Eu ainda era menino quando me impressionei com o corpo da sonoridade que brota de um piano quando 20 dedos, e não apenas 10, manipulam as suas 88 teclas. Ou seja: piano a 4 mãos.
Acho que muitos até hoje pensam que se trata de uma forma meramente pedagógica de música, para ser tocada por professor e aluno (e atesto que é ótima nesse sentido!) ou para estimular que aluninhos estudem por podê-lo fazer brincando com amiguinhos, ou qualquer coisa assim.
Muitos também sabem que antes da invenção da gravação de som – quando a aparelhagem de som das casas pequeno ou médio burguesas consistia das filhas da família treinadas para extrair sons dos pianos – cada vez que um compositor consagrado lançava uma ópera ou sinfonia, essa era imediatamente publicada em redução para piano a quatro mãos: era o CD da época.
Mas não sejamos muito maldosos: também os próprios músicos estudavam as óperas e sinfonias uns dos outros através dessas reduções – pois afinal não era bem assim encontrar uma montagem da Nona de Beethoven ali na esquina quando se quisesse, não?
Mas à parte isso tudo, houve compositores que exploraram a formação como veículo de música séria original para ela – e entre eles parece que Schubert tem posição de destaque. Digo “parece” porque não sou nenhum especialista no assunto, mas ouvi essa afirmação quando tinha 12 ou 13 anos, em uma apresentação no interior do Paraná do pianista e compositor Henrique Morozowicz com sua mulher Ulrike Graff, pianista e violista. (Lembro que já postei aqui o piano do Henrique, no caso em duo com seu irmão Norton à flauta, numa ripagem de dois belos e raros LPs).
Por outro lado, acho certa graça de me ver postando Schubert, pois é um compositor com quem tenho duas dificuldades: uma, acho que às vezes ele perde a noção de quando parar de explorar o desenvolvimento de um material temático: se alonga demais como quem quer mostrar todas as possibilidades, e acaba cansando.
Outra, mais grave, é que seus temas tão encantadores muitas vezes parecem reconduzir natural e inevitavelmente ao seu próprio começo, e acabam deflagrando no meu cérebro algum processo no rumo do obsessivo-compulsivo: podem ficar se repetindo mentalmente dia e noite a ponto de me sentir não inspirado e sim obsedado, “encostado” pelo Franz.
É por essas razões que não o ouço muito, apesar de respeitá-lo como compositor e de achar sua música bonita.
Mas tem UMA obra… uma obra dele que está entre minhas mais queridas sei lá por quê. Dentro da literatura pianística acho que só o Prelúdio, Coral e Fuga de César Franck também mora tão dentro do meu coração (se me permitem expressão tão banal…): é a FANTASIA EM FÁ MENOR para piano a 4 mãos, que fecha o primeiro CD desta coleção de sete. Nunca me dediquei a conhecer nenhuma outra de Schubert como me dediquei a essa, inclusive estudando um tanto a parte de baixo ao piano, e por isso deixo algumas palavras sobre ela como depoimento pessoal. (Quanto ao resto do material, irei a partir de agora explorá-lo como tão ou mais novato que vocês).
Olhada como um todo, minha querida Fantasia faz pensar em uma sinfonia com suas quatro partes tradicionais – isso apesar de o 1º movimento (Allegro molto moderato) não ser em “forma de sonata” e sim uma melodia livre, como é o 1º movimento da Ao Luar de Beethoven, e de um lirismo de que creio só encontrar paralelo, no romantismo germânico, no 1º movimento do Concerto para Violino deste mesmo.
Segue-se um Largo de caráter dramático entremeado com uma seção cantante quase leviana (no que talvez se possa ver alguma analogia com a Marcha Fúnebre de Chopin) – o qual conduz a um Allegro vivace que é efetivamente um dinâmico e substancioso scherzo com “trio” no meio (ou seja: um típico 3º movimento de sinfonia).
E como 4º movimento temos a retomada do tema inicial, que leva mais uma vez a uma seção dramática como a abertura do Largo, só que desta vez mais dinâmica, até tempestuosa, e em forma de Fuga – e se alguém ousar chamar Schubert de “compositor menor” taco-lhe na cabeça esta Fuga!
Acontece porém que tão vigorosa Fuga não termina em orgasmo como as fugas do pai do PQP sóem terminar, mas (estamos em tempos românticos) se deixa interromper mais uma vez pela lírica melancolia do tema inicial. Só que faz isso isso com tanta beleza que – coitado do Franz – nós, egoístas, não podemos deixar de aplaudir…
Enfim: sobre o duo de executantes, a net me conta que Yaara Tal (apesar de o primeiro nome parecer brasílico ou tupi) é israelense, e que Andreas Groethuysen (apesar desse sobrenome tão obviamente flamengo ou holandês) é alemão. E a gravação teria sido feita num piano Fazioli aproveitando a acústica do castelo Grafenegg, na Áustria – chiquíssimo, não? (Ah, esses europeus…)
BOM PROVEITO!
Franz Schubert: obra integral para piano a quatro mãos em 7 volumes
Duo Tal-Groethuysen (Yaara Tal, Andreas Groethuysen)
Gravado em 1997
CD1
01 – Overture in F major, D675
02 – 8 Variations on a theme from the opera (Marie) in C major, D908
03 – Rondo in D major, D608
04-06 – Trois Marches Heroiques, D602
07 – Fantasie in F minor, D940
CD2
01 – Variations on an Original Theme in B-flat major, D603
02-04 – Divertissement a lhongroise in G minor, D818
05-10 – Six Polonaises, D824
CD3
01 – Allegro in A minor, D947 (Storms of Life)
02-05 – Four Polonaises, D599
06 – Eight variations on a French song in E minor, D624
07-09 – Divertissement sur des motifs originaux francais, D823
CD4
01-06 – Six Grandes Marches D819
07 – Rondo in A major D951
CD5
01-04 – Sonata in C major, D812 (Grand Duo)
05 – Grand Marche funebre in C minor, D859
06 – Grand Marche heroique in A minor, D885
CD6
01 – Eight Variations on an Original Theme in A-flat major, D813
0204 – Sonata in B-flat major, D617
05-07 – Trois Marches militaires, D733
08 – Deux Marches caracteristiques, D968 B – No.1 in C major
09 – Deux Marches caracteristiques, D968 B – No.2 in C major
CD7
01 – Fantasie in G major, D1
02 – Fantasie in G minor, D9
03 – Fantasie in C minor, D48
04 – Overture in G minor, D668
05 – Deutscher with Two Trios in G major, D618
06 – Deutscher with Two Landler in E major, D618
07 – Four Landler, D814
08 – March in G major (March for Children), D928
09 – Allegro moderato in C major, D968
10 – Andante in A minor, D968
11 – Fugue in E minor, D952
BAIXE AQUI – Download Here – CDs 1+2
BAIXE AQUI – Download Here – CDs 3+4+5+6+7
Ranulfus (Revalidado por PQP, que se meteu a colocar o vídeo também.)






Richard Wagner é uma das figuras mais célebres da história da música e também uma das mais polêmicas. Tanto do ponto de vista pessoal como do ponto de vista da música ou da política, suscitou mais discussões, estudos e interpretações do seu pensamento musical do que qualquer outro compositor. Pode-se dizer que, a partir do momento em que se começou a conhecer sua música, houve polêmicas acesas contra e a favor de sua obra. Depois de anos de sua morte, seus escritos voltaram a provocar opiniões diametralmente opostas. A razão disso foi sempre seu ideário, que tentava unir um pensamento, tipicamente libertário e anarquista a um elitismo tipicamente burguês, para não dizer – já que não o era – aristocrático. Se a estas posições se acrescentar seu rancor aos judeus, teremos um caráter de difícil classificação, que, devido essencialmente a essa postura racista, fez com que ele se convertesse – depois de sua morte – em uma espécie de bandeira estética do nazismo.
Franz Joseph Haydn nasceu em Rohrau, Baixa Áustria, a 31 de março de 1732 e morreu a 31 de maio de 1809. Haydn é o iniciador de uma nova fase na história da música. Não foi homem de grande cultura, mas de rara inteligência musical. Sua experiência em conjuntos ambulantes, nas ruas, onde era impossível o acompanhamento de baixo contínuo, levou‐o a compreender a auto‐suficiência do conjunto instrumental de cordas. Com a sua obra se desenvolve uma nova polifonia instrumental, sem o apoio harmônico do baixo contínuo.



Eu adoro os compositores românticos… Tenho uma admiração especial pela música de Schumann, como também pela de Brahms… Acho Schumann extremamente apaixonante. O mais interessante aqui neste cd é perceber não só os sentimentos que se encontram na obra, mas o diálogo construído entre o cello e o piano. A música de Schumann não é parecida com o romântico bobo que chora pelos cantos da parede, suspirando porque não tem sua amada ao seu lado. É como um diálogo apaixonado coerente (se é que isso é possível), onde os personagens (o cello e o piano) conversam a respeito do que funcionou ou não na relação de amor (ou ódio). E se funcionou ou não, por que? Qual o motivo? Não se deixem enganar por Schumann. Ele é um romântico esperto que constrói diálogos inteligentes e muito bem delineados. Acho um erro tremendo analisar a obra apenas pela biografia do autor. Todos ficam dizendo que Schumann era corno, etc, etc. Pela análise da biografia, Schumann era um imbecil, que levava a maior gaia e nem estava aí pra isso. Pela análise musical, Schumann não apenas sabia que sua mulher tinha um caso, como ele mesmo incentivava esse caso e era um voyeur. Portanto, prefiro deixar a biografia de lado e focar na música! Steven Isserlis não é um violoncelista normal (pela aparência dele você já pode perceber isso). Ele é DEMAIS! MUITO BOM! EXCELENTE! E para mim (lá vem as pedradas) um dos principais candidatos a assumir o posto do GRANDE e MAGNÍFICO Rostropovich. O Isserlis manda bem em tudo. Música barroca, romântica, moderna. Sua técnica, sua expressão musical, sua interpretação são perfeitas. Ah, tem mais uma coisa: em qualquer música que vocês ouvirem interpretada pelo Steven Isserlis, vocês irão perceber não apenas os traços do autor, mas também do intérprete. Ele faz questão de deixar sua assinatura. Quando isso é feito na medida certa, não significa orgulho por parte do artista, e sim ousadia. Tem que saber fazer. E ser muito bom naquilo que faz. E se garantir mesmo. É isso aí mô véi! Sacou a parada?! Baixa!