orchestra
Recordings: 1959 (Beinum), 1976, 1977, 1979 (Haitink)

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Bônus:

Décadas depois de gravar Debussy no Concertgebouw de Amsterdam, Haitink gravaria em Paris a única ópera do compositor francês: Pelléas et Mélisande.
Gravação ao vivo no ano 2000, com uma sonoridade muito delicada, apropriada a esta ópera cheia de personagens misteriosos que não sabemos bem de onde vêm nem para onde vão. Uma ópera com florestas sombrias, fontes miraculosas e muitas pérolas orquestrais que Haitink e seus músicos e cantores apresentam sem a grandiosidade de Karajan/Berlim e Abbado/Viena ou a clareza vocal e orquestral de um regente francês que daqui a alguns dias aparecerá aqui no blog com aquela que meu colega Alex DeLarge considerou a maior gravação desta ópera (e eu concordo… daqui a uns dias neste mesmo canal!) Mas essa gravação que trago hoje é forte concorrente ao 2º ou 3º lugar pela sutileza e refinamento das partes orquestrais. Ao mesmo tempo, por ser ao vivo, temos ruídos da vida real como o virar de páginas da partitura…

Claude Debussy:
Pelléas et Mélisande
Orchestre National de France, direção Bernard Haitink
Solistas: Wolfgang Holzmair (Pelléas) – Anne Sofie von Otter (Mélisande) – Laurent Naouri (Golaud) – Alain Vernhes (Arkel) – Hanna Schaer (Geneviève) – Florence Couderc (Yniold) – Jérôme Varnier (Le Berger, Le Médecin)
Choeur de Radio France
Live Recording: mars 2000, Théatre des Champs-Élysees, Paris, France

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Bernard Haitink (1929-2021), um dos maiores maestros da era das gravações

Pleyel

Carl Nielsen (1865-1931): As Sinfonias Completas (Blomstedt)

Carl Nielsen (1865-1931): As Sinfonias Completas (Blomstedt)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Depois de uma temporada no Tibet, onde estive apascentando os pensamentos após a última investida dos algozes capitalistas, estamos de volta com esta postagem im-per-dí-vel!!! Curiosamente, eu não conhecia, ainda, com intimidade, as sinfonias de Carl Nielsen. Fiquei impressionado com a qualidade do trabalho do dinamarquês. Tive a oportunidade de escutá-las hoje à tarde enquanto trabalhava. Notei um certo “crescendo”, uma gradação, uma evolução no material sinfônico de Nielsen. As três primeiras estão bem próximas em qualidade e as sinfonias de número 4 e 5 são verdadeiras obras primas. A número 4, por exemplo, é de uma sofisticação orquestral inacreditável. O nível de dramaticidade nos posiciona diante de um dilema. Há cintilações da obra de Sibelius. Trata-se de obras escritas durante a Primeira Grande Guerra. Portanto, representa a crença de Nielsen na vida. É um dos trabalhos mais populares do compositor. Já a Quinta Sinfonia é, no dizer de Augustos dos Anjos, “um monstro de escuridão e rutilância”; um duelo entre as forças da ordem e do caos; o apolíneo e o dionísiaco, em menção nietzscheniana. A percussão que impele uma espécie de marcha, cria uma atmosfera de guerra, como se as forças do caos avançassem titanicamente. A insistência do instrumento de sopro é visceral, mas do outro lado há a percussão com o seu agravo. Tudo cresce e torna-se numa grande tensão. Num mundo sacudido pela Guerra (a Quinta foi composta nos anos de 1921 e 1922), pelas Revoluções, a sinfonia no. 5 parece ser uma metáfora filósofica do mundo. Não deixe de ouvir. Uma boa apreciação!

Pitaco de PQP Bach: A primeira é um belo cartão de visitas. A segunda é fraquinha. A Espansiva é sensacional! A quarta é um horror, apesar do bom último movimento. A quinta é linda e interessante! Acho a sexta muitíssimo boa e zombeteira, muito zombeteira.

Carl Nielsen (1865-1931): As Sinfonias Completas (Blomstedt)

DISCO 01

Symphony No. 1 in G minor
01. I. Allegro Orgoglioso
02. II. Andante
03. III. Allegro Comodo
04. IV. Finale

Symphony No. 6
05. I. Tempo Giusto
06. II. Humoreske – Allegretto
07. III. Proposta Seria – Adagio
08. IV. Tema Con Variazioni – Allegro

DISCO 02

Symphony No. 2 ‘The Four Temperaments’
01. I. Allegro collerico
02. II. Allegro comodo e flemmatico
03. III. Andante malincolico
04. IV. Allegro sanguineo

Symphony No. 3 ‘Espansiva’
05. I. Allegro espansivo
06. II. Andante pastorale
07. III. Allegretto Un Poco
08. IV. Finale – Allegro

DISCO 03

Symphony No. 4 ‘The Inextinguishable’
01. I. Allegro
02. II. Poco Allegretto
03. III. Poco Adagio Quasi Andante
04. IV. Con Anima, Allegro

Symphony No. 5, Op. 50
05. I. Tempo Giusto
06. II. Adagio Non Troppo
07. III. Allegro
08. IV. Presto
09. V. Andante Un Poco Tranquillo
10. VI. Allegro

San Francisco Symphony
Herbert Blomstedt, regente

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Blomstedt (11 de julho de 1927) tem 95 anos aninhos, gente.

Carlinus

Claude Debussy (1862-1918): La Mer, Ibéria, Prélude à l’après-midi d’un Faune, 2 Nocturnes (Toscanini/NBC) #DEBUSSY160

Segundo testemunhas, Debussy teria dito: “Em minha opinião a inutilidade da sinfonia desde Beethoven já foi amplamente demonstrada.”

Mas La Mer, composta entre 1903 e 1905, é claramente uma sinfonia em três movimentos, apenas o cuidadoso subtítulo “Esboços sinfônicos” aponta para a diferença.

Se La Mer está apenas parcialmente na tradição sinfônica, não é tampouco um poema tonal tradicional. No 1º movimento encontramos a calma superfície das águas, o aparecimento do sol e a força crescente da luz (com uma intensificação gradual da dinâmica, ou seja, instrumentos tocando mais forte). No 2º movimento há uma contínua invenção na movimentação das melodias, imprevisíveis como as ondas, simplesmente uma brincadeira das ondas. No 3º movimento um diálogo entre o vento e o mar com todas suas nuances alternando rapidamente.

Em La Mer, nenhuma história está sendo contada, nenhuma ação narrada. Temos sobretudo a impressão de que a música se tornou como a natureza. Essa parece ter sido a intenção de Debussy, pois em suas próprias palavras, a música parecia destinada “não a expressar a natureza com uma maior ou menos fidelidade, mas a criar uma harmonia misteriosa entre natureza e imaginação”.

(Texto acima por Wolfgang Dömling, Professor na Universidade de Hamburgo, 1993)

Como descreveu muito bem o professor alemão citado, La Mer não tem um enredo definido, apenas cenas que cada um pode ouvir e preencher com sua própria imaginação. Arturo Toscanini (1867-1957) claramente tinha ideias bem formadas sobre como devia soar La Mer. Ele fez dessa obra um de seus cavalos de batalha em sua longa e internacional carreira. Entre as suas várias gravações da obra (incluindo uma de 1935 em Londres, esta de 1950 nos EUA e outra de 1953) há algumas mudanças, mas sobretudo a continuidade das convicções do maestro sobre como devia soar Debussy, convicções que vinham desde a década de 1900. Sob a batuta de Toscanini, com sua ênfase nos metais, o mar raramente parece calmo, sereno ou brincalhão: mais comuns são os momentos de navegação, de fanfarras marinheiras, enfim, um mar povoado de barcos e com ondas às vezes ameaçadoras. Ao mesmo tempo, com esse clima de marinheiros e fanfarras, a predominância dos metais nunca soa wagneriana ou mahleriana, falha que Debussy não perdoaria. Toscanini regeu bastante Wagner, mas compartilhava com Debussy o desprezo por Mahler: ele não gravou nenhuma das sinfonias do vienense.

Nos Noturnos e no Fauno, Toscanini também tem ideias muito particulares que lhe trouxeram sucesso com essas obras desde 1904, mas que não alcançaram uma unanimidade entre os ouvintes da era das gravações: ele despacha as Nuvens (1º mov. dos noturnos) em 5 minutos e meio, como se um forte vento estivesse as empurrando com força… Também o fauno corre um pouco apressado. Mas há momentos de parada pra respirar, como o sublime instante em que as cordas tocam um crescendo e tomam as rédeas entre 4:20 e 5:00, com uma respiração em tempo rubato cheia de elegância. Toscanini não havia caído de para-quedas nesse repertório, muito pelo contrário, tinha intimidade com aquelas obras que regeu quando ainda eram desconhecidas na Itália, e foi muito elogiado pelo próprio Debussy:

Em seu livro The real Toscanini, Cesare Civetta descreve a relação de Toscanini com Debussy e La Mer: “Debussy enviou a Toscanini a partitura completa de La Mer, com uma dedicação escrita à mão de uma página inteira, onde Debussy escreve: ‘Até agora achava que eu tinha escrito uma boa composição, no melhor das minhas capacidades. Agora eu sei que criei algo ainda melhor com a sua ajuda.’ Ele escreveu ‘com sua ajuda’ porque Toscanini explicou a Debussy vários detalhes pouco claros na partitura e lhe relatou as mudanças que ele fizera na orquestração, mudanças que Debussy aprovou.”

Vocês sabem que quem conta um conto aumenta um ponto, além disso Debussy deve ter se sentido grato a um maestro que divulgava sua música nos tradicionalíssimos Teatro alla Scala de Milão (estreia italiana da ópera Pelléas et Mélisande em 1908) e Teatro Regio de Turim (Prélude à l’après-midi d’un faune em 1904, Nuages em 1906). Se talvez haja algo de exagerado nesse relato, o fato é que há também cartas de Debussy a Toscanini, sempre elogiosas, assim como uma carta a um amigo em que Debussy o chama de “grande mágico” e de maior responsável pelo sucesso de La Mer em Turim em 1911:

Sua cordial lembrança e o relato que o senhor me faz da estreia de La Mer me trouxeram muito prazer… Quanto ao sucesso ele é, creia-me bem, inteiramente devido a este grande mágico chamado Toscanini! Não tenho antipatia dos “bons burgueses” de sua velha Turim por me terem olhado com maus olhos antes; e que eles gostem mais de Debussy por Toscanini do que da presença real de Debussy no fundo é apenas “nacionalismo” à terceira potência! (Carta de Claude Debussy a Leone Sinigaglia, 1911)
Votre cordial souvenir et le récit que vous me faites de la création de La Mer m’ont fait un grand plaisir… Quant au succès il est, croyez-le bien, entièrement dû à ce grand magicien qui s’appelle Toscanini ! Je n’en veux nullement aux « bons bourgeois » de votre vieux Turin de m’avoir fait grise mine ; et qu’ils aiment mieux Debussy à travers Toscanini que la présence réelle de Debussy n’est en somme que du « nationalisme » à la troisième puissance !
Claude Debussy (Lettre à Leone Sinigaglia, 1911)
Your account of the première de La Mer has given me a great pleasure… About the success it is, believe me, entirely due to this great magician called Toscanini! I don’t care if, before, the “good bourgeois” of Torino didn’t smile at me; and the fact that they like better Debussy by Toscanini than Debussy’s real presence is just some “nationalism” to the third potency! (Claude Debussy, 1911)

“Toscanini y a mis toute son âme, toute son intelligence, et toute sa volonté. Sa création de votre admirable chef-d’œuvre a été prodigieuse. Le public, méfiant au commencement (vous pouvez le penser ! Vous connaissez ça) a été conquis. […] Grand nombre de « nos bons bourgeois de la vieille ville de Turin » aiment Debussy !”

Lettre de L. Sinigaglia à Debussy, [Turin, 30 septembre 1911] (Carta respondida por Debussy acima. Ambas citadas por Malvano, 2012: Claude Debussy à l’Exposition internationale de Turin en 1911)

Em resumo: em La Mer todas as escolhas do grande mágico chamado Toscanini (palavras de Debussy) parecem perfeitas e inevitáveis, ao menos enquanto o ouvimos e estamos sob seu encanto. Nas outras obras, mesmo discordando de algumas escolhas do maestro, reconhecemos aqui uma gravação histórica de valor inestimável.

Arturo Toscanini, o maestro que fez a estreia italiana do Fauno em 1904 e da ópera Pelléas, em 1908

Claude Debussy (1862-1918):
La Mer
01. I: De l’aube à midi sur la mer
02. II: Jeux de vagues
03. III: Dialogue du vent et de la mer
04. Prélude à l’après-midi d’un faune
Ibéria (from Images)
05. I: Par les rues et par les chemins
06. II: Les parfums de la nuit
07. III: Le Matin d’un jour de fête
Nocturnes 1 & 2
08. I: Nuages
09. II: Fêtes
Recorded: 1950 (1-3), 1948, 1952, 1953
Arturo Toscanini, NBC Symphony Orchestra

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O mar de Toscanini é agitado! (Foto: “Fillette sur le Rocher”, 1888, por Virginie Demont-Breton, 1859-1935)

Pleyel

.: interlúdio :. Bassekou Kouyaté: Segu Blue (ou: sutis sinais malineses da ancestralidade africana do jazz)

.: interlúdio :. Bassekou Kouyaté: Segu Blue (ou: sutis sinais malineses da ancestralidade africana do jazz)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Cada vez que penso no Máli não consigo deixar de lembrar que a primeira caracterização desse país que uma enciclopédia me ofereceu começava dizendo: “um dos países mais pobres do mundo” – afirmação seguida, naturalmente, de uma série de números que, pela mentalidade ocidental dominante, resumem tudo o que existe de relevante no real.

Por isso vocês hão de imaginar meu espanto quando mais tarde descobri que há não tantos séculos assim esse era o nome de um nos impérios mais extensos e poderosos do mundo. Ao ver fotos de crianças lindas e evidentemente bem nutridas às margens do Rio Níger. Ao saber da imensa diversidade étnica e cultural que a região contém, e que se mostra exuberantemente todos os anos no Festival sur le Niger, na cidade de Segu ou Ségou. Diante da espantosa arquitetura em adobe de Djenné ou de Mopti, e dos 600 mil manuscritos remanescentes da universidade medieval de Tombúktu – etc. etc. E, talvez mais que tudo, diante da sutil e refinada tradição de música instrumental que se expressa, por exemplo, em Toumani Diabaté, de que já fiz uma postagem aqui.

O som que trago hoje parecerá menos “clássico” – quem sabe já por envolver palavra cantada em vozes não impostadas -, e não estranharei se alguém disser que “parece tudo igual”. Caso isso aconteça, pedirei antes de mais nada que o ouvinte lembre de conceitos como “minimalismo” antes de descambar pra palavras como “primarismo”; e em segundo lugar que microscopize um pouco mais sua atenção e seus ouvidos, lembrando que, segundo dizem, não apenas o diabo mas também Deus mora nos detalhes (hora em que cabe invocar o desafio de não lembro qual compositor dos anos 60-70 que o Padre Penalva lançava sempre aos seus alunos: “quando estiver achando uma música monótona, desconfie de si mesmo”).

Bassekou Kouyaté já trabalhou com Toumani Diabaté mas não toca a espécie de harpa que é a kora, toca ngoni, instrumento de cordas com braço. Seu conjunto de ngonis, percussão e voz se chama Ngoni Ba, e conta com a participação vocal da sua mulher Ami Sacko. O CD, premiado como o melhor de “world music” em 2007 pela BBC3, tem “blue” no nome. Um disco de blues?

Não. Ou… quem sabe talvez. Ou talvez de certa forma sim… Querem saber? Ouçam! Mas sugiro que também “ouvejam” o primeiro dos vídeos abaixo: no calor da interpretação ao vivo diante da multidão, parece gritante um caráter de blues – e na quietude “cool” da gravação de estúdio onde é que ele foi parar? É a mesma música… Minha impressão é que o tal caráter não está ausente, mas como que “virado para dentro”; ou em estado latente, potencial.

Algum bluesman que tocou com Bassekou (não lembro qual, desculpem, li faz anos) saiu declarando que havia descoberto a região de origem do blues. Suspeito que seja exagero. Quando falo de “ancestralidade” no título não quero dizer que essa música do Máli seja avó do blues ou do jazz ou algo assim, e sim que têm ancestralidade em comum. Afinal, Bassekou Kouyaté vive hoje, nasceu quando Muddy Waters e Howlin’ Wolf já tinham mais de 50 anos (cada!), e as vias que unem a África ao resto do mundo não são de mão única. Bassekou é um cultor atual da música de raiz de sua terra, mas nesse cultivo não deixa de levar em conta o aroma dos frutos que a mesma árvore produziu quando transplantada a outros continentes. E muito mais que um avô, eu o veria como um primo dos jazzmen e bluesmen desse mundo.

Bom, essa a minha impressão – e agora é com vocês.

Bassekou Kouyate & Ngoni Ba: SEGU BLUE (2007)
01 Tabeli te
02 Bassekou
03 Jonkoloni
04 Juru nani
05 Mbowdi
06 The River Tune
07 Andra’s Song
08 Ngoni fola
09 Banani
10 Bala
11 Segu tonjon
12 Sinsani
13- Lament For Ali Farka
14- Segu Blue (Poyi)

. . . . . . . BAIXE AQUI – download here

Ranulfus

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791): Requiem K. 626 (Böhm, WP)

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791): Requiem K. 626 (Böhm, WP)

Esta é uma gravação clássica e poderosa, antiquada e convincente. Karl Böhm e os Filarmônicos de Viena dão uma bela e exagerada demonstração do que era um bom Mozart lá nos anos 70.

O Réquiem em ré menor (K. 626), encomendado pelo Conte Franz von Walsegg, foi deixado incompleto devido à morte de Mozart em 5 de dezembro de 1791, sendo completado posteriormente pelos amigos e discípulos de Mozart, Franz Xaver Süßmayr, Joseph Leopold Eybler e possivelmente Franz Jacob Freystädtler. É sua última composição, talvez uma de suas mais famosas obras, não apenas pela música em si, mas também pelos debates em torno de até qual parte da obra foi preparada por Mozart antes de sua morte. Essa obra também se destaca pelo enorme número de versões e revisões feitas à versão de Süßmayr desde o século XX.

Bem, em 14 de fevereiro de 1791, Anna Walsegg, esposa de Franz von Walsegg faleceu aos 20 anos. Em julho do mesmo ano, bateu à porta de Mozart um desconhecido (possivelmente Franz Anton Leitgeb ou Johann Nepomuk Sortschan) a mando de Walsegg, que desejava uma missa de réquiem para o memorial de sua falecida esposa, mas que planejava dizer que fora ele quem compusera a obra (por isso o anonimato). Recusando-se a se identificar, o mensageiro deixa Mozart encarregado da composição de um Réquiem. Deu-lhe um adiantamento de 25 ducados e avisou que retornaria em um mês com os outros 25 restantes. Mas, pouco tempo depois, o compositor foi chamado para Praga com o pedido de que ele escrevesse a ópera A Clemência de Tito, para festejar a coroação de Leopoldo II. Quando subia com sua esposa Constanze na carruagem que os levaria a esta cidade, o desconhecido ter-se-ia apresentado outra vez, perguntando por sua encomenda. Mozart lhe prometeu que a completaria assim que voltasse de sua viagem.

Todavia, Mozart conseguiu terminar apenas poucas partes do Réquiem antes da sua morte: toda a orquestração da Réquiem Aethernam, um rascunho detalhado da Kyrie, trechos instrumentais, o coro e o baixo cifrado da Sequentia até a Lacrymosa, esta que apresenta apenas 8 compassos. Também havia todas as vozes e baixos cifrados do Domine Jesu e da Hostias. Wolfgang também deixou alguns rascunhos, dentre eles uma fuga Amém e outros papéis perdidos. Cinco dias após sua morte, em 10 de dezembro de 1791, a introdução foi tocada em um serviço memorial para o próprio Mozart na Igreja de Miguel Arcanjo em Vienna, tendo quase toda sua orquestração completada por Franz Jacob Freystädtler (madeiras, cordas e trombones), tendo os seus tímpanos e trompetes adicionados posteriormente por Franz Xaver Süßmayr. Vale ressaltar que a participação de Freystädtler não é uma certeza, sendo alvo de discussões entre diversos historiadores e musicologistas.

Em 21 de dezembro de 1791, o jovem Joseph Eybler foi encarregado por Constanze de terminar a obra, afinal, Mozart deixou dívidas enormes para Constanze, fazendo com que ela precisasse dos outros 25 ducats restantes da comissão. No entanto, após completar todas as partes dos instrumentos de cordas da Sequentia e toda a orquestração do Dies Irae e do Confutatis, além de ter adicionado dois compassos na linha do soprano da Lacrymosa, Eybler desistiu por razões desconhecidas.

Após tentar com que vários compositores terminassem a obra, Constanze enfim se aproximou de Süßmayr. Ele coletou diversos rascunhos e finalizou a orquestração da obra, além de compôr o resto da Lacrymosa, todo o Sanctus, Benedictus e Agnus Dei, e repetir parte do Réquiem Aethernam para a Lux Aetherna e a Kyrie para o Cum Sanctis Tuis.

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791): Requiem K. 626 (Böhm, WP)

1. Introit: Requiem Aethernam / Kyrie 9:30
2. Dies Irae 1:58
3. Tuba Mirum 4:15
4. Rex Tremendae 3:09
5. Recordare 7:00
6. Confutatis 3:50
7. Lacrimosa 4:07
8. Domine Jesu 4:37
9. Hostias 5:03
10. Sanctus 1:55
11. Benedictus 6:50
12. Agnus Dei 11:24

Bass Vocals – Karl Ridderbusch
Choir – Wiener Staatsopernchor
Conductor – Karl Böhm
Conductor [Choir] – Norbert Balatsch
Contralto Vocals – Julia Hamari
Orchestra – Wiener Philharmoniker
Organ – Hans Haselböck
Soprano Vocals – Edith Mathis
Tenor Vocals – Wiesław Ochman

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Primeira página do manuscrito do Réquiem

PQP

Claude Debussy (1862-1918): Prelúdios e outras peças, com Nelson Freire #DEBUSSY160

Claude Debussy (1862-1918): Prelúdios e outras peças, com Nelson Freire #DEBUSSY160

160 anos de Debussy

Claude-Achille Debussy (Saint-Germain-en-Laye, 22 de Agosto de 1862 — Paris, 25 de Março de 1918)

Vi que algumas pessoas pediram este CD, mesmo sujeitas a levar um esporro como resposta. Recebi o disco recentemente e ele estava lacrado até agora – nem quis saber de escutá-lo enquanto o copiava via Windows Media Player porque tinha/tenho/terei realmente mais o que fazer. Muito menos gosto de postar CDs quando estes são recém-lançados porque acho isso o cúmulo do pão-durismo por parte do ouvinte/admirador, mas decidi ser caridoso. Espero que tenha valido a pena meu esforço e que o número de downloads exploda.
CVL (2009)

Lucia Branco, a principal professora de piano de Nelson Freire em sua infância, foi quem lhe apresentou Debussy, e ela lhe alertava sobre o risco de tocar lento demais. Mais tarde, Debussy criaria uma grande proximidade com Guiomar Novaes, grande intérprete de Debussy – aliás o compositor ouviu e elogiou a jovem pianista recém-chegada em Paris. Guiomar também tinha uma relação com a música de Debussy em que os andamentos não pendiam para o lento: às vezes o colorido das escalas de tons inteiros pode estimular uma abordagem mais relaxada e calma, mas ao mesmo tempo é preciso manter o fluxo das coisas andando, ao menos na abordagem de Debussy por Freire e por esses dois pianistas que ele amava apaixonadamente: Guiomar Novaes e Walter Gieseking.

Nelson Freire não era o tipo de músico que grava integrais. (Disse ele para o IPB: “não gosto de fazer sempre a mesma coisa, me aborrece… Por isso acho também que recital de piano deve ser uma coisa variada, se não é muito entediante chegar lá e ouvir o mesmo estilo o tempo todo.”) O livro I de Prelúdios de Debussy, os Noturnos e Prelúdios de Chopin, a Prole do Bebê de Villa-Lobos  estão entre os poucos ciclos que ele abordou por inteiro. Ele tinha um vínculo profundo com essas obras, que o acompanharam por décadas, muitas vezes como bis nos recitais, assim como Poissons d’or, das Imagens. Neste álbum gravado por Nelson aos 63 anos, ele também toca o ciclo de inspiração infantil Children’s Corner, que o René postou recentemente na orquestração de André Caplet, amigo e colaborador de Debussy.
Pleyel (2022)

Claude Achille Debussy (1862-1918), Música para Piano

1. Préludes – Book 1 – 1. Danseuses de Delphes (Lent et grave)
2. Préludes – Book 1 – 2. Voiles (Modéré)
3. Préludes – Book 1 – 3. Le vent dans la plaine (Animé)
4. Préludes – Book 1 – 4. Les sons et les parfums tournent dans l’air du soir (Modéré)
5. Préludes – Book 1 – 5. Les collines d’Anacapri (Très modéré)
6. Préludes – Book 1 – 6. Des pas sur la neige (Triste et lent)
7. Préludes – Book 1 – 7. Ce qu’a vu le vent d’ouest (Animé et tumultueux)
8. Préludes – Book 1 – 8. La fille aux cheveux de lin (Très calme et doucement expressif)
9. Préludes – Book 1 – 9. La sérénade interrompue (Modérément animé)
10. Préludes – Book 1 – 10. La cathédrale engloutie (Profondément calme)
11. Préludes – Book 1 – 11. La danse de Puck (Capricieux et léger)
12. Préludes – Book 1 – 12. Minstrels (Modéré)
13. D’un cahier d’esquisses
14. Children’s Corner – 1. Doctor Gradus Ad Parnassum
15. Children’s Corner – 2. Jimbo’s Lullaby
16. Children’s Corner – 3. Serenade for the Doll
17. Children’s Corner – 4. The Snow is Dancing
18. Children’s Corner – 5. The Little Shepherd
19. Children’s Corner – 6. Golliwogg’s Cakewalk
20. Suite Bergamasque – 3. Clair de Lune

Nelson Freire, piano
Recording: Hamburg, June 11-15 2008

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Debussy é muito feio, vamos de Freire então.
Mais uma foto de mar ilustrando postagem de Debussy

CVL (2009) e Pleyel (2022)

Claude Debussy (1862-1918): La Mer, Prelude à l’après-midi d’un Faune, Jeux – Boulez, New Philharmonia Orchestra #DEBUSSY160

51qd4kO8axL._SL500_AA300_Este foi um dos primeiros cds que postei, lá nos primórdios do PQPBach, e lá se passaram ao menos uns oito anos e meio. Sempre foi o minha gravação favorita, tanto do “Prelude a l’Apres Midi d’un Faune” quanto de “La Mer”. Comprei esse LP nos tempos em que vagava solitário pelas ruas de São Paulo, ainda no começo dos anos 90. A vida era um tanto quanto difícil, morava longe da família, dos amigos, e esse belíssimo disco ajudou a combater a solidão. Criei uma certa cumplicidade com ele e consequentemente com a magnífica música de Debussy.

Mas a vida dá voltas, e agora, vinte e poucos anos depois, eis-me aqui, oferecendo essa verdadeira jóia da indústria fonográfica aos senhores. Podem apreciar sem moderação. É música de primeira, interpretada por um dos maiores especialistas em Debussy dos últimos tempos.

Claude Debussy (1862-1918): La Mer, Prelude à l’après-midi d’un Faune, Jeux
1-3. La Mer
1 De l’aube à midi sur la mer (Très lent)
2 Jeux de vagues (Allegro)
3 Dialogue du vent et de la mer (Animé et tumultueux)
4 Prelude à l’après-midi d’un faune
5 4Jeux

New Philharmonia Orchestra
Pierre Boulez – Conductor

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Debussy revolucionário, charge de 1912

FDP Bach (2015)

Joaquin Rodrigo – Concierto de Aranjuez, Mario Castelnuovo-Tedesco – Concerto in D for Guitar & Orchestra – Williams, Ormandy, Philadelphia Orchestra

John+Williams+Guitarist+Two+Favourite+Guitar+Concertos+504788

NOVOS LINKS !! POSTAGEM ORIGINAL DE 2016. ESTE CD NÃO PODE FICAR INDISPONÍVEL !!! ABSOLUTAMENTE IM-PER-DÍ-VEL !!!

Para reparar um mal entendido de uma postagem anterior, resolvi trazer o meu concerto para violão favorito, na minha versão favorita, que já ouço há pelo menos uns 45 anos. Chamei este Concierto de Aranjuez de famigerado, mas no sentido positivo do termo. Eu já o escutei tantas vezes que conheço cada nota, cada pausa, cada suspiro do solista e do maestro. Ele supre todas as minhas necessidades sentimentais, aquelas que evocam tempos passados, me lembra o jardim da velha casa, a chuva caindo e molhando a grama daquele jardim, do por de sol, enfim, é uma explosão de sentimentos quando ouço este concerto. Ainda mais esta gravação do John Williams ainda jovem, mas já um fenômeno do instrumento. Os braços abertos do Ormandy vestindo um traje de um verde de gosto duvidoso  e regendo sua amada Orquestra de Filadélfia me inspirava e procurava imitar seus gestos. Foi o meu primeiro contato com a música clássica, imaginava estar regendo uma orquestra, mexia os braços como se fosse o maestro, ou então pegava meu velho violão e simulava que estava tocando …
Ainda tenho o velho LP, e ainda me emociono quando ouço o seu adágio, que considero uma das mais belas páginas já escritas na história da música. Este adágio me traz lembranças de minha infância, quando minha mãe botava este LP para tocar na velha radiola e mesmo depois de ter terminado o disco ela ainda ficava cantarolando pela casa. Lembranças boas de um tempo que não volta mais. Pelo menos ficam guardadas na memória.

O Concerto de Castelnuovo-Tedesco também é de primeirissima qualidade, pena que seja pouco gravado, como comentei em postagem anterior.

Joaquin Rodrigo (1901-1999):
01. Concierto de Aranjuez for Guitar and Orchestra I.  Allegro con spirito
02. Concierto de Aranjuez for Guitar and Orchestra II. Adagio
03. Concierto de Aranjuez for Guitar and Orchestra III.  Allegro gentile
Mario Castelnuovo-Tedesco (1895-1968):
04. Concerto in D Major for Guitar and Orchestra, Op. 99 I. Allegretto
05. Concerto in D Major for Guitar and Orchestra, Op. 99 II. Andantino alla romanza
06. Concerto in D Major for Guitar and Orchestra, Op. 99 III. Ritmico e cavalleresco

John Williams – Guitar
Members of The Philadelphia Orchestra
Eugene Ormandy – Conductor

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1957
John Williams – Retrato do Artista quando jovem

Debussy (1862 – 1918): Debussy Orchestrated – Orchestre National des Pays de la Loire & Pascal Rophé ֍ #DEBUSSY160

Debussy (1862 – 1918): Debussy Orchestrated – Orchestre National des Pays de la Loire & Pascal Rophé ֍ #DEBUSSY160

Debussy

Petite Suite

La boîte à joujoux

Children’s Corner

Orchestre National des Pays de la Loire

Pascal Rophé

Se houvesse um único critério para estabelecer se este ou aquele compositor teria passagem para o panteão dos imortais, na minha opinião, seria o reconhecimento imediato de alguma de suas peças, melodia (tune), vocês me entendem, pelos ‘trouxas’, aquelas pessoas que não são como nós e raramente ouvem música ‘clássica’, quem dirá leem os nomes das peças nas capas dos discos ou nos visores do streaming.

Lembra-se da sequência no início do filme ‘Amadeus’, de Milos Forman, na qual o idoso Salieri experimentando seu já não tão lento afundamento no esquecimento? Nenhum de seus ‘hits’ é reconhecido pelo padre que o assiste, mas eis que por encanto, um delas ascende os olhos do sacerdote desejoso de agradar ao decrépito Salieri – Sim, está sim, eu reconheço bem! – Pois esta não é minha, é da ‘criatura’! Assim é como Salieri se referia à Mozart.

Aplicando este mundano (admito) critério a Debussy ele teria passe livre para o tal panteão, um único bilhete no qual estaria escrito Clair de lune! Uma única evidência para tão ousada afirmação: basta lembrar do filme Frankie and Johnny (1996), com a deslumbrante Michelle Pfeiffer e o carismático Al Pacino. Se você não se lembra do filme, busque a última cena dele. Eu digo pela música, a melodia de Clair de lune surge na forma como foi composta por Debussy, para piano, e depois vai se transmutando em uma peça para orquestra. A continuidade das cenas embalada pela música é bastante interessante, levando em conta o momento em que o filme foi feito.

Henri Büsser, quando jovem…

Neste disco temos algo assim, a música composta originalmente por Debussy para piano é apresentada em roupas de música para orquestra.  A orquestração não é de Debussy, mas é quase como se fosse. Os orquestradores eram muito próximos, colaboradores e amigos dele, Henri Büsser e André Caplet.

Começamos com a Petit suíte, composta em 1899 para piano a quatro mãos e orquestrada por Henri Büsser em 1907, que foi plenamente aprovada por Debussy e é um sucesso desde então. A posto que você nunca deixará de reconhecer os acordes iniciais do primeiro movimento, En bateau.

Adivinhe qual ator seria escalado para fazer o papel do Caplet…

Em 1905 nasceu Chouchou, a filha de Debussy, que acabou escrevendo para ela a suíte Children´s Corner. A dedicatória ‘dear little Chouchou, with tender apologies from her father for what follows’, assim como os títulos dos movimentos, foram dados em inglês pelo próprio Claude. Ele gostava de inglês, especialmente dos escritos de Edgar Allan Poe. A orquestração ficou aos cuidados de André Caplet, amigo e colaborador de Debussy e também compositor. Entre os movimentos desta suíte, a Serenade for the Doll era um dos encores de Horowitz.

Em 1913, o ilustrador André Hellé (veja a capa do disco) sugeriu a Debussy que compusesse um balé para fantoches, descrevendo as aventuras de brinquedos que ganham vida. O tema faz sucesso desde sempre. Debussy certamente conhecia os balés de Tchaikovsky e de seu contemporâneo inovador Stravinsky. O resultado foi La Boîte à joujou que ele compôs para piano e iniciou a orquestração, mas que só foi terminada em 1919, de novo, por Caplet.

Claude Debussy (1862 – 1918)

Petite Suite

  1. En bateau
  2. Cortège
  3. Menuet
  4. Ballet

La Boite A Joujoux

  1. Prélude
  2. 1, Le magasin de jouets
  3. 2, Le champ de bataille
  4. 3, La bergerie à vendre
  5. 4, Après fortune faite
  6. Épilogue

Children’s Corner

  1. Doctor Gradus ad Parnassum
  2. Jimbo’s Lullaby
  3. Serenade for the Doll
  4. The Snow Is Dancing
  5. The Little Shepherd
  6. Golliwog’s Cake-Walk

Orchestre National des Pays de la Loire

Pascal Rophé

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FLAC | 261 MB

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MP3 | 320 KBPS | 157 MB

Pascal Rophé e a ONPL achando a Sala de Concertos do PQP Bach em Pomerode encantadora…

With the present disc, Pascal Rophé and his Orchestre National des Pays de la Loire pay tribute to their great countryman, Claude Debussy – but not with the standard orchestral fare. Debussy Orchestrated paints a portrait of a light-hearted composer, seen through the eyes of two of his collaborators, Henri Büsser and André Caplet, who transferred the works recorded here from the keyboard to the orchestra.  [Resumo do site Prestomusic]

Both La boîte à joujoux and the similarly enchanting Children’s Corner are performed with deft panache by this quality orchestra, whose subtly shaded tone and style sound much more like those of earlier French vintages than the globalised full-colour sonority dominating elsewhere today. There are outstanding individual players, among them the principal oboe, whose haunting contribution to ‘The Little Shepherd’ in Children’s Corner is a special moment. [BBC Music Magazine, maio de 2022]

the playing is exquisite….a wonderfully engaging disc of great charm. [Gramophone, abril de 2022]

Aproveite!
René Denon

Pascal Rophé… Rophé!

Resposta do nosso quizz:

Quizz 2: Qual o nome da rádio, do programa de rádio e do apresentador do mesmo, no filme Frankie e Johnny?

Claude Debussy (1862-1918) – Prélude a l’àpres-midi d’un faune, La Mer, Jeux, Khamma (Orquestre de La Suisse Romande, Ansermet) #DEBUSSY160

51uz4GxHy+L._SS500_SS280Ernest Ansermet foi um regente suíço e um dos grandes regentes do repertório clássico francês, principalmente Debussy.

Este CD que ora vos trago faz parte da Coleção DECCA Legends, e não está aqui por acaso. Trata-se de uma das melhores gravações já realizadas deste repertório, principalmente em minha opinião do ‘Prélude à l’après-midi d’un faune’. Ainda tenho por favorita a versão de Boulez, mais etérea, idílica, eu diria, mas Ansermet dá mais vida a obra, tira aquela áurea espectral que permeia a leitura de Boulez, e nos oferece uma possibilidade diferente. Fica à vosso critério escolher a favorita. Não por acaso a revista Gramophone destacou exatamente a capacidade de Ansermet de nos mostrar o que está por debaixo daquelas brumas boulezianas. Claro que estou ciente que a gravação de Ansermet é anterior a de Boulez, mas um antecipa o outro, em minha opinião.
De qualquer forma, este é um CD antológico que merece toda a sua atenção.

Claude Debussy (1862-1918):
01. Prélude à l’après-midi d’un faune
02-04. La Mer (I. De l’aube à midi sur la mer, II. Jeux de vagues, III. Dialogue du vent et de la mer)
05. Jeux
06. Khamma (Légende dansée)

L´Orchestre de La Suisse Romande
Ernest Ansermet – Conductor

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Ernest Ansermet em pose clichê.

FDP (2016)

Claude Debussy (1862-1918) – Solo Piano Music – Angela Hewitt #DEBUSSY160

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160 anos de Debussy

Claude-Achille Debussy (Saint-Germain-en-Laye, 22 de Agosto de 1862 — Paris, 25 de Março de 1918)

Este CD foi lançado em 2012, mas merece ser ouvido com todo carinho e dedicação necessários. Sendo uma das grandes pianistas da atualidade, Hewitt encara estas obras tão delicadas com sobriedade, uma técnica apurada e uma maturidade musical exemplar. Os clientes da amazon são unânimes em dar cinco estrelas para esse CD.

E como é o mês dele, Claude Debussy, vamos então lhes apresentar outro grande CD do selo Hyperion, em outro grande momento de Angela Hewitt.

Claude Debussy (1862-1918) – Solo Piano Music – Angela Hewitt

01. Children’s Corner – 1. Doctor Gradus ad Parnassum
02. Children’s Corner – 2. Jimbo’s Lullaby
03. Children’s Corner – 3. Serenade for the Doll
04. Children’s Corner – 4. The snow is dancing
05. Children’s Corner – 5. The Little Shepherd
06. Children’s Corner – 6. Golliwog’s Cake-Walk
07. Suite Bergamasque – 1. Prélude
08. Suite Bergamasque – 2. Menuet
09. Suite Bergamasque – 3. Clair de lune
10. Suite Bergamasque – 4. Passepied
11. Danse
12. 2 Arabesques – 1. Andantino
13. 2 Arabesques – 2. Allegretto scherzando
14. Pour le piano – 1. Prelude
15. Pour le piano – 2. Sarabande
16. Pour le piano – 3. Toccata
17. Masques
18. L’isle joyeuse
19. La plus que lente

Angela Hewitt – Piano

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P.S. de Pleyel: muitos alunos intermediários de piano passam pelos Arabesques e pelo Clair de lune, mas não se enganem, é música muito sofisticada apesar da relativa simplicidade técnica. Angela Hewitt deixa isso muito claro aqui.

FDP (2018) / Pleyel (2022)

Sergei Rachmaninov (1873-1943) – Symphony No. 3 in A minor, Op. 44 e Symphonic Dances, Op. 45

Rachmaninov é daqueles compositores que despertam admiração ou indiferença. Há quem goste de seu romantismo tardio, do seu estilo incomum. Seus concertos para piano, certamente, são sua carta de apresentação. São difíceis. Complexos. Sofisticados. Rach fez fama com eles. Eu, particularmente, gosto de suas composições orquestrais, principalmente das três sinfonias. Sempre que escuto seus trabalhos orquestrais fico com a impressão de que estou caminhando numa noite fria e estrelada. Seus críticos sempre apontaram para esse efeito melancólico, monótono, com melodias artificiais. Do alto de minha simplicidade, não entendo as coisas dessa forma. Prefiro pensar em uma escolha estética por parte do compositor.

Neste disco, acredito que tenhamos uma boa oportunidade para conhecer um pouco do seu mundo singular, plácido, como um lago gelado. Sob a regência de Lorin Maazel ainda no início dos anos 80, temos dois trabalhos de grande importância – a “Sinfonia nº 3” e a famosa e invulgar “Danças Sinfônicas”, um dos seus mais maduros e conscientes trabalhos. A “Sinfonia nº 3” foi escrita nos anos de 1935 e 1936, no período em que o compositor se encontrava feliz, próximo ao lago de Lucerna, na Suíça. Estreou em 1936, sob a regência de Leopold Stokowski. Desde a primeira execução, dividiu opiniões: há quem goste dela (opinião mais corriqueira nos dias de hoje) e houve quem a achasse “uma decepção”. Rachmaninov, por sua vez, possuía um carinho especial por esse trabalho. Talvez, essa impressão fosse resultado do período em que esteve feliz entre lagos cristalinos e as paisagens inefáveis da Suíça. O trabalho revela o estilo empregado pelo compositor na fase final de sua vida. Há uma preocupação com certos timbres e um notável emprego de detalhes do mundo russo, o que torna as suas composições em algo muito peculiar.

“Danças Sinfônicas” é considerada a última obra de Rachmaninov. Talvez, seja obra em que mais ele derramou reminiscências e lirismo. É uma obra cuja sofisticação orquestral está permeada pela saudade. Nota-se a presença intensa de temas russos, ligados à tradição de sua terra. A obra foi escrita em 1940 e, embora vivesse tranquilamente nos Estados Unidos, a Europa estava sendo abalada pela Guerra. Uma das filhas de Rachmaninov se encontrava na França, que estava sob a iminência de invasão pelos alemães. Estes elementos, certamente, influíram nos motivos de composição do trabalho. Rachmaninov atribui grande importância aos metais ao longo da obra. As melodias são evocativas. Ficam a oscilar, fazendo reviver insinuantes tragos nostálgicos. O segundo movimento é, sem sombras de dúvida, raveliano. Nota-se a influência de “La Valse”, do compositor francês. A parte final do trabalho insinua-se de forma poderosa, sofisticada. Os timbres são explorados habilidosamente, criando uma experiência emocional bastante impactante.

Podemos afirmar que é um belíssimo disco, mesmo com todas as críticas ao compositor. É importante conhecer a sua música com fortes pendores emocionais. Sua nostalgia gelada provoca bem-estar em mim. Deve ser, por isso, que sempre volto de forma humilde e reservada para caminhar com as mãos nos bolsos nas noites frias e estreladas da música de Rachmaninov.

Sergei Rachmaninov (1873-1943) –

Symphony No. 3 in A minor, Op. 44
01. I. Lento – Allegro moderato – Allegro
02. II. Adagio ma non troppo – Allegro vivace
03. III. Allegro – Allegro vivace

Symphonic Dances, Op. 45
04. I. Non allegro
05. II. Andante con moto (Tempo di valse)
06. III. Lento assai – Allegro vivace – Lento assai come prima

Berliner Philharmoniker
Lorin Maazel, regente

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Rach preocupado com as contas do mês, mas sem esquecer a partitura

Claude Debussy – Quarteto de Cordas em Sol Menor, Maurice Ravel – Quarteto de Cordas – Orlando Quartet #DEBUSSY160

Ao procurar discos para postar dentro das comemorações aos 160 anos de nascimento de Debussy encontrei este do Orlando Quartet, lançado lá em 1983, mas ainda atual. Estou ouvindo esse belíssimo CD em um final de tarde de sábado de inverno, nublado, porém não está frio, a temperatura está amena, média de 17 graus. E a execução deste ótimo grupo de Câmara nos oferece uma interpretação muito sólida e consistente.

O Orlando Quartet foi formado em 1976 e esteve ativo até 1997. Seus músicos eram de países diferentes, mas o grupo formou-se em Amsterdam. Neste ano de 1997  seu primeiro violinista, o hungaro István Párkányi formou seu próprio grupo, o István Párkányi Quartet. Não gravaram muito, mas cada um de seus discos é uma pequena jóia, belamente lapidada.

Apesar de muitas vezes serem gravadas juntas, no mesmo disco, são obras que tem dez anos de diferença entre elas. O Quarteto de Debussy foi escrito em 1893 e o de Ravel entre 1902 – 03. Infelizmente estas foram as únicas incursões dos compositores neste estilo, e por que não dizer, também na música de câmara.

Claude Debussy – String Quartet in G Minor, Op. 10

1 Animé Et Très Décidé
2 Scherzo (Assez Vif Et Bien Rhythmé)
3 Andantino, Doucement Expressif
4 Très Modéré – Très Mouvementé – Très Animé

Maurice Ravel – String Quartet in F

5 Allegro Moderato. Très Doux
6 Assez Vif. Très Rhythmé
7 Très Lent
8 Vif Et Agité

Violin [I] – István Párkányi
Violin [II] – Heinz Oberdorfer
Viola – Ferdinand Erblich
Cello – Stefan Metz

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Claude Debussy (1862-1918): Nocturnes, La Mer, Images, Jeux, La boîte à joujoux, Épigraphes antiques, Sarabande (Armin Jordan, Orquestras Suisse Romande e de Basel) #DEBUSSY160

Theodor W. Adorno (Frankfurt, 1903–1969) afirma que a música de Debussy é marcada pela desconfiança de que o gesto grandioso usurpa um nível espiritual que depende justamente da ausência de tal gesto.
“A preponderância da sonoridade sensual na assim chamada música impressionista envolve, melancolicamente, dúvidas acerca da inabalável confiança alemã na potência autônoma do espírito.” (Intr. Soc. da Música, p.300)

A obra de Debussy é toda voltada para a contemplação interior, a intimidade, a pureza das frases e o desenrolar das ideias musicais por dez ou vinte minutos, não mais do que isso, em oposição à grandiloquência e exageros da música germânica de Wagner e Bruckner. Assim como muitos colegas de sua geração, ele teve um flerte inicial com as inovações harmônicas de Wagner, mas depois passou a combater a enorme influência wagneriana em toda a Europa do fim do século XIX.

Debussy ao piano no verão de 1893, na casa de campo do seu amigo Chausson, calvo, em pé, virando a página

Ernest Chausson, compositor amigo de Debussy, é outro que passou pelo mesmo processo: no caso dele, a influência de Wagner se faz ainda mais notável em sua música, mas ele escreveu, em 1886: “É preciso de deswagnerizar” (« Il faut se déwagnériser »).

A admiração inicial por Wagner levou os jovens Chausson e Debussy a irem a Bayreuth assistir às óperas do alemão, que faziam enorme sucesso naquela época (ao contrário de Bruckner e Mahler, cujas sinfonias seriam mais celebradas postumamente). E ir a Bayreuth não era, para eles, como ir logo ali na Normandia ou na Bélgica. Hoje o trajeto Paris-Bayreuth dura 8 horas de trem, quase 9 de carro, e certamente os meios de transporte e estradas da época eram bem mais lentos.

Sorte nossa que hoje essas disputas parecem algo muito antigo – enquanto a música soa atual! – de forma que podemos gostar de ambos os lados: ouvir hoje um Fauré e amanhã um Wagner, hoje os prelúdios de Debussy e amanhã as sinfonias gigantescas e devocionais de Bruckner.

Após longos anos de formação e de pouco sucesso, Debussy conseguiu se “deswagnerizar” e teve um primeiro sucesso de público com o Prélude à l’après-midi d’un faune (1894). Em seguida vieram suas duas outras grandes obras-primas orquestrais, Nocturnes (1899, estreias em 1900-1901) e La Mer (1905). Vieram em seguida Images, tendo como peça principal Iberia, certamente inspirada por Albéniz, e finalmente Jeux, partitura para balé que é sua obra mais moderna e de mais difícil apreensão. As outras obras aqui gravadas por Armin Jordan são partituras orquestradas por três pessoas que Debussy conheceu bem. A sarabanda da suíte Pour le piano (1901) foi orquestrada por Ravel. E as duas outras obras, Six épigraphes antiques (Seis epígrafes antigas) e La boîte à joujoux (A caixa de brinquedos), escritas nos últimos anos de vida, Debussy provavelmente tinha a intenção de orquestrar, não sabemos se uma intenção séria interrompida pela doença ou uma intenção assim como quem diz “vou fazer” sem muita convicção. Em todo caso, o que se sabe é que o maestro Ernest Ansermet (1883-1969, fundador da Orchestre de la Suisse Romande) orquestrou as eígrafes, que lembram um pouco as imagens e prelúdios para piano, com referências ao vento, à noite e à chuva. Já o maestro e comporitor André Caplet (1878-1925) orquestrou a caixa de brinquedos, obra de caráter infantil… quem entende um pouco de francês vai entender o diminutivo carinhoso de jouet (brinquedo) comendo a última sílaba, como os franceses o fazem para metrô (métropolitain), dodô (dormir) e restô (restaurant).

Nocturnes é a partitura que Debussy mais retocou após a estreia. Foram vários anos retocando pequenos detalhes aqui e ali, de modo que há mais de uma opção para os maestros escolherem. Quando Ernest Ansermet, em 1917 viu a partitura cheia de mudanças anotadas a caneta e a lápis, ele perguntou ao compositor qual era a versão correta. Debussy respondeu: “Não sei mais, todas são possíveis. Então leve essa partitura e use as que lhe parecerem melhores.” (Fonte: Ernest Ansermet: une vie de musique – Jean-Jacques Langendorf, 2004)

A partitura que a orquestra da Suisse Romande utiliza sob a batuta de Armin Jordan, sem dúvida, é a “versão Ansermet”, ou seja, inclui as mudanças manuscritas que Debussy adicionou nas décadas de 1900 e 1910. O suíço Charles Dutoit, que quando jovem conheceu Ansermet, também parece usar essa mesma versão da partitura em sua gravação com a Orquestra de Montréal. Já outras gravações, como as de Martinon (em Paris), Svetlanov (em Londres) e Haitink (em Amsterdam) utilizam outras versões, mais fiéis à original assinada por Debussy em 1899. Dá pra perceber as diferenças, já desde o clarinete no primeiro compasso do terceiro Noturno, Sirènes (Sereias). Este movimento, ao que parece, foi o que Debussy mais revisou ao longo de vários anos, movido pela enigmática dificuldade de encaixar o som da orquestra e o do coro de mulheres cantando sempre distantes – as sereias na Odisseia, ao contrário da feiticeira Circe e da ninfa Calipso, não encostam em Ulisses, apenas cantam no mar enquanto os gregos navegam.

1897: Debussy em pose relaxada, fumando com Zohra ben Brahim (amante de seu amigo Pierre Louÿs)

Claude Debussy (1862-1918)
1 Nocturnes: No. 1, Nuages (1899)
2 Nocturnes: No. 2, Fêtes (1899)
3 Nocturnes: No. 3, Sirènes (1899)
4 Épigraphes antiques: No. 1, Pour invoquer Pan, dieu du vent d’été (1914) (Orch. Ansermet)
5 Épigraphes antiques: No. 2, Pour un tombeau sans nom (1914) (Orch. Ansermet)
6 Épigraphes antiques: No. 3, Pour que la nuit soit propice (1914) (Orch. Ansermet)
7 Épigraphes antiques: No. 4, Pour la danseuse aux crotales (1914) (Orch. Ansermet)
8 Épigraphes antiques: No. 5, Pour l’Égyptienne (1914) (Orch. Ansermet)
9 Épigraphes antiques: No. 6, Pour remercier la pluie au matin (1914) (Orch. Ansermet)
10 Pour le piano: II. Sarabande (1901) (Orch. Ravel)
11 La boîte à joujoux: I. Prélude. Le sommeil de la boîte (1913) (Orch. Caplet)
12 La boîte à joujoux: II. Le magasin de jouets (1913) (Orch. Caplet)
13 La boîte à joujoux: III. Le champ de ba taille (1913) (Orch. Caplet)
14 La boîte à joujoux: IV. La bergerie à vendre (1913) (Orch. Caplet)
15 La boîte à joujoux: V. Après fortune faite (1913) (Orch. Caplet)
16 La boîte à joujoux: VI. Épilogue (1913) (Orch. Caplet)

Orchestre de la Suisse Romande (1-3)
Sinfonie Orchester Basel (4-16)
Armin Jordan

Claude Debussy (1862-1918)
1 La Mer: I De l’aube à midi sur la mer (1905)
2 La Mer: II. Jeux de vagues (1905)
3 La Mer: III. Dialogue du vent et de la mer (1905)
4 Images pour orchestre, Pt. 1 “Gigues” (1912)
5 Images pour orchestre, Pt. 2 “Ibéria”: I. Par les rues et par les chemins (1912)
6 Images pour orchestre, Pt. 2 “Ibéria”: II. Les Parfums de la nuit (1912)
7 Images pour orchestre, Pt. 2 “Ibéria”: II. Le Matin d’un jour de fête (1912)
8 Images pour orchestre, Pt. 3 “Rondes de printemps” (1912)
9 Jeux (1913)
Orchestre de la Suisse Romande (1-9)
Armin Jordan

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As capas dos álbuns originais lançados pela Erato

Pleyel

Hiroshima, ano 77 [Ludwig van Beethoven (1770-1827) – Concerto para piano no. 1, Op. 15 – Argerich / Dai Fujikura (1977): Concerto para piano no. 4, “Akiko’s Piano” – Hagiwara]

Hiroshima, ano 77 [Ludwig van Beethoven (1770-1827) – Concerto para piano no. 1, Op. 15 – Argerich / Dai Fujikura (1977): Concerto para piano no. 4, “Akiko’s Piano” – Hagiwara]

O pequeno piano de armário acima, da marca Ellington, foi feito pela Baldwin Piano Company em Cincinatti, nos Estados Unidos. Sua proprietária, uma japonesa de nome Shizuko, emigrou para os Estados Unidos sozinha depois de se formar em uma escola para moças. Isso não era comum no Japão da época, pois a sociedade fortemente patriarcal oferecia poucas oportunidades para que as mulheres pudessem viajar desacompanhadas, quanto mais para um outro país. Shizuko estabeleceu-se na Califórnia e casou-se com Genkichi Kawamoto, um imigrante japonês, em 1922.

Genkichi trabalhava em uma companhia de seguros e tinha o hábito de levar sua esposa, que ele amava muito, em suas viagens pela empresa. O piano foi um presente de Genkichi para ela, e Shizuko logo nele buscou conforto para os longos períodos de solidão e para os desafios de viver numa terra estranha. Em 25 de maio de 1926, algo da solidão dos Kawamoto arrefeceu: nasceu sua primeira filha, no Hospital Japonês de Los Angeles. “Esperamos tanto por ela!”, escreveu Genkichi em seu diário, “Espero que ela seja inteligente. Chamei-a de Akiko”.

O casal Kawamoto haveria de criar a primogênita com muito cuidado, quanto mais num ambiente crescentemente hostil aos japoneses e seus descendentes. Genkichi registrava seu peso e altura a cada poucos dias e anotou todos os sinais de seu crescimento. Em 1929, nasceria seu segundo filho, Nobuhiro. Em 1932, a família retornou ao Japão, que experimentava forte crescimento econômico e, também, vivia sob uma violenta retórica militarista que levara o país, no ano anterior, a invadir a Manchúria e, subsequentemente, a uma expansão imperialista que ocuparia – com muita truculência e a expensas de imenso sofrimento às populações locais – grande parte do Extremo Oriente e do Sudeste Asiático.

Os Kawamoto estabeleceram-se em Hiroshima, onde Akiko começou a frequentar a escola primária. Embora ela tivesse passado seus primeiros anos em um país anglófono, Genkichi e Shizuko fizeram o possível para que sua filha pudesse aprender japonês. Para praticar o idioma, a menina iniciou um diário, que manteria por onze anos e no qual anotaria, entre outras coisas, sua dedicação ao piano Ellington que os pais trouxeram dos Estados Unidos.

Em 1933, a família de Akiko mudou-se para uma casa localizada no Monte Mitaki, a noroeste de Hiroshima. Naquela época, poucas famílias tinham um piano em casa e, porque moravam num lugar remoto, eles pediram ao professor de piano que viesse à casa deles para aulas particulares. Durante a guerra, já nos anos 40, as condições de vida da família pioraram. Os Kawamoto alugaram um cômodo de sua casa para um conhecido, e a falta de espaço e de privacidade tirou-lhes muito da alegria com que celebravam festivais e aniversários. Em 1943, Akiko ingressou no curso de Economia Doméstica da Universidade de Hiroshima, o que a deixou radiante, embora viesse a se aborrecer com o pouco tempo para dedicar-se ao piano: além das exigências acadêmicas, havia aquelas, compulsórias e crescentes, para com os esforços de guerra, que incluíam trabalhar no Hospital do Exército, participar de exercícios antiaéreos e ajudar a cuidar de plantações.


9 de abril de 1944: Papai quer que eu continue meus estudos, mas mamãe, não. Isso me deixa confusa. É trabalho da mulher passar o dia todo preparando comida? Se sim, qual é o propósito da minha vida? Eu não teria tempo para estudar, e isso me deixaria infeliz”


Em 1944, ela começou a se preocupar com a saúde dos pais. Ela passou a tentar comer menos para que seus irmãos pudessem comer mais:


3 de maio de 1944: Minhas medidas do terceiro período: altura 159,1 cm; peso 51,5 kg; busto 73 cm. Estou 0,5 cm mais alta que no ano passado, mas perdi 1,5 kg e meu busto está 3,5 cm menor. Sinto-me mal, mas sou a única a tentar reduzir o arroz”


O trabalho nas plantações consumia todo tempo livre de Akiko, que largou o piano e, também, seu diário, no qual anotou, no final de 1944:


Tenho 19 anos. Sou estudante do segundo ano do Departamento de Economia Doméstica. Um terço ou um quarto da minha vida já passou”


Em 6 de agosto de 1945, o dia tórrido de verão começou como qualquer outra segunda-feira, e a população de Hiroshima, que se deslocava para o trabalho os estudos, pouco se impressionou com as sirenes que anunciaram a chegada de três bombardeiros B-29 sobre aqueles céus sem nuvens. Às 8h15, um clarão como nunca antes fora visto fez-se seguir duma violentíssima explosão, que pulverizou imediatamente vinte mil pessoas, mataria outras quarenta mil nos dias seguintes, e fecharia sua conta macabra em cento e vinte mil mortos nas décadas subsequentes. Akiko estava a poucos quilômetros do hipocentro, trabalhando como estudante mobilizada nos esforços de guerra. Sobreviveu à explosão por estar num prédio que não colapsou, e poucas horas depois começou a voltar a pé para casa. A devastação sem precedentes, que não preservara nem a alicerçagem das construções, deve tê-la impressionado. Como as pontes foram destruídas, ela foi forçada a atravessar o rio a nado. Quando chegou ao sopé do Monte Mitaki e avistou sua casa, sua energia se acabou, e ela não conseguia mais andar.

Shizuko não sabia da situação de Akiko e estava cuidando da casa, que desabou na explosão da bomba atômica. O piano sofrera danos no lado esquerdo e fora cravejado de fragmentos de vidro, mas estava inteiro. Foi quando um vizinho lhe avisou: “Sua filha está ali e não pode se mexer!”. Shizuko então correu para Akiko e a trouxe para casa. A menina parecia ter escapado por pouco da morte, mas logo perdeu a consciência: ela tinha sido exposta a níveis letais da radiação que chovia invisivelmente sobre Hiroshima, enquanto o “cogumelo atômico” gerado pela explosão se dissipava.


Mamãe, eu quero um tomate vermelho…


… implorou Akiko, em suas últimas palavras antes de morrer na manhã seguinte, depois de viver apenas “um terço de sua vida”.

ooOoo

Havia, na época, muitos tomates vermelhos no jardim dos Kawamoto, e, a cada verão depois do de 1945, até o final de seus 103 anos de vida, Shizuko cultivou tomates vermelhos, próximos ao imenso caquizeiro sob o qual sepultou as cinzas de Akiko.

O piano, que perdera aquela que mais o amou, passou grande parte dos sessenta anos seguintes em silêncio.  De vez em quando algumas crianças da vizinhança visitavam Shizuko e o tocavam, mas aos poucos algumas das teclas foram perdendo seu movimento e, por fim, seu som.

Uma menina e um piano, ambos nascidos nos Estados Unidos. Uma perdeu a vida; o outro perdeu o som.

O silêncio do piano Ellington durou até 2005, quando Tomie Futakuchi decidiu restaurá-lo. Ela foi vizinha dos Kawamoto e, quando criança, costumava visitá-los e receber o carinho de Shizuko, que lhe contava histórias sobre Akiko e seu amado amigo musical. Quando a casa da família foi demolida, em 2004, muitas lembranças da jovem, guardadas como tesouros por Shizuko, foram doadas ao Memorial da Paz de Hiroshima. O piano foi legado a Tomie, que, na esperança de que as crianças de Hiroshima pudessem transmitir uma mensagem de paz através do precioso instrumento, chamou o restaurador Hiroshi Sakaibara.

Tomie, Hiroshi e o Ellington, em 2005

O piano foi restaurado com todas as peças originais, e mantido nas condições em que estava imediatamente após o ataque a Hiroshima – incluindo os danos em seu lado esquerdo e os incontáveis pedaços de vidro que nele se incrustaram. Em 6 de agosto de 2005, no sexagésimo aniversário da desgraça, ele foi tocado em público pela primeira vez, e desde então encontra-se em exibição num salão do Parque Memorial da Paz.

A pianista Mami Hagiwara e a Sra. Futakuchi com o piano de Akiko, em seu local de exibição permanente, no Parque Memorial da Paz.

Martha Argerich, nossa Rainha, adora o Japão e não deve ter hesitado sequer um instante para aceitar o convite que a Orquestra Sinfônica de Hiroshima lhe fez para tocar na icônica cidade em 5 de agosto de 2015 – véspera do 70º aniversário do criminoso ataque à sua população. A apresentação da deusa do piano, que incluiu seu tradicional cavalo de batalha – aquele primeiro concerto de Ludwig que ela toca desde sempre -, foi o esperado sucesso, e ela permaneceu na cidade para a sentidas cerimônias do dia seguinte, que culminaram com a tradicional procissão das velas flutuantes que os cidadãos de Hiroshima e os visitantes largam ao sabor da corrente do rio Motoyasu, em memória das vítimas.

A procissão das velas flutuantes passa em frente ao Domo da Bomba Atômica – que abrigava a Exposição Comercial da Prefeitura de Hiroshima e foi o prédio mais próximo do hipocentro a permanecer de pé (foto do autor)

Durante as cerimônias, Martha foi apresentada a Tomie Futakuchi, que lhe contou a história de Akiko e de seu piano, e nossa Rainha, num arroubo de sua impetuosidade tão típica, decidiu fazer uma visita surpresa ao Memorial da Paz no dia seguinte, 7 de agosto, para conhecer e tocar o instrumento.

Martha não sabia disso, mas estava a tocar o piano de Akiko na hora e no dia exatos em que a menina falecera, setenta anos antes.


O encontro entre a estrela mundial do piano e o inestimável instrumento calou fundo no compositor Dai Fujikura, que se pôs imediatamente a compor um concerto, que foi oferecido a Martha e à memória de Akiko. A Rainha ficou muito lisonjeada com a dedicatória e, uma vez mais, aceitou sem titubear um novo convite para tocar em Hiroshima, dessa feita para estrear o concerto de Fujikura com a sinfônica local em agosto de 2020, por ocasião do septuagésimo quinto aniversário da morte de Akiko.

Nas palavras do compositor,


Este concerto muito especial para piano e orquestra, chamado “O Piano de Akiko”, foi escrito e dedicado à Embaixadora da Paz e da Música da Orquestra Sinfônica de Hiroshima, Martha Argerich.
(…)
Embora naturalmente este concerto tenha a ‘música para a paz’ como mensagem principal, eu, como compositor, gosto de concentrar nos pontos de vista pessoais. Sinto que essa visão microscópica, para a partir daí contar sobre assuntos universais, deve ser o caminho a percorrer em minhas composições: a visão de Akiko, uma garota comum de 19 anos que não tinha nenhum poder sobre a política (…) Deve haver histórias semelhantes à dessa garota de 19 anos em todas as guerras da história e em todos os países do mundo. Toda guerra deve ter uma Akiko.
(…)
Neste concerto, faço uso de dois pianos: um é o piano de cauda principal, e outro, o Piano de Akiko, o piano que sobreviveu à bomba atômica, tocado na cadenza do final, ambos pelo solista.

Para expressar um tema tão universal quanto a  ‘música para a paz’, a peça deve retratar o ponto de vista mais pessoal. Acho que esse é o caminho mais poderoso, e só através da Música se pode segui-lo.”


Em agosto de 2020, a pandemia impediu Martha de viajar o Japão. De sua casa na Suíça, ela gravou o vídeo seguinte, em inglês, no qual expressa seus sentimentos acerca da obra que lhe foi dedicada, do honroso convite que lhe foi feito, e de sua desolação por não poder honrá-lo:

O concerto de Fujikura foi, então, estreado na data prevista pela pianista Mami Hagiwara, juntamente com obras de J. S. Bach, Beethoven, Mahler e Penderecki – e a integral de sua première, incluindo a cadenza tocada no piano de Akiko, vocês podem conferir a seguir:

Todos os principais envolvidos na celebração da memória de Akiko Kawamoto – Martha Argerich, Dai Fujikura, Mami Hagiwara e os músicos da Orquestra Sinfônica de Hiroshima – autorizaram generosamente a publicação das gravações dos concertos supracitados em dois álbuns, cuja venda em linha, por período limitado, viu sua renda integralmente revertida para a preservação dos memoriais de Hiroshima e do piano de Akiko. E são essas as gravações, que adquiri na ocasião, que ora compartilho com nossos leitores-ouvintes, no septuagésimo sétimo aniversário do criminoso ataque a Hiroshima, em memória de suas dezenas de milhares de vítimas inocentes.


Ludwig van BEETHOVEN (1770-1827)
Concerto para piano e orquestra no. 1 em Dó maior, Op. 15
1 – Allegro con brio
2 – Largo
3 – Rondó: Allegro scherzando

Martha Argerich, piano
Hiroshima Symphony Orchestra
Kazuyoshi Akiyama, regência


BIS:
Robert Alexander SCHUMANN (1810-1856)

Das Fantasiestücke para piano, Op. 12
4 – No. 7: Traumes Wirren

Martha Argerich, piano

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Gravado ao vivo na Hiroshima Bunka Gakuen Hall, Hiroshima, Japão, em 5 de agosto de 2015


Dai FUJIKURA (1977)
1 – Concerto para piano e orquestra no. 4, “Akiko’s Piano” (estreia mundial)

Mami Hagiwara, pianos: Steinway & Sons, Hamburgo; e Baldwin, Cincinatti (cadenza, a partir de 16:45)

Ludwig van BEETHOVEN (1770-1827)
Do Quarteto de cordas no. 13 em Si bemol maior, Op. 130
2 – Cavatina: Adagio molto espressivo (arranjo para orquestra de cordas)

Gustav MAHLER (1860-1911)
Kindertotenlieder, para voz e orquestra (1904)
3 –
Nun will die Sonn’ so hell aufgeh’n
4 –
Nun seh’ ich wohl, warum so dunkle Flammen
5 –
Wenn dein Mutterlein
6 –
Oft denk’ ich, sie sind nur ausgegangen!
7 –
In diesem Wetter!

Mihoko Fujimura, mezzo-soprano

Johann Sebastian BACH (1685-1750)
Orquestração de Hideo Saito (1902-1974)
Da Partita no. 2 em Ré menor para violino solo, BWV 1004
8 – Ciaccona

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FAIXA-BÔNUS (não consta no CD original, e foi extraída da transmissão radiofônica do concerto):

Krzysztof Eugeniusz PENDERECKI (1933-2020)
Do Réquiem Polonês (Polskie Requiem):
1 – Ciaccona

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Hiroshima Symphony Orchestra
Tatsuya Shimono, regência

Gravado ao vivo na Hiroshima Bunka Gakuen Hall, Hiroshima, Japão, em 5 e 6 de agosto de 2020


 

Vassily

Chausson (1855-1899): Viviane, Poemas para soprano e para violino / Lekeu (1870-1894): Fantasia, Adagio para cordas / Dukas (1865-1935): Aprendiz de feiticeiro / Debussy (1862-1918): Fantasia para piano, Rapsódia para clarinete, Prélude à l’après-midi d’un faune (Armin Jordan, Orquestras Suisse Romande e Monte-Carlo) #DEBUSSY160

As obras desta e da minha próxima postagem, em gravações por orquestras de países francófonos – Suíça, França, Mônaco – são todas do período que em francês costumam chamar Belle Époque (Bela época). Um período entre a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871) e as terríveis duas Guerras Mundiais (a partir de 1914), que retrospectivamente – para as gerações que viveram essas guerras, sem falar na crise de 29 – foi visto como uma era de ouro por gente como Marcel Proust (1871-1922): “os verdadeiros paraísos são os paraísos perdidos”, disse ele, ou seja, a gente só dá valor depois que perde.

Aqui um parêntesis: o economista Thomas Piketty afirma que “todas as sociedades europeias na Belle Époque se caracterizam por uma fortíssima concentração dos patrimônios.” Ou seja, foi uma bela época sobretudo para uma minúscula fração de pessoas que viviam de renda e podiam passar a semana entre várias soirées, salões, óperas e concertos. O 1% mais rico da sociedade detinha 60% do patrimônio na França e quase 70% na Inglaterra, concentração maior do que em meados do século XIX. As bombas da 1ª Guerra e as falências de 1929, entre outros fatores político-econômicos, significariam uma grande destruição de patrimônios dos ricos, com uma redução na concentração de renda ao longo do século XX e a emergência das classes médias, porém a tendência é de novo aumento nessa concentração no nosso século XXI. Se vocês querem saber os motivos, terão de ler as 900 pgs. do livro que Pikkety publicou em 2013: O Capital no Século XXI.

Em todo caso, em termos musicais, a Belle Époque é o período em que surgem grandes obras francesas que até hoje estão no repertório clássico: a Sinfonia com órgão e os concertos de Saint-Saëns, a Sonata para violino de Franck e suas Variações Sinfônicas, o Réquiem de Fauré e seus Quartetos e Quintetos com piano, quase todas as obras de Debussy e as primeiras de Ravel. Além de outros compositores com uma ou duas obras ainda lembradas, como Chausson, Chabrier, Dukas, d’Indy, Boulanger…

Sempre fico feliz quando ouço algum regente que gravou a Fantasia para piano e orquestra de Debussy. Grandes maestros como Haitink, Ansermet, Boulez e Karajan não a gravaram. O próprio Debussy desprezou a obra – na estreia, quando ele ainda era um compositor bem pouco famoso, queriam tocar só um dos três movimentos, de forma que ele se irritou e enfiou a partitura na gaveta – e ela só foi estreada de fato por Alfred Cortot em 1919, um ano após a morte do compositor. Felizmente outros gigantes como Jean Martinon (com Ciccolini) e Ivan Fischer (com Kocsis) gravaram essa obra. Mais recentemente, Barenboim e Argerich. Faço questão de citar esses maestros porque na minha irrelevante opinião essa partitura de 1890 tem, cronologicamente, a primeira das primorosas orquestrações de Debussy, um pouco abaixo do Fauno, de La Mer e Nocturnes, mas no mesmo nível de Jeux, Images e das Danças para harpa e orquestra.

Nesta gravação com Jordan, a Fantasia para piano e orquestra (assim como a Rapsódia para orquestra com clarinete) são muito bem defendidas pela Orquestra da Ópera de Monte-Carlo (Mônaco), orquestra tradicional, que estreou obras de Honegger e de Fauré e foi fundada em 1856 no principado famoso pelas corridas de F1. No Fauno de Debussy, ele está em Genebra com a Orquestra da Suisse Romande (que significa a parte da Suíça que fala francês), orquestra fundada em 1918 pelo maestro Ernest Ansermet, que a dirigiu até 1967. Ansermet conheceu Debussy e suas gravações provavelmente estão entre as mais próximas de como o compositor queria que as obras soassem. E a orquestra Suisse Romande, claro, manteve após Ansermet uma profunda ligação com a obra de Debussy.

Já no poema sinfônico Aprendiz de Feiticeiro (1897), one-hit-wonder de Dukas, Jordan está em Paris com a Nova Orquestra Filarmônica da Radio France. É esse percurso entre Paris, lagos da Suíça e sul da França que Jordan fez quase toda a vida. Nascido em Lausanne (Suíça) em 1932, ele não precisou ir morar nos EUA como dezenas de grandes maestros das duas gerações anteriores (Szell, Reiner, Munch, Toscanini, Monteux). Morreu em 2006, cinco dias após um mal súbito que teve enquanto regia a ópera O Amor das Três Laranjas, de Prokofiev, em Basel (Basileia, Suíça).

Também sempre fico feliz quando encontro alguma gravação de Lekeu, compositor de morte muito precoce, que deixou para a posteridade uma grande sonata para violino, algumas obras orquestrais e  mais alguns esboços. No Adagio para cordas ele mostra sua voz muito característica e melancólica, que conheço bem da sua sonata para violino, estreada por Ysaye em 1893, mesmo ano em que Lekeu contraiu a febre tifóide que o vitimaria no começo do ano seguinte. Na Fantasia sobre temas da região de Angers, no oeste da França, Lekeu começa com fanfarras alegres, mas lá pelo 4º minuto se inicia novamente a melancolia romântica que o aproxima de românticos tardios como Tchaikovsky e Wagner. Ao mesmo tempo que sua personalidade musical é notável, também fica aquele ar de mistério: o que exatamente ele queria dizer, que caminhos tomaria se vivesse mais algumas décadas?

Viviane, de 1882, é uma das primeiras obras de Chausson, muito influenciada por Wagner. A orquestração do Poema do amor e do mar é um pouco mais distante da sonoridade de Wagner, e mais próxima do estilo orquestral de Debussy e de Fauré. O Requiem de Fauré (1988) já tinha sido estreado e o Fauno de Debussy seria estreado no ano seguinte, em 1894. Mas sabendo que Chausson era então amigo de Debussy (depois eles brigariam por causa de uma das várias mulheres por quem Debussy se apaixonou perdidamente) e frequentador dos mesmos salões, podemos imaginar que Chausson tenha ouvido uma versão preliminar do Fauno enquanto ele próprio orquestrava seu Poema em 1893. Há uma versão para tenor e uma para soprano. Aqui, quem canta é a diva Jessye Norman, aos 36 anos de idade. E nas melodias vocais, bem como às vezes na orquestra nos momentos dominados pelas cordas, Chausson retoma com força a sonoridade wagneriana. No Poema para violino e orquestra (1896), ela também alterna entre as polaridades francesa e alemã. É como se Wagner fosse um vício para esses franceses como Chausson, Fauré e Debussy: fugiam dele mas depois voltavam com evidente prazer.

As fotos acima são capas dos discos originais dos anos 1980 e 90. A gravadora francesa Erato, sumida desde 2001, ressurgiu em 2013 como um braço da Warner e lançou esta caixa de Armin Jordan em 2016, caixa da qual selecionamos apenas alguns CDs. Talvez voltemos algum dia com outras raridades de Jordan/Erato: Chabrier, Fauré, Franck…

O jovem Guillaume Lekeu

Ernest Chausson (1855-1899); Guillaume Lekeu (1870-1894)
1 Chausson: Viviane Op. 5 (1882)
2 Chausson: Poème de l’amour et de la mer Op. 19 : I. La fleur des eaux (1893)
3 Chausson: Poème de l’amour et de la mer Op. 19 : II. Interlude (1893)
4 Chausson: Poème de l’amour et de la mer Op. 19 : III. La mort de l’amour (1893)
5 Chausson: Poème pour violon et orchestre Op. 25 (1896)
6 Lekeu: Fantaisie sur deux airs populaires angevins (1892)
7 Lekeu: Adagio pour quatuor d’orchestre, Op. 3 (1891)
Jessye Norman, soprano (2-4)
Jean Moulière, violin (5)
Sinfonieorchester Basel (1)
Orchestre Philharmonique de Monte-Carlo (2-7)
Armin Jordan

Paul Dukas (1865-1935), Claude Debussy (1862-1918)
1 Dukas: L’apprenti sorcier (1897)
2 La procession nocturne, Op. 6 (1910)
3 Debussy: Fantaisie pour piano et orchestre: I. Andante – Allegro (1890)
4 Debussy: Fantaisie pour piano et orchestre: II. Lento e molto espressivo (1890)
5 Debussy: Fantaisie pour piano et orchestre: III. Allegro molto (1890)
6 Debussy: Première rapsodie pour clarinette (1911)
7 Debussy: Prélude a l’après-midi d’un faune (1894)
Anne Queffélec, piano (3-5)
Antony Morf, clarinette (6)
Nouvel Orchestre Philharmonique de Radio France (1)
Orchestre Philharmonique de Monte-Carlo (2-6)
Orchestre de la Suisse Romande (7)
Armin Jordan

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O auditório exclusivo da PQP Corp. em Monaco, que de vez em quando emprestamos para a Orquestra de Monte-Carlo

Pleyel

W. A. Mozart (1756-1791): Apollo et Hyacinthus, K. 38 (Pommer)

W. A. Mozart (1756-1791): Apollo et Hyacinthus, K. 38 (Pommer)

Apollo et Hyacinthus é uma ópera em latim, composta por Wolfgang Amadeus Mozart entre 1766 e 1767 com base no texto de R. Widl. Isto é, ele começou a escrevê-la aos 10 anos de idade e finalizou-a aos 11… Leva o número K. 38. É uma música escrita por um gênio, mas também por uma criança. Ou seja, é apenas bonitinha e sem grandes voos. Ouvi com a atenção e é uma ópera toda perfeitinha e sem graça, certamente retocada por papai — e explorador do filho? — Leopold. Surgiu a pedido da Universidade de Salzburgo, como complemento musical a uma tragédia que seria representada ao final de um curso. Sua estreia foi em 13 de maio de 1767 na Aula Magna da mesma Universidade. É um intermezzo musical dentro do estilo do barroco italiano. É a primeira ópera de Mozart. Tem três atos. Como sugere o nome, é baseada no mito grego de Jacinto e Apolo, contado pelo poeta romano Ovídio em suas Metamorfoses. Rufinus Widl escreveu o libreto em latim.

W. A. Mozart (1756-1791): Apollo et Hyacinthus, K. 38 (Pommer) — Ein Lateinisches Intermedium In Drei Akten Zu Dem Schuldrama “Clementia Croesi”

Actus 1
1 Intrada 2:56
2 Recitativo: Amice! Iam Parata Sunt Omnia 3:20
3 No. 1 Chorus: Numen O Latonium/O Apollo 5:38
4 Recitativo: Heu Me! Periimus 1:45
5 No. 2 Aria: Saepe Terrent Numina 9:02
6 Recitativo: Ah Nate! Vera Poqueris 3:27
7 No. 3 Aria: Iam Pastor Apollo 3:28

Actus 2
8 Recitativo: Amare Numquid Filia 2:20
9 No. 4 Aria: Laetari, Iocari 6:34
10 Recitativo: Rex! De Salute Filii 6:01
11 No. 5 Aria: En! Duos Conspicis 3:11
2-1 Recitativo. Heu! Numen! Ecce! 2:16
2-2 No. 6. Duetto. Discede Crudelis! 7:10

Actus 3
2-3 Recitativo. Non Est – Quis Ergo 2:56
2-4 Aria. Ut Navis In Aequore Luxuriante 7:49
2-5 Recitativo. Quocumque Me Converto 3:07
2-6 No. 8. Duetto. Natus Cadit, Atque Deus 6:07
2-7 Recitativo. Rex! Me Redire Cogit 5:43
2-8 Terzetto. Tandem Post Purbida Fulmina 2:52

Alto Vocals [Apollo, Friend Staying With Oebalus] – Ralf Popken
Alto Vocals [Zephyrus, Confidant Of Hyacinthus] – Axel Köhler
Chorus – Rundfunkchor Leipzig
Conductor – Max Pommer
Lyrics By [Text] – P. Rufinus Widl
Orchestra – Rundfunk-Sinfonieorchester Leipzig*
Soprano Vocals [Melia, His Daughter] – Venceslava Hruba-Freiberger*
Tenor Vocals [Oebalus, King Of Lacedemonia] – John Dickie
Vocals [Discantus] [Hyacinthus, His Son] – Arno Raunig

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Mozart aos oito anos de idade segurando um ninho de pássaro (ele sempre gostou muito de aves), por Johannes Josephus Zaufallij (1733-1810), 1764/65

PQP

César Franck (1822–1890) & Alfred Cortot (1877–1962) – Música para Piano e Arranjos Diversos – He Yue, piano (CD1) & Domenico Codispoti, piano (CD2) ֍

César Franck (1822–1890) & Alfred Cortot (1877–1962) – Música para Piano e Arranjos Diversos – He Yue, piano (CD1) & Domenico Codispoti, piano (CD2) ֍

Os três homens não poderiam ser mais diferentes, nos aspectos e temperamentos… Apesar de cada um ter já um nome firmado como solista de seu próprio instrumento, quando se reuniam formavam um conjunto notável, pela maneira como se completavam musicalmente, recriando com rara espontaneidade as obras para trio com piano. Tanto que seu exemplo ajudou a firmar este tipo de conjunto. Esse famoso trio costumava reunir-se com regularidade para ensaiar, estudar novas peças, mas também para falar de literatura, pintura, dança e, é claro, música. Mas eis que em certa ocasião, lá se foi o violoncelista para sua natal Catalunha por uns tempos, deixando o pianista e o violinista às voltas com sonatas, incluindo a famosa Sonata de César Franck. Pois foi assim, num destes dias, o pianista chegou mais cedo e o violinista atrasou mais do que o costume. O pianista, para não se entediar, começou, de brincadeira, a tocar a sonata TODA. Isso mesmo, não apenas a pouco trivial parte do piano, mas, assim cantando com o teclado, ia incluindo também a parte do violino. Bom, o pianista era um bamba e quando o violinista ouviu um trecho, foi logo prometendo nunca mais se atrasar – pois que senão você fará o recital sozinho, disse ele.

P. Casals, J. Thibaud e A. Cortot

Confesso ter imaginado isso tudo, mas que a história é plausível, ah, isso é. O trio a que me refiro era formado por Alfred Cortot (piano), Jacques Thibaud (violino) e Pablo Casals (violoncelo). O trio foi formado em 1905 e esteve ativo por décadas. Há registros dos três e, também, de Cortot e Thibaud tocando a tal Sonata de César Franck. Mas a postagem de hoje trata principalmente do pianista, regente e arranjador Alfred Cortot.

Como geralmente faço, estava revirando umas pilhas de discos que temos acumulados aqui no vault do PQP Bach Coop. em busca de coisas que goste ou de que possa vir a gostar. Acabei encontrando um disco que apesar de bem interessante, não chegou à postagem. Teve, no entanto, o mérito de indicar este arranjo – transcrição – da Sonata para Violino de César Franck para piano solo, feito por Alfred Cortot. Sai em busca de outras gravações e encontrei mais três discos com a peça. Depois de trocentas audições, dois deles acabaram entrando para a postagem. Eu nem sou assim um ouvinte assíduo das peças de Franck, acho que sua Sinfonia fica muito tempo taxiando antes de decolar e tal. Mas a Sonata para Violino, essa merece lugar de destaque. Minha gravação referência é a feita por Kyung-Wha Chung (violino) e Radu Lupu (piano), mas há muitas outras, excelentes.

No primeiro disco escolhido para a postagem, interpretados pelo ótimo pianista He Yue, encontramos um punhado de transcrições para piano de obras de diversos compositores, feitas por Cortot. As escolhas das fontes revelam dois aspectos das atividades ligadas ao piano. A de professor, que se preocupava com o aspecto técnico. Para ele, a música da Bach era muito importante na formação de um pianista. Esse aspecto está aqui na forma de uma transcrição da Toccata e Fuga em ré menor BWV 565. Imagino se o Capitão Nemo conhecia essa…

Mas Cortot também tinha um olho na audiência. Veja quais dois maravilhosos Lieder ele escolheu para transcrever: Wiegenlied, uma canção de ninar, de Brahms, e Heidenröslein, um dos maiores sucessos de Schubert. O Largo do Concerto em fá menor de Bach também tem uma dessas marcantes melodias, que gruda na memória da gente. Há também os desafios para qualquer pianista, dar conta sozinho de música que foi concebida para conjuntos maiores, como a Suíte Dolly, de Gabriel Fauré, escrita para duo de piano, o Largo da Sonata para Violoncelo de Chopin e a Sonata de César Franck, que completa o disco e foi a motivação para a postagem.

O segundo disco oferece música escrita originalmente apenas por César Franck, incluindo a tal transcrição para piano solo da Sonata para violino e piano feita por Cortot. Aqui uma interpretação um pouco diferente, talvez mais contida do que o virtuosismo do He Yue, mas o som produzido por Domenico Codispoti é muito bonito e não lhe falta virtuosismo e brilho quando chega a hora disso. A outra peça é uma transcrição para piano de um Prelúdio, Fuga e Variações escrito para órgão, feita por Harold Bauer. Bauer é também um ótimo personagem para se descobrir, mas hoje a postagem é do Cortot. Fechando o disco, uma outra peça notável de Franck, o Prelúdio Coral e Fuga, escrito para piano. Esta peça é figurinha carimbada nos álbuns de vários grandes pianistas, como Stephen Hough, Murray Perahia ou Evgeny Kissin. (Não perca, em breve, no seu PQP Bach mais próximo…)

Disco 1

Música transcrita para piano por

Alfred Cortot (1877 – 1962)

escrita originalmente por:

Gabriel Fauré (1893 – 1897)

Suíte Dolly, Op. 56

  1. Berceuse
  2. Mi-a-ou: Allegro vivo
  3. Le jardin de Dolly: Andantino
  4. Kitty-valse: Tempo di valse
  5. Tendresse: Andante
  6. Le pas espagnol: Allegro

Johann Sebastian Bach (1685 -1750)

  1. Toccata e Fugue em ré menor, BWV565

Johannes Brahms (1833 – 1897)

  1. Wiegenlied, Op. 49 No. 4 (Lullaby)

Johann Sebastian Bach (1685 -1750)

Concerto para Cravo em fá menor, BWV 1056:

  1. Largo

Frédéric Chopin (1810 – 1849)

Sonata para violoncelo em sol menor, Op. 65

  1. Largo

Franz Schubert (1797 – 1828)

  1. Heidenröslein, D257

César Franck (1822 – 1890)

Sonata para violino em lá maior

  1. Allegretto ben moderato
  2. Allegro
  3. Recitativo – Fantasia: Ben moderato – molto lento
  4. Allegretto poco mosso

He Yue, piano

Gravação: 27, 28 de outubro de 2012

Music Hall, Gu Lang Yu Piano School, Central Music Conservatory, Xiamen City, China

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FLAC |214 MB

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MP3 | 320 KBPS | 143 MB

Legendary pianist Alfred Cortot’s distinguished reputation as an educator is demonstrated in these magnificent arrangements of chamber music for solo piano. They cover every aspect of technique and expression, from Bach’s demanding Toccata and Fugue in D minor to Fauré’s delectable Dolly Suite and the grand scale of Franck’s Violin Sonata. Award-winning pianist He Yue is a young and rising star of the Chinese musical firmament.

Disco 2

César Franck (1822 – 1890)

Sonata para violino em lá maior (Arranjo de Alfred Cortot)

  1. Allegretto ben moderato
  2. Allegro
  3. Recitativo – Fantasia: Ben moderato – molto lento
  4. Allegretto poco mosso

Prelúdio, Fuga e Variações Op. 18 (Arranjo de Harold Bauer)

  1. Prelúdio
  2. Fuga
  3. Variações

Prelúdio, Coral e Fuga

  1. Prelúdio
  2. Coral
  3. Fuga

Domenico Codispoti, piano

Gravação: outubro de 2012

I Musicanti Studio, Roma

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FLAC |201 MB

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MP3 | 320 KBPS | 149 MB

This CD contains the CD premiere of the transcription for piano solo of the Franck violin sonata, made by Alfred Cortot, a fascinating pianistic tour de force, the new pianistic textures giving a special sonority to the unique harmonies of this master piece. The Prélude, fugue et variation is originally an organ work, and is transcribed for piano by the famous pianist Harold Bauer. The Prélude, chorale et fugue is Franck’s pianistic pièce de résistance, although also here the influence of Franck the organist is never far away. An excellent new recording by Italian pianist Domenico Codispoti, playing with a beautiful blend of grandeur and intimacy, and a wonderful transparency (listen to the canonic 4-th movement of the violin sonata!).

Aproveite!

René Denon

Alfred testando um piano Pleyel da coleção do PQP Bach…

Claude Debussy (1862-1918): Sonata em Sol menor para Violino e Piano, Sonata em Ré Menor para cello e Piano, Syrinx para flauta solo e Sonata para Flauta, Viola e Harpa (Grumiaux, Gendron, Bourdin) #DEBUSSY160

Este é um CD para ninguém botar defeito – até mesmo para o anti-debussyanos. É um daqueles CDs que fazem bem à alma e à mente. Debussy é sempre bem-vindo em todas as ocasiões. Temos 3 sonatas maravilhosas – bem ao estilo debussyano. As três sonatas são um trabalho de um Debussy já maduro. Elas foram compostas entre os anos de 1915 e 1917 – no período da Primeira Guerra. “Também as três sonatas do seu período final foram construídas segundo princípios inteiramente diversos da sonata clássica vienense, mas por outros motivos. Foram compostas no período da guerra, e Debussy, nacionalista intransigente, rejeitou os princípios da sonata clássica vienense para recuperar a forma cíclica da sonata francesa. As três sonatas (1915-1917), parte de um ciclo que ficou incompleto, para instrumentos diversos, das quais a mais importante é a Sonata para piano e violino, são obras avançadas, com asperezas inéditas em sua música anterior”. Aparecem ainda Syrinx, uma composição para flauta escrita em 1913, de uma beleza sóbria, de uma profundidade comovente. Aprecie sem moderação!

Claude Debussy (1862-1918) – Três Sonatas e Syrinx

Arthur Grumiaux (1921-1986)

Sonata em Sol menor para violino e piano
1. I. Allegro Vivo
2. II. Intermède (Fantasque et Léger)
3. III. Finale (Très Animé)

Sonata em Ré menor para cello e piano
4. I. Prologue (Lent)
5. II. Sérénade (Modérément Animé)
6. III. Finale (Animé)

Syrinx, para flauta
7 . Syrinx

Sonata para flauta, viola e harpa
8. I. Pastorale (Lento, Dolce Rubato)
9. II. Interlude (Tempo di Menuetto)
10. III. Finale (Allegro Moderato ma Resoluto)

Cello – Maurice Gendron (tracks: 4 to 6)
Flauta – Roger Bourdin (tracks: 7 to 10)
Harpa – Annie Challan (tracks: 8 to 10)
Piano – István Hajdu (tracks: 1 to 3) , Jean Françaix (tracks: 4 to 6)
Viola – Colette Lequien (tracks: 8 to 10)
Violino – Arthur Grumiaux (tracks: 1 to 3)
Recorded: 1962 (1-3), 1964 (4-6), 1966 (7-10)

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Carlinus (2010)

Breve P.S. de Pleyel (2022): Doente com câncer, Debussy – ao contrário de Ravel – não se alistou como combatente na guerra em 1914. Mas ele também esteve imerso no clima de nacionalismo do momento, aliás já era muito anterior o seu desprezo pela música de Wagner e de Mahler (ele e seus amigos saíram no meio de uma apresentação da 2ª sinfonia de Mahler, dizendo tratar-se de música de anúncio de pneus). Em 1915, Debussy começou a escrever uma sonata para violoncelo e piano, que deveria ser a primeira de uma série de seis sonatas reunindo diferentes instrumentos. Ele escolheu um título que revela muito bem suas intenções: “Seis Sonatas / para diversos instrumentos / Compostas por Claude Debussy / Músico Francês”.

A sonata para flauta, viola e harpa, também de 1915, foi estreada em 1916 em Boston, EUA, por músicos norte-americanos, e pouco depois em uma reunião privada em Paris na casa de Durand, editor de Debussy. Também foi tocada em Londres em 1917. Durante a guerra era inviável juntar os músicos de uma orquestra, mas a música de câmara seguia acontecendo. (A 2ª Sonata para violino de Fauré e a História do Soldado de Stravinsky são do mesmo ano.)

A sonata para violino e piano, composta em 1917, foi estreada com Gaston Poulet no violino e Claude Debussy no piano. Foi a última vez que ele tocou em público. E as outras três sonatas previstas? Não deu tempo. Debussy faleceu em Paris, 25 de março de 1918 e a guerra ainda não tinha acabado.

Debussy e sua filha em 1915

Exotisme, sonorités pittoresques – Peças para Piano – Ludmilla Guilmault & Jean-Noël Dubois ֍

Exotisme, sonorités pittoresques – Peças para Piano – Ludmilla Guilmault & Jean-Noël Dubois ֍

Diversos Compositores

Peças para Piano a duas ou

a quatro mãos

Ludmilla Guilmault

Jean-Noël Dubois

 

Este disco está a um passo de ser um disco de gatinhos. Para quem teve o privilégio de viver o suficiente sabe que havia discos de (capas com) gatinhos, recheados com os melhores movimentos de música ‘clássica’, retirados do acervo (monumental) da gravadora Philips.

É claro que o resultado costumava ser uma coleção, uma antologia com os melhores momentos, mas que assim reunidos poderia resultar de uma Dança do Sabre, de Katchaturian, surgir após a Ária da Suíte Orquestral No. 3, de Bach… e ainda, a tal endiabrada dança dos furiosos guerreiros anteceder o (possivelmente) mais famoso movimento de uma Suíte Francesa – Clair de Lune, de Debussy. Mas os discos de gatinhos vendiam muito bem e levaram as sementes da música clássica para muitos futuros apreciadores.

Aqui temos assim uma coleção de ‘melhores momentos’, mas com um repertório que guarda uma maior afinidade, girando em torno de peças de música francesa ou próxima, para piano a duas ou a quatro mãos. Os dois intérpretes, Ludmilla Guilmault e Jean-Noël Dubois intercalam-se nos solos e eventualmente se juntam em algumas das faixas.

Este disco reúne peças de compositores de grande renome com peças brilhantes de compositores menos conhecidos e me surpreendeu pela sua contagiante amabilidade e alegria. Minha simpatia foi totalmente conquistada pelas duas peças de Séverac, que ocupam as faixas dois e três. Essas duas peças interpretadas a quatro mãos revelam lindas sonoridades e um frescor contagiante.

Assim, sem qualquer pudor de esbanjar alegria, o disco desfila peças de Debussy – alguns prelúdios, a já mencionada Clair de lune e dois irresistíveis movimentos da Petit Suite. A escolha entre os muitos prelúdios é bem interessante e diversa. O disco começa calmamente com Voiles, depois haverá poesia de Les sons et les parfums tournent dans l’air du soir, as brincadeiras da Serenata interrompida e completará com as pirotecnias de Feux d’artifice.

Há duas nobres e sentimentais valsas de Ravel, assim como os tristes pássaros e dois deliciosos números da Suíte da Mamães Gansa.

Não poderia faltar alguma coisa bem-humorada da música de Camille Saint-Saëns, dois movimentos do Carnaval dos Animais: os contrastantes Hémiones e Aquarium. Fauré inaugura o clima fandango espanhol com o espetacular Le pas espagnol, da Suíte Dolly, e o clima continua com duas peças de Manuel de Falla – uma dança espanhola (de La Vida Breve) e a Dança Ritual do Fogo (de El Amor Brujo).

Para fechar o cortejo, em clima de bis, a Marcha Turca de Mozart, que em certos trechos ganha um reforço sonoro…

Um disco para ser ouvido pelo prazer das lindas peças e que para algumas pessoas pode servir para despertar o interesse por este tipo de música, assim como no passado fizeram os discos de gatinhos.

Claude Debussy (1862 – 1918)

Préludes, Livre 1, L. 117
  1. Voiles

Ludmilla Guilmault, piano

Déodat de Séverac (1872 – 1921)

En Vacances, Vol. 1
  1. Où l’on entend une vieille boîte à musique
  2. Valse romantique

Ludmilla Guilmault; Jean-Noël Dubois, piano

Maurice Ravel (1875 – 1937)

Valses nobles et sentimentales, M. 61
  1. Assez lent, avec une expression intense
  2. Vif

Ludmilla Guilmault, piano

Claude Debussy (1862 – 1918)

Préludes, Livre 1, L. 117
  1. Les sons et les parfums tournent dans l’air du soir

Ludmilla Guilmault, piano

Gabriel Fauré (1845 – 1924)

Dolly, Op. 56
  1. Le pas espagnol

Ludmilla Guilmault; Jean-Noël Dubois, piano

Camille Saint-Saëns (1835 – 1921)

Le Carnaval des Animaux, R. 125
  1. Hémiones
  2. Aquarium

Ludmilla Guilmault; Jean-Noël Dubois, piano

Claude Debussy (1862 – 1918)

Préludes, Livre 1, L. 117
  1. La Sérénade interrompue

Ludmilla Guilmault, piano

Suite Bergamesque, L. 75
  1. Clair de lune

Jean-Noël Dubois, piano

Maurice Ravel (1875 – 1937)

Miroirs, M. 43
  1. Oiseaux tristes

Ludmilla Guilmault, piano

Claude Debussy (1862 – 1918)

Petite Suite, L. 65
  1. En Bateau
  2. Ballet

Ludmilla Guilmault; Jean-Noël Dubois, piano

Maurice Ravel (1875 – 1937)

Ma Mère l’Oye, M. 60
  1. Laideronette, Impératrice des Pagodes
  2. Les entretiens de la Belle et la Bête

Ludmilla Guilmault; Jean-Noël Dubois, piano

Manuel de Falla (1876 – 1946)

La Vida Breve, G. 35
  1. Spanish Dance No. 1

Ludmilla Guilmault; Jean-Noël Dubois, piano

Claude Debussy (1865 – 1918)

Préludes, Livre 2, L. 123
  1. Feux d’artifice

Jean-Noël Dubois, piano

Manuel de Falla (1876 – 1946)

El Amor Brujo
  1. Danza Ritual del Fuego

Ludmilla Guilmault, piano

Wolfgang Amadeus Mozart (1756 – 1791)

Piano Sonata No. 11 in A Major, K. 331
  1. Alla Turca (Allegretto)

Jean-Noël Dubois, piano

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Plus d’infos sur le ”Exotisme, Sonorités pittoresques” Concert-spectacle pour piano solo et à 4 mains par le Duo Cziffra à Paris

Dans ce choix de répertoire que j’ai choisie de Debussy, ravel, Fauré, Saint-Säens, séverac, De Falla, Mozart sont des compositeurs qui nous font voyager par leur couleur locale de leur nouveaux timbres pianistiques avec notamment ce prélude les Sons et les Parfums de Debussy, des accords qui habillent des harmonies voluptueuses au rythme impressionnisme.

L’odeur hispanisante.

Exotisme exprime pour moi une harmonie du soir, propice à l’évocation d’un lointain passé.

Exotisme, des images qui semblent solliciter, l’ouïe, la vue, le toucher, l’odorat, établissant en musique ces correspondances ténues que Baudelaire, le premier devina en poésie.

Des sensations de couleurs d’exotisme.

Des odeurs d’oeuillet et d’arguardiente, une atmosphère de castagnettes avec la Sérénade Interrompue de Claude Debussy.

Ces pièces orientales de Ravel, Laideronette, impératrice des pagodes pour piano à 4 mains nous évoque ces pays lointains, ce dépaysement par le recours au patrimoine musical de chaque compositeur.

Falla tient à faire son miel des fleurs du folklore.

Falla, c’est l’Andalousie et son flamenco, des voluptueux jardins andalous, des Nuits à l’âpre.

Séverac, possède une sonorité charnue, couleur en taches plus vives, en pâte plus épaisse, ce goût des échelles modales. Il nous conte les paysages traversés, inspiration de sa chère Méditerranée.

Site web : http://www.ludmilla-guilmault.com

Aproveite!

René Denon