PUBLICADO ORIGINALMENTE POR FDP BACH EM 7 DE OUTUBRO DE 2008, RESTAURADO POR VASSILY EM 16/3/2020
Sim, eu sei que tinha prometido a mim mesmo dar um tempo nestas integrais, mas como ando pouco inspirado ultimamente, resolvi encarar a empreitada de postar mais uma integral, desta vez com as Sonatas de Beethoven pelas mãos maravilhosas de Emil Gilels. Meu projeto era colocar o Schubert de Brendel, o Schumann de Kempff, ou até mesmo o Beethoven de Brendel, mas sei que a loucura de final de ano nas aulas vai me deixar absolutamente sem tempo, por isso estou postando o que está mais próximo, esta integral de Gilels está disponível no meu HD, enquanto que as outras opções teriam de ser procuradas na bagunça de meus cds e dvds.Além do mais, não se trata de uma integral, pois faltam algumas sonatas, mas o importante aqui não é a quantidade, e sim a qualidade.
Gilels com certeza é um dos gigantes do piano do Século XX. Suas interpretações de Beethoven e Tchaikovsky estão entre as mais importantes, e isso numa época em que a concorrência era grande e pesada (basta lembrarmos de Rubinstein, Sviatoslav Richter, Wilhelm Kempff, para citar alguns).Foi um dos primeiros artistas soviéticos, junto com outro gigante, David Oistrakh, a excursionar pela Europa, em um período em que isso era pouco comum de acontecer, lembrando que falamos do período stalinista. Comecemos com as sonatas da juventude de Beethoven.
01 – Sonate No.2 A-dur op.2 No.2 – 1. Allegro vivace
02 – Sonate No.2 A-dur op.2 No.2 – 2. Largo appassionato
03 – Sonate No.2 A-dur op.2 No.2 – 3. Scherzo. Allegretto
04 – Sonate No.2 A-dur op.2 No.2 – 4. Rondo. Grazioso
05 – Sonate No.3 C-dur op.2 No.3 – 1. Allegro con brio
06 – Sonate No.3 C-dur op.2 No.3 – 2. Adagio
07 – Sonate No.3 C-dur op.2 No.3 – 3. Scherzo. Allegro
08 – Sonate No.3 C-dur op.2 No.3 – 4. Allegro assai
09 – Sonate Es-dur WoO 47 No.1 – 1. Allegro cantabile
10 – Sonate Es-dur WoO 47 No.1 – 2. Andante
11 – Sonate Es-dur WoO 47 No.1 – 3. Rondo vivace
12 – Sonate f-moll WoO 47 No.2 – 1. Larghetto maestoso – Allegro assai
13 – Sonate f-moll WoO 47 No.2 – 2. Andante
14 – Sonate f-moll WoO 47 No.2 – 3. Presto
Emil Gilels – Piano








O último volume da aventura fortepianística beethoveniana de PBS segue com o mesmo piano Graf usado no volume anterior e termina, bem, pelo fim. Talvez Beethoven, já completamente surdo, tivesse em sua visionária mente um som bastante distinto destes Grafs, Walters e Broadwoods que ouvimos. Se o som dos modernos pianos de concerto, com seus cepos de aço e mais de sete oitavas, agradaria o legendário turrão, nunca saberemos. Podemos supor que sim, pela insistência com que batia na tecla (desculpem o trocadilho) da ampliação da extensão e da robustez dos instrumentos. O fato é que esta finaleira de PBS é tão boa quanto o volume de abertura, e o som eventualmente tilintante dos agudos e os zumbidos dos baixos, somados aos, como os chama o patrão PQP, ruídos de marcenaria, trazem frescor e riqueza tímbrica para essa genial trinca de obras, que é e sempre será moderna.
Beethoven só compôs a (prometo ser comedido com adjetivos hiperbólicos) colossal sonata Op. 106 porque o fortepiano tinha sido aperfeiçoado também em feitio colossal, não só pela ampliação de sua extensão para seis oitavas e meia, quanto por fortalecimento em sua estrutura que, se ainda não reforçada por metal, como nos pianos modernos, era incomparavelmente mais robusta que a daqueles instrumentos em que o compositor fora iniciado ao teclado, décadas antes. Muito desses avanços devem-se a construtores como Conrad Graf, cujo ateliê em Viena forneceria instrumentos, entre tantos outros, para Liszt e Chopin, além do próprio Beethoven, que ganhou um fortepiano especial de Graf, com uma corda extra junto a cada tecla, chegando a quatro cordas por nota. A intenção era facilitar-lhe as coisas ante a surdez, mas esta já era tão profunda que Ludwig quase não mais se aproximava do teclado para compor. A única obra para piano que publicaria depois do presente seria o arranjo para quatro mãos da Grande Fuga (Op. 134). Depois de sua morte, o piano foi devolvido a Graf, e acabou na Beethoven-Haus de Bonn, onde, claro, é conhecido como o “piano de Beethoven” – o que não é mentira, mas também não é uma verdade vibrante.

Ontem, um piano boêmio. Hoje, o piano do morávio Georg Hasska. Tem cinco oitavas e meia, em vez das meras cinco a que Beethoven se acostumara desde que foi apresentado a um pianoforte, e nelas Ludwig se esbalda em algumas de suas obras mais originais. Embora haja no disco sonatas mais votadas – como aquelas alcunhadas “A Caça” e “Les Adieux” -, meu xodó será sempre a Op. 78, aquela de menos votada alcunha, “À Thérèse”, um primor de concisão e criatividade suprassumamente beethovenianas.
Nem bem falamos ontem da parruda sequência de sonatas Opp. 26-28, e eis que “Pastoral” nos aparece para fechá-la. Este piano boêmio (porque de Praga, capital da Boêmia, e não porque da boemia), feito no ateliê de Caspar Schmidt, era muito popular pela riqueza de timbres e por algumas armas secretas, como os “efeitos turcos” – entre os quais chocalhos, pratos e tambores – acionados por um de seus seis pedais. Este espécime que ouviremos, que também pertencia a PBS, soluça em alguns registros, mas nada que não tire o deleite de ouvir a beleza da “Pastoral” e das duas primeiras sonatas do Op. 31 por seus martelinhos – seus efeitos de pedal, em especial o “una corda”, que nos podem soar de antemão estranhos, acabam por ser fascinantes, especialmente no movimento lento da Op. 31 no. 1 e na “Tempestade”.




Para nossa alegria, e possivelmente também a de PBS, o pianoforte Schantz em que tocou as sonatas Op. 2 volta para este terceiro volume, que inclui a primeira obra-prima de Beethoven no gênero, a magistral terceira sonata do Op. 10, com seu movimento lento belamente realizado no fortepiano que, pelo que consta no livreto, pertencia ao próprio PBS. Encerrando o volume, um tanto quanto anticlimaticamente, está a sonata remanescente do Op. 14, que raramente ouvimos apartada de seu singelo par.
O segundo volume da aventura fortepianística beethoveniana de Paul Badura-Skoda (que, prometêramos, seria doravante mencionado como PBS) traz algumas obras menos votadas do famoso rol das trinta-e-duas. O som deste piano Broadwood de 1796, mesmo fabricante que décadas depois presentearia Beethoven com o, bem, “piano de Beethoven” que já foi tantas vezes ouvido em gravações, não é tão fácil de escutar quanto o do volume passado. Ele quase estoura na “Grande Sonata”, op. 7, o que nos faz imaginar o que não seria de seus pobres martelinhos se PBS atacasse a brutal “Hammerklavier” com ele. O Broadwood tem melhor sorte com a relativamente pouco ouvida sonata Op. 22, uma das preferidas do compositor, e com a levinha Op. 14 no. 1, que ele próprio transcreveu para quarteto de cordas.
Daremos um tempo na nossa integral de Lud Van para postarmos… bem, uma integral de Lud Van.






Postar-lhes uma hora de música para mostrar-lhes alguns minutos de Beethoven? Seria mais ou menos como trazer uma baleia à sala de visitas para apontar-lhe uma pequena craca no espiráculo – se, pô, a música não fosse a de Mozart e seu intérprete não fosse o insubstituível Arthur Rubinstein.

Mais um pacotinho de variações para piano, do mesmo naipe 
O conjunto não existe sem as partes, e as grandes orquestras não existem, por óbvio, sem ótimos músicos. Vários são os exemplos de instrumentistas que marcaram época em seus conjuntos, como o Marcel Tabuteau, o grande solista de oboé da Philadelphia Orchestra sob Stokowski e Ormandy por mais de quarenta anos, e o fenomenal Dennis Brain, trompista da Philharmonia Orchestra, precocemente falecido. Também não é incomum que alguns deles embarquem em carreiras solísticas que nos levem a esquecer de seu passado em orquestras, como fizeram o flautista James Galway e a clarinetista Sabine Meyer, ex-integrantes da Filarmônica de Berlim. Não é raro, também, que haja encontros como o deste disco, em que três grandes músicos da Orchestre de Paris dividem a ribalta com seu então regente, e aqui pianista, Daniel Barenboim.





Essas três pequenas sonatas compostas em Bonn por um Beethoven menino (doze anos!) e dedicadas ao príncipe-eleitor de Colônia (em alemão, Kurfürst) são normalmente ignoradas no cômputo de suas sonatas para piano. Sou da opinião de que elas merecem ser conhecidas, nem que seja para perceber os primeiros lampejos de brilho do garoto que se aventurava ambiciosamente na sonata-forma, e reconhecer as manifestações mais precoces dos cacoetes de Ludwig em sua escrita para o teclado. Jörg Demus – o mais discreto dos integrantes da troika pianística vienense, completada por Friedrich Gulda e Paul Badura-Skoda – traz-nos uma leitura muito bonita, com sua característica precisão elegante, muito embora eu ache que estas sonatinhas exijam o som mais pungente, que eu sei que não é do gosto de todos, do pianoforte. A gravação prossegue com duas sonatinas, a segunda delas completada por Ferdinand Ries (1784-1838), aluno e amigo do compositor, e termina com mais uma fieira de pequenas peças avulsas para piano, incluindo uma écossaise (WoO 23) originalmente escrita para banda marcial, mas que sobrevive tão só num arranjo para piano feito por Carl Czerny (outro pupilo e amigo) e que fica menos estranha aqui que no meio de seus pares, que publicaremos oportunamente.
Quando se trata da Música de Câmera de Beethoven, sempre nos vem à mente os magníficos Quartetos de Cordas, ou as Sonatas para Violino ou então para Violoncelo. Se esquece de outras preciosidades, por algum motivo desconhecido ignorados pelas gravadoras. A não ser que você queira encarar uma Integral de suas obras pela DG, fica difícil o acesso a estas obras.




Mais outro balainho, este com peças que, se deixadas soltas, ficariam à deriva e se perderiam em nossa integral.