Sei quase nada sobre Henry Franklin. Que fez seu caminho no jazz em Los Angeles, que aprendeu muito com Freddie Hubbard e Archie Sheep, que possui extensa discografia — tanto como líder quanto integrante — e que ainda hoje, aos 71 anos, grava e se apresenta regularmente, na Califórnia. E está bem assim; se o “Skipper” manteve consigo certa aura underground, porque não manter a proposta? Principalmente porque meu primeiro contato com o disco que trouxe hoje, The Skipper, se deu por impulso, num sebo. Já compraram disco pela capa? Pois foi o caso. Um tanto de esoterismo, a mancha toda quase em negativo, indicando: jazz tarja preta. O selinho da Black Jazz chancelava. Pensei em perguntar se era um álbum de fusion (o disco é de 1972), mas não quis chamar a atenção, já que o preço era ridículo e o vendedor podia se dar conta. Cheguei em casa pra descobrir uma obra — não de fusion, que eu queria evitar (fusion é um assunto muito delicado), mas de hard bop. E primeira linha. Mas PÕE primeira linha nisso.
Franklin, baixista, faz um caminho mais Paul Chambers, menos Mingus. É mais contido, mas não menos audível nas gravações; fácil de perceber um compasso certeiro com Henderson, no piano elétrico. (Já falei o quanto eu gosto da sonoridade do piano elétrico? Os timbres trazem uma claridade que lembra o exato ponto entre o piano e um vibrafone, e as notas ressaltam em meio dos temas de uma forma inconfundível, que pra mim se traduzem como um instrumento que toca nos sonhos. Sempre me encanto.) Baixo e piano complementam-se e conduzem perfeitamente os temas, deixando à bateria e aos sopros uma liberdade que toma um ar meio europeu, lembrando Evan Parker. O disco alterna temas longos, mais velozes e experimentais, à momentos de maior swing; uma pitada, não mais que isso, de soul aqui e ali, e até um blues. O repertório é interessante e variado, porém os temas mais brilhantes são os mais violentos, mesmo — em especial o de abertura. (“Beauty And The Electric Tub” poderia ser out-take de Bitches Brew, até.)
E já que estamos tratando de pérolas escondidas cujas quais o autor do post sabe pouco (além do que ouve), cabe como uma luva trazer também Uhuru na Umoja, swahili para “liberdade e fraternidade”, magnum opus do saxofonista Frank Wright. Aos ouvidos, logo diz: “lembra o Coltrane free jazz, mas antes de ficar completamente fora do controle (hm, Ascension)”. Na resenha, também lembra Coltrane: as liner notes do álbum trazem a inscrição “Fui colocado neste planeta pelo Criador, para proclamar a mensagem do Espírito Universal, levá-la ao povo”. Não à toa, Wright é chamado de “Reverendo”, e sola como se estivesse fazendo um sermão no delta do Mississipi — que foi onde nasceu, inclusive. Gravado em Paris (Frank deixou os EUA em 1969 e viveu o resto da vida na Europa) e lançado pela Verve em 1970, Uhuru na Umoja não quer ser solene como os discos de Coltrane; no entanto, consegue trazer boa dose de misticismo no jogo de sopros que Wright faz com Noah Howard, outro devoto do avant-garde jazz (e que assina todas as composições bases do disco). Soma-se a isso o fato de que — paradoxalmente ao primeiro disco deste post — o quarteto não tem baixo. E por “não ter baixo” eu também quero dizer que nem piano, nem bateria vão tentar emular essa função; a cozinha está mais improvisada que os saxofones, e são eles que, curiosamente, vão dar a progressão na maior parte do tempo. (“Grooving”, apesar de arrebatadora, não tem groove absolutamente nenhum (o que deixa tudo muito divertido). Junto com “Being”, bastante percussiva, são os pontos altos da bolacha.) Encorpado, é free jazz não recomendado para iniciantes (ou seja, daqueles que PQP adora — e inclusive adora usar pra provocar os incautos). Mas quem tem um pé no estilo vai se esbaldar. Aliás, prestem atenção, se puderem em meio à mixagem pré-setentista (e à fumaceira que os sopros estão fazendo), na elegância que Art Taylor mantém na bateria. Sem perder-se do intuito free jazz, não sai da linha em nenhuma baquetada.

Henry Franklin – The Skipper /1972 [V2]
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Henry Franklin (Fender and upright bass), William Henderson (electric piano), Mike Carvin (drums), Oscar Brashear (trumpet, flugelhorn), Charles Owens (tenor sax, alto sax), Kenny Climax (guitar, electric tub), Fred Lido, Tip Jones (percussion)
01 Outbreak (Franklin) 10’08
02 Plastic Creek Stomp (Franklin) 3’27
03 Theme for Jojo (Hall) 7’46
04 Beauty and the Electric Tub (Franklin) 12’40
05 Little Miss Laurie (Franklin) 7’42
06 The Skipper (Henderson) 5’21

Frank Wright Quartet – Uhuru na Umoja /1970 [192]
Frank Wright (tenor sax), Noah Howard (alto sax), Bobby Few (piano), Art Taylor (drums)
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01 Oriental Mood 8’53
02 Aurora Borealis 7’41
03 Grooving 6’50
04 Being 6’26
05 Pluto 3’51
Boa audição!
Blue Dog





O cerne do Mama!milk é a acordeonista Yuko Ikoma e o contrabaixista Kosuke Shimizu, ambos baseados em Tóquio, e com músicos convidados (piano, sopros, bateria — até um theremin) a orbitar seus shows e discografia. Mais do que compor e interpretar temas que invariavelmente nos atingem como tangueros, a música do duo parece um estudo sobre as possibilidades do acordeão no cool jazz. Se eu fosse resenhista de alguma revista descoladinha, eu os chamaria de post-tango sem hesitar; frequentemente as músicas estendem-se sem pressa, com as notas colocadas suavemente, e uma produção que enfatiza climas, antes de execuções. Somos remetidos a passeios em ruas antigas, a jardins de grama alta, a sonhos primaveris, a beijos de cinema noir. Sem exigir muito em troca — os andamentos não são simples, mas a técnica passa despercebida — , a música do Mama!milk é uma experiência altamente gratificante.






Eu adoro os compositores românticos… Tenho uma admiração especial pela música de Schumann, como também pela de Brahms… Acho Schumann extremamente apaixonante. O mais interessante aqui neste cd é perceber não só os sentimentos que se encontram na obra, mas o diálogo construído entre o cello e o piano. A música de Schumann não é parecida com o romântico bobo que chora pelos cantos da parede, suspirando porque não tem sua amada ao seu lado. É como um diálogo apaixonado coerente (se é que isso é possível), onde os personagens (o cello e o piano) conversam a respeito do que funcionou ou não na relação de amor (ou ódio). E se funcionou ou não, por que? Qual o motivo? Não se deixem enganar por Schumann. Ele é um romântico esperto que constrói diálogos inteligentes e muito bem delineados. Acho um erro tremendo analisar a obra apenas pela biografia do autor. Todos ficam dizendo que Schumann era corno, etc, etc. Pela análise da biografia, Schumann era um imbecil, que levava a maior gaia e nem estava aí pra isso. Pela análise musical, Schumann não apenas sabia que sua mulher tinha um caso, como ele mesmo incentivava esse caso e era um voyeur. Portanto, prefiro deixar a biografia de lado e focar na música! Steven Isserlis não é um violoncelista normal (pela aparência dele você já pode perceber isso). Ele é DEMAIS! MUITO BOM! EXCELENTE! E para mim (lá vem as pedradas) um dos principais candidatos a assumir o posto do GRANDE e MAGNÍFICO Rostropovich. O Isserlis manda bem em tudo. Música barroca, romântica, moderna. Sua técnica, sua expressão musical, sua interpretação são perfeitas. Ah, tem mais uma coisa: em qualquer música que vocês ouvirem interpretada pelo Steven Isserlis, vocês irão perceber não apenas os traços do autor, mas também do intérprete. Ele faz questão de deixar sua assinatura. Quando isso é feito na medida certa, não significa orgulho por parte do artista, e sim ousadia. Tem que saber fazer. E ser muito bom naquilo que faz. E se garantir mesmo. É isso aí mô véi! Sacou a parada?! Baixa!




