A gente ouve Weinberg e logo pensa em Shostakovich. Mas num Shosta mais modesto do ponto de vista artístico. A relação entre a música de Mieczysław Weinberg e Dmitri Shostakovich é uma das mais fascinantes e complexas da música do século XX. A conexão começou em 1943, quando Weinberg, então um jovem compositor refugiado da Polônia na União Soviética, enviou sua Primeira Sinfonia a Shostakovich. Impressionado, Shostakovich não só o ajudou a se mudar para Moscou, como se tornou seu amigo mais próximo e mentor. Weinberg declarou: “Embora eu nunca tenha tido aulas com ele, considero-me seu aluno, sua carne e seu sangue”. Esta frase resume a dívida artística que sentia, mas a realidade é que o intercâmbio de ideias era uma via de mão dupla. A influência de Shostakovich na música de Weinberg pode ser percebida em diversos aspectos. Primeiramente pela estética compartilhada: ambos viveram sob a opressão do regime soviético, e essa experiência se traduziu em uma música de grande tensão emocional, ironia amarga, e uma profunda introspecção. Eles compartilhavam uma visão similar sobre o “papel da música” como um testemunho de seu tempo. Depois pela linguagem musical: é possível encontrar paralelos no uso de certos gestos musicais, como melodias líricas e melancólicas, scherzos grotescos e frenéticos, e uma predileção por formas como a passacaglia. E finalmente pela música judaica: Um dos elos mais fortes foi o interesse comum pela música folclórica judaica. Weinberg, filho de um diretor musical de teatro iídiche, trouxe essa herança em sua obra. Acredita-se que ele tenha sido uma fonte crucial para o florescimento do interesse de Shostakovich por esses temas, que resultou em obras-primas como o Segundo Trio com Piano e o ciclo “Da Poesia Popular Judaica”.
Mieczysław Weinberg (1919-1996): Sonata No. 3 Op. 126 / Trio Op. 48 / Concertino Op. 402 / Symphony No. 10 Op. 98 (Kremerata Baltica] – Dainius Rudvalis (faixas: 2-1 to 2-8) Double Bass [Kremerata Baltica, Kremer)
1-1 Sonata No. 3 Op. 126 22:14
Trio Op. 48
1-2 Allegro Con Moto 5:57
1-3 Andante 4:23
1-4 Moderato Assai 4:26
Sonatina Op. 46
1-5 Allegretto 4:11
1-6 Lento 5:18
1-7 Allegro Moderato 3:49
Concertino Op. 42
2-1 Allegretto Cantabile 5:42
2-2 Lento 5:30
2-3 Allegro Moderato Poco Rubato 4:39
Symphony No. 10 Op. 98
2-4 Concerto Grosso. Grave 9:34
2-5 Pastorale. Lento 8:52
2-6 Canzona. Andantino 8:16
2-7 Burlesque. Allegro Molto 3:15
2-8 Inversion. L’Istesso Tempo 4:37
Concertmaster [Kremerata Baltica] – Gidon Kremer (faixas: 2-4 to 2-8)
Double Bass [Kremerata Baltica] – Dainius Rudvalis (faixas: 2-1 to 2-8)
Double Bass [Kremerata Baltica], Leader [Alternating Group Leader] [Kremerata Baltica] – Danielis Rubinas (faixas: 2-1 to 2-8)
Orchestra – Kremerata Baltica (faixas: 2-1 to 2-8)
Piano – Daniil Trifonov (faixas: 1-5 to 1-7)
Soloist, Viola – Daniil Grishin (faixas: 1-2 to 1-4)
Soloist, Violin – Gidon Kremer (faixas: 1-1 to 2-3)
Soloist, Violoncello – Giedrė Dirvanauskaitė* (faixas: 1-2 to 1-4)
Viola [Kremerata Baltica] – Daniil Grishin (faixas: 2-1 to 2-8), Ingars Ģirnis (faixas: 2-1 to 2-8), Santa Vižine (faixas: 2-1 to 2-8), Vidas Vekerotas (faixas: 2-1 to 2-8), Zita Zemoviča (faixas: 2-1 to 2-8)
Viola [Kremerata Baltica], Leader [Alternating Group Leader] [Kremerata Baltica] – Daniil Grishin (faixas: 2-1 to 2-8)
Violin [Kremerata Baltica] – Agnė Doveikaitė-Rubinė* (faixas: 2-1 to 2-8), Andrei Valigura (faixas: 2-1 to 2-8), Dainius Peseckas (faixas: 2-1 to 2-8), Madara Pētersone (faixas: 2-1 to 2-8), Marie-Helen Rannat (faixas: 2-1 to 2-8), Nikita Borisoglebskiy* (faixas: 2-1 to 2-8), Rasa Vosyliūtė-Mickūnienė* (faixas: 2-1 to 2-8), Sanita Zariņa (faixas: 2-1 to 2-8), Simona Venslovaitė (faixas: 2-1 to 2-8)
Violin [Kremerata Baltica], Concertmaster [Kremerata Baltica] – Džeraldas Bidva* (faixas: 2-1 to 2-8)
Violin [Kremerata Baltica], Leader [Alternating Group Leader] [Kremerata Baltica] – Jana Ozoliņa* (faixas: 2-1 to 2-8)
Violoncello – Giedrė Dirvanauskaitė* (faixas: 1-2 to 1-4)
Violoncello [Kremerata Baltica] – Gunta Ābele (faixas: 2-1 to 2-8), Pēter Cirkšis* (faixas: 2-1 to 2-8), Rūta Tamutytė (faixas: 2-1 to 2-8)
Violoncello [Kremerata Baltica], Leader [Alternating Group Leader] [Kremerata Baltica] – Giedrė Dirvanauskaitė* (faixas: 2-1 to 2-8)

PQP


Sibelius era um romântico tardio. Um romântico tardio bem esquisito do qual gosto muito. Meu primeiro contato com suas obras para piano foi um belo e pesado disco de vinil. O pianista era Glenn Gould. Somando-se esquisitice com esquisitice o resultado era excelente. Heinonen, o pianista deste CD, mantém o clima preferido do finlandês: uma sintaxe à princípio pouco convidativa, fria, mas gentil e cheia de surpresas. Eu gosto. Não são obras para serem ouvidas apenas uma vez, elas custam a convencer, mas convencem. Sibelius foi um cara fundamental para a independência da Finlândia, que ficava ora em mãos russas, ora em suecas. Sua música teve importante papel na formação da identidade nacional finlandesa. Tudo aqui é nacionalismo, cada nota, apesar do jeitão intimista do moço.
POSTAGEM ORIGINAL DE PQP BACH EM 11/9/2013,





























Um bom CD que vale pale segunda faixa, Elveen, homenagem ao baterista Elvin Jones, que está no grupo nesta faixa e na 5ª. De resto, adoro Marsalis, mas ouvi este disco sem real entusiasmo apesar do incrível apuro técnico e musicalidade do quinteto. As harmonias são lindas, mas nenhum dos temas é particularmente memorável e, embora os solos individuais sejam bons, não acontece muita coisa. No geral, é uma homenagem bastante estranha ao blues. Na verdade, o principal significado deste conjunto é que, aqui o grande trompetista reuniu pela primeira vez o núcleo do seu quinteto. Musicalmente esta trilogia pode ser contornada. ouça as gravações mais recentes de Marsalis. Não obstante, este é um álbum relaxante. Wynton Marsalis é um músico, compositor, líder de banda, aclamado educador e um dos principais defensores da cultura americana. Ele é o primeiro artista de jazz a tocar e compor em todo o espectro do gênero, desde as raízes de Nova Orleans até o bebop e o jazz moderno. Ao criar e executar uma ampla gama de músicas para quartetos e big bands, de conjuntos de música de câmara a orquestras sinfônicas, de sapateado a balé, Wynton expandiu o vocabulário do jazz e criou um corpo vital de trabalho que o coloca entre os mais importantes músicos de nosso tempo.
IM-PER-DÍ-VEL !!!










IM-PER-DÍ-VEL !!!
Estivemos no meio de uma enxurrada de postagens de Mozart, e agora temos uma enxurrada de Shostakovichs. Mas não creio que alguém vai reclamar. Estas gravações que ora vos trago são históricas, gravadas no apogeu da Guerra Fria. Esqueçam Haitink, Barshai, e não sei mais quem. Kirill Kondrashin é o nome do cara. Sim, claro que estou exagerando, o ideal é deixar todas estas gravações juntas, para serem analisadas, comparadas, etc. Ouvi-las à exaustão, para melhor identificarem as diferenças de leitura de cada um destes grandes maestros. E vamos ao que viemos.




IM-PER-DÍ-VEL !!!



As três últimas Sonatas para Piano de Franz Schubert, incrivelmente compostas em setembro de 1828, poucas semanas antes de sua morte prematura, constituem um testamento sonoro de rara grandeza e introspecção. Longe de serem meras heranças beethovenianas, elas revelam um Schubert já plenamente visionário: a estrutura clássica é invadida por harmonias inquietantes e uma expressividade que oscila entre o desespero e a transcendência. A D. 958 ecoa a fúria dramática de Beethoven, mas com a melancolia tipicamente schubertiana. A D. 959 expande-se em um Andantino de dor quase expressionista, seguido de um Scherzo fantasmagórico. A D. 960 coroa essa trilogia. Abre com um tema de simplicidade celeste, só para submergir em regiões de silêncio perturbador e nostalgia cósmica. Juntas, formam uma viagem ao abismo e à redenção — não como confissão biográfica, mas como geografia da alma humana, onde a forma clássica se rompe para dar voz ao inefável. São, nas palavras de Alfred Brendel, “a despedida de um poeta que já habitava um mundo além do seu tempo”.






Ninguém deve roubar ou matar por este CD. Ele é bom, mas também não é extraordinário. As Cantatas de Alessandro Scarlatti (1660-1725) — em especial suas mais de 600 cantatas para voz solo e baixo contínuo — representam o ápice da cantata profana barroca italiana, moldando um gênero que equilibrava drama, lirismo e intimidade. Não se comparam às Cantatas Italianas de Handel, que humilha AS de cima a baixo. Compostas predominantemente para vozes de castrato ou soprano, essas obras são micro-óperas sem cenário, estruturadas em uma sequência de recitativos expressivos (onde a palavra avança a ação) e árias. Scarlatti refinou a forma do recitativo acompanhado e consolidou a ária com orquestração rica, utilizando o baixo contínuo não apenas como suporte, mas como personagem ativo no diálogo com a voz. Seus temas — quase sempre extraídos da mitologia clássica — ganham vida através de uma escrita vocal que exige tanto agilidade técnica quanto profundidade retórica, enquanto as linhas do baixo prenunciam o Classicismo, mas não se entusiasme muito. Em suas cantatas, Scarlatti lançou as bases para a ópera séria do século XVIII, tornando-se assim um arquiteto fundamental da expressão vocal barroca.
As sinfonias que abrem (ou “interrompem”) algumas das Cantatas de J.S. Bach não são “sinfonias” no sentido clássico posterior, mas sim movimentos instrumentais de abertura que funcionam como prelúdios orquestrais. Em geral, Bach utilizava esses movimentos para estabelecer o afeto teológico e musical da cantata, muitas vezes reaproveitando material de seus próprios concertos (como os Concertos de Brandemburgo) ou criando texturas contrapontísticas densas. Essas aberturas, muitas vezes em forma de concerto grosso, revelam não apenas a maestria instrumental do compositor, mas também sua capacidade de fundir o sagrado e o profano: o mesmo material que animava uma dança secular podia, na Cantata, elevar-se como invocação ao divino. Assim, as sinfonias das cantatas são portais sonoros que convidam o ouvinte a adentrar um universo onde a música instrumental e a vocal dialogam em serviço à expressão espiritual. Esta gravação é muito boa e, digamos, atléticas — como lhes é exigido.

