Este disco, comprado em vinil no ano de 1980, foi a maior das surpresas. Em primeiro lugar, era editado pela ECM mas não era absolutamente jazz; segundo, era uma música minimalista muito mais complexa e bem acabada do que a composta por um certo Philip Glass. Era um minimalista mesmo! Sua música tinha as mesmas repetições das de Glass, só que suas variações eram muito mais rápidas, inteligentes e interessantes, às vezes quase inaudíveis, mas sempre ocorrendo sem possibilidade de mesmice. Fiquei fascinado. Ouvi este disco de olhos fechados talvez dezenas de vezes, procurando entender e visualizar o que todos os 18 músicos realizavam, às vezes abrindo os olhos para ver suas fotos no bolachão da ECM. Vinte anos depois, comprei a gravação de um grupo húngaro que refazia a “Música” com extraordinário entusiasmo. É esta gravação que posto em P.Q.P. Bach. Ainda me seduzo pela incrível sucessão de harmonias mostradas por Reich. É uma audição lúdica e de complexidade nunca diminuída. É um clímax perpétuo, algo que nem os Viagras conseguem. Mas não posso fazer analogias com orgasmos, pois 61 minutos de orgasmo seria como esconder-se no Orgasmotron do filme “O Dorminhoco”, de Woody Allen.
Depois conheci Adams e outros, mas… (Grande parte do texto abaixo foi traduzido da Wikipedia espanhola por mim.)
Todos os músicos do passado, começando na Idade Média, estavam interessados na música popular. A música de Béla Bartók se fez inteiramente com fontes de música tradicional húngara. E Igor Stravinsky, ainda que gostasse de nos enganar, utilizou toda a sorte de fontes russas para seus primeros balés. A grande obra-prima Ópera dos Três Vinténs, de Kurt Weill, utiliza o estilo de cabaret da República de Weimar. Arnold Schoenberg e seus seguidores criaram um muro artificial, que nunca existiu antes. Minha geração atirou o muro abaixo e agora estamos novamente numa situação normal. Por exemplo, se Brian Eno ou David Bowie recorrem a mim e se músicos populares reutilizam minha música, como The Orb ou DJ Spooky, é uma coisa boa. Este é um procedimento histórico habitual, normal, natural.
Steve Reich
Em 1974, Reich começou a escrever Music for 18 Musicians, o número de integrantes de seu “ensemble”, uma peça que acabaria dois anos mais tarde. Seguramente é a obra de Reich que obteve maior êxito e, para muitos, é que se chamaria sua obra principal. Esta peça trouxe consigo muitas idéias novas, ainda que outras já houvessem sido escutadas em peças anteriores. A obra se organiza ao redor de um ciclo de onze acordes introduzidos no princípio, seguidos por pequenas variações em cada acorde, e por um retorno ao ciclo original. É complicado mesmo e sei lá como alguém consegue interpretar tal música ao vivo, como fazem esses húngaros malucos. As seções chamam-se conveniente, «Pulsos», «Seção I-XI» e novamente, «Pulsos». Esta foi a primeira tentativa de Reich de escrever uma obra para um conjunto maior de executantes, o que permitiaria um maior alcance dos efeitos psicoacústicos, fato que fascinou a Reich, que declarara na época que gostaria de «explorar mais esta idéia» («explore this idea further»). Reich comentou que este trabalho continha mais movimento harmônico em seus primeiros cinco minutos do que qualquer outro trabalho que escrevera antes. A Deutsche Grammophon gravou a peça, mas não estava nada segura de lançá-la depois do relativo fracasso de vendas de Drumming. Foi proposto a Reich um lançamento pela ECM. Ele logo rechaçou a idéia dizendo que sua obra não era jazz. Porém Bob Hurwitz — então na ECM (logo depois foi para a Nonesuch) —, o convenceu. Venderam mais de 100.000 copias nos dois anos seguintes, promovendo a obra em emissoras de rádio de rock progressivo e jazz experimental. Para Reich, foi uma sorte haver concordado, pois desde aquele momento passou a gozar de um amplo prestígio e respeito no cenário musical internacional.
Imperdível esta gravação ao vivo feita por este extraordinário – e concentradíssimo! – grupo húngaro. Procurem ouvir sem interrupção e com atenção. Vale a pena.
Steve REICH – MUSIC for 18 MUSICIANS – Amadinda Percussion Group
Os Músicos:
1 Ida Szabó – ének / voices
2 Ágnes Dobszay – ének / voices
3 Zsuzsanna Lukin – ének / voices
4 Katalin Károlyi – ének / voices
5 László Melis (Group 180) – hegedu / violin
6 Ákos Pásztor (Group 180) – gordonka / cello
7 Gellért Tihanyi (Group 180) – klarinét, basszusklarinét / clarinet, bass clarinet
8 János Maczák – klarinét, basszusklarinét / clarinet, bass clarinet
9 Béla Faragó (Group 180) – zongora / pianos
10 Zoltán Rácz – zongora / pianos
11 György Oravecz – zongora, maracas / piano, maraca
12 Zsolt Sárkány – marimba
13 Zoltán Váczi – marimba
14 Károly Bojtos – xilofon, zongora / xylophone, piano
15 Benedek Tóth – xilofon / xylophone
16 Tibor Nemes – marimba, zongora / piano, marimba
17 Gergely Bíró – marimba, maracas
18 Aurél Holló – vibrafon, zongora / vibraphone, piano
Apoie os bons artistas, compre sua música!
PQP