.: interlúdio :. Etta James: 2 horas para celebrar 73 anos bem cantados

.: interlúdio :. Etta James: 2 horas para celebrar 73 anos bem cantados

Post de 22 de dezembro de 2012.

É preciso celebrar os 73 anos de vida, encerrados anteontem (em 20/01/2012), de uma das cantoras de mais intensidade expressiva que os meus 50 e tantos me deram o privilégio de conhecer: ETTA JAMES.

Não, a capa acima não é a da coletânea que estou postando aqui. Não sei que amigo me passou um dia uma pasta com essas 35 faixas não numeradas, de modo que a aleatoridade organizou o show pela ordem alfabética dos títulos. Faltaram só 6 minutos para inteirar duas horas de um panorama fascinante, que alterna das canções mais conhecidas, besuntadas daqueles violinos de produtor, até faixas que vibram de uma tensão áspera do que poderia ser chamado “partido alto do blues” – coisa que eu inicialmente nem sabia que ela tinha gravado.

Um leitor me informou que a presente coletânea seria “Etta James Gold”, lançada em 2007 – mas fui checar e há um considerável número de faixas que não coincidem. Além disso, gosto da ordem que o alfabeto conferiu às faixas aqui, de modo que proponho “oficializiar” uma nova coletânea, “ABC de Etta James”.

Uma sugestão adicional para a celebração: o filme Cadillac Records. Já se disse que ele não é historicamente fiel em muitos detalhes, inclusive quanto ao relacionamento entre o produtor da gravadora e a nossa cantora. Mas acho que, uma vez sabendo disso, não faz mal nenhum entregar-se ao prazer de assistir: é um panorama poderoso de uma certa época e de uma certa cena artística também poderosa, a Chicago do cair dos anos 40 ao alvorecer dos 60. E Beyoncé no papel de Etta James surpreende: ganhou de mim um respeito que a produção plastificante atual não me havia facilitado encontrar.

Enfim: senhoras e senhores, aí vai:

[as 35 faixas do panorama informal de Etta James]

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Ranulfus

4 concertos para violino de compositores negros, de 1775 a 1899: St-George, Meude-Mompass, Joseph White, Coleridge-Taylor

Já faz uns meses que o Frater Carlinus encontrou esta joia e, sabendo-a de seu especial interesse, repassou-a ao Monge Ranulfus – mas este andava ocupadíssimo com sua peregrinação da Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba para as vizinhanças do Convento da Penha, 1300 Km mais ao norte, e a joia foi ficando na estante à espera de algum impulso que a recolocasse na ordem do dia. E aí…

… eis que o impulso veio em 12 de outubro da forma da postagem do Grão Mestre PQP dos concertos para violino de Brahms e de Joachim realizados por… Rachel Barton Pine – precisamente a mesma violinista da nossa joia a desempoeirar!

Verdade que quando desta gravação nossa violinista ainda não se chamava Pinheiro: aparece na capa meramente como Rachel Barton – e sua biografia na Wikipedia não esclarece nada sobre essa mudança, apesar de contar com detalhes o acidente a que ela sobreviveu por pouco dois anos antes, quando a porta de um trem prendeu seu violino e ela foi arrastada pela alça por mais de 100 metros.

Outra curiosidade sobre a violinista é que ela é chegada num heavy metal e compartilha na net suas gravações de Metallica, Ozzy e outros tais – além de, como apontou o PQP no seu post, gostar de fazer teses ou aulas de suas gravações: vejam p.ex. sua narração de como Beethoven havia originalmente dedicado a Sonata “a Kreutzer” ao violinista negro George Bridgetower (do que já tratei aqui num post), num vídeo que introduz sua própria execução da sonata: http://www.youtube.com/watch?v=6W_hXRbqNIk

Não vou falar muito aqui do conteúdo do CD; vocês encontram bastante informação no encarte incluído na postagem (com o único senão que é estar em inglês). Menciono apenas que o segundo concerto gravado é o em Lá Maior op.5 nº 2, de 1775, do Chevalier de Saint-George, de que já temos duas outras gravações aqui no PQP Bach – e bastante informação sobre o compositor nas três postagens que fiz em junho de 2010.

Saint-George é ótimo, mas o CD reserva surpresas maiores com duas outras peças: o primeiro concerto é de um outro chevalier mulato, J.J.O. de Meude-Mompass, do qual não se sabe muito mais que ter nascido em Paris, ter sido mosqueteiro a serviço de Luís XVI e exilado com a Revolução, e ter morrido em Berlim. Seu concerto é 11 anos posterior ao de Saint-George, e embora também escrito na linguagem do classicismo francês tem um caráter bastante diferente – quase como se Saint-Georges se aproximasse mais do espírito de Mozart (sem ter sido influenciado por ele, como já explicamos num post anterior!), e Meude-Mompass um tanto mais de Haydn, prefigurando aqui e ali passos que pouco depois seriam dados por um aluno deste chamado Beethoven (por exemplo, no uso dos sopros na orquestra).

Ainda mais surpreendente me parece o autor do terceiro concerto do CD, composto também em Paris pelo cubano José Silvestre White Lafitte, ou Joseph White, então com 28 anos. Isso foi em 1864, ou seja: em pleno romantismo. O mais interessante para mim é que sete anos mais tarde White teria se tornado diretor do Conservatório Imperial (?) no Rio de Janeiro, permanecendo até 1889 – data que os redatores da Wikipedia em inglês provavelmente não sabem que para nós significa “proclamação da república”, o que sugere que White tenha sido um convidado e/ou protegido de Dom Pedro II. Seu concerto lembra bastante os de Paganini, mas me parece melhor orquestrado e menos voltado à pura exibição de virtuosismo que os de seu inspirador; pode não ser uma obra prima arrasadora, mas me cai bem, muito bem.

O mesmo não posso dizer da última obra do CD, o Romance em Sol Maior do inglês Samuel Coleridge-Taylor. Tudo bem que seja importante preservar a memória e a obra desse violinista, regente e compositor – mas infelizmente ele não foi exceção à estranha maldição que parece ter afetado a música inglesa depois de Purcell e Handel e antes de Britten: esse Romance me parece insuportavelmente banal, meloso e… desnecessário. Mas isso é para o meu gosto pessoal: certamente, como diz uma canção, “se você não quer tem quem queira”… Enfim, vai aí a lista das faixas – e bom proveito!

Concertos para Violino de compositores negros dos séculos 18 e 19
Rachel Barton [Pine], violino
Encore Chamber Orchestra regida por Daniel Hege (1997)

Chevalier J.J.O. de Meude-Mompass: Concerto n.º 4 em Ré (1786)
01 Allegro
02 Adagio
03 Rondeau: Allegreto

Chevalier de Saint-George: Concerto em Lá op. 5 n.º 2 (1775)
04 Allegro moderato
05 Largo
06 Rondeau

Joseph White: Concerto em fá sustenido menor (1864)
07 Allegro
08 Adagio ma non troppo
09 Allegro moderato

Samuel Coleridge-Taylor
10 Romance em Sol Maior (1899)

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Ranulfus

Canções de compositores paranaenses, 1900-1999 (Marília Vargas, soprano)

Canções de compositores paranaenses, 1900-1999 (Marília Vargas, soprano)

Nem todo CD que a gente posta neste blog é por morrer de amores pelo repertório; existem muitas outras razões possíveis. Por exemplo, o CVL e eu (Ranulfus) postamos bastante por razões de documentação: disponibilizar coisas de determinada época ou tendência artística pras pessoas poderem saber que essas coisas existem e como são.

Aliás, o próprio Grão Mestre PQP não faz isso sempre, mas quando faz vai fundo: baste ver o Miles Davis que ele postou há dois dias, que, como ele mesmo é o primeiro a dizer, é realmente o ó do borogodó.

Mas esse NÃO é, de jeito nenhum, o caso do CD que estou postando agora! É um CD muito bom; minha ressalva é só que pessoalmente sinto mais afinidade com repertórios de outras épocas e estilos.

Então minha decisão de postar estas peças brasileiras inincontráveis de outro modo tem por um lado esse caráter documental – mas também outras razões: uma delas a própria voz, e a impecabilidade no uso dessa voz, dentro da técnica que escolheu, da soprano Marília Vargas – que apesar de minha conterrânea só conheci este ano com a estupenda postagem feita pelo CVL das cantatas da compositora seiscentista veneziana Barbara Strozzi.

Pessoalmente continuo preferindo ouvir a voz da Marília nas cantatas de Strozzi – mas também não posso deixar de reconhecer o capricho, o empenho verdadeiramente amoroso colocado por Marília e pelo musicólogo Paulo José da Costa, seu pai, na pesquisa e realização do CD, não por acaso chamado (a partir de um verso de uma das canções) “Todo amor desta terra”.

As 22 faixas procedem de 8 compositores, só 2 deles vivos, com por volta de 90 anos. Desses oito, o nascido há mais tempo (130 anos) morreu com 47, vítima da gripe espanhola: trata-se de Augusto Stresser (1871-1918), sempre mencionado como autor da primeira ópera composta no Paraná, “Sidéria”, de 1912 (houve outras?). O mais recente estaria com 77 anos, se não houvesse morrido aos 74: Henrique de Curitiba (1934-2008), que comparece com um ciclo de 6 poemas musicados, mais uma faixa independente.

No entremeio temos (retomando a ordem de antiguidade) Benedito Nicolau dos Santos (1878-1956), com uma faixa – e aí as principais estrelas da “face antiga” do disco: 5 faixas de Bento Mossurunga (1879-1970) e 4 de Alceo Bocchino (1918). Entram ainda Wolf Schaia (1922-2002) com 2 faixas, Gabriel de Paula Machado (1924) com uma, e também uma de José Penalva (1924-2002).

Canções paranaenses ou curitibanas? Dos oito compositores, cinco são curitibanos – sendo que Alceo Bocchino, com 92 anos, vive há 65 no Rio. Mossurunga nasceu em Castro (cidade cujo rio é homenageado na primeira faixa), mas viveu 25 anos no Rio e bem uns 60 em Curitiba. Paula Machado parece ter vivido dividido entre sua Ponta Grossa natal e Curitiba. E o Padre Penalva, provavelmente o compositor mais denso do grupo, é paulista de Campinas; mudou-se com 34 anos para Curitiba, onde produziu o principal de sua obra nos 44 anos seguintes.

Paranaenses ou curitibanas, minha impressão é que a sombra de uma terceira cidade recai sobre pelo menos metade das canções: a do Rio antigo. Pois pelo menos metade podem ser classificadas como modinhas tardias: criações novecentistas dentro do principal gênero “de salão” da música brasileira oitocentista – “popular” na medida em que possa ser chamada assim a música cultivada nas casas senhoriais. E na combinação soprano e piano a modinha está inteiramente em casa.

Talvez o caso mais curioso no CD seja a canção do Padre Penalva (faixa 14), compositor que estamos acostumados a ver transitando entre o dodecafonismo e os clusters vocais à la Penderecki: pois não é que comparece aqui com uma espécie de modinha alunduzada? A propósito, uma exploração bastante interessante dos belos versos de Menotti del Picchia, mas em certo sentido a menos paranaense das canções: antecede em cinco anos a instalação do autor em Curitiba.

As mais paranaenses, num sentido folclorizante, são – é chato dizer, mas necessário – as que eu menos gosto: peças que pretendem estilizar para o salão um tipo de música que têm seu berço no galpão, e que vive muito bem no galpão sem precisar fingir o que não é. (Falo de um galpão sulino, puxando para o gauchesco). Cabem nesse saco (ou pelo menos tendem a ele) as faixas 2, 6 e 9, sintomaticamente chamadas “Tristeza do Pinheiro”, “Sapecada” (nome que se dá para assar pinhão no mato numa fogueira das próprias grimpas do pinheiro/araucária) e “Gauchinha”.

Eu diria ainda que duas das canções escapam ao modinheiro e ao folclorizante no rumo do Lied romântico europeu (com perdão da redundância): as faixas 5 (“As letras”, de Wolf Schaia sobre versos de Fagundes Varella) e 15 (a forte “Canção de Inverno” de Alceo Bocchino).

Finalmente, espero não estar sendo influenciado pela generosidade com que, nos anos 70, Henrique de Curitiba recebia os estudantes mais inquietos na sua mesa na Confeitaria Iguaçu ou mesmo na sua casa, ao dizer que se há uma voz propriamente pessoal no CD, essa é a sua. Não que aí também não apareça o elemento “modinha”; só que, justamente, é apenas um elemento. Também não quero dizer que a composição de Henrique me convença sempre: a última faixa do CD, por exemplo (e a exemplo de algumas outras peças suas que conheço, não neste CD), me parece ficar no nível de uma construção artificial, uma intenção de composição que não recebeu a graça daquele sopro de vida que concede naturalidade até às coisas construídas mais artificialmente. Mas Henrique também tem outros momentos –

… como o encontro entre o filho de poloneses Zbigniew Henrique Morozowicz (“de Curitiba” é nome artístico) e a filha de ucranianos Helena Kolody (1912-2004), uma modesta professora de ciências apaixonada pelas palavras desde menina, que com os anos atingiu um minimalismo singelo tão pessoal que a tornou a inegável grande dame da poesia paranaense. De 1999, os “Seis Poemas de Helena Kolody” são a peça mais recente do CD, e me caem como um vinho branco de perfume sutil. Em sua delicada síntese de eslavo e brasileiro, romântico e moderno, estudado e intuitivo, quer-me parecer que neste ciclo nosso professor e amigo Henrique chegou lá – tanto no sentido de realização pessoal quanto no de alguma coisa que possa ser chamada de “canções paranaenses”, e não apenas “de compositores paranaenses”.

Mas eu falei que postava o CD por diversas razões, e há uma que ainda não mencionei – esta bem pessoal: é que precisamente hoje, 10 de setembro, se encerra a estada de nove meses do peregrino monge Ranulfus na cidade de Curitiba: sua próxima postagem já virá de outro canto do Brasil. Daí a vontade de marcar o momento com a divulgação deste CD, o qual talvez possa ser entendido – inclusive em sua imagem de capa reproduzida abaixo – como um sensível reflexo das múltiplas e para mim fascinantes ambiguidades deste lugar.

“Todo amor desta terra” – canções paranaenses [1900-1999] (2008)
Soprano: Marília Vargas – Piano: Ben Hur Cionek
Flauta transversal: Fabrício Ribeiro (faixa 6)

01 Ondas do Iapó – Bento Mossorunga / José Gelbeck
02 Tristeza do Pinheiro – Bento Mossorunga / Alberico Figueira
03 Virgem do Rocio – Bento Mossorunga / Alberico Figueira
04 Cantiga de Ninar – Alceo Bocchino / Glauco de Sá Britto
05 As Letras – Wolf Schaia / Fagundes Varela
06 Sapecada – Bento Mossorunga / João de Barros Cassal
07 A Marília – Alceo Bocchino / Tomás Antônio Gonzaga
08 Só tu – Wolf Schaia / Paulo Setúbal
09 Gauchinha – Alceo Bocchino / Antônio Rangel Bandeira
10 Mimosa Morena – Benedito Nicolau dos Santos / Correia Junior
11 Vem – Bento Mossorunga / José Gelbeck
12 Serenata da ópera “Sidéria” – Augusto Stresser / Jayme Ballão
13 Ismália – Gabriel de Paula Machado / Alphonsus de Guimarães
14 Saudade – José Penalva / Menotti del Picchia
15 Canção de Inverno – Alceo Bocchino / Pery Borges
. . . . . . . . .
SEIS POEMAS DE HELENA KOLODY – Henrique de Curitiba
16 Cantar
17 Cantiga de Roda
18 Voz da Noite
19 Âmago
20 Nunca e Sempre
21 Viagem Infinita
. . . . . . . . .
22 E se a lua nos contasse – Henrique de Curitiba

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(com excertos do encarte)

Curitiba em 1909 por R. Klämmerer — reproduzido na capa do CD

Ranulfus

"Versos Brasileiros": suítes para coro e/ou cordas de Henrique de Curitiba, Ernst Mahle, Ronaldo Miranda, Edmundo Villani-Côrtes e Edino Krieger – Camerata Antiqua de Curitiba / Wagner Politschuk (2007)

Publicado originalmente em 18.06.2011

Faz 6 meses que venho adiando a postagem deste CD por razões mil: primeiro, esperei que a Fundação Cultural de Curitiba respondesse minha consulta sobre como adquirir o CD (já que não tem na Amazon).

Já entendi que essa resposta não vem, mas aí fiquei achando uma maldade postar a música sem as informações do gordo livreto, e cadê tempo de escanear? Recentemente arranjei algum e escaneei só o que me pareceu mais indispensável. Ficaram de fora – pena – as biografias dos compositores e intérpretes principais, etc. etc.

Aí tinha que achei muito bonito o conceito do CD, e de modo geral também a execução – mas os dois também me suscitaram interrogações e pensamentos que pensava em compartilhar aqui… só que me deu uma BAITA preguiça de esmiuçar e sistematizar!

Então, pra não ficar paralisado, pensei assim: vou postar sem maiores comentários; os leitores que ouçam, e se quiserem apresentem nos comentários sua apreciação ou não, questionamentos e opiniões – e aí, se sentir que é o caso, eu trago ao baile também os meus. Que tal?

Só não quero deixar de contar que o Monge Ranulfus participou como coralista na estréia das “Cantigas do Bem Querer” em 1977, com regência de Samuel Kerr – e não esquece de um detalhe engraçado: o Henrique de Curitiba havia aberto um volume ao acaso numa livraria e gostou dos versos que leu: achou que, mesmo ingênuos, tinham uma certa poesia que lhe inspirava canções. Não tinha a menor idéia de que Cassandra Rios era um nome escandaloso na época, tida como autora erótica que as pessoas liam escondido… e aí houve donzelas participantes do coro que arregalaram os olhos quando viram o nome “Cassandra Rios” na partitura, e cobraram explicações do maestro… hehehe. (E agora me veio a pergunta: será que hoje isso ainda poderia acontecer?)

Bom, agora é com vocês!

“VERSOS BRASILEIROS” (2007)
Coro e orquestra da Camerata Antiqua de Curitiba

Regência: Wagner Politschuk
Soprano solo: Edna D’Oliveira
Piano: Paulo Braga

Henrique de Curitiba (1934-2008)
CANTIGAS DO BEM-QUERER
para coro, cordas, piano e soprano solo
(original: 1977; esta versão, especial para a Camerata: 2003)
Versos de Cassandra Rios

01 I. Chove
02 II. No mar nasceu a cor do teu olhar
03 III. Se me disseres
04 IV. Intermezzo I
05 V. Feche os olhos meu bem
06 VI. Eu te vi (ária soprano)
07 VII. Intermezzo II
08 VIII. Final: Poeta e cancioneiro

Ernst Mahle (*1929)
SUÍTE NORDESTINA (1976) para cordas

09 I. Allegro moderato
10 II. Andantino
11 III. Vivo

Ronaldo Miranda (*1948)
SUÍTE NORDESTINA (1982) para coro a capella

12 I. Morena bonita
13 II. Dendê trapiá
14 III. Bumba chora
15 IV. Eu vou, eu vou

Edmundo Villani-Côrtes (*1930)
CINCO MINIATURAS BRASILEIRAS (1978) para cordas

16 I. Prelúdio
17 II. Toada
18 III. Choro
19 IV. Cantiga de ninar
20 V. Baião

Edino Krieger (*1928)
Duas peças para coro a capella
Versos de Vinicius de Moraes

21 PASSACALHA (1968)
22 FUGA E ANTI-FUGA (1967)

Edmundo Villani-Côrtes (*1930)
Seis peças para coro, cordas e piano

Sobre versos de Mário de Andrade
23 O PASSARINHO DA PRAÇA DA MATRIZ (1994)
24 VALSINHA DE RODA (1979)
25 RUA AURORA (1993)

Sobre versos de Júlio Bellodi
26 PAPAGAIO AZUL (1999)
27 FREVO FUGATO (1987)
28 SINA DE CANTADOR (1998)

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LINK ALTERNATIVO

Ranulfus

Restaurado – Ennio Morricone (1928-2020): A Missão / The Mission – trilha sonora (1986)

Postado originalmente em 6.10.2016

O filme de Roland Joffé A Missão explora um momento fascinante e polêmico da história da América do Sul: as missões jesuíticas entre os guaranis, cuja rede formou uma espécie de Estado autônomo por 158 anos – o qual, entre outras coisas, exportava violinos para a Europa.

Alguns, como o cineasta Silvio Back, tendem a ver as Missões (que deram nome à província argentina de Misiones) apenas como uma forma especialmente refinada da opressão dos ameríndios pelos colonizadores europeus. Outros, como o padre e historiador suíço Clóvis Lugon, as veem como o que houve de mais próximo da realização da Utopia.

Neste filme de 1986 Roland Joffé se alinhou com Lugon não porque quisesse tomar partido em uma polêmica sobre fatos acontecidos de dois a três séculos antes: seu filme é sobretudo um libelo em favor da prática política da Teologia da Libertação latino-americana no final do século XX –

… o que pode gerar uma polêmica adicional na qual não pretendo entrar: o que me interessa aqui é que A Missão é cinema do grande – e a marcante trilha de Ennio Morricone é um dos fatores que contribuem para isso.

Com, vocês, portanto, a trilha de A Missão:

01 On Earth As It Is In Heaven 3:50
02 Falls 1:55
03 Gabriel’s Oboe 2:14
04 Ave Maria Guarani 2:51
05 Brothers 1:32
06 Carlotta 1:21
07 Vita Nostra 1:54
08 Climb 1:37
09 Remorse 2:46
10 Penance 4:03
11 The Mission 2:49
12 River 1:59
13 Gabriel’s Oboe 2:40
14 Te Deum Guarani 0:48
15 Refusal 3:30
16 Asuncion 1:27
17 Alone 4:25
18 Guarani 3:56
19 The Sword 2:00
20 Miserere 1:00

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Ranulfus

[restaurado por Vassily em 10/7/2020]

Andrew Lloyd Webber (1948): Jesus Christ Superstar (uma Paixão contemporânea?)

Andrew Lloyd Webber (1948): Jesus Christ Superstar (uma Paixão contemporânea?)

Jesus Christ Superstar 1974 - capaHoje, 14.03.2014, estreia em São Paulo a segunda montagem brasileira desta chamada ‘rock opera’ – passados 45 anos de sua composição, 43 da estreia mundial, 42 da primeira montagem brasileira, e 40 da gravação apresentada aqui, regida por André Previn, como trilha de filme dirigido por Norman Jewison.

Achei um bom momento para revalidar o link desta postagem feita originalmente em 21.04.2011 – acrescentando um vídeo sobre a atual montagem brasileira (cujo protagonista – segredo aqui entre nós! – é parente de um membro da nossa equipe). SEGUE O TEXTO ORIGINAL DA POSTAGEM:

.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .
Eu devia ter 17 anos e viajei a São Paulo especialmente para ouver a São Mateus no Teatro São Pedro (tudo em família…)

Ainda não tinha o menor preparo para avaliar a regência do Eleazar de Carvalho – só lembro que achei atroz a pronúncia do alemão do evangelista estadunidense que ele havia trazido. E que na volta do intervalo meu vizinho de cadeira, um senhor português pelo menos 40 anos mais velho, puxou papo e, me tratando de “o senhor”, acabou perguntando se eu já havia visto Jesus Christ Superstar, que havia entrado há pouco nos cinemas, quatro anos depois de estrear no palcos de Londres rotulada como ópera em rock.

Devo ter feito uma espécie de cara de nojo, pois meu vizinho se apressou em dizer que também tinha ido ver com muita resistência, mas havia sido conquistado e saído do cinema encantado. O resultado foi que, de volta a Curitiba, fui quase que envergonhadamente ao Cine Condor – e saí também eu debaixo de uma espécie de sortilégio que me levou ao cinema mais quatro vezes em duas semanas.

Achei tão bom assim? Não, o ponto não era “ser bom” – o que também não quer dizer que achei ruim! Acho que primeiro de tudo foi uma experiência estética – musical e cênica – diferente de tudo o que eu já tinha ouvisto. Segundo, era uma maneira totalmente diferente – uma maneira minha contemporânea – de se relacionar com o material mítico cristão, de que quase cada minuto da minha formação havia sido impregnada.

É evidente que hoje percebo que o material temático é bastante limitado para 1 h 36 min de música – o que pode ser visto tanto como insuficiência quanto como virtude -, e que ao lado de trechos onde a linguagem blues-rock soa forte e autêntica há alguns de um “popismo” quase constrangedor… Seja como for, confesso que, no mínimo pelo papel que desempenhou em minha própria descoberta do mundo, não consigo deixar de ter estima pela obra.

E aqui me apresso a esclarecer que não empreguei o adjetivo “contemporâneo”, no título da postagem, como sinônimo de “experimental” com referência à linguagem musical – sentido em que Paixão segundo São Lucas de Penderecki, do ano anterior, seria muito mais legitimamente “uma Paixão contemporânea”.

No entanto Penderecki coloca em uma nova linguagem musical apenas palavras e sentimentos ortodoxamente católicos, que poderiam ter sido sentidos de modo idêntico mil anos antes, enquanto que o libreto de Tim Rice tenta se aproximar do material mítico cristão de uma forma questionadora, embora não sem uma tentativa de compreensão compassiva – ou seja: de uma forma tensa, complexa, de certa forma comparável à que Saramago apresentará depois no seu Evangelho segundo Jesus Cristo – e é nisso que eu vejo sua contemporaneidade – no meu ver ainda não esgotada neste 42.º ano da obra.

Pra terminar quero contar por quê não escolhi a gravação da versão de palco original de Londres, feita em 1970, e sim esta regida por André Previn, que é a trilha do filme de Norman Jewison lançado em 1974: foi sobretudo pra não abrir mão do timbre e da força interpretativa inesquecíveis com que Carl Anderson abre a obra, em seu papel de Judas –

… o que na época gerou polêmicas de todos os lados: conservadores atacavam a obra como demoníaca por apresentar um Judas tão atraente e razoável, militantes a taxavam de racista por atribuir o papel de Judas a um negro (mesmo não sendo o único no elenco). E confesso a vocês que o fato de incomodar pra todos os lados tende a ser visto por mim como uma virtude artística em si.

Mas agora é com vocês, aí vai!

Cena do filme de Norman Jewison


Andrew Lloyd Webber (1948): JESUS CHRIST SUPERSTAR (1969)
Versão regida por André Previn em 1973-74
para a versão filmada por Norman Jewison

(mais informações no arquivo)
DISC 1:
01. Overture
02. Heaven On Their Minds
03. What’s The Buzz
04. Strange Thing Mystifying
05. Then We Are Decided
06. Everything’s Alright
07. This Jesus Must Die
08. Hosanna
09. Simon Zealotes
10. Poor Jerusalem
11. Pilate’s Dream
12. The Temple
13. I Don’t Know How To Love Him
14. Damned For All Time / Blood Money

DISC 2:
01. The Last Supper
02. Gethsemane (I Only Wanted To Say)
03. The Arrest
04. Peter’s Denial
05. Pilate And Christ
06. King Herod’s Song
07. Could We Start Again, Please?
08. Judas’ Death
09. Trial Before Pilate
10. Superstar
11. The Crucifixion
12. John Nineteen: Forty-One

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ENQUANTO BAIXA, ASSISTA O MAKING-OF DA ATUAL MONTAGEM BRASILEIRA. Contém observações sobre a música que me surpreenderam!

Ranulfus
Publicado originalmente em 21.04.2011

Marlui Miranda (1949): IHU: Todos os Sons (1995) [a descoberta musical do Brasil no século XX]

Marlui Miranda (1949): IHU: Todos os Sons (1995) [a descoberta musical do Brasil no século XX]

Em agosto de 2009 o colega Marcelo Stravinsky postou aqui o CD “IHU 2”, ou “Kewere”, a missa com coro e orquestra, baseado em cantos e em textos indígenas, que Marlui Miranda lançou em 1997.

Há algumas semanas o Monge Ranulfus teve a oportunidade de apreciar ao vivo uma realização dessa missa com a própria Marlui e o coro e orquestra da Camerata Antiqua de Curitiba. Isso trouxe novamente à tona seu entusiasmo, jamais arrefecido, pelo trabalho de pesquisa e de criação dessa cearense. Quer lhe parecer que tal trabalho é o primeiro que se defronta com o material musical ameríndio não como matéria prima para uma criação musical ocidental, mas, ao contrário, coloca as técnicas ocidentais de épocas e estilos os mais diversos a serviço da própria expressão ameríndia – como quem apenas lhe realçasse os traços e evidenciasse possibilidades, sem jamais afastá-lo de sua natureza-de-alma mais própria.

Tratar-se-ia, portanto, de um ato de imensa significação histórica, pois nunca antes, em 500 anos, o olhar, ouvido e alma europeus teriam alcançado um nível de respeito e abertura tão elevados diante da expressão indígena – resultando não em mais um produto ocidental feito com matéria-prima expropriada, e sim, pelo contrário, em um sutilíssimo ato de penitência pelos imensos crimes de lesa-humanidade com que a expansão europeia se efetivou.

Enfim: brotou desse momento a vontade de compartilhar aqui o primeiro disco da série Ihu, dois anos anterior à missa, o qual não recorre ao coro e orquestra “eruditos” mas também alcança um nível extraordinário de realização musical (veja-se pelas entusiásticas resenhas deixadas no site da Amazon que foram incluídas na postagem em arquivo de texto).

E, para lhe fazer companhia, por que não repostar também a missa? Tenho tanta certeza de que o Strava não se oporá que deixei para pedir licença aqui, em pleno ar…

Uma última coisa: Marlui Miranda disse uma vez que pretendia realizar uma série de seis discos com material indígena, cada um explorando um diferente campo de linguagem. Não sei que dificuldades terá encontrado, pois parece parou nestes dois. Ainda assim que ninguém se atreveria a dizer que a realização foi pouca, não é mesmo?

Marlui Miranda (1949)
Ihu : Todos os Sons (1995)

1. Tchori Tchori (Índios Jaboti de Rondônia)
2. Pamé Daworo (Índios Jaboti de Rondônia)
3. Tche Nane (Índios Jaboti de Rondônia)
4. Ñaumu (Índios Yanomami de Roraima)
5. Awina – Ijain Je E’ (Índios Pakaa Nova de Rondônia)
6. Araruna (Índios Parakanã do Pará)
7. Mena Barsáa (Índios Tukano do Amazonas)
8. Bep (Índios Kayapó do Pará)
9. Festa Da Flauta (Índios Nambikwara do Guaporé – MT)
10. Yny Maj Hyrynh (Índios Karitiana de Rondônia / José Pereira Karitiana)
11. Hirigo (Índios Tupari de Rondônia)
12. Wine Merewá (Índios Suruí de Rondônia)
13. Mekô Merewá (Índios Suruí de Rondônia)
14. Ju Parana (Índios Juruna do Mato Grosso do Norte)
15. Kworo Kango (Índios Kayapó do Pará)
16. Mito (narração) – Mitumji Iarén (Índios Suyá do Mato Grosso do Norte)
17. Quinze Variações de Hai Nai Hai (Índios Nambikwara do Guaporé – MT)

NOVO LINK COM ARQUIVO MELHORADO
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LINK ALTERNATIVO

Marlui Miranda: pesquisa de tradições musicais dos povos da Amazônia

Ranulfus

Cláudio Santoro (1919-1989): Sinfonia n.º 6 (1958). Radamés Gnattali (1906-1988): Sinfonia Popular n.º 1 (1956)

Cláudio Santoro (1919-1989): Sinfonia n.º 6 (1958). Radamés Gnattali (1906-1988): Sinfonia Popular n.º 1 (1956)

100 anos atrás, no dia 23/11/1919, nascia em Manaus o compositor e maestro Claudio Santoro!

Em homenagem, subo novamente esta excelente performance da OSB, na época em que tinha músicos do quilate da flautista Odette Ernest Dias (ainda em atividade!), do fagotista Noel Devos (1929-2018) e recebia maestros convidados como o próprio Santoro. As madeiras são um destaque nessas duas sinfonias brasileiras. As notas da contracapa do disco, porém, não são do mesmo nível da orquestra: falam que a sinfonia de Santoro tem movimentos “que se tornam sucessivamente acelerados”, quando na verdade a ordem é a mais tradicional possível: I allegro, II lento, III allegro com humor, IV allegro serioso. Santoro e Gnattali seguem essa ordem bastante comum mas os temas e orquestrações não têm nada de comum. Fiquem com a postagem original do Ranulfus, em que ele descreve duas das melhores sinfonias brasileiras. Achei uma nova digitalização, com menos chiados do LP, recomendo que baixem as duas e façam suas comparações!

Faz poucos dias (27/07) postei uma digitalização feita em casa do Concerto para dois violões, oboé e cordas de Radamés Gnattali, e aí resolvi aproveitar o embalo e digitalizar a obra de mais peso que tenho desse compositor: a Sinfonia Popular, de 1956.

Por umas conversas com o CVL fiquei com a impressão de que ele compôs toda uma série de peças sob esse nome, mas no disco esta aparece sem número, então suspeito que seja a primeira. [Depois da postagem, o leitor Vinícius confirmou e deu a data de composição das demais: 1969 (2ª e 3ª – me parece interessante que bem no ano de lançamento deste disco!), 1974-75 (4ª) e 1983 (5ª). Valeu, Vinícius!]

A edição é do antológico selo Festa, que se empenhou em documentar a produção brasileira de concerto dos anos 50 e 60. Foi lançado em 1969, infelizmente ainda em mono – o que reduz drasticamente a percepção das vozes internas da massa sonora. A execução é da Sinfônica Brasileira (OSB) sobre regência do Cláudio Santoro, autor da sinfonia do outro lado.

Nascido em Porto Alegre, Radamés Gnattali (‘nhátali’) viveu principalmente no Rio, onde suscedeu Pixinguinha como arranjador da orquestra da gravadora Victor. Vocês vão reparar: o espírito do rádio brasileiro em meados do século 20 deve demais à sonoridade da orquestração de Gnattali.

Não vou me aprofundar em análises, só quero dizer que gosto muito dos seus trechos em contraponto (fugatos), que mostram que sabia mais que manejar massas espetaculosas para levantar cantores. E que me parece notável o seu movimento lento (Estensivo con fantasia), inteiramente baseado no pregão baiano “Olhe a flor da noite”. Até estranho que não tenha virado um standard.

Se o gaúcho Gnattali foi o mais popular e midiático dos nossos sinfonistas, talvez o amazonense Cláudio Santoro tenha sido o mais erudito e tecnicamente refinado dos nossos compositores. Sei que o CVL lhe tem fortes ressalvas, mas ainda não tive chance de aprofundar a conversa.

Talvez tenha a ver com o fato de Santoro ser vários compositores em um: nos anos 40 adotou a técnica dodecafônica, cujos resultados na maior parte – confesso – ainda hoje me parecem duros de ouvir e não sei se um dia serão menos. Mas, comunista militante, a partir de 1948 opta pelos caminhos do “realismo socialista”, voltando porém aos caminhos experimentais nos anos 60 e 70. Foi nosso compositor de sinfonias mais prolífico, sendo a primeira de 1940 e a décima-quarta de 1989, seu último ano de vida.

A Sexta Sinfonia, regida aqui pelo autor, é de 1958 e usa material temático caracteristicamente brasileiro – porém de modo muito menos óbvio e infinitamente mais complexo que o de Gnattali (não estou dizendo que melhor… nem pior!). Além disso, em vários momentos me recorda Shostakóvitch – não sei se vocês vão concordar.

Como já respondi a um leitor no outro post, fora esta sinfonia tenho pouquíssima coisa de Santoro, sobretudo peças curtas, em discos que já planejava digitalizar e postar ao longo dos próximos um ou dois semestres – mas para quem quiser ver outras coisas, e logo, há um volume considerável de obras suas no blog Música Brasileira de Concerto (agora linkado também na coluna ao lado) .

Radamés Gnattali: Sinfonia Popular [n.º 1] (1956)
01 Allegro moderato 6:07
02 Estensivo con fantasia 6:44
03 Con spirito 5:11
04 Allegro 6:03

Cláudio Santoro: Sinfonia n.º 6 (1958)
05 Allegro grazioso e vivo 4:27
06 Andante molto 5:29
07 Allegro vivo 2:40
08 Allegro deciso – final 6:10

Orquestra Sinfônica Brasileira regida por Cláudio Santoro

BAIXE AQUI VERSÃO 1 – download here
Digitalizado por Prosper Alpanus, som com menos chiados do vinil

BAIXE AQUI VERSÃO 2 – download here
Gravação em vinil (mono): Festa, 1969
Digitalizado por Ranulfus em jul.2010, com mais chiados mas talvez com menos perda de qualidade sonora

Maestro Radamés
Maestro Santoro

Ranulfus

.:interlúdio:. Andrew Lloyd Webber (1948): VARIATIONS (1978)

.:interlúdio:. Andrew Lloyd Webber (1948): VARIATIONS (1978)

Se eu dissesse “Andrew Lloyd Webber é um dos principais compositores ingleses do fim do século 20”, não duvido que alguém dissesse: “ah, mas ele é um compositor de musicais, não de música séria”.

Bom, a palavra “compositor” significa apenas que o sujeito compõe, não contém em si nenhuma obrigação de que o objeto composto seja isto ou aquilo, e não dá pra negar que esse sujeito vem compondo uma quantidade enorme de música desde 1965 – e música que não me parece pior que a de um monte de compositores admitidos no cânone convencional do “sério”. E confesso que gosto bastante deste divertimento puramente instrumental que ele compôs em 1977 – uma exceção numa obra onde a palavra e a voz são praticamente onipresentes.

Vocês sabem de quem eu estou falando, né? Do sujeito que em 1970 estourou com Jesus Christ Superstar, que pretendia ser a “primeira ópera rock” — mas a Tommy da banda The Who acabou saindo antes (além de ser, talvez, mais legitimamente rock). De um modo ou de outro, JC Superstar ficou dez anos contínuos em cartaz em Londres; nesse meio tempo virou filme (1973), logo depois do que o Andrew atacou de Evita (1976), Cats (1981), e mais tarde The Phantom of the Opera, Sunset Boulevard etc. etc.

No meio disso tudo, esta peça puramente instrumental teria sido composta para… pagar uma aposta de futebol perdida para o seu irmão Julian Lloyd Webber, cellista clássico.

A prenda exigida por Julian foi justamente que Andrew compusesse uma peça para cello e banda de rock… mas é bom não esquecer que isso foi em tempos em que a palavra “rock” estava significando sobretudo a experimentação de emprego dos primeiros sintetizadores (Moog, Arp etc.) por grupos como Pink Floyd ou com pretensões classicizantes como Emerson Lake & Palmer.

Enfim, não sei por quê, Andrew resolveu repetir a seu modo um argumento (digamos assim) de Rachmaninoff: compor um conjunto de 24 variações sobre o tema do Capricho para violino nº 24 de Paganini. No caso de Rachmaninoff saiu a Rapsódia sobre um Tema de Paganini op.43 (1934), para piano e orquestra. Andrew também fez uma introdução, apresentou o tema, mas acrescentou só 23 variações… entremeadas com algumas variações de suas próprias variações.

Que rótulo caberia nessa música? Sei lá, o que menos me interessa são rótulos… O fato é que as tais variações correram mundo — tanto que mesmo se nunca tiver ouvido falar delas com certeza reconhecerá trechos.

Além disso, em 1990 gravou-se uma versão para cello e orquestra, novamente com Julian no solo, e com Lorin Maazel, nada menos, regendo a London Philharmonic Orchestra — num disco que inclui ainda uma peça do pai de Andrew, o também compositor William Lloyd Webber. Mas esse disco eu nunca ouvi, não posso dizer nada a não ser que existe…

A propósito, já falei demais, né? Vamos logo à música:

Andrew Lloyd Webber: VARIATIONS (1978)
para cello solo e banda de rock

Introduction
Theme (Paganini Caprice in A minor No. 24) and Variations 1-4
Variations 5 and 6
Variation 7
Variation 8
Variation 9
Variation 10
Variations 11-15 (including the Tributes)
Variation 16
Variations 13-14 Varied (listed as 14-15)
Variation 17
Variation 18
Variations 19, 20 and 5 Varied (listed as 6)
Variations 21 and 22
Variation 23

Julian Lloyd Webber – cello
Don Airey – Grand Piano, ARP Odyssey, Minimoog, Solina String Ensemble,
Fender Rhodes Piano
Rod Argent – Grand Piano, Minimog, Roland RS-202, Yamaha CS-80
Gary Moore – Gibson Les Paul, Rickenbacker electric 12 string Guitar,
Guild acoustic, Fender Stratocaster
Barbara Thompson – Flute, Alto Flute, Alto & Tenor Saxophone
Jon Hiseman – Arbiter Auto-Tune drums, Paiste cymbals & gongs, Percussion
John Mole – Fender Precision Bass, Hayman fretless bass guitar
Additional performers: Dave Caddick, Phil Collins, Herbie Flowers,
Bill Le Sage, Andrew Lloyd Webber

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Andrew Lloyd Webber: heavy metal, pero no mucho

Ranulfus

J.S. Bach (1685-1750) pelo Grande Órgão e Fanfarra da catedral de Nôtre Dame (1962)

Eu não diria que este é um grande disco, mas sim que é suficientemente significativo para ser compartilhado e ouvido nesta semana de paixão/passio/passamento não só de Jesus, segundo a tradição tantas vezes e tão brilhantemente musicada por J.S. Bach, como também desse edifício de tantos sentidos atribuídos que é a catedral de Nôtre Dame de Paris.

Lançado na França em 1962 – bem antes, portanto, da ascensão do movimento de interpretação historicamente informada – o Bach de Pierre Cochereau e Armand Birnbaum soa às vezes estupidamente bombástico, às vezes efetivamente impressionante ou sinceramente comovente (caso, em especial, dos dois solos do trompetista Maurice André – faixas A03 e B03). Obviamente não cabe aí nem pensar no adjetivo “autêntico” –

… mas tampouco caberia usar a palavra “autêntico” para a própria Nôtre Dame – tantas vezes “depenada” e reformada que talvez o que conhecemos se deva mais ao arquiteto Eugène Viollet-le-Duc, em meados do século XIX, que aos seus criadores originais dos séculos XII e XIII.

O fato é que as reformas arquitetônicas e realizações musicais ditas inautênticas são elas mesmas parte da História tanto quanto as ditas autênticas… Dificilmente alguém que vai a Paris deixaria de visitar a Nôtre Dame por “inautêntica” – então talvez ainda valha a pena ouvir este disco, no mínimo para ouvirmos como certos músicos de destaque numa das principais “capitais culturais” do mundo eram capazes de interpretar o barroco de Bach em meados do século XX…

E não fiquem com vergonha se chegarem a gostar: ego, Ranulfus Monacus, vos absolvo!

“Grandes Órgão e Fanfarras na Notre Dame: Johann Sebastian Bach”

Regente da Fanfarra: Armand Birnbaum
Trompete solo: Maurice André (1933-2012)
Órgão: Pierre Cochereau (1924-1984)

Gravação PHILIPS (vinil)
França: 1962. Brasil: 1970

FAIXAS (títulos em português conforme a capa do disco)

A01 Jesus bleibet meine Freude (da Cantata 147)
……(Jesus, alegria dos homens)
A02 Wir glauben all’ an einem Gott (BWV 680)
……(Nós todos cremos todos em um só Deus)
A03 Herzlich tut mich verlangen (BWV 727)
……(Ardentemente eu aspiro a um fim feliz)
A04 Nun freut euch, lieben Christen g’mein (BWV 388)
……(Rejubilai-vos, cristãos amados)
A05 Gottes Sohn ist kommen (BWV 318)
……(O filho de Deus chegou)
A06 Ach Herr lass dein lieb Engelein (Johannespassion BVW 245)
……(Coral final da Paixão segundo São João)

B01 Sinfonie der Kantate Nr 29 “Wir danken Dir, Gott)
……(Sinfonia da Cantata nº 29 “Nós vos agradecemos, Deus”)
B02 Aus tiefer Not ruf’ ich zu Dir
……(Do fundo de minha desgraça venho a vós, Senhor)
B03 Erbarm’ dich mein, o Herre Gott (BWV 305)
……(Tende piedade de mim, oh Senhor Deus)

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Ranulfus

A.Scarlatti (1660-1725): Infirmata, Vulnerata. F.Couperin (1668-1733): Leçon de Ténèbres I. J.Rosenmüller (1619-1684): Von himmlischen Freuden. G.Ph.Telemann (1681-1767): ‘Cantata do Canário’. Dietrich Fischer-Dieskau, barítono.

Esta é uma seleção composta:  as faixas 1 e 2 foram gravadas e lançadas em 1963  no vinil com a capa ao lado; a faixa 4, já em 1957/62, e a faixa 3 apenas em 1969/72 – o que deixa entreouvir que a técnica e timbre do “barítono do século” ainda podem ter amadurecido entre seus 32 e 44 anos.

O repertório é todo barroco, e geralmente entendemos isso como “contemporâneo de Bach” – mas vejamos: quando João Sebastião nasceu:

  • Rosenmüller tinha morrido há um ano (com 65)
  • Alessandro Scarlatti estava na ativa, com 25 anos
  • Couperin tinha 17
  • Telemann tinha seus 4 aninhos (e sobreviveria JSB por mais 18)

Aldous Huxley chama a atenção, em um ensaio, para que “barroco” não parece significar o mesmo em música e nas demais artes: nestas, “barroco” sugere uma extensão da inventividade renascentista pelos terrenos do tenso, assimétrico, dramático, exagerado; já na música, o trajeto parece ser do irregular para o regular, do inventivo e do emocional para o cada vez mais padronizado e convencional (com o que Bach aparece como uma espécie de canto de cisne da invenção e originalidade no barroco).

Aqui temos em Rosenmüller (faixa 3) uma amostra do barroco seiscentista de sabor tardo-renascentista – e teríamos uma amostra do tardo-barroco mais tediosamente convencional se tivéssemos conservado a peça de Telemann incluída no vinil acima: uma cantata não-religiosa, humanista, sobre o valor da esperança (Die Hoffnung ist mein Leben), quem sabe prefigurando o que Schiller faria pouco mais tarde com o valor da alegria. Nobre intento… só que acabou dando numa das peças barrocas mais chatas que já ouvi!

Felizmente o próprio tio Dietrich se encarregou de salvar a honra de Telemann, gravando o que suspeito ser sua obra prima: a cantata tragicômica sobre a morte de um canário “experimentado em sua arte” por obra de um gato – animal que termina merecendo um movimento para xingar sua glutonice, e mais um para desejar que o canário o arranhe e bique por dentro – ao lado de frases da mais autêntica e compungida ternura dedicadas ao passarinho. Talvez mais uma confirmação de que o convívio com animais humaniza – enquanto o convívio só com ideais mumifica.

De entremeio temos o sempre intenso Couperin cantando as dores de Jerusalém subjugada pelos babilônios lá por 600 a.C. – isso como abertura das cerimônias católicas relativas à… morte de Jesus, nesse estranho sincretismo que é a cultura judaico-cristã.

E temos Alessandro! Alessandro Scarlatti, que, no meu sentir, enquanto os outros saíam do barroco provinciano seiscentista meramente para a convencionalidade dos salões da nobreza, Alessandro dá o passo e não vê só os salões: já vislumbra lá na frente a volta do primado do sentimento no romantismo, bem como a criatividade livre, expressa na imprevisibilidade e na assimetria, a ser reivindicada pelos criadores do século XX.

Eu falaria dias sobre os detalhes do meu xodó nesta seleção, que é a Infirmata, Vulnerata do Alessandro – que alguns querem ver como peça sacra, o que não me convence… – mas vou só mencionar que, quando minha mente está “tocando” Infirmata, Vulnerata, com a maior facilidade ela “desliza de faixa” e prossegue pela Actus Tragicus, composta por Bach aos 22-23 anos – ou seja: quando Alessandro estava nos seus 47-48. Para facilitar o acesso às sutilezas emocionais da obra, incluo abaixo o texto latino com uma tentativa de tradução… e deixo vocês com a música. Vão lá!

(Ah, sim: titio Dietrich & amigos foram de uma geração anterior ao movimento de instrumentos de época e interpretações estilisticamente autênticas – mas não por isso deixam de fazer música da melhor! Em todo caso, se vocês quiserem comparar com uma leitura “de época” da Infirmata, Vulnerata – com contratenor, dois violinos, órgão e tiorba no contínuo – a realização de que mais gostei até agora vocês encontram em https://www.youtube.com/watch?v=7Q1b6YsiROo . – Qual eu prefiro? As duas, claro! Se posso ter duas coisas gostosas, a troco do quê vou colocar hierarquia entre elas?)

INFIRMATA, VULNERATA: O TEXTO
(Tentativa de interpretação nas entrelinhas: Ranulfus)

Infirmata, vulnerata
Enfermada e ferida
puro deficit amore
por puro amor insuficiente
et liquescens gravi ardore
e pelo ardor penoso que se liquefaz,
languet anima beata.
jaz doente a alma abençoada.

O care, o dulcis amor,
Ó caro, ó doce amor,
quomodo mutatus es mihi in crudelem,
de que modo te transmudaste para mim em cruel,
quem numquam agnovisti infidelem!
a mim que nunca pudeste dizer infiel!

Vulnera percute, transfige cor.
Machuca, golpeia, transpassa o coração:
Tormenta pati non timeo.
sofrer as torturas não temo.

Cur, quaeso, crudelis
Por quê, por favor, cruel ...
es factus, es gravis?
... te tornaste, e sombrio?
Sum tibi fidelis,
A ti sou fiel,
sis mihi suavis.
a mim sê suave!

Vicisti, amor, vicisti,
Venceste, amor, venceste,
et cor meum cessit amori.
e meu coração se rende ao amor.

Semper gratus, desiderabilis,
Sempre bem-vindo e desejável,
semper, semper eris in me.
sempre, sempre estarás em mim.
Veni, o care, totus amabilis,
Vem, ó querido, todo amável,
in aeternum diligam te.
serei eternamente ligad@ a ti.
[Da capo] Semper gratus, desiderabilis,
[Da capo] Sempre bem-vindo e desejável,
semper, semper eris in me... In me.
sempre, sempre estarás em mim... Em mim.

FAIXAS

01 Alessandro SCARLATTI (1660-1725)
Infirmata, Vulnerata (Enferma e ferida)
Moteto(?) sobre poema em latim de autor desconhecido
Lançado em vinil em 1963 – 6 movimentos – 13’42

02 François COUPERIN (1668-1733)
Première Leçon de Ténèbres: Pour le Mercredi
(1º Ofício de Trevas: para a Quarta-Feira Santa)
Texto: Vulgata Latina: Lamentações de Jeremias, cap.1
Lançado em vinil em 1963 – 7 movimentos – 16’36

03 Johann ROSENMÜLLER (1619-1684)
Von den himmlischen Freuden (Das alegrias celestiais)
Cantata para barítono e baixo contínuo
Lançado em vinil em 1972 – 4 estrofes – 9’10

04 Georg Philip TELEMANN (1681-1767)
Trauermusik eines kunsterfahrenen Kanarienvogels
(Música fúnebre para um canário virtuose =
“Kanarienkantate” [Cantata do Canário])
Lançado em vinil em 1962 – 9 movimentos – 16’50

MÚSICOS
Voz (barítono): Dietrich Fischer-Dieskau (1925-2012)
Flauta transversal: Aurèle Nicolet (faixas 1 e 2)
Oboé: Lothar Koch (faixa 4)
Violino: Helmuth Heller (f. 1, 2 e 4); Koji Toyoda (f. 3)
Viola: Heiz Kirchner (faixa 4)
Cello: Irmgard Popper (f. 1, 2 e 4); Georg Dondere (f. 3)
Contrabaixo: Hans Nowak (faixa 3)
Cravo: Edith Picht-Axenfeld

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Ranulfus – com a colaboração dos leitores
Pedro Goria, Carlos Alberto Penha e João Ferreira

César Franck (1822-1890), obra para Órgão: primeira gravação integral, em 6 CDs

César Franck (1822-1890), obra para Órgão: primeira gravação integral, em 6 CDs

PQP Bach
12 anos de Prazer

Franck por Ross vol.1 capa
Se, no cair da noite, algo em você pedir um clima litúrgico, experimente Franck.

Se pedir intelectualidade vibrante, desenvolvimentos de idéias ousados levando a orgasmos mentais, experimente Franck.

Se pedir contemplação serena, experimente Franck.

E se estiver num estado de sensualidade mais corpórea… mesmo isso eu digo que é possível encontrar em Franck – embora admita que sintonizá-lo nesse canal já não é bem assim pra qualquer um.

É domingo e não quero torrar ninguém falando de como Franck gera obras inteiras de motivos de duas notas, das construções em arco ou espelho tipo 12321, da quase obsessão com o número 3 (3 temas, 3 partes divididas em três, 3 na cam… – ops, aí eu já não tava lá pra ver). Digo apenas: aqui você tem 3 x 2 CDs, desfrute!

As peças famosas estão sempre no segundo CD de cada par. Tudo em ordem cronológica, dá pra ver como através de diversas tentativas menores um compositor prepara os músculos para um tour de force.

No caso de Franck isso parece se dar, justamente, em três grandes ondas. No topo da última reuniu em si o potencial de ruptura de um Wagner com o potencial de renovação-do-herdado de um Brahms. Inventou o uso do órgão como orquestra, e elevou a aplicação do intrumento até um nível onde, estendendo os olhos até o horizonte, a única outra coisa que se avista é Bach.

E no entanto mais de metade da obra, em volume, consiste de pequenas peças pra tocar nos ofícios ordinários de pequenas igrejas, concebidas para caber naquela sanfona com fole de pedal que se chama harmônio. Treinado pelo pai para a carreira de pianista-prodígio, fugiu dos teatros e palcos para ir criar belezas inconspícuas em espaços de devoção obscuros.

Não se negue que em algumas dessas peças o cheiro de igreja chega a ser incômodo – mas muitas outras são arranjos de noëls – cantos populares de Natal – que parecem conversar diretamente com as miniaturas para jovens pianistas de Tchaikovski, tão divinamente gravadas por Rimma Bobritskaia neste post do PQP aqui.

Pra terminar: já disse em outro post que, no meu ouvir, Hans-Eberhard Ross não declama as frases de Franck com a clareza desejável. Mas isso não quer dizer que o interesse desta edição seja só histórico, “aqui tem a obra inteira, embora esteja ruim de ouvir”. De jeito nenhum! No mínimo os timbres do instrumento são os mais incríveis que já vi brotar de um órgão: flautas mais azuis que céu do Sul em dia de geada, baixos abismais pra DJ nenhum botar defeito…

Para cada volume (par de CDs) tem ainda um livrim com quase 30 páginas, em ingrêis e alemão. Diverti-vos!

CD 1.1
01 Piece en mi bemol, 1846
02 Piece pour Grand Orgue, 1854
03 Andantino Gm, 1856
04 Fantaisie en C, version I, 1856
05-09 Cinq pieces pour Harmonium transcrites pour Grand Orgue par Louis Vierne
10 Offertoire, Allegretto moderato en A, ~1858
11 Fantaisie en C, version II, 1863
12 Quasi Marcia op. 22 pour Harmonium, ~1865

CD 1.2
Six Pieces pour Grand Orgue, 1859-1863
01 Fantaisie op16
02 Grande Piece Symphonique op17
03 Prelude, Fugue et Variations op18
04 Pastorale op19
05 Priere op20
06 Final op21

CD 2.1
01-39 Pieces pour harmonium ou orgue a pedales (L’Organiste II)

CD 2.2

01-05 Pieces pour harmonium ou orgue a pedales (L’Organiste II)
06 Fantaisie C major, version III, 1868
07 Entree pour Harmonium, 1875
08 Fantaisie en A (3 pieces pour Grand Orgue, 1878)
09 Cantabile (3 pieces pour Grand Orgue, 1878)
10 Piece heroique (3 pieces pour Grand Orgue, 1878)
11 Petit Offertoire pour Harmonium, ~1880
12 Andante quasi lento pour Harmonium, ~1880

CD 3.1
Pieces pour Orgue ou Harmonium, 1990
(7 sobre cada nota, em maior ou menor; projeto inconcluso, faltando 3 grupos: A, Bb, B)
01-08 Sept Pieces en C et Cm (+ Amen = 8 faixas)
09-16 Sept Pieces en Db et C#m
17-24 Sept Pieces ‘Pour le temps de Noel’ en D et Dm
25-32 Sept Pieces en Eb et Ebm
33-40 Sept Pieces en Em et E
41-48 Sept Pieces en F et Fm

CD 3.2
Pieces pour Orgue ou Harmonium, 1990 (continuação de 3_1)
01-08 Sept Pieces en F# et Gbm
09-16 Sept Pieces ‘Pour le temps de Noel’ en G et Gm
17-23 Sept Pieces en Ab et G#m
24 Choral I en E, 1890
25 Choral II en Bm, 1890
26 Choral III en Am, 1890

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Ranulfus

IN VINEA MEA: vinhos & vinhas na Idade Média com o Ensemble Chominciamento de Gioia

IN VINEA MEA: vinhos & vinhas na Idade Média com o Ensemble Chominciamento de Gioia

Para festejar a entrada de um novo ano o monge Ranulfus foi buscar vinhos de anos velhíssimos: a Idade Média.

Talvez o que mais o tenha inspirado a fazê-lo seja o nome do grupo: Chominciamento de Gioia – onde a primeira palavra (se não falha agora o tino linguístico do referido monge) com toda probabilidade é derivada no verbo italiano cominciare (começar), apenas que numa grafia incomum, dando ao conjunto o sentido de “puxar festa”, de provocação ou incitamento à alegria (gioia), ou até mesmo de “alegre começo”. Para que coisa melhor, então, numa entrada de ano?

Ainda mais falando de vinhos, videiras e vinhas!

Verdade que em muitas das peças o vinho entra domado por fortes sentidos religiosos – especialmente naquelas cantadas em (tinha que ser!) galaico-português.

Ainda assim, o monge espera que possa ser um bom divertimento a pelo menos uma boa parcela dos nossos leitores – ainda mais que os textos todos estão incluídos no arquivo. Isso ajuda até mesmo a seguir a versão orffiana (mais conhecida) da canção satírica In Taberna, da coletânea medieval de canções conhecida como Carmina Burana, que encerra o CD.

Mas agora vam’bora, cada um atrás da sua taça, que o ano não tarda!!

IN VINEA MEA: vinhos & vinhas na Idade Média com o Ensemble Chominciamento de Gioia

01 Bacche bene venies – Carmina Burana nº 200 – séc.13
02 Deficiente vino – Ms I-Pa 2788, Perugia – séc.14
03 Como Deus fez vynno 0 Cantigas de Santa Maria nº 23 – séc.13
04 Bon vin doit – Roman de Fauvel – séc.14
05 Alte clamat Epicurus – Carmina Burana nº 211
06 L’autre lèr cuidèl aver druda – Chãnson trobadorica, NN – séc.12
07 Ben pod’as cousas – Cantigas de Santa Maria nº 73 – séc.13
08 Sacerdos in aeternum – Ms I-Pa 2799, Perugia – séc.14
09 Procurans odium – Carmina Burana nº 12 – séc.13
10 Vinum bonum – Ms. Egerton – séc.13
11 Ges de disnar – Bertrand de Born – séc.12
12 Dixit pater familias – Ms I-Pa 2785, Perugia – séc.14
13 Poder a Santa Maria – Cantigas de Santa Maria nº 161 – séc.13
14 Felix vitis – Ms I-Pa 2785, Perugia – séc.14
15 A que Deus – Cantigas de Santa Maria nº 351 – séc.13
16 O Divina Virgo flore – Laudario di Cortona – séc.13
17 On parole / A Paris / Frese nouvella – Ms. Montpelier – séc.13
18 In taberna – Carmina Burana nº 196 – séc.13

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PS: por muito tempo este CD pareceu inencontrável na Amazon – até que em 06/04/2016 o(a) leitor(a) que se identifica como Sedmagis nos enviou o link – que agora, finalmente, foi incorporado à imagem no alto do post, e de quebra matou a charada da inencontrabilidade: em 2010 recebi o arquivo com um erro de latim no título, que é IN VINEA, não IN VINA. Sem sermos especialistas em línguas mortas, acabamos engolindo essa mosca por mais de cinco anos. Valeu, Sedmagis!!

Johannes Vermeer: O Copo de Vinho (1658-1660). Gemalde Galerie Berlin.

Ranulfus

J.S. Bach (1685-1750), F. Gulda (1930-2000): GULDA PLAYS BACH (ao vivo)

Não encontrei a data nem o local desta gravação – só sei que, depois de ouvi-la, reouvi-la e reouvi-la, não tenho como não compartilhar!

Sei, Friedrich Gulda é daqueles pianistas que (à parte seu envolvimento com jazz e sabe-se lá mais o que) não está muito preocupado se seu toque está de acordo com esta ou aquela concepção teórica de como a música deve ser: está interessado em fazer música de acordo com o que seu corpo & coração sentem que seja música – não por isso descuidando da capacitação técnica para realizá-lo. Nem todos gostam disso, eu sei… mas da minha parte, o resultado aqui, é, confesso, o Bach que eu gostaria de tocar (caso não tivesse fugido do trabalhoso caminho que é o da formação pianística).

Os primeiros minutos do recital me surpreenderam soando bastante como Glenn Gould (o que não é necessariamente uma crítica!), mas basta chegar à primeira Sarabande para perceber que estamos ouvindo um pianista que, longe de se ater a uma mesma abordagem programada para toda a vida, se reserva a liberdade de usar uma abordagem diferente para cada peça a que dirige seu coração. Não que essas abordagens sejam arbitrárias: aqui pela primeira vez ouvi algo de inglês nas Suítes Inglesas (especialmente nas Bourrés da 2ª Suíte [faixa 6] e as Gavottes da 3ª [faixa 17]).

Enfim: digo sempre que não gosto de instrumentistas que tocam, e sim dos que dizem a música com seus instrumentos. Pois no Bach de Gulda não encontro nem uma única frase meramente tocada: até a frase aparentemente mais secundária de uma voz de apoio, tudo é dito; cada frase se sustenta como um discurso em si.

Então vamos a esse discursos – depois desta última observação: o Prelúdio e Fuga do próprio Gulda, apresentado como bis, já foi postado aqui há algum tempo em versão de estúdio.

GULDA PLAYS BACH
01 Apresentação

J. S. BACH (1685-1750)
SUÍTE INGLESA nº 2 em la menor – BWV 807
02 I Prelude
03 II Allemande
04 III Courante
05 IV Sarabande
06 V Bourrée I e II
07 VI Gigue

CONCERTO ITALIANO em fa maior – BWV 971
08 I [Allegro]
09 II Andante
10 III Presto

TOCCATA em do menor – BWV 911
11 I Toccata
12 II Fuga

SUÍTE INGLESA nº 3 em sol menor – BWV 808
13 I Prelude
14 II Allemande
15 III Courante
16 IV Sarabande
17 V Gavotte I e II
18 VI Gigue

CAPRICCIO em si bemol maior
“SOPRA LA LONTANANZA DEL SUO FRATELLO DILETTISSIMO” – BWV 992
19 I Arioso (adagio)
20 II —
21 III Adagiosissimo
21 IV —
22 V Aria de Postiglione (allegro poco)
23 VI Fuga all’imitazione di posta

F. GULDA (1930-2000)
PRELÚDIO E FUGA
24 I Preludio
25 II Fuga

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Ranulfus
– com agradecimentos a Carlinus pelo arquivo,
renormalizado para esta postagem.

J. S. Bach (1685-1750): Peças para Órgão

J. S. Bach (1685-1750): Peças para Órgão

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Nem lembro onde encontrei esse CD que é quase uma espécie de ‘Bach’s greatest hits for organ’ realizado pelo músico de peso que é o holandês Tom Koopman. Não estou postando esta realização destas obras porque seja “a definitiva”, sei que jamais existirá realização definitiva de nenhuma música. Mas as realizações de Koopman me pareceram bonitas e instigantes demais para não serem conhecidas ao lado de outras realizações destas mesmas obras – ainda mais que até então nosso blog só tinha Bach por Koopman como regente, e não como organista.

Umas poucas palavras sobre as obras: a Toccata e Fuga em ré menor é possivelmente a obra mais conhecida de Bach Pai – mas lamentavelmente sobretudo através do clichê caricato do cientista maluco tocando no porão do castelo enquanto comemora alguma vitória que não tardará a ser revertida pelo super-herói. Talvez por tão desgastada é que Koopman tenha se sentido provocado a dar uma interpretação diferente já do ornamento do primeiro acorde – o que com certeza irritou muitos amantes de certezas mundo afora.

A Toccata, Adagio e Fuga em Dó maior não é de modo nenhum uma obra menor que a em ré menor – talvez até pelo contrário -, então fico feliz que Koopman a haja ‘contrabandeado’ entre os ‘hits’ mais conhecidos que são a em re menor e a Passacaglia ou Passacalhe em do menor – obra que não consigo deixar de comparar com a não menos famosa Chaconne em re menor: duas séries de variações interligadas sobre um tema pra lá de enxuto, com a diferença de que a Passacalhe é complementada por uma monumental Fuga sobre o mesmo tema, enquanto a Chaconne aparece inserida em uma suíte de danças (para lá de) estilizadas. Mas o que me parece mais instigante na comparação é que essas obras tão análogas sejam destinadas a meios instrumentais tão radicalmente diversos: uma, para o único instrumento que pretende ser toda uma orquestra na mão de um só executante; a outra para um supostamente débil violino desacompanhado.

Da Pastorale não direi nada senão que está entre aquelas poucas obras para órgão que dá pra ouvir na calada da noite sem incomodar os vizinhos – e que (para quem não conhece a tradição) está composta na tonalidade de fá como todas as peças que usam o nome “pastoral”.

E quanto aos corais… bom, relembro mais uma vez que “coral” é a palavra para “hino” na tradição luterana, e que todos os “corais” instrumentais são arranjos de tais hinos, com menor ou maior quantidade de material temático complementar.

J. S. Bach (1685-1750): Peças para Órgão

Toccata & Fugue In D Minor, BWV 565
1 Toccata 2:31
2 Fuga 5:29

Toccata, Adagio & Fugue In C Major, BWV 564
3 Toccata 5:07
4 Adagio 4:05
5 Fuga 4:26

6 Passacaglia In C Minor, BWV 582 12:50

7 Pastorale In F Major, BWV 590 12:00

6 Chorales Of Diverse Kinds (“Schübler” Chorales)
8 Wachet Auf, Ruft Uns Die Stimme BWV 645 4:09
9 Wo Soll Ich Fliehen Hin BWV 646 1:36
10 Wer Nur Den Lieben Gott Läßt Walten BWV 647 4:09
11 Meine Seele Erhebet Den Herrn BWV 648 3:24
12 Ach Bleib’ Bei Uns, Herr Jesu Christ BWV 649 2:19
13 Kommst Du Nun, Jesu, Vom Himmel Herunter BWV 650 3:23

Ton Koopman, órgão

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Libera uma dessas crianças para o Bach, vai.

Ranulfus

Camille Saint-Saëns (1835-1921): Oratório de Natal

Camille Saint-Saëns (1835-1921): Oratório de Natal

O monge Ranulfus confessa que de modo geral detesta dar atenção ao Natal… mas nesta sua temporada de peregrinações passou da mui barroca e africana cidade de Salvador para a de Curitiba, que, mesmo sendo capital de um dos estados mais caboclos do Brasil, concebe-se com tanta fé em algum ponto entre Paris e Viena que até chega a realizar de fato, em alguma medida, essa posição.

E, zanzando pelas ruas dessa capital caboclo-europeia, topou com uma apresentação da Camerata Antiqua na bonita Capela Santa Maria, resgatada pela cidade de um antigo colégio que se mudou (ver foto abaixo) – apresentação essa de caráter totalmente natalino… mas, relaxem, sem nada de Noite Feliz nem de Jingle Bells: um In Terra Pax do inglês Gerald Finzi (1901-1956) e o mais mencionado que conhecido Oratório de Natal de Camille Saint-Saëns, tudo isso numa realização de uma beleza serenamente arrebatadora – se é que alguém consegue conceber tal combinação de qualidades!

Camerata Antiqua de Curitiba, Capela Santa Maria, 18.12.2010

Naturamente o monge Ranulfus saiu de lá com enorme vontade de compartilhar aquele concerto com seus amigos do PQP Bach… mas não sendo possível conformou-se com esta gravação alemã do oratório de Saint-Saëns, deixando para ver se encontra a bonita obra de Finzi em outra ocasião.

Saint-Saëns tinha apenas 23 anos quando compôs este oratório, uma obra de ~40 minutos para 5 vozes solistas, coro, órgão, harpa e orquestra. O hino final é consideravelmente conhecido e cantado por aí, mas creio que há bem mais a conhecer e apreciar nesse oratório. Pessoalmente achei os tempos e dinâmica do regente Diethard Hellmann um pouco burocráticos, especialmente no primeiro recitativo e no hino final, que poderia soar bem mais exultante… mas acho que isso não precisa nos atrapalhar na descoberta da obra, não concordam?

Então vamos lá:

Camille Saint-Saëns (1835-1921)
Oratorio de Noël, Op. 12 (1858) [39:38]

1-Prélude (Dans le style de Séb. Bach) (3:16)
2-Recit et Choeur: Et Pastores erant – Gloria (coro) (5:47)
3-Air: Expectants expectavi Dominum (mezzosoprano) (4:08)
4-Air et Choeur: Domine, ego credidi (tenor e coro) (4:01)
5-Duo: Benedictus qui venit (soprano e barítono) (4:03)
6-Choeur: Quare fremuerunt gentes (coro) (3:59)
7-Trio: Tecum principium (mezzosoprano, tenor e barítono) (4:23)
8-Quatour: Alleluja (soprano, soprano, contralto e barítono) (2:14)
9-Quintette et Choeur: Consurge, Filia Sion
(soprano, mezzosoprano, contralto, tenor, barítono e coro) (5:29)
10-Choeur: Tollite hostias (coro) (2:18)

Coro Bach e Orquestra Bach de Mainz
Verena Schweizer (soprano)
Edith Wiens (mezzosoprano)
Helena Jungwirth (contralto)
Friedreich Melzer (tenor)
Kurt Widmer (barítono)
Hans-Joachim Bartsch (orgão)
Barbara Biermann (harpa)
Diethard Hellmann (condutor)

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Marten de Vos: O Nascimento de Cristo (1577)

Ranulfus

Camerata Brasil: BACH IN BRAZIL (2000)

cover

Não, amigos, não pensem num desses projetos de “clássicos popularizados”: o que temos aqui é a exploração de como uma tradição instrumental contrapontística soa quando lida através de outra tradição instrumental contrapontística (sim!) de origem predominantemente europeia (sem, ao dizê-lo, considerar inferiores os seus traços musicais exoeuropeus!). E como essas duas tradições podem, sim, conversar lindamente!

O principal responsável por esta aventura é Henrique Cazes, mestre do cavaquinho que, entre outras coisas, atuou sob a orientação de Radamés Gnattali na Camerata Carioca. Para verem a seriedade, passo a palavra ao próprio Henrique, com a retradução de um texto que já não está disponível no seu próprio site, mais foi preservado na página internacional http://www.bach-cantatas.com/Bio/Brasil-Camerata.htm (original + resenha de Tárik de Souza [2000] incluídos no arquivo).

O choro, música instrumental típica do Rio de Janeiro, é uma forma popular com algumas características incomuns. Apareceu cerca de 150 anos atrás e continuou evoluindo e atraindo novos músicos a cada nova geração, escapando todo o tempo da rígida formalização tão comum aos estilos dessa época.

O choro se desenvolveu a partir da adaptação de danças europeias como a polca e o schottisch, à medida em que iam sendo transformadas com os acentos sentimentais típicos de Portugal e com os espirituosos ritmos da África. Ainda assim, o Choro reteve em suas melodias algumas características de suas origens barrocas.

O parentesco entre esses estilos tem interessado músicos e musicólogos há muito tempo, mas o primeiro a olhar para essas conexões em profundidade foi Heitor Villa-Lobos, o qual compôs a série Bachianas Brasileiras, que estreitou os laços entre o choro e o barroco. Mais tarde, o compositor e pianista Radamés Gnattali estabeleceria uma trilha paralela entre Vivaldi e o compositor de choro brasileiro Pixinguinha.

Tentativas de ampliar a formação dos grupos do Choro começaram na década de 1970, quando músicos populares com pouco treinamento formal começaram a experimentar. As sonoridades se encaixaram tão bem nos estilos do Choro que isso desencadeou uma evolução rápida e continuada, que seguiu se refinando cada vez mais. Desses esforços que provieram grupos como a Camerata Carioca, a Orquestra de Cordas [parágrafo aparentemente truncado]

Em Bach in Brazil, a riqueza polifônica e os timbres de instrumentos como o bandolim e a viola caipira (servindo aqui como um tipo de cravo, só que com os acordes dedilhados), ajudam a estreitar ainda mais essa relação musical através tanta distância temporal e geográfica. O espírito resultante, a ressonância, é como se o sol quente do Rio de Janeiro começasse a brilhar nos céus sóbrios de Leipzig.

O octeto que forma a Camerata Brasil faz uso de violões (tanto de seis quanto sete cordas), do cavaquinho (similar ao ukelele havaiano) e da viola caipira (a viola braguesa, em Portugal) que são comuns a todas as antigas colônias portuguesas em todo o mundo. No Brasil, a forte presença da imigração italiana acrescentou os dois bandolins, enquanto a percussão, traço tão comum na música brasileira, incorpora elementos dos povos africanos e árabes do Brasil – tudo isso ancorado com um contrabaixo. Artistas convidados tocam piano, violino, clarinete e sax soprano.

Camerata Brasil : BACH IN BRAZIL
Diretor musical: Henrique Cazes

FAIXAS
01 Allegro – Concerto Italiano em Fa Maior BWV 971
Johann Sebastian Bach, arranged by Leandro Braga – 4:40

02 Remexendo
Radamés Gnattali, arranged by Henrique Cazes – 2:54

03 Invenção a duas vozes n°13
Johann Sebastian Bach, arranged byMarcílio Lopes – 2:06

04 Vivace – Concerto em Re Menor para 2 Violinos e Orquestra, BWV 1041
Johann Sebastian Bach, arranged by Henrique Cazes – 3:23

05 Chorando Baixinho
Abel Ferreira, arranged by Henrique Cazes – 4:15

06 Prelúdio – Suite em Do Menor para cravo, BWV 997
Johann Sebastian Bach, arranged by Henrique Cazes – 3:06

07 Vou Vivendo
Pixinguinha, arranged by Radamés Gnattali – 2:49

08 Variações Sobre O Samba Do Urubú
Radamés Gnattali, arranged by Henrique Cazes – 2:36

09 Ária – Bachianas Brasileiras N°5
Heitor Villa-Lobos, arranged by Henrique Cazes – 5:55

10 Allegro – Concerto De Brandenburgo n°6, BWV 1051
Johann Sebastian Bach, arranged by Henrique Cazes – 4:14

11 Um A Zero
Pixinguinha, arranged by Leandro Braga – 3:11

12 Ele E Eu / Badinerie da Suite n° 2 para flauta e cordas, BWV 1067
Pixinguinha / Johann Sebastian Bach, arr. by Henrique Cazes – 3:00

13 Giga – Partita n°4 em Re Maior para teclado
Johann Sebastian Bach, arranged by Marcílio Lopes – 4:41

14 Invenção a duas vozes n°8
Johann Sebastian Bach, arranged by Leandro Braga – 2:12

Label: EMI Records Ltd. ‎– 7243 5 56967 2 4
Format: CD, Album
Country: Europe
Released: 2000

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Ranulfus

J. S. Bach (1685-1750): Integral das Sonatas para Flauta (Larrieu, Puyana, Kuijken, 1967)

cover LP 1967Parece piada: ausente há anos por força das circunstâncias, o monge Ranulfus vinha acalentando o plano de reaparecer neste feriadão postando uma de suas joias mais queridas: esta integral das Sonatas para Flauta de Bach Pai. E aí… eis que na véspera nos aparece o Grão Mestre PQP com outra integral (esta aqui). Que fazer?

Ora, quod abundat non nocet – sobretudo contra a hipobachemia tão bem definida ontem pelo Grão Mestre. Em vez de um ribeirão (Bach) os senhores ganham dois num feriado só: muito mais material, seja para meramente desfrutar, seja para comparar: afinal, vive la diférence!

A propósito, já no repertório há uma diferença curiosa entre a integral postada ontem e esta aqui: aquela contém a Sonata BWV 1039; esta contém no lugar a Sonata BWV 1013 para flauta solo – com o quê resta a pergunta: serão as duas realmente integrais?

Mas vamos à substância:

J.S. Bach: INTEGRAL DAS SONATAS PARA FLAUTA
Flauta – Maxence Larrieu
Cravo – Rafael Puyana
Viola da Gamba – Wieland Kuijken

SONATA EM SOL MENOR PARA FLAUTA E CRAVO, BWV 1020
01 (Allegro)
02 Adagio
03 Allegro

SONATA EM SI MENOR PARA FLAUTA E CRAVO, BWV 1030
04 Andante
05 Largo e dolce
06 Presto – Allegro

SONATA EM MI BEMOL MAIOR PARA FLAUTA E CRAVO, BWV 1031
07 Allegro moderato
08 Siciliano
09 Allegro

SONATA EM LA MAIOR PARA FLAUTA E CRAVO, BWV 1032
10 Vivace
11 Largo e dolce
12 Allegro

SONATA EM LA MENOR PARA FLAUTA SOLO, BWV 1013
13 Allemande
14 Corrente
15 Sarabande
16 Bourré anglaise

SONATA EM DO MAIOR PARA FLAUTA E BAIXO CONTÍNUO, BWV 1033
17 Andante – Presto
18 Allegro
19 Adagio
20 Menuetto I-II

SONATA EM MI MENOR PARA FLAUTA E BAIXO CONTÍNUO, BWV 1034
21 Adagio ma non tanto
22 Allegro
23 Andante
24 Allegro

SONATA EM MI MAIOR PARA FLAUTA E BAIXO CONTÍNUO, BWV 1035
25 Adagio ma non tanto
26 Allegro
27 Siciliano
28 Allegro assai

Gravação: 1967 – Philips [438809]
Arquivos presentes extraídos da edição em CD de 1993

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Ranulfus

Música Barroca Española – Montserrat Figueras com Jordi Savall e Ton Koopman (1975)

Música Barroca Española - Figueras y Savall (Das Alte Werk, 1975)

FATO RELEVANTE !

Uma alma bondosa da Espanha, “drivers66”, informa-nos que o presente LP foi digitalizado para CD em 1992 e, para completar a gentileza, ripou o CD e nos enviou os links. Repostamos, pois, o álbum com novos e excelentes links e com a faixa 6 completa. ¡Gracias!

Ao que tudo indica esta gravação, realizada em 22 e 23 de abril de 1975 e lançada pela Telefunken alemã, nunca foi relançada em CD – o que é espantoso, pois parece ter sido a primeira a chamar ampla atenção mundial para um certo casal de músicos catalães: Montserrat Figueras, soprano especializada em técnicas de canto anteriores ao bel canto padronizado dos 1700 e 1800, e Jordi Savall, violista da gamba que, como todos sabem, no início do século XXI estaria consagrado como um dos maiores regentes mundiais de música antiga. Em 1975 os dois estavam casados havia 7 anos – como permaneceriam até a morte de Montserrat em 2011, com 69 anos – e há um ano haviam fundado o Grupo Hespèrion XX (depois Hespèrion XXI).

Além do casal, participaram da gravação Janneke van der Meer ao violino, Pere Ros ao violone (espécie de contrabaixo), e ao cravo ninguém menos que Ton Koopman, que também viria a ser um dos mais respeitados regentes de música antiga do início do século XXI, além de renomado organista.

A esta altura vocês devem estar doidos para baixar e ouvir, portanto faço só mais uma observação: quem está acostumado a associar a palavra “barroco” a Vivaldi, Handel e J.S. Bach pode estranhar esta música e pensar que os espanhóis estavam barbaramente defasados em relação ao resto da Europa… Acontece que esse rótulo cobre um período bastante amplo – equivalente ao decorrido entre 1850 e 2000, pra terem ideia. Nesta analogia, a música deste disco teria sido toda composta até 1880, enquanto Bach ou Vivaldi estariam no auge da sua atividade por volta de 1980: um intervalozinho desprezível em que a música não mudou nada, como podem ver… Enfim: o barroco antigo deste disco ainda é quase renascença – e sendo assim atinge em cheio a sensibilidade deste arcaico monge que vos escreve.

Junto aos arquivos de áudio vocês encontrarão, em baixa e em alta definição (jpg e tiff), o escaneamento da capa e contracapa da edição brasileira do disco, e na contracapa um erudito texto de um certo Karl Ludwig Nikol sobre o repertório. Remeto os interessados ao arquivo Contra-capa.tiff para não sobrecarregar o texto aqui –

sobretudo porque ainda é preciso apresentar os créditos ao nosso grande e querido Avicenna, que foi quem resgatou magistralmente o som desta gravação do velho vinil em que se encontrava aprisionado. Só não conseguiu com os últimos 24 segundos da faixa A.6, irremediavelmente perdidos num defeito de fabricação do único exemplar desse LP a que tivemos acesso. Estou seguro de que vocês concordarão que a omissão desses 24 segundos é desprezível diante do valor do conjunto.

E, como diz Lope de Vega na faixa 2 (num dos pares de versos mais belos que já conheci):
               Já é tempo de recolher,
               soldados da minha memória!

MUSICA BARROCA ESPAÑOLA

  • 01 – Autor desconhecido (entre 1580 e 1650):
    O, que bien que baila Gil (romance de Lope de Vega – 1562-1630)
  • 02 – Autor desconhecido (1628):
    Ya es tiempo de recoger (romance de Lope de Vega – 1562-1630)
  • 03 – Bartolomé de Selma y Salaverde (?-~1640):
    Canzona a due nº XIII
  • 04 – Mateo Romero (?-~1647):
    Romerico florido (folia a 2)
  • 05 – Mateo Romero (?-~1647):
    Hermosas y enojadas (romance a 3)
  • 06 – Bartolomé de Selma y Salaverde (?-~1640):
    Corrente I y II a 2
  • 07 – Juan Hidalgo (1612-1685):
    Cuydado, pastor
  • 08 – Juan Hidalgo (1612-1685):
    Trompicávalas, amor
  • 09 – Bartolomé de Selma y Salaverde (?-~1640):
    Fantasía sobre El Canto del Caballero (1638)
  • 10 – Juan Hidalgo (1612-1685):
    Crédito es de mi decoro
  • 11 – Juan Hidalgo (1612-1685):
    Tonante Diós! 
  • 12 – Juan Hidalgo (1612-1685):
    De las luces que el mar (recitativo e solo de Minerva)
  • 13 – Bartolomé de Selma y Salaverde (?-~1640):
    Canzona a due nº XI
  • 14 – Miguel Martí Valenciano (17..):
    Ay del amor
  • 15 – Juan de Navas (17..):
    La Rosa que reyna

Montserrat Figueras – soprano
Janneke van der Meer – violino
Jordi Savall – viola da gamba
Pere Ros – violone
Ton Koopman – cravo
Gravado em Amsterdã em 22 e 23/04/1975

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- Capa do CD editado em 1992.
– Capa do CD editado em 1992.

 

 

 

 

 

 

 

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Texto e aquisição do vinil nos anos 70: Ranulfus
Engenharia de som: Avicenna drivers66

Händel (1685-1759): DIXIT DOMINUS – Luis Álvares Pinto (Recife, 1719-1789): TE DEUM – Camerata Antiqua de Curitiba, 1995 (Acervo PQPBach)

Originalmente postado em 10 de dezembro de 2011 pelo monge Ranulfus e agora atualizado pelo Avicenna, com links atualizados.

Com esta, são CINCO as versões integrais do Te Deum de Luís Álvares Pinto postadas neste blog.

Exagero? Não acho não. “Mais gravações tivera, mais postara”, pois pra mim tanto a posição dessa peça na história da música brasileira quanto a sua pura qualidade musical justificariam plenamente conhecer mil versões. Aliás, basta vocês ouvirem como diferem estas cinco, às vezes a ponto de quase não se reconhecer que é a mesma peça, para perceber que estamos diante desse tipo de música que não esgota fácil as suas possibilidades!

“E para mais me espantar” (nossa, parece que a sombra de Camões encostou com tudo no monge Ranulfus esta noite!), três dessas cinco versões são da Camerata Antiqua de Curitiba: a de 2000, postada pelo Avicenna aqui há poucos dias, em 29/11; a de 1981, que eu mesmo postei em 26/05/2010; e agora esta de 1995, comemorativa dos 20 anos da Camerata. Sabem de qual eu gosto mais? Não? Coincidência, eu também não! Depende do dia, da hora…

Na postagem de 2010 eu incluí dados caprichosamente pesquisados sobre Álvares Pinto. Se quiserem, olhem lá: hoje eu vou logo desovando a música, que os tempos são outros, as pesquisas que a vida anda exigindo também!

Só observo ainda que aqui, como na gravação de 1981, o outro lado do vinil é ocupado por um Salmo musicado por Händel – mas são dois salmos diferentes: lá, um bonito Laudate Pueri; aqui um Dixt Dominus que não é só bonito, talvez possa ser chamado “monumental”, e é tremendamente desafiador para o coro.

Foi prudente para o conjunto encarar tamanho desafio àquela altura? Não sei. Sei que pessoalmente eu gosto do resultado; nem tudo é perfeito, mas as próprias imperfeições são de um tipo que eu chamaria “imperfeições inspiradas”, que não me tiram o prazer da audição, às vezes até aumentam, como se fossem um atestado de que essa música é uma realização humana, com embate & suor. É provável que nem todo mundo sinta o mesmo – e isso é ótimo, não?

Mas, seja como for, aposto que ninguém vai se arrepender de conhecer essa peça!

Palhinha: ouça a integral do Te Deum enquanto saboreia telas de artistas brasileiros contemporâneos.

Camerata Antiqua de Curitiba, 1995
Gravação comemorativa dos 20 anos do grupo

Regência: Roberto de Regina

Luis Álvares Pinto (Recife, 1719-1789): TE DEUM
(orquestração completada por Harry Crowl, 1995)
00:00 (1) Te Deum / Te Dominum
01:31 (2) Tibi Omnes
02:37 (3) Sanctus
04:20 (4) Te gloriosus
05:23 (5) Te martyrum
07:04 (6) Patrem imensae
09:07 (7) Sanctum quoque
11:39 (8) Tu Patris
13:40 (9) Tu devicto
15:31 (10) Judex crederis
18:41 (11) Salvum fac
20:23 (12) Per singulos dies
21:56 (13) Dignare
24:03 (14) Fiat misericordia
25:13 (15) In te Domine

Georg Friedrich Händel (1685-1759): DIXIT DOMINUS (Salmo 110 [109])
00:00 (1) Dixit Dominus
06:05 (2) Virgam virtutis
09:28 (3) Tecum principium
12:33 (4) Juravit Dominus
14:48 (5) Tu es sacerdos
16:24 (6) Dominus a dextris tuis
19:24 (6b) Ludicabit in nationibus
22:55 (7) De torrente in via bibet
27:00 (8) Gloria

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TEXTO DO TE DEUM (latim/português)
http://www.osmc.com.br/secao.asp?i=34&c=791
TEXTO DO DIXIT DOMINUS (latim/inglês)
http://en.wikipedia.org/wiki/Dixit_Dominus_(Handel)

Ofereço esta postagem de 10 de dezembro ao meu pai, que estaria fazendo 89 anos neste dia se não houvesse desembarcado do planeta 30 anos antes, e que com certeza adoraria cada minuto da música deste disco!

Ranulfus

Gilberto Gil (1942) como erudito contemporâneo: balé "Z – 300 ANOS DE ZUMBI" (1995)

Gilberto Gil (1942) como erudito contemporâneo: balé "Z – 300 ANOS DE ZUMBI" (1995)

Publicado originalmente em 13.05.2010

A coreógrafa e dançarina senegalesa Germaine Acogny
A coreógrafa Germaine Acogny

Um cliente estadunidense da Amazon chamou este CD de “frivolous” por “não conter nem ao menos uma pop song, como seria de esperar de Gilberto Gil”. Foi aí que pensei em afastar expectativas equivocadas com a um tanto pedante mas não inadequada expressão “erudito contemporâneo”.

Numa coisa o comentador acertou: nenhuma destas 10 peças é canção. Trata-se da música projetada por Gil para um espetáculo do Balé da Cidade de São Paulo em 1995, com coreografia da beninense Germaine Acogny, que trabalhou longo tempo com Maurice Béjart antes de estabelecer sua própria escola no Senegal. A maior parte é instrumental – mesmo se parte dos instrumentos são vozes – e pode ser legitimamente chamada de “minimalista”, mesmo se realizada por procedimentos outros que os de um Glass ou de um Reich. E sobretudo soa de modo compatível com grande parte do que se costuma considerar “erudito contemporâneo”.

Por que ‘projetada’ e não ‘composta’? Porque – como é comum na música culta da Índia, da África, no jazz, e também na Europa até o barroco ou em vertentes do século XX como a estocástica, a aleatória ou em John Cage – o resultado que ouvimos é uma realização única, irrepetível, de um projeto definido até certo ponto, mas não escrito nota por nota. Dentro de parâmetros bem definidos para cada peça, os músicos produziram na hora da gravação o tecido sonoro que vocês vão ouvir.

Quê parâmetros, neste caso? Estou longe de saber, mas quero ‘entregar’ a vocês uma dimensão importante não mencionada em nenhum release, mas que foi percebida de imediato por uma amiga conhecedora da tradição iorubá, a cantora de MPB Paula da Paz: o sentido de cada movimento é dado pela presença estruturante de ritmos e outros sinais sonoros de diferentes divindades iorubás. (Não se faça a confusão de pensar que Zumbi fosse iorubá: era bântu. Entendo é que se recorre aqui à tradição africana mais presente no imaginário da população brasileira atual para homenagear um integrante de outra tradição cuja linguagem simbólica é hoje bem menos conhecida).

Num esboço não exaustivo nem definitivo: a Chamada inicial é pouco característica no sentido acima; talvez se possa falar de uma presença-de-fundo de todo o panteão, ou – sem contradição – do caráter de Oxalá, senhor do plano ideal. Já Meteorum, primeira peça propriamente dita, se abre com os signos daquele que gera e empodera a realidade física, feita de divisões e polarizações, e que tão impropriamente tem sido associado ao diabo judaico-cristão: Exu. Aberto o caminho por ele, temos como que a entrada no mundo manifesto do panteão antes evocado de modo etéreo.

Se há presença diabólica na peça, não é através de nenhum orixá, e sim do ambiente dos navios negreiros, evocado em Flagelo – construção polifônica complexa que certos frívolos facilmente entenderiam como gritaria caótica. Seguem-se a Dança das Mulheres, estruturada num inequívoco toque de Iansã, “senhoras dos raios e das tempestades” – a luta e a força em sua versão feminina – e o Lamento das Mulheres, que parece evocar a “mãe que a todos adota”, Iemanjá, e “seu batalhão de mil afogados” (João Bosco). Lamento brotado inicialmente do fundo do peito, como o blues, chama a atenção como Marlui Miranda faz se juntarem a ele as vozes de cabeça características do lamento indígena.

Na Dança dos Homens parece predominar Oxóssi, o caçador, em plena ação, num espírito próximo ao de seu irmão Ogun, senhor do metal – flecha e lança, portanto – seguindo-se uma Dança da Água e da Paz com características de Oxum, a que distribui com seu balanço a vida doada pelo Sol (esse o ouro maior!) através das águas correntes capilarizadas pelo mundo e pelos corpos.

Na Oração não é de estranhar que não se ouça voz de orixá e sim voz humana, dirigindo-se a Olórun – literalmente “senhor do céu”… e aí chegamos ao Réquiem: não é preciso dizer, o herói é morto: vem recebê-lo Nanã, a velha, senhora da lama e de tudo o que é ancestral, para que seja acolhido carinhosamente no seio de onde um dia partiu.

Zumbi, o último movimento, pode não ser o melhor resolvido musicalmente, mas continua simbolicamente rico: soa como celebração, mas seu toque é de Ogun, o guerreiro, com evocações de capoeira: não há ainda uma vitória a celebrar desarmadamente…

Mas talvez chegue além: não há verdade em tentar separar vida, trabalho, luta e celebração. Pois talvez seja essa a mensagem maior que a velha África não cessa de tentar proclamar através dos seus filhos mais diretos ao restante da sua descendência, ou seja: à humanidade inteira.

(Sei que este post caberia melhor em 20 de novembro, mas quem sabe 13 de maio também não seja de todo impróprio!)

Gilberto Gil – Z: 300 ANOS DE ZUMBI
Obra composta para o Balé da Cidade de São Paulo em 1995
01 Chamada
02 Meteorum
03 Flagelo
04 Dança das Mulheres
05 Lamento das Mulheres
06 Dança dos Homens
07 Dança da Água e da Paz
08 Oração
09 Réquiem
10 Zumbi

Gilberto Gil (voz, violão); Marlui Miranda (voz); Lucas Santana (flauta); Lelo Nazário (teclados); Rodolfo Stroeter (baixo acústico e elétrico); Carlinhos Brown (percussão, voz); Gustavo di Dalva (percussão). Gravado no Estudio nas Nuvens, Rio de Janeiro, em 09/1995.


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PS: Leitores já devem ter percebido que uma das paixões do monge Ranulfus é explorar os ecos menos óbvios da África em música – e então sugere também seus posts de Toumani Diabaté, Chevalier de Saint-George, da Sonata de Beethoven originalmente dedicada a George Bridgetower, das cinco versões dos Afro-Sambas de Baden Powell e Vinicius de Moraes, além, é claro, dos de Nina Simone e das 2 versões da ópera Porgy and Bess. Os que não estiverem no ar no momento serão recolocados em breve!

Ranulfus

Scott Joplin ‘o rei do ragtime’ (1867-1917), post 2/2: ópera Treemonisha (1910)

Dou continuidade aqui ao diálogo transcrito e explicado em post anterior:

… Não posso dizer que minha vida em Nova York tenha sido ruim. Não faltou sucesso pra meus ragtimes, nem um casamento novo e melhor. O problema foi minha ópera, Treemonisha, que ninguém queria ouvir.

… Foram anos e anos de composição. Não era ragtime, não era comédia: era uma ópera séria, com grandes partes de coro escritas no melhor contraponto… e ninguém queria ouvir. Um negro podia compor ragtime, diziam; que quisesse escrever ópera era muita pretensão.

… Todos os meus esforços foram em vão. O desgosto apertou o gatilho da doença, e fui perdendo a razão. Fui internado, e morri sem ouvir Treemonisha soando no ar nem ao menos uma vez.

Músicos que eram, os membros do grupo compreendiam bem. Por uns instantes só alguns suspiros furaram o silêncio, até que o próprio Scott Joplin sorriu e disse:

– Mas no fundo estou vingado. Sessenta anos depois de minha morte Treemonisha foi montada, e com sucesso. Foi gravada em disco, e o mundo todo pôde conhecer.

– E é uma bela ópera, posso garantir – disse um dos músicos. – Seu estilo é único; não há no mundo obra que se pareça com ela.

Já outro deles falou assim:

– Sou amigo de Gunther Schuller, o musicólogo que recuperou a partitura e regeu a montagem. Como se vê no nome, é de origem alemã, como seu primeiro professor. Não lhe parece curioso?

– Sem dúvida. É um traço bem curioso do meu destino.

– Isso não rouba a pureza negra da sua música?

– Esse tipo de idéia é uma grande bobagem. Neste mundo há lugar pra tudo:
Scott Joplin http://i52.tinypic.com/2vcsz7q.jpgpara a expressão de todas as culturas “em estado puro”, e também pra todas as combinações que se possa imaginar.

… As coisas mais ricas, que abrem caminhos novos para a humanidade, acontecem onde os diferentes se encontram e, em vez de brigar ou de um calar a boca do outro, resolvem cantar juntos, com diferença e tudo. E aí, de repente, sem que ninguém possa prever como será, um caminho novo nasceu!

“Bravo, isso mesmo, é isso aí!”, aplaudiu todo o grupo – e nossos amigos sentiram que era hora de prosseguir.

Como dito no post anterior, o diálogo procede do livro O dia em que Túlio descobriu a África (R.Rickli, 1997, esgotado, disponível em PDF AQUI). Cabe registrar que a orquestração realizada pelo próprio Scott Joplin nunca foi encontrada, apenas a redução para piano cuja impressão ele pagou do próprio bolso. Gunther Schuller, autor de estudos clássicos e aprofundados sobre as origens do jazz, foi o primeiro a orquestrá-la e regeu sua estréia em 1972 – produção que foi lançada em vinil em 1976, e é a reproduzida aqui. De lá para cá foram feitas outras orquestrações e gravações, mas não cheguei a conhecer.

O arquivo postado inclui reprodução de capas e o libreto completo da ópera – também da autoria de Joplin, e por isso não vejo necessidade de maiores detalhes aqui.

Scott Joplin: Treemonisha – ópera em 3 atos (1910)
para solistas, coro, orquestra e ballet.
Gunther Schuller regendo o coro e orquestra da Houston Grand Opera Production
Carmen Balthrop, Betty Allen, Curtis Rayam: solistas principais
Gravação original: Deutsche Grammophon, 1976

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Ranulfus
publicação original: 31.08.2010

Scott Joplin ‘o rei do ragtime’ (1867-1917), post 1/2: Piano Rags com Jeremy Rifkin

Scott Joplin ‘o rei do ragtime’ (1867-1917), post 1/2: Piano Rags com Jeremy Rifkin

Para apresentar este post e o seguinte, permitam-me transcrever aqui um diálogo ficcional entre um grupo de músicos e dois personagens reais de diferentes séculos: o Chevalier de Saint-George (de quem postei aqui 6 CDs não faz muito tempo) e o estadunidense Scott Joplin (1867-1917), de um livro com intenções paradidáticas (mais detalhes no final).

– … permita-me dizer, Monsieur le Chevalier: a fama é uma senhora muito injusta. Escolhe alguns nomes para perpetuar, e deixa outros iguais ou melhores no esquecimento. É uma barbaridade que seus concertos sejam tão pouco executados nos tempos modernos, pois não são em nada inferiores aos de Mozart e Haydn.

Mais non, Monsieur! Agradeço sua intenção de me consolar, mas evidentemente o que o senhor diz não pode ser verdade! – protestou o Cavaleiro.

– Jamais buscaria consolá-lo com falsidades, Chevalier! É minha opinião sincera, e quem é do ofício e conhece sua música só pode concordar, estou certo.

“Sim, sim, é verdade”, apoiaram vários dos presentes, para evidente alegria do Cavaleiro. Era porém muito educado para permitir que a própria glória ocupasse mais que um momento na roda de amigos, de modo que logo desviou:

– Mas parece que a sua vida também foi das mais interessantes, Mr. Joplin! Gostaríamos muito de ouvi-lo!

– Nem de longe tão interessante como a sua, Chevalier. E, sinto dizer, não muito feliz.

– Ora – interveio um músico moderno – sua música teve grande sucesso popular, tanto na sua época quanto anos mais tarde. Quem não conhece a famosíssima The Entertainer, pelo menos da trilha sonora do filme Golpe de Mestre? – Cantarolou:

– Justamente: todo mundo conhece meus “ragtimes”, alegres, dançantes, mas a música de maior fôlego, quem conhece? Minhas óperas, quem quis ouvir?

– Fale um pouco da sua vida, Mr. Joplin. Assim poderemos entender melhor.

– Está bem, já que insistem…

… Nasci em 1868 no interior do Texas, respirando música: meu pai, ex-escravo, tocava violino – country music, bem entendido – enquanto minha mãe tocava banjo e cantava. Desde o início, porém, foi o teclado que me fascinou: onde existisse um piano na vizinhança, lá ia eu investigar.

… Minha mãe dava todo apoio que podia. Quando ficou sozinha e teve de se empregar em casas de família pra nos sustentar, pedia licença pra eu estudar no piano da patroa…

Por um instante tremulou na lembrança de Túlio a figura de sua própria mãe, Dona Aurora, e os olhos ameaçaram se molhar.

– E parece que o barulho de minhas experiências chamou atenção, e foi assim que o Professor apareceu. Era um alemão excêntrico que vivia lá em Texarkana, e me ofereceu aulas de piano e harmonia. Na verdade deu mais: deu pistas em todas as áreas do mundo do conhecimento, explodindo os limites do acanhado horizonte de Texarkana.

… Não que minha vida tenha ficado cosmopolita da noite pro dia! Adolescente, saí tocando pelos bares, às vezes pelos piores lugares, para ter o que comer.

Túlio ouviu na cabeça a voz de Milton Nascimento cantando: “foi nos bailes da vida, ou num bar em troca de pão / que muita gente boa pôs o pé na profissão / de tocar um instrumento e de cantar / não se importando se quem pagou quis ouvir…”

– De vila em vila, cidade em cidade, fui chegando às maiores: Saint Louis, Chicago… Em Sedalia fiquei alguns anos e consegui me matricular em cursos de harmonia avançada e composição. Vendia aqui e ali meus ragtimes, até que em 1899 o Maple Leaf Rag explodiu no mundo todo. Virei o “Rei do Ragtime”. Casei, podia estar tranqüilo pra sempre.

… Mas eu queria mesmo era escrever para o palco, realizar coisas de fôlego. Achei que agora as portas estariam abertas, mas… mesmo sendo o Rei do Ragtime, de todos os lados só ouvia “não”.

… A muito custo montei uma pequena ópera-rag, cujo manuscrito depois se perdeu. Minha filha morreu, meu casamento acabou, saí pelo mundo de novo, fui parar em Nova York, onde vivi até 1917 – quer dizer, pelo resto da vida.

O diálogo (do livro O dia em que Túlio descobriu a África, de R.Rickli, 1997, esgotado, disponível em PDF AQUI) prosseguirá no post seguinte. Por enquanto deixo vocês com uma seleção de “piano rags”, ou ragtimes, tocados por Joshua Rifkin – mas não sem advertir que tenho certeza de que a música do “Ernesto Nazareth dos Estadis Unidos” pode ser tocada com muito mais bossa.

Não se trata da velocidade: Scott Joplin passou a vida advertindo os compradores de suas partituras contra a tentação de tocar acelerado; “o tempo do ragtime não é rápido”, insistia sempre. O branco Rifkin segue o conselho de Joplin quanto a isso, mas afora isso toca tudo inacreditavelmente igual. Só que essa é a única versão que consegui, e quero crer que “ruim com ela, pior sem ela”, espero que vocês concordem.

Joshua Rifkin plays Scott Joplin’a piano rags
01 Maple leaf rag
02 The entertainer
03 The ragtime dance
04 Gladiolous rag
05 Fig leaf rag
06 Scott Joplin’s new rag
07 Euphonic sounds
08 Elite syncopations
09 Bethena
10 Paragon rag
11 Solace
12 Pineapple rag
13 Weeping willow rag
14 The cascades
15 Country club
16 Stoptime rag
17 Magnetic rag

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O grande Scott Joplin
O grande Scott Joplin

Ranulfus

Bartók (1881-1945): Sonata para 2 pianos e percussão. Brahms (1833-1897): Variações ‘Sto.Antônio’ para 2 pianos

Bartók (1881-1945): Sonata para 2 pianos e percussão. Brahms (1833-1897): Variações ‘Sto.Antônio’ para 2 pianos

Estes dias o compadre Vassily deixou todo mundo boquiaberto ao comentar que um dia recebeu um email do pianista Murray Perahia, querendo informações sobre o grande Antônio Guedes Barbosa, que Vassily está concedendo a graça de ressuscitar para nossos ouvidos aqui no blog.

Pois bem: desde aquele dia não parei de pensar que a única postagem que o Monge Ranulfus fez envolvendo Murray Perahia estava fora do ar há muito tempo – e que, uma vez a tenham conhecido, xs senhorxs hão de convir que isso foi um grave pecado de sua parte!

Assim, o monge resolveu aproveitar o domingo para se penitenciar, mesmo se um tanto pela metade, pois no momento pode apenas revalidar o link, e não acrescentar à postagem um texto decente – o mesmo que, coincidentemente, aconteceu há mais de cinco anos, quando da postagem original. Mas pra não dizer que não falei das obras, vamos lá: duas ou três palavras:

Tanto as Variações do 3º quanto a Sonata do 4º Grande B existem também em versões com orquestra (no caso de Bartók, na forma do Concerto para 2 pianos e orquestra, de 1940), mas foram compostas originalmente na forma para dois pianos que se ouve aqui.

As variações de Brahms são tradicionalmente ditas “sobre um tema de Haydn”, mas não é preciso ouvir mais que um compasso para perceber que essa atribuição deve ser questionada, como de fato tem sido. O tema também é referido como “Hino de Santo Antônio”, e com ele as variações – as quais foram estreadas pelo próprio Brahms e por Clara Schumann (quem mais?) numa audição privada em Bonn, em 1873.

E agora, Brahms & Bartók por Solti & Perahia ficam com vocês!

Béla Bartók: Sonata para 2 pianos & percussão (1937)
01 I Assai lento 12:50
02 II Lento ma non troppo 06:27
03 III Allegro non troppo 06:37

Johannes Brahms: Variações sobre um tema de Joseph Haydn
(‘Chorale Sankt Antoni’) para 2 pianos, op.56b (1873)

04 Thema: Chorale St. Antoni: Andante
05 Var.1 Andante con motto
06 Var.2 Vivace
07 Var.3 Con motto
08 Var.4 Andante
09 Var.5 Poco presto
10 Var.6 Vivace
11 Var.7 Grazioso
12 Var.8 Poco presto
13 Finale: Andante

Murray Perahia e Sir Georg Solti, pianos
David Corkhill e Evelyn Glennie, percussão
Gravado na Inglaterra em 1987

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Béla Bartók
Béla Bartók

Ranulfus

.:interlúdio:. A primeira explosão jazzística de uma estudante de piano clássico: Nina Simone, Little Girl Blue (1958)

.:interlúdio:. A primeira explosão jazzística de uma estudante de piano clássico: Nina Simone, Little Girl Blue (1958)

Nina Simone / Little Girl Blue[Postado originalmente em 18.10.2010]

Resolvi fazer minha primeira incursão no jazz neste blog. Como o colega PQP disse de si, não sou nenhum especialista nesse gênero: nem pensem em discutir comigo detalhes de estilos, gravações, nomes – mas, como em quase todos os campos, tenho minhas paixões também no jazz – e esta é provavelmente a maior. Não estranhem, portanto, que se trate de alguém que chegou a esse campo por uma porta lateral ou dos fundos, ou que fez qualquer caminho que não o mais usual em qualquer coisa: quase todas as minhas paixões são assim!

Nina Simone http://i33.tinypic.com/2rgjpsn.jpg

Miss Simone, ou melhor, Eunice Kathleen Waymon (com 36 anos na foto ao lado), começou com o piano aos 3 anos e fez um caminho de aprendizado clássico, como se nota das inflexões chopinianas da faixa 9 e sobretudo nas bachianas por toda parte, em especial na faixa 7.

Acontece que os recursos para bancar os estudos, pra variar um pouquinho, eram escassos, e Miss Waymon começou a levantar uns trocos tocando e cantando na noite – coisa que a senhora sua mãe pastora metodista fundamentalista não podia saber de jeito nenhum, pois apesar de não haver lido Drummond jamais consideraria isso uma solução, apenas uma quase-rima: com DEMON.

Foi assim que nasceu uma nova pessoa: Nina Simone – que levou uma vida tão cheia de aventuras e desventuras (pelo Caribe, África e França, inclusive impedida – acreditem – de voltar aos EUA por razões legais) que vocês deveriam procurar ler sobre ela em algum lugar.

Em 1958 sai então o primeiro disco dessa figura, então com 25 anos: Little Girl Blue. Estou dizendo porque todas as fontes dizem, mas não estranho se vocês duvidarem como eu duvidei: “isso não pode ser um disco de estreia!”

Não ouso dizer que seja um dos melhores discos da história do jazz porque, como já disse, não sou especialista e poderia ser apedrejado. Mas para mim, meu sentir pessoal, é um dos discos mais belos da história, ponto. Sim, yes, ja, oui: outros podem sentir diferente, mas eu sinto isso, digo há tempos e a impressão não parece querer mudar.

Mas como cada um é cada um, sugiro que vão sem nenhuma expectativa – como, aliás, acho que a gente devia ir sempre a qualquer coisa nova, não?

Nina Simone: Little Girl Blue (1958)
01 – Mood indigo [originalmente faixa 02]
02 – Don’t smoke in bed
03 – He needs ne
04 – Little girl blue
05 – Love me or leave me
06 – My baby just cares for me
07 – Good bait
08 – Plain gold ring
09 – You’ll never walk alone
10 – I loves you, Porgy [originalmente faixa 01]
11 – Central Park Blues
[Faixas-bônus – posteriores – incluídas na fonte utilizada]
12 – He’s got the whole world in His hands
13 – For all we know
14 – African mailman
15 – My baby just cares for me (extended version)

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Nina Simone
Nina Simone

Ranulfus