Chiquinha Gonzaga (1847-1935): tangos, choros, polkas, corta-jaca, maxixes… (H. Gomes, C. Sverner, P. Moura) – Semana do Dia Internacional da Mulher

Depois de uma curta vida de casada, Chiquinha se revoltou, fugiu, foi viver independente no seu canto, repudiada por todos, parentes e amigos, que não podiam se conformar com aquella ofensa à moral pública. (…) Foi professora de piano, constituiu um chôro para execução de dansas em casas de família, em que se fazia acompanhar do filhinho mais velho, tocador de cavaquinho, com dez anos de idade.
Francisca Gonzaga compôs 77 obras teatrais e umas duas mil peças avulsas. Quem quiser conhecer a evolução das nossas danças urbanas terá sempre que estudar muito atentamente as obras dela. (Mario de Andrade, em artigo de 1940)

Enquanto a mãe de Chiquinha era uma mulher negra que teria sido alforriada na pia batismal, o pai da compositora era um militar de família tradicional carioca e colocou a filha para ter aulas de piano com o maestro Lobo e apresentou-a a Francisco Manuel da Silva (1795-1865), autor do Hino Nacional e fundador do Conservatório do Rio de Janeiro, atual Escola de Música da UFRJ. A família de José Basileu Gonzaga, aliás, era parente distante de Ernesto Nazareth e de Francisco Manuel da Silva (cujo avô era “Silva Nazareth”) (mais sobre o parentesco aqui).

Mas aos 23 anos, ao separar-se do marido, Chiquinha foi considerada morta por seu pai: seu nome era impronunciável na casa dos Gonzaga e ela não pôde criar seus três filhos. O divórcio era um grande escândalo naquela época e, nas palavras de Chiquinha (citada na biografia de Dalva Lazaroni, p.68), “jamais diga que eu abandonei meu primeito marido; eu fui uma vítima que fugiu do seu torturador”.
Ela passava, então, a dedicar-se profissionalmente à música para sua manutenção econômica: dava aulas de piano, tocava à noite na Lapa e na praça Tiradentes, compôs obras teatrais e outras para os salões brasileiros, mas em alguns casos também impressas e vendidas na Europa. Ou seja, se não fosse a separação de seu marido – repito, um escândalo imenso à época – talvez Chiquinha Gonzaga não tivesse uma vida tão cheia de aventuras e inovações. Ela foi autora da primeira marchinha de Carnaval – Ó Abre alas, de 1899 – e atuou também no chamado “teatro de revista”, que passava “em revista” os acontecimentos políticos e sociais do ano, com humor, ironia e música. Chiquinha também atuou na campanha abolicionista nos anos 1880. Imaginem as reações na época a uma mulher que dava opiniões sobre política e regia orquestras em teatros…

É preciso deixar claro, porém, que Chiquinha Gonzaga, assim como seus contemporâneos Ernesto Nazareth (1863-1934) e Pixinguinha (1897-1973), tiveram uma educação musical formal, mas não tiveram a oportunidade de estudar profundamente orquestração: o instrumento que os dois primeiros conheciam bem era o piano. Se vocês virem alguma obra de Chiquinha ser tocada por orquestra, confiram bem se não se trata de um arranjo mais recente. Por outro lado, em 1932, com mais de 80 anos, Chiquinha publicou um grupo de composições para saxofone e para flauta – reunidas sob o título Alma Brasileira. Essas obras, na maioria já publicadas antes para piano solo, apareciam agora reunidas como “chôros para flauta” e “chôros para saxofone” como explica Edinha Diniz, aqui:

O conjunto compreende três volumes, chamados ‘séries’, contendo dez peças cada, num total de 30 músicas, sendo 20 para sax e dez para flauta. O mais curioso é a designação choro para essas músicas impressas, uma vez que elas foram antes  concebidas, e algumas até publicadas, para piano, como ‘polcas’, ‘habaneras’ e ‘tangos’. Por que somente na década de 1930 uma compositora que estreou em 1877, e que sempre fora ligada às rodas de choro, atuando inclusive como pianista do conjunto Choro Carioca, liderado pelo compositor e flautista Joaquim Antonio Callado, usaria pela primeira vez a designação choro em sua obra impressa? Por que não antes?
Sabemos que a palavra choro designou, na década de 1870, o conjunto musical Choro Carioca, liderado pelo citado flautista Callado e, por extensão, os conjuntos instrumentais responsáveis pelo abrasileiramento das técnicas de execução dos instrumentos europeus. Em sua formação original, o choro era um grupo musical constituído de uma flauta, um cavaquinho e dois violões, com predominância de um solista. […] Somente mais tarde, o original estilo interpretativo dos gêneros musicais importados tornou-se ele próprio um gênero.

Joaquim Callado (1848-1880) dedicou a Chiquinha sua composição “Querida por todos”, gravada no disco abaixo, de Hercules Gomes. Hercules é um pianista que mistura os clássicos e os populares, tomando certas liberdades interpretativas que provavelmente seriam aprovadas nas rodas de choro de Joaquim Callado, Chiquinha Gonzaga, pixinguinha e Villa-Lobos. Já o outro disco, gravado por Paulo Moura e Clara Sverner, traz gravações mais sóbrias, fiéis aos textos e que parecem querer mostrar o quanto toda essa música é não somente dançante e alegre mas também sofisticada.

No tempo da Chiquinha
1. Gaúcho (O Corta-jaca) (Chiquinha Gonzaga)
2. Água do Vintém (Chiquinha Gonzaga)
3. Cintilante (Chiquinha Gonzaga)
4. Querida por Todos (J. Callado)
5. Cananéa (Chiquinha Gonzaga)
6. Atraente (Chiquinha Gonzaga)
7. Machuca!… (Chiquinha Gonzaga, Patrocínio Filho)
8. Não Se Impressione (forrobodó de Massada) (Chiquinha Gonzaga, Carlos Bettencourt/Luiz Peixoto)
9. Santa (Chiquinha Gonzaga)
10. Argentina (Xi) (Chiquinha Gonzaga)
11. No Tempo da Chiquinha (Laércio de Freitas)
12. Walkyria (Chiquinha Gonzaga)
13. Biónne (adeus) (Chiquinha Gonzaga)
Hercules Gomes – piano
Convidados: Rodrigo Y Castro (flauta) e Vanessa Moreno (voz)
Recorded: Estúdio Arsis, São Paulo, Brasil, fev/2018

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE – No tempo da Chiquinha (2018)

Vou Vivendo
1 Vou Vivendo (Benedito Lacerda, Pixinguinha)
2 Lamento (Pixinguinha)
3 Ingênuo (Benedito Lacerda, Pixinguinha)
4 Atraente (Chiquinha Gonzaga)
5 Amapá (Chiquinha Gonzaga)
6 Io T’Amo (Chiquinha Gonzaga)
7 Monotonia (Radamés Gnattali)
8 Samba-Canção (Radamés Gnattali)
9 Devaneio (Radamés Gnattali)
10 Fantasia (Ronaldo Miranda)

Clara Sverner – piano
Paulo Moura – saxofone
Recorded: Escola Nacional de Música, Rio de Janeiro, Brasil, jan/1986

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE – Vou Vivendo (1986)

PS: Todas as fotos desta postagem mostram a rua Riachuelo, onde Chiquinha Gonzaga viveu boa parte de sua vida. Antes chamada rua de Matacavallos, ela vai dos Arcos da Lapa até perto do Campo de Santana e Igreja de Santana, onde Chiquinha se casou aos 15 anos de idade (igreja demolida para a construção da Central do Brasil e Av. Pres. Vargas). Na rua de Mata-Cavallos também moraram Dom Casmurro e Capitu, Villa-Lobos e Pixinguinha. Em 1865 a rua recebeu o nome de Riachuelo em homenagem a uma batalha naval na nojenta guerra em que brasileiros e aliados massacraram homens, mulheres e crianças paraguaias. As fotos são respectivamente de 1915, 1928, 1958 e 1965. Ao fundo, na penúltima foto, vê-se o alto prédio da Mesbla, próximo da Cinelândia, inaugurado em 1934, quando Chiquinha ainda era viva.

Fui, cheguei aos Arcos, entrei na rua de Matacavallos. A casa não era logo alli, mas muito além da dos Invalidos, perto da do Senado.
(Machado de Assis – Dom Casmurro – grafia original)

Pleyel

.: interlúdio :. Ira Kaspi – You And The Night And The Music – Semana do Dia Internacional da Mulher

.: interlúdio :. Ira Kaspi – You And The Night And The Music – Semana do Dia Internacional da Mulher

Ira Kaspi é uma cantora finlandesa nascida em 1964. Não há novidades em sua música, é o velho, bom e elegante disco de jazz de cantora + uma competente banda de jazz + cordas. Os solos são dela, do pianista e do saxofonista. Mas como são bons esses finlandeses! Talvez a única surpresa seja o fato de tratar-se de canções autorais, quase todas compostas pelo grupo, mas sempre dentro daquele estilo fora de uma época determinada — quero dizer, são atemporais desde os anos 50… You and the Night and the Music é o 7º álbum de Ira. Suas gravações anteriores incluem álbuns em duo e um outro CD com suas próprias canções de jazz influenciadas pelo pop. Este aqui apresenta o quinteto Ira`s Jazz Diva Band e a Lohja City Symphonic Orchestra. Gostei de tudo, mas me entusiasmei especialmente por duas canções mais agitadas: Call Me Irresponsible e The Best Is Yet to Be Coming.

Ira Kaspi – You And The Night And The Music

1 Don’t Go To Strangers
Lyrics By – Redd Evans
Music By – Arthur Kent, Dave Mason*
4:36

2 You And The Night And The Music
Lyrics By – Howard Dietz
Music By – Arthur Schwartz
6:15

3 How Do You Keep Up The Light
Lyrics By – Ira Kaspi
Music By – Ape Anttila
3:50

4 Someday My Prince Will Come
Lyrics By – Larry Morey
Music By – Frank Churchill
4:35

5 The Gentle Rain
Lyrics By – Matt Dubey
Music By – Luiz Bonfa*
4:24

6 Call Me Irresponsible
Lyrics By – Sammy Kahn*
Music By – Jimmy Van Heusen
5:06

7 The Good Life
Lyrics By – Jack Reardon
Music By – Alexander Distel*
3:08

8 That Old Devil Called Love
Lyrics By – Doris Fisher
Music By – Allan Roberts
5:07

9 In The Wee Small Hours Of The Morning
Lyrics By – Bob Hilliard
Music By – David Mann (3)
4:28

10 The Best Is Yet to Be Coming
Lyrics By – Ira Kaspi
Music By – Ape Anttila
3:30

Arranged By – Ape Anttila, Mikko Hassinen
Bass Guitar, Percussion – Ape Anttila
Conductor – Esa Heikkilä
Drums – Markku Ounaskari
Orchestra – Lohja City Orchestra*
Orchestrated By – Mikko Hassinen
Piano – Mikael Jakobsson
Recorded By [Vocals] – Ape Anttila
Tenor Saxophone – Jussi Kannaste
Vocals – Ira Kaspi

BAIXE AQUI — DOWNLOAD HERE

Kaspi ficou feliz ao saber de sua estreia no melhor e mais tradicional blog de música brasileiro.

PQP

Diversos Compositores – Antologia de Intérpretes Femininas – Semana do Dia Internacional da Mulher

Diversos Compositores – Antologia de Intérpretes Femininas – Semana do Dia Internacional da Mulher

Ji Su Jung, percussionista

Marin Alsop, regente

Maria João Pires, pianista

Gina Bachauer, pianista

 

Nesta postagem especial preparada para homenagear as mulheres nesta semana do Dia Universal da Mulher, escolhi algumas excelentes intérpretes que representam a enorme e inestimável contribuição delas para a música.

Ji Su Jung

Começamos nosso programa com o Concerto para Marimba, escrito pelo jovem compositor norte-americano Kevin Puts. A solista chama-se Ji Su Jung, que foi a primeira percussionista a ganhar a prestigiosa bolsa Avery Fisher Career Grant. Formada pelo Peabody Institute, da Johns Hopkins University, e pela Yale School of Music, Ji Su Jung é agora uma solista requisitada universalmente e professora do Curtis Institute of Music e do Peabody Institute.

Marin Alsop

Sobre o Concerto, o compositor explicou como surgiu a inspiração: A melodia da abertura do Concerto foi provavelmente inspirada quando ouvi o aquecimento de um pianista no placo do Teatro Eastman enquanto por lá passava a caminho da aula. A tonalidade de mi bemol maior sempre me foi muito próxima devido à sua riqueza e também por aparecer com frequência nas obras de Mozart, em particular em dois de seus concertos para piano, que de certa forma serviram como modelo para a minha peça.

Ji Su Jung é acompanhada pela Baltimore Symphony Orchestra, regida pela maestrina Marin Alsop, que foi uma das primeiras a interpretar as obras de Kevin Puts.

M-J Pires

Como eu gosto muito de ouvir o piano, na sequência teremos uma linda Sonata de Schubert interpretada pela maravilhosa pianista Maria João Pires.

Com uma carreira longa e de excelente qualidade, passou pelas gravadoras Denon e Erato e tem sido uma das estrelas do selo amarelo, Deutsche Grammophon. Esta sonata de Schubert é uma das mais belas e faz parte de um lançamento que reúne algumas obras de Schubert gravadas por Maria João Pires.

Gina Bachauer

Para a última etapa da nossa compilação escolhi uma artista que chamou a atenção exatamente por desempenhar um papel que estava quase exclusivamente dominado por homens, interpretando grandes concertos para piano, como o Concerto em si bemol maior, de Brahms, o Concerto de Grieg, Concerto em mi bemol maior de Liszt e o Concerto em si bemol maior, de Tchaikovsky. Gina Bachauer nasceu em Atenas, de pais estrangeiros, e iniciou sua carreira na Grécia. Estudou em Paris com Alfred Cortot e nos anos 1930 trabalhou na França e na Suíça com Rachmaninov em seus Concertos para Piano. Ela tornou-se uma expoente nestes concertos, especialmente no de No. 3. Suas gravações para o selo Mercury são bastante conhecidas. Aqui podemos ouvir suas interpretações de algumas peças solo de Debussy e atuando como solista de um concerto de Mozart. A orquestra da gravação foi fundada pelo seu regente, Alec Sherman que foi o segundo marido de Gina Bachauer.

Kevin Puts (Nascido em 1972)

Concerto para Marimba (1997, ver. 2021)

  1. Flowing
  2. Broad and deliberate
  3. With energy

Ji Su Jung, marimba

Baltimore Symphony Orchestra

Marin Alsop

Franz Schubert (1757 – 1828)

Sonata para piano em lá maior, D. 664

  1. Allegro moderato
  2. Andante
  3. Allegro

Maria João Pires, piano

Claude Debussy (1862 – 1918)

Pour le piano

  1. Prélude
  2. Sarabande
  3. Toccata

Prelúdios

  1. La cathédrale engloutie
  2. Bruyères
  3. Danseuses de Delphes

Gina Bachauer, piano

Wolfgang Amadeus Mozart (1756 – 1791)

Concerto para piano No. 17 em dó maior, K. 453

  1. Allegro
  2. Andante
  3. Allegretto

Gina Bachauer, piano

London Orchestra

Alec Sherman

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

MP3 | 320 KBPS | 268 MB

Maria-João Pires

Viva as mulheres!

Ji Su Jung

Guiomar Novaes: transcrições & miniaturas, de Bach e Gluck a Villa-Lobos (+ a Fantasia Triunfal de Gottschalk)

Nossa homenagem ao saudoso Ranulfus continuará, também, através da republicação de suas preciosas contribuições ao nosso blog – como esta, que veio à luz em 11/5/2010.

Nota: esta postagem, assim como todas as demais com obras de Heitor Villa-Lobos, não contém links para arquivos de áudio com obras do gênio brasileiro, pelos motivos expostos AQUI


À medida em que avança a aventura de redescoberta de Guiomar Novaes, iniciada aqui há duas semanas, começo a ter a impressão de que seu legado de gravações é um tanto desigual: algumas são realizações gigantescas, cuja importância se percebe com absoluta certeza de modo intuitivo, mas alcança tão longe que temos dificuldade de explicar em palavras (do que ouvi até agora, é o caso das suas realizações de Chopin, especialmente os Noturnos); já outras são, digamos, meramente grandes…

Temos aqui as 7 peças curtas retiradas do CD Beethoven-Klemperer postado há alguns dias, mais o disco só de peças brasileiras (com certo desconto para Gottschalk) lançado em 1974 pela Fermata – creio que o seu último.

As primeiras parecem ter se firmado em sua carreira como standards no tempo dos discos de 78 rotações, que só comportavam peças curtas. Hoje qualquer pianista “sério” franziria o nariz pra esse repertório: “transcrições de concerto” de um prelúdio para órgão de Bach e de trechos orquestrais de Gluck e Beethoven. Ao que parece, no começo do século XX o fato de serem coisas agradáveis de ouvir ainda era tido como justificativa bastante para tocá-las.

Mas o que mais me surpreendeu foi à abordagem às 3 peças originais de Brahms: nada da solenidade que se costuma associar a esse nome; sem-cerimônia pura! Como também nos movimentos rápidos do Concerto de Beethoven com Klemperer, tenho a impressão de ver uma “moleca” divertindo-se a valer, e me pergunto se não é verdade o que encontrei em uma ou duas fontes: que a menina Guiomar teria sido vizinha de Monteiro Lobato, e este teria criado a personagem Narizinho inspirado nela!

Também me chamou atenção que Guiomar declarasse que sua mãe, que só tocava em casa, teria sido melhor pianista que ela mesma, e que tenha escolhido por marido um engenheiro que também tocava piano e compunha pequenas peças: Otávio Pinto. Casaram-se em 1922, ano de sua participação na Semana de Arte Moderna, ela com 27, ele com 32. Guiomar nunca deixou de tocar peças do marido em recitais mundo afora – nada de excepcional, mas também não inferiores a tantos standards do repertório europeu – e ainda no disco lançado aos 79 anos encontramos as Cenas Infantis do marido, além de uma peça do cunhado Arnaldo (Pregão).

Dados sem importância? Não me parece. Parecem apontar para que a própria Guiomar visse as raízes últimas da sua arte não no mundo acadêmico, “conservatorial”, e sim numa tradição brasileira hoje extinta: a (como dizem os alemães) Hausmusik praticada nas casas senhoriais e pequeno-senhoriais, paralela à arte mais de rua dos chorões, mas não sem interações com esta. Aliás, podem me chamar de maluco, mas juro que tive a impressão de ouvir evocações de festa do interior brasileiro – até de sanfona! – tanto no Capricho de Saint-Saëns sobre “árias de balé” de Gluck quanto no Capricho de Brahms.

Será, então, que podemos entender Guiomar como uma espécie de apoteose (= elevação ao nível divino) da tradição das “sinhazinhas pianeiras”? Terá ela querido conscientemente levar ao mundo clássico um jeito brasileiro de abordar a música?

E terá sido ao mesmo tempo um “canto de cisne” dessa tradição, ou terá tido algum tipo de herdeiro? Não sei, mas se alguém me vem à cabeça na esteira dessa hipótese, certamente não é o fino Nelson Freire e sim o controverso João Carlos Martins!

Para terminar: a vida inteira Guiomar insistiu em terminar programas com a ‘famigerada’ Fantasia Triunfal de Gottschalk sobre o Hino Brasileiro, que, honestamente, não chega a ser grande música. Acontece que, segundo uma das biografias, logo ao chegar a Paris, com 15 anos, Guiomar teria sido chamada pela exilada Princesa Isabel – ela mesma pianista – e teria recebido dela o pedido de que mantivesse essa peça sempre no seu repertório. E, curioso, ainda ontem o Avicenna postava aqui duas peças de Gottschalk como músico da corte de D. Pedro II (veja AQUI).

Será que isso traz água ao moinho da hipótese de Guiomar como apoteose e canto-de-cisne de um determinado Brasil? Bom, vamos ouvir música, e depois vocês contam as suas impressões!

Pasta 1: faixas adicionais do CD “Guiomar-Beethoven-Klemperer”
04 J. S. Bach (arr. Silotti) – Prelúdio para Órgão em Sol m, BWV 535
05 C. W. Gluck (arr. Sgambati e Friedman) – Danças dos Espíritos Bem-Aventurados, de “Orfeo”
06 C. Saint-Saëns: Caprice sur des airs de ballet de “Alceste”, de Gluck
07 J. Brahms – Intermezzo op.117 nº 2
08 J. Brahms – Capriccio op.76 nº 2
09 J. Brahms – Valsa em La bemol, op.39 nº 15
10 L. van Beethoven (arr. Anton Rubinstein) – Marcha Turca das “Ruínas de Atenas”

. . . . BAIXE AQUI – download here 

Pasta 2: disco “Guiomar Novaes”, Fermata, 1974
a1 Francisco Mignone – Velho Tema (dos Estudos Transcedentais)
a2 Otávio Pinto – Cenas Infantis
a3 Marlos Nobre – Samba Matuto (do Ciclo Nordestino)
a4 Arnaldo Ribeiro Pinto – Pregão (de Imagens Perdidas)
a5 J. Souza Lima – Improvisação
a6 M. Camargo Guarnieri – Ponteio
b1 H. Villa-Lobos – Da Prole do Bebê: Branquinha, Moreninha
b2 H. Villa-Lobos – O Ginete do Pierrozinho (do Carnaval das Criancas)
b3 H. Villa-Lobos – Do Guia Prático: Manda Tiro, Tiro, Lá; Pirulito; Rosa Amarela; Garibaldi foi a Missa
b4 L. M. Gottschalk – Grande Fantasie Triomphale sur l’Hymne National Brésilien Op. 69

. . . . BAIXE AQUI – download here 

Ranulfus

[restaurado com reverência e saudade por seu amigo Vassily em 4/3/2023]

Nelson com Guiomar Novaes. Foto do acervo particular de Nelson Freire, publicada pelo sensacional Instituto Piano Brasileiro

Rachmaninov (1873 – 1943) • Scriabin (1872 – 1915) • Ligeti (1923 – 2006) • Prokofiev (1891 – 1953): Yuja Wang – Recital de Berlim (2018) • PQP-Originals ֍

Rachmaninov (1873 – 1943) • Scriabin (1872 – 1915) • Ligeti (1923 – 2006) • Prokofiev (1891 – 1953): Yuja Wang – Recital de Berlim (2018) •  PQP-Originals ֍

Rachmaninov • Scriabin

Ligeti • Prokofiev

Peças para Piano

Yuja Wang

 

 

Sergei Rachmaninov (1873 – 1943)

150 anos de nascimento

&

György Ligeti (1923 – 2006)

100 anos de nascimento

O pessoal do PQP Bach Pâtisserie Gourmet caprichou no bolo do Ligeti!

Mais uma postagem comemorativa, agora com dois homenageados! Para prestar essa homenagem trazemos a reedição de uma postagem feita pelo PQP Bach em 2020 – o Recital de Berlim de Yuja Wang (2018).

Yuja Wang é uma pianista sensacional e coloca aqui toda a sua arte a brilhar em um programa que demanda certa atenção do ouvinte, pois foge do óbvio.

Aqui está o texto da postagem original e o selo da série PQP-Originals:

 

Yuja Wang e Khatia Buniatishvili são livres para se vestirem como quiserem. É justo. Mas boa parte do público as conhece mais através das pernas de uma e dos seios e costas da outra do que por suas qualidades musicais. É injusto. Wang é efetivamente uma tremenda pianista, mas creio que o mesmo não se possa dizer de Buniatishvili, uma instrumentista que aposta apenas na emoção. Para comprovar o que digo, este CD da DG venceu vários prêmios de melhor disco eruditosolo de 2019. Isto é, Wang merece ser ouvida. O Ligeti e o Prokofiev dela são sensacionais. Já Rachmaninov e Scriabin são compositores tão estranhos a meu gosto que não vou falar. A 8ª Sonata de Prokofiev é notavelmente interpretada. Como Sviatoslav Richter, ela consegue integrar o poder e o lirismo que caracterizam os longos movimentos externos. Ao manter o Andante sognando estável, elegante e discreto, os toques expressivos de Wang tornam-se ainda mais significativos. Dos três Estudos de Ligeti, o Vertige é o melhor, e raramente soou tão suave e transparente.

Decidi fortalecer o pacote adicionando ao arquivo musical mais dois Estudos de Ligeti e uma outra Sonata para Piano de Scriabin, que fazem parte de um outro disco de Yuja Wang, chamado Sonatas e Estudos, postado também pelo PQP Bach, em 2016.

Assim temos um pacote com peças bastante representativas dos dois homenageados que certamente lhe abrirão o apetite por mais e umas sonatas para piano de dois conterrâneos e bem conhecidos de Rachmaninov. As Sonatas de Scriabin estão espetaculares e a interpretação da Sonata de Prokofiev foi elogiada pelo PQP Bach!

Sergei Rachmaninov (1873 – 1943)

  1. Prelude Op. 23 No. 5 em sol menor
  2. Etude-Tableaux, Op. 39, No. 1 em dó menor
  3. Étude-Tableaux, Op. 33, No. 3 em dó menor
  4. Prelude Op. 32 No. 10 em si menor

Alexander Scriabin (1872 – 1915)

  1. Sonata para Piano No. 10, Op. 70

György Ligeti (1923 – 2006)

Études Pour Piano

  1. No. 3 “Touches bloquées”
  2. No. 9 “Vertige”
  3. No. 1 “Désordre”
  4. No. 4 “Fanfares” (Faixa Extra)
  5. No. 10 “Der Zauberlehrling” (Faixa Extra)

Alexander Scriabin (1872 – 1915)

Sonata para Piano No. 2 em sol sustenido menor “Sonate-Fantasie”

  1. Andante (Faixa Extra)
  2. Presto (Faixa Extra)

Sergei Prokofiev (1891 – 1953)

Piano Sonata No. 8 in B flat major, Op. 84

  1. Andante dolce
  2. Andante sognando
  3. Vivace

Yuja Wang, piano

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

FLAC | 307 MB

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

MP3 | 320 KBPS | 215 MB

As peças de Rachamaninov são dois famosos Prelúdios, peças com as quais ele ganhou a atenção do mundo musical bem no início da carreira, além de dois Estudos-Tableau. Ou seja, estudos, mas que também contam uma história. Eu sempre tomo como referência algumas das peças de Mussorgsky, que compõem a suíte Quadros de Uma Exposição.

Aproveite!

Luminosa!

As postagens originais:

Chopin · Scriabin · Liszt · Ligeti: Sonatas para Piano e Estudos

Rachmaninov / Scriabin / Ligeti / Prokofiev: The Berlin Recital (Yuja Wang)

PQP Bach Quizz: Qual ator você escolheria para fazer o papel de György Ligeti?

Johann Sebastian Bach (1685-1750): Two-Part Inventions and Three-Part Sinfonias (Inventions) – BWV 772-801 (Gould)

MAIS UMA GRAVAÇÃO COM O SELO IMPERDÍVEL DE QUALIDADE DO PQPBACH !! 

No dia de seu aniversário, FDPBach lembra um de seus ídolos em se tratando de Bach, o imenso Glenn Gould. Uma gravação incrível, que, mesmo depois de sessenta anos de seu lançamento, mantém sua atualidade e reforça ainda mais a importância deste incrível pianista.

Em outra postagem, já discorremos sobre Glenn Gould, com direito a um belo artigo de Milton Ribeiro para ilustrar. Nossa querida Clara Schumann também já fez sua postagem deste genial pianista canadense.

FDP Bach então, resolveu cumprir sua parte. E ela será em duas etapas. Nesta primeira, serão as gravações das Invenções para duas e três vozes, além das sinfonias para duas e três vozes. Trata-se de obra fundamental no repertório de nosso pai, e nas mãos de um de seus principais intérpretes, Glenn Gould. Trata-se de obra densa, de extrema complexidade, porém extremamente rica em suas possibilidades, e executada com maestria, e com a competência única e habitual do genial Gould.

Two-Part Inventions and Three-Part Sinfonias (Inventions) BWV 772-801

01 – Inventio 1 in C Major (BWV 772)
02 – Sinfonia 1 in C Major (BWV 787)
03 – Inventio 2 in C Minor (BWV 773)
04 – Sinfonia 2 in C Minor (BWV 788)
05 – Inventio 5 in E-flat Major (BWV 776)
06 – Sinfonia 5 in E-flat Major (BWV 791)
07 – Inventio 14 in B-flat Major (BWV 785)
08 – Sinfonia 14 in B-flat Major (BWV 800)
09 – Inventio 11 in G Minor (BWV 782)
10 – Sinfonia 11 in G Minor (BWV 797)
11 – Inventio 10 in G Major (BWV 781)
12 – Sinfonia 10 in G Major (BWV 796)
13 – Inventio 15 in B Minor (BWV 786)
14 – Sinfonia 15 in B Minor (BWV 801)
15 – Inventio 7 in E Minor (BWV 778)
16 – Sinfonia 7 in E Minor (BWV 793)
17 – Inventio 6 in E Major (BWV 777)
18 – Sinfonia 6 in E Major (BWV 792)
19 – Inventio 13 in A Minor (BWV 784)
20 – Sinfonia 13 in A Minor (BWV 799)
21 – Inventio 12 in A Major (BWV 783)
22 – Sinfonia 12 in A Major (BWV 798)
23 – Inventio 3 in D Major (BWV 774)
24 – Sinfonia 3 in D Major (BWV 789)
25 – Inventio 4 in D Minor (BWV 775)
26 – Sinfonia 4 in D Minor (BWV 790)
27 – Inventio 8 in F Major (BWV 779)
28 – Sinfonia 8 in F Major (BWV 794)
29 – Inventio 9 in F Minor (BWV 780)
30 – Sinfonia 9 in F Minor (BWV 795)

Glenn Gould – Piano

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

FDP

Olivier Messiaen (1908-1992): Turangalîla-Symphonie – Wiener Philharmoniker, Esa-Pekka Salonen; Yuja Wang

Iniciamos o mês dedicado às mulheres com uma pianista que arrasta multidões em todos os países por onde passa. Yuja Wang já apareceu neste blog quando era um jovem talento promissor, apareceu depois, ainda jovem mas já mais experiente, fazendo música de câmara. Hoje trazemos uma obra que ela ainda não gravou em disco, mas já apresentou dezenas de vezes com grandes maestros como Dudamel e Salonen: a Turangalîla-Symphonie de Messiaen. A gravação, em alta qualidade, é proveniente da transmissão ao vivo do Festival de Salzburg (2022).

Messiaen e Yvonne Loriod em 1952 (entre eles, um aluno metido olhando pra câmera: K. Stockhausen aos 24 anos)

Estreada em 1949, essa sinfonia em dez movimentos curtos tem uma parte importante e difícil para piano, inspirada em uma outra grande pianista, Yvonne Loriod, com quem Messiaen iria se casar apenas uns dez anos depois. Ele explicava que, desde que conheceu Loriod durante a 2ª Guerra, ele sabia que podia escrever “as maiores excentricidades” para piano, sabendo que ela iria dar conta. Sobre a Turangalîla, o compositor afirmou que esta obra tinha uma parte para piano bastante desenvolvida, “destinada a ‘diamantear’ a orquestra com linhas brilhantes, cachos de acordes [1], cantos de pássaros, o que faz da obra quase um concerto para piano e orquestra”. Ênfase no quase, pois Messiaen não compôs nenhum concerto nos moldes tradicionais, e nenhuma outra sinfonia em quatro movimentos: ele preferia formas inovadoras como esta sinfonia em 10 movimentos. Importante notar ainda que as partes para cordas soam espantosamente brilhantes com a Filarmônica de Viena. Esse legato agudo de violinos e violas não é uma constante em Messiaen: nas obras orquestrais seguintes – Réveil des oiseaux (1953), Oiseaux exotiques (1956) – ele usaria uma orquestra sem cordas e o brilho ficaria com as madeiras e com os “diamantes pianísticos”

[1] Messiaen falava em “cachos de acordes” no piano como quem fala em cachos de bananas ou de uvas. A citação é do livro “Messiaen” publicado em 1957 por Claude Rostand: Turangalîla-Symphonie est surtout une partition frappante par sa conception et sa réalisation sonore. […] des jeux de timbres, célestas et vibraphones rappelant les gamelang indous; une batterie extrêmement riches; une onde Martenot pour les effets expressifs; une partie de piano solo très développée, très difficile, “destinée à diamanter l’orchestre de traits brillants, de grappes d’accords, de chants d’oiseaux et qui en fait presque un concerto pour piano et orchestre”

Olivier Messiaen (1908-1992): Turangalîla-Symphonie
1 Introduction. Modéré, un peu vif
2 Chant d’amour Nr.1: Modéré, lourd
3 Turangalîla Nr.1: Presque lent, reveur
4 Chant d’amour Nr.2: Bien modéré
5 Joie du sang des étoiles. Vif, passionné, avec joie
6 Jardin du sommeil d’amour. Très modéré, très tendre
7 Turangalîla Nr.2: Un peu vif
8 Développement de l’amour: Bien modéré
9 Turangalîla Nr.3: Bien modéré
10 Final: Modéré, presque vif, avec une grande joie

Wiener Philharmoniker, Esa-Pekka Salonen (conductor)
Yuja Wang – piano
26 August 2022 im Großes Festspielhaus Salzburg

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE – flac
BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE – mp3 320kbps

Ensaio de Yuja com a Filarmônica de Viena

Pleyel

Béla Bartók (1881-1945): The Piano Concertos (Bavouzet / Noseda / BBC)

Béla Bartók (1881-1945): The Piano Concertos (Bavouzet / Noseda / BBC)

Sim, eu sei o que o mano PQP vai dizer: nunca houve uma gravação dos concertos para piano como a que Géza Anda realizou ainda nos anos 60, com o Férenc Fricsay. Mas o genial pianista húngaro já morreu há bastante tempo, assim como o fantástico maestro húngaro, e neste meio tempo nasceu Jean-Efflam Bavouzet, este excelente pianista francês, um de meus favoritos da atualidade. Lembram de seu Debussy e de seu Ravel que postei ano passado? Aqui, Bavouzet encara os três petardos bartokianos com maestria, perícia, e tranquilidade. Coisa de gente grande, que sabe o que faz. Para ouvir, sugiro pararem de fazer o que estiverem fazendo e prestarem atenção, e depois me digam se o rapaz não é bom mesmo. Enquanto escrevo este texto, e ouço este excelente CD, meu vizinho ouve uma música eletrônica horrível, possivelmente para irritar os vizinhos antes de ir para as baladas de sexta feira à noite, e também para mostrar que o equipamento de som dele é melhor que o meu, e provavelmente o é. Mas deixemos ele de lado… cada um sabe a dor e a delícia de ser o que se é, como dizia o poeta. E fiquemos com o Béla. Divirtam-se.

Béla Bartók (1881-1945): The Piano Concertos (Bavouzet / Noseda / BBC)

01. Béla Bartók – Piano Concerto No.1, BB 91 – I Allegro moderato
02. Béla Bartók – Piano Concerto No.1, BB 91 – II Andante
03. Béla Bartók – Piano Concerto No.1, BB 91 – III Allegro

04. Béla Bartók – Piano Concerto No.2, BB 101 – I Allegro
05. Béla Bartók – Piano Concerto No.2, BB 101 – II Adagio – Presto – Adagio
06. Béla Bartók – Piano Concerto No.2, BB 101 – III Allegro molto

07. Béla Bartók – Piano Concerto No.3, BB 127 – I Allegretto
08. Béla Bartók – Piano Concerto No.3, BB 127 – II Adagio religioso
09. Béla Bartók – Piano Concerto No.3, BB 127 – III [Allegro vivace]

Jean-Efflam Bavouzet – Piano
BBC Philharmonic
Gianandrea Noseda – Conductor

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

Bavouzet durante uma live com os gaúchos do PQP Bach. É que ele quer fazer uma churrasqueira naquela janela ali atrás.

FDP & PQP

Homenagem a Paulo Moura, sax (1933-2010): ConSertão, com Elomar (violão e voz), Moreira Lima (piano e cravo) e Heraldo do Monte (viola brasileira)

Nossa homenagem ao saudoso Ranulfus continuará, também, através da republicação de suas preciosas contribuições ao nosso blog – como esta, que veio à luz em 13/7/2010.

Nota: esta postagem, assim como todas as demais com obras de Heitor Villa-Lobos, não contém links para arquivos de áudio que envolvam o gênio brasileiro pelos motivos expostos AQUI

Embora pessoalmente eu prefira uma outra abordagem do sax (como vocês verão daqui a uns dias), nunca pude deixar de tirar o chapéu para o trabalho do Paulo Moura – que precisamente neste álbum mostra seu fôlego para se estender para além da música da noite urbana (faixas 8, 9, 11, 12), também pelo hierático neo-trovadorismo do arquiteto baiano re-sertanejado Elomar (faixas 1, 2, 3, 4, 13 – especialmente a 4).

Mas Paulo Moura faleceu ontem (12/07/2010) à noite, não é hora de falar.
Deixo vocês com a música.

ConSertão – um passeio musical pelo Brasil
Elomar (composições, violão, voz), Arthur Moreira Lima (piano, cravo),
Heraldo do Monte (viola brasileira, violão elétrico),
Paulo Moura (sax soprano, sopranino e alto)
Participações de Paulo Moura assinaladas com *
Gravadora Kuarup, 1982

01 Estrela maga dos ciganos / Noite de Santos Reis (Elomar)*
02 Na estrada das areias de ouro (Elomar)*
03 Campo branco (Elomar)*
04 Incelença pra terra que o sol matou (Elomar)*
05 Trabalhadores na destoca (Elomar)
06 Pau de arara (Luís Gonzaga)
07 Festa no sertão (Villa-Lobos)
08 Valsa da Dor (Villa-Lobos)*
09 Lenínia (Codó)*
10 Valsa de Esquina nº 12 (F. Mignone)
11 Espinha de bacalhau (Severino Araújo)*
12 Pedacinhos do céu (Waldir Azevedo)*
13 Corban (Elomar)*

. . . . . BAIXE AQUI – download here

Ranulfus

[reverentemente restaurado por Vassily em 27/2/2023]

Handel (1685-1759) & Brahms (1833-1897): O Projeto Handel (Peças para Piano) – Seong-Jin Cho ֍

Handel (1685-1759) & Brahms (1833-1897): O Projeto Handel (Peças para Piano) – Seong-Jin Cho ֍

Handel

3 Suítes Grandes

Brahms

Variações Handel

Seong-Jin Cho, piano

 

A ideia não é nova – András Schiff gravou um disco para a TELDEC em 1994 reunindo peças de Handel, Brahms e Reger. Confesso que não lembro da peça de Max Reger, mas certamente me lembro das peças de Handel e Brahms.

Seong-Jin Cho

A reverência de certos compositores para com mestres do passado quase sempre resulta em boa música. Ravel é um desses e Stravinsky, a seu modo, também. Foi com essa perspectiva que abordei esse disco que achei excelente. Três suítes de Handel, incluindo aquela que termina com variações e fuga – O Ferreiro Harmonioso – seguidas das Variações e Fuga sobre um tema de Handel, de Brahms. Como bônus, a título de encores, mais uma peça de Handel e um arranjo do venerando Wilhelm Kempff.

Outro grande pianista que dedicou parte de um álbum a música de Handel é Murray Perahia. O paralelo não termina aqui. Após anos de dedicação à música dos períodos clássico e romântico, Perahia que passava por um período afastado do piano devido à uma lesão, mergulhou na música do período barroco – Handel, Scarlatti e Bach – e em seu retorno à atividade ganhamos alguns ótimos discos. Felizmente Seong-Jin Cho não precisou se machucar para encontrar na música para teclado do período barroco novos estímulos para sua arte.

George Handel (1685–1759)

Suíte No. 2 em fá maior HWV 427

  1. Adagio
  2. Allegro
  3. Adagio
  4. Allegro [Fugue]

Suíte No. 8 em fá menor HWV 433

  1. Prélude
  2. Allegro [Fugue]
  3. Allemande
  4. Courante
  5. Gigue

Suíte No. 5 em mi maior HWV 430

  1. Prélude
  2. Allemande
  3. Courante
  4. Air – Double I–V [Air com 5 Variações “The Harmonious Blacksmith”]

Johannes Brahms (1833–1897)

  1. Variações e Fuga sobre um Tema de Handel em si bemol maior op. 24

George Handel (1685–1759)

  1. Sarabande em si bemol maior HWV 440/3 (3º. Mov. da Suíte No. 7 em si bemol maior)
  2. Menuetto em sol menor (Arr. Wilhelm Kempff) anteriormente tratado como 4º. Mov. da Suíte em si bemol maior, HWV 434

Seong-Jin Cho, piano

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

FLAC | 210 MB

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

MP3 | 320 KBPS | 153 MB

 “For me, Handel’s music comes directly from the heart, so people can easily follow it.”, says Cho. He was also keen to explore the ways in which Handel influenced later composers and so chose to record Brahms’s enormously creative response to music from one of the suites as well. Brahms based his twenty-five variations on the Air from Handel’s Suite No. 3 in B flat major HWV 434, a simple theme on which Handel himself built four short variations. 

Espero que você goste deste álbum tanto quanto eu…

Aproveite!

René Denon

Seong-Jin Cho achando o Salão de Pianos do PQP Bach Co-op um ‘must’…

Domenico Scarlatti (1685-1757): Sonatas (Konstantin Scherbakov, piano)

Vimos aqui que, nos tempos de Scarlatti pai e filho, a palavra improviso era reservada à poesia, não sendo usada no sentido musical em qualquer das línguas latinas!

Já a palavra “fantasia”, com significado correlato ao de improviso, aparece na edição de 1694 do Dictionnaire de l’Academie Française: Fantaisie. s.f. L’Imagination [Fantasia, subst.fem. A Imaginação], seguida de várias descrições complementares, incluindo a seguinte:
“Fantasia se diz também de uma coisa inventada por prazer, e na qual se seguiu mais o capricho do que as regras da Arte. ‘Uma fantasia de Pintor, uma fantasia de Poeta, de Músico, de tocador de alaúde’.” No Dicionário Musical de Rousseau (1768), só se fala em “improvisar” para cantores e poetas, jamais para música instrumental.

O Padre Antonio Soler – que foi aluno, assistente e copista de D. Scarlatti – escreveu em 1762 o tratado Llave de la modulación, y antigüedades de la música. Ali, Soler busca conceituar a modulação que ele e seus contemporâneos faziam no cravo, pianoforte e órgão, normalmente de forma improvisada: “a Modulação, segundo sua definição geral, é a suavidade nos trânsitos de um tom a outro”. No prefácio, Don Joseph de Nebra, Organista e Vice-Maestro da Real Capela de Sua Majestade, afirma: “Confesso com ingenuidade que nunca pensei que pudessem dar regras fixas para Modulações tão sofisticadas: acreditava que eram produzidas pela prática, pelo bom gosto, pela fineza do ouvido …” E Don Antonio Ripa, outro grande organista, ao elogiar a obra de Soler como importante para aqueles que modulavam [ou seja, improvisavam] em igrejas, até porque, como ele diz nas entrelinhas, nem todos eram tão bons como Soler, alguns machucavam os ouvidos: “Julgo que esta Obra há de ser de muita utilidade, não só para Mestres de Capela e Organistas, a quem abre portas com várias regras e Modulações de bom gosto, para que à sua imitação suas produções musicais tenham novidade e boa harmonia, sem incorrer no defeito da aspereza e sem serem ingratas ao ouvido”.

C.P.E. Bach, músico da mesma geração de Soler, escreveu um Ensaio sobre a verdadeira arte de tocar os instrumentos de teclado (Berlin, 1753) e no prefácio ele vende seu peixe:

“Não podemos ignorar quantas exigências coloca o teclado; ninguém se contenta de exigir de um tecladista o que se exige de qualquer instrumentista, a capacidade de executar, segundo as regras da boa interpretação, uma obra escrita para seu instrumento. Exige-se do tecladista também que ele executa Fantasias [isto é, improvisos!] de todo tipo, que ele crie naquele momento sobre um tema dado, segundo as regras mais severas da harmonia e da conduta melódica, […] que ele seja mestre na ciência do baixo contínuo, que ele possa realizá-la com discernimento.”

Ou seja, Soler e C.P.E. Bach não mencionam improviso, mas é disso que eles estavam falando. Só quando a fidelidade ao texto torna-se padrão é que o improviso torna-se um momento específico, percebido e valorizado, como nas cadências dos concertos para piano de Mozart. Nos tempos dos Scarlatti, o improviso era uma daquelas coisas como o ar que respiramos, óbvio demais para que alguém fale a respeito…

Este disco de hoje é um deleite para os ouvidos justamente por esse equilíbrio entre por um lado a “arte da modulação”, aprendida com muitos anos de estudo, e por outro lado os saltos e modulações de tipo improvisado, executados com pequenas liberdades rítmicas e de dinâmica pelos bem treinados dedos do intérprete. Hoje professor em Zurich – tendo entre suas alunas a jovem Yulianna Avdeeva que, como ele, é muito cuidadosa com o som que faz e pouco preocupada com holofotes e selfies -, o pianista russo Scherbakov executa as obras de D. Scarlatti com admirável clareza sonora, o que quer dizer que todas as vozes se fazem ouvir com seu caráter específico. Ao mesmo tempo em que as particularidades soam cheias de fantasia, o conjunto, o todo é ordenado e coeso, seguindo – e quebrando brevemente quando necessário – as regras severas mencionadas por C.P.E. Bach. (Como propôs o historiador francês François Furet, a desobediência às regras e leis é um “dilema bem conhecido” dos historiadores que estudam o Antigo Regime: “no alto, a minúcia extraordinária na regulamentação de tudo; em baixo, desobediência crônica”).

Este é mais um disco da integral das sonatas de D. Scarlatti que vai sendo lentamente lançada pela Naxos: não vou postar todos os discos pois nem todos são tão brilhantes como este aqui. Scherbakov gravou, pela Naxos, obras românticas extremamente virtuosísticas: Estudos de Liszt e de Lyapunov, Concertos de Tchai e de Rach… Ele não é um nome muito associado ao barroco, o que só me faz lamentar que não tenha gravado mais obras de Scarlatti, Soler e cia.

Domenico Scarlatti, – Complete Keyboard Sonatas Vol. 7
1 Sonata In F Major, K.483/L.472/P.407 2:53
2 Sonata In F Major, K.542/L.167/P.546 5:40
3 Sonata In B Flat Major, K.360/L.400/P.520 4:22
4 Sonata In C Minor, K.40/L.375/P.119 1:51
5 Sonata In C Major, K.422/L.451/P.511 5:34
6 Sonata In F Minor, K.238/L.27/P.55 4:06
7 Sonata In F Major, K.17/L.384/P.734:04
8 Sonata In A Major, K.500/L.492/P.358 3:15
9 Sonata In A Major, K.114/L.344/P.141 4:24
10 Sonata In E Minor, K.291/L.61/P.282 4:56
11 Sonata In G Major, K.328/L.S27/P.485 4:10
12 Sonata In A Major, K.320/L.341/P.335 3:10
13 Sonata In G Major, K.283/L.318/P.482 4:45
14 Sonata In C Major, K.464/L.151/P.460 3:14
15 Sonata In D Major, K.313/L.192/P.398 3:13
16 Sonata In D Major, K.479/L.S16/P.380 4:25

Konstantin Scherbakov, piano
Recorded at Potton Hall, Suffolk, UK, 2000

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

Uma das coleções manuscritas de sonatas pertencentes à Rainha Bárbara da Espanha

Pleyel

.: interlúdio :. John Zorn: Mount Analogue

.: interlúdio :. John Zorn: Mount Analogue

Classificar este disco é impossível, então ele vai para a categoria, por assim dizer, mais democrática: o jazz. John Zorn construiu uma carreira cavando fundo os confins da expressão musical, torcendo gêneros com uma maestria complicada de explicar mas que não pode deixar de ser admirada. Seus estilos variam do clássico ao jazz, do peso total ao avant-garde, do folclore a coisas ao total rigorismo, passando por quase tudo que há entre eles. Raramente, no entanto, temos a oportunidade de ver Zorn preso à Terra. Em razão destas metamorfoses ele é tão amado por seus fãs, dentre os quais me incluo. Para os não iniciados, a música de Zorn é um pouco hostil, para dizer o mínimo. No entanto, em Mount Analogue, faz um álbum igualmente atraente para os fãs de suas tendências mais vanguardistas, bem como para aqueles que estão ansiosos para encontrar um caminho de entrada para sua discografia pesada.

John Zorn: Mount Analogue

1 Mount Analogue 38:21

Bass, Oud, Guimbri [Gimbri], Vocals – Shanir Ezra Blumenkranz
Composed By, Arranged By, Conductor, Producer – John Zorn
Percussion [Calabash], Drums, Percussion, Bells [Orchestral Bells], Vocals – Tim Keiper
Percussion, Bells [Prayer Bells], Vocals – Cyro Baptista
Piano, Organ, Vocals – Brian Marsella
Vibraphone, Chimes, Vocals – Kenny Wollesen

BAIXE AQUI — DOWNLOAD HERE

John Zorn passeia pelo Palácio do Alvorada após a passagem da família Bolsonaro

PQP

Rimsky-Korsakov (1844-1908): Sheherazade / The Tale of Tsar Saltan (Suite) (Seattle Symph / Schwarz)

Rimsky-Korsakov (1844-1908): Sheherazade / The Tale of Tsar Saltan (Suite) (Seattle Symph / Schwarz)

Tenho muitas lembranças pessoais ligadas a esta Sheherazade de R-K. Meu pai ouvia demais esta obra e ela sempre me traz de volta a infância. Aqui, Gerard Schwarz e sua orquestra de Seattle fazem uma boa versão de Sheherazade: voluptuosa, exótica, pulsante e também muito emocionante. Você pode dizer que será uma bela performance desde o primeiro compasso: firme e forte, com os metais dando ao tema um rosnado ameaçador, seguido pelo lindo solo de violino de Maria Larionoff representando a própria protagonista. Apenas o final, embora rápido e preciso, carece daquele toque de cinematográfico, mas este é um ponto menor. Os dois movimentos internos, em particular, têm uma nitidez e um fluxo muito legais e um tanto incomuns. A suíte Tsar Saltan busca o espetacular – para o bem e para o mal. Seu movimento central, “The Tsarina in a Barrel at Sea”, é o melhor.

Rimsky-Korsakov (1844-1908): Sheherazade / The Tale of Tsar Saltan (Suite) (Seattle Symph / Schwarz)

Scheherazade, Op. 35
1 I. The Sea And Sinbad’s Ship 10:46
2 II. The Kalender Prince 11:34
3 III. The Young Prince And The Young Princess 10:43
4 IV. Festival At Baghdad – The Sea 12:48

Tale Of Tsar Saltan Suite, Op. 57
5 I. The Tsar’s Farewell And Departure 4:41
6 II. The Tsarina In A Barrel At Sea 7:20
7 III. The Three Wonders 7:14

8 Flight Of The Bumblebee 1:31

Soloist: Maria Larionoff (violin)
Conductor: Gerard Schwarz
Orchestra: Seattle Symphony

BAIXE AQUI — DOWNLOAD HERE

Rimsky Korsakov em 1897 com aquela barba de compositor bem estabelecido e a ser respeitado

PQP

.: interlúdio :. John Coltrane & Don Cherry – The Avant-Garde (1960) / John Coltrane & Rashied Ali – Interstellar Space (1967)

Dois discos de John Coltrane sem piano, e essa ausência não é apenas uma curiosidade: faz toda diferença… O primeiro foi gravado em 1960 com três músicos da banda de Ornette Coleman, com três da cinco composições também assinadas por Coleman: ele e Coltrane tinham uma admiração mútua um pelo outro, embora nunca tenham gravado juntos. E as bandas de Coleman quase nunca contavam com pianistas, o que fazia parte de seu som característico, mais baseado em solos do que em acordes, e que receberia o nome de Free Jazz a partir do álbum com este nome, que seria gravado seis meses depois dessas sessões comandadas por Don Cherry e John Coltrane. (Outros saxofonistas, como Eric Dolphy e Archie Shepp, que surgem após Coltrane e Coleman, vão liderar bandas também sem piano, à vezes com o vibrafone ocupando o espaço dos agudos…)

Curioso, porém, que o disco, no qual Cherry e Coltrane estão em pé de igualdade, dividindo solos em cada faixa, não soe tão livre assim, pelo contrário, às vezes fica uma certa impressão de fórmula aplicada a cada uma das jams, com trompete e sax introduzindo as melodias em uníssono e depois dividindo solos, o trompete com seu som mais nasal e o sax mais “redondo”, sem as “cascatas sonoras” (sheets of sound) que Coltrane fazia em outros álbuns daquele período. Ou seja: alguns grandes solos, belas melodias de Ornette Coleman e Thelonius Monk, mas paradoxalmente organizadas de forma pouco livre, com um jeitão, se me permitem abusar de mais um anglicismo, um jeitão de “one size fits all”. Das suas gravações como convidado com bandas de colegas, Coltrane soa mais livre no disco Bags & Trane, de 1959.

John Coltrane & Don Cherry: The Avant-Garde
1. Cherryco (Don Cherry) – 6:47
2. Focus on Sanity (Ornette Coleman) – 12:15
3. The Blessing (Ornette Coleman) – 7:53
4. The Invisible (Ornette Coleman) – 4:15
5. Bemsha Swing (Thelonious Monk, Denzil Best) – 5:05

John Coltrane – tenor and soprano saxophone
Don Cherry – cornet
Charlie Haden – double bass (tracks 1, 3)
Percy Heath – double bass (tracks 2, 4, 5)
Ed Blackwell – drums
Recorded: June 28, 1960; July 8, 1960 / Released: 1966

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

Coltrane (1926-1967) vive em uma rua em Denver, EUA

Quatro meses após as sessões de The Avant-Garde, Coltrane gravaria My Favorite Things e, devido ao grande sucesso não só artístico como comercial deste LP, ele não mais faria outras gravações com bandas alheias: tocaria sempre com o piano de McCoy Tyner e a bateria de Elvin Jones, até o fim de 1965. O baixista variava (às vezes, dois baixos!) e, às vezes, chamava mais alguém nos sopros, como Eric Dolphy e Freddie Hubbard. Como escreveu David Stoesz, no fim do ano de 1965, Coltrane  entrou em um território tão “far out” que os seus leais companheiros — o “quarteto clássico” que havia gravado A Love Supreme e Crescent — não o seguia mais. O que ele buscava eram sentimentos puros, para além de notas e certamente para além de algo tão mundano como acordes.

Do fim de 1965 em diante, teria sempre ao seu lado o piano de Alice Coltrane. Não fez mais freelances… confiram o último mês em que Coltrane tocaria ao vivo e em estúdio com o grupo de Miles Davis: março de 1961, mesmo mês de lançamento de My Favorite Things

Então o disco Interstellar Space, gravado em fevereiro de 1967, é uma raridade por apresentar novamente um Coltrane sem piano (e agora sem baixo), apenas com bateria e, agora sim, absolutamente livre. Dessa vez, após alguns anos que lhe trariam mais experiência e várias viradas de rumo, Coltrane soa sem amarras, nada parece planejado, a começar por aquela própria seção de gravação, se acreditarmos no jornalista Ben Ratliff: segundo ele, Interstellar Space foi gravado em um dia em que Rashied Ali (na banda de Coltrane desde 65) chegou no estúdio em New Jersey e não encontro nenhum outro músico, para logo depois ver Coltrane chegar:

Soon Coltrane arrived. / “Ain’t nobody coming?” he said to Coltrane. / “No, it’s just you and me.” / “What are we playing? Is it fast? Is it slow?” / “Whatever you want it to be. Come on. I’m going to ring some bells.”

Coltrane improvisou acompanhado apenas do baterista Rashied Ali, alçando alguns de seus voos mais altos e ao mesmo tempo incompreensíveis. Se você estiver iniciando sua jornada pela discografia do saxofonista, ouça primeiro alguma coisa de 1959 a 1964 e chegue aqui só depois de se apaixonar pelo timbre de Coltrane, sua maneira de respirar e de “fazer arte” (também no sentido de quem fala em crianças “fazendo arte”, ou seja, bagunça). No LP (lançado em 1974) temos a informação de que a música foi produzida por John Coltrane e o álbum, por Ed Michel e Alice Coltrane – suponho que o papel desses dois tenha sido, entre outros detalhes, nomear as faixas e escolher a ordem delas no disco. No CD (1991), temos duas faixas adicionais que entram no meio da bagunça de uma forma coesa, afinal foram gravadas no mesmo dia pela mesma dupla.

Aqui, só temas novos, não há espaço para standards de outros compositores – embora nos shows ao vivo da época ainda aparecessem versões muito peculiares de My Favorite Things e Naima (de Giant Steps, de 1959). Esses dois álbuns citados, e em um grau ainda maior A Love Supreme (1964), transformaram John Coltrane em uma celebridade internacional e ele poderia passar muitos anos repetindo a formação de quarteto e lotando show dos dois lados do Atlântico Norte. Mas se repetir certamente não era o objetivo de John Coltrane, ele queria sempre fazer algo novo e desde 1961 já havia inovado em outras formações, seja com mais músicos ou com menos e, nesse caso, uma forma de bagunçar o coreto era com só dois instrumentistas tocando: Saxofone e Bateria/Percussão. Sem baixo e piano, os improvisos podiam seguir ainda mais livres: é assim, sozinho com Elvin Jones, que ele toca já em 1961 em alguns trechos da faixa Chasin’ the Trane do disco “Live at the Village Vanguard”. No ano seguinte, o piano também se calava na metade final de Traneing In ao vivo na Suécia, lançada no disco póstumo “Bye Bye Blackbird”, além de alguns trechos de Crescent, disco de 1964… Mas um disco inteiro de saxofone e percussões, só em Interstellar Space.

John Coltrane & Rashied Ali: Interstellar Space
1 Mars 10:41
2 Venus 8:28
3 Jupiter 5:22
4 Saturn 11:33
5 Leo 10:53
6 Jupiter Variation 6:44

John Coltrane – tenor saxophone, bells, producer
Rashied Ali – drums
Recorded February 22, 1967 at Van Gelder Recording Studio, Englewood Cliffs, New Jersey; Released September 1974

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

Rashied Ali (1935-2009)

Tony Whyton wrote that the tracks on Interstellar Space “clearly demonstrate the full glory of Coltrane’s late style”[32] and notes that “the removal of identifiable structures, a steady pulse, and clear sense of meter opens up the music and removes familiar aids of orientation for the listener. In this respect, although Coltrane’s sound and approach can be understood as part of the same continuum, the context has changed dramatically to the point where the music is clearly experienced more as an immediate sensation. This leads to recordings such as Interstellar Space being received as musical processes rather than as products; they encourage us to listen in the here and now as opposed to assimilating what has happened before and predicting what will happen next.”

Pleyel

Villa-Lobos, Pierre Max Dubois, Ibert, Glazunov: Concertos para Saxofone

Nossa homenagem ao saudoso Ranulfus continuará, também, através da republicação de suas preciosas contribuições ao nosso blog – como esta, que veio à luz em 20/7/2010.

Nota: esta postagem, assim como todas as demais com obras de Heitor Villa-Lobos, não contém links para arquivos de áudio que envolvam o gênio brasileiro, pelos motivos expostos AQUI

 

No meu “curso autodidata intensivo em música do século XX”, nos anos 70, este disco surgiu como uma revelação que logo se tornou um caso de amor profundo, que perdura até hoje.

Eu nem desconfiava (e desconfio que muitos ainda hoje também nem desconfiam) que o sax podia soar assim, sereno e solene – muito, muito próximo de como soa um violoncelo! Não desgosto de seus outros usos – às vezes sensual, malandro, guinchado, escrachado… Mas é como se fossem dois instrumentos diferentes. Sou capaz de apreciar os dois, como sei apreciar tanto o cravo quanto o piano. Mas a verdade é que um deles – este – combina mais naturalmente comigo.

Meu vinil estava riscado demais no lado B, e o mano Strava conseguiu esta versão a partir de CD. Curioso que no CD as peças vêm em ordem diferente que no vinil – mas eu não me conformei. Restaurei a ordem em que conheci o disco, aberto com imensa classe pelo recitativo-cadência inicial do concerto de Pierre-Max Dubois – um aluno de Milhaud de que pouco se fala no Brasil, mas a julgar por esta amostra merecia mais atenção.

Segue-se a Fantasia de Villa-Lobos, a única das peças que não é para sax alto e sim soprano – com um engenhoso acompanhamento de cordas e três trompas. Não temos nesta gravação a malandragem chorona e/ou jazzística que a Orquestra de Câmara Brasileira regida por Bernardo Bessler atingiu ao acompanhar Paulo Moura. Soa talvez como um poema brasileiro lido por um ator estrangeiro, que não conhece todas as manhas da alma local – mas ainda assim é um grande ator, e consegue fazer uma grande interpretação em termos de algo que talvez possa ser chamado arte universal.

Em todas as quatro peças existe alguma medida de influência do jazz, cada uma a seu modo, mas nenhuma é – digamos – mera tentativa de imitá-lo. São todas de autores suficientemente fortes para se abrir às inspirações do que está soando pelo mundo em sua época sem perder nada de seu sabor característico – tanto o pessoal quanto de sua própria tradição cultural e composicional.

Nisso, um detalhe que me chama atenção é que tanto o Concertino de Ibert quanto o Concerto de Glazunov foram compostos em 1936 – só que o francês estava com 46 anos, e o russo com 71, o último ano da sua vida. Não é de estranhar que o seu concerto – fluente, lírico, com os movimentos todos interligados – seja o de linguagem mais… não digo ‘tradicional’, mas quem sabe ‘comedida’.

Aliás, desde a primeira audição do Concerto de Glazunov me chamou atenção o tema que abre seu movimento ou seção final: começa com um salto de oitava para cima, outro de volta à nota original, mais um para a oitava de baixo, e ainda outro para a original – e isso em ritmo swingado. A oitava raramente é usada com valor melódico na música européia, foi precisamente o jazz quem chamou atenção para essa possibilidade. Que o velho mestre russo tenha resolvido explorá-la em uma de suas últimas obras, e isso ao modo de um fugato – essa forma tão centro-européia de fazer música – sempre me pareceu algo tocante. Talvez mais um dado para fazer deste um disco de “arte universal”.

Pierre-Max Dubois (1930-1995):
Concerto para sax alto e cordas (1959)
01 Lento espressivo – Allegro 6:56
02 Sarabande: lento nostalgico 5:51
03 Rondò: allegretto 4:29

Heitor Villa-Lobos (1887-1959):
Fantasia para sax soprano, 3 trompas e cordas (1946)
04 Animé 4:10
05 Lent 2:39
06 Très animé 2:57

Jacques Ibert (1890-1960):
Concertino da camera para sax alto e 11 instrumentos (1936)
07 Allegro con moto 4:33
08 Larghetto – Animato molto 8:13

Alexander Glazunov (1865-1936):
09 Concerto em mi bemol para sax alto e cordas, op.109 (1936)

Eugène Rousseau (EUA, 1932), saxofone alto e soprano
Orquestra de Câmara Paul Kuentz – regência Paul Kuentz (França, 1930)
Gravação original Deutsche Grammophon, 1972

. . . . . BAIXE AQUI – download here

Ranulfus

[restaurado por Vassily em 20/2/2023. Que saudades, Mestre!]

Joseph Haydn (1732-1809): 4 Concertos para Piano (Brautigam / Concerto Copenhagen)

Joseph Haydn (1732-1809): 4 Concertos para Piano (Brautigam / Concerto Copenhagen)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Este disco pode assustar alguns desavisados. Brautigam toca o pianoforte do tempo de Haydn e, para ficar ainda mais estranho, temos um baixo contínuo feito pelo cravo no belo e divertido Concerto Nº 11, que abre o CD. O instrumento de Brautigam soa particularmente bem escolhido para esta música. Tem uma ação rápida que faz com que os movimentos externos realmente brilhem, mas também permite o canto nos movimentos lentos.  Os concertos são maravilhosos: leves, brilhantes, efervescentes, cheios de humanidade e repletos de poesia. O tom de Brautigam é claro e vibrante, seu toque é gracioso, suas interpretações, cheias de personalidade. Tudo isso acompanhado pelo elegante Concerto Copenhagen sob regência de Lars Ulrik Mortensen ,

Joseph Haydn (1732-1809): 4 Concertos para Piano (Brautigam / Concerto Copenhagen)

01. Concerto in D major, H.XVIII/11 – I. Vivace
02. II. Un poco adagio
03. III. Rondo all’Ungarese (Allegro assai)

04. Concerto in F major, H.XVIII/3 – I. Allegro
05. I. Largo cantabile
06. III. Presto

07. Concerto in D major, H.XVIII/2 – I. Allegro moderato
08. II. Adagio molto
09. III. Allegro

10. Concerto in G major, H.XVIII/4 – I. Allegro
11. II. Adagio
12. III. Rondo (Presto)

Ronald Brautigam – Pianoforte
Concerto Copenhagen
Lars Ulrik Mortensen – Conductor

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

Gosto do estilo dele. Tem cara de pianista, né?

PQP

Handel (1685-1759): Um Jantar com o Sr. Handel – Mr. Handel’s Dinner – La Cetra & Maurice Steger ֎

Handel (1685-1759): Um Jantar com o Sr. Handel – Mr. Handel’s Dinner – La Cetra & Maurice Steger ֎

Handel

Sonatas e Concertos

La Cetra Barockorchester

Maurice Steger

 

Nas décadas de 1720 e 1730 a cidade de Londres passou por enormes transformações. Estava em curso a Revolução Industrial e a cidade crescia e mudava constantemente. Essas mudanças também ocorriam na cultura e nas artes. Neste período ocorreu a publicação do livro Robinson Crusoe de Daniel Defoe, a produção por William Hogarth de uma série de pinturas e gravuras chamada The Rake’s Progress, a apresentação de The Beggar’s Opera de John Gay, com arranjos musicais de Johann Christoph Pepusch.

Dois teatros inaugurados nessa época estão ativos até hoje: Haymarket Theatre e o Covent Garden. Handel compôs e apresentou obras nesses teatros, no fim da década de 1730, quando então compunha oratórios. Na década de 1720 ele reinou absoluto compondo e produzindo ópera séria (italiana). Essas produções eram riquíssimas e reuniam músicos e artistas que tocavam na orquestra e cantavam. Nos intervalos dessas produções Handel reunia convidados – nobres e artistas – para desfrutarem de jantares, que Handel era amante da boa mesa. E a plateia deliciava-se com números musicais tocados nessas ocasiões (e com a sua própria comida e bebida), repletos de ‘citações’ das melodias ‘favoritas’ do compositor. Essa prática, de usar o mesmo material das árias e números das óperas ou oratórios em sonatas ou concertos era uma maneira de se manter na memória do público.

Esse disco é alusivo a essa prática, na qual alguns membros da orquestra ou o próprio compositor tocavam essas melodias handelianas na forma de sonatas ou concertos. E a música seria posteriormente impressa e devidamente vendida… Um concerto para flauta doce contralto que começou a vida como uma sonata para flauta (HWV 369) é transformada em um de seus muitos concertos para órgão, o qual ele mesmo usava para entreter a plateia entre os atos de um de seus oratórios (HWV 293), aqui encontra uma versão entre as duas possibilidades, com Steger improvisando entre o segundo e o terceiro movimento. Música de outros compositores contemporâneos, desde que boa, também poderia ser usada…

Eu sei, um disco com proeminência de flauta doce pode ser uma coisa perigosa, mas não há o que temer aqui, apesar do virtuosismo de todos os envolvidos. Um disco extravagante, bigger than life, como era o saxão mais inglês que já houve.

George Frideric Handel (1685 – 1759)

Concerto para flauta doce em fá maior

  1. Larghetto. Adagio
  2. Allegro
  3. [Improvisation]
  4. Alla Siciliana
  5. Presto

George Frideric Handel (1685 – 1759)

Suíte de Danças

  1. Chaconne. Tanz der spanischen Damen und Cavallier (de Almira, HWV 1)
  2. Bourrée (de Almira, HWV 1)
  3. Sarabanda (de Almira, HWV 1)
  4. Ritornello (de Almira, HWV 1)
  5. Rondeau (de Almira, HWV 1)
  6. Rigaudon (de Almira, HWV 1)
  7. Allegro (do Concerto para Oboé, HWV 287)

Francesco Geminiani (1687 – 1762)

Concerto para flauta em sol maior

  1. Preludio. Adagio
  2. Allegro
  3. Adagio
  4. Vivace
  5. Gavotta. Allegro

Gottfried Finger (1660 – 1730)

A Ground em ré menor para flauta doce

  1. Ground

George Frideric Handel (1685 – 1759)

Sonata em lá menor para flauta doce e contínuo, HWV362, Op. 1 No. 4

  1. Larghetto
  2. Allegro
  3. Adagio
  4. Allegro

George Frideric Handel (1685 – 1759)

Passacaille em sol maior, HWV 399

  1. Passacaille

William Babell (1690 – 1723)

Concerto for descant recorder e cordas em dó maior Op. 3 No. 1

  1. Allegro
  2. Adagio
  3. Allegro

George Frideric Handel (1685 – 1759)

Trio Sonata, HWV 386a em dó menor, Op. 2 No. 1a

  1. Cantabile
  2. Allegro
  3. Andante
  4. Allegro

George Frideric Handel (1685 – 1759)

Suite em sol maior, HWV 435

  1. Chaconne

La Cetra Barockorchester

Maurice Steger, flauta doce e direção

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

FLAC | 435 MB

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

MP3 | 320 KBPS | 184 MB

Para quem acha que é mole levar a vida na flauta…

London in the 1730s – musical life was flourishing around the figure of Handel. The Saxon composer also served as director; at the height of his fame he surrounded himself with the finest London musicians and was joined by many foreign composers to occupy the long breaks between the acts of his oratorios. Their musical interludes accompanied lavish dinners, during which Mr Handel escaped from the pit to indulge his gourmet tendencies.

This isn’t an album over which the wind is always whistling in your ears, though. For instance, there’s Gottfried Finger’s ground: always a bewitching number but here especially so with its luscious bass-line continuo richness and its luminous timbres. I’m really not sure what Steger can do to top this album. Although, knowing him, I suspect he might

Steger’s latest offering is a funfilled imagining of the sorts of musical interludes that might have accompanied Handel’s interval dinners while his operas ruled the roost on London’s various stages …extreme ensemble virtuosity, and the crackest of crack continuo units, are absolute non-negotiables when Steger’s around and La Cetra deliver on these throughout in joyous spadefuls.  [Gramophone]

Aproveite!
René Denon

Maurice adorando dar um passeio de barco pela Baía da Guanabara…

Frédéric Chopin (1810-1849): Concerto para Piano nº 2 em 3 gravações ao vivo (Rubinstein, Arrau, Pires)

(e ainda: 1ª Balada, 4º Scherzo, Norturnos, 1º Concerto de Liszt…)
Chopin: O Aristocrata, o Escultor, o Poeta

Artur Rubinstein (1887-1982)

O Chopin aristocrata
Se seu rosto mostrava algumas rugas, se seus cabelos eram prateados, um bom observador teria visto nisso as marcas da paixão e os sulcos do prazer, pois os característicos pés de galinha nas têmporas e os degraus do palácio na testa eram rugas elegantes. Tudo nele revelava os modos do homem que teve muitas mulheres.

Sem exagerar no cheiro, o cavaleiro exalava como um perfume de juventude que refrescava seu ar. Suas mãos de aristocrata, bem cuidadas como as de uma donzela, chamavam a atenção para as unhas rosadas e bem cortadas. Finalmente, sem seu nariz magistral e superlativo, seu rosto seria um tanto infantil.

Se ele tinha a virtude de não repetir seus bon mots pessoais e nunca falar de seus amores, suas graças e seus sorrisos cometiam deliciosas indiscrições. Seu principal vício era o tabaco que tirava de uma velha caixa dourada adornada com o retrato de uma princesa.

Além disso, o Chevalier de Valois redimia seus defeitos por tantas outras graças que a sociedade devia se sentir suficientemente indenizada. Ele se esforçava realmente bastante para esconder seus anos e agradar seus conhecidos. É preciso destacar o extremo cuidado que tinha com suas camisas de linho, sempre brancas, limpas e de uma fineza aristocrática. Quanto ao paletó, embora notavelmente limpo, era sempre usado, mas sem manchas.

O digno fidalgo, que jantava fora todos os dias e voltava na hora de se deitar. Seu único gasto com alimentação era, portanto, pela manhã: uma taça de chocolate acompanhada de manteiga e de frutas da estação. Ele só acendia a lareira nos invernos mais pesados, e somente de madrugada. Nas mesas de jantar mais distintas de Alençon ele era um convidado permanente. Seus talentos como jogador de baralho, contador de histórias e boa companhia eram apreciados: os donos das casas tinham necessidade do seu olhar de aprovação. Quando uma mulher ouvia o chevalier dizer em um baile: “a senhora está adoravelmente bem vestida!”, ela ficava mais alegre com este elogio do que com o desespero de sua rival.
(Trechos de La Vieille Fille [A Solteirona], por Honoré de Balzac, 1836)

A mãe de Chopin era uma senhora de origem aristocrática, mas de uma família sem dinheiro, de modo que se viu obrigada a trabalhar (expressão que aristocratas pronunciam como uma das maiores desgraças possíveis). Já George Sand, maior amor da vida de Chopin, não apenas tinha sangue nobre – era prima distante dos reis da França – como também era herdeira de uma charmosa casa no norte de Paris (atual Musée de la vie romantique) e de uma casa de campo em Nohant. Ou seja, Chopin esteve nesses meios de aristocratas com um sabor de ruína do passado que, na obra de Balzac, parece sempre prestes a ser varrida pelo capitalismo (tudo que é sólido desmancha no ar, escreveu um leitor atento de Balzac).

Rubinstein às vezes era descrito como um pianista aristocrático, o que talvez queira dizer que ele seguia apenas seus caprichos. Mais fiel ao espírito do que ao texto de Chopin, portanto, embora ele também não esbofeteie o texto e mantenha, sobretudo, sempre as boas maneiras, transgredindo sem perder a elegância. Reparem, por exemplo, a partir dos 5min45s do movimento lento central, uma cascata de notas descendentes que normalmente os pianistas fazem mais lenta e suave, mas Rubinstein faz rápida, como quem sorri e diz: me deu vontade. (A partitura é dúbia quanto ao andamento, expressando apenas o estado de espírito: “legatissimo dolcissimo”).

No fundo, estamos falando menos do suposto sangue azul e mais de um tipo de atitude aristocrática, uma forma imaginária de se existir no mundo, pois há também gente de linhagem nobre fazendo as manobras mais baixas como as do Princípe Andrew, filho mais novo da Rainha Elizabeth II, que conseguiu abafar todas as investigações sobre estupro de uma menor de idade.

Em Edinburgh, Escócia, durante o cortejo fúnebre do caixão da finada rainha, um jovem gritou que Andrew era um velho doente (aqui o vídeo), em seguida o jovem foi colocado no chão por policiais, preso e processado. Assim agem alguns aristocratas da vida real, mas a aristocracia expressa na música de Artur Rubinstein (como já em 1840 na de Balzac) era mais um personagem da ficção, um estereótipo como os da commedia dell’arte, ou o “núcleo rico” de uma novela da Globo sempre ao som de bossa nova.

Claudio Arrau (1901-1991): Tela sob carvão

             O Chopin escultor

A cadeira onde Balzac escrevia (sua casa é o atual Museu Balzac, em Paris) – o busto atrás é de 1844 por David d’Angers

Articular o passado historicamente não significa conhecê-lo “tal como ele propriamente foi”. Significa apoderar-se de uma lembrança tal como ela lampeja num instante de perigo. (Walter Benjamin, Teses sobre o conceito de História)

Claudio Arrau foi descrito como um pianista-filósofo por alguns críticos, e não discordo desse adjetivo. Porém, lembrando que na Grécia Antiga e em tantos outros lugares os filósofos – como os aristocratas – evitavam qualquer tipo de trabalho braçal, me parece mais adequado descrever o que Arrau faz aqui com os concertos de Chopin (2º) e de Liszt (1º) a partir da metáfora do escultor.

Distante do ar despreocupado de Rubinstein, Arrau parece preocupadíssimo em não deixar de sublinhar nenhuma intenção do compositor. Enquanto Rubinstein parece estar improvisando melodias que ele conhece desde o berço, Arrau parece estar talhando o relevo melódico e harmônico na pedra ou na madeira, com esforço evidente. A tensão em diversos momentos é fortemente romântica, acompanhada por uma orquestra com gestos grandiosos.

Arrau parece ir apontando para que o ouvinte não perca nada de importante: “veja, aqui Chopin cria tensão para depois afrouxar, ali Chopin abunda em brilho com essa cascata de notas agudas” – a que mencionamos alguns parágrafos acima, Arrau a executa de forma doce, rigorosa e sempre atenta a partir dos 6min13s.

Daniel Barenboim, em entrevista com Joseph Horowitz, disse sobre o então veterano pianista: “quando Arrau toca, uma das forças que conduzem a música é a tensão harmônica. Bem mais do que a beleza melódica de uma frase; mais ainda do que a pulsão rítmica. (…) Quando ele toca acordes, eles soam sempre tão cheios e equilibrados de forma que ouvimos tudo: não só as notas de cima e as de baixo.”

O Arrau que Barenboim conheceu era o grande mestre que trazia conhecimentos de tempos idos. Mas quando Arrau começava sua carreira, na Alemanha, a maior parte do público e dos pianistas considerava a música de Chopin apenas agradável, charmosa. Os sérios alemães não sabiam bem que estatuto dar a um compositor que se abstém da música de câmara e orquestral. O agrado fácil ao público nunca foi a ambição do artista Arrau: ele argumentaria que, uma vez tendo superado seu medo inicial de desagradar ao público, o artista deve desenvolver em seguida o medo de agradar.

Aprendendo, ao longo dos anos, a ver em Chopin música pura e abstrata, e não apenas música de salão, Arrau se afastou da dança que é o pretexto, ao menos nominal, de tantas de suas obras – Valsas, Polonaises, Mazurkas. É a harmonia, não o ritmo, o essencial em suas gravações que, como apontado por Benjamin, buscam menos recriar o mundo de Chopin “tal como ele propriamente foi”, mas sobretudo recriar as lembranças em um mármore, granito ou madeira, dando cores e texturas grandiosas às intenções e tensões do compositor.

Maria João em Belgais, Portugal (março/2020)

O Chopin poeta
Se Arrau é como um escultor que, com suas ferramentas, dá vida ao espírito que Chopin deixou preso nas partituras, Pires se comporta um pouco como atriz e sobretudo como poetisa. Como diria o Fernando Pessoa:

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

Pires, portanto, encarna as expressões de Chopin quando vai ligando as notas como se fossem palavras, sempre com um ar de facilidade, que é pura interpretação: para ela, com suas mãos pequenas, quase nada lhe é fácil de tocar, mas ela nos engana deliciosamente. A cascata aguda que já mencionamos, Pires também toca de forma delicadíssima como manda a partitura, aos 6min15s do movimento lento.

Em 2019 as plateias em São Paulo e Belo Horizonte tiveram o provilégio de ouvir Pires tocar uma monumental, equilibrada sonata op. 111 de Beethoven e uma finíssima seleção de noturnos de Chopin:
os três do op. 9 (escritos em 1830-32), os dois do op. 27 (1835) e o nº 1 op. 72 (1827-29). Do ponto de vista formal, os noturnos não são tão exigentes quanto Beethoven, é verdade. Mas o seu melodismo poético talvez não encontre paralelos na história da música. E se o público já estava dominado pelo Beethoven, aqui foi uma elevação. A interpretação de Maria João Pires, seu senso de agógica, sem nenhum maneirismo, atinge um grau de expressão artística raro mesmo entre os grandes músicos da atualidade.
(palavras de Nelson Rubens Kunze)

E também temos as palavras da poeta ou poetisa, pois no libreto dessa gravação ao vivo na Polônia, Maria João Pires se solta em uma longa entrevista:
“Eu amo os dois concertos e nunca deixo de tocá-los. Também gosto das outras obras de Chopin para piano e orquestra. E ao contrário daqueles que criticam sua habilidade de orquestração, eu acho que há também muita beleza nas partes orquestras dos concertos. Ambos são cheios de mágica, cheios de sonhos…”

“O que eu mais amo na música de Chopin é sua impermanência: ali, nada é fixo para sempre, nada é definitivo. Como na vida. Tudo muda. Normalmente as pessoas gostam de um sentimento de segurança. Não querem aceitar o fato de envelhecerem, adorariam manter suas posses, viver para sempre, mas para mim ser permanente e possessivo é contra a natureza transitória de nossa existência. E Chopin nos dá a maior lição nesse aspecto, pois nos mostra como aceitar a impermanência da vida. Nesse sentido ele é o maior dos poetas entre os músicos.”

Frédéric Chopin:
1-3. Piano Concerto No. 2, in F minor
4. Ballade No.1 in G minor Op. 23
5. Mazurka in C minor Op.56 No.3
6. Scherzo in E major Op.54
7-9. Etudes Op.10 No.6, 8, 9
10-11. Grande Polonaise brillante précédée d’un Andante spinato, Op.22
Artur Rubinstein, piano
Philharmonia Orchestra
Carlo Maria Giulini, conductor
Recorded: Royal Festival Hall, London, 16 May 1961 (Concerto), Concert Hall, Broadcasting House, London,6 Oct. 1959 (Solo Piano)

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE – Rubinstein (mp3 320kbps)

1-3. Frédéric Chopin: Piano Concerto No. 2, in F minor
4-7. Franz Liszt: Piano Concerto No. 1, in E flat major
Claudio Arrau, piano
Danish National Symphony Orchestra
Conductor: Miltiades Caridis.
Recorded: Radiohuset’s Concert Hall, 25 Nov. 1967

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE – Arrau (flac)
BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE – Arrau (mp3 320kbps)

Frédéric Chopin:
1-3. Piano Concerto No. 2, in F minor
4-10. Nocturnes Op.9 (No. 1-3), Op.27 (No. 1-2), Op.48 (No. 2), Op. posth. (Lento con gran espressione)
Maria João Pires, piano
Sinfonia Varsovia
Christopher Warren-Green, conductor
Recorded: Warsaw, 29 aug. 2010 (Concerto), 29 aug. 2014 (Nocturnes)

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE – Pires (flac)
BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE – Pires (mp3 320kbps)

F. Chopin em pintura de seu amigo E. Delacroix

Pleyel

Edvard Grieg (1843-1907): Danças Norueguesas / Danças Sinfônicas / 2 Melodias Elegíacas / Suíte Holberg (Paavo Järvi)

Edvard Grieg (1843-1907): Danças Norueguesas / Danças Sinfônicas / 2 Melodias Elegíacas / Suíte Holberg (Paavo Järvi)

Um bom disco. Paavo Järvi e a Orquestra Sinfônica Nacional da Estônia dão seguimento a suas gravações da obra de Grieg após seu muito elogiado Peer Gynt. Agora eles chegam com a música mais essencialmente norueguesa de Grieg: as ricas e coloridas Danças Sinfônicas de 1898 e as anteriores Danças Norueguesas, originalmente escritas para dueto de piano e orquestradas por Hans Sitt. Neste disco temos também a merecidamente famosa Suíte Holberg para orquestra de cordas, escrita para comemorar o bicentenário do dramaturgo Ludvig Holberg e que está imbuída do espírito setecentista de Rameau e Couperin. O enorme programa inclui ainda as duas delicadas Melodias Elegíacas que foram tocadas no funeral de Grieg.

Edvard Grieg (1843-1907): Danças Norueguesas / Danças Sinfônicas / 2 Melodias Elegíacas / Suíte Holberg (Paavo Järvi)

Symphonic Dances Op.64
01. I. Allegro moderato e marcato
02. II. Allegretto grazioso
03. III. Allegro giocoso
04. IV. Andante – Allegro molto

Two elegic Melodies Op.34
05. I. The Wounded Heart : Allegretto espressivo

Norwegian Dances Op.35
06. I. Allegro Marcato
07. II. Allegro Tranquillo E Grazioso
08. III. Allegro Moderato Alla Marcia
09. IV. Allegro Molto

Two elegic Melodies Op.34
10. II. Last Spring : Andante

Holberg Suite Op.40
11. I. Preludium: Allegro vivace
12. II. Sarabanda: Andante
13. III. Gavota: Allegretto-Musette : Un poco mosso-Gavotte
14. IV. Aria : Andante religioso
15. V. Rigaudon : Allegro con brio

Estonian National Symphony Orchestra
Paavo Järvi

BAIXE AQUI — DOWNLOAD HERE

O roqueiro em sua velhice em Bergen

PQP

Haydn (1732-1809) & Cia: Legacy – Concertos para Violoncelo & outras obras – Christian-Pierre La Marca – Le Concert de la Loge & Julien Chauvin ֍

Haydn (1732-1809) & Cia: Legacy – Concertos para Violoncelo & outras obras – Christian-Pierre La Marca – Le Concert de la Loge & Julien Chauvin ֍

Legacy

Christian-Pierre La Marca

Le Concert de la Loge

Julien Chauvin

 

Christian-Pierre La Marca

Eu sempre imagino Papa Haydn já idoso, compositor renomado, mais velho do que Mozart e Beethoven. Mas é fato que houve um jovem Joseph Haydn – cantor de coro que declinou da castrazione para manter a bela voz e que estudou música com outros mestres até tornar-se um mestre ele mesmo. Um destes músicos de uma geração anterior que a dele foi Nicola Porpora, que além de compositor de óperas foi professor de canto. Teve entre seus alunos famosos castrati, como Farinelli e Caffarelli. Haydn trabalhou como factótum (assessor para assuntos gerais) para Porpora enquanto este viveu em Viena e lembrava-se do mestre com um sorriso nos lábios. Aprendeu muito palavras italianas com ele, tais como asino, coglione e birbante. Havia também boas lembranças de cutucões nas costelas…

Foi também coisa da juventude de Haydn a composição de concertos diversos, nos primeiros anos que passou na Petit Versailles, a Corte de Estérhazy, para brindar os bons músicos que serviam a orquestra que estava a sua disposição.

Foi assim que surgiu, nos primeiros anos da década de 1760 o seu primeiro concerto para violoncelo, composto provavelmente para o violoncelista Joseph Weigl, que trabalhava ali. Aliás, o concerto ficou perdido por muito tempo, até ser redescoberto nos arquivos de um museu em Praga, em 1961. O manuscrito estava ao lado de um outro concerto de Joseph Weigl. De qualquer forma, a primeira frase do concerto havia sido registrada por Haydn em um catálogo de obras que ele começara a fazer em Estérhazy.

Julien Chauvin

O segundo concerto é tecnicamente mais difícil e foi escrito em 1783. Este foi atribuído a Anton Kraft, outro violoncelista que atuou em Estérhazy. Anton foi excelente violoncelista e deve ter dado seus pitacos na parte técnica do concerto, coisa que pode ter ajudado a causar a confusão. Kraft foi o violoncelista para quem Beethoven escreveu a parte de violoncelo de seu Concerto Triplo.

Neste ótimo disco os dois concertos são apresentados pelo violoncelista Christian-Pierre La Marca, acompanhado pela orquestra com prática de instrumentos de época, Le Concert de la Loge, regida por Julien Chauvin. O disco traz ainda obras de outros compositores da época, perfazendo um agradável programa musical. Temos uma ária do Nicola Porpora, cantada aqui pelo ótimo contratenor Philippe Jaroussky, um movimento (largo) de um concerto para violoncelo, também de Porpora, uma Sinfonia Concertante, que fora deixada inacabada por Mozart, numa reconstrução feita por Robert Levin. E também uma transcrição para violoncelo da música de balé de Gluck, danse des ombres heureuses, escrita para a ópera Orphée et Eurydice, feita por Christian-Pierre La Marca.

Joseph Haydn (1732 – 1809)

Concerto para violoncelo No. 1 em dó maior, Hob. VIIb:1

Cadenza: Christian-Pierre La Marca

  1. Moderato
  2. Andante
  3. Allegro molto

Nicola Porpora (1686 – 1768)

Concerto para violoncelo em sol maior
  1. Largo

Wolfgang Amadeus Mozart (1756 – 1791)

Reconstrução: Robert Levin

Sinfonia Concertante em lá maior (KV Anhang 104 / 320E)
  1. Fragmento

Christoph Willibald Gluck (1714 – 1787)

Orphée et Euridice
  1. Dança dos Espíritos Abençoados (Transcrição de Christian-Pierre La Marca)

Nicola Porpora (1686 – 1768)

Gli orti esperidi
  1. Ária: Giusto amor tu che m’accendi

Joseph Haydn (1732 – 1809)

Concerto para violoncelo No. 2 em ré maior, Hob. VIIb:2 (Op. 101)

Cadenza: Maurice Gendron

  1. Allegro moderato
  2. Andante
  3. Allegro

Christian-Pierre La Marca, violoncelo

Philippe Jaroussky, contatenor (Gluck)
Julien Chauvin (violino) e Adrien La Marca (viola) (Mozart)

Le Concert de La Loge

Julien Chauvin

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

FLAC | 358 MB

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

MP3 | 320 KBPS | 166 MB

Le Concert de la Loge

Partes da entrevista dada por Christian-Pierre e Julien:

LM: I wanted this program to introduce new ways of listening to Haydn’s concertos. The title of the album Legacy emphasizes more of the aspect of transmition than that of inheritance – the goodwill one generation passes on to the next, the encounters between musicians who hand down a tradition, the development of styles of writing for the instrument.

JC: Haydns’s concertos are often recorded on their own, the fact that they are ‘enveloped’ in other pieces gives them an additional dimension.

I couldn’t agree more!

Aproveite!

René Denon

Antonin Dvorák (1841-1904): Trios para Piano (Beaux Arts Trio)

Estes trios de Dvorak interpretados pelo Beaux Arts Trio já eram para ter sido postados há algum tempo, mas na correria do dia a dia, acabei esquecendo. O que é uma pena, pois trata-se de uma gravação histórica, uma das melhores já realizadas dessas obras tão peculiares. O que temos aqui é um precioso registro, realizado ainda lá no final da década de 1960, e assim se passaram cinquenta e poucos anos, mas quem se importa?

Voltar a estas obras depois de tantos anos me faz bem. Essa gravação me caiu em mãos ainda no começo do novo século, graças a gentileza de um querido amigo que sabia como eu era fã do Beaux Arts Trio, então gravou este CD pra mim. Não conhecia estas obras, Dvorák para mim até então limitava-se ao Concerto para Violoncelo e à Sinfonia nº 9. Desde a primeira audição me encantei com a delicadeza destas obras, e mais ainda com a performance deste conjunto, era um disco tão encantador e envolvente que deixei de lado alguns outros discos para ouvir este CD duplo mais atentamente.  Naquela época estava envolvido com a Universidade, e de certa forma ele foi a trilha sonora daquela período tão importante de minha vida.  Algumas vezes embalou meu sono no ônibus, quando voltava para casa de noite, depois das aulas.

Talvez o mais famoso destes trios, e mais gravado, seja o de op. 90, denominado ‘Dumky’, e assim se denominam as canções ucranianas que possuem um caráter elegíaco e reflexivo. Muito agradáveis de se ouvir em um final de semana sem maiores compromissos a não ser relaxar. E a interpretação do Beaux Arts Trio com certeza é um elemento a mais que tornam estes dois CDs IM-PER-DÍ-VEIS !!!

CD1
Piano Trio In B Flat, Op. 21
1. Allegro Molto
2. Adagio Molto E Mesto
3. Allegretto Scherzando
4. Finale (Allegro Vivace)

Piano Trio In G Minor, Op. 26
1. Allegro Moderato
2. Largo
3. Scherzo (Presto – Poco Meno Mosso)
4. Finale (Allegro Con Tanto)

CD 2
Piano Trio In F Minor, Op. 65
1. Allegro Ma Non Troppo – Poco Più Mosso, Quasi Vivace
2. Allegro Grazioso – Meno Mosso
3. Poco Adagio
4. Finale (Allegro Con Brio – Meno Mosso – Vivace)

Piano Trio In E Minor, Op. 90 “Dumky”
1. Lento Maestoso – Allegro Vivace, Quasi Doppio Movimento – Tempo I – Allegro Molto
2. Poco Adagio – Vivace Non Troppo
3. Andante – Vivace Non Troppo – Andante – Allegretto
4. Andante Moderato (Quasi Tempo Di Marcia) – Allegretto Scherzando – Meno Mosso – Allegro – Moderato 5. Allegro
6. Lento Maestoso – Vivace, Quasi Doppio Movimento – Lento – Vivace

Beaux Arts Trio
Cello – Bernard Greenhouse
Piano – Menahem Pressler
Violin – Isidore Cohen

BAIXAR AQUI – DOWNLOAD HERE

FDPBach

Respighi (1879-1936): Três Quadros de Botticelli (2 versões); As Aves; Antigas Danças e Árias suítes 1 e 3

Nossa homenagem ao saudoso Ranulfus continuará, também, através da republicação de suas preciosas contribuições ao nosso blog – como esta, que veio à luz em 21/5/2010.

Não faz muito, o PQP comentou aqui que acha Respighi chato – e eu também acho no que tange suas obras mais conhecidas, os poemas sinfônicos de intenção impressionista ‘Fontes de Roma’ e ‘Pinheiros de Roma’. Já tentei ouvir essas obras com boa-vontade, mas foi em vão.

E no entanto, acreditem: é de Respighi uma das peças que mais me fizeram gosto até hoje – seguramente uma das 10 que eu levaria para o exílio em outro planeta: o Trittico ou Trípico Botticelliano.

Justamente por isso falarei dele por último; só adianto que ‘Three Pictures of Botticelli’ é como se costuma chamar essa obra em inglês, e se usei uma tradução disso no título do post foi apenas pela oportunidade de fazê-lo ‘conversar’ com outro post que está sendo revalidado nesta mesma ocasião: os ‘Três Afrescos de Piero della Francesca’, de Martinu.

Respighi começou o estudo da música pelo violino e por sua irmã mais gorda, a viola, e aos 21 anos foi parar como primeiro violista de orquestra em São Petersburgo, numa temporada de ópera italiana. Já tinha estudado também um pouco de composição, e não perdeu a oportunidade de agarrar 5 meses de aula com Rimsky-Korsakoff, então com 56 anos – mesma idade com que ele, Respighi, morreria na década de 30.

De volta à Itália uma de suas principais frentes de atividade foi a de musicólogo: hoje parece banal conhecer a música da Renascença, mas no começo do século XX isso era atividade de garimpo, e nosso amigo foi um dos pioneiros. Editou e publicou diversas coleções de madrigais e também seu tanto de barroco – e aparentemente amou essa música com tanta intensidade que quis fazê-la sua: ao lado dos referidos poemas sinfônicos, suas obras mais famosas são as 3 suítes Antiche Danze ed Arie per Liuto, formadas por arranjos orquestrais de 4 peças renascentistas cada uma; e o curioso é que esses arranjos do alheio parecem soar mais autênticos, mais como uma voz própria, que aqueles poemas sinfônicos que são propriamente composições.

Já a suíte Gli Ucelli (As Aves) fica numa posição intermediária: aqui são um pouco mais que arranjos de peças barrocas para cravo; o artesanato de texturas, cores, ambiências, chega a momentos de expressividade intensa – ou de deliciosa comédia, como na recriação de ‘La Poule’, a famosa Galinha de Rameau.

E aí chegamos ao que é efetivamente uma composição – o Trittico Botticelliano -, mesmo se também com uso de temas antigos – do que, aliás, só tenho certeza em um caso: a melodia gregoriana Veni veni Emmanuel, que emerge aos 1:10 de ‘A adoração dos Magos’. No resto, não sei dizer se os temas são ou apenas evocam danças e cantos antigos e/ou populares, mas são definitivamente desenvolvidos em um discurso próprio – muito mais do que, digamos, o bem mais famoso Carl Orff consegue desenvolver o que quer que seja.

A palavra ‘discurso’, aliás, é bastante apropriada, pois não temos aqui a menor pretensão de ‘pintar com sons’ como nas ‘Fontane’, ou no Debussy de ‘La Mer’. O que temos são relatos de encenações interiores dos episódios que os quadros evocam.

E, querem saber? Não me importa a mínima se isto não for uma obra-mestra em técnica composicional: eu a vejo como absoluta obra-prima do afeto, da máxima amabilidade ou delicadeza (não ‘frescura’) que o ser humano consegue alcançar. E, com isso, inversão total do estereótipo do italiano como especialista do exagero, vulgaridade e barulheira – no que a comparo com outra obra-prima italiana, lamentavelmente inincontrável: o filme de Franco Brusati ‘Dimenticare Venezia’, de 1979, jamais lançado em vídeo ou DVD.

Quase da mesma época (1977) foi o vinil em que conheci essa obra, com uma realização magnífica da Orquestra de Câmara de Praga. Como prêmio de consolação por não poder postá-lo, nosso amigo José Eduardo me conseguiu duas versões – vejam abaixo de quem – que coloquei uma abrindo, outra fechando o programa.

Comparação com a obra análoga de Martinu? Não, gente, eu ainda a ouvi muito pouco para me atrever. Só digo que não me pareceu impressionista – como o Villalobiano a caracterizou – e sim francamente neo-romântica. E que sua linguagem abertamente sinfônica torna ainda mais difícil a comparação com esta aqui, quase camerística. E agora é com vocês…

Ottorino Respighi (1879-1936), obras para pequena orquestra

Trittico Botticelliano (Three Botticelli Pictures) p. orquestra (1927)
01 La Primavera

 

 

 


 

02 L’Adorazione dei Magi (a adoração dos magos)

 

 

 

 

 


03 La nascita di Venere (o nascimento de Vênus)

 

 

 


 

Gli Uccelli (As Aves) p. pequena orquestra, s. peças barrocas p. cravo (1927)
04 Preludio (Bernardo Pasquini)
05 La Colomba (a pomba) (Jacques de Gallot)
06 La Galina (a galinha) (J.P. Rameau)
07 L’Usignuolo (o rouxinol) (anônimo inglês)
08 Il Cuccù (o cuco) (Bernardo Pasquini)

Antiche Danze ed Arie (antigas danças e árias), suite 1, p. orquestra (1917)
s. peças p. alaúde de S. Molinaro, Vicenzo Galilei (pai de Galileo!) e anônimas
09 Baletto detto ‘Il Conte Orlando’
10 Gagliarda
11 Villanella
12 Passo Mezzo e Mascherada

Antiche Danze ed Arie (antigas danças e canções), suite 3, p. cordas (1932)
s. peças p. alaúde e violão de Besard, L.Roncalli, Santino Garsi da Parma e anônimo
13 Italiana
14 Aria di Corte
15 Siciliana
16 Passacaglia

Orpheus Chamber Orchestra (N.York) (DG 1993)

17 BÔNUS: Trittico Botticelliano I, II e III (1927)
Bournemouth Sinfonietta, reg. Tamás Vásáry (Chandos 1992)

. . . . . . . BAIXE AQUI – download here

Ranulfus

Restaurado por Vassily, com gratidão e saudades, em 13/2/2023

Beethoven (1770-1827) & Schubert (1797-1828): Sonatas Kreutzer & Arpeggione – Bruno Philippe, violoncelo & Tanguy de Williencourt, piano ֍

Beethoven (1770-1827) & Schubert (1797-1828): Sonatas Kreutzer & Arpeggione – Bruno Philippe, violoncelo & Tanguy de Williencourt, piano ֍

Beethoven

Sonata Kreutzer

Schubert

Sonata Arpeggione

Bruno Philippe, violoncelo

Tanguy de Williencourt, piano

A Sonata Kreutzer poderia ter sido chamada Sonata Bridgetower, não fosse uma linda tarde de concertos seguido de grandes comemorações regadas ao bom vinho do Reno em uma famosa taverna nos arredores de Viena onde os ânimos voláteis se tornam facilmente incendiáveis. Bastou um comentário menos airoso feito (infelizmente) pelo violinista inglês sobre uma certa senhorinha que andava a fazer suspirar o inspirado compositor e pianista agora já cidadão vienense. Uma amizade que nascera de admiração profissional seguida de certas identificações pessoais foi pelos ares, por um comentário leviano de um, mas imperdoável para o outro.

George Bridgetower

A Sonata havia sido composta por Beethoven tendo em mente o violinista virtuose George Bridgetower que visitava Viena nos idos de 1803, ele que crescera ali por perto, na Corte de Esterházy, fora até aluno de Haydn e agora era famoso e se estabelecera em Londres. Nessa visita andava de boas com o Ludovico, tocando seus quartetos e até dando seus pitacos na parte de violino da sonata que juntos tocaram pela primeira vez.

A história é boa e merece ser mais elucidada. George Bridgetower havia sido criança prodígio, filho de mãe alemã e de pai originário de Barbados. O casal se encontrou na Polônia, mas mudou-se posteriormente para a Corte de Esterházy. A combinação de genes era realmente feliz para a música. O filho Joseph tornou-se violoncelista e George aprendeu a tocar o violino desde a mais tenra idade. Aos dez anos já fazia tours pelas cidades europeias e sua ascendências certamente era explorada para atrair ainda maior audiência. Era apresentado como Príncipe Africano e há notícias de ter sido fantasiado com roupas turcas, que na época era algo muito exótico.

Houve até uma dedicação jocosa feita pelo Ludovico: ‘Sonata mulattica composta per il mulato Brischdauer, gran pazzo e compositore mulattico’. A inscrição mostra como os laços entre Ludovico e George eram estreitos.

Cara de Carl num dia que o Ludovico estava ‘de boas’…

De qualquer forma, o nome Sonata Kreutzer pegou, mesmo que o tal violinista Kreutzer nunca tenha encarado a obra, que é realmente espevitada. Mas o que temos neste disco não exatamente aquela peça que pode ser ouvida nas interpretações intensas de Jascha Heifetz ou de Isabelle Faust, mas sim um transcrição feita para violoncelo e piano, pelo arranjador (oficial) de Luduvico, o fiel Carl Czerny. O jovem violoncelista Bruno Philippe tem todas as credenciais de virtuose para encarar a empreitada você já conhece de outra postagem, com as Suítes para Violoncelo de Bach.

Depois desse embate, piano e violoncelo, as peças de Schubert se sobressaem pelo lirismo e beleza encantadora. Arpeggione é o nome de um instrumento – uma guitarra tocada com arco – criação de um lutier vienense, que caiu rapidamente em esquecimento, mas não sem antes inspirar Schubert a compor a Sonata, em 1824. A Sonata renasceu, publicada em 1871 e caiu nas graças de violoncelistas e violistas de bom gosto. Há inúmeras gravações espetaculares disponíveis: Rostropovich/Britten, Maisky/Argerich e entre as gerações mais novas, Queyras/Tharaud, Capuçon/Braley, sem esquecer a prata da casa: Antonio Meneses…

Para completar esse lindo disco os jovens intrépidos intérpretes Bruno Philippe e Tanguy de Williencourt apresentam as transcrições de três Lieder (canções) de Schubert. Duas delas, Nacht und Träume e Der Jüngling und der Tod fazem a transição entre a Kreutzer e a Arpeggione. Fechando o cortejo a transcrição de uma das mais lindas canções da coleção Schwanengesang, Ständchen (Serenata).

Tanguy R Bruno ‘in action’…

Ludwig van Beethoven (1770 – 1827)

Sonata para violino e piano No. 9 ‘À Kreutzer’, op. 47, em lá maior

transcrição para violoncelo e piano por Carl Czerny (1791 – 1857)
  1. Adagio sostenuto – Presto
  2. Andante con variazioni
  3. Finale – Presto

Franz Schubert (1797 – 1828)

Nacht und Träume, D. 827

  1. transcrição para violoncelo e piano

Der Jüngling und der Tod, D. 545

  1. transcrição para violoncelo e piano

Sonata para arpeggione e piano, D821, em lá menor

  1. Allegro moderato
  2. Adagio
  3. Allegretto

Ständchen, D. 889

  1. transcrição para violocelo e piano

Bruno Philippe, violoncelo

Tanguy de Williencourt, piano

Faixa extra: Ständchen, D. 889

Roderick Williams, barítono

Iain Burnside, piano

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

FLAC | 353 MB

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

MP3 | 320 KBPS | 196 MB

Tanguy e Bruno em foto de modelo de confecções em jeans…

O disco já é ‘velho’, de 2017, e Bruno Philippe já apareceu por aqui em produção mais recente, mas aposto que você não vai reclamar, se ouvir atentamente…

Aproveite!
René Denon

In memoriam Ranulfus (1957-2023)

Nós – e o mundo – perdemos Ranulfus no último dia 9, e, após reverente silêncio, retomamos as atividades do PQP Bach.

Nossas homenagens, claro, continuarão – e a caixa de comentários, que tantas e tão significativas mensagens recebeu nos últimos dias, pelas quais muito agradecemos e que encaminhamos aos que lhe eram mais próximos, seguirá aberta às manifestações de seus colegas e leitores-ouvintes.