Sobre o Concerto para Violino de Beethoven, a melhor definição que encontrei foi a de Otto Maria Carpeaux: “É a única obra do gênero que Beethoven escreveu, mas ninguém duvida: é o maior Concerto para violino que existe, um dos pontos mais altos da eloquência beethoviana”. Apesar de não se poder tomar esta medida como absoluta, conheço muito pouca gente que discorda, ou que pelo menos não o coloque entre os 3 melhores do planeta.
Ao contrário de muita obras beethovianas, este concerto foi escrito com certa rapidez, e, prodigiosamente, no mesmo ano (1806) em que obras-primas como a Quarta Sinfonia e os Quartetos Rasumovsky. Nos cadernos de esboços onde se encontra a maior parte da gênese deste concerto ainda se encontram anotações para o que seria a Quinta Sinfonia e a Sonata para Violoncello op.69. Sem dúvida, um período de sensibilidade ímpar, em que erupções de inspiração jorraram à terra, através do artista, na forma do néctar dos arquétipos sonoros mais sublimes.
Existem várias lendas sobre sua estréia, feita a 23 de dezembro de 1806 pelo violinista cômico Franz Clement, que, ao que parece, fez pouco caso do Concerto (Há uma versão que diz que ele interrompeu o concerto para tocar uma peça frívola de sua própria autoria, e outra que conta que ele o estreou sem nenhum ensaio), tanto que o Concerto demorou para ser aceito pelo grande público. Apenas em 1844 esta obra-prima começou a ser reconhecida, quando foi tocada por Joseph Joachim, sob a regência de Schumann, num contexto romântico, que se encaixa muito mais no espírito da obra.
Assim, seguem algumas opções para a apreciação desta magnífica obra:
1.Jascha Heifetz, Charles Munch: Boston Symphony Orchestra RCA 1955

Esta é uma das gravações mais cultuadas deste concerto, um “clássico” da discografia mundial, e também uma das experiências pioneiras na gravação estereofônica. Sem dúvida, para um registro de 1955, a sonoridade espanta, mas, claro, a vedete é Heifetz, uma lenda do violino talvez só comparável a Kreisler. Sua sonoridade é maciça, mas ao mesmo tempo suave e decidida, com articulações acima de qualquer comentário, e um fraseado de precisão rítmica incomparável. Mas seriam estas habilidades inegáveis suficientes para garantir a melhor das performances deste concerto? Bem, há controvérsias. Eu não gosto, por exemplo, dos tempos dos andamentos, muito rápidos e pouco reflexivos, para os requisitos espirituais desta obra. Munch, um maestro que tenho no mais elevado patamar de competência estética, é um mestre do romantismo, mas tenho dúvidas se ele conseguiu aqui traduzir todas as nuances de um compositor apaixonado, que parece ter sido o caso de Beethoven na época desta composição. É uma leitura que evoca muito pouco dos ecos românticos que Beethoven prenuncia, privilegiando o classicismo tardio. E Heifetz, sendo Heifetz, nunca iria dar o braço a torcer e tocar a Cadenza de seu arquirival Kreisler, e escolheu as cadências de Joachim e de Auer com pitadas de sua própria autoria, claro. De qualquer forma, é uma interpretação de referência que merece ser visitada. Vem de brinde o Concerto de Mendelssohn, que eu considero uma interpretação extraordinária e até melhor que a de Beethoven.
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2.Nigel Kennedy, Klaus Tennstedt: Symphonie-Orchester des NDR, EMI 1992
O único violinista não-judeu desta lista, é um inglês rebelde que flertava com a música pop e que se recusou a ser taxado de violinista clássico. Mas isso só aconteceu depois de uma gravação afortunada das Quatro Estações alcançar 2 milhões de cópias vendidas, a maior da história para esta obra. Famoso desde então, gravou os concertos de Brahms e de Beethoven (este), que considerou o auge de sua carreira clássica, e resolveu cortar o cabelo moicano e tocar jazz. E é exatamente essa vida atribulada e heterodoxa que acaba marcando esteticamente esta gravação: é a versão rebelde deste concerto (apesar de existir uma com Gidon Kremer tocando a cadência de Schnittke que, dizem, é pior), cheia de altos e baixos, de ritmos irregulares e variações de dinâmicas exageradas. Não deixa de ser uma versão interessante, pois é um Beethoven oposto do de Heifetz, sem a polidez e a elegância, mas com brilho e entusiasmo. Tennstedt, um maestro extraordinário, comprou muito bem o desafio, e ele mesmo tem uma visão bastante ousada dos tempos beethovianos. Apesar de ser uma gravação (ao vivo) que a princípio assusta (a cadência de Kennedy no último movimento é muito estranha), ela deixa o espaço necessário para a reflexão, e o resultado, espantosamente, acaba sendo equilibrado. Acompanha dois fragmentos de Bach no Bis. Versão para quem gosta de aventuras.
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3.Pinchas Zukerman, Daniel Barenboim: Chicago Symphony Orchestra DG 1977

Zukerman é para mim um grande mistério. É um artista mediano, com uma sonoridade relativa e uma técnica nem sempre apurada. Por que razão ele é tão festejado, eis o mistério. Há muitos outros violinistas, melhores que ele, que não tem a mesma visibilidade. Confesso que gosto dele quando resolve tocar viola, mas ele preferiu a vida mundana e se rendeu à fama que o violino dá.
Zukerman gravou, poucos anos antes, as Sonatas para Violino e Viola de Brahms com Barenboim ao piano, e esta incursão se mostrou extremamente proveitosa, pois ambos estavam absolutamente à vontade, sem a pressão habitual dos produtores, e a música fluiu como néctar. Mas neste concerto, essa mágica não acontece. É bastante notório que ele está tímido e percebe-se o limite de sua técnica nos fraseados embolados, principalmente no final do Rondó. É, portanto, uma versão bem-comportada, mas que falta o brilho do violino em sua plenitude, e que tem ainda o freio de Barenboim para ajudar. Tem o mérito de ser uma versão honesta e sincera, que expõe os limites de Zukerman sem tentar mascarar nada. Vem de bônus as duas Romances para Violino, que Zukerman já consegue resultados bem mais convincentes, o que também ajuda a apreciar a gravação.
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4.Isaac Stern, Leonard Bernstein: New York Philharmonic SONY 1959

Gosto muito desta versão, que envolve Bernstein e Stern em uma de suas suas fases criativas mais notáveis. Stern já era consagrado, e Bernstein, no auge de seus 34 anos, fazia um excelente trabalho em Nova York, levando música clássica ao público leigo com seus concertos comentados. Nesta fase, um Bernstein cheio de energia, conduz o Concerto com uma segurança incrível, contagiando até mesmo o experiente Stern com seu entusiasmo. Stern, um verdadeiro lorde, deixa espaço para Bernstein sem se anular, e esta gravação se configura como uma das mais harmônicas entre solista e regente que conheço. Não é uma leitura propriamente romântica, mas é brilhante e entusiasmada, e também não deixa de emocionar, pela notória comunhão entre os dois artistas que se reconheceram e se deixam envolver pelas virtudes um do outro. O bônus desta edição são algumas aberturas, sempre uma boa pedida.
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5.Shlomo Mintz, Giuseppe Sinopoli: Philharmonia Orchestra DG 1986

Esta versão é para mim uma referência de qualidade, além de atestar como este concerto é versátil: nas mãos de Heifetz-Munch, ele é clássico, nas mãos de Mintz-Sinopoli, romântico. Mintz, acima de qualquer crítica, tem uma articulação primorosa, mas o que se destaca é a sustentação precisa das notas, pois Sinopoli imprime nesta gravação andamentos muito mais reflexivos, e os fraseados ficam mais longos. Esta, mais do que qualquer outra, é uma leitura contemplativa, que evoca o Beethoven romântico, cujos ecos que prenunciam a Pastoral são inegáveis. E a grande dificuldade de ir por este caminho, é justamente manter também um considerável domínio nas dinâmicas e nos ritmos, coisa que Sinopoli não desaponta e segura as rédeas com firmeza ímpar. Mintz acompanha em comunhão absoluta, tirando de cada tema uma emoção própria. Uma gravação que considero particularmente das mais bonitas deste concerto, e vem também com as Romances de brinde, sempre agradáveis. Excelente pedida.
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6.Itzhak Perlman, Carlo Maria Giulini: Philharmonia Orchestra EMI, 1981

Consta nos anais da revista Gramophone que esta é a gravação dos sonhos deste concerto. Não é sempre que concordo com a revista, mas neste caso, devo dar o braço a torcer. Considero esta a versão mais límpida e equilibrada deste concerto. Perlman, como sabemos, é absolutamente irrepreensível, sem ser mecanicamente perfeito como Heifetz, e deixa a emoção dos fraseados à flor da pele. Sua articulação precisa, especialmente no Rondó, chega a arrepiar. É uma gravação que transpira emoção sem exagerar no romantismo, equilibrando como poucas a transição beethoviana entre a fluidez clássica e o devaneio romântico. E, conduzindo o cortejo orquestral, o mestre Giulini, regente de minha mais alta admiração. Consegue ser profundo sem ser afetado, revelar a densidade emocional com sutis variações dinâmicas, traduzir o intraduzível das sensações mais ocultas para a contemplação desta obra de arte. Perlman vibra na mesma frequência, e sentimos violino e orquestra um único corpo. Esta gravação não tem bônus, porque ela já é um.
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Arquivo FLAC 182Mb
CHUCRUTEN





Na década de 50-60, em plena guerra fria, a competição entre URSS e EUA não ficava apenas no plano político e tecnológico. Nas artes, era muito comum uma troca de provocações indiretas (ou mesmo diretas), à superioridade estética de entidades ou artistas de cada um dos lados. E, por conta da dificuldade de acesso ao confronto direto (os artistas não podiam circular livremente na URSS), muitos desses confrontos acabavam ficando no plano imaginativo. Um deles, na música, era a propaganda que se fazia da superioridade sonora da Filarmônica de Leningrado e seu mítico maestro, Evgeny Mravinsky. Foram necessários anos de negociações até que o Kremlin permitisse uma tournée pela Europa. A primeira, em 1956, resultou numa gravação monaural primorosa das Sinfonias 4, 5 e 6 de Tchaikovsky, pela DG, em que toda a emoção do ineditismo (tanto de um lado quanto de outro) fica evidente. Quatro anos depois, Elsa Schiller, produtora da DG, conseguiu, não sem muito esforço, que o grupo voltasse para gravar em estéreo as mesmas obras, já que a primeira vez impressionou profundamente os europeus. E realmente, esta é uma leitura acima de qualquer crítica. Além da intimidade evidente dos músicos com estas obras, a precisão e sensibilidade de Mravinsky, um dos maestros mais elegantes que já subiram ao pódio, torna esta leitura indispensável em todos os sentidos. Soma-se a isso um aspecto levantado por Norman Lebrecht, que a torna ainda mais fascinante: sob pressão política, os registros evidenciam a tragédia do finale da Patética com profundeza ímpar, e a marcha bélica do terceiro movimento com uma esperança aterradora. É ver pra crer.


Brüggen faz a interpretação autêntica mais exagerada que conheço, quase datada a Carbono-14. As dinâmicas barrocas ficam extremamente evidenciadas e a instrumentação é quase uma viagem ao tempo de Bach. Os contornos melódicos se mesclam com os timbres de forma quase orgânica, e os ritmos parecem germinar espontaneamente sabe-se lá de onde. Se você quiser uma versão chocante, diferente de tudo o que já ouviu, fique com esta. Nunca imaginei um barroco tão barroco, e nem sei se era mesmo assim. Mas é uma leitura extraordinária, vívida e de sonoridade vigorosa, que se contrapõe diretamente às leituras clássicas de Richter e Münchinger. Coisa fina.
Entre o ultra-romantismo de Richter e o mega barroco de Brüggen, Pinnock se revela de um equilíbrio estupendo. Não é um barroco autêntico exagerado, mas também não é uma leitura clássica. É a versão que considero mais equilibrada, e a mais convincente do ponto de vista estilístico. Seu conjunto The English Concert é um dos melhores grupos instrumentais de época do mundo, tendo gravado uma enorme quantidade de títulos barrocos com um apuro técnico e estético altamente elaborados. A versão dele para os Concertos de Brandenburgo é uma das mais precisas e bem gravadas da história da música. As suítes não ficam para trás. Poderão estranhar, se ouvirem primeiro a versão de Richter ou Münchinger, os andamentos mais rápidos das introduções das Aberturas. Mas é aí que ele mostra a que veio, contrapondo o tom solene à animação irresistível das fugas no desenvolvimento, revelando um barroco talvez até mais autêntico que o de Brüggen. Para todos os efeitos, esta é a escolha do Chucruten.
Esta é uma gravação clássica, já está fora do catálogo e de vez em quando é relançada em algum compêndio, como a caixa da integral da sinfonias ou, neste caso, na coleção Abril de Grandes Compositores. Esta gravação, dos anos 70, faz parte do primeiro e único ciclo completo de Haitink, pois o segundo, na década de 90, não foi completado por conta do desmonte da indústria fonográfica, em especial o da música clássica, que foi o que sofreu a maior bancarrota (ver Norman Lebrecht, “Maestros, obras-primas e loucura”). Haitink na verdade gravou esta Sinfonia várias vezes de forma isolada, entre 1962 e 2007, mas esta de 72 desponta como uma de suas mais respeitáveis leituras.
Esta foi uma das gravações que marcaram a chegada de Kurt Masur na Filarmônica de Nova York em 1991. A gravação é do ano seguinte, mas evoca o mesmo sentimento de frescor recém-casado. A escolha de Masur, pelos músicos de Nova York, se deu para tentar fazer da Filarmônica novamente uma experiência mais “requintada”, uma vez que seus antecessores, Zubin Mehta e Leonard Bernstein eram dados a concertos populares, e Pierre Boulez, muito moderno. Naquela época o público patrono se incomodou com isso. Trazendo a sobriedade do alemão especialista em Beethoven, a ideia era fazer a Filarmônica deixar de parecer uma orquestra crossover, e escolheu a 7a. de Bruckner para estrear com toda a pompa. Hoje este fato soa um pouco anacrônico, mas fazia sentido naquele contexto. De qualquer modo, é um registro primoroso, de quem sabe o que está fazendo. A firmeza rítmica se impõe como um rolo compressor, e acaba deixando a obra mais fria que o desejado. Talvez Masur estivesse tentando causar boa impressão aos americanos, e se manteve cauteloso nas escolhas das dinâmicas. De qualquer forma é uma performance das mais eloquentes, e merece ser visitada, até porque também vem com as Canções do Viandante, na voz do barítono sueco Håkan Hagegård.
Esta é a pior de todas: Slatkin é um bom regente, tenta dar um ar sóbrio e distinto ao frenético finale, mas no fim, não consegue. Boa parte do problema é a orquestra, St.Louis tem metais com uma sonoridade bem fraca, e Slatkin ainda puxa o freio de mão. Aí não dá mesmo. As fanfarras não empolgam, e parecem contidas como se precisassem fazer pouco barulho para não atrapalhar os vizinhos. Mas a gravação tem méritos: a Telarc é um selo americano que foi o absoluto pioneiro na gravação digital, sendo deles o primeiro LP lançado comercialmente que teve sua matriz gravada digitalmente, em 1978. Este know-how fez de suas gravações verdadeiras referências para o desenvolvimento de uma metodologia de gravação na era digital, e a clareza de seus registros é até hoje apreciada. Mas a recomendação é clara: só para fãs.
Há um certo consenso sobre a superioridade desta gravação, que foi inclusive indicada, recentemente, pela revista Gramophone, como a melhor Titan de todos os tempos. Mas toda a classificação é relativa, e acredito ser impossível uma unanimidade. Claro, a gravação tem méritos indiscutíveis, mas acho um pouco de exagero tanto crédito. Kubelik é um maestro dos mais competentes, um dos grandes “monstros sagrados” (expressão que na minha época era corriqueira) da regência do século XX. De origem tcheca, tem todos os requisitos para entender esta música até o último fio de cabelo. E ele realmente a entende como poucos, fazendo principalmente do scherzo e da paródica marcha fúnebre momentos de rara e fina ironia. Mas venhamos e convenhamos, a sonoridade da tecnologia de gravação de 1968 fica um pouco a desejar, principalmente deixando evidente certa estridência dos trompetes, uma limitação que nem toda gravação desta época possui ou incomoda, mas esta possui – e incomoda. Outra: Kubelik é famoso por seu rubato, ele costuma diminuir o andamento com algum exagero antes dos clímax ou das repetições dos temas essenciais. Em alguns casos, funciona que é uma maravilha, em outros, considero o resultado cafona. Não posso dizer que achei ruim seu rallentando na retomada do tema no primeiro movimento, mas também não vou dizer que não estranhei. Confesso que não tenho opinião definitiva, mas no fim das contas não é minha gravação dos sonhos. Mas se vale a pena? puxa, se vale! E a gravação também tem o Lieder eines fahrenden gesellen, mas na voz de ninguém menos que Dietrich Fischer-Dieskau. Aí fica covardia não ouvir.
A grande zebra é esta gravação de Zubin Mehta, feita pela CBS em 1982. Uma verdadeira jóia. Outras leituras de Mehta, como a da DECCA com Israel, não chegam aos pés dessa. É uma leitura precisa, clara, entusiasmada e empolgante. Os trompetes de Nova York estão em ótima forma – melhor que na gravação de Masur – e executam as fanfarras com convicção ímpar, em que ouvem todas as notas com clareza e limpidez. O registro deixa aflorar o Mahler sonhador da juventude como poucos, coisa até rara em se tratando de Zubin Mehta, mas é preciso admitir: neste caso é quase impossível não se deixar contaminar pela empolgação da sonoridade desta gravação. Mehta, apesar de não ser um mahleriano convicto, é responsável por várias leituras memoráveis, e esta é uma delas. Não há meio termo, é uma leitura brilhante, ou se adora ou se ignora. Os puristas podem objetar que Mehta não faz o ritornello do primeiro movimento, mas devo dizer que também é um detalhe menor. Compensa todo o crime.


















