Senhoras e senhores: é com imensa satisfação, dir-se ia prazer quase libidinoso (quase) que iniciamos nosso ANO BEETHOVEN, no qual celebraremos o ducentésimo quinquagésimo aniversário de nosso preclaro Lud Van, a apresentar-lhes a OBRA COMPLETA DE BEETHOVEN PARA BANDOLIM – tão imensa, verão os senhores, que não ocupa sequer um terço de um CD.
É interessante matutar o que deve ter levado um renano de sangue belga radicado em Viena a escrever algo para um instrumento mediterrâneo como o bandolim – algum amador talentoso e/ou rico, talvez, ou mais provavelmente um rabo de saia por quem, para variar, nutria sentimentos inconfessos que lhe alargavam as úlceras e o catapultavam para as tabernas mais pulguentas da capital austríaca. Já as obras que completam o álbum, que incluem algumas das numerosas “Árias Nacionais” arranjadas por Beethoven para duos e trios no final de sua vida, essas tiveram a vil inspiração do ouro: pagavam contas como ninguém, quanto mais em tempos de Guerras Napoleônicas, nas quais os patronos do “Espanhol Louco” se viam em maus lençóis e tinham que escolher entre cortar da própria carne e racionar o caviar, ou suspender as remessas de dinheiro para o apartamento mais caótico de Viena.
Nada há aqui de muito importante, embora eu ache muito simpáticas as diminutas peças para bandolim e piano. Entendam esta postagem, por favor, como uma caixa de bombons – aquelas que têm cada vez menos guloseimas interessantes, e cada dia mais renegados como o Smash e o Milkybar – que lhes ofereço para que possa ter tempo de tomar um cafezinho.
A propósito: podem me passar o Sensação?
BEETHOVEN – RARITIES
Ludwig van BEETHOVEN (1770-1827)
01 – Adágio em Mi bemol maior para bandolim e piano, WoO 43/2
02 – Sonatina em Dó maior para bandolim e piano, WoO 44/1
03 – Sonatina em Dó menor, WoO 43/1
Andante e variações para bandolim e piano, WoO 44/2
04 – Andante
05 – Variazioni I-VI
Lájos Mayer, bandolim Imre Rohmann, piano
Seis Árias Nacionais com variações para violino e piano, Op. 105
06 – Ária escocesa – Andantino quasi allegretto
07 – Ária escocesa – Allegretto scherzoso
08 – Ária austríaca – Andantino
09 – Ária escocesa – Andante espressivo assai
10 – Ária escocesa – Allegretto spiritoso
11 – Ária escocesa – Allegretto più tosto vivace
12 – Seis Danças Alemãs para violino e piano, WoO 42
Pensaram que tínhamos esgotado a família dos arcos? Nah: nós nos lembramos do esquecido arpeggione, que gozou de breve voga no começo do século XIX, quando um visionário fabricante de violões teve a ideia, que certamente considerou brilhante, de construir um violão que se tocava com um arco.
Sim, ideia medonha.
E não fosse um Schubert a lhe dedicar uma ótima sonata (que hoje faz parte do repertório de violistas e violoncelistas), hoje ninguém sequer se lembraria da criação de Herr Johann Georg Stauffer.
Ei-la
Não pensem, entretanto, que esse ostracismo do arpeggione foi imerecido: o som do instrumento é acanhado, o que dificultava tanto seu uso em grandes salas de concerto quanto seus duos com outros instrumentos. Além disso, os trastos – exatamente iguais aos dos violões – e a pouca tensão nas cordas acarretavam problemas de articulação, que são notórios nas poucas gravações disponíveis no mercado, e mesmo nas mãos de especialistas. Um deles é Nicolas Deletaille, que já deu o ar de sua graça aqui a tocar a Sonata “Arpeggione” de Schubert com acompanhamento do incansável Paul Badura-Skoda e, depois de trocar seu arpeggione por um violoncelo, juntar-se a um quarteto de cordas no maravilhoso Quinteto D. 956 do mesmo compositor.
O outro é Gerhart Darmstadt, que estrela este álbum que, logicamente, serve a “Arpegionne” como prato principal, junto com um punhado de outras peças originais para o instrumento e de uma pitada de outras transcrições – algumas delas feitas por um certo Vincenz Schuster, que foi amigo de Schubert e carrega a distinção de ter sido o único, er, ARPEGGIONISTA profissional de toda a história do planeta. O acompanhamento – a cargo de um pianoforte de som bem menos robusto que um piano moderno e de uma guitarra romântica com cordas de tripa – tem o mérito de não sufocar o algo fanhoso protagonista.
DER ARPEGGIONE – GERHARDT DARMSTADT
Ludwig van BEETHOVEN (1770-1827)
01 – Sonatina (Adagio) em Dó menor, WoO 43a
02 – Árias Nacionais, Op. 107 – no. 7: Ária russa em Lá menor
Franz Peter SCHUBERT (1797-1828)
03 – Quatro Canções do “Wilhelm Meister” de J. W. von Goethe, D. 877 – no. 4: Lied der Mignon em Lá menor
Franz Peter SCHUBERT
Sonata para arpeggione e pianoforte em Lá menor, D. 821
04 – Allegro moderato
05 – Adagio
06 – Allegretto
Louis (Ludwig) SPOHR (1784-1859)
transcrição de Vincenz Schuster (1800-?) para arpeggione e guitarra
07 – Tempo di Polacca em Lá maior, da ópera “Faust”
Bernhard Heinrich ROMBERG (1767-1841)
transcrição de Vincenz Schuster (1800-?) para arpeggione e guitarra
08 – Adagio em Mi maior
Folclore UCRANIANO
transcrição de Vincenz Schuster (1800-?) para arpeggione e guitarra
09 – Schöne Minka – Moderato em Lá menor
Johann Friedrich Franz BURGMÜLLER (1806-1874)
10 – Noturno em Lá menor para arpeggione e guitarra
Gerhart Darmstadt, arpeggione
Egino Klepper, pianoforte
Björn Colell, guitarra romântica
Chego atrasado para as comemorações do aniversário de 249 anos de Beethoven, porém trago para os senhores uma belíssima integral dos Concertos para Piano, recentemente lançada pelo selo BIS.
Ronald Brautigam é uma figura ímpar no cenário da música clássica. Excepcional pianista, e um dos principais intérpretes de Beethoven da atualidade, há alguns anos gravou uma das melhores integrais das Sonatas para Piano que já tive oportunidade de ouvir, porém tocadas em um fortepiano, sua especialidade. Postamos estes volumes há alguns anos, e foram bem recebidos. Passados alguns anos, como seria de se esperar, gravou os Concertos para Piano do mesmo Ludwig, porém desta vez sentou-se em frente a um piano de cauda para encarar as obras. Novamente esta postagem foi muito bem recebida.
Pois bem, eis que neste final de década, o gajo resolve encarar novamente os mesmos concertos, porém desta vez voltou ao seu velho instrumento de guerra, o fortepiano. Antes disso, gravou alguns concertos de Mozart, com este mesmo instrumento. Curioso, não acham?
Mas esquisitices à parte, o que importa aqui é a qualidade da música e dos intérpretes envolvidos. Brautigam e o maestro Michael Alexander Willens já são parceiros de longa data e essa parceria tem gerado excelentes gravações. Então, vamos ao que viemos. Beethoven em altíssimo nível.
01. Piano Concerto No. 1 in C Major, Op. 15- I. Allegro con brio
02. Piano Concerto No. 1 in C Major, Op. 15- II. Largo
03. Piano Concerto No. 1 in C Major, Op. 15- III. Rondo. Allegro
04. Piano Concerto No. 2 in B-Flat Major, Op. 19- I. Allegro con brio
05. Piano Concerto No. 2 in B-Flat Major, Op. 19- II. Adagio
06. Piano Concerto No. 2 in B-Flat Major, Op. 19- III. Rondo. Molto allegro
07. Piano Concerto No. 4 in G Major, Op. 58- I. Allegro moderato
08. Piano Concerto No. 4 in G Major, Op. 58- II. Andante con moto
09. Piano Concerto No. 4 in G Major, Op. 58- III. Rondo. Vivace
10. Piano Concerto No. 3 in C Minor, Op. 37- I. Allegro con brio
11. Piano Concerto No. 3 in C Minor, Op. 37- II. Largo
12. Piano Concerto No. 3 in C Minor, Op. 37- III. Rondo. Allegro – Presto
13. Piano Concerto No. 5 in E-Flat Major, Op. 73 -Emperor– I. Allegro
14. Piano Concerto No. 5 in E-Flat Major, Op. 73 -Emperor– II. Adagio un poco mosso
15. Piano Concerto No. 5 in E-Flat Major, Op. 73 -Emperor– III. Rondo. Allegro
Ronald Brautigam – Pianoforte
Die Kölner Akademie
Michael Alexander Willens – Conductos
Hoje são comemorados os 249 anos de nascimento de Beethoven. No ano que vem… Bom, vocês sabem.
Andris Nelsons (1978) é um jovem maestro letão. Atualmente, ele é o diretor musical da Orquestra Sinfônica de Boston e da Gewandhaus Orchestra de Leipzig. Também já foi chefe da respeitadíssima City of Birmingham Symphony Orchestra (CBSO). É uma estrela em plena ascensão e a Deutsche Grammophon já o contratou para gravar integrais das Sinfonias de Bruckner (Gewandhaus), de Shostakovich (Boston) e de Beethoven (com a Filarmônica de Viena). As duas primeiras séries ainda estão sendo gravadas, mas a de Beethoven foi lançada neste mês.
E que esplêndido trabalho Nelsons fez com os filarmônicos de Viena! Um Beethoven forte e redondo, escandaloso e alegre, porém jamais, mas jamais mesmo, grosso. Certo pessoal do século XX achava que para tocar Beethoven, em certos trechos mais agitados, era só dar ênfase e berrar que estava bom. Era tudo muito emocional. Isso é ignorar a cultura. Beethoven foi um enorme artista de transição do classicismo para o romantismo. Se este é um dos fatores que o torna tão grande, também nos obriga a abordá-lo com conhecimento.
E Nelsons, com fraseados muito trabalhados, vai pelo outro lado e mata a questão com classe. E a Filarmônica de Viena fala beethoveniano, respira Beethoven. Creio que Nelsons deva ter ouvido muito os músicos da orquestra. Sei que se trata de um homem profundamente sensível e inteligente, conheço músicos que trabalham com ele. Sei das surpresas que apronta e que costuma dialogar com os músicos das orquestras que dirige.
O desenho do primeiro movimento da Eroica é quase erótico com a mágica das passagens da melodia de um instrumento para outro. Isso se repete a cada sinfonia, sublinhando a qualidade da orquestração. Raramente ouvi coisa mais natural, fluida e perfeita. E a sonoridade nem se fala.
Bem, ouvi as 4 primeiras sinfonias de Beethoven com Nelsons de enfiada. E vou completando o texto enquanto ouço tudinho. As duas primeiras — que jamais chamaram minha atenção — cresceram muito. A Eroica está sensacional, apesar de certas alegres liberdades tomadas na Marcha Fúnebre. A 4ª nem se fala. Mas logo voltei à Eroica (3ª), que está anormal de tão boa. Depois fui para uma excelente 5ª, cheia de sinuosidades e plena de tradição no terceiro movimento. Mas parece que Nelsons se dá melhor na delicadeza, pois sua 6ª é um primor, uma campeã.
Não, me enganei, sua sétima — com a sucessão fantástica de danças e o rock pauleira do último movimento — está sensacional!
(Comecei a frequentar os concertos de música erudita com a idade de 4 ou 5 anos. Meu pai me levava. Ele disse que, por uns 5 anos, eu sistematicamente dormia após dez minutos. Ele queria saber quando eu pararia com aquilo, ainda mais porque eu dizia que gostava de ir… Certamente gostava era da companhia dele, claro.
Mas houve um dia em que eu passei a não mais dormir. Foi quando assisti uma 7ª Sinfonia de Beethoven regida por Pablo Kómlos. Aquilo era enlouquecedor. Uma sucessão de agitadas danças com aquele Alegretto (uma Pavana) no meio.
Ouvi hoje a 7ª e, pela enésima vez… Toda aquela primeira impressão permanece viva. Eu sou o mesmo, de certa forma. De certa forma bem distorcida.)
A oitava está menos haydniana do que o costume e mais parruda. A nona se vem dentro do padrão de alta qualidade do restante. Adorei.
A DG rouba sempre a cena quando o assunto é Beethoven, né?
E Nelsons, contrariamente àquela outra grande estrela da DG no século XX, está mais pela música do que pelo negócio. Isto é muito claro.
E, para deixar claro, QUE NOTÁVEL ORQUESTRA É A FILARMÔNICA DE VIENA. Não creio que possa haver algo melhor atualmente!
Ludwig van Beethoven (1770-1827): As 9 Sinfonias — Andris Nelsons
Symphony No. 1 in C Major, Op. 21
1. Adagio molto – Allegro con brio 9:45
2. Andante cantabile con moto 8:46
3. Menuetto (Allegro molto e vivace) 3:24
4. Finale (Adagio – Allegro molto e vivace) 5:55
Symphony No. 2 in D Major, Op. 36
5. Adagio molto – Allegro con brio 12:30
6. Larghetto 12:04
7. Scherzo (Allegro) 3:34
8. 4. Allegro molto 6:18
Symphony No. 3 in E-Flat Major, Op. 55 “Eroica”
9. Allegro con brio 17:40
10. Marcia funèbre (Adagio assai) 16:34
11. Scherzo (Allegro vivace) 5:53
12 Finale (Allegro molto) 12:19
Symphony No. 4 in B-Flat Major, Op. 60
13. Adagio – Allegro vivace 11:30
14. Adagio 10:16
15. Allegro vivace 5:38
16. Allegro ma non troppo 6:54
Symphony No. 5 in C Minor, Op. 67
17. Allegro con brio 7:42
18. Andante con moto 10:35
19. Allegro 5:14
20. Allegro 11:12
Symphony No. 6 in F Major, Op. 68 “Pastoral”
21. Erwachen heiterer Empfindungen bei der Ankunft auf dem Lande (Allegro ma non troppo) 9:45
22. Szene am Bach (Andante molto mosso) 12:20
23. Lustiges Zusammensein der Landleute (Allegro) 5:08
24. Gewitter, Sturm (Allegro) 3:38
25. Hirtengesang. Frohe und dankbare Gefühle nach dem Sturm (Allegretto) 10:05
Symphony No. 7 in A Major, Op. 92
26. Poco sostenuto – Vivace 11:50
27. Allegretto 8:59
28. Presto – Assai meno presto 8:38
29. Allegro con brio 6:49
Symphony No. 8 in F Major, Op. 93
30. Allegro vivace e con brio 9:52
31. Allegretto scherzando 4:25
32. Tempo di menuetto 4:40
33. Allegro vivace 7:32
Symphony No. 9 in D Minor, Op. 125 “Choral”
34. Allegro ma non troppo, un poco maestoso 16:42
35. 2. Molto vivace 11:59
36. Adagio molto e cantabile 16:00
37. Finale. Presto 2:53
38. Allegro assai 3:50
39. Presto – Recitativo “O Freunde, nicht diese Töne!” 3:35
40. Allegro assai vivace (alla Marcia) 3:59
41. Andante maestoso 3:17
42. Allegro energico e sempre ben marcato 2:10
43. Allegro ma non tanto 2:16
44. Poco allegro, stringendo il tempo, sempre più allegro – Presto 1:43
Camilla Nylund
Gerhild Romberger
Klaus Florian Vogt
Johannes Prinz
Georg Zeppenfeld
Wiener Singverein
Wiener Philharmoniker
Andris Nelsons
“Simplesmente Beethoveniana! “Fidelio” a única ópera de Beethoven, é um memorial atemporal de Amor, Vida e Liberdade. Uma celebração dos direitos humanos, da liberdade de expressão, à dissidência, um manifesto político contra a tirania e a opressão, um hino à beleza e santidade do casamento, uma afirmação exaltada da fé em Deus como o último recurso humano” (Leonard Bernstein).
No tempo em que Fidelio foi composta a ópera italiana era a paixão de Viena, a ópera alemã ganhava admiração sobretudo pela “A Flauta Mágica” (postamos recentemente AQUI ) e que Beethoven considerava como a melhor obra de Mozart. Beethoven sempre se manteve a uma distância segura da ópera, conhecia e escolhia melodias operísticas contemporâneas como temas de algumas variações para piano. Na época em que Beethoven começou a pensar em projetos para o palco, por volta de 1803, em Viena, sua surdez já se estabelecera e piorava, o que tornou difícil lidar com o pessoal da ópera – cantores, empresários, diretores de palco, público, escritório de reservas -, em suma, com o mundo atarefado da produção operística. Quando ele estudou a colocação de texto em italiano com Salieri, sem dúvida já estava com projeto de ópera em mente. A grande motivação aconteceu em 1802, quando Emanuel Schikaneder (aquele amigo de Mozart que escreveu o libreto da “A Flauta Mágica”) apresentou a ópera “Lodoïska”, de Cherubini, no recém-inaugurado Theater an der Wien e lhe propôs o desafio de compor para o palco.
Interior of Theater an der Wien, Vienna. Beethoven’s Fidelio premiered here in 1805. Ludwig van Beethoven.
Com essa ópera a nova escola operística francesa entrou em cena: as óperas “de salvamento”. As óperas de salvamento estavam na moda há mais de vinte anos, certamente desde “O rapto do serralho” de Mozart, de 1782, e agora serviam como histórias de aventuras de heróis em reinos exóticos e como evocações fictícias das prisões e das guilhotinas da Revolução Francesa. A evocação de uma cruel realidade política nas óperas convidava à ilusão da verdade, enquanto o final feliz abrandava o medo do público. A prisão política, o heroísmo e a restauração da liberdade pela força do iluminismo liberal constituem o tema central de “Leonore”.
Fidelio. Um oferecimento do extrato de carne da Liebig
O libreto de Leonore, ou L’amour conjugale, tinha sido escrito originalmente no final de 1790 por Jean Nicolas Bouilly, um homem letrado que tinha sido administrador de uma província perto de Tours durante o período de “ O Terror” (…na Revolução Francesa, o Período do Terror, ou O Terror, ou Período dos Jacobinos, foi um período compreendido entre 5 de setembro de 1793 (queda dos girondinos) e 27 de julho de 1794 prisão de Maximilien de Robespierre, ex-líder dos Jacobinos que foi um precursor da ideia de um Terrorismo de Estado. Entre junho de 1793 e julho de 1794, cerca de 16 594 pessoas foram executadas durante o Reinado de Terror na França, sendo 2 639 mortes só em Paris. Apesar disso, há um consenso de que o número é muito maior devido a mortes na prisão – wikipédia). Acreditava-se que, durante o governo de Bouilly, um episódio parecido com a trama da ópera tinha realmente acontecido. Segundo a história, uma mulher disfarçada de homem teria conseguido entrar no cárcere do marido e libertá-lo da prisão injusta. Assim, se a lenda fosse verdade, o próprio Bouilly teria sido o ministro que libertara o prisioneiro e, portanto, o libreto parecia comemorar não somente o verdadeiro heroísmo, mas também a própria benevolência do autor na atmosfera aterrorizante da França naqueles anos.
Ato 1 cena 4
O libreto de 1805 de Leonore foi traduzido para Beethoven por Joseph Sonnleithner, secretário do Court Theater e proeminente advogado e músico vienense, que Beethoven tinha conhecido por meio de seus empreendimentos musicais alguns anos antes. Esse libreto é bem-feito, satisfaz as exigências do melodrama, entremeando pequenas intrigas domésticas entre os personagens secundários (o carcereiro Rocco, sua filha Marzelline e seu pretendente Jacquino) com cenas de poder e de compaixão para com os personagens principais (a disfarçada heroína Leonore, o sofrido prisioneiro Florestan e o cruel governador da prisão Pizarro). Nas cenas domésticas, Beethoven criou um conjunto efetivo de números, com ocasionais toques mozartianos (algumas vezes até mesmo com virtuais citações de Mozart, sem dúvida inconscientes, mas inequívocas), mas as cenas de intensidade mais dramática são inteiramente originais.
Ato 2 cena 8a
A Leonore fracassou em suas primeiras apresentações em novembro de 1805, bem provável porque Viena tinha acabado de ser invadida e ocupada pelos exércitos de Napoleão. De fato, a audiência da primeira apresentação estava repleta de oficiais do exército francês, mas pode ser também que a ópera estivesse bem além da compreensão de muitos ouvintes, acostumados a obras mais leves. Embora se acredite que as alterações feitas por Beethoven resultaram de uma reunião com seus amigos, é mais provável que essa reunião tenha acontecido, se é que realmente aconteceu, em 1807, depois que os planos para uma apresentação em Praga fracassaram. Em todo caso, a versão revisada produzida em março e abril de 1806, com a abertura no 3 da Leonore reescrita, no lugar daquela conhecida como no 2, obteve muito mais sucesso. A história subsequente da Leonore na vida de Beethoven foi marcada por tentativas malogradas de produzir a obra em Berlim e em Praga, embora tenha sido finalmente apresentada em Leipzig e em Dresden em 1815. De longe, o passo mais importante foi a concordância de Beethoven em revisar a obra para uma nova produção em Viena, no início de 1814. A versão final, veio a ser o “Fidelio” como nós a conhecemos. O libreto foi revisto por G. F. Treitschke, um homem experiente em teatro – e Beethoven reescreveu muitas partes da partitura, um trabalho que o ocupou de março a maio de 1814. Ele afirmou que isso lhe custou muito mais trabalho do que se estivesse compondo uma obra nova, mas ficou orgulhoso em oferecer encaixes sutis para as alterações de Treitschke, em reduzir as redundâncias e em fortalecer o conteúdo musical. Também teve que escrever várias partes novas, notavelmente o segmento final da cena de Florestan na masmorra. Tudo isso faz da conversão da “Leonore” de 1805-06 em “Fidélio” – a única vez que Beethoven revisou uma obra do vasto período intermediário, durante a transição para seu estilo final.
Ato 2 cena 8b
A essência de “Fidélio”, implícita no título, é o amor de Leonore por Florestan e sua coragem em arriscar a vida para salvá-lo. A obra tem ressoado através de quase dois séculos como a celebração do heroísmo feminino. A crítica feminista, que protesta contra o sofrimento e a morte das heroínas nas mãos de homens ou por causa de suas maquinações, acha em “Fidélio” uma exceção poderosa, já que a vítima sofredora é o homem, e o agente da salvação, a mulher. O subtítulo da obra é “Die eheliche Liebe”, que traduz literalmente o “L’amour conjugal” de Bouilly.
Que o espírito de Mozart paire como pano de fundo dessa obra não deveria nos surpreender. Mais surpreendente é a capacidade de Beethoven para aprofundar a expressão no lado sério e ético da trama, de modo a fazer com que a obra se tornasse – como de fato se tornou – um dos clássicos da literatura operística, insuperável na transmissão da verdade dramática e emocional. Sua importância não está intrinsecamente relacionada à crença de Beethoven de que a trama deveria transmitir a verdadeira história, não uma fantasia operística. Tem, sim, a ver com sua capacidade para enquadrar as dinâmicas formais à obra, de modo a dar um peso máximo às questões morais subjacentes à ação: o sofrimento físico dos maltrapilhos prisioneiros e o sistema que promove esse sofrimento; o heroísmo de Florestan diante da injustiça; o amor e a coragem de Leonore, esposa apaixonada, disposta a correr qualquer risco.
Beethoven ainda escreveu quatro aberturas que foram compostas na seguinte ordem: Leonore no 2 (1805); Leonore no 3 (1806); Leonore no 1 (1808), para uma produção malograda em Praga; e por fim a abertura Fidélio (1814). As versões destas beethovenianas aberturas que ora compartilho com vocês é a seguinte: “Leonore 1”, Op.138 com o maestro Eugen Jochum. “Leonore 2”, Op 72 com o Claudio Abbado. “Leonore 3”, Op. 72b com o maestro Leonard Bernstein e pôr fim a abertura “Fidelio”, Op.72 com o mestre Nikolaus Harnoncour.
Ato 3 cena 2
Causo: Em 1822, Beethoven desejava dirigir o ensaio geral da sua ópera. Será que ele pretende desprezar a doença ou, mais uma vez, enganar a todos sobre o seu verdadeiro estado? Infelizmente foi um caos completo: palco e orquestra desentenderam-se, e todos ficaram a olhar, temerosos, o mestre que continuava a dirigir. De repente, enxerga a terrível verdade na expressão dos que o cercam. O seu fiel amigo Schindler (que nos pinta a cena) escreveu-lhe estas linhas: “Por favor, não continue; explicar-lhe-ei tudo depois”. Mas a explicação já não é necessária; alquebrado, Beethoven cai sobre uma cadeira e por muitas horas é incapaz de levantar-se …
Resumo – Fidelio
Ato 1
Em uma prisão nos arredores de Sevilha, onde Rocco, pai de Marzelline, trabalha como carcereiro. Marzelline é incomodada pelos flertes de Jacquino, assistente de seu pai. Jacquino tem grandes esperanças de se casar com ela um dia, mas Marzelline tem o coração em Fidelio, o novo garoto que trabalha na prisão. Fidelio trabalha duro e chega à prisão todos os dias com muitas provisões. Quando Fidelio descobre que Marzelline se interessou por ele, ele fica ansioso – especialmente depois que descobre que Rocco deu sua bênção ao possível relacionamento. Acontece que Fidelio não é quem ele diz que é; Fidelio é na verdade uma nobre chamada Leonore, disfarçada de jovem, com o objetivo de encontrar o marido que foi capturado e preso por causa de suas diferenças políticas. Rocco menciona que um homem acorrentado nas profundezas das masmorras está praticamente à beira da morte. Leonore o ouve e acredita que é seu marido, Florestan. Leonore pede que Rocco o acompanhe em suas rondas na prisão, com as quais ele concorda alegremente, mas o governador da prisão, Don Pizarro, apenas permite que Rocco entre nos níveis mais baixos da masmorra.
Ato 3 cena 3
No pátio onde os soldados se reúnem, Don Pizarro recebe notícias de que o ministro de Estado, Don Fernando, está indo para a prisão a fim de inspecioná-la e investigar os rumores de que Don Pizarro é um tirano. Com um senso de urgência, Don Pizarro decide que seria melhor executar Florestan antes da chegada do ministro. Chamando Rocco, Don Pizarro ordena que ele cave uma cova pelo corpo de Florestan. Felizmente, Leonore está por perto e ouve os planos malignos de Don Pizarro. Ela reza por força e depois implora a Rocco que a leve novamente na prisão, mais especificamente a cela do condenado. Ela convence Rocco a deixar os prisioneiros entrarem no pátio para tomar um pouco de ar fresco. Assim que os prisioneiros são levados para o pátio, Don Pizarro ordena que retornem imediatamente às suas celas. Ele então leva Rocco a cavar o túmulo de Florestan. Quando Rocco entra na masmorra, Leonore rapidamente segue atrás dele.
Ato 2
Nas profundezas da masmorra da prisão, um delirante Florestan tem visões de Leonore libertando-o do lugar infernal. Infelizmente, quando ele chega, ele se vê sozinho e cai em desespero. Momentos depois, Rocco e Leonore entram com pás, prontos para cavar a cova. Florestan engasga algumas palavras, sem reconhecer sua esposa, pedindo uma bebida. Rocco mostra compaixão pelo prisioneiro e pega um copo de água para ele. Leonore mal consegue se conter, mas ela permanece composta o suficiente para lhe oferecer um pouco de pão, enquanto lhe diz para permanecer esperançoso. Quando terminam de cavar a cova, Rocco apita para alertar Don Pizarro de que está tudo pronto. Don Pizarro entra na cela de Florestan, mas antes de matá-lo, confessa seus atos de tirania. Assim como Don Pizarro puxa a adaga para o ar e faz o balanço para baixo, Leonore revela sua verdadeira identidade e retira a pistola que ela havia escondido consigo, o que faz com que o movimento de Don Pizarro pare.
Em um instante, as buzinas soam quando Don Fernando pisa nos terrenos da prisão. Rocco acompanha imediatamente Don Pizarro ao pátio para cumprimentá-lo. Enquanto isso, Florestan e Leonore comemoram o reencontro.
Do lado de fora, Don Fernando anuncia a erradicação da tirania. Rocco se aproxima dele com Leonore e Florestan, que por acaso é um velho amigo dele. Rocco pede ajuda e explica como Don Pizarro aprisionou Florestan e seu tratamento cruel com ele, como as ações heroicas de Leonore salvaram seu marido e revela a trama de assassinato de Don Pizarro. Don Fernando imediatamente condena Don Pizarro à prisão e seus homens o escoltam para longe. Leonore recebe as chaves para destrancar as correntes de Florestan, e ela o liberta feliz e apressadamente. Os prisioneiros restantes também são libertados e todos se alegram e comemoram Leonore.
Furtwängler em ação, 1953
Wilhelm Furtwängler gravou quatro vezes a ópera Fidélio, esta que ora compartilho com os amigos é de estúdio realizada em 1953. O brilhante elenco é liderada por Martha Modl, e ainda tem Wolfgang Windgassen, Gottlob Frick, Otto Edelmann. O canto dos comandados pelo incomparável Wilhem e sua orquestra de Viena é possuído e dominado por um verdadeiro “frisson” e energia, belíssima versão e a remasterização está de boa para ótima. Para aqueles que ainda acreditam que a música clássica pode falar com o que há de mais nobre e melhor na humanidade, com mais poder do que meras palavras, esta versão é obrigatória. “Incandescente” é um adjetivo muito suave. A maneira pela qual Furtwängler conduz a orquestra para expressar alguns momentos da fúria reprimida não apenas de Leonore, mas de todos aqueles que queimam com fúria por injustiça em qualquer lugar, é impressionante. Existem muitas versões desta ópera, particularmente esta versão me toca mais, pode ser pelo fato da regência e do canto terem uma tendência proposital para ser “mozartiano”, ai aquele véu de inspiração que mencionamos da admiração de Beethoven se encaixa perfeitamente, no início logo na primeira cena parece mesmo uma parte da “Flauta Mágica” mas com orquestração de Beethoven.
Muito interessante também são os cartazes de patrocínio do extrato de carne da Liebig (atual Fray Bentos) com desenhos de diversas óperas, nesta postagem estão os cartazes referentes à versão da ópera em três atos. Os cartazes são do final do século XIX vale a pena dar uma conferida AQUI, pois é o período em que a indústria dos enlatados começa.
A história “passo a passo” com fotos do encarte original do CD estão junto no arquivo de download com as faixas, o resumo da ópera foi extraído do livro “As mais Famosas Óperas”, Milton Cross (Mestre de Cerimônias do Metropolitan Opera). Editora Tecnoprint Ltda., 1983.
Pessoal, abrem-se as cortinas e deliciem-se com a “Simplesmente Beethoveniana! “Fidélio” !!!
Aberturas
Overture “Leonore 1”, Op.138
Concertgebouw Orchestra of Amsterdam, Eugen Jochum
Overture “Leonore 2”, Op 72
Vienna Philhamonic Orchestra Claudio Abbado
01 – BEETHOVEN Fidelio – Act 1 Ouvertüre
02 – BEETHOVEN Fidelio – Act 1 No. 1 Duett – Jetzt, Schätzchen
03 – BEETHOVEN Fidelio – Act 1 No. 2 Arie – O wär ich schon
04 – BEETHOVEN Fidelio – Act 1 No. 3 Quartett – Mir ist so wunderbar
05 – BEETHOVEN Fidelio – Act 1 No. 4 Arie – Hat man nicht
06 – BEETHOVEN Fidelio – Act 1 No. 5 Terzett – Gut, Söhnchen
07 – BEETHOVEN Fidelio – Act 1 No. 6 Marsch
08 – BEETHOVEN Fidelio – Act 1 No. 7 Arie mit Chor
09 – BEETHOVEN Fidelio – Act 1 No. 8 Duett – Jetzt, Alter, hat es Eile!
10 – BEETHOVEN Fidelio – Act 1 No. 9 Rezitativ und Arie – Abscheulicher!
11 – BEETHOVEN Fidelio – Act 1 No. 10 Finale – O welche Lust, in freier Luft
12 – BEETHOVEN Fidelio – Act 1 Nun sprecht, wie ging-s
13 – BEETHOVEN Fidelio – Act 1 Ach! Vater, eilt!
14 – BEETHOVEN Fidelio – Act 2 No. 11 Introduktion
15 – BEETHOVEN Fidelio – Act 2 No. 11 Arie – Gott! Welch Dunkel hier!
16 – BEETHOVEN Fidelio – Act 2 No. 12 Melodram – Wie kalt ist es hier!
17 – BEETHOVEN Fidelio – Act 2 No. 12 Duett – Nur hurtig fort
18 – BEETHOVEN Fidelio – Act 2 No. 13 Terzett – Euch werde Lohn in besser-n Welten
19 – BEETHOVEN Fidelio – Act 2 No. 14 Quartett – Er sterbe! Doch er soll erst wissen
20 – BEETHOVEN Fidelio – Act 2 No. 14 Recitative – Vater Rocco!
21 – BEETHOVEN Fidelio – Act 2 No. 15 Duett – O namenlose Freude!
22 – BEETHOVEN Fidelio – Act 2 Ouvertüre – Leonore III in C, Op. 72a
23 – BEETHOVEN Fidelio – Act 2 No. 16 Finale – Heil sei dem Tag
24 – BEETHOVEN Fidelio – Act 2 No. 16 Finale – Des besten Königs
25 – BEETHOVEN Fidelio – Act 2 No. 16 Finale – Du schlossest auf des Edlen Grab
26 – BEETHOVEN Fidelio – Act 2 No. 16 Finale – Wer ein holdes Weib errungen
Leonore – Martha Mödl
Florestan – Wolfgang Windgassen
Don Pizarro – Otto Edelmann
Rocco – Gottlob Frick
Vienna State Opera Chorus
Vienna Philharmonic Orchestra
Wilhelm Furtwängler
Fazemos um tributo ao aniversário do genial filho de Bonn, do dono do apartamento mais caótico de Viena, criatura de vida atribulada (muito em função de seu temperamento irascível – e vice-versa) e, principalmente (e é por isso que lembramos dele), um criador meticuloso que empenhava enormes esforços na composição de suas obras, cuja evolução artística – dos Trios Op. 1 ao último Quarteto Op. 135 – é talvez a mais impressionante e bem documentada entre as dos grandes compositores.
O acervo PQPBachiano já inclui inúmeras gravações da obra do “espanhol louco” (como era chamado pelos colegas da orquestra de Bonn, por conta da morenice e do temperamento medonho – e na qual, como se a desgraça já não fosse bastante, era certamente alvo de piadas por tocar viola), então resolvi postar-lhes algo diferente: um dos programas da série “Omnibus”, criada e apresentada por Leonard Bernstein nos anos 50, em que o próprio aborda o processo de criação da Quinta Sinfonia, comparando a versão final com esboços dos cadernos de anotação do compositor e ilustrando, assim, o meticuloso cuidado de Beethoven para dar-nos a impressão, como Leonard Bernstein afirma com muita felicidade, de que cada próxima nota soa como se fosse a única nota possível.
O episódio está em inglês, mas vale a pena a visita, nem que seja para CHORAR DE DOR ao imaginar que, algum dia, a TV aberta foi capaz de veicular coisas desse gabarito – enquanto declaramos abertas as festividades do ducentésimo quinquagésimo aniversário de Ludovico, que culminarão dentro de exatamente uma circunvolução terrestre.
[caso necessário, ativem as legendas em inglês]
O episódio (somente no original em inglês) pode ser baixado aqui: DOWNLOAD HERE
Caso você tenha chegado agora de Marte e não tenha visto a homenagem que o Google fez ao aniversário de Beethoven, sugiro fortemente que o faça agora. Há, mesmo, a oportunidade de ajudar o desastrado Ludwig a reorganizar as partituras que ele vai esparramando, entre uma desgraça e outra, pelas ruas de Viena. E, se achar difícil reconstruir a “Pour Elise”, agradeça aos céus por Beethoven não ter derrubado a “Grande Fuga” no chão.
Depois da estranha e, digamos, talvez abusiva interpretação de Kremer + Harnoncourt, depois da espetacular nova visita de Tezlaff ao concerto de Beethoven, ainda melhor do que esta, mostramos a excelente versão anterior do violinista para o concerto. Na Amazon, este disco recebeu a nota máxima de dez avaliadores e não é para menos, basta ouvi-lo. Aliás, a nova versão também. Gosto muito do Op. 61 e esta é uma das melhores gravações que conheço. É inteligente, criativa e elegante dentro de um estilo mais clássico do que romântico. Versão alegre, franca e muito bem interpretada por solista e orquestra.
Ludwig van Beethoven (1770-1827): Concerto para violino in D major, Op. 61 / Romances Op. 50 e 61
Concerto para violino em D major, Op. 61
01. I. Allegro ma non troppo
02. II. Larghetto
03. III. Rondo
Romance para violino e orquestra em G major, op. 40
04. I. Adagio – Allegro con brio
Romance para violino e orquestra em F major, op. 50
05. Adagio cantabile
Christian Tetzlaff, violino
Tonhalle Orchestra Zurich
David Zinman, regente
Pessoal, depois de um tempão volto a postar algumas grandes gravações do imenso maestro Leopold Stokowski (1882 – 1977). Nesta quarta parte da mini biografia compreende intenso período na carreira do maestro que vai de 1923 até 1940. No início dos anos vinte Leopold se separou de Olga Samaroff e logo se casou novamente, e desta vez com Evangeline Brewster Johnson, filha e herdeira de Robert Wood Johnson, co-fundador da empresa farmacêutica Johnson & Johnson. Ele renovou a orquestra da Filadélfia para poder se expandir para o balé e a ópera. Carismático conseguiu arrecadar fundos e pressionou a oposição do Conselho da Orquestra da Filadélfia e alguns de seus partidários para montar produções do drama musical de Schoenberg “Die glückliche Hand opus 18”, e uma produção de ballet completo de “Le Sacre du Printemps” de Stravinsky em 1930. As três apresentações, com lotação total, dessas duas obras na Filadélfia e na cidade de Nova York esgotaram-se, justificando a aposta de Stokowski de que teriam sucesso. Com muita moral (e dólares) Stokowski alcançou em 1936 um dos objetivos que procurava há pelo menos uma década: o Conselho da Associação de Orquestra concordou com uma excursão transcontinental da Orquestra da Filadélfia. Isso seria financiado pela RCA Victor Records, e incluiria 33 shows em 27 cidades ao longo de 35 dias.
No final dos anos 30, Stokowski levou ao envolvimento da Orquestra da Filadélfia no histórico filme “Fantasia” de Walt Disney. Um encontro casual com Walt Disney resultou em um jantar no “Chasen’s Restaurant” em Hollywood em 1938. Disney delineou seus planos para fazer “O Aprendiz de Feiticeiro” e outros projetos combinando música clássica com animação. Disney ficou surpreso quando o maestro respondeu “Eu gostaria de fazer estre trabalho com você…”. Ter o proeminente maestro voluntário para o projeto era uma oportunidade que a Disney não podia deixar passar. O projeto foi expandido em vários curtas que seriam combinados no “Concert Feature”. Enquanto considerava vários títulos melhores para o projeto, foi o próprio Stokowski que sugeriu o termo musical “fantasia” – um título perfeito para um filme só com música e sem enredo (O Mestre Aviccena já postou AQUI). Estas gravações tiveram algumas dificuldades técnicas quanto à sincronização, mas Stokowski as aprovou e elas foram usadas no filme final. No entanto, Walt Disney decidiu que o curta-metragem “The Sorcerer’s Apprentice” precisava ser expandido para um filme completo, a fim de ser financeiramente viável. Depois de discutir seleções musicais adicionadas com Stokowski, Disney garantiu os direitos de “Le Sacre du Printemps” em abril de 1938. Em dezembro de 1939, Stravinsky visitou os estúdios da Disney e, embora anos depois tenha sido crítico de “Fantasia”, Stravinsky, na época, parecia favorável. Mais tarde, houve mais críticas às escolhas musicais de Stokowski e Disney, particularmente na edição da música. Por exemplo, a Sinfonia Pastoral de Beethoven foi cortada em 22 minutos. “Fantasia” foi estreada em 1940. Foi amplamente vendido em DVD, em várias versões restauradas. Esta estadia em Hollywood foi tão ativa e produtiva que em março de 1938, Leopold Stokowski e Greta Garbo passaram férias juntinhos na ilha de Capri, na Itália . Será que ele pegou a Greta ? O resultado, claro, foi o divórcio com a herdeira da Johnson & Johnson.
To be continued…..
Beethoven – Sinfonia No. 5 O que dizer da quinta de Beethoven que já não estamos cansados de saber…. Bom ele terminou a composição no início de 1808. A “Quinta Sinfonia” foi executada, pela primeira vez, no dia 22 de dezembro de 1808, no “Theater an der Wien”, por um grupo de músicos angariados para o concerto, sob a regência do próprio Beethoven. Um ouvinte de hoje transportado para a Viena da época se assustaria com a precariedade dos concertos. Viena não tinha orquestras permanentes nem salas de concerto. Os concertos eram realizados nos palácios dos príncipes ou nos teatros, geralmente com acústica precária. Os músicos eram contratados para ocasiões específicas e geralmente executavam as obras com pouquíssimos ensaios, já que os cachês eram, na maioria das vezes, insuficientes para um trabalho artístico detalhado. Um típico concerto do início do século XIX consistia de uma abertura, um concerto, uma sinfonia, árias e cenas de ópera e uma improvisação do solista. O concerto que Beethoven deu naquele dia, além de muito longo, mesmo para os padrões da época, foi longe de ser perfeito. Nele foram estreadas a “Quinta e a Sexta Sinfonias”, a “Fantasia Coral”; o “Concerto para piano nº 4” que também foram executados em público pela primeira vez; quanto à ária de concerto “Ah! Perfido” e movimentos da “Missa em Dó maior” tiveram naquela oportunidade sua primeira execução em Viena; Beethoven ainda se sentou ao piano para uma série de improvisações. Embora o público estivesse acostumado a concertos longos, o concerto de estreia da “Quinta Sinfonia” durou intermináveis quatro horas, em um teatro com sistema de aquecimento estragado. Beethoven havia requisitado o teatro durante todo o ano e lhe deram apenas uma noite morta, três dias antes do Natal. Foi uma noite longa de inverno para o público vienense, que assistiu a um concerto das 18h30 às 22h30 com obras modernas de um compositor ainda pouco conhecido, executadas por uma orquestra que não havia ensaiado suficientemente. O compositor Johann Reichardt, que estava presente ao concerto, escreveu: “O pobre Beethoven, que finalmente realizava seu próprio concerto e conseguia seu primeiro e único pequeno lucro de todo o ano, recebeu, nos ensaios e na apresentação, apenas oposição e praticamente nenhum suporte. Os cantores e a orquestra, compostos dos elementos mais heterogêneos, não conseguiram realizar um único ensaio completo das peças apresentadas.”
Schubert – Sinfonia No. 8 “Inacabada” Esta sinfonia é a mais romântica de todas as sinfonias de Schubert. Foi escrita em outubro de 1822, mais ou menos na mesma época em que o compositor foi diagnosticado com sífilis, mais impressionante ainda, e totalmente consistente com o silêncio de Schubert sobre o assunto, ele nos dá um pouco de sua música mais pessoal, angustiada e intimista – música de natureza nunca antes associada com o meio muito ‘popular’ da sinfonia. Esta situação é inteiramente consistente com a escuridão, pungência e violentas erupções de protestos angustiados que caracterizam ambos os movimentos da Sinfonia “Inacabada”. Qualquer que seja a explicação, os dois movimentos concluídos complementam-se perfeitamente e, juntos, constituem uma das supremos obras-primas da história da música. Esta é outra obra que para mim traz uma grande recordação: no início dos anos 80, ainda criança, eu via meu pai chegar do trabalho toda sexta feira e colocar exatamente este LP para ouvir a oitava de Schubert, se deitava no tapete da sala ao lado da “Radio Vitrola Valvulada Telefunken” fechava os olhos e entrava numa espécie de transe. Acabava a música ele se levantava e ia tomar banho. Quem viveu aquela época sabe da grande recessão que o Brasil passava. Ele trabalhava numa grande montadora de veículos que tinha cerca de 30.000 funcionários e deveria reduzir o quadro à metade até o fim do ano. Depois mais calmo ele contava as histórias para minha mãe como esta: “… hoje vi vários amigos e pais de família chorando desesperados após serem mandados embora…”. Esta música acalmava o que chamamos hoje de stress (mas na época ele chegava era puto mesmo).
Acredito que a interpretação deste Beethoven do Stoki é bastante tradicional, mas o Schubert é muito tenso e dramático, espetacular, ambos gravados em setembro de 1969 no Walthamstow Assembly Hall, Londres, com a London Philharmonic Orchestra. Stokowski tinha 87 anos na época da gravação, idoso, mas com controle total dos seus movimentos, seus olhos e as mãos mágicas sem a batuta, transmitindo suas emoções para a orquestra. É interessante ver seu arranjo e sua técnica para criar o “Som Stokowski”. O desempenho destas sinfonias é impecável.
Deleitem-se amigos !
Beethoven – Sinfonia No. 5
1 – Allegro Con Brio
2 – Andante Con Moto
3 – Allegro
4 – Allegro
Emergimos brevemente da latrina do Hades para saudá-los – olá, tudo bem, como vão? – e para publicar a contribuição de nosso leitor Raymond Pratt, que gentilmente nos alcançou uma ripagem em melhores condições que a nossa e, mais ainda, a disponibilizou em arquivos .flac, sem perdas. Thank you once again, Mr. Pratt, for your priceless contribution! E para o Hades voltamos. Mandarei postais!
Vassily [18/3/2016]
Nosso patrão PQP costuma usar a sensacional Sonata “Waldstein” como um “termômetro” para as interpretações das demais sonatas de Beethoven. Se um pianista convence na “Waldstein”, diz ele, convencerá nas demais sonatas.
Faz todo sentido, se levarmos em conta o brilho e expressividade dessa obra que nunca enfada, assim como as medonhas dificuldades técnicas que ela impõe ao solista. A interpretação de Barbosa é reminiscente daquela de Horowitz, de quem era amigo e fã incondicional. Já a Sonata Op. 109, escrita como que na “ressaca” na colossal “Hammerklavier”, com aquele início tão peculiar que nos dá a impressão de já estarmos no meio do movimento, é tão boa que nos faz lamentar que nosso Mestre Esquecido não tenha vivido o bastante para aventurar-se nas outras sonatas tardias do Ludovico.
Sobre a conversão de LP para Mp3, cabe uma breve nota: Barbosa preferiu executar attacca (sem pausas significativas entre um movimento e outro) não só os dois últimos movimentos da “Waldstein”, como também os dois primeiros do Op. 109. Em respeito a sua escolha, os movimentos tocados “attacca” foram postos juntos na mesma faixa.
Ludwig van BEETHOVEN (1770-1827)
Sonata para piano no. 21 em Dó maior, Op. 53, “Waldstein”
Além das gravações desta série que tão orgulhosamente lhes alcançamos, Barbosa já aparecera por aqui interpretando “Rios”, de Almeida Prado, que lhe foi dedicada. Para acessar a postagem original do colega Itadakimasu (sem as Bachianas Brasileiras no. 4, pois Villa-Lobos é proibido por aqui), clique na imagem.
Vamos de Sinfonia ‘Pastoral’ hoje. Sei que é a sinfonia favorita de muita gente. Essa gravação aí foi remasterizada, e apesar de ter sido realizada lá no início da década de 60, o registro de gravação é de ótima qualidade. Vale conhecer, apesar da capa meio esquisita.
O que alguns podem estranhar são algumas escolhas que o mítico e lendário maestro Bruno Walter fez. Já no final de sua vida, não creio que ele precisasse provar alguma coisa. Minha versão favorita desta obra é a de Karajan, também lá daquela mesma época. Mas Walter faz jus à fama, e nos entrega uma ‘Pastoral’ belíssima, talvez um pouco acelerada no segundo movimento (implicância minha mesmo, a escolha foi perfeita), mas tudo bem, o conjunto da obra beira a perfeição, coisa de gênio mesmo. Detalhe: Walter veio a falecer logo após essa gravação. Entre 1958 e 1961 ele gravou a integral das sinfonias de Beethoven com esta mesma orquestra. Quero trazer todas elas, aos poucos, para os senhores terem a oportunidade de conhecer um dos maiores maestros de todos os tempos.
Fico feliz de ter tido acesso a esse material, raríssimo até há alguns anos atrás.
01. I. Erwachen heiterer Empfindungen bei der Ankunft auf dem Lande. Allegro ma non troppo
02. II. Szene am Bach. Andante molto mosso
03. III. Lustiges Zusammensein der Landleute. Allegro
04. IV. Gewitter, Sturm. Allegro
05. V. Hirtengesang. Frohe und dankbare Gefühle nach dem Sturm. Allegretto
Columbia Symphony Orchestra
Bruno Walter – Conductor
Um disco maravilhoso! É magnificamente interpretado pelo Quarteto de Cordas Dinamarquês e tem repertório coerentemente interligado. O primeiro disco do projeto Prism foi indicado ao Grammy de melhor disco erudito. Ele ligava fugas de Bach, quartetos de Beethoven e obras de mestres modernos. Neste volume dois da série, temos uma linda versão da Fuga de Bach em Si bemol menor do Cravo Bem Temperado (no arranjo do compositor Emanuel Aloys Förster), o extrordionário Quarteto Nº 3 de Alfred Schnittke (1983), e — tchan! — mais o INCONTORNÁVEL Quarteto de Cordas Op. 130 de Beethoven e a Grande Fuga. Como o quarteto explica: “Um feixe de música é dividido através do prisma de Beethoven. O importante para nós é que essas conexões sejam amplamente experimentadas. Esperamos que o ouvinte se junte a nós na maravilha de ver os feixes de música que viajam de Bach e Beethoven até nossos dias. Gravado na histórica Reitstadel Neumarkt e produzido por Manfred Eicher, o álbum é de 2019, lançado enquanto o Quarteto de Cordas Dinamarquês embarca em uma turnê com recitais em ambos os lados do Atlântico, mas não no Brasil, claro…
Beethoven / Schnittke / Bach: Prism II
1 FUGUE IN Bb MINOR BWV 869
(Johann Sebastian Bach)
06:48
LUDWIG VAN BEETHOVEN – STRING QUARTET OP.130 / OP.133
5 Adagio ma non troppo 09:52
6 Presto 02:00
7 Poco scherzoso. Andante con moto ma non troppo 07:05
8 Alla danza tedesca. Allegro assai 03:22
9 Cavatina. Adagio molo espressivo 07:49
10 Ouverture. Allegro – Fuga (Große Fuge) 16:44
Danish String Quartet:
Rune Tonsgaard Sørensen, Violin
Frederik Øland, Violin
Asbjørn Nørgaard, Viola
Fredrik Schøyen Sjölin, Violoncello
Quem é o protagonista na execução de um concerto para piano? É claro, imediatamente consideramos o solista, mas não devemos descuidar do regente, afinal ele (ou ela) fará a mediação entre a orquestra e o solista. Aliás, muito bem lembrado, a orquestra também tem papel relevante no processo.
O equilíbrio entre estas forças é determinante para o sucesso da apresentação ou gravação. Não é raro casos nos quais resultados apenas sofríveis seguem do encontro de grandes nomes. No outro lado da moeda, é possível fazer uma longa lista de excelentes resultados da colaboração de músicos menos famosos.
Ao compor o Concerto No. 2 ele era jovem
Pois bem, nesta postagem temos o melhor destas possibilidades: solista, regente e selo ou gravadora mais renomados – impossível! E a orquestra formada pelo seu regente é excelente! E para completar esse time de sonhos, o repertório: dois maravilhosos concertos de Beethoven!
A primeira gravação que Martha Argerich e Claudio Abbado fizeram juntos foi em 1967. Desde então esses dois artistas se encontraram algumas vezes para produzir gravações memoráveis. Para este disco a colaboração se deu em dois concertos gravados ao vivo, um em 2000 e o outro em 2004, no Teatro Comunale de Ferrara.
O livreto que acompanha o CD descreve a expectativa que antecedeu o concerto de 2004. Enquanto Martha ensaiava a parte do solista, Abbado preparava uma apresentação de Così fan tutte e havia um nervosismo até um pouco antes do concerto. Nada disso é, nem de sobra, sugerido pelo maravilhoso resultado que temos o privilégio de poder ouvir.
O Concerto No. 2 é o primeiro concerto composto por Beethoven, iniciado quando ele ainda morava em Bonn, mas revisto e finalmente publicado em Viena. Tanto este concerto quanto o de No. 3 mostram influência dos trabalhos de Mozart. Mas em se tratando de um compositor com personalidade tão forte, essa influência não esconde a individualidade do genial Ludovico.
O que dizer das interpretações, se você poderá constatar assim que baixar os arquivos? Não deixe de notar como a orquestra de câmara permite ouvir as texturas sonoras ainda mais claras, que há uma sensação de urgência e intensidade, mas com tempo suficiente para que música se desdobre sem atropelamentos. Note a maravilha das cadências e como os movimentos lentos são intensos e profundos. Enfim, guarde algum fôlego para os rondós arrebatadores.
Em uma das muitas elogiosas críticas que este álbum recebeu na ocasião de seu lançamento, lemos: Ouça o disco – ele é o antídoto para as gravações conservadoras. Em um universo ideal, as gravações de Beethoven seriam tão chocantemente refrescantes como esta.
Ludwig van Beethoven (1770-1827)
Concerto para piano e orquestra No. 3 em dó menor, Op. 37
Allegro com brio (Cadência: Beethoven)
Lento
Allegro
Concerto para piano e orquestra No. 2 em si bemol maior, Op. 19
Allegro con brio (Cadência: Beethoven)
Adagio
Molto alegro
Martha Argerich, piano
Mahler Chamber Orchestra
Claudio Abbado
Gravação: Teatro Comunale de Ferrara (2000, Op. 19; 2004, Op. 37)
E ainda outro crítico: Com uma ótima gravação e a audiência só se fazendo ouvir no fim, este é um álbum que mostra como faz sentido gravar mais uma vez este repertório. Este é um Beethoven do século XXI que ainda será ouvido pelo século XXII afora. Até agora, a premunição está se cumprindo!
Celebramos hoje os trinta anos da derrubada do infame Muro de Berlim, naquele incrível novembro de 1989 que viu a Alemanha encaminhar sua reunificação após uma até então inimaginável cadeia de eventos. Logo no mês seguinte, Leonard Bernstein dirigiria as forças combinadas de orquestras e coros das duas Alemanhas e das antigas potências da ocupação em performances muito emotivas da Sinfonia “Coral” de Beethoven, notáveis pela substituição da palavra Freude (“alegria”) por Freiheit (“liberdade”) no texto da “Ode à Alegria” de Schiller, que serve de base para o movimento final. A iniciativa de Bernstein, sugerida por uma história apócrifa que atribuía a substituição ao próprio Schiller, numa versão alternativa da “Ode”, foi uma licença poética que, segundo o regente, certamente teria a aprovação de Beethoven. Nesses moldes, a Sinfonia Coral foi apresentada dos dois lados da cidade outrora dividida, com extraordinária repercussão, e esta gravação, feita ao vivo no dia do Natal de 1989, registra a última dessas performances. Realizada na Schauspielhaus da antiga Berlim Oriental (hoje conhecida como Konzerthaus Berlin) e transmitida ao vivo para dezenas de países, ela tem toda a riqueza e eventuais idiossincrasias que permeiam os últimos anos da carreira de Bernstein e faz parte do canto do cisne deste multitalentoso artista, que deporia a batuta em outubro do ano seguinte para falecer meros cinco dias depois.
ODE TO FREEDOM – BERNSTEIN IN BERLIN
Ludwig van BEETHOVEN (1770-1827)
Sinfonia no. 9 em Ré menor, Op. 125, “Coral”
1 – Allegro ma non troppo, un poco maestoso
2 – Molto vivace
3 – Adagio molto e cantabile
4 – Presto – Allegro assai
June Anderson, soprano Sarah Walker, mezzo-soprano Klaus König, tenor Jan-Hendrik Rootering, baixo Coro da Rádio Bávara
Membros do Coro da Rádio de Berlim
Coro Infantil da Orquestra Filarmônica de Dresden Orquestra Sinfônica da Rádio Bávara
com integrantes da Orquestra Estatal (Staatskapelle) de Dresden, Orquestra do Teatro Kirov (Leningrado), Filarmônica de Nova York, Orquestra Sinfônica de Londres e Orquestra de Paris Leonard Bernstein, regência
Um de nossos mais assíduos leitores-ouvintes pediu, dia desses, que repostássemos a gravação de Paul Lewis para as Variações Diabelli e a série das Sonatas para piano de Beethoven com Friedrich Gulda, por terem desaparecido no éter após o colapso dos servidores de compartilhamento.
Como não tenho a gravação de Lewis, e a caixa do Gulda tem um monte de CDs, vou usar o pedido do leitor-ouvinte como pretexto para postar a versão de Gulda para as Diabelli: elétrica e doida como o intérprete, e repleta do toque mágico desse bruxo do teclado, é das melhores que conheço para a obra genial.
Ludwig van BEETHOVEN (1770-1827)
Trinta e três Variações para piano sobre uma Valsa de Anton Diabelli, em Dó maior, Op. 120
01 – Thema: Vivace
02 – Variação I: Alla Marcia. Maestoso
03 – Variação II; Poco Allegro
04 – Variação III; L’istesso tempo
05 – Variação IV Un poco più Vivace
06 – Variação V: Allegro Vivace
07 – Variação VI: Allegro ma non troppo e serioso
08 – Variação VII: Un poco più allegro
09 – Variação VIII: Poco vivace
10 – Variação IX: Allegro pesante e risoluto
11 – Variação X: Presto
12 – Variação XI: Allegretto
13 – Variação XII: Un poco più mosso
14 – Variação XIII: Vivace
15 – Variação XIV: Grave e maestoso
16 – Variação XV: Presto scherzando
17 – Variação XVI: Allegro
18 – Variação XVII
19 – Variação XVIII: Poco moderato
20 – Variação XIX: Presto
21 – Variação XX: Andante
22 – Variação XXI: Allegro con brio – Meno allegro
23 – Variação XXII: Allegro molto (Alla »Notte e Giorno Faticar« di Mozart)
24 – Variação XXIII: Allegro assai
25 – Variação XXIV: Fughetta. Andante
26 – Variação XXV: Allegro
27 – Variação XXVI
28 – Variação XXVII: Vivace
29 – Variação XXVIII: Allegro
30 – Variação XXIX: Adagio ma non troppo
31 – Variação XXX: Andante, sempre cantabile
32 – Variação XXXI: Largo, molto espressivo
33 – Variação XXXII: Fuga – Allegro – Poco Adagio
34 – Variação XXXIII: Tempo di Menuetto – Moderato
Acrescentar obras novas de Beethoven a um acervo como o do PQP Bach é dureza, ainda mais quando se tem como colegas uns celerados com discografias nababescas como nosso patrão e o ilustre FDP Bach. No entanto, acho – ACHO – que esta ainda não apareceu por aqui: o arranjo para piano e orquestra, feito pelo próprio compositor, de seu célebre Concerto para violino.
Como era habitual a Beethoven, gênio tão ruminativo quanto pessoa proverbialmente desorganizada, a versão original do Concerto foi concluída em cima da hora para a estreia, muito pouco ensaiada, e o solista – um certo Franz Clement – teve que ler boa parte do solo à primeira vista. A relação do público na première, claro, foi uma geleira, e a obra foi esquecida durante muitas décadas, até ser ressuscitada pelo jovem Joseph Joachim em meados do século XIX. Numa tentativa de resgatá-la do ostracismo, Beethoven arranjou-a como um Concerto para piano, quase rasgando suas costuras ao tentar torná-la mais idiomática ao teclado. Fê-lo, aparentemente, com muito entusiasmo, a julgar pela curiosíssima, hiperativa cadenza que escreveu para o Allegro non troppo, que conta com uma nada sutil participação dos tímpanos – os mesmos que abrem, em discreto pulsar, o primeiro movimento.
O finlandês Mustonen é um bom pianista e muito aventureiro na exploração do repertório. Para acompanhar a curiosa reinvenção de Beethoven, escolheu um dos concertos de Bach, para o qual dá uma interpretação correta, tanto ao teclado quanto na regência.
BEETHOVEN – PIANO CONCERTO (VIOLIN CONCERTO ARR. BEETHOVEN) BACH – CONCERTO BWV 1054 OLLI MUSTONEN
Ludwig van BEETHOVEN (1770-1827)
Concerto em Ré maior para piano e orquestra, Op. 61a (transcrição do Concerto para violino, Op. 61, feita pelo próprio compositor)
01 – Allegro non troppo
02 – Larghetto
03 – Rondo: Allegro
Olli Mustonen, piano Deutscher Kammerphilarmonie Jukka-Pekka Saraste, regência
Johann Sebastian BACH (1685-1750)
Concerto em Ré maior para piano, orquestra de cordas e contínuo, BWV 1054
04 – [sem indicação de andamento]
05 – Adagio e piano sempre
06 – Allegro
Olli Mustonen, piano e regência Deutscher Kammerphilarmonie
A obra de Beethoven para duo pianístico não é lá grandes coisas, e a única peça de mais músculo neste disco -a transcrição, feita pelo próprio Beethoven, da Grande Fuga para quarteto de cordas em Si bemol maior – era justamente seu ponto mais fraco: o Duo Clavier, de interpretações corretas para todas as mornas obras anteriores, errava a mão ao dar à mais iracunda obra de Beethoven uma leitura staccato e mezzo piano que aplacava quase toda sua fúria. Felizmente, ao preparar o CD para postagem, percebi que ele estava irremediavelmente danificado na última faixa, e resolvi o problema (e salvei a postagem) transplantando um MP3 que já tinha há mais tempo, em que Frank Zabel e Stefan Thomas dão à obra-prima uma leitura mais digna de sua estatura.
Esses arranjos para duo pianístico eram um recurso importante para divulgação e execução doméstica de obras que, antes de surgirem gravações fonográficas, só poderiam ser ouvidas nas salas de concerto. Sempre que escuto esta transcrição, fico imaginando quais foram os motivos que levaram Beethoven, já gravemente enfermo, a fazê-la, uma vez que ele próprio considerara a Grande Fuga longa e complicada demais para ser o final de seu Quarteto Op. 130, preferindo publicá-la em separado como Op. 133. Se lembrarmos que o escândalo causado por sua primeira audição levou muitos críticos a considerarem-na prova cabal da surdez e demência do compositor, imagino que as primeiras edições da obra (e deste arranjo) tenham encalhado integralmente. E, por mais que a versão pianística, sem os ataques furiosos e a sonoridade pungente das cordas, seja algo mais branda que a original, ainda hoje, quase dois séculos depois de sua publicação, a mais visionária das obras de Beethoven soa-nos tão moderna e radical como, provavelmente, sempre soará.
L. v. BEETHOVEN – PIANO FOUR HANDS – THE COMPLETE WORKS
01 – Oito Variações sobre um Tema do Conde Waldstein, WoO 67
Sonata em Ré maior, Op. 6
02 – Allegro molto
03 – Rondo: moderato
04 – Seis Variações em Ré maior sobre “Ich denke dein”, WoO 74
Três Marchas, Op. 45
05 – no. 1 em Dó maior: Allegro non troppo
06 – no. 2 em Mi bemol maior: Vivace
07 – no. 3 em Ré maior: Vivace
Duo Clavier
Mauro Landi e Paolo Dirani, piano
Grande Fuga em Si bemol maior, para piano a quatro mãos, Op. 134 8 – Overtura. Allegro
9 – Fuga. Allegro
10 – Meno mosso e moderato
11 – Allegro
12 – Allegro molto e con brio
13 – Allegro molto e con brio
Duo Zabel-Thomas
Frank Zabel e Stefan Thomas, piano
Entre os grandes regentes do século passado, Fritz Reiner é um nome que se destaca pela qualidade das gravações que deixou, especialmente com a Orquestra Sinfônica de Chicago. Ele assumiu a direção desta orquestra em 1954 e a transformou em uma das melhores do mundo. Segundo Stravinsky, Reiner tornou a Sinfônica de Chicago na orquestra mais precisa e flexível do mundo.
Fritz, de tremendo bom humor!
O período de 1954 a 1963, no qual Reiner reinou em Chicago, coincide com o surgimento e afirmação das gravações em estéreo, um importante marco na história da música gravada. A gravação do Concerto para Piano e Orquestra No. 1 de Brahms, em que Reiner e a Sinfônica de Chicago acompanham Arthur Rubisnstein, assim como as gravações do Concerto para Orquestra de Bartók e de La mer, de Debussy são deste período. Estes discos são verdadeiros marcos da história fonográfica e devem ser ouvidos por todos aqueles que têm algum interesse por música.
Na postagem de hoje temos as gravações de duas sinfonias e duas aberturas de Beethoven, registradas neste período pela CSO e Reiner.
Fritz Reiner era um tirano, mas também era genial. Tinha poder enorme sobre os músicos, o que é impensável hoje, e o usava com um certo prazer sádico. Há testemunhos de que era abusivo. Ou seja, os resultados que apreciamos nestas gravações tinham altíssimo custo pessoal para os músicos da orquestra.
No entanto, havia também outros aspectos. A sua técnica de regência era impressionante. Philip Farkas foi o principal trompista na era Reiner e lembra: Ele [Reiner] regia com tudo que tinha, não apenas com as mãos. Poderia reger os violinos com as mãos e indicar a entrada dos sopros enchendo as bochechas de ar e soprando no exato momento desta entrada. Se além disso quisesse um crescendo, usava as sobrancelhas…
O custo destas conquistas era verdadeiramente alto, mas o maestro e sua orquestra tinham seus momentos. O mesmo Farkas lembra o final de um concerto em Boston, quando a CSO estava em uma turnê, em 1958. O concerto correra de maneira perfeita, sem uma falha sequer. Todos estavam verdadeiramente movidos e quando os aplausos terminaram, se reuniram nos bastidores. Reiner cumprimentou a cada um, apertando suas mãos, com lágrimas correndo dos olhos. Ele teria dito: Toda a minha vida esperei por este momento, um concerto perfeito.
Temos então, um álbum quase perfeito. As Sinfonias pertencem ao conjunto das sinfonias ímpares e apresentam o lado mais heroico de Beethoven, assim como as duas aberturas. Aqui estas obras são apresentadas na roupagem big band, com muitos violinos, profundos violoncelos e baixos, sopros destemidos, assim como tímpanos e demais.
Acho esta interpretação da sétima ainda maravilhosa. A quinta um pouco menos. As aberturas são verdadeiras pérolas. Excelentes!
Cuidado com o que você deseja! Assim é o adágio. Pois eu desejei este disco muito tempo. Quando finalmente o encontrei, antes da primeira audição, senti um misto de antecipação e um friozinho na barriga. Seria realmente tudo aquilo que eu imaginara? Pois bem, veio a primeira, a segunda e agora nem sei mais qual o número da audição. O esperado se realizou com abundância. Não canso de ouvir e, portanto, aqui está, seguindo nossos estritos critérios de escolha de material de postagem: apenas o melhor!
Os dois últimos concertos para piano de Beethoven formam um belo par em discos maravilhosos. Só para não deixar o seguidor do blog no ar: Emil Gilels e Wilhelm Kempff! A enorme diferença entre estes dois maravilhosos concertos só ajuda no sucesso do disco. Engano pensar que o quarto é mais simples. Ledo engano! E inovador que também ele é, com o piano roubando a cena logo na abertura.
Falando do Concerto No. 4 é impossível não mencionar a história de Orfeu e Eurídice. Há fumos e rumores tratando da possibilidade de que o mito de Orfeu, que com seus talentos e lamentos implorou às Erínias que dessem à sua amada Eurídice uma chance para voltar ao mundo dos vivos, tenha inspirado Beethoven na composição do seu Andante con moto. É claro que a história é maravilhosa e Beethoven conhecia a ópera de Gluck sobre o tema. Para reunir ainda mais condições de veracidade a esta possibilidade, há um retrato no qual Beethoven aparece segurando uma lira, o instrumento de Orfeu. Eu fiquei curioso e aposto que você também. Para mais informações sobre isso, veja aqui.
Além disso, se você viu o filme The King’s Speach – O Discurso do Rei, certamente vai reconhecer o Adagio do Concerto No. 5, que magistralmente termina na irrupção do Rondo, uma das transições geniais do Ludovico.
Todas as belezas são aqui realizadas com facilidade e maestria. As armadilhas são evitadas e a parceria solista-orquestra-regente é fenomenal, parece cumplicidade. Veja o que o crítico da Gramophone disse sobre esta combinação: Esta é uma parceria de sonhos com o solista e o regente trabalhando como uma mão na luva, e mesmo se considerar tantos nomes gloriosos em tal repertório (de Schnabel a Lupu) você dificilmente ouvirá interpretação de tão livre e invejável graça e fluência musical. É pouco ou quer mais?
Este disco está na lista dos melhores cinquenta discos de Beethoven da Gramophone! Confira aqui.
Esclareço que devemos ter um certo cuidado com as listas, mesmo as mais famosas. Mas em última instância, é preciso ouvir e decidir por si mesmo. Não se faça de rogado. Eu aposto um download que você vai gostar.
Ludiwig van Beethoven (1770-1827)
Concerto para piano No. 4 em sol maior, Op. 58
Allegro moderato
Andante com moto
Vivace
Concerto para piano No. 5 em mi bemol maior, Op. 73
Mais uma do crítico da Gramophone: Till Fellner certamente faz parte daquela elite que Charles Rosen tão memoravelmente definiu como aqueles que, enquanto aparentemente fazem nada, alcançam tudo! Basta ouvir o álbum.
A expressão battle horse, literalmente cavalo de batalha, aparece com frequência nas críticas escritas em inglês dos álbuns de música clássica. Refere-se àquela obra que absolutamente todos os grandes (e também os não tão grandes) intérpretes registram e apresentam em seus concertos.
Pois este disco contém dois verdadeiros cavalos-de-batalha: os concertos para violino e orquestra de Beethoven e de Sibelius. Além disso, eles têm outras coisas em comum. Por exemplo, ambos não foram muito bem em suas estreias devido ao fato de que seus compositores estavam quase terminando a parte do solista nas vésperas da apresentação e os pobres intérpretes mal tiveram tempo de se preparar para apresentar suas partes. E olha que elas demandam quase tudo que um solista precisa saber.
Beethoven compôs seu concerto para violino em 1806, mas este só se firmou no repertório graças a um garoto de 12 anos: Joseph Joachim, aquele amigo de Brahms, que também produziu um cavalo-de-batalha. Brahms, não Joachim. Ele foi o solista em uma apresentação do concerto em Londres, em 1844, com acompanhamento de Mendelssohn, regendo Philharmonic Society. Mendelssohn foi também compositor de outra dessas maravilhosas criaturas.
Jan Sibelius compôs o seu concerto em 1904, mas como já foi dito, teve que rever a obra, que demorou um pouco para se firmar. Mas não há dúvida, como você pode ouvir nesta gravação – verdadeiro puro-sangue!
Veja como é descrito o terceiro movimento do concerto de Sibelius, intitulado Allegro ma non tanto: “este movimento é largamente conhecido entre os violinistas por suas dificuldades técnicas formidáveis e é muito conhecido como um dos maiores movimentos de concerto escrito para o instrumento. Já foi descrito como uma polonaise para ursos polares, mas tem também uma qualidade bélica que evoca um campo de batalha”. Portanto, autêntico cavalo-de-batalha. Para outra excelente interpretação do concerto de Sibelius, clique aqui.
Este disco é bastante recente, mas está sendo postado seguindo nossos estritos critérios de escolha para material digno de nossos seguidores: por ser definitivamente maravilhoso. Os intérpretes não poderiam ser melhor escolhidos. Christian Tetzlaff é um dos violinistas mais em evidência no momento e tem uma longa experiência com estes concertos. Ainda na juventude, gravou o Concerto de Beethoven com Michael Gielen e usou a cadência que também usa nesta gravação. Esta cadência foi composta pelo próprio Beethoven, para a adaptação do concerto para piano e orquestra. Note a participação dos tímpanos. E a orquestra está empolgada com a atuação de seu novo regente. Ticciati tornou-se o diretor musical da Deutsches Symphonie-Orchester Berlin bem recentemente. Assim, sem mais delongas, aos arquivos!
Com um disco destes, quem não fica de bem com a vida?
Quase cem anos separam as composições destas duas obras primas, mas o que as torna verdadeiros e duradouros sucessos não é o virtuosismo que certamente exigem de seus intérpretes, mas a profundidade e a beleza dos sentimentos e da música que foram colocados nelas.
É uma questão importante, urgente, até. Considero esta a mais difícil das sinfonias de Beethoven em termos de categorização histórica. É uma sinfonia clássica com antecipações românticas, mas também é uma sinfonia já romântica em espírito, porém clássica em forma. Seria uma obra atemporal que reivindica independência a uma classificação de estilo? Seja como for, permanece num limiar sutil entre a pura expressão sensível (quase um poema sinfônico) e a forma-sonata expandida. Entre tantas possibilidades, de certa forma algo contraditórias, mantém a Pastoral sua imponente beleza além de qualquer conflito de interpretação. Mas qual delas consegue traduzir de maneira mais plena seu espírito universal? Considero impossível haver um consenso, já que falamos de expressão sensível, mas aponto algumas gravações que entendo como referenciais para esta obra:
1.Bruno Walter, Columbia Symphony Orchestra CBS (1962)
Esta gravação já consagrada é sem dúvida uma das preferidas de público e crítica. É uma leitura sincera e espontânea, que prima pelas harmonias sutis das mudanças de tom, e preserva a orquestração clássica original, quase camerística. Um fato inusitado para a época. Walter capta o estilo bucólico sem preconceitos estilísticos, e essa honestidade de propósitos se configura numa Pastoral de universalidade emocional patente. O último movimento é de uma sutileza comovente.
A contrapartida é a leitura de Karajan do mesmo ano 1962. Insípida e afetada, destoa das demais sinfonias gravadas neste ciclo também já clássico, que (re-)lançou a Filarmônica de Berlim como orquestra de excelência pelo mundo afora, depois do trauma da II Guerra. É uma interpretação bastante forçada, e muito pouco inspirada, trazendo o mesmo Beethoven titânico da V Sinfonia para esta, de caráter absolutamente diverso. Serve para estabelecer um termo de comparação bastante útil entre as leituras clássicas e românticas. A última versão da Pastoral gravada por Karajan em 1984 não é nem digna de estar neste post.
3.Nikolaus Harnoncourt, The Chamber Orchestra of Europe TELDEC (1991)
No pioneiro auge das gravações que se pretendiam ‘históricas’ ou ‘de época’, Harnoncourt se mostra surpreendente. Na mesma pegada que outros maestros se aventuraram, notadamente John Eliot Gardiner e Christopher Hogwood, Harnoncourt é o que consegue melhor equilíbrio entre o clássico formal e o bucolismo romântico. Seus ritmos são notadamente clássicos, mas tem uma suavidade ambígua que o coloca num limiar bastante diverso de seus colegas. Gardiner e Hogwood são bem mais carregados de modismos estilísticos que se caracterizam pela leitura histórica, e Harnoncourt opta por deixar a música fluir. A Tempestade nos remete às fúrias de Gluck, e soa com ecos da tempestade e ímpeto que tanto mobilizaram os imediatos antecessores de Beethoven. É a gravação que melhor capta o que talvez teríamos escutado em sua época, combinado com as intenções descritivas pré-românticas do mestre.
Böhm também pertence à tradição romântica alemã, da qual Karajan é seu representante mais famoso. Mas Böhm tem um diferencial: não foi diretamente afetado pela fama megalomaníaca, e se reserva por isso o direito de fazer uma leitura sincera. É um Beethoven romântico por excelência, mas nem por isso menos interessante. Pelo contrário, a sinceridade de Böhm nos contagia, deixando-nos acreditar que talvez Beethoven pudesse ser, na verdade, um romântico enrustido.
Para quebrar a hegemonia, uma versão para piano. Esta gravação, feita em 1981 pelo pianista grego-francês Cyprien Katsaris foi, estranhamente, a primeira vez que se lançou a transcrição de Liszt. Não é uma versão qualquer, tem a marca de pelo menos dois gênios. Eu gosto muito porque realça as mudanças harmônicas que na orquestra ficam diluídas nos timbres. Aqui, a tonalidade fica em evidência, e percebe-se o quanto essa tal harmonia era cara a Beethoven. E nos mostra uma outra faceta curiosa: música boa é sempre boa, quer original ou transcrita.
Essa gravação eu conheci através da Enciclopédia Salvat dos Grandes Compositores, uma publicação espanhola que teve seus dias de glória no Brasil no final da década de 80. No início me parecia muito razoável, mas só depois que ouvi diversas outras versões (Bernstein-NYPhO, Abbado-VPO e as demais aqui descritas) é que me dei conta que é a leitura que melhor capta o clima de espírito pastoral, independente da abordagem de estilo. Andamentos suaves, dinâmica sutil, timbres bem delineados. Uma tempestade épica, um finale glorioso, faz parecer que todo o universo dança.
Ao lado da gravação de Bruno Walter, considero esta a verdadeira Pastoral. A gravação de Masur com a mesma Gewandhaus de Leipzig feita nos anos 90 não chega aos pés dessa. Confiram.
Passada em revista a parte da família das cordas que é tocada com arcos, enveredamos por um outro ramo da família com quem os arcos não falam muito, pois as salas de concerto costumam torcer-lhes os narizes: aquele das cordas dedilhadas.
Antes que me joguem os tomates, ou me perguntem por que exus eu não apus a palavrinha .:interlúdio:. ao título de uma gravação, vejam só, de banjo, de BANJO, de B A N J O! incongruentemente atirada no meio das sacrossantas interpretações dos Pollinis e Bernsteins que os blogueiros não-vassílycos publicam por aqui, bem, antes que venham os apupos, os “foras!” e que me defenestrem, eu antecipadamente me defendo: Béla Fleck é um TREMENDO músico e merece ser ouvido.
Ok, o repertório do CD é um balaio de gatos cheio de figurinhas fáceis do repertório das coleções “The Best of”, só que ele é feito sob medida para Fleck exibir com sobras seu talento. Asseguro-lhes que dificilmente ouvirão um banjo ser tocado com tanta maestria, ainda mais acompanhado por músicos do naipe de, entre outros, Joshua Bell, John Williams e Edgar Meyer. No final, para relaxar, Fleck colocou uma ótima versão bluegrass do “Moto Perpétuo” de Paganini, mas ela está claramente identificada como tal e os puristas entre vós outros poderão deletá-la antes que ela fira algum ouvido.
E, se vocês acharam interessante o Fleck ter o nome de Béla, saibam que o nome completo do cavalheiro é Béla Anton Leoš Fleck. Sim: uma homenagem ao grande Béla, àquele Anton e a este Leoš.
PERPETUAL MOTION – BÉLA FLECK
Domenico SCARLATTI (1685-1757)
01 – Sonata em Dó maior, K. 159
Johann Sebastian BACH (1685-1750)
02 – Invenção a duas vozes no. 13 em Lá menor, BWV 784
Claude-Achille DEBUSSY (1862-1918)
03 – Children’s Corner, L. 113 – “Doctor Gradus ad Parnassum”
Fryderyk Franciszek CHOPIN (1810-1849)
04 – Mazurkas, Op. 59 – no. 3 em Fá sustenido menor
Johann Sebastian BACH
05 – Partita no. 3 em Mi maior, BWV 1006 – Prélude
Fryderyk Franciszek CHOPIN
06 – Études, Op. 10 – no. 4 em Dó sustenido menor
07 – Mazurkas, Op. 6 – no. 1 em Fá sustenido menor
Johann Sebastian BACH
08 – Invenção a três vozes (Sinfonia) em Sol maior, BWV 796
Pyotr Ilyich TCHAIKOVSKY (1840-1893)
09 – Souvenir d’un lieu cher, Op. 42 – no. 3: Mélodie
Johannes BRAHMS (1833-1897)
10 – Cinco estudos para piano, Anh. 1a/1 – no. 3 em Sol menor, após Johann Sebastian Bach
Johann Sebastian BACH
11 – Suíte no. 1 em Sol maior, BWV 1007 – Prelude
12 – Invenção a três vozes (Sinfonia) em Si menor, BWV 801
Domenico SCARLATTI
14 – Sonata em Ré menor, K. 213
Johann Sebastian BACH
15 – Invenção a duas vozes no. 6 em Mi maior, BWV 777
Ludwig van BEETHOVEN (1770-1827)
16 – Sonata no. 14 em Dó sustenido menor, Op. 27 no. 2, “Luar” – Adagio sostenuto
Johann Sebastian BACH
17 – Invenção a duas vozes no. 11 em Sol menor, BWV 782
Ludwig van BEETHOVEN
18 – Sete Variações sobre “God Save the King”, WoO 78
Johann Sebastian BACH
19 – Invenção a três vozes (Sinfonia) em Mi menor, BWV 793
Niccolò PAGANINI arranjo de James Bryan Sutton
12 – Moto Perpetuo, Op. 11 (versão bluegrass)
Béla Fleck, banjo Joshua Bell, violino Gary Hoffmann, violoncelo Evelyn Glennie, marimba Edgar Meyer, contrabaixo Chris Thile, bandolim James Bryan Sutton, violão folk John Williams, violão
E eis que chegamos ao volume que encerra esta maratona Beethoven com John O’Conor.
O critério para este CD, claro, foi um só: “sobras sortidas”. É a única explicação para justapor a curiosa e incomumente longa Sonata op. 7, de 1796, com a ótima Sonata “quasi una Fantasia” Op. 27 no. 1, injustamente eclipsada por sua irmã famosa de Opus e, acredito, obra superior em termos de arrojo e invenção. No meio delas, a pouco ouvida Sonata Op. 22, altamente estimada por Beethoven e talvez a última de suas obras mais convencionais no gênero.
LUDWIG VAN BEETHOVEN (1770-1827)
SONATAS PARA PIANO, VOL. IX – JOHN O’CONOR
Sonata no. 4 em Mi bemol maior, Op. 7
01 – Molto allegro e con brio
02 – Largo, con gran espressione
03 – Allegro
04 – Rondo: Poco allegretto e grazioso
Sonata no. 11 em Si bemol maior, Op. 22
05 – Allegro con brio
06 – Adagio con molta espressione
07 – Menuetto
08 – Rondo: Allegretto
Sonata no. 13 em Mi bemol maior, Op. 27 no. 1, “Quasi una Fantasia”
06 – Andante
07 – Allegro molto e vivace
08 – Adagio con espressione
09 – Allegro vivace
Chegamos ao penúltimo CD da série e à colossal, mastodôntica, ___________ [insira aqui seu adjetivo superlativo favorito] Sonata Op. 106, vulgo “Hammerklavier”.
Como a peça dispensa apresentações, vou incorporar o espírito de alguém que nada mais tem a fazer além de chover no molhado. Escolho o de Anton Schindler, o factotum de Beethoven, notório por muito atochar em sua biografia do compositor e adulterar os cadernos de conversação que o Mestre, completamente surdo, usava para se comunicar, e que serviram de base para pesquisas biográficas. Já imbuído do espírito do famoso trouxão, faço aqui algumas perguntas bestas:
– O título “Sonata für das Hammerklavier” (“sonata para o piano de martelos”) explicita o instrumento preferido do compositor numa época em que o pianoforte, o clavicórdio e o cravo eram usados para tocar as sonatas de Beethoven. Se o título também foi usado para a Sonata Op. 101, por que o apelido colou somente na Op. 106?
– Se já na Sonata Op. 90 Beethoven começou a preferir indicar o andamento e as indicações de expressão em seu alemão nativo a fazê-lo no italiano de praxe, por que na mamútica, transcendental “Hammerklavier” ele voltou a recorrer à língua do Petrarca?
– Quando descreveu a fuga final como “a tre voci, con alcune licenze” (“a três vozes, com algumas licenças”), estaria Ludwig imaginando que alguém realmente se importaria com as liberdades que tomou em relação às estritas regras da forma, em vez de se chocar, como até hoje nos chocamos, com esta mais difícil e complexa de todas as fugas para teclado?
– Será possível algum dia escutar alguma interpretação plenamente satisfatória desta obra enorme e horrendamente difícil? E, se ela já existe, qual é? (para mim, a versão de Pollini era a preferida até escutar aquela do MAGO Sokolov, que algum dia postarei aqui)
– Vocês têm interesse de escutar uma versão da “Hammerklavier” para orquestra? Ou vão me crucificar de cabeça para baixo por isso?
Cartas para a redação.
LUDWIG VAN BEETHOVEN (1770-1827)
SONATAS PARA PIANO, VOL. VIII – JOHN O’CONOR
Sonata no. 27 em Mi maior, Op. 90
01 – Mit Lebhaftigkeit und durchaus mit Empfindung und Ausdruck [“com vivacidade e ao longo [de todo o movimento] com sentimento e expressão”]
02 – Nicht zu geschwind und sehr singbar vorgetragen [“não tão rápido e executado de maneira cantável”]
Sonata no. 28 em Lá maior, Op. 101
03 – Etwas lebhaft und mit der innigsten Empfindung [“algo vivaz, com o mais profundo sentimento”]
04 – Lebhaft, marschmäßig [“vivo, como marcha”]
05 – Langsam und sehnsuchtsvoll [“lento e saudoso”] – Geschwind, doch nicht zu sehr und mit Entschlossenheit [“rápido, mas não demais, e com muita determinação”]
Sonata no. 29 em Si bemol maior, Op. 106, “Hammerklavier”
06 – Allegro
07 – Scherzo: Assai Vivace
08 – Adagio sostenuto
09 – Largo: allegro risoluto – Fuga a tre voci, con alcune licenze
Nos últimos tempos eu estava procurando um boa gravação da Terceira Sinfonia de Beethoven, não sei o motivo, talvez alguma conversa com alguém conhecido, enfim. Aí encontrei em meu acervo esta belíssima gravação do saudoso Sir Malcolm Sargent, maestro inglês que foi muito famoso no seu tempo, então resolvi postá-la.
Os dois registros, tanto o de Beethoven, quanto o de Schubert, foram realizados no começo da década de 60, quando este que vos escreve ainda nem era projeto, nasci alguns anos depois. Mas em ambos os registros podemos ter uma amostra do talento de Sargent, de seu total e completo domínio da orquestra. Na Sinfonia ‘Eroica’, a ‘Marcia Funebre’ é o grande momento de qualquer maestro. Sua capacidade de articulação é fundamental para extrair destas dolorosas notas toda a sua expressividade. O tempo de execução deste movimento aqui é de 17:53, e é bem coerente, não tão longo quanto alguns outros maestros (já vi alguns que chegam ou passam dos 21 minutos na execução, enquanto outros demoram apenas dezesseis minutos, que considero rápido demais). Claro que é uma questão de gosto. Lembro de quando ouvi esta passagem na última versão que Bernstein gravou, com a Filarmônica de Viena. Eu estava em casa, passando um pano nos móveis da sala, era um dia ensolarado, eu deveria ter uns dezesseis ou dezessete anos. Coloquei o LP para tocar, e de repente, tive de sentar, tamanho o impacto que a música que causou. Fiquei sentado, ouvindo. Estava sozinho em casa, creio. Não era uma obra desconhecida para mim, já ouvira outras versões, Karajan, Klemperer ou Jochum, mas com certeza foi o Bernstein quem me derrubou. A partir de então, aquela gravação tornou-se a minha favorita. Ainda tenho o velho LP, está guardado.
A Sinfonia Inacabada foi tema de uma discussão dia destes no grupo do Whattsap do PQPBach. Encontrei na internet uma gravação em que um maestro conclui a obra, baseado em rascunhos dos dois últimos movimentos que o próprio Schubert deixou. A discussão era exatamente sobre a necessidade de sua ‘conclusão’. Consideramos a obra perfeita em seus dois movimentos, ela se completa totalmente. Claro que novamente se trata de questão de gosto, e gosto não se discute, dizem os mais antigos.
Mas vamos ver o que Sir Malcolm Sargent tem a nos dizer. Gostei muito desse CD, que faz parte de uma série de 17 CDs da série ICON, da EMI, grande parte destes CDs são dedicados aos compositores ingleses. Com o tempo, trago outras gravações.
01. Symphony No.3 in E flat Op.55 ‘Eroica’ I. Allegro con brio
02. Symphony No.3 in E flat Op.55 ‘Eroica’ II. Marcia funebre – Adagio assai
03. Symphony No.3 in E flat Op.55 ‘Eroica’ III. Scherzo & Trio – Allergro vivace
04. Symphony No.3 in E flat Op.55 ‘Eroica’ IV. Allegro molto – Poco andante – Presto
05. Symphony No.8 in B minor D759 ‘Unfinished’ I. Allegro moderato
06. Symphony No.8 in B minor D759 ‘Unfinished’ II. Andante con moto
Royal Philharmonic Orchestra
Sir Malcolm Sargent – Conductor
Para a sétima estação da odisseia de John O’Conor com as sonatas de Beethoven, a Telarc resolveu reunir todas as sonatas curtinhas em um só volume.
Essas obras são tão breves que nenhuma delas chega sequer perto de durar tanto quanto o Adagio sostenuto da Sonata “Hammerklavier”, que encontraremos no volume seguinte. Meu xodó entre elas, apesar de seus singelos dois movimentos, é a Sonata Op. 78, cognominada “À Thérèse”, que é das obras-primas mais concisas de Beethoven, na bonita e incomum tonalidade de Fá sustenido maior.