O Mosaïques é um excelente quarteto. Sabem que eles saíram de dentro do Concentus Musicus de Nikolaus Harnoncourt? Formaram o quarteto em 1985, quando ainda estavam na orquestra e seu violoncelista é o grande Christophe Coin. Eles são especializados no classicismo vienense, diga-se Haydn, Mozart e Schubert. E Beethoven. Vale a pena ouvi-los. Tocando com cordas de tripa e nos arcos de design do início do século 19, o Mosaïques trouxe calor e sutilezas a essas obras fascinantes. Hoje em dia, quando os conjuntos historicamente informados abundam, a gente nem deveria falar mais em instrumentos originais, mas aqui não podemos fugir do fato de que o Mosaïques estão fazendo isso há 35 anos! Durante esse período, eles exploraram e gravaram uma ampla gama de repertórios de quartetos, de Haydn a Mendelssohn. Porém, em disco — não em recitais –, eles têm sido muito mais cautelosos com Beethoven. As gravações das obras do Op. 18 apareceram incompletas há mais de uma década, depois vieram alguns quartetos intermediários e só agora é que chegaram ao ciclo completo dos cinco últimos quartetos.
Este é um campo altamente competitivo e, do Busch Quartet ao Takács, passando pelo Kodály, o padrão pode ser estratosférico. As performances dos Mosaïques são — até onde sei — a primeira gravação desses trabalhos em instrumentos de época, o que os distingue muito. Mas há mais: o fraseado parece surpreendentemente moderno, há muita leveza e equilíbrio em muitas passagens que podem se tornar exageradas — há muito mais luzes e sombras nas performance dos Mosaïques da Große Fuge, por exemplo, que eles tocam como o final da Op 130. Eu acho uma coisa sabem? Na maioria das gravações que ouço, retirando desta observação os deuses do repertório, a surpreendente originalidade dos quartetos tardios de Beethoven nos chegam um pouco abafada pelas cordas modernas e pelos estilos de tocar derivados da tradição cantabile romântica. O foco do Mosaïques é outro. Quando começa o Op.127, ouvimos um um timbre mais próximo dos conjuntos de música antiga do que de um quarteto moderno, a coisa vem livre de “expressivos” enjoativos. O desejo de remover camadas interpretativas bobas é realizado com mais força nos Op. 131 e 132, durante os quais o rosto franzido e a alma agonizante são substituídas pela pureza de linhas e suaves vibratos (aleluia!). A famosa Cavatina do Op. 130 possui uma clareza que a aproxima de um intermezzo mendelssohniano, fazendo com que o choque da poderosa Große Fuge seja ainda mais imponente. O Op. 132 é levado com extremo senso de estilo e com a devida profundidade. É sempre difícil escrever sobre uma música que amamos muito e que nos faz lembrar fatos pessoais. A primeira coisa que me vem à mente quando penso no Op. 132 foi aquele momento mágico e levemente fantasmagórico em que eu, sentado na tranquilamente na sala, ouvi iniciar o Allegro Appassionato (último movimento do quarteto) e vi que, logo aos primeiros compassos, minha filha, aos cinco anos de idade, entrava girando na sala, dançando a valsa sozinha, de olhos fechados, por puro prazer de ouvir a música… Foi tão marcante que hoje soa-me hipócrita dizer que o movimento principal deste quarteto é o imenso e perfeito Molto Adagio – Andante (Heiliger Dankgesang eines Genesenen an die Gottheit, in der lydischen Tonart), um agradecimento à divindade pela recuperação que Beethoven obteve após grave enfermidade. Mas é, claro que é. O terceiro movimento, com suas duas explosões de alívio é o centro e razão de ser desta grande e fundamental obra. No terreno neoclássico do Op. 135, o Mosaïques inflama a música com um virtuosismo que talvez revele um novo caminho a seguir. Ele encerra um dos conjuntos mais reveladores e instigantes desses clássicos atemporais em décadas.
Não é uma gravação para ir ao pódio, mas que belisca, belisca.
Ludwig van Beethoven (1770-1827): Os Últimos Quartetos (Mosaïques)
String Quartet No. 12 In E Flat Major, Op. 127
1-1 Maestoso – Allegro 6:59
1-2 Adagio Ma Non Troppo E Molto Cantabile – Andante Con Moto – Adagio Molto Espressivo 12:58
1-3 Scherzando Vivace – Presto 8:57
1-4 Finale. Allegro 6:30
String Quartet No. 14 In C Sharp Minor, Op. 131
1-5 Adagio Ma Non Troppo E Molto Espressivo 6:09
1-6 Allegro Molto Vivace 3:08
1-7 Allegro Moderato – Adagio 0:41
1-8 Andante Ma Non Troppo E Molto Cantabile – Più Mosso – Andante Moderato E Lusinghiero – Adagio – Allegretto – Adagio Ma Non Troppo E Semplice – Allegretto 13:05
1-9 Presto 5:34
1-10 Adagio Quasi Un Poco Andante 1:40
1-11 Allegro 6:51
String Quartet No. 13 In B Flat Major, Op. 130
2-1 Adagio Ma Non Troppo – Allegro 14:32
2-2 Presto 2:03
2-3 Poco Scherzando. Andante Con Moto Ma Non Troppo 7:38
2-4 Alla Danza Tedesca. Allegro Assai 3:05
2-5 Cavatina, Adagio Molto Espressivo 6:09
2-6 String Quartet No. 17 In B Flat Major, Op. 133, ‘Grosse Fuge’: Overtura – Fuga. Allegro – Meno Mosso E Moderato – Allegro Molto E Con Brio 15:56
String Quartet No. 15 In A Minor, Op. 132
3-1 Assai Sostenuto – Allegro 9:47
3-2 Allegro Ma Non Tanto 8:45
3-3 Molto Adagio – Andante 15:07
3-4 Alla Marcia, Assai Vivace – Più Allegro 2:08
3-5 Allegro Appassionato 7:06
String Quartet No. 16 In F Major, Op. 135
3-6 Allegretto 7:04
3-7 Vivace 3:39
3-8 Lento Assai, Cantante E Tranquillo 7:01
3-9 Grave, Ma Non Troppo Tratto – Allegro 6:35
Quarteto Mosaïques:
Erich Höbarth, violino
Andrea Bischof, violino
Anita Mitterer, viola
Christophe Coin, violoncelo

PQP






Uma mesma gravação, duas capas medonhas: uma que parece ter sido feita no Paint por minha tia-avó que me mandava PowerPoints de bom-dia, outra semelhante a uma colagem que eu fiz, de braço quebrado, para o Dia das Mães de 1986. Ainda assim, e mesmo com o montão de concertos para piano de Schumann que temos em nosso acervo pequepiano, não poderia deixar de homenagear Martha Argerich, nossa musa pianística máxima, pelo seu aniversário, e com essa obra-prima que ela toca como ninguém. Confesso que não esperava muito de sua parceria com um regente de temperamento artístico tão diametralmente oposto, mas o conde d’


O interesse de Schumann pelo violino surgiu tardiamente, por instigação de dois virtuoses. O primeiro, Ferdinand David, era o celebrado spalla da prestigiosa orquestra do Gewandhaus de Leipzig, cujo diretor artístico era Felix Mendelssohn – ninguém menos. David, que estreara o concerto de Mendelssohn sob a batuta do compositor, era amigo dos Schumanns a ponto de poder ser pidão assim a Robert numa carta:




Que o bonito quarteto Op. 41 no. 3 me perdoe, mas só terei aqui palavras para a maravilhosa obra que o acompanha neste disco.

Orchestre Révolutionnaire et Romantique
Berliner Philharmoniker
The Cleveland Orchestra
Wiener Philharmoniker
Chamber Orchestra of Europe
Orchestre des Champs-Élysées



Nossas contribuições às celebrações do ducentésimo décimo aniversário de Schumann, que foram instigadas entre os pequepianos pelo colega 




CONCERTOS PARA PIANO E ORQUESTRA por
SINFONIAS 1-9 com a WIENER PHILHARMONIKER sob LEONARD BERNSTEIN
SINFONIAS 1-9 com a CHAMBER ORCHESTRA OF EUROPE sob NIKOLAUS HARNONCOURT



Por mais que o amemos hoje, o concerto para violino de Ludwig foi recebido com frieza e logo esquecido. O fracasso da estreia, pelo que se conta, deveu-se a ensaios insuficientes por atrasos na cópia das partes da orquestra – entregues, para variar, na penúltima hora pelo compositor – e pela necessidade do primeiro solista, Franz Clement, de tocar quase todo o solo à primeira vista.

Dois erros seguidos – no link e com a gravação – fizeram-me por esta postagem atrás de tapumes e republicá-la só depois de conferir várias vezes se tudo estava certo. Peço desculpas aos leitores-ouvintes, enquanto agradeço pela gentileza dos que souberam apontar os problemas com a civilidade que tanto apreciamos.







Sim, mais uma gravação do concerto para violino – fazer o quê, se eu o amo tanto quanto aquele quarto concerto? Cresci ouvindo as maravilhosas gravações de Oistrakh, enquanto conhecia outras não menos belas, como as de Ferras, Menuhin e Stern. Quando chegou Heifetz, a concorrência pareceu liquidada, e eu quase perfurei o CD daquela gravação com Munch de tanto que a escutei. Com o tempo, percebi que não havia concorrência, e sim alternativas ao que propôs o maior de todos os violinistas, e me permiti apreciar outras versões: Kremer, Mintz, Mutter. Aí vi que a turma da interpretação historicamente informada tinha feito uma gravação, mas não conhecia o violinista e, por mais que gostasse de Frans Brüggen regendo Bach e tivesse sua “Die Schöpfung” de Haydn sem parar em meu toca-discos laser, tinha dificuldades de imaginá-lo a conduzir aquela peça que aprendera a ouvir nos andamentos frenéticos do ídolo Jascha. Só muito tempo depois, depois de descobrir a maestria de Brüggen como acompanhador e suas estimulantes leituras para as sinfonias de Beethoven, e de escutar os ótimos registros de Thomas Zehetmair nas sonatas e partitas de J. S. Bach, que enfim me permiti experimentar aquele Op. 61 que deixara por tanto tempo de lado, e…