Coleção Grandes Compositores 17/33: Richard Wagner (1813-1883)

Como vocês devem imaginar, é um pouquinho complicado apresentar uma coletânea das grandiosas obras do gênio alemão, em apenas um álbum duplo, mas ainda assim, vale a pena conferir a seleção incluída nesse volume, desta que, conhecidamente, é uma coleção que sempre conta com grandes intérpretes da música universal.

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Richard Wagner é uma das figuras mais célebres da história da música e também uma das mais polêmicas. Tanto do ponto de vista pessoal como do ponto de vista da música ou da política, suscitou mais discussões, estudos e interpretações do seu pensamento musical do que qualquer outro compositor. Pode-se dizer que, a partir do momento em que se começou a conhecer sua música, houve polêmicas acesas contra e a favor de sua obra. Depois de anos de sua morte, seus escritos voltaram a provocar opiniões diametralmente opostas. A razão disso foi sempre seu ideário, que tentava unir um pensamento, tipicamente libertário e anarquista a um elitismo tipicamente burguês, para não dizer – já que não o era – aristocrático. Se a estas posições se acrescentar seu rancor aos judeus, teremos um caráter de difícil classificação, que, devido essencialmente a essa postura racista, fez com que ele se convertesse – depois de sua morte – em uma espécie de bandeira estética do nazismo.

Wagner ainda hoje provoca fortes discussões, sem que seus partidários ou difamadores, ambos igualmente fanáticos sejam capazes de revelar qual era sua verdadeira personalidade intelectual, ainda que haja acordo quanto aos seus principais traços de caráter: o egoísmo – e portanto uma grande vaidade – , a soberba – normal, tendo em vista o sucesso e a veneração que despertava em seu público – , a paixão desenfreada – tanto na devoção à música e à literatura quanto na dedicação ao amor – , o amor filial e o respeito à amizade – quando não iam contra seus interesses, sobretudo artísticos. Em suma, era um ser tão complicado que não se pode perdoar-lhe muitos dos seus pecados, por mais que se admire sua genialidade.

No entanto, é tal a magnitude da sua obra que a maioria está disposta a perdoar-lhe muitos dos seus defeitos, induzindo-nos a acreditar que sem muitos desses defeitos, por mais indesejáveis que nos pareçam, talvez Wagner não tivesse alcançado o auge artístico a que chegou e não nos tivesse deixado o tesouro que significa a sua obra. Temos de levar em conta que certos tipos de loucura tornam possíveis composições geniais.

Texto: Eduardo Rincón

Uma ótima audição!

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Coleção Grandes Compositores Vol. 17: Richard Wagner

DISCO A

The Flying Dutchman
01 Overture (11:36)

Lohengrin
02 Prelude to Act I (9:47)

Die Meistersinger von Nürnberg
03 Prelude to Act I (10:00)

Parsifal
04 Prelude to Act I (11:53)

Tristan und Isolde
05 Prelude to Act I (11:49)
06 Isolde’s Liebestod (8:15)

Vienna Philharmonic Orchestra, Karl Böhm

DISCO B

Der Ring des Nibelungen (Orchestral excerpts)
01 The Ride of the  Valkyries “Die Walküre” (3:03)
02 Entry of the Gods  into Valhalla “Das Rheinglod” (5:18)
03 Wotan’s Farewell and Magic Fire Music “Die Walküre” (15:03)
04 Forest Murmurs “Siegfried” (8:57)
05 Siegfried’s Funeral March “Götterdämmerung” (8:31)
06 Immolation of the Gods  “Götterdämmerung” (4:32)

Siegfried Idyll
07 (18:25)

Vienna Philharmonic Orchestra, Sir Georg Solti

BAIXE AQUI – DOIS DISCOS / DOWNLOAD HERE – TWO DISCS

Marcelo Stravinsky

10 comments / Add your comment below

  1. Sobre Wagner, três considerações:

    1) O seu rancor aos judeus não era, naturalmente, algo particular seu. Em quase toda a Europa, os judeus eram encarados de forma pejorativa: exploradores econômicos dos povos europeus. Odiá-los, por isso, não era difícil. O Nazismo, em seu caráter racista, nada mais foi que a explosão monstruosa desse ódio. Os alemães, em particular, antes do nazismo, odiavam os judeus, como hoje os americanos odeiam os árabes. Portanto, não chega a ser um “pecado” de Wagner ter rancor pelos judeus. Era algo difundido na época. Era normal. O que não significa que fosse correto. Era apenas, no caso de Wagner, justificável, compreensível.

    2) Quantos crimes foram cometidos em nome de Cristo? Cristo, independente da crença em seu caráter divino, teve alguma culpa neles? Não. A culpa está em quem o interpretou. Da mesma forma ocorre com a obra de Wagner com relação aos nazistas. A obra de Nietzsche segue o mesmo exemplo.

    3) O egoísmo, o orgulho e a soberba são pecados nas pessoas comuns, que não trazem nada de significativo para a humanidade com eles, pelo contrário. Quando tais defeitos acabam resultando em uma grande obra, como a da Wagner, percebemos que eles foram realmente necessários para concretizá-la. Estaria Wagner consciente disso ou ele desenvolveu essa personalidade através da “mão do destino”? Talvez sirva aqui o ditado: “Deus escreve certo por linhas tortas.” Independente de como se entende esse “Deus”, seja como O Criador, como Destino, ou como simples “Acaso”. Se Wagner fosse “mansinho”, humilde, quem aceitaria suas “loucuras” musicais? Ele teve que se impor, e, para isso, devia ser soberbo. É o mesmo caso de Beethoven. Este nos parece mais “simpático” que Wagner. Mas também era dotado de imenso orgulho e de uma cósmica certeza de superioridade com relação aos demais seres humanos. E se assim não fosse, de onde tiraria a força necessária para “impor” a sua obra revolucionária? Lembremos que compositores mais “humildes”, como Bach, tiveram que esperar um bom tempo para terem seu reconhecimento. Se não fosse a revolução romântica de Beethoven, Bach teria seu devido reconhecimento? Não se sabe…

    Finalmente, não, não sou um wagneriano, embora seja muito fã de sua obra. Mas sou mais fã de Brahms. Aí sim, sou um brahmsiano. Mas reconheço em Wagner uma genialidade que só poderia se manifestar através de seus “pecados”. Se Wagner não fosse um adúltero, teríamos Tristão e Isolda? Talvez tivéssemos, mas certamente essa ópera revolucionária não teria ido tão longe. O caráter “absurdo” da ópera, para a época, provém do caráter absurdo do comportamento amoroso de Wagner.

  2. Excelente disco para os que desejam se iniciar na obra de Wagner, mas que ainda não têm muita paciência pra ouvir uma ópera completa. Por sinal o FDP e o Carlinus estão postando aquí no blog o ciclo completo dos dramas musicais do compositor alemão.

    E sobre as polêmicas que envolvem a ligação entre o wagnerismo e o anti semitismo só posso dizer que se procurarmos ouvir apenas compositores de “ficha-limpa” e de reputação imaculada, vai sobrar pouca coisa. Todos os gênios são tambem essencialmente humanos e portadores de características humanas, que podem ir desde chulé até racismo. O que não diminui o valor da obra musical.

    Atribuem a Richard Wagner um caráter odioso, mas ele próprio é tratado com ódio. Ele é até hoje proibido de ser tocado em determinados países, para alegria dos “politicamente corretos”. Os autoritários proíbem as obras de Wagner como adorariam eliminar sua existência e extirpar sua memória…

  3. Muito bem lembrado, Ernesto…
    Carlinus e FDP têm feito um trabalho primoroso a respeito das obras de Wagner. Aqui no Blog tem o Ciclo do Anel completo.
    A respeito do cara, só posso dizer uma coisa… ele só era baixinho e feio, mas peidava podre pra caraglio! kkkkkkkkkkkkk

  4. À respeito do horror que nós, pobres ouvintes de música clássica, temos pelas contradições dos nossos gênios, – contradições políticas, tantas vezes, – posso dizer que nem ligo mais para isso. Os nazistas, por exemplo, foram mobilizados a um ódio extremo contra os judeus porque havia cerca de cento e trinta bancos dessa “nacionalidade” naquele país, instalados para fazer exatamente o mesmo que o hoje o FED está fazendo, numa aniquilação completa do mundo. Além disso, o nazismo era a moda da época. Vejam três artigos interessantes:

    http://www.ebah.com.br/content/ABAAAAIKsAA/fascinio-nazismo

    http://fimdostempos.net/mecanismo-mandrake.html

    http://www.alfredo-braga.pro.br/discussoes/fraudegananciaeusura.html

    Julio e Karajan

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