Steve Reich (1936-): Music for 18 Musicians – link revalidado

Este disco, comprado em vinil no ano de 1980, foi a maior das surpresas. Em primeiro lugar, era editado pela ECM mas não era absolutamente jazz; segundo, era uma música minimalista muito mais complexa e bem acabada do que a composta por um certo Philip Glass. Era um minimalista mesmo! Sua música tinha as mesmas repetições das de Glass, só que suas variações eram muito mais rápidas, inteligentes e interessantes, às vezes quase inaudíveis, mas sempre ocorrendo sem possibilidade de mesmice. Fiquei fascinado. Ouvi este disco de olhos fechados talvez dezenas de vezes, procurando entender e visualizar o que todos os 18 músicos realizavam, às vezes abrindo os olhos para ver suas fotos no bolachão da ECM. Vinte anos depois, comprei a gravação de um grupo húngaro que refazia a “Música” com extraordinário entusiasmo. É esta gravação que posto em P.Q.P. Bach. Ainda me seduzo pela incrível sucessão de harmonias mostradas por Reich. É uma audição lúdica e de complexidade nunca diminuída. É um clímax perpétuo, algo que nem os Viagras conseguem. Mas não posso fazer analogias com orgasmos, pois 61 minutos de orgasmo seria como esconder-se no Orgasmotron do filme “O Dorminhoco”, de Woody Allen.

Depois conheci Adams e outros, mas… (Grande parte do texto abaixo foi traduzido da Wikipedia espanhola por mim.)

Todos os músicos do passado, começando na Idade Média, estavam interessados na música popular. A música de Béla Bartók se fez inteiramente com fontes de música tradicional húngara. E Igor Stravinsky, ainda que gostasse de nos enganar, utilizou toda a sorte de fontes russas para seus primeros balés. A grande obra-prima Ópera dos Três Vinténs, de Kurt Weill, utiliza o estilo de cabaret da República de Weimar. Arnold Schoenberg e seus seguidores criaram um muro artificial, que nunca existiu antes. Minha geração atirou o muro abaixo e agora estamos novamente numa situação normal. Por exemplo, se Brian Eno ou David Bowie recorrem a mim e se músicos populares reutilizam minha música, como The Orb ou DJ Spooky, é uma coisa boa. Este é um procedimento histórico habitual, normal, natural.

Steve Reich

Em 1974, Reich começou a escrever Music for 18 Musicians, o número de integrantes de seu “ensemble”, uma peça que acabaria dois anos mais tarde. Seguramente é a obra de Reich que obteve maior êxito e, para muitos, é que se chamaria sua obra principal. Esta peça trouxe consigo muitas idéias novas, ainda que outras já houvessem sido escutadas em peças anteriores. A obra se organiza ao redor de um ciclo de onze acordes introduzidos no princípio, seguidos por pequenas variações em cada acorde, e por um retorno ao ciclo original. É complicado mesmo e sei lá como alguém consegue interpretar tal música ao vivo, como fazem esses húngaros malucos. As seções chamam-se conveniente, «Pulsos», «Seção I-XI» e novamente, «Pulsos». Esta foi a primeira tentativa de Reich de escrever uma obra para um conjunto maior de executantes, o que permitiaria um maior alcance dos efeitos psicoacústicos, fato que fascinou a Reich, que declarara na época que gostaria de «explorar mais esta idéia» («explore this idea further»). Reich comentou que este trabalho continha mais movimento harmônico em seus primeiros cinco minutos do que qualquer outro trabalho que escrevera antes. A Deutsche Grammophon gravou a peça, mas não estava nada segura de lançá-la depois do relativo fracasso de vendas de Drumming. Foi proposto a Reich um lançamento pela ECM. Ele logo rechaçou a idéia dizendo que sua obra não era jazz. Porém Bob Hurwitz — então na ECM (logo depois foi para a Nonesuch) —, o convenceu. Venderam mais de 100.000 copias nos dois anos seguintes, promovendo a obra em emissoras de rádio de rock progressivo e jazz experimental. Para Reich, foi uma sorte haver concordado, pois desde aquele momento passou a gozar de um amplo prestígio e respeito no cenário musical internacional.

Imperdível esta gravação ao vivo feita por este extraordinário – e concentradíssimo! – grupo húngaro. Procurem ouvir sem interrupção e com atenção. Vale a pena.

Steve REICH – MUSIC for 18 MUSICIANS – Amadinda Percussion Group

Os Músicos:

1 Ida Szabó – ének / voices
2 Ágnes Dobszay – ének / voices
3 Zsuzsanna Lukin – ének / voices
4 Katalin Károlyi – ének / voices
5 László Melis (Group 180) – hegedu / violin
6 Ákos Pásztor (Group 180) – gordonka / cello
7 Gellért Tihanyi (Group 180) – klarinét, basszusklarinét / clarinet, bass clarinet
8 János Maczák – klarinét, basszusklarinét / clarinet, bass clarinet
9 Béla Faragó (Group 180) – zongora / pianos
10 Zoltán Rácz – zongora / pianos
11 György Oravecz – zongora, maracas / piano, maraca
12 Zsolt Sárkány – marimba
13 Zoltán Váczi – marimba
14 Károly Bojtos – xilofon, zongora / xylophone, piano
15 Benedek Tóth – xilofon / xylophone
16 Tibor Nemes – marimba, zongora / piano, marimba
17 Gergely Bíró – marimba, maracas
18 Aurél Holló – vibrafon, zongora / vibraphone, piano

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PQP

34 comments / Add your comment below

  1. Deixa eu ver se entendi bem: o som é de uma interpretação real, sem manipulação sonora posterior?! Como é possivel?

  2. Oh, perdão, não se murchem. Eu só acho um pouquinho poluído – o que é normal, vocês cresceram, tem anunciantes, avante, avante. 🙂

    Vocês continuam sendo meu blog preferido de música, e o de muita gente. E Steve Reich, gente, como eu gosto. Mora no meu coração. 🙂

    Vale!

  3. Para uma análise mais acurada da obra de Philip Glass sugiro a audição de “Einstein on the Beach” (ver. 1993) e “Music in Twelve Parts”. Peças fundamentais do minimalismo, verdadeiras obras primas da música de vanguarda do século XX.

  4. Gente,

    Sei que é um tanto tarde (na velocidade internáutica e na rapidez das sucessões de post), mas quero dizer que conheci Steve Reich através de vocês e que estou apaixonado por ele e por sua Música para 18 Músicos. A-pai-xo-na-do. Se ele quiser, caso com ele… Obrigado, PQP Bach!
    O criado de sempre

  5. Não percebi por que há duas partes aqui. Ou muito me engano ou são exactamente iguais, ou seja o post tem duas vezes o mesmo CD. O álbum da ECM só tem um CD, certo? E Music for 18 Musicians dura 61′ 09′, nesta versão, certo? Há qualquer coisa estranho aqui.

    Já conhecia estes Amadinda, tenho um CD deles com música do Reich: Music for Mallets, Voices and Organ, Music for Pieces of Wood e o belíssimo Sextet, um dos pontos altos da música de Reich quanto a mim, e esta versão parece-me muito próxima da do próprio Reich.

    Quanto à sonoridade que Reich consegue em peças como esta ou o Sextet, é mesmo incrível como é feito só com instrumentos acústicos (o Sextet tem também dois teclados electrónicos, mas isso não altera muito as coisas), sem manipulação nenhuma do som. Só vendo ao vivo é que se percebe que é mais simples do que parece.

  6. Muito simples, Pedro.

    O Rapidshare não aceita arquivos maiores do que 100 MBytes. Então, faço com que o WinRar divida o mesmo em duas partes, a primeira com exatos 100 MB e a segunda com o que sobra.

    No momento de fazer a descompactação, os arquivios devem estar no mesmo diretório. Então, o WinRar faz tudo direitinho.

    Abraço.

  7. tive o prazer de ver a execução da concerto dos trens aqui em sp, no extinto auditório bankboston, no concertos que o vendido patrocinava mensalmente com grupos estrangeiros; só não me lembro se os músicos eram russos ou franceses ou americanos; a peça ao vivo é melhor ainda! cordas sobre gravações; melhor que isso, ou tão bom quanto, El Sombrero, da cia francesa Philipe Decouflé, com trilha sonora do Brian Eno, gravada e ao vivo, e dança sobre projeções de cenas pré-gravadas, mixadas com tomadas de câmeras ao vivo, projetadas sobre os próprios bailarinos, numa duplicação de movimentos….. MUITO LOUCO! Reich na dança… El Sombrero, ainda neste domingo, 3, no Teatro Alfa, para quem está em SP.

  8. E palmas para a OSESP, que neste sábado sob Kurt Mazur, executou magistralmente Schumann – Concerto para Piano e Orquestra em Lá Menor, op. 54, com o Jean-Louis Steuerman, e, segundamente, Mahler – Sinfonia nº 1 em Ré Maior – Titã…. Aplausos de varios minutos na Sala São Paulo.
    Amigos, bom estar em cidade grande com tantas opções… Quem sabe, neste domingo, vou de violeiros no Auditório Ibirapuera para encerrar a semana com Almir Sater, Ivan Vilela, Paulo Freire, Passoca….

  9. Impressionante PQP BACH gostar de uma porcaria dessa. Imagino a cara de seu pai agora, sabendo de uma coisa dessas. Não conheço outra coisa de Reich, mas por esta se percebe que é um sujeito ambicioso que pensa que é um gênio. De arte mesmo ela não tem nada, é só mais uma das coisas ridículas que certos músicos do século XX tem feito por aí. Incrível muita gente se impressionar com uma bobagem dessa. Esse blog é excelente, mas este post não está à sua altura.

    1. Esse PQP BACH… Sempre de bom humor. Mas é sério, rapaz. Essa composição é ruinzinha mesmo. Mas a culpa não é sua, PQP. E eu também não tenho culpa da profissão que ele escolheu.

  10. Em seu premiado livro “The rest is noise” sobre a musica clássica do século XX ,Alex Ross, crítico de música da revista New Yorker aponta em seus apêndices, 05 gravações que ele considera altamente recomendáveis (sec.XX).

    1- Schoenberg,Berg and Webern-Pieces for Orquestra,Berlin Philharmonic (DG)
    2- Stravinsky,Rite of Spring/Bartók,Miraculous Mandarim,Esa-Pekka Salonen Los Angeles Philharmonic(DG)
    3- Britten,Peter Grimes, Royal Opera House (Philips)
    4- Messiaen,Quartet for the end of time,Tashi (RCA)
    5- Reich,Music for 18 musicians, Steve Reich and musicians (ECM).

    Verificando na página do Steve Reich há quatro gravações de Music for 18 musicians,a que está no post acima “revalidado” é do grupo Amadinda Percussion Group “Live in Budapest”.

    PQP,Parabéns… importante e oportuno post.

  11. (Depois de näo ler aquilo que vc também näo leu)
    Ouvinte é um bicho muito esquisito mesmo… Principalmente essa sub-espécie que ouve com o umbigo…
    Adorei o Reich (Já gostava do outro…)

  12. Alex Ross é um fanático por esta música de Reich. Observe que ele a coloca ao lado de cinco notáveis gravações. Inteligentemente, não a põe em primeiro lugar, pois sabe que isso seria absurdo dos absurdos, e seria tratado como maluco e ninguém compraria seu livro. A estratégia do quinto lugar é para que você pense: caramba, que música é essa? Supera os quartetos de Bartok, supera a legendária gravação de Fritz Reiner para a Música para Cordas, Percussão e Celesta do mesmo Bartok, supera a estupenda gravação de Vlado Perlemuter do Concerto para a Mão Esquerda de Ravel, supera qualquer gravação da Canção da Terra de Gustav Mahler, supera os Concertos para Piano de Prokofiev e Bartok com Argerich, supera qualquer obra que Shostakovich tenha feito. Enfim, supera quase tudo que você possa imaginar.
    Disse e volto a repetir: “Music for 18 musicians” é uma tremenda bobagem musical.

  13. Alex Ross à parte, por essa “lógica” do Ivan, dos anos 70 pra frente a música erudita teve apenas bobagens musicais. Os compositores que estão vivos devem ser todos bobos musicais, e nossa época atual é uma grande tolice que não tem qualquer possibilidade de criar um legado musical. Muito interessante.

  14. Óbvio que sim, SoyGardel: os caras que desprezam a música mais moderna estão todos corretos, porque “TUDO ERA MELHOR DO JEITO QUE COSTUMAVA SER ANTES” (roubado do webcomic Wondermark).

    Enfim, lendo essa “bobagem” de post, me senti compelido, obrigado, forçado a baixar essa “bobagem” de arquivo; principalmente lendo as “bobagens” que o “bobo” Reich escreveu envolvendo “bobos” como Eno, Bowie e the Orb (não conheço o DJ Spooky). Agradecimentos “bobos”!

  15. Igualzinho a música da Shakira da copa, da até pra cantar “wacka wacka ê – ê…”

    Só q demora uns 50 minutos pra acabar 🙁

  16. Parabéns pelo blog!
    Uma pequena confusão… A capa publicada aqui do Music for 18 Musicians não corresponde à gravação disponível, pelo menos é isso o que se depreende pela leitura da ficha ténica, com renomados músicos húngaros. A capa em questão é do LP da primeira gravação da obra, com o próprio Reich e seus músicos de confiança, virtuoses americanos muito próximos ao compositor: Reich & Musicians — os únicos que topavam tocar sua música nos idos 70′.

  17. P.Q.P. Bach: você tem para publicar a “Variations for Winds, Strings and Keyboards” (a gravação dos anos 80, regência do Edo de Waart, tem uma outra, mais recente, que não é legal)? Parece que o próprio Steve Reich renega um pouco essa obra. E, talvez por isso, é muito difícil achar gravações dela.
    Abraço!
    Eduardo Haak

  18. Puxa, parece que o arquivo nao existe mais, que grande pena, meu Deus!!! Nao tem como postar de novo? Ou achar? Ou sei la… alguma coisa que de pra baixar esse disco que deve ser fantastico?… Obrigada!

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