W. A. Mozart (1756-1791): Missas K. 139, K. 259 e K. 337 (Poppen, Köln)

Algumas semanas após trazer aqui uma gravação do Réquiem de Mozart regida pelo velho Celibidache, consagrado maestro que dividiu opiniões no século passado, hoje é a vez de uma gravação deste século, lançada em 2025 em mais uma premiada série do selo Naxos, desta vez com todas as missas de Mozart por Poppen e Cologne Chamber Orchestra. Para a revista da BBC, este 5º CD da série de 6 manteve os “high standards already attained by previous issues” e o som também é notável: “recorded sound, from the Deutschlandfunk Kammermusiksaal, Cologne, is similarly impressive”.

Não tenho todos os CDs da série, no momento vou postar apenas este, mas deixo o registro de que são poucas as gravações e apresentações ao vivo desse repertório sacro de Mozart, a única outra integral que me vem à mente é a coleção com Harnoncourt/Concentus musicus Wien postada pelo Avicenna (aqui), série mais longa do que a de Poppen, porque a de Harnoncourt incluiu toda a obra sacra: Exsultate Jubilate, três Regina Coeli, etc.

As três missas aqui não estão entre as mais famosas de Mozart. A mais antiga das três, estreada em 1768 quando o pequeno prodígio tinha inacreditáveis 12 anos, é também a mais longa, com mais ampla orquestração incluindo trombones, trompetes e tímpano. Ao contrário da maioria das missas (estreadas em Salzburgo), essa missa de 1768 foi encomendada para a inauguração de um novo Orfanato em Viena e estreada com Mozart regendo um coro de crianças órfãs. Com um Kyrie longo e solene, com toques de melancolia talvez em referência à difícil situação dos órfãos, a missa se encaminha depois para tons mais festivos e alegres. O libreto do álbum da Naxos diz ainda: a grandeza e a complexa orquestração da Missa solemnis ‘Waisenhausmesse’ levou estudiosos vienenses a duvidas que tivesse sido de fato composta por um jovem de doze anos. Era, de fato, a primeira vez que Mozart escrevia para um conjunto tão grande, mas as pesquisas posteriores confirmam que a Missa foi mesmo da mão do adolescente, com assistência mínima de seu pai apenas, aparentemente, na cópia da parte para baixo contínuo. A estreia em Viena teve unânime aprovação e admiração.

A sonoridade dessa orquestra não tão famosa de Colônia (ou Köln) me agradou bastante. Ouvindo obras de Mozart, sobretudo os concertos para piano, não foram poucas as vezes em que o som orquestral me pareceu insatisfatório. É difícil alcançar o equilíbrio demandado por Mozart: um tênue equilíbrio entre suavidade e drama, entre seriedade e alegria. Aqui os músicos comandados por Christoph Poppen – regente titular dessa orquestra desde 2013 – alcançam esse equilíbrio, utilizando instrumentos modernos mas com práticas historicamente informadas.

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791):
1-6. Missa solemnis in C Minor, K. 139, “Waisenhausmesse” (Orphanage Mass) (39:00)
7-12. Missa brevis in C Major, K. 259, “Orgelsolomesse” (Organ Solo Mass) (13:43)
13-18. Missa solemnis in C Major, K. 337 (21:29)

Cologne Chamber Orchestra (Kölner Kammerorchester), Christoph Poppen
Cologne Cathedral Vocal Ensemble (Vokalensemble Kölner Dom)
Katharina Ruckgaber, Carolina Ullrich – Soprano / Elvira Bill, Marie Henriette Reinhold – Alto / Paul Schweinester, Angelo Pollak – Tenor / Jonas Müller, Konstantin Krimmel – Bass

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Mozart aos oito anos de idade segurando um ninho de pássaro, por J. J. Zaufallij, 1764/65

Pleyel

W. A. Mozart (1756-1791): Réquiem, K. 626 (Celibidache, ORTF)

A Missa de Réquiem é uma das obras mais populares de Mozart e ocupava no repertório de Sergiu Celibidache uma posição tão importante quanto as sinfonias de Beethoven, Brahms e Bruckner. Entre as décadas de 1960 e 90, há gravações ao vivo do Réquiem com Celibidache regendo em Turim, Milão, Paris e Munique. Isso se eu não tiver perdido alguma na breve busca que fiz a respeito. Note-se ainda que, ao contrário de outros maestros como Klemperer, Abbado e Karajan, o romeno não se notabilizou por reger óperas de Mozart. Já a música coral e religiosa era bem mais frequente em seu repertório: Missa de Bruckner, Sinfonia de Salmos de Stravinsky e os outros Réquiem mais famosos, os de Verdi, Fauré e Brahms.

A Orquestra da Rádio-Teledifusão Francesa estava em uma excelente fase, tendo gravado poucos anos antes a inesquecível série de obras de Debussy com Jean Martinon (aqui) e discos também muito bons de Saint-Säens com o mesmo maestro. O naipe de cordas dos franceses, muito bem guiados aqui por Celibidache e pouco antes por Martinon, contribui com uma sonoridade que mistura beleza e gravitas. Outro destaque é a bela e suave voz de Arleen Auger nos solos para soprano.

Uma última observação: não são raros os casos de intérpretes que vão tocando ou regendo mais devagar conforme avançam em idade. Aqui, a orquestra de Paris e Celibidache (aos 61 anos) fazem todos os movimentos do Réquiem de Mozart em andamentos mais rápidos do que na gravação de 1995 em Munich, quando o maestro tinha mais de 80 anos. Especialmente no movimento inicial, com sua introdução orquestral misteriosa, Celibidache escolhe aqui um passo mais lento que o da maioria das gravações, mas em 1995 esse movimento duraria um minuto a mais. Em ordem decrescente, algumas minutagens do Introitus para comparação: Celibidache em Munique – 7:51 / Celibidache em Paris – 6:47 / Schreier em Dresden – 5:15 / Marriner em Londres – 5:01 / Abbado em Berlim – 4:28

W. A. Mozart (1756-1791): Réquiem em Ré Menor, K626
1. Introitus: Requiem aeternam
2. Kyrie eleison
3. Dies irae
4. Tuba mirum
5. Rex tremendae majestatis
6. Recordare, Jesu pie
7. Confutatis maledictis
8. Lacrimosa dies illa
9. Domine Jesu Christe
10. Hostias et preces
11. Sanctus
12. Benedictus
13. Agnus Dei
14. Lux aeterna

Arleen Auger, soprano
Gurli Plesner, contralto
Adalbert Kraus, tenor
Roger Soyer, bass
Choeur et Orchestre National de l’ORTF, Sergiu Celibidache
Recorded: Paris, 22 fev 1974

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Arleen Auger, soprano (1939 – 1993)

Pleyel

.: interlúdio :. Miles Davis: My Funny Valentine (1964)

Centenário de Miles Davis (26 de maio de 1926 – 28 de setembro de 1991)
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Gravado no New York Philharmonic Hall, sala inaugurada em 1962 para abrigar a N.Y. Philharmonic – a casa anterior da orquestra era o famoso Carnegie Hall, onde Miles também tocou – esse álbum marca o peso do nome de Miles Davis, para lotar uma sala daquela proporção e renome. Gravado no dia 12 de fevereiro de 1964, dois dias antes do dia dos namorados norte-americano, talvez esse seja o motivo para o grupo ter tocado o standard originado em um musical da Broadway de 1937 com música de Richard Rodgers, autor de vários outras melodias que seriam adotadas por gênios do jazz, com destaque para My Favorite Things, gravada por Coltrane. Rodgers, aliás, era filho de um judeu cujo sobrenome (Rogazinsky) foi americanizado. Triste constatação: há 90 anos alguns dos judeus mais famosos criavam belas melodias (Rodgers, Gershwin) ou não tão belas mas complexas e influentes (Schöenberg), enquanto hoje alguns judeus famosos estão lançando bombas sobre crianças e idosos.

Voltando para Miles Davis: naquele ano de 1964 ele finalmente havia montado um novo grupo estável, após alguns anos de muitas mudanças após o seu famoso grupo que incluía John Coltrane e os pianistas Bill Evans e Winton Kelly. Os jovens músicos Herbie Hancock e Tony Williams, assim como os um pouco menos jovens Ron Carter e George Coleman ajudaram Miles a trilhar novos caminhos e, com exceção do saxofonista Coleman, todos eles seguiriam tocando com Miles – no estúdio e ao vivo – até 1968 ou 69. Sobre a saída Coleman, o seu substituto Wayne Shorter respondeu, em 1992, em uma entrevista, se talvez os outros músicos consideravam Coleman antiquado, ‘old-fashioned’. Shorter respondeu:

Não sei. Herbie, Ron e Tony nunca disseram nada negativo sobre George Coleman. Eles estavam voltando do Japão e o empresário de Miles Davis me ligou: “Quer tocar com Miles? Ele está sem saxofonista, em Los Angeles, com data no Hollywood Bowl.” Nunca comentaram nada sobre por que motivo George não estava mais lá. Mas eu sentia que quando alguém começava a comparar os saxofonistas que tocaram com Miles – George, John Coltrane, Sonny Sitt e eu – Herbie, Ron e Tony nunca deixavam essas comparações acontecer. Diziam: “Cada um é diferente.” Eram bastante protetores de modo natural. Não deixavam ninguém jogar pedras nos seus parceiros. (entrevista aqui)

Seja como for, naquele fevereiro de 1964 os sopros de George Coleman e Miles Davis estavam se entendendo bastante bem e aquele concerto rendeu dois LPs: um de baladas mais lentas, este aqui, e outro com faixas mais rapidinhas intitulado “Four & More”. Nos temas mais rápidos, segundo o próprio Miles, a banda se entusiasmou – talvez pelo nervosismo de tocar naquela sala tão especial – e acelerou os andamentos para além do usual. Nesses temas mais lentos, a intensidade emocional soa mais equilibrada e bem acabada. Em sua autobiografia Miles lembrou ainda que o dinheiro da bilheteria seria doado para instituições beneficentes e os músicos de sua banda ficaram sabendo disso minutos antes de entrarem no palco, o que não os deixou exatamente satisfeitos… “Acredito que a raiva criou um fogo, uma tensão que alcançou o instrumento de cada um, e talvez essa seja uma das razões de por que todos tocaram com tanta intensidade”, disse Miles Davis. Ao vivo é assim, cada dia é um dia.

Miles Davis Quintet: My Funny Valentine
Miles Davis – trumpet
George Coleman – tenor saxophone
Herbie Hancock – piano
Ron Carter – double bass
Tony Williams – drums
Recorded: February 12, 1964

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Esse tocava alguma coisa.

Pleyel

Leo Brouwer (n. 1939): Obras para Trio com piano

Brouwer tem um grande número de peças para violão solo e concertos para violão e orquestra. Mas as suas obras para trio (violino, violoncelo e piano) também são numerosas a ponto de ocuparem, sozinhas, um CD.
Posicionado com certo ecletismo entre diferentes tendências da música de concerto de sua época, Brouwer dá uns acenos de cabeça para neoclassicismos e temas populares, ao mesmo tempo que tem como fundamentos centrais concepções das vanguardas europeias que buscavam ampliar o leque de possibilidades sonoras. Os modos maior e menor, na música de Brouwer e outros compositores, não estão proibidos, ao mesmo tempo que uma longa e previsível sucessão de acordes de tônica e dominante seria banal demais para ser cogitada.
Isso significa que ouvidos menos acostumados à música contemporânea terão, sim, momentos de desconforto, mas eles não duram tanto tempo assim.

Leo Brouwer:
01 Pictures at another exhibition – I. La jungla (Wifredo Lam)
02 Pictures at another exhibition – II. Nude (Amedeo Modigliani)
03 Pictures at another exhibition – III. The garden of earthly delights (Heronimus Bosch)
04 Pictures at another exhibition – IV. Portrait of Chopin (Eugene Delacroix)
05 Pictures at another exhibition – V. Los desastres de la guerra (Francisco de Goya)
06 Pictures at another exhibition – VI. Pop construction (Robert Rauschenberg)
07 El Triangulo de las Bermudas
08 Manuscrito antiguo encontrado en una botella – I. La palabra amor escrita mil veces
09 Manuscrito antiguo encontrado en una botella – II. Sobre la vida y la muerte
10 Sones y danzones – I. Contradanza sonera
11 Sones y danzones – II. Son de ‘La niña bonita’
12 Sones y danzones – III. Danzon

Recorded 10-13 June 2008, Valencia, Spain
B3: Brouwer Trio
Jenny Guerra, violin (L Widhalm, Nüremberg 1772)
David Apellániz, cello (B Cison, Chicago 2003)
Carlos Apellaniz, piano

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Leo Brouwer em Havana – quero ver Cuba lançar

Pleyel

Domenico Scarlatti (1685-1757): Sonatas (Pascal Pascaleff, piano)

Como os visitantes mais atentos deste blog já leram por aqui, Domenico Scarlatti esteve em Florença no mínimo duas vezes na década de 1700, foi apresentado ao príncipe Ferdinando de’ Medici por seu pai Alessandro Scarlatti e conheceu os primeiros pianofortes criados por Bartolomeo Cristofori na corte dos Medici. As 555 Sonatas que garantiram a perenidade do nome de Domenico foram compostas anos depois, para serem tocadas principalmente ao cravo, mas é quase certo que o compositor ou seus contemporâneos também as tocavam ao órgão e ao piano, instrumento que a rainha Maria Bárbara importava de Florença.

O primeiro requisito a ser cumprido por um pianista que toca as sonatas de D.Scarlatti é tocar com as duas mãos de forma bem articulada, com peso igual em ambas, evitando que uma voz esconda a outra. O segundo requisito é uma atenção aos ornamentos, como trinados e appogiaturas, que são notas curtas e próximas à nota principal da melodia. Os ornamentos na música barroca devem ter ao mesmo tempo um ar de enfeites improvisados no momento e um caráter bem definido que só vem após um estudo profundo da partitura: um ornamento em um Andante é diferente de um outro em um Presto.

Atendendo a essas duas condições obrigatórias, resta ainda ao pianista muita imaginação para tocar as sonatas de forma variada, porque é difícil aguentar um CD ou um recital inteiro com 14 ou 18 sonatas soando parecidas. Normalmente essa variedade é alcançada alternando entre movimentos mais rápidos e mais lentos, aliás um erro comum com Scarlatti é tocar tudo muito apressado e como em uma competição de quem chega primeiro na linha de chegada… De fato, se Scarlatti era respeitado por seus contemporâneos como um virtuose do cravo, é verdade também que a maioria das sonatas foi composta nas suas últimas décadas de vida, provavelmente a maioria quando ele tinha mais de 60 anos de idade. O músico e historiador inglês Charles Burney (1726-1814) relata que teve acesso, por intermédio de um amigo, a um manuscrito com quarenta e duas peças de Scarlatti compostas nos seu penúltimo anos de vida, “entre as quais há vários movimentos lentos, e das quais apenas três ou quatro eu conhecia anteriormente, mesmo tendo colecionado composições de Scarlatti por toda minha vida. Elas foram compostas em 1756, quando ele estava gordo demais para cruzar suas mãos como costumava fazer, então elas não são tão difíceis quanto suas obras anteriores, que foram criadas para sua patroa, a rainha de Espanha, quando ainda era princesa das Astúrias.”

Maria Bárbara de Bragança, a patroa de Scarlatti (circa 1750)

Aqui cabem algumas explicações sobre o que escreveu Burney: as sonatas de maturidade também foram compostas para Maria Bárbara de Bragança, sob cuja proteção Domenico esteve até o fim da vida. E quando o autor fala em um corpo que engordou e não conseguia cruzar as mãos, é possível que se trate sobretudo da rainha de Espanha, vejam na foto ao lado…

O búlgaro Pascal Pascaleff, em seu primeiro álbum dedicado a Scarlatti, atende a todas as condições que mencionei acima. Ele se mostra especialmente cuidadoso com o cantabile – som que imita a voz humana – nas sonatas mais lentas, de andamento Allegretto (isto é, um pouco mais lento que um Allegro e com um certo humor que lembra os Scherzos das sonatas de Beethoven), Andante commodo ou simplesmente Andante. Sua gravação é o 25º CD na integral das Sonatas pela Naxos, integral que vem sendo lentamente gravada desde 1999 por mais de dez pianistas e ainda não terminou. Como dizem em inglês, “first come first served” ou, com significado não tão diferente por aqui, “quem chega por último é mulher do padre“, ou seja, as sonatas mais famosas já foram gravadas por quem chegou lá no começo: K.141 e K.208 no CD2 por Lewin, K.10 no CD3 por Jandó, K.96 no CD8 por Lee… Isso significa que Pascaleff, chegando na reta final da integral (faltam uns 6 a 10 CDs), pegou 18 sonatas mais ou menos desconhecidas entre as 555, mas ele claramente dedicou a elas toda sua atenção, passou longe de tratá-las como menos importantes. Nessas integrais lentamente gravadas, os músicos têm tempo de saborear as obras aos poucos, como foi o caso das inesquecíveis gravações das 32 Sonatas de Beethoven por Pollini (anos 1970 até anos 2010) ou dos Concertos de Mozart por Brendel/Marriner (1970 até 1985).

Domenico Scarlatti (1685-1757): 18 Sonatas
1. Sonata in F major, K.167, Allegro
2. Sonata in E major, K.206, Andante
3. Sonata in C major, K.243, Allegro
4. Sonata in E flat major, K.307, Allegro
5. Sonata in F major, K.350, Allegro
6. Sonata in E flat major, K.371, Allegro
7. Sonata in B minor, K.409, Allegro
8. Sonata in F major, K.437, Andante commodo
9. Sonata in A minor, K.451, Allegro
10. Sonata in D major, K.480, Presto
11. Sonata in C major, K.501, Allegretto
12. Sonata in G major, K.538, Allegretto
13. Sonata in G major, K.153, Vivo
14. Sonata in A major, K.221, Allegro
15. Sonata in E flat major, K.252, Allegro
16. Sonata in D major, K.281, Andante
17. Sonata in F major, K.297, Allegro
18. Sonata in A major, K.343, Allegro Andante

Pascal Pascaleff, piano
Recorded 19–21 August 2019 at The Bradshaw Hall, Royal Birmingham Conservatoire, UK
Curiosidade: na capa do álbum, vemos o Palácio Real de Aranjuez, uma das residências do Reis da Espanha, onde havia um cravo e um “clavicordio de piano hecho en Florencia”, segundo o inventário da Rainha.

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Pleyel

O jovem pianista búlgaro Pascal Pascaleff em sua estreia no PQP Hall

.: interlúdio :. Black Beauty: Miles Davis at Fillmore West (1970)

Daqui a poucos dias, Miles Davis completaria 100 anos de idade. Dou o pontapé inicial nas homenagens com um álbum ao vivo da fase fusion, um show pouco depois do lançamento do LP duplo Bitches Brew. As mudanças na banda de Miles, rumo a essa com instrumentos elétricos, foram graduais e o Bitches Brew, cujos temas compõem a maior parte do set list deste show, foi apenas o marco mais famoso e divulgado. Já no excelente Filles de Kilimanjaro, gravado em 1968, os fiéis escudeiros Ron Carter e Herbie Hancock usaram instrumentos elétricos, pouco antes de saírem da banda e darem lugar a outros grandes músicos. Também Tony Williams sairia pouco depois e seria substituído por Jack DeJohnette, que é o baterista aqui. E, além dos dois sopros, o destaque deste álbum ao vivo parece ser a dupla de percussionistas: DeJohnette brilha em todas as faixas e o brasileiro Airto Moreira rouba a cena em certos momentos com a cuíca e outras percussões que devem ter soado exóticas para os gringos. A presença de Airto, por cerca de dois anos na banda de Miles, é um dos ingredientes dessa fase fusion: depois ele seria substituído por outros percussionistas, mas em poucos momentos dos anos 1970 Miles tocaria com apenas uma pessoa na bateria/percussão.

Um detalhe sobre o lançamento desta gravação ao vivo: saiu em LP em 1973 apenas no Japão. Nos EUA e Europa, saiu apenas em 1997, já na era do CD. Possivelmente um dos motivos foi a dificuldade de se identificar os autores dos temas, devido à característica do show que era uma jam mais ou menos contínua, mas com base em temas já lançados, alguns de Miles e outros de outros autores. No LP de 1973, os 4 lados tinham apenas o nome Black Beauty I – IV, mas no CD as faixas vieram nomeadas. Outro motivo provável foi a abundância de gravações dos grupos de Miles naquele período, com o disco ao vivo no Fillmore East (junho de 1970) e outro chamado Live-Evil (fevereiro a dezembro de 1970). Mas neste último, apesar do nome, apenas parte da músca era realmente ao vivo e parte gravada em estúdio, com colagens pelo produtor Teo Macero. Também o LP Jack Johnson, gravado em estúdio (fevereiro-abril de 1970), juntava diferentes takes. Já neste Black Beauty, trata-se de um único show com começo, meio e fim. Finalmente, fica o registro de que o Fillmore West era uma casa de shows em San Francisco, terra que fervilhava com o rock psicodélico de Janis Joplin, Grateful Dead e outras bandas. Já o Fillmore East ficava em Nova York. Com capacidades entre 2.000 e 3.000 pessoas, ambas marcaram época e foram palco de dezenas de shows geniais, antes da triste era dos shows em estádios e arenas com suas acústicas de bosta. Vou repetir: show em estádio de futebol é uma das piores invenções de todos os tempos no que se refere à música ao vivo.

Miles Davis Sextet:
1-1 Directions 10:46
1-2 Miles Runs The Voodoo Down 12:22
1-3 Willie Nelson 6:23
1-4 I Fall In Love Too Easily 1:35
1-5 Sanctuary 4:01
1-6 It’s About That Time 9:59
2-1 Bitches Brew 12:53
2-2 Masqualero 9:07
2-3 Spanish Key/The Theme 12:15

Miles Davis – trumpet
Steve Grossman – saxophone
Chick Corea – electric piano
Dave Holland – electric and acoustic basses
Jack DeJohnette – drums
Airto Moreira – percussion
Recorded April 10, 1970 at “The Fillmore West,” San Francisco

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Corea, Airto, DeJohnette & Miles

Pleyel

.: interlúdio :. Homenagem a Wayne Shorter — Miles Davis: Filles de Kilimanjaro (1968) / Weather Report: Procession (1983)

Wayne Shorter (1933-2023) em 1969

Postagem original de 2023

Limpo como a água de um rio sem qualquer traço de poluição, com as borbulhas suaves de uma cachoeira nesse rio, o som do saxofone de Wayne Shorter pode ser comparado à pureza da voz de Milton Nascimento. E por um desses acasos da vida, os dois se tornaram bons amigos. Em sua longa carreira, Shorter gravou uma imensa discografia: aqui no blog, não faz tanto tempo que PQP postou um dos seus principais álbuns como instrumentista e compositor: Schizophrenia, de 1967. Anos antes, com Freddie Hubbard (trompete) e McCoy Tyner (piano), ele participou do grande álbum Ready for Freddie (1962). Vejamos a seguir outros momentos da discografia de Wayne Shorter em dois álbuns que não têm o seu nome na capa, mas que têm nele, como compositor, instrumentista, arranjador, um dos pilares de construções musicais coletivas.

Menos conhecido que álbuns mais dançantes e acelerados como Bitches Brew, Filles de Kilimanjaro é um disco do início da fase de experimentações de Miles Davis e seu grupo com instrumentos elétricos. Um delicioso disco mais calmo, cheio de floreios de blues lento, com bastante destaque para o sax tenor de Shorter e para o piano elétrico Fender Rhodes de Herbie Hancock. A linda mulher da capa é Betty Gray Mabry – depois Betty Davis – que se casou com Miles em 1968. O casamento durou apenas cerca de um ano, mas tudo indica que foi Betty quem fez Miles escutar a música psicodélica de gente como Jimi Hendrix, além de apresentar o guitarrista – amigo dela – ao trompetista. A faixa Mademoiselle Mabry também é uma referência a Mabry e se baseia em um dos riffs mais suaves de Hendrix, o da balada The wind cries Mary, lançada em 1967.

Em álbuns posteriores como o já citado Bitches Brew (“Miles wanted to call it Witches Brew, but I suggested Bitches Brew and he said, ‘I like that’.”Betty Davis), com a chegada da guitarra elétrica de John McLaughlin e de dois ou três percussionistas, Wayne Shorter teria menos destaque no grupo de Miles, do qual ele sairia em 1970 para fundar o grupo fusion Weather Report com o tecladista Joe Zawinul.

Miles Davis Quintet: Filles de Kilimanjaro
1. Frelon Brun
2. Tout de Suite
3. Petits Machins
4. Filles de Kilimanjaro
5. Mademoiselle Mabry
6. Tout de suite (alternate take)

Miles Davis – trumpet
Wayne Shorter – tenor saxophone
Herbie Hancock – electric piano on “Tout de Suite”, “Petits Machins”, and “Filles de Kilimanjaro”
Chick Corea – piano, RMI electra-piano on “Frelon Brun” and “Mademoiselle Mabry”
Ron Carter – electric bass on “Tout de Suite”, “Petits Machins”, and “Filles de Kilimanjaro”
Dave Holland – double bass on “Frelon Brun” and “Mademoiselle Mabry”
Tony Williams – drums
Recorded: June-September 1968, New York City, USA

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE – Filles de Kilimanjaro (mp3 320kbps)

Os discos mais famosos do Weather Report são aqueles com o fenomenal baixista Jaco Pastorius. Mas este Procession, de 1983, pouco após a saída de Jaco, é um outro interessante momento da discografia de Wayne Shorter que não merece ser esquecido. Se a faixa Where the Moon Goes, que dá início ao lado B do LP, inclui um coral com efeitos que alguns ouvidos não vão aprovar (os meus desaprovam), nas composições de Shorter – Plaza Real e The Well – temos aquele sax de som puro e calmo que mencionei lá em cima, associado aos sons muito originais dos sintetizadores de Zawinul e ao pau comendo nas percussões, que utilizam inovações dos anos 1980 sem soarem bregas, ao contrário de outros bateristas que abusararam de reverb e outros efeitos de gosto duvidoso naquela década.

Weather Report: Procession
1. Procession (Josef Zawinul)
2. Plaza Real (Wayne Shorter)
3. Two Lines (Zawinul)
4. Where the Moon Goes (Zawinul, lyrics by Nan O’Byrne and Zawinul)
5. The Well (Shorter, Zawinul)
6. Molasses Run (Omar Hakim)

Josef Zawinul – keyboards
Wayne Shorter – tenor and soprano saxophones
Omar Hakim – drums, guitar, vocals
Victor Bailey – bass
José Rossy – percussion, concertina
The Manhattan Transfer – vocals on “Where the Moon Goes”

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE – Procession (mp3 320kbps)

Wayne Shorter & Joe Zawinul, 2007

Pleyel

Chopin (1810-1849): O 4 Scherzos e outras obras (Nelson Freire)

É como um time que leva um gol logo nos primeiros minutos e passa o tempo restante buscando se recuperar: assim começa Nelson Freire o seu álbum de Scherzos de Chopin (ou Scherzi, já que a palavra é italiana) gravados na década de 1970. Isso porque o seu 1º Scherzo se inicia muito rápido, sem a seriedade e a grandeza de outras interpretações como a de Sviatoslav Richter e a de Maurizio Pollini. Nos Scherzos, Chopin faz uma arte profundamente contraditória onde o nome remete à piada, certos momentos também têm ritmos bem-humorados mas ao mesmo tempo o clima geral é de preocupação e tensão. No quarto Scherzo a tensão é um pouco mais suave, mas nos três primeiros a sensação é de que uma catástrofe está sempre no horizonte. E Nelson Freire inicia o 1º Scherzo mais como uma obra técnica virtuosa do que com essa gravidade teatral. Mas lá pelo meio desse Scherzo o pianista mineiro consegue convencer. Cada Scherzo tem uma seção central contrastante e mais lenta e suave. Ali, Freire começa a encantar. No 2º e no 3º, o encantamento permanece, chegando a uma conclusão no último e mais maduro dos Scherzos. No conjunto, uma gravação notável dessas quatro peças de Chopin. E o disco traz ainda alguns bônus de peso, incluindo a Balada nº 3, peça que foi muito tocada por Guiomar Novaes, pianista que Freire tinha na mais alta estima. Sem dúvida, as interpretações de Chopin por Novaes (nas Baladas, no Concerto nº 2, etc.) influenciaram bastante Nelson Freire. O álbum fecha com as Três Ecossaises, danças curtas e simples, que poucos pianistas tocam, mas Guiomar também as tinha no seu repertório.

Frédéric Chopin (1810-1849):
1. Scherzo nº 1, Op. 20
2. Scherzo nº 2, Op. 31
3. Scherzo nº 3, Op. 39
4. Scherzo nº 4, Op. 54 – Presto Con Fuoco
5. Polonaise nº 6, Op. 53
6. Ballade nº 3, Op. 47
7. Berceuse, Op. 57
8. Prélude, Op. 45 – Sostenuto
9. Trois Ecossaises, Op. 72

Nelson Freire, piano
Gravações lançadas pela 1ª vez em LPs da Telefunken (Alemanha), 1975 e 1976

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Nelson com Guiomar Novaes. Foto do acervo particular de Nelson Freire, publicada pelo sensacional Instituto Piano Brasileiro

Pleyel

.: interlúdio :. Freddie Hubbard (1938 – 2008), Dizzy Gillespie (1917 – 1993) y Machito (1909 – 1984) – álbuns de jazz com percussão caribenha

Em 2025 um grande fenômeno da música pop foi o “álbum das cadeiras de plástico”, de um cantor porto-riquenho que realmente vale a pena conhecer porque ele utiliza muita coisa da linguagem da música caribenha e ao mesmo tempo com uma linguagem contemporânea. Hoje eu trago aqui dois discos lançados nos anos 1970, gravados nos EUA e que também traziam percussão afro-caribenha. Não em contextos de volta a um passado mítico, mas com aspectos inovadores como os então recentes piano elétrico (no disco de Hubbard) e sintetizador (no de Gillespie).

Gillespie, que naquela época já era um veterano, já tinha feito gravações e apresentações com músicos latino-americanos desde a década de 1940. Já para Hubbard, o álbum gravado em 1969 parece um ponto de partida para outros experimentos que faria ao londo dos anos 1970. No caso de Gillespie, ele toca à frente de uma orquestra de músicos cubanos e de outras nacionalidades hispano-americanas. Hubbard não: ele toca com três músicos norte-americanos que participaram de outros álbuns do trompetista: James Spaulding no sax e flauta, Kenny Barron no piano acústico e elétrico, Reggie Workman no contrabaixo acústico. As duas faixas do lado A do então LP não têm destaque para a percussão – ali, em jams mais longas, quem brilha mais, além do líder do grupo, é o baixista. No lado B, aí sim, temos os tambores e chocalhos de Carlos Valdes, vulgo “Patato”.


Freddie Hubbard: The Black Angel
1. Spacetrack (Freddie Hubbard)
2. Eclipse (Hubbard)
3. The Black Angel (Kenny Barron)
4. Gittin’ Down (Hubbard)
5. Coral Keys (Walter Bishop Jr.)

Freddie Hubbard – trumpet, flugelhorn
James Spaulding – alto saxophone, flute
Kenny Barron – piano, electric piano
Reggie Workman – bass
Louis Hayes – drums
Carlos “Patato” Valdes – conga, maracas
Recorded: May 16, 1969, New York City, USA

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Dizzy Gillespie: Afro-Cuban Jazz Moods
1. Oro, Incienso y Mirra – 15:38
2. Galidoscopico – 5:05
3. Pensativo – 5:20
4. Exuberante – 5:48

Dizzy Gillespie – trumpet
Machito – marimba, clavinet, leader
Chico O’Farrill – arranger, conductor
Recorded: June 4–5, 1975, New York City, USA

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Gillespie e Hubbard tocando juntos em 1990

Pleyel

W.A. Mozart (1756-1792): Exsultate, Jubilate / Sinfonia nº 17 e Árias para soprano (Karine Deshayes, Les Paladins, J. Correas)

Uma capa meio estranha: parece que a cantora e o maestro estão sentindo um cheiro forte, se seria um fedor (será que havia no estúdio um francês que estava há 3 dias sem banho?) ou um aroma sublime de flores da primavera, deixo a escolha para nossos leitores. Mas se os dois talvez não sejam tão convincentes na capa (ou seria culpa do fotógrafo?), no álbum a visão de Mozart que eles apresentam é bastante convincente. Com um repertório centrado na primeira metade da carreira do precoce compositor, eles misturam música sacra e profana, mostrando a originalidade e beleza das obras.

No libreto do álbum, uma entrevista do maestro traz o seu ponto de vista sobre as obras da primeira metade da carreira de Mozart: interessa para ele mostrar como certos aspectos da visão de mundo barroca estão presentes ali.

I mentioned earlier the theatricality of Baroque and Classical music: every one of my projects concerns this. In my opinion, it’s enough to look at a painting from these periods to see the extreme theatricality of the representations, to which music is obviously no exception, whether secular or sacred. With this programme, I wanted to mix sacred and secular works in a dramatic perspective. It seems to me that this was how music was conceived during Mozart’s lifetime, as testimonies always mention extremely moving singers with persuasive power and highly expressive, contrasting voices… even in church music! Contrary to the 19th century’s ethereal image of the genre, 18th-century treatises indicate that voices must be large and highly expressive in order to convey the message of the text in vast spaces dedicated to worship. There is therefore a porous boundary between the vocal idiom of the sacred and secular  repertoires which is doubtless a matter for further reflection. The motet Exsultate, jubilate, around which this programme was built, illustrates this very well: Mozart composed it for the castrato Venanzio Rauzzini, having been won over by his performance of his opera Lucio Silla. The two works don’t have the same subject matter at all, which shows that it was Rauzzini’s intrinsic qualities that prompted Mozart to approach an operatic and a sacred piece in the same spirit.

How do the other works presented here relate to Exsultate?
I wanted to create a journey centred on Mozart in the dying years of the Baroque, at the crossroads with Classicism, so I chose works from the decade 1770-80. When he composed the Exsultate, he was 17 years old and still very much imbued with the virtuosic Neapolitan writing inherited from the previous generation, that of Hasse, Jommeli or Traetta. The arias of La Betulia Liberata or Davide Penitente (itself derived from the Great Mass in C minor), or his 17th symphony, whose opening pages are reminiscent of an opera seria aria, testify to this. Mozart did not feel free in Salzburg: he was at the mercy of his employer, Archbishop Colloredo, and imprisoned within a certain tradition… which he worked to crack open, as demonstrated by his Church Sonatas – veritable miniature symphonies whose thematic material he would later reuse.

Rather than thinking of Mozart as having a ‘Mozartian’ style, I prefer to think of him as someone who was constantly searching and questioning himself in order to progress. Mozart must have been very afraid of getting bored – you can sense this in the perpetual forward motion of his works. And in this quest for freedom, youth and ardour that strikes our ears, he achieves suspended moments of poetry and transcendence: the Agnus Dei from the Coronation Mass, the Laudate Dominum from the Vesperæ solennes de confessore, which reminds me of bel canto and Bellini’s “Casta Diva”, with its long, highly refined line in the form of an arch above the regular motion of the orchestra…

W.A. Mozart (1756-1792):

1. La Betulia Liberata, K. 118/74c: Aria: Quel nocchier che in gran procella (Amital) 06:09

2. Sinfonia nº 17 em Sol Maior, K. 129: I. Allegro 04:17
3. Sinfonia nº 17 em Sol Maior, K. 129: II. Andante 04:01
4. Sinfonia nº 17 em Sol Maior, K. 129: III. Allegro 03:55

5. Davide Penitente, K. 469: Aria: Lungi le cure ingrate 04:48

6. Church Sonata in D Major, K. 69 02:36
7. Church Sonata in G Major, K. 274 03:34
8. Church Sonata in D Major, K. 144 03:16

9. Mass in C Major, K. 317 ‘Coronation’: Agnus Dei 03:11

10. Church Sonata in E-Flat Major, K. 67 02:39

11.Exsultate, jubilate, K. 165: I. Exsultate, jubilate 04:43
12.Exsultate, jubilate, K. 165: II. Fulget amica dies 00:50
13.Exsultate, jubilate, K. 165: III. Tu virginum corona 05:38
14.Exsultate, jubilate, K. 165: IV. Alleluia, alleluia 02:35

15.Vesperæ solennes de confessore, K. 339: V. Laudate Dominum 02:42

Karine Deshayes, soprano
Les Paladins, Jérôme Correas

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Essa família era muito unida

Pleyel

Mozart: Fantasia em Dó menor K. 396, Romanze K. ann. 205 / Brahms: Klavierstücke op. 119 / Prokofiev: Sarcasmos op. 17, Toccata op. 11 (Elisso Wirssaladze, piano)

Nascida em 1942 em Tibilisi, capital da Geórgia e cidade natal também do compositor Aram Khachaturian, Elisso tem um estilo mais ou menos parecido com o de Richter, pianista com quem conviveu por muitos anos em Moscou. Ambos tinham muita afinidade com as obras de Schumann e Prokofiev, além de tocarem peças menos óbvias do classicismo vienense: no caso de Richter, sonatas de Haydn; no de Elisso, peças avulsas de Mozart como as Fantasias e Rondós para piano. A outra Fantasia em dó menor, K. 475, também foi gravada por ela, assim como as obscuras variações sobre o tema “Ah vous dirai-je, Maman”.

Aqui, temos a mistura de dois recitais de piano, um de 1991 (Milão) e um de 1997 (Stuttgart). Wirssaladze começa com um Mozart mais sério do que o das sonatas para piano. A seriedade da Fantasia nº 2 é um elemento em comum com as Fantasias para piano nº 3 (em ré menor) e nº 4 (também em dó menor, aqui) do mesmo compositor. Depois temos obras curtas de Brahms e Prokofiev e uma série de bises: Mozart, Chopin, Schumann.

Na verdade a já citada Fantasia K. 396 de Mozart é apenas um fragmento. O número de catálogo K. 385f também é usado para indicar que a obra foi finalizada pelo Abade Maximilian Stadler poucos anos depois da morte de Mozart. Stadler teve acesso a inúmeros papéis deixados pelo jovem falecido e falava, digamos, o mesmo “idioma” do que hoje chamamos classicismo vienense, mas não faltariam puristas apontando tal e tal diferença entre os seus “remendos” e os originais de Mozart. Eu gosto muito dessa Fantasia, então não me incomodo com os puristas.

O selo alemão Live Classics lançou nos anos 1990 e 2000 muita coisa dos pianistas Sviatoslav Richter e Elisso Wirssaladze, da violoncelista Natalia Gutman, do violinista Oleg Kagan e mais um punhado de artistas, quase todos oriundos da ex-URSS e tudo ao vivo como o nome já indica.

Elisso Wirsaladze:

1. W.A. Mozart:
Fantasy No. 2 in C Minor, K. 396

2-5. J. Brahms:
Klavierstucke, op. 119

6-11. S. Prokofiev:
Sarcasmes, op. 17
Toccata, op. 11

12. W.A. Mozart:
Romance in A-Flat Major, K. Ann. 205

13. F. Chopin:
Valse op. 34 no. 1

14. R. Schumann:
Waldszenen, op. 82 – Der Vogel als Prophet

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A família Prokofiev curtindo a vida

Pleyel

Mendelssohn, Schumann, Berg, Debussy, Stravinsky, Poulenc – Shura Cherkassky, piano – Recital em Lugano, 1963

Neste mês dedicado a Sergei Rachmaninoff (post original de 2023), compositor romântico tardio e também grande virtuose do piano, recordaremos alguns outros pianistas do século passado que, de uma maneira ou de outra, cruzaram suas trajetórias com as do homenageado. O pianista de hoje é Shura Cherkassky (1909 – 1995): embora mais de 30 anos mais jovem que Sergei, eles têm em comum o fato de terem saído da Rússia na década de 1910 em meio às turbulências da 1ª Guerra e da Revolução. O corpo dos dois saiu da Rússia, mas a alma continuou profundamente russa, fazendo um tipo de música característica das expressões do romantismo tardio na Europa Oriental, como veremos a seguir.

A mãe de Shura, Lydia Cherkassky, era uma pianista conhecida em São Petersburgo, tendo tocado para Tchaikovsky, que aliás era um compositor importante no repertório de Shura, não só com seu famoso concertos mas também com peças para piano solo pouco tocadas por outros pianistas. Cherkassky foi, portanto, o continuador de uma certa tradição pianística da Europa Oriental, não só por suas origens russas mas também como aluno do polonês Josef Hofmann (1876-1957). Hofmann foi um dos pianistas mais célebres do mundo na virada do século XIX para o XX, embora por volta de 1930 sua prodigiosa técnica já não fosse a mesma devido ao alcoolismo, o que significa que poucas gravações fazem jus ao seu talento. Em 1909, Rachmaninoff dedicou seu 3º Concerto – o mais difícil dos quatro – para Hofmann. Anos depois, constatando o declínio do polonês, Rach afirmou: “Hofmann ainda é um grande … o maior pianista vivo se ele estiver sóbrio e em forma. Se não for o caso, é impossível reconhecer o antigo Hofmann.” O polonês, por sua vez, foi aluno de Anton Grigoryevich Rubinstein (1829-1894), pianista russo que foi frequentemente considerado o maior do mundo em sua época, além de compor cinco concertos para piano quase esquecidos hoje em dia. Anton Rubinstein, aliás, não era parente de Arthur Rubinstein, embora ambos tivessem origens judaicas. (Para um comentário sobre a “escola” dos alunos de Anton Rubinstein, confira o interessantíssima postagem do colega Alex aqui).

A partir de várias resenhas em jornais e outros textos do século XIX, o crítico Harold C. Schonberg, no livro The Great Pianists (1963),  resume que Anton Rubinstein tocava com “extraordinária amplitude, vitalidade e virilidade, imensa sonoridade e grandiosidade”. Características também do romantismo tardio de Rachmaninoff, e que tinham como tradição mais ou menos rival o pianismo francês de compositores como Debussy, Fauré, Saint-Saëns e Ravel. Estes últimos evitavam as sonoridades exageradamente barulhentas – notem a quantidade de expressões masculinas na descrição de Harold Schonberg, muitas delas caberiam em um anúncio daquele remédio que os Generais brasileiros adoram – e se associaram a grandes intérpretes do início do século como Alfred Cortot, Ricardo Viñes, o próprio Saint-Saëns e muitas mulheres, incluindo Guiomar Novaes, Marguerite Long e Clara Haskil.

Mas o pianista do dia, de certa forma herdeiro daquela tradição romântica russa/polonesa, é Cherkassky, que foi um grande intérprete das obras de Rach (aqui) e também de uma pequena fantasia chamada Caleidoscópio, composta por Hofmann:

O que mais me interessa neste disco de hoje, registro de um recital de Cherkassky em Lugano (Suíça), é a sua reinvenção da sonata de um outro compositor romântico, Robert Schumann. Embora Shura também seja impecável em seu Debussy, Berg e Stravinsky – ou seja, ele não se limita como apenas um pianista romântico – o que me impressiona mesmo é a diversidade de emoções que ele extrai da 1ª Sonata de Schumann, já iniciando pelo sarcasmo das primeiras notas, seguido por alternâncias típicas de Schumann entre seriedade, melancolia e humor.

Robert Schumann foi um grande estudioso das obras de Bach e Beethoven mas, ao contrário deste último, ele não compôs sonatas para piano de grande invenção contrapontística em um estilo “maduro” no fim de sua vida. Se quisermos ouvir o Schumann maduro é melhor buscarmos outras obras como o o muito original concerto para violoncelo.

Talvez por isso, as três sonatas para piano de Schumann raramente (pra não dizer: nunca) são tocadas em bloco em um único recital ao vivo: ao contrário das sonatas de Beethoven, que mostram as mudanças no percurso do compositor, as de Schumann ficam nessa alternância de humores e sabores tipicamente românticos, sem apontar para uma evolução estilística. Se isso pode ser considerado um defeito, por outro lado é uma qualidade, sobretudo em nossos tempos já calejados quanto a essas ideias sobre evolução e progresso como o objetivo da humanidade, não é mesmo? Quando o progresso se mostra violento e sujo, sentimentos românticos parecem reaparecer com toda a força hipnotizante do som do piano de Cherkassky. Uma última observação: assim como Sviatoslav Richter (1915-1997), Cherkassky parecia detestar as gravações em estúdio, talvez porque sua arte – como a dos pianistas mais velhos Anton Rubinstein, Hofmann e Rach – tivesse esse aspecto tão importante da atração hipnótica sobre uma plateia presente.

Shura Cherkassky – Lugano, 1963
Felix Mendelssohn: Rondo Capriccioso in E major op. 14
Robert Schumann: Sonata no. 1 in F-sharp minor op. 11
I. Introduzione (Un poco adagio) – Allegro vivace; II. Andante cantabile; III. Scherzo e Intermezzo (Allegrissimo); IV. Finale (Allegro un poco maestoso)
Alban Berg: Sonata op. 1
Claude Debussy: L’Isle joyeuse
Igor Stravinsky: Trois mouvements de Petrouchka
I. Danses russes; II. Chez Petrouchka; III. La Semaine grasse
Francis Poulenc: Toccata
Shura Cherkassky – piano
Recorded at Auditorio Radiotelevisione della Svizzera italiana, Lugano, 5/12/1963

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Robert Alexander Schumann (Zwickau, 1810 – Endenich, 1856)

Pleyel

Franz Joseph Haydn (1732-1809): Sinfonias nº 103 e 104 (La Petite Bande, Kuijken)

Desde a década de 1980 ou 90 a Europa conta com uma ampla variedade de grupos historicamente informados dedicados à música pré-romântica. Cada um foi encontrando seu nicho e é possível afirmar que os belgas liderados por Kuijken são especialistas na música do período próximo à Revolução Francesa, ou seja: principalmente Haydn e Mozart mas também C.P.E. Bach e Glück. Alguém poderá recordar que esse conjunto também gravou uma penca de coisas de Bach além de Monteverdi, Schütz, Rameau, etc. É verdade, mas ainda assim é nas Sinfonias e Concertos de Haydn que eles se esbaldam, jogam em casa, se apresentam como peixes dentro d’água.

As Sinfonias nº 103 e 104 são as duas últimas, compostas no período de guerras europeias logo após a Revolução de 1789 e, assim como as Missas tardias de Haydn, contestam a visão de classicismo confortável e conformista que adere até certo ponto ao bocado maior da obra desse longevo compositor. Compostas para sua segunda viagem a Londres, ambas estão entre as obras de Haydn mais apresentadas hoje em dia. Nada contra a 104, mas a 103 tem um lugar muito especial no meu coração, provavelmente pelo uso inventivo e emocionante que se faz ali da percussão.

Recordemos, finalmente, que viajar da Áustria para Londres aos 62 anos de idade não era nada comum à época: a qualidade das estradas e dos navios, os incômodos e imprevistos devem ter sido vários, e Haydn se mostra um personagem, digamos, mais “mochileiro” do que Beethoven ou mesmo Mozart, pois as viagens deste último foram principalmente na juventude. O sucesso de Haydn em Londres foi enorme e ele era uma celebridade na época, conhecido – ao menos de nome – por gente que não era especialista em música, como por exemplo Napoleão Bonaparte.

Franz Joseph Haydn (1732-1809):
Symphony In E Flat Major, Hob I:103 ‘Mit Dem Paukenwirbel’
1 Adagio – Allegro Con Spirito 9:31
2 Andante Più Tosto Allegro 10:56
3 Menuet – Trio 3:55
4 Finale. Allegro Con Spirito 5:34
Symphony In D Major, Hob I:104 ‘Salomon’
5 Adagio – Allegro 8:37
6 Andante 8:45
7 Menuetto. Allegro – Trio 3:22
8 Finale Spirituoso 6:50

La Petite Bande, Sigiswald Kuijken
Recorded: 1995, Doopgsgezinde Kerk, Haarlem (NL)

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Uma cidade onde a música é boa e a comida é ruim

Post-scriptum: este outro CD foi parar no meu HD há uns anos, não sei mais dizer como. Traz uma gravação ao vivo semi-oficial, provavelmente de rádio, da Sinfonia 102 de Haydn, também estreada em Londres, com o maestro Ferdinand Leitner (1912-1996), outro sujeito que se dava muito bem com esse repertório dos vienenses, como ilustrado na sua famosa gravações dos Concerto de Beethoven com Kempff, tendo em vista que os dois primeiros concertos têm uma sensibilidade bem próxima de Haydn. A orquestra não usa instrumentos antigos e às vezes o legato das cordas pode ser estranhado por ouvidos já mais acostumados com La Petite Bande e Kuijken, mas o maestro fez o estilo de Haydn e de Mozart reviver diante das plateias em 1988, no que devem ter sido concertos muito especiais.


Wolfgang Amadeus Mozart: Symphony no. 35
Franz Joseph Haydn: Symphony no. 102

Ferdinand Leitner, Bavarian RSO, 1988

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Pleyel

Béla Bartók (1881-1945), Sofia Gubaidúlina (1931-2025), Alfred Schnittke (1934-1998): Quartetos de cordas (Arditti)

O Quarteto Arditti foi fundado em 1974 e seus membros são especialistas na música dos séculos XX e, já há alguns anos, tabém na do século XXI. Uma breve ida ao google me informa que em 2025 eles gravaram uma estranhíssima obra do compositor cipriota Evis Sammoutis (Ρίμες – Rhymes, composto em 2012) que você pode conferir aqui. Então, em comparação, para eles o 4º quarteto de Bartók é uma das obras mais tradicionais do seu repertório.

Diferentes entre si em muitos sentidos, os quartetos de Bartók, Schnittke e Gubaidulina escolhidos pelo Arditti têm também algumas coisas em comum como o uso de técnicas pouco comuns ou até comuns mas aqui exageradas: momentos em que o glissando ou o pizzicato é levado a extremos que podem causar desconforto, admiração ou outros sentimentos no ouvinte. Para os músicos, certamente não são de tranquila execução.

Arditti Quartet:
1-5. Bartók: Quartet No. 4 (1928)
6. Gubaidulina: Quartet No. 3
7-10. Schnittke: Quartet No. 2
I. Arditti (vl.), D. Alberman (vl.), L. Andrade (vla.), R. de Saram (vc.)
Recorded: New York, 1990

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Bartók em uma fase barbuda

Pleyel

.: interlúdio .: Omar Sosa & Yilian Cañizares – Aguas (2018, MDC)

Dois músicos cubanos fazendo um tipo de música que às vezes cai pro lado do jazz, depois parece meio música de hall de hotel mas mais à frente traz momentos mais tortos que não cairiam tão bem no suposto hall onde os supostos turistas não querem nada que saia do controle.
Yilian Canizares alterna entre seu lado violinista e seu lado cantora. É nessa alternância que surgem as surpresas mais interessantes do álbum. Desnecessário explicar o motivo pelo qual certos momentos de influência africana soam familiares para ouvidos brasileiros, aliás o título de um disco mais recente de Yilian é Habana-Bahia.
Omar já tinha aparecido no blog (aqui), Tilian faz sua estreia hoje e, salvo engano, não tem histórico de muitas visitas ao Brasil. É uma pena: sua música é bastante compreensível para os nossos ouvidos e ao mesmo tempo foge dos lugares comuns de gêneros como o latin jazz, a salsa e a bossa nova.

Omar Sosa, Yilian Cañizares:
1 Duo de Aguas 3:12
2 Dos Bendiciones 4:01
3 De La Habana y Otras Nostalgias 4:28
4 Milonga 7:17
5 O Le Le 5:03
6 Sanzara 5:38
7 Sonrisas de Ninos 3:58
8 Oshun 3:51
9 Se Van Los Mios 5:31
10 La Respiracion 4:37
11 D2 de Africa 7:15

Recording: Cavalicco, Italia, 2017
Omar Sosa: Piano, Fender Rhodes, Keyboards, Programming & Samples, Backing Vocals
Yilian Cañizares: Violin, Vocals, Programming & Samples

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Yilian Cañizares

Pleyel

Gabriela Ortiz (1964): Yanga, para coro, percussão e orquestra / Dzonot, para cello e orquestra / Seis piezas a Violeta, para piano e orquestra (L.A.Phil. / G. Dudamel) – Semana do Dia Internacional da Mulher

Compostas entre 2019 e 2024, as obras da mexicana Gabriela Ortiz recebem aqui um tratamento luxuoso da Filarmônica de Los Angeles que, aliás, há muitos anos já vem se dedicando fortemente à música contemporânea: basta lembrar que sob a direção de Salonen eles estrearam a 4ª e última Sinfonia de Lutoslawski em 1993 e, já com Dudamel, eles estrearam True Fire, de Saariaho. Lembremos ainda que, após 17 anos, Dudamel estará se despedindo do cargo como regente principal em L.A., em uma temporada 2025–26 com o apelido “Gracias Gustavo,” temporada que inclui uma estreia do venezuelano Ricardo Lorenz além de uma nova orquestração da já famosa obra para piano “O povo unido jamais será vencido”, de Rzewski (1938-2021).

Assim como a obra de Rzewski, as de Ortiz são politicamente engajadas. O pdf que acompanha o álbum explica a temáticas de resistência contra a escravidão na América espanhola (Yanga, com momentos de percussão que poderiam facilmente ser confundidos com música negra brasileira) e de cavernas mexicanas com uma rica biodiversidade incluindo pássaros e onças (Dzonot, para violoncelo e orquestra).

É essa última obra que mais me impressionou. A música contemporânea de concerto, como sabemos, muitas vezes tem dificuldades de encontrar um grande público que a abrace com entusiasmo. Os concertos para solista e orquestra, em muitos casos, conseguiram se fazer entender por plateias não tão entendidas sobre os detalhes teóricos que diferenciam música serial, cromática ou atonal livre. Me refiro por exemplo aos concertos para violoncelo de Ginastera, Lutoslawski, Dutilleux, Penderecki, compositores já falecidos mas ainda próximos de nós em vários sentidos. Também os Concertos para violino n° 1 de Gubaidulina, o de Vasks e o de Saariaho tiveram papel importante para que esses três nomes ganhassem fama lá pelas décadas de 1980, 90 e 2000.

Talvez a explicação seja a seguinte: os detalhes de orquestração de infinita sutileza de obras orquestrais desses compositores às vezes passa despercebidos por parte do público, mas quando um solista no pódio dialoga com a orquestra – seja esse diálogo muito inovador ou mais pautado por padrões musicais conhecidos – esse diálogo, em si, é compreendido mais facilmente. Ouçam o Concerto Dzonot de Ortiz e reparem…

Gabriela Ortiz (1964):

1. Yanga, para coro, percussão e orquestra
Tambuco Percussion Ensemble, Los Angeles Master Chorale

2-5. Dzonot – Concerto para violoncelo e orquestra
Alisa Weilerstein cello
I. Luz vertical
II. El ojo del Jaguar
III. Jade
IV. El vuelo de Toh

6-11. Seis piezas a Violeta, para piano e orquestra
Joanne Pearce Martin piano
I. Preludio Andino
II. Geometría Austral
III. Ritmo Genésico
IV. Canto del Angelito
V. Danza Esdrújula
VI. Amen

Los Angeles Philharmonic, Gustavo Dudamel

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Pleyel

Sofia Gubaidúlina (1931-2025): Quinteto com piano / Introitus (Concerto para piano) / Dançando na corda bamba – Semana do Dia Internacional da Mulher

A esperança
dança
na corda bamba de sombrinha
e em cada passo dessa linha
pode se machucar
(Aldir Blanc / João Bosco)

Se a metáfora da esperança equilibrista foi lembrada pelos dois sambistas brasileiros no tempo da Anistia e de fim de uma ditadura (embora fim lento, gradual e com sigilo), a mesma metáfora ocorreu a Sofia Gubaidúlina logo após se mudar para a Alemanha, saindo de uma Moscou em colapso. Nas palavras da compositora, o título da obra Dancer on a tightrope se relaciona com um

desejo de se livrar das amarras da vida cotidiana. O desejo de voar pelo prazer do movimento, da dança e da virtuosidade estática. Um dançarino na corda-bamba é também uma metáfora para esta oposição: a vida como risco, e a arte como fuga para uma outra existência. O que me interessou nesta peça foi criar as circunstâncias para o jogo de contrastes no qual o ritmo preciso da dança do violino triunfa sobre o curso movimentado da parte para piano.

Os materiais usados por um dos grandes pianistas em atividade para tocar Gubaidúlina

Por exemplo, esse contraste é obtido pela deformação do ritmo ao se tocar sobre as cordas do piano com um cálice de vidro; pela gradual transformação destes sons harmônicos transparentes em fortissimo agressivo do cálice sobre as cordas graves do piano; pelo som ameaçador desse ritmo quando tocado pelo pianista que utiliza um dedal de costura de metal e, finalmente – o evento principal na forma da peça – pela passagem do pianista das cordas para o teclado. Todos esses eventos são dominados pelo violinista em uma dança extática.

O violinista Gidon Kremer foi importante na carreira de Gubaidúlina ao divulgar seu 1º concerto para violino e outras obras por todo o mundo. O 2º concerto para violino seria estreado em 2007 por Anne-Sophie Mutter. Kremer aparece neste disco de hoje da gravadora BIS, junto com pianistas não tão famosos como ele ou Mutter.

O concerto “Introitus” já foi postado e comentado por este mesmo Pleyel em 2018. Sigo com a opinião de que, junto com os não-concertos de Messiaen, são as melhores obras para piano e orquestra da segunda metade do século XX.

E o quinteto composto em 1957, quando Gubaidúlina era uma estudante em Moscou, me parece obra de alguém ainda com uma voz menos própria, mas parecida com a de Shostakovich e outros russos, mas enganos sempre são possíveis nesses juízos de valor.

Sofia Gubaidúlina (1931-2025):
1-4. Piano quintet (1957)
5. “Introitus” – Piano Concerto (1978)
6. Dancer on a tightrope (1993)

R. Aizawa, K. Vogler, M. Wang, U. Eichenauer, P. Bruns (1-4); B. Rauchs, Kyiv Chamber Players, V. Kozhukhar (5); G. Kremer, V. Sakharov (6). Recorded: 1995-1997

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE – mp3 320kbps

Gidon Kremer relaxa após passar pela corda-bamba sem sombrinha, com violino

Pleyel (postagem original de 2023)

Franz Schubert: Fantasia, Rondo, Variações, Sonatas (Jacqueline Ross, violino / Maggie Cole, fortepiano)

Dia Internacional da Mulher – 8 de março de 2026
As duas instrumentistas homenageadas hoje aqui no blog podem não ser tão multipremiadas quanto Martha Argerich, Anne-Sophie Mutter, Maria João Pires ou Barbara Hannigan. Mais discretas, elas fazem parte do movimento de instrumentistas que tocam em instrumentos de época: para Maggie Cole, isso significou alternar entre o fortepiano, como nestes dois CD de hoje, e o cravo, como atestam os seus discos dedicados a J.S. Bach. No seu disco dedicado a Antonio Soler pela finada gravadora Virgin, ela alternou entre cravo e fortepiano, excelente escolha ao abordar um compositor que conheceu bem os dois instrumentos. Aliás, foi a partir desse disco de Soler (que já postei aqui) que eu fui me interessar pela cravista e pianista estadunidense radicada em Londres. Dias atrás, trouxe outro disco em que Maggie toca trios de Haydn, obras nas quais o piano tem papel de solista como se se tratassem de concertos com orquestra em miniatura. Também vivendo entre EUA e Inglaterra, Jacqueline Ross faz sua estreia hoje no PQP Bach com essas interpretações cheias de delicadeza e de uma profunda pesquisa do idioma musical da época de Schubert.

O 1º CD, dedicado às Sonatas, tem seus bons momentos. Mas é no 2º CD que aparecem duas obras-primas tardias que todo amante de Schubert precisa conhecer – e me refiro não apenas ao tipo de conhecimento de quem tem noção da existência de algo, mas a um conhecimento mais íntimo. No Andante e Rondó em Si Menor (1826), Schubert adota a forma binária de um movimento introdutório, mais lento, e um principal. O seu inesgotável talento para as melodias aparece no Rondó, assim como na Fantasia em Dó maior (1827), obra cheia de contrastes emocionais e liberdades formais, não devendo nada à Fantasia Wanderer para piano ou ao tardio Quinteto de Cordas em dó maior, na mesma tonalidade dessa Fantasia e composto a poucas semanas de distância.


Franz Schubert (1797–1828):
CD1
1-3. Sonata Op. 137, No. 1, D. 384
4-7. Sonata Op. 137, No. 2, D. 385
8-11. Sonata Op. 137, No. 3, D. 408
12-15. Sonata Op. post. 162, D. 574

Franz Schubert (1797–1828):
CD2
1-2. Rondo in B minor, Op. 70, D. 895
3-11. Introduction and Variations on ‘Trockne Blumen’, Op. post. 160, D. 802
12-14. Fantasie in C major, Op. post. 159, D. 934

Jacqueline Ross, violin (by G. B. Guadagnini, Turin, 1777)
Maggie Cole, fortepiano (CD1: by Paul McNulty, Czech Republic, 1991, after Walter, Vienna c. 1795 ; CD2: by Graf, Vienna, 1826)

Recorded: England, 2011

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Maggie Cole

Pleyel

.: interlúdio :. Alice Coltrane (1937-2007) – Journey in Satchidananda (1970)

Nascida em 1937, Alice Coltrane foi uma pianista de jazz que fez seu nome – antes de ter esse sobrenome – a partir de 1960 como improvisadora em Paris e Detroit. Quando tocava em Nova York com o vibrafonista Terry Gibbs em 1962, ela conheceu John Coltrane. No ano seguinte, Alice saiu abruptamente da banda de Terry Gibbs, dizendo a ele que ia se casar com Coltrane. John e Alice tiveram três filhos juntos. Em toda a década de 60, a música de John Coltrane tomava progressivamente uma dimensão espiritual. Ele dizia que, após esse acordar espiritual, “não dá mais para esquecê-lo. Torna-se parte de tudo que você faz.”

John Coltrane morreu de câncer de fígado em 1967. Por algum tempo, Alice dormiu mal, teve visões, emagreceu. Nas profundezas de sua dor, Alice tornou-se discípula de Swami Satchidananda, guru indiano especialista em Hatha Yoga. Seus conselhos e orientação espiritual acalmaram seu espírito, enquanto ela estudava harpa, instrumento que, segundo a lenda, teria sido encomendado por John Coltrane mas ele não teve tempo de vê-la tocando. (informações tiradas daqui)

O tipo de “spiritual jazz” que Alice Coltrane fez na década de 1970 se insere em um movimento que também contou com o inglês John McLaughlin (Mahavishnu Orchestra) e o mexicano/americano Carlos Santana, ambos também muito influenciados por Coltrane. E no álbum Journey in Satchidananda, de 1970, temos músicos do último grupo liderado por Coltrane: Pharoah Sanders no sax e Rashied Ali na bateria e percussão. Além, é claro, de Alice, que tinha substituído o pianista McCoy Tyner no fim de 1965. Na última faixa, gravada ao vivo, Charlie Haden aparece no baixo, mas a estrela desse momento final do álbum é o diálogo entre a harpa e o oud (instrumento da família do alaúde, comum no mundo islâmico), pontuado por aparições do sax.

O título do álbum dá boas pistas: é uma jornada. Alice Coltrane nos leva a um território inexplorado no jazz, com base em múltiplas culturas e diversos instrumentos, mas sobretudo com base na emoção.

Alice Coltrane (1937-2007) – Journey in Satchidananda (1970)

1. Journey in Satchidananda – 6:39
2. Shiva-Loka – 6:37
3. Stopover Bombay – 2:54
4. Something About John Coltrane – 9:44
5. Isis and Osiris – 11:49
All compositions by Alice Coltrane

Tracks 1-4
Alice Coltrane – piano, harp
Pharoah Sanders – soprano saxophone, percussion
Cecil McBee – double bass
Rashied Ali – drums
Tulsi – tanpura
Majid Shabazz – bells, tambourine
Recorded at the Coltrane home studio, Dix Hills, New York, on November 8, 1970

Track 5
Alice Coltrane – harp
Pharoah Sanders – soprano saxophone, percussion
Rashied Ali – drums
Charlie Haden – bass
Vishnu Wood – oud
Recorded live at The Village Gate, New York City, on July 4, 1970

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Alice Coltrane tocando harpa

Pleyel (postagem original de 2022)

 

F. J. Haydn (1732-1809): Quatro Trios para piano (Maggie Cole, Kati Debretzeni, Sebastian Comberti)

O quarteto de cordas era, para Haydn e seus contemporâneos, um gênero recentemente inventado – por Boccherini e logo em seguida pelo próprio Haydn – e marcado pela igualdade entre os quatro instrumentos de cordas. Como um pai ou uma mãe com quatro filhos, o compositor não estabelecia uma hierarquia, embora aqui ou ali seu coração pudesse bater mais por um. Nos trios de Haydn, é outra história: ali, tratam-se sobretudo de Trios para piano com duas cordas acompanhando. Nesse ambiente intimista, desdobram-se ideias semelhantes às de um concerto para solista e orquestra, ou ainda as de uma ária ou um oratório sacro com um ou dois solistas vocais e orquestra. Então, se os trios de Haydn oferecem uma diversidade de emoções, andamentos, melodias em uníssono e “solos” harmônicos do violino e do violoncelo estabelecendo bases para o piano brilhar, é verdade também que todos eles mantêm essa relação um tanto previsível entre os três instrumentos, mas os clichês e desenvolvimentos previsíveis também estão presentes na grande maioria concertos para piano e estamos satisfeitos com isso.

Depois, Beethoven e Schubert escreveriam trios em que os papéis dos três instrumentos vão variando, a melodia lançada por um é refeita e variada dois compassos depois por outro instrumento… isso vai culminar naquele que – ao menos na minha opinião – seria o mais perfeito trio posterior ao classicismo vienense, o Trio de Ravel. Nessa obra de 1914, as melodias dos três instrumentos vão se entrelaçando como na estrutura incerta de um sonho, já tendo abandonado de vez o mundo tão racional e iluminista dos Trios de Haydn.

Mas voltando ao austríaco e aos seus trios que aparecem aqui hoje em instrumentos de época, às vezes na vida nós queremos ouvir música em que os instrumentos executam papéis bem definidos. Isso vale nas relações humanas também: desde que bem combinadas (o combinado não sai caro), as relações com estruturas demarcadas do tipo “X cozinha, Y lava” podem ser tão felizes quanto outras em que todo mundo cozinha e lava. Só o que é lamentável é a naturalização de certos papéis como o que descrevia Carlos Drummond na crônica Céu da boca. “A mãe praticamente não se sentava, ocupada em servir a todos, de sorte que ia comer no fim, ou ‘lambiscar’,” isso dizia o Drummond em 1955 se referindo ao passado e tomara que fique cada vez mais no passado mesmo, é o que desejamos, não é?

Franz Joseph Haydn (1732-1809):
1-3. Piano Trio No. 25, Op. 75 No. 1 In C Major (Hob. XV:27) (18:52)
4-6. Piano Trio No. 26, Op. 75 No. 2 In E Major (Hob. XV:28) (16:13)
7-9. Piano Trio No. 24, Op. 73 No. 3 In F Sharp Minor (Hob. XV:26) (14:49)
10-12. Piano Trio No. 22, Op. 73 No. 1 (Hob. XV:24) (14:13)

Recorded at Real World Studios, England, December 2008
Fortepiano by Paul McNulty after Anton Walter 1795

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O trio no frio após tocar um allegro con brio

Pleyel

Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia Nº 5 (Zurich / Järvi)

O maestro Paavo Järvi tem bons contratos com gravadoras: após discos recentes dedicados a Messiaen, Mendelssohn e Bruckner (em Zürich, Suíça) e a Schubert e Beethoven (em Bremen, Alemanha), além de concertos para violino gravados com J. Jansen (Beethoven e Britten, aqui) e V. Mullova (Prokofiev) ele e os suíços iniciaram em 2025 uma integral de sinfonias de Mahler. Pode parecer mais do mesmo, afinal, a cada ano diversas opções de discos de Mahler têm surgido.

Mas comecei a ouvir essa Sinfonia nº 5 e fiquei convencido: a orquestra de Zürich mostra personalidade nas melodias de sabor levemente folclórico, nas danças e canções. Quando falo em personalidade, me refiro a fraseados, articulações que fogem do óbvio ao mesmo tempo que se encaixam no que pede a partitura, fugindo assim dos rubatos grotescos ou incompreensíveis.

No libreto do álbum, Järvi traz algumas opiniões: “Mahler abriu um novo universo com a Quinta Sinfonia, iniciando um estilo musical incrivelmente pessoal. As sinfonias anteriores têm, é claro, um alto nível de genialidade e com bastante diálogo interior. Mas essa maneira de iniciar nos colocando em uma marcha fúnebre militar, com essa atmosfera trágica, a ideia mesmo de começar assim uma sinfonia – tudo isso mostra que vai acontecer algo bem diferente.

E acrescenta Franzizka Gallusser, autora das notas do álbum: Mahler disse uma vez que sua Quinta Sinfonia é a obra que “ninguém entendia”. Já abordando o movimento final da Sinfonia, que traz a marcação “Fresco”, com cantos de pássaros após o clima mais melancólico do Adagietto para cordas, Gallusser comenta as ambiguidades de Mahler, mestre em criar expectativas e quebrá-las, bem ao contrário do seu professor Anton Bruckner, que era menos imprevisível e mais classicista em termos de desenvolvimentos:

“Mahler quebra a seriedade do movimento, parodiando a expectativa usual do ouvinte de que o último movimento inclua um coral que conclua a sinfonia. Um coral aparece no final da Sinfonia, embora tenha uma conotação irônica desde o início, já que a introdução consiste em elementos do próprio coral. O coral propriamente dito, no final do movimento, perde, assim, qualquer legitimidade e não possui solenidade; isso é ainda mais enfatizado por sua repetição em um estilo burlesco e lúdico. A música, portanto, foge de qualquer interpretação clara do destino da obra sinfônica e deixa o desfecho em aberto. Será que Mahler escreveu sua sinfonia dessa maneira de propósito para que ‘ninguém a entendesse’?”

Gustav Mahler: Sinfonia nº 5 (1904)
1. Trauermarsch (Marcha Fúnebre): In gemessenem Schritt. Streng. Wie ein Kondukt (At a measured pace. Strict. Like a funeral procession.) (A passos mesurados. Estrito. Como uma processão fúnebre)
2. Stürmisch bewegt, mit größter Vehemenz (Com movimento e tempestuoso, com grande veemência)
3. Scherzo. Kräftig, nicht zu schnell (Forte, não muito rápido)
4. Adagietto. Sehr langsam (Muito lento)
5. Rondo-Finale. Allegro – Allegro giocoso. Frisch (Fresco)

Tonhalle Zurich / Paavo Järvi

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Gustav Mahler talvez um pouco cansado

Pleyel

G.F. Händel (1685-1759): Concertos para órgão, Op. 4 (Ottavio Dantone, Accademia Bizantina)

Um disco de grande beleza sonora com os seis Concertos para órgão e orquestra publicados por Handel em 1738. Há algumas gravações integrais com todos os concertos para órgão de Handel, dos quais talvez o “Cuco e o Rouxinol” (Concerto nº 13, HV 295, que não foi publicado com nº de opus) possivelmente é o mais notável de todos. Mas a falta desse concerto aqui não diminui as interpretações dos músicos da Accademia Bizantina – grupo fundado em Ravenna, Itália, em 1984

No libreto do disco, temos uma aprofundada apresentação dessas obras estreadas na Inglaterra ao longo da década de 1730. Aqui vão alguns trechos:

Sendo um organista, compositor de concertos e amante dos efeitos teatrais, era inevitável que Handel um dia inventasse o concerto para órgão. Mas foi uma longa gênesa: a primeira combinação de órgão com orquestra por Handel ocorreu em 1707, em seu período na Itália. O Oratório Il Trionfo del Tempo e del Disenganno precisava de um interlúdio instrumental para expressar os prazeres das sensações: Handel criou então uma sensual “Sonata” para órgão e orquestra seguida de uma ária com órgão obbligato. Esses movimentos deram a Handel a possibilidade de fazer sucesso no papel duplo de compositor e solista. Por motivos semelhantes, as óperas Agrippina (Veneza, 1709) e Rinaldo (Londres, 1711) tiveram áreas com cravo obbligato. Handel, então, abandonou a ideia por um tempo, provavelmente até cerca de 1733 ou 1735.

Os Concertos para órgão interpretados por Handel entre os atos dos seus Oratórios tornaram-se favoritos das plateias de Londres e a publicidade logo começou a mencionar peças para órgão e orquestra “never heard before” (nunca ouvidas antes).

Handel provavelmente tocava os concertos em um pequeno órgão portátil [pequeno para padrões de órgãos! – Pleyel] de onde ele também acompanhava cantores e regia a orquestra. Esses instrumentos tinham um tom delicado e não tinham pedais. O que o público dos teatros mais gostava era, talvez, a excitação de ouvir o compositor improvisar em tempo real. O historiador do século XVIII Sir John Hawkins afirma que Handel costumava começar cada concerto com um improviso “concatenado com suprema arte, e ao mesmo tempo perfeitamente inteligível, com a aparência de grande simplicidade”. Ao longo do Concerto, Handel continuava fazendo pequenos improvisos nos ornamentos: quem assistisse a duas apresentações em noites seguidas não ouviria a mesma música duas vezes. Isso fica claro na edição impressa como opus 4: a música é cheia de marcações “ad libitum”, indicando que o intérprete devia sentir a liberdade de criar.

G.F. Händel (1685-1759):
Seis Concertos para órgão, op. 4
Accademia Bizantina
Ottavio Dantone – órgão e direção
Recording: Bartholomäuskirche, Halle, 2008

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Caricatura de Handel por Goupy, 1754

Pleyel

Buxtehude, Bach, Reger, Kodaly e o órgão de Culemborg (Bert Lassing)

coverMeu pai trabalhava numa fábrica e me ensinou desde pequeno que, na produção em escala industrial, tão importante quanto a qualidade é a padronização dos produtos. O gosto e a aparência de um refrigerante feito no Oiapoque no ano passado e de outro da mesma marca engarrafado ontem no Chuí devem ser idênticos. Vinhos, por outro lado, não são assim: é natural que um vinho de Santa Catarina seja diferente de um produzido no vale do São Francisco e de um terceiro da Serra Gaúcha, sem falar em safras diferentes, etc.

E o que isso tem a ver com o órgão? É que esse instrumento de tradição milenar, assim como os vinhos, vem resistindo às tentativas de padronização. Hoje muita gente reclama que as orquestras estão soando mais parecidas, os pianistas ao redor do mundo estão seguindo a mesma cartilha (será?), mas em relação aos órgãos, como podemos ouvir nessa série de órgãos holandeses, mesmo dentro de um país e do chamado “período barroco”, cada um é diferente. Assim como vinhos, há órgãos mais de acordo com o padrão, mais certinhos, e há outros com personalidade forte, inconfundíveis. Este órgão de Culemborg, na Holanda, me parece o mais peculiar dos quatro. São especialmente belos os registros que imitam instrumentos de sopro: flautas, oboés, trompetes… A fuga de Buxtehude, a Pastorella e o adagio de Bach, os corais de Reger usam muito esses sons de sopros. As obras de Bach também podem ser chamadas de únicas: ele escreveu dezenas de Prelúdios e Fugas, seis Triosonatas, mas só uma Pastorella, peça bucólica que provavelmente era tocada na época do Natal, com inspirações galantes italianas, e apenas uma obra para órgão com a forma da BWV 564, com um sublime movimento lento (adagio) no meio de dois rápidos (tocata e fuga), formato que lembra até os concertos à maneira de Vivaldi.

Dietrich Buxtehude (1673-1707):
01. Praeludium in D major, BuxWV 139
02. Ich ruf zu dir, Herr Jesu Christ, BuxWV 196
03. Fuga in C major, BuxWV 174
J.S. Bach (1685-1750):
04. Pastorella in F major, BWV 590 – Part 1
05. Pastorella in F major, BWV 590 – Part 2
06. Pastorella in F major, BWV 590 – Part 3
07. Pastorella in F major, BWV 590 – Part 4
08. Toccata, Adagio und Fuge in C major, BWV 564
Max Reger (1873-1916):
09. Jesus, meine Zuversicht, Opus 67 No. 20
10. Jesus meine Freude, Opus 67 No. 21
11. Introduktion und Passacaglia in d minor
Zoltan Kodaly (1882-1967):
12. Praeludium
Piet Kee (1927-):
13. Erschienen ist der herrlich Tag

Bert Lassing – organista
Verhofstad Organ, 1711, Barbarakerk, Culemborg, Netherlands
Gravado em 1991

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Bert Lassing com as mãos ocupadas
Bert Lassing com as mãos ocupadas

Pleyel

Max Reger (1873-1916): As duas suítes para órgão (Kirsten Sturm)

“Só com o renascimento de Bach teremos total liberdade” Max Reger

Reger é um compositor alemão pouco lembrado, talvez por ter nascido no mesmo país e século do último Beethoven, de Schumann, Brahms e Wagner, talvez por ter construído sua música ainda sobre as bases de Bach em plena virada do século XX.

A música de câmara e orquestral de Reger é pouco tocada, mas para o órgão ele é sem dúvida o grande alemão depois de Bach, seja em quantidade de obras (ocupam uns 15 CDs) seja pela qualidade de suas Suítes, Sonatas, Prelúdios e Fugas com contraponto aplicado à sonoridade orquestral do órgão do século XIX. Suas passacaglias e toccatas usam registros de órgão que não existiam na época de Bach.

Este é um típico disco da Naxos: órgão e organista pouco conhecidos mas de grande conexão com o repertório tocado, com som muito bem gravado. A primeira suíte, de 1895, foi dedicada à “sombra de J.S. Bach” e elogiada pelo idoso Johannes Brahms. A segunda, de 1905, é de mais fácil audição por ter mais movimentos, mais curtos, incluindo um romanze de belos timbres e duas fugas.

Organ Suite No. 1 in E Minor, Op. 16, “Den Manen J.S. Bachs”
1. I. Introduction and Fugue 00:14:14
2. II. Adagio assai 00:08:51
3. III. Intermezzo – Trio 00:12:28
4. IV. Passacaglia 00:11:48
Organ Suite No. 2 in G Minor, Op. 92
5. I. Prelude 00:03:24
6. II. Fugue 00:02:42
7. III. Intermezzo 00:04:55
8. IV. Basso ostinato 00:03:30
9. V. Romanze 00:05:58
10. VI. Toccata 00:03:10
11. VII. Fugue 00:03:52
Kirsten Sturm – Sandtner Organ (1979)
St. Martin’s Cathedral, Rottenburg am Nektar, Germany

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Anjos rindo de quem ainda fazia Basso Ostinato, Tocatas e Fugas em 1905...
Anjos rindo de quem ainda fazia Basso Ostinato, Tocatas e Fugas em 1905…

Serguei Prokofiev (1891-1953): Sonata nº 5, Visions fugitives, Sarcasmos (Koroliov, piano)

Um belo CD com um repertório mais raro de Prokofiev: obras que datam em sua maioria de quando o compositor tinha cerca de 30 anos e experimentava, aqui mais e ali menos, com uma linguagem mais dissonante do que a de certas obras mais maduras (Sonatas 6 a 8, Sinfonias 5 a 7). É como se o Prokofiev mais jovem estivesse flertando com as inovações de Debussy, Scriabin, Stravinsky e Schoenberg, sem perder a sua voz particular, enquanto o Prokofiev de mais de 40 anos retornaria a um tonalismo em comparação mais conservador, provavelmente por imposição das instituições soviéticas, mas aí essa reflexão já ultrapassa esse repertório. O que temos aqui são várias miniaturas: as vinte Visões Fugitivas, os cinco Sarcasmos, mais Gavotas avulsas; e ainda uma Sonata, a 5ª, composta em 1923 e revisada por Prokofiev 30 anos depois. Segundo o encarte do disco, as mudanças na sonata ocorreram pois “na sua forma original ela não mais o convencia. Nessa forma revisada, que ouvimos aqui, o modernismo marcante da sonata foi suavizado por pitadas mais classicistas, mas ainda ouvimos o ‘estilo refinado’ que o compositor considerava a marca dessa obra”.

Formado em Moscou e radicado na Alemanha desde 1978, o pianista E. Koroliov mostra aqui muita familiaridade com este repertório. A escolha de repertório – suponho aqui que seja do pianista – é notável, pois ficam evidentes as semelhanças da 5ª sonata, especialmente no seu movimento lento, com as delicadas miniaturas das Visões Fugitivas. Isso nos faz lembrar, afinal, que o jovem Prokofiev tinha em comum com Scriabin, Mendelssohn, Schubert, Schumann e Chopin o gosto pelas miniaturas para piano, obras nas quais as ideias chegam, se apresentam e depois vão embora como borboletas voando ou como flores murchando. Para usarmos uma metáfora mais ao gosto dos soviéticos, é como dizia Marx: tudo que era sólido se desmancha no ar. São peças sem desenvolvimentos dramáticos, sem acordes frenéticos, que podem ser (mal-)tocadas por pianistas iniciantes mas nas mãos de profissionais como Koroliov revelam nuances e mais nuances.

Serguei Prokofiev (1891-1953):
Sarkasmen, op. 17
I Tempestoso
II Allegro Rubato
III Allegro Precipitato
IV Smanioso
V Precipitosissimo

Visions fugitives, op. 22

Sonata no. 5, op. 135 (revised version)
Allegro Tranquillo / Andantino / Un Poco Allegretto

Tanz, op. 32

3 Gavottes: op. 32/3, op. 25, op. 95

Evgeni Koroliov, piano

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BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE – FLAC

Retrato de Prokofiev por Anna Ostroumova – Paris, 1926

P.S. Ao constatar esse lado menos lembrado do Prokofiev autor de miniaturas de beleza fugitiva, ouvi pela primeira vez as Melodias de 1925 para piano e violino, disponíveis aqui no blog com Kremer e Argerich. Vocês lembravam dessas?

Pleyel