IN MEMORIAM – RADU LUPU (1945-2022) – Então é assim: aos poucos nossos ídolos estão morrendo, e isso é muito triste. Lembro quando ouvi esse CD (ainda em LP) pela primeira vez e o quanto gostava dele. Foi na casa de um amigo, que também o elogiou bastante, dizendo que eu tinha de ouvi-lo. Alguns anos depois tive acesso ao CD. O famoso crítico Norman Lebrecht em seu obituário colocou que seu Schubert era transcedental, e ouvindo novamente depois de alguns anos, tenho de concordar, assim como sua definição de que Lupu e que era um músico surreal e sensivel. E acrescenta mais embaixo do texto que ele era inimitável. Ouçam com atenção, e verão que é difícil não concordarmos. Um dos melhores discos de meu acervo. Radu Lupu lançou poucos discos, mas os que lançou são verdadeiras pérolas. Valem cada minuto de sua audição. Lembro que essa postagem é de 2013. Apenas atualizei o link.
Outras belíssimas gravações de Lupu podem ser encontradas aqui.
O colega Pleyel nos repassou este concerto aqui, gravado ao vivo:
Mozart: Konzert für Klavier und Orchester Nr. 27 B-Dur KV 595
Radu Lupu, Klavier
Radio-Symphonie-Orchester Berlin
Riccardo Chailly
07 Dezember 1986 – Berlin, Großer Sendesaal im Haus des Rundfunks
re-broadcast 30.08.2020, DVB-S, FLAC BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE
(Postagem de 2013) Uma pequena pausa nas postagens de Liszt para trazer este belíssimo CD, cinco estrelas unânimes entre os clientes da amazon, um CD que a CBS/Sony nunca deixou faltar em seu catálogo desde seu lançamento, creio que em 1987. Murray Perahia e Radu Lupu estão absolutamente perfeitos, no apogeu de suas carreiras, ao executarem estas duas peças, principalmente na Fantasia para Piano a Quatro Mãos, creio que a obra schubertiana favorita do Monge Ranulfus. E a Sonata de Mozart também está impecável na execução, na qualidade do som, no tempo, enfim, é para se ouvir dezenas de vezes sem se cansar. Coisa de gente grande. Aliás, fazia tempo que eu não ouvia um cd, ou postava um CD com tanto entusiasmo.
P.S – Claro que ele leva o selo de qualidade do PQPBach: IM-PER-DÍ-VEL !!!
Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791):
01 – Sonata for Two Pianos in D major, K. 375a-448 – I. Allegro con spirito
02 – Sonata for Two Pianos in D major, K. 375a-448 – II. Andante
03 – Sonata for Two Pianos in D major, K. 375a-448 – III. Molto allegro Franz Schubert (1797-1828):
04 – Fantasia for Piano, Four Hands in F minor D 940 – Allegro molto moderato – Largo – Allegro vivace – Con delicatezza
É claro que alguns de vocês vão baixar apenas alguns volumes desta caixa de 13 CDs de Jansons com a Orquestra do Concertgebouw de Amsterdam. Alguns terão vontade de ouvir esse grande conjunto atacando Sibelius e Beethoven mas não terão fôlego para a sétima de Mahler. Outros, mais curiosos quanto à música composta nas últimas décadas, vão querer conhecer um pouco mais sobre Berio, Andriessen e Gubaidulina. Essa caixa cheia de raridades deve agradar, pelo menos um pouquinho, a todos os apreciadores da sonoridade sempre elegante dos músicos do Concertgebouw.
Os CDs que trago hoje se iniciam com uma luxuosa gravação da Sinfonia nº 1 de Schumann (a “sinfonia pastoral” desse compositor). É coisa fina mesmo, muito bem gravada ao vivo em 2008 na famosa sala de concertos de Amsterdam. São gravações ao vivo em um só take, sem colagens de outras datas… E em seguida vêm as obras-primas do século XX, das quais faço questão de comentar três delas.
A Música para cordas percussão e celesta é uma das obras mais influentes de Bartók, composta nos anos 1930, mesma época dos quartetos de cordas 5 e 6. Em sua última fase (anos 1940) ele criaria algumas obras com melodias e harmonias mais tradicionais, como os belíssimos Concertos para Orquestra e para piano nº 3. Mas aqui temos o Bartók mais vanguardista e a orquestra do Concertgebouw (ao vivo em Berlim, 2010) acerta em todos os detalhes, além da excelente captura dos engenheiros de som.
O Hino para grande orquestra é uma das primeiras obras de Messiaen. É muito baseado nas ideias que ele tinha sobre colorido orquestral. Messiaen, que confessava ser vítima de (ou privilegiado com) sinestesia – via música nas cores e cores na música – gostava de listar em entrevistas alguns de seus grandes modelos de orquestração: Debussy, Wagner, Stravinsky e, um pouco mais surpreendente, Monteverdi e Villa-Lobos: “Os Choros de Villa-Lobos, que considero maravilhas de orquestração, foram para mim o ponto de partida de algumas justaposições de timbres”. Todos esses compositores, para os peculiares ouvidos de Messiaen, faziam música muito colorida, ao contrário da 2ª escola de Viena:
– Você disse uma vez que a música de certos autores modernos é cinza, associada a um tipo de sentimento pessimista, uma espécie de monotonia, talvez.
O.Messiaen: Bem, bem, pode ser verdade que a escola serial escreveu apenas sobre assuntos mórbidos e obras quase sempre passadas à noite. Não é por acaso que Erwartung de Schoenberg se passa à noite e é um assunto horrível, uma mulher que vê o cadáver de seu amante…
– E podemos adicionar Wozzeck e…
O.M.: Muitas outras que são obras-primas, sem dúvida, mas são obras-primas sombrias.
Messiaen bem jovem, ainda com cabelos (uma semelhança entre Schoenberg, Bartók e Messiaen: a calvície)
Trago essa longa citação para adicionarmos a essa lista de obras-primas sombrias a peça de Schoenberg que Jansons/Concertgebouw gravaram ao vivo em 2012: Um Sobrevivente de Varsóvia, Op. 46 (em inglês: A Survivor from Warsaw) é um oratório para narrador, coro masculino e orquestra. Em estilo dodecafônico, e com apenas cerca de 7 minutos, ela consegue no entanto comunicar inúmeras emoções ligadas aos campos de concentração da Segunda Guerra. É considerada uma das mais importantes obras musicais dedicadas ao holocausto. Milan Kundera, por exemplo, dizia que toda a essência existencial do drama dos judeus do século XX se mantém viva ali, em toda a sua terrível grandeza que não deve ser esquecida.
Schönberg compôs essa obra em 1947, portanto quase 40 anos após Erwartung, mas são várias as semelhanças entre essas duas obras sombrias com uma orquestra fazendo descrições sonoras impressionantes do que uma voz solo vai narrando. Ao menos para mim, essas duas obras de Schönberg com um triste enredo são muito mais interessantes do que as suas obras instrumentais para piano ou quarteto de cordas.
Mariss Jansons / Concertgebouw Orchestra – The Radio Recordings 1990-2014
CD 6:
Robert SCHUMANN
Symphony No. 1 in B flat major, Op. 38, ‘Spring’ (1841)
Jean SIBELIUS
Symphony No. 1 in E minor, Op. 39 (1899)
Nada no mundo se assemelha à Basílica de San Marco. Na França há umas dez catedrais no mesmo estilo gótico de Notre-Dame de Paris, com torres altas e vitrais exuberantes, algumas delas maiores e mais altas como em Chartres, Amiens, Beauvais, Strasbourg. Mais perto de nós, as igrejas de Ouro Preto, Mariana, Congonhas formam um estilo barroco mineiro, não tão diferente de outras em Salvador, Rio de Janeiro, etc.
Mas a Basílica de San Marco, em Veneza, não tem nada parecido: para começo de conversa, até 1807 San Marco não era a catedral, era a igreja dos Doges de Veneza, mas muito maior, mais rica e influente do que a catedral onde quem mandava era o bispo. Com essa predominância dos Doges sobre a hierarquia eclesiástica, formou-se uma igreja única no mundo, com uma riqueza de mosaicos dourados, abóbodas de estilo bizantino/islâmico e estátuas de cavalos do século IV a.C. roubados de Constantinopla em uma cruzada. Há também o túmulo do evangelista São Marcos, roubado de Alexandria no século 9, com base no “manda quem pode”, e naquela época Veneza podia muito.
Segundo este mosaico de San Marco, o furto do corpo do santo foi vontade divina (risos)
Giovani Gabrieli compôs a maior parte de sua música tendo em mente o ambiente da Basílica, com uma organização espacial bem específica: o público na nave central da igreja e os músicos nas laterais, divididos em dois coros (due cori), sendo que coro aqui não necessariamente é um grupo de cantores, pode ser também de instrumentistas – a ideia de orquestra começa a surgir mais ou menos na geração seguinte, com Monteverdi. Ou seja, se hoje imaginamos sempre uma orquestra com os instrumentistas juntos de frente para o público, não quer dizer que isso sempre tenha sido uma obviedade: por volta de 1600, em Veneza (e nas várias cidades influenciadas por Veneza, que era um polo comercial e de impressão de partituras), a ideia de música a due cori, com dois grupos de músicos/cantores e o público no meio, era muito comum e atingiu seu auge na música de Gabrieli. Na maioria de suas obras, um coro ou grupo instrumental é ouvido de um lado, seguido por uma resposta dos músicos do outro lado. Às vezes havia um terceiro grupo em outro lugar da igreja. Willaert já havia usado esse estilo policoral, e a acústica da Basílica de San Marco produz efeitos impressionantes quando os músicos estao corretamente posicionados. Essa divisão dos grupos de instrumentistas também influenciou o concerto grosso e outras formas concertantes alguns anos depois.
Gabrieli compôs pouca música secular, quase toda quando bem jovem; na sua maturidade, se concentrou em música para ser tocada na igreja, o que não significa apenas música vocal. Dois grandes compilados de sua música, misturando motetos, música instrumental e coisas do tipo, foram publicados com o nome Sacrae symphoniae, nome também usado pelo alemão Heinrich Schütz em 1629. Outra inovação de Gabrieli: ele foi o primeiro – embora talvez tenha havido precursores que se perderam – a anotar a dinâmica em suas partituras, como na famosa Sonata pian’ e forte.
O 89º Doge de Veneza, que governou de 1595 a 1605, recebendo o embaixador da Pérsia. Aqui no PQP também apoiamos a diplomacia entre culturas diferentes.
O tipo de conjunto de metais usado por Gabrieli produz um som grandioso, poderoso, que certamente convinha aos Doges de Veneza. Não custa lembrar que o Doge (mal traduzindo, Duque, mas o cargo não era hereditário), era o manda-chuva na Basílica de San Marco, com os padres leais a ele mais do que ao Papa. Essa música de metais pode ser ouvida também em metade da ópera Orfeu, de Monteverdi (1567-1643), com a outra metade, mais pastoral, dominada pela orquestra de cordas.
A música de Gabrieli, contudo, não reinava sozinha em San Marco. Versões com dois coros da Missa eram raras. Um ano após a entrada de Monteverdi em 1613 como maestro di cappella, foram feitas novas cópias de missas de Lassus, Morales, Palestrina e Soriano. Podemos assumir, então, que a Missa Ordinária era frequentemente cantada no estilo polifônico mais comum do Renascimento, apenas para vozes. Os textos de G. Gabrieli não costumam seguir a liturgia comum (do Kyrie ao Agnus Dei), mas sem dúvida suas obras ornamentavam os serviços nos momentos em que música extra-litúrgica era requerida. A entrada e a saída cerimonial do Doge, o Ofertório, a Elevação, a Comunhão eram momentos nos quais havia música vocal ou instrumental.
A música instrumental, como forma artística elaborada e difundida por meio de partituras, era uma coisa muito recente naquela época. Provavelmente o veneziano G. Gabrieli e o romano Frescobaldi (1583-1643) foram os primeiros nomes a se tornarem famosos internacionalmente com música instrumental, graças também à difusão da imprensa, não se esqueçam que antes era tudo manuscrito. A. Gabrieli (tio do Giovani), por exemplo, era organista também na Basílica de San Marco e compôs algumas obras para órgão, algumas são ouvidas neste disco, mas são peças curtas, com função de tapa-buraco antes ou depois da missa, e provavelmente tudo escrito à mão, nada indica que foram impressas durante a vida de Andrea, e não se espalharam por toda a Europa como se espalhariam, anos depois, as partituras de seu sobrinho.
A música vocal, por outro lado, tinha uma antiquíssima tradição nos mosteiros e catedrais medievais e renascentistas. O flamenco Orlande de Lassus, que aparece neste álbum com sua Missa Congratulamini Mihi, estava seguindo mais ou menos os mesmos caminhos de seu contemporâneo Palestrina (c. 1525-1594) a partir da tradição da polifonia dos franceses e flamencos como Josquin des Prez (c. 1450-1521). Já a música instrumental de G. Gabrieli se aventurava por mares nunca dantes navegados.
Andrea Gabrieli (1533-1585), Giovani Gabrieli (1553-1612), Orlande de Lassus (1532-1594), Claudio Merulo (1533-1604), Cesare Bendinelli (1567-1617) – Domingo de Páscoa em Veneza, circa 1600
01 Merulo: Toccata Prima del Quinto Tono
02 A. Gabrieli: Maria Stabat ad Momentum
03 Quem Quaeritis
04 C. Bendinelli: Tocada … Con Vitoria
05 Surrexit Christus
06 G. Gabrieli: Surrexit Christus a11
07 Introitus – Resurrexi et Adhuc Tecum Sum, Alleluia
08 A. Gabrieli: Intonatione del Quinto Tono
09 O. de Lassus: Missa Congratulamini Mihi – Kyrie a6
10 O. de Lassus: Missa Congratulamini Mihi – Gloria a6
11 Oratio – Dominus Vobiscum…
12 Epistola – Lectio Epistolae Beati Pauli Apostoli ad Cor.Fratres…
13 G. Gabrieli: Canzon VIII a8
14 Sequenta – Victimae Paschali Laudes
15 Evangelium – Dominus Vobiscum…
16 G. Gabrieli: Hic Est Filius Dei a18
17 Prefatio – Per Omnia Saecula Saeculorum…
18 O. de Lassus: Missa Congratulamini Mihi – Sanctus a6
19 G. Gabrieli: Sonata Octavi Toni 12 – Elevatio
20 Pater Noster – Per Omnia Saecula Saeculorum…
21 O. de Lassus: Missa Congratulamini Mihi – Agnus Dei a6
22 G. Gabrieli: Canzon XVII a12
23 Postcommunio – Dominus Vobiscum…
24 Ite Missa Est
25 Benedictio
26 Illustrissimus et Reverendissimus in Christo Pater….
27 G. Gabrieli: Regina Coeli a12
28 Oratio – Gaude et Laetare Virgo Maria, Alleluia…
29 Merulo: Congedo – Toccata Settima del Ottavo Tono
30 G. Gabrieli: Sonata con Voce – Dulcis Jesu a20
Gabrieli Consort & Players, com instrumentos de época Paul McCreesh, maestro Gravado na Catedral de Ely, Cambridgeshire, UK, 1996
Desejo uma Feliz Páscoa para nós todos e todas, com um pouquinho de esperança de que os tempos de confinamento tenham ficado para trás e de que eles tenham sido minimamente agradáveis com a ajuda das artes, como expressou um caríssimo leitor-ouvinte no comentário abaixo:
Em confinamento, o que abre janelas e arrebenta portais é a música.
E vós, do PQPBach, sois os porteiros.
Estou convosco a cada dia, obrigado por fazerdes-me mais livre, mesmo sem sair de casa!
Rameau
Nascida em Veneza por volta de 1619, Barbara foi adotada por Giulio Strozzi (1583-1660), herdeiro de uma família de banqueiros, poeta e autor do libretto de óperas de Monteverdi e Cavalli (1602-1676). Aluna deste último, Barbara se destacou inicialmente como cantora em um círculo de nobres e comerciantes amantes das artes na Accademia degli Unisoni, fundada por seu pai adotivo.
Ao contrário da compositora alemã Hildegard von Bingen (1098-1179), monja que passou sua vida nos mosteiros beneditinos e foi canonizada, Barbara Strozzi parece nunca ter precisado recorrer à igreja em busca de proteção ou dinheiro, graças à fortuna e contatos do pai adotivo. Em meio a várias cantatas profanas, há entre suas obras publicadas o opus 5, de 1655, “Sacri Musicali Affetti”, com 14 obras para voz que eram acompanhadas por poucos instrumentos como órgão, cravo e viola da gamba.
A obra sacra de Barbara Strozzi foi publicada e vendida nas melhores lojas em sua época, mas, ao contrário da de Hildegard, tem sido solenemente ignorada pela igreja católica, e não por acaso. Há fontes que dizem que ela foi prostituta. Ou talvez tenham sido calúnias de contemporâneos com inveja de seu talento? O que sabemos de fato é que ela nunca se casou, mas sua vida amorosa foi movimentada, gerando quatro filhos. O que não nos autorizaria a dizer que Barbara não tinha convicções religiosas. Se essas obras sacras mostram alguma coisa é a riqueza da expressividade religiosa da compositora, vários afetos espirituais expressados em música para voz solo e poucos instrumentos, muito diferente da grandiloquente música sacra que, naquele mesmo século, estavam compondo na Basília de San Marco de Veneza compositores homens como G.Gabrieli e Monteverdi. Ou da música sacra com grande orquestra que o padre Vivaldi faria na virada para o século seguinte.
No quadro do pintor flamenco Rubens mais abaixo, que retrata a Descida da Cruz, ficam claros os dois papéis que a Igreja da Contra-Reforma esperava da mulher: ou a prostituta arrependida, ou a mater dolorosa: mãe, casta e virgem (ao mesmo tempo!) A maior parte das obras reunidas neste CD giram em torno da Maria mãe de Jesus. Uma outra Maria, a soprano Maria Cristina Kiehr, empresta sua belíssima voz para essa música de uma compositora que, como Chopin, preferia os formatos mais camerísticos e intimistas. Ou preferiam por ela? Enfim, dentro do que era possível no seu século, Barbara fez do limão limonada, com árias que não devem nada às dos mestres que compuseram para as grandes basílicas e catedrais.
Barbara Strozzi (1619-1677): Sacri Musicali Affetti e interlúdios instrumentais de Bernardo Gianoncelli (morto antes de 1650) e Tarquinio Merula (1595-1665)
1. B. Strozzi – Salve Regina 1
2. B. Strozzi – Salve Regina 2
3. B. Strozzi – Erat Petrus
4. B. Strozzi – Mater Anna 1
5. B. Strozzi – Mater Anna 2
6. B. Gianoncelli – Tastegiata 1
7. B. Strozzi – Nascente Maria 1
8. B. Strozzi – Nascente Maria 2
9. B. Gianoncelli – Tastegiata 2
10. B. Strozzi – Parasti cor meum
11. T. Merula – Sinfonia Secondo Tuono
12. B. Strozzi – Hodie oritur
13. T. Merula – Cappriccio cromatico
14. B. Strozzi – Salve sancta caro
15. T. Merula – Canzon
16. B. Strozzi – O Maria
Maria Cristina Kiehr, soprano
Concerto Soave: Christina Pluhar (arpa tripla, tiorba), Sylvie Moquet (viola da gamba, violoncino), Matthias Spaeter (arciliuto, chitarrone), Jean-Marc Aymes (organo, clavicembalo)
Gravado em 1995
Descida da Cruz de Rubens (1577-1640), atualmente na igreja S.J.Batista em Arras, França
Michel Rossi sobre este quadro: Maria Madalena com suntuosa cabeleira dourada. Maria, a “mater dolorosa”, fiel até o calvário, mais contida que Madalena. João, de vermelho, e José de Arimateia tentam, em vão, segurar o corpo que cai.
Ao pé da cruz, são as mulheres as primeiras a receber o corpo de Cristo.
Rubens faz nessa tela uma genial síntese da arte barroca, no espírito da Contra-Reforma católica: pedagógica, popular na sua capacidade de falar a homens e mulheres, de mobilizar os olhares e os corpos em torno de um mistério tornado próximo.
Há um ano, na Sexta-Feira da Paixão de 2021, John Eliot Gardiner adentrava o esplêndido Sheldonian Theatre da Universidade de Oxford para gravar, com a parceria costumeira do Coro Monteverdi e os English Baroque Soloists, sua terceira e mais sensacional leitura da “Paixão segundo João”, de J. S. Bach – esta que lhes apresentamos hoje.
Observado desde os primeiros passos pelo Demiurgo da Música, e imbuído de seu legado desde que se fez seu colega de arte, Gardiner sempre me faz esperar o sublime quando apresenta mais uma realização bachiana. Dessa vez, no entanto, ele resolveu se superar. Nessa gravação ao vivo que lhes apresento, que é o áudio do magnífico filme lançado juntamente ao CD, os solistas e o coro cantam suas partes de cor, e o conjunto nos impinge de maneira poderosa, irresistível mesmo, o drama da Paixão. À perfeição nota por nota, Gardiner prefere provocar e emocionar, e o time de solistas – com destaque para o excelente Evangelista de Nick Pritchard – responde à altura. As árias são lindamente buriladas, e as intervenções da turba, ebulientes. Eu, que não sou religioso, nem tenho o mais impressionável dos corações, me flagrei aos prantos umas quantas vezes ao longo da audição. Antes não os tivesse contido, pois, depois de quase duas horas de pura manipulação emocional, à mercê das magistrais rédeas de Gardiner, o coro final, em sua singeleza e radiante tonalidade maior, fez meus olhos fundirem pela derradeira vez: ao fim de tanto pathos, quase se palpa a esperança que, aos cristãos, irromperá no domingo de Páscoa. Uma “Paixão” para ateus e crentes, e Bach para a Eternidade.
Johann Sebastian BACH (1685-1750)
Johannes-Passion (Paixão segundo João), para solistas, coro e orquestra, BWV 245
Parte I
1 – “Herr, unser Herrscher”
2 – “Jesus ging mit seinen Jüngern”
3 – “O große Lieb, o Lieb ohn’ alle Maße”
4 – “Auf daß das Wort erfüllet würde”
5 – “Dein Will gescheh, Herr Gott, zugleich”
6 – “Die Schar aber und der Oberhauptmann”
7 – “Von den Stricken meiner Sünden”
8 – “Simon Petrus aber folgete Jesu nach”
9 – “Ich folge dir gleichfalls”
10 – “Derselbige Jünger war dem Hohenpriester bekannt”
11 – “Wer hat dich so geschlagen”
12 – “Und Hannas sandte ihn gebunden”
13 – “Ach mein Sinn”
14 – “Petrus, der nicht denkt zurück”
Parte II
15 – “Christus, der uns selig macht”
16 – “Da führeten sie Jesum”
17 – “Ach großer König, groß zu allen Zeiten”
18 – “Da sprach Pilatus zu ihm”
19 – “Betrachte, meine Seele”
20 – “Erwäge, wie sein blutgefärbter Rücken”
21 – “Und die Kriegsknechte flochten eine Krone von Dornen”
22 – “Durch dein Gefängnis, Gottes Sohn”
23 – “Die Jüden aber schrieen und sprachen”
24 – “Eilt, ihr angefochtnen Seelen”
25 – “Allda kreuzigten sie ihn”
26 – “In meines Herzens Grunde”
27 – “Die Kriegsknechte aber”
28 – “Er nahm alles wohl in Acht”
29 – “Und von Stund an nahm sie der Jünger zu sich”
30 – “Es ist vollbracht!”
31 – “Und neiget das Haupt und verschied”
32 – “Mein teurer Heiland, lass dich fragen”
33 – “Und siehe da, der Vorhang im Tempel”
34 – “Mein Herz, in dem die ganze Welt”
35 – “Zerfließe, mein Herze, in Fluten der Zähren”
36 – “Die Juden aber”
37 – “O hilf, Christe, Gottes Sohn”
38 – “Darnach bat Pilatum Joseph von Arimathia”
39 – “Ruht wohl, ihr heiligen Gebeine”
40 – “Ach Herr, laß dein lieb Engelein”
Nick Pritchard, tenor (Evangelista) William Thomas, baixo (Cristo) Alex Ashworth, barítono (Pilatos) Julia Doyle, soprano Alexander Chance, contratenor Peter Davoren, tenor Monteverdi Choir English Baroque Soloists Sir John Eliot Gardiner, regência
Cristo de San Juan de la Cruz, por Salvador Dalí (1951)
A quem se interessou pelas gravações anteriores de Gardiner para a Paixão segundo João, ambas excelentes, ei-las, de lambujem:
Gravação de 1986
Anthony Rolfe Johnson, tenor (Evangelista)
Nancy Argenta e Ruth Holton, sopranos
Michael Chance, contralto
Neill Archer e Rufus Müller, tenores Stephen Varcoe e Cornelius Hauptmann, baixos
The English Baroque Soloists
The Monteverdi Choir
John Eliot Gardiner, regência
Gravado na All Saints’ Church de Tooting, Londres, Reino Unido
Selo Archiv Produktion
Joanne Lunn e Katharine Fuge, sopranos
Bernarda Fink, contralto
Mark Padmore, tenor
Hanno Müller-Brachmann e Peter Harvey, baixos
The Monteverdi Choir
The English Baroque Soloists
John Eliot Gardiner, regência
Gravado na Kaiserdom de Königslutter, Alemanha
Selo Soli Deo Gloria
Caso tanto Gardiner ainda não lhes baste, recomendo essa (por óbvio) belíssima récita da Paixão durante o Festival Proms, no Royal Albert Hall de Londres, em 2008.
Grieg por noruegueses! Claro que as revelações são muitas e boas. Há a excelente Orquestra Sinfónica de Gotemburgo, sob Neeme Järvi na DG, que é e continua a ser excelente. Ainda assim, aqui temos variedade na interpretação. Ole Kristian Ruud, ele próprio um norueguês, regendo a Orquestra Filarmônica de Bergen, gravando no Grieg Hall, em Bergen, Noruega!! É isso! Este é um dos registros mais bonitos que ouvi da música para cordas de Grieg, da qual gosto muito. Aqui temos a Suíte Holberg, talvez a peça orquestral mais conhecida de Grieg. Originalmente escrita para piano (o compositor era pianista), sua versão para orquestra de cordas é mais conhecida. Complementando, há as Duas Melodias Elegíacas, Op. 34, as Duas Melodias Op. 53, as Duas Melodias Nórdicas Op. 63, e as Duas Peças Líricas que ele orquestrou (das cinco compostas) Op. 68. Tudo em dupla. Este é um excelente programa de Grieg, tão bem executado quanto se poderia desejar e a introdução perfeita à música deste compositor, bem como uma importante adição a qualquer coleção de música de Grieg.
Edvard Grieg (1843-1907): Holberg Suite / Music For Strings
Holberg Suite, Op. 40 (19:52)
1 I. Prelude 2:43
2 II. Sarabande 4:00
3 III. Gavotte 3:48
4 IV. Air 5:35
5 V. Rigaudon 3:52
Two Elegiac Melodies, Op. 34 (8:58)
6 I. The Wounded Heart 3:14
7 II. Last Spring 5:36
Two Melodies, Op. 53 (9:09)
8 I. Norwegian 4:26
9 II. The First Meeting 4:37
Two Nordic Melodies, Op. 63 (12:00)
10 I. Popular Song 7:24
11 II. Cow Keepers’ Tune And Country Dance 4:28
Two Lyric Pieces, Op. 68 (7:47)
12 I. Evening In The Mountains 3:55
13 II. At The Cradle 3:47
‘For the use and profit of the musical youth desirous of learning, as well as for the pastime of those already skilled in this study’.
‘Para o uso e proveito do jovem músico desejoso de aprender, assim como para o deleite daqueles já avançados nos estudos’.
Trevor Pinnock
Trevor Pinnock é regente, mas também é excelente cravista. Sua segunda gravação das Partitas de Bach é maravilhosa e quando ele gravou o CBT I eu adorei, ouvi um montão de vezes e postei logo em seguida. Não poderia ser diferente agora que ele gravou o segundo livro.
O Primeiro Livro de Cravo Bem Temperado veio a luz em 1722, trezentos anos atrás. Em um artigo escrito por Harold C. Schoenberg, cinquenta anos atrás, para o jornal The New York Times, comemorando os primeiros 250 anos, há uma explicação do problema da afinação de instrumentos de tecla e a solução proposta por Bach – uma afinação temperada. “O que Bach fez foi dividir a oitava em intervalos aproximadamente iguais. Era um ajuste e nenhuma chave ficava perfeita, mas as imperfeições eram suficientemente pequenas para que o ouvido se ajustasse”. A genialidade de Bach estava a serviço da praticidade.
Bach trabalhou muito tempo em seu CBT I e o concluiu em 1722. Sempre genial, mas também por isso, bem prático, usou composições anteriores, algumas que figuravam no Clavier-Büchlein de Friedemann Bach, seu filho mais velho. Havia tratados deste tipo anteriores, para alaúdes e instrumentos do tipo, por exemplo, mas o CBT I foi a primeira coleção a explorar completamente todas as chaves, na forma de Prelúdios e Fugas, tão valorizada por Bach. O que poderia ter se tornado um tratado de estudos, interessante apenas para estudantes, tornou-se pelas mãos de Johann Sebastian num tesouro musical que delicia também aos ouvintes amantes da música.
The Pitch and Bach’s obsession with the keys
Schoenberg conta uma história que revela todo o carinho que Bach tinha por esta obra. Ele teve, por volta de 1724, um aluno chamado Heinrich Gerber, que deixou um relato de seus encontros com o professor. Primeiro ele teve que estudar as Invenções e depois o CBT I. Pois em pelo menos três encontros, Johann Sebastian, com a desculpa que estava sem vontade de dar aulas, escolhia algum de seus magníficos instrumentos e interpretava todos os prelúdios e fugas, do começo ao fim. Heinrich conta que estas foram as melhores horas que passou com o professor.
On Bach’s footsteps –the Well Tempered Clavier
Uma segunda coleção foi terminada em 1742, quando também foram concluídas as Variações Goldberg. Novamente composições anteriores foram adaptadas e muitas peças do novo volume têm conexões com as correspondentes peças do primeiro. É preciso lembrar que nestes 20 anos que se passaram os gostos musicais vigentes mudaram bastante e Bach certamente não estava alheio a isso. A fuga era uma forma musical rapidamente caminhando para se tornar arcaica, mas ainda encontrava grande interesse especialmente em estudantes de música.
O que você não pode deixar de ouvir aqui no livro II? Eu diria que não deve deixar de ouvir uma só nota que seja, mas considerando a vida moderna e que você tem pouco tempo de ócio e muitas coisas para ouvir, não deixe de ouvir os Prelúdios e Fugas de números 5, 9 e 22. Estes são (talvez como quaisquer outros) um bom lugar para começar. A Fuga No. 5 é do tipo stretto. (Falamos em stretto quando o sujeito é apresentado em uma voz e imitado em uma ou mais vozes, com a imitação iniciando-se antes que o sujeito inicial tenha terminado de soar.) Na Fuga No. 9 Bach retoma o espírito da antiga polifonia vocal, quase uma redução para teclado de um moteto a capella. A Fuga No. 22 é uma das mais imponentes de todas as escritas por Bach. É como se ele soubesse que haveria um tempo em que sua música soaria cada vez melhor, mesmo em novos e diferentes instrumentos. Em algum destes filmezinhos do videoblog do Pinnock ele menciona a diferença entre os dois livros. Ele diz que este segundo volume foi escrito em parte para o próprio autor, para seu prazer. Ele também menciona que em alguns momentos, Bach flerta com a ‘nova música’, que estava sendo feita por seus filhos e os novos compositores.
Nenhum dos dois livros foi publicado durante a vida de Bach e as primeiras edições surgiram em 1800. No entanto, cópias deles circulavam entre os músicos e aspirantes. Mozart arranjou algumas das fugas para conjuntos de câmara. Beethoven, que estudou com Gottlob Neefe, sabia os dois livros de cor. Joseph Haydn tinha cópias dos dois livros.
Há gravações completas dos dois livros feitas por cravistas e pianistas desde os tempos jurássicos. Wanda Landowska, Gustav Leonhardt e Ralph Kirkpatrick, ao cravo, Edwin Fischer, Walter Gieseking e Friedrich Gulda, ao piano, são alguns exemplos. Há muitas gravações memoráveis (e algumas nem tanto) e mesmo os selos menos famosos fazem lançamentos destas obras. Algumas gravações despertam paixões tanto pró como contra: Glenn Gould, Daniel Barenboim, Sviatoslav Richter… Ainda bem que há tantas possibilidades, basta ouvir e julgar por si mesmo, sem se preocupar tanto com o número de críticas encontradas neste ou naquele site…
Schoenberg segue mencionando que Heinrich não especificou qual tipo de instrumento Bach escolheu. Há inclusive gravações feitas tendo um órgão como o instrumento de tecla, como a de Robert Costin. A escolha de cravo ou piano é a mais comum e se você está procurando uma gravação moderna, com excelente som, em uma versão para cravo, está a um passo da felicidade.
O maestro Marriss Jansons tem uma ampla discografia, sobretudo à frente de duas orquestras renomadas: a do Concertgebouw de Amsterdam e a da Rádio Bávara de Munique. Ambas as orquestras têm, já há alguns anos, seus próprios selos que lançam seus CDs (uma tendência neste século XXI), e por motivos comerciais privilegiaram pesos-pesados do repertório sinfônico sob a regência de Jansons: Sinfonias de Brahms e de Mahler, Balés de Stravinsky, etc.
Nessa coleção de gravações de rádio da Orquestra do Concertgebouw, Brahms, Mahler e Stravinsky também aparecem, mas o que mais me interessa aqui é a presença de outros nomes que mostram a diversidade da música orquestral do século XX: o polonês Lutoslawski, o tcheco Martinů, os franceses Messiaen, Poulenc e Varèse, o russo Prokofiev… Poderíamos desejar também música brasileira, mexicana, um pouco mais dos poloneses… enfim, não se pode ter tudo.
A coleção, aos meus ouvidos, começa muito bem, com uma envolvente interpretação da Sinfonia Fantástica em que se nota a concentração absoluta de toda a orquestra nos pizzicati, tremolos, valsa com harpas, marcha com tutti de metais e outras formas expressivas do genial orquestrador que foi Berlioz. Depois o nível cai em uma La Valse de Ravel quase no piloto automático, com bem menos espírito dançante do que as gravações de Haitink/Concertgebouw ou Munch/Boston. Mas o nível melhora muito com uma interpretação de tirar o fôlego do Concerto para Orquestra de Lutoslawski. Estreado em Varsóvia em 1954 e logo alcançando notoriedade dos dois lados da Cortina de Ferro, esse Concerto encerrou em grande estilo a primeira fase de Lutoslawski como compositor. Nessa fase, ele se inspirava bastante em melodias folclóricas polonesas. Após obras mais curtas, de câmara ou para voz e orquestra, ele resolveu fazer esse Concerto de maior fôlego, antes de se aventurar por caminhos mais vanguardistas. Obviamente está presente o tempo todo a inspiração de Bartók, aliás este último aparece também nessa caixa de Jansons com seu Concerto para Orquestra, de 1943, em uma interpretação sem defeitos, mas menos espetacular que este Bartók aqui e este aqui.
E então chegamos às grandes Sinfonias, com destaque para uma 6ª de Tchaikovsky e uma 7ª de Mahler com a sonoridade marcante do Concertgebouw e a energia das apresentações ao vivo. Há também Strauss, Hindemith, uma obra juvenil e romântica de Webern… um programa com um pouco para cada gosto, como é de bom tom para a temporada anual de uma grande orquestra.
Mariss Jansons / Concertgebouw Orchestra – The Radio Recordings 1990-2014
CD 1:
Hector BERLIOZ
Symphonie fantastique, Op. 14 (1830)
É claro que estou postando este disco em razão da guerra — absurda como todas. Mas saibam que é um lindo disco. Boris Lyatoshynsky foi um dos principais membros de uma nova geração de compositores ucranianos que surgiram na década de 1920. Seu Quinteto Ucraniano é emocionante, com um belíssimo segundo movimento Lento e tranquillo. A linguagem é firmemente enraizada na tradição romântica tardia. Todo o quinteto, em seus quatro movimentos, é muito bonito. Dedicado a Lyatoshynsky, o Quinteto para Piano de Valentin Silvestrov data de seus primórdios como compositor. Silvestrov tinha 24 anos e ainda não era bem Silvestrov, Aliás, seu professor, Lyatoshynsky, não gostou muito da coisa, que tem uma retórica meio soviética. Já o Simurgh de Victoria Poleva faz parte de um estilo que abraça temas espirituais e uma simplicidade musical definida como “minimalismo sacro”. Pivnenko e seus colegas são intensos e cheios de sangue, além de tecnicamente magistrais.
Boris Lyatoshynsky / Valentin Silvestrov / Victoria Poleva: Ukrainian Piano Quintets
Lyatoshinsky, Boris Mikolayovich
Ukrainian Quintet, Op. 42
1. I. Allegro e poco agitato 00:11:40
2. II. Lento e tranquillo 00:12:34
3. III. Allegro 00:05:56
4. IV. Allegro risoluto 00:09:58
Silvestrov, Valentin
Piano Quintet
5. I. Prelude: Andante 00:07:39
6. II. Fugue: Allegro 00:06:31
7. III. Aria: Andante 00:05:18
Poleva, Victoria Vita
Simurgh-quintet
8. Simurgh – quintet 00:17:45
Minha admiração pela música espanhola vem de longe, de minha mais tenra infância, quando ouvia as suítes da opera Carmen, que minha mãe deixava tocando enquanto cuidava dos afazeres domésticos. Eu deveria ter uns três ou quatro anos de idade, mas lembro de longas tarde de verão ouvindo de fundo a ‘Habanera’, a “Canção do Toreador”, entre outras. E aquela abertura fantástica, que nunca saiu de minha cabeça. Mais tarde conheci o imortal ‘Concierto de Aranjuez’, que minha mãe adorava, principalmente seu Adagio, que cantarolava constantemente. Mais tarde comprei o LP em que Paco de Lucia tocava Manuel de Falla, aí minha admiração pela música espanhola mais que aumentou. Alicia de Larrocha também me foi apresentada quando já adulto, então essa música é uma constante em minha vida.
O que mais eu poderia falar da obra de Albéniz que já não tenha sido exposto por aqui? Neste belíssimo CD da Chandos, o maestro nascido no País Basco Juanjo Mena em 1965 (mesmo ano de nascimento do responsável por estas mal traçadas linhas) nos apresenta a obra orquestral do genial compositor espanhol, fazendo um panorama de sua obra.
O disco abre com a “Rapsodia Española”, em arranjo para Piano e Orquestra de George Enescu. O pianista experiente Martin Roscoe é o solista. A atmosfera da música espanhola preenche o espaço, e somos embalados e transportados para os tempos da dominação árabe da península ibérica.
O Concerto para Piano nº1, intitulado ‘Concierto Fantastico’, é a única obra deste formato do compositor, que até tinha planos de compor outro, mas como faleceu precocemente, meros 49 anos, então o projeto nunca vingou.
Rafael Frühbeck de Burgos, conhecido maestro e compositor espanhol, foi o responsável pelo arranjo das ‘Suites Españolas’, com peças conhecidas originalmente em suas versões para Piano, e divinamente interpretados pela maravilhosa Alicia de Larrocha, discos estes que já apareceram por aqui.
Resumindo, creio que se a proposta de Juanjo Mena era de apresentar um panorama da obra deste grande compositor, seus objetivos se cumpriram. A BBC Philarmonic é uma grande orquestra, e não teme enveredar pelas ásperas e por vezes desérticas paisagens espanholas. Pretendo trazer outros discos que a Chandos gravou com essa mesma turma.
Espero que apreciem.
Rapsodia española, Op. 70 (1887)* for Piano and Orchestra
Orchestrated 1911 by George Enescu (1881 – 1955)
1 Allegretto – Andantino – Adagio – Lento – Allegretto non troppo –
Allegretto – Andantino molto ritenuto – Allegro –
Andantino ma non troppo – Animando –
Allegretto ma non troppo – Lento – Andante – Vivace – Adagio –
Andantino – Vivace – Allegro – Presto
Suite from ‘The Magic Opal’ (1892)
Comic Opera in Two Acts
2 Overture. Allegro ma non troppo – Grandioso – Tempo I – Più mosso – Tempo I
3 Prelude to Act II. Allegretto – Più mosso
4 Ballet, Act II. Allegro vivace – Vivace – Allegro
Concerto No. 1, Op. 78 ‘Concierto fantástico’ (1887)* in A minor for Piano and Orchestra
Orchestrated 1887 by J. Trayter (Tomás Bretón y Hernández) (1850– 1923)
A mi buen amigo José Tragó recuerdo de admiración y cariño
5 I Allegro ma non troppo – Andante – Andante – [Tempo I] – Andante – Andante – [Tempo I] – Presto – Prestissimo
6 II Rêverie et Scherzo. Andante – Presto
7 III Allegro – Allegro – Poco meno – Meno mosso – Meno – Tempo I – Poco meno – Presto – Presto – Vivace – Più vivace
Suite española (1886–98)
Arranged 1964–65 by Rafael Frühbeck de Burgos (1933–2014)
8 Castilla (Seguidillas). Allegro molto
9 Granada (Serenata). Allegretto – Meno mosso – Più mosso –
Meno mosso – Tempo I
10 Sevilla (Sevillanas). Allegro moderato – Meno mosso – Meno –
Meno mosso – [Tempo I]
11 Asturias (Leyenda). Allegro ma non troppo – Lento – Andante
12 Aragón (Fantasía). Allegro – Meno mosso – Tempo I – Meno mosso –
Tempo I – Più mosso
Martin Roscoe piano*
BBC Philharmonic
Helena Wood leader
Juanjo Mena
Gostaram do primeiro CD com os Concertos para Cello? Pois agora tem mais três dos concertos além de três sonatas para violoncelo, interpretados magistralmente pelo ótimo cellista francês Christophe Coin.
Já comentei na postagem anterior o quanto esta série da L´Oiseau Lyre, um selo da poderosa gravadora DECCA, fazia sucesso nos anos oitenta. Começando pelas belíssimas capas, as gravações eram sinônimo de qualidade, sempre contando com excepcionais músicos, liderados por Christopher Hogwood e sua The Academy of Ancient Music, tendo Jaap Schröeder como spalla, e acompanhando solistas do nível do próprio Coin e a musa do blog, Dame Emma Kirkby. Claro que outros músicos de altíssimo nível também realizaram gravações por aquele selo, mas era essa turma que se destacava.
01. Concerto in D minor, RV 406 – I. (Allegro)
02. Concerto in D minor, RV 406 – II. Adagio
03. Concerto in D minor, RV 406 – III. Allegro
04. Sonata No.7 in A minor, RV 44 – I. Largo
05. Sonata No.7 in A minor, RV 44 – II. Allegro poco
06. Sonata No.7 in A minor, RV 44 – III. Largo
07. Sonata No.7 in A minor, RV 44 – IV. Allegro
08. Concerto in C minor, RV 402 – I. Allegro
09. Concerto in C minor, RV 402 – II. Adagio
10. Concerto in C minor, RV 402 – III. Allegro
11. Sonata No. 8 in E flat major, RV 39 – I. Larghetto
12. Sonata No. 8 in E flat major, RV 39 – II. Allegro
13. Sonata No. 8 in E flat major, RV 39 – II. Andante
14. Sonata No. 8 in E flat major, RV 39 – IV. Allegro
15. Sonata No. 9 in G major, RV 42 – I. Preludio. Largo
16. Sonata No. 9 in G major, RV 42 – II. Andante
17. Sonata No. 9 in G major, RV 42 – III. Sarabanda. Largo
18. Sonata No. 9 in G major, RV 42 – IV. Gigue. Allegro
19. Concerto in G major, RV 414 – I. Allegro molto
20. Concerto in G major, RV 414 – II. Largo
21. Concerto in G major, RV 414 – III. Allegro
Christophe Coin – Cello
The Academy of Ancient Music
Christopher Hogwood – Conductor
Este repertório sempre lembra meu pai, falecido em 1993. Ele amava os Concertos para Piano de Mozart e, mesmo que não saiba qual é qual, conheço cada nota de todos eles e, quando acaba um movimento, a jukebox do meu cérebro já começa a antecipar os primeiros compassos do próximo. Esta gravação de Grimaud é um tremendo acerto. Sou um pouco avesso à pianista, às vezes ela me parece padecer de falta de expressividade. Talvez ela precise do calor do público para render mais, sei lá — e este registro é ao vivo. O que sei é que ela dá um show neste CD. Os dois concertos, ambos em ensolaradas tonalidades maiores, não estão entre os mais gravados da produção do compositor. E há uma adição substancial na forma de uma ária de concerto, originária de Idomeneo, para soprano e orquestra, com piano obbligato. Este não é o gentil e acariciante Mozart de Maria João Pires. Grimaud encontra força e profundidade no movimento Adagio do Concerto Nº 23, tornado mais devagar do que o habitual, e uma vivacidade borbulhante no Allegro final. Da mesma forma, ela vai muto bem no Concerto Nº 19, onde transmite a natureza despreocupada de uma das obras mais brilhantes e alegres de Mozart. Erdmann canta belamente a ária. E, nestas peça, novamente o piano de Grimaud é um trunfo.
Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791): Concertos para Piano Nº 19 & 23 (Grimaud, Erdmann)
Piano Concerto No.19 in F, K.459
Cadenzas: W.A. Mozart
1. Allegro [11:58]
2. Allegretto [7:59]
3. Allegro assai – Cadenza: Wolfgang Amadeus Mozart [7:53]
Ch’io mi scordi di te… Non temer, amato bene, K.505
(Varesco)
4. Ch’io mi scordi di te? [1:53]
5. Non temer, amato bene [3:15]
6. Alme belle, che vedete [5:07]
Piano Concerto No.23 in A, K.488
Cadenza: Ferruccio Busoni
7. Allegro [10:42]
8. Adagio [7:38]
9. Allegro assai [7:56]
Hélène Grimaud – Piano
Mojca Erdmann – Soprano
Kammerochester des Bayerischen Rundfunk
Hoje, quando lembramos que faz um ano que o Ammiratore nos deixou, vítima de uma Covid-19 que já era uma doença prevenível em nações não negacionistas e da necropolítica que matou outros 661.000 brasileiros, nada tenho de muito inteligente para lhes dizer, pois nada há que possa aplacar a tristeza e a revolta com a perda de nosso querido amigo e o morticínio promovido por tão dolosas negligências.
Por isso, hei de lhes oferecer música.
Pensei, primeiramente, em alcançar-lhes alguma gravação do portentoso Requiem de Giuseppe Verdi, até me dar conta de que suas tonitruâncias apocalípticas ornam melhor com meu ódio a todos perpetradores desse hediondo crime sanitário contra os brasileiros do que com a índole de nosso pacato Ammiratore. Ele amava Verdi, sim, e certamente haveria de nos proporcionar uma entusiasmada aula sobre o Requiem dentro de seu projeto de aqui publicar a obra completa do mestre de Roncole. Por isso mesmo – em respeito a nosso amigo, à sua devoção ao Progetto Verdi, e ao colega Alex DeLarge, que tanta dedicação enciclopédica tem empenhado em sua continuidade – resolvi deixar que o Requiem de Giuseppe aqui apareça no devido momento, provavelmente entre Aida e Otello, dessa longa travessia.
Em lugar da tonitruância, oferecer-lhes-ei uma obra muito mais afeita à suavidade do homenageado: o Requiem que Gabriel Fauré escreveu entre 1887 e 1890 e revisou algumas vezes. Nessa obra-prima, a sequência Dies Irae, que costuma proporcionar aos compositores os melhores pretextos para derramar magma nos ouvintes, é substituída pela mui branda Pie Jesu, e o sublime In Paradisum que a encerra atesta quão bem-sucedido foi o compositor em suas intenções, aqui expressas em suas próprias palavras:
Tudo o que consegui acalentar por meio de ilusão religiosa coloquei no meu Réquiem, que, além disso, é dominado do começo ao fim pelo sentimento muito humano de fé no descanso eterno.”
E nada mais lhes contarei, além das saudades que tenho de meu amigo, e da vontade de que, em seu eterno descanso, haja muita música.
Gabriel Urbain FAURÉ (1845-1924)
Requiem em Ré menor, para solistas, coro e orquestra, Op. 48
Versão original, publicada em 1893
1 – Introït
2 – Kyrie
3 – Offertoire
4 – Sanctus
5 – Pie Jesu
6 – Agnus Dei
7 – Libera Me
8 – In Paradisum
9 – Cantique de Jean Racine, Op. 11
Sandrine Piau, soprano Stéphane Degout, barítono Maîtrise de Paris
Membros da Orchestre National de France
Luc Héry, violino solo Christophe Henry, órgão Laurence Equilbey, regência
Um esplêndido disco! Harlekin (1975) é uma das mais apreciadas obras de Karlheinz Stockhausen pela originalidade de sua mise-en-scène e modo de composição: o clarinetista, de fato, toca, faz mímica e dança. Por isso, há bastante sons de marcenaria no CD, tanto do clarinete quanto dos passos de dança de Marelli. Uma maravilha de ouvir. O Arlequim de Stockhausen já não possui quase nada da commedia dell’arte: o personagem que vemos no palco não se expressa pela palavra, mas pela música e linguagem corporal. A pantomima, em sua totalidade, torna-se uma representação abstrata de sua vida. Stockhausen usa sua Formula. A Formula é uma coleção de notas, dinâmicas, ritmos e fraseados conectados por laços internos e equilibrados por cálculos matemáticos precisos. Entenderam? Pois é. A Formula de Harlekin consiste em 13 sons que evoluem e são modificados, no espaço de 43 minutos, através de nove seções.
Michele Marelli (1978) é reconhecido internacionalmente como um dos melhores músicos contemporâneos de sua geração. Colaborou com Karlheinz Stockhausen por mais de 10 anos, dando estreias sob sua regência e gravando 2 CDs com o próprio compositor. Stockhausen foi colega de Pierre Boulez, Edgar Varése e Iannis Xenakis. Todos estudaram com o compositor e organista Olivier Messiaen. Críticos do seu trabalho apontam-no como “um dos grandes visionários do século XX no contexto da música pós-moderna”. É conhecido, entre outras coisas, por um trabalho durante a gênese da música eletroacústica e do indeterminismo musical. Músicos de jazz como Miles Davis, Cecil Taylor, Charles Mingus, Herbie Hancock, Yusef Lateef e Anthony Braxton citaram Stockhausen como influência, assim como artistas do rock como Frank Zappa.
1. Der Traumbote [5:49]
2. Der spielerische Konstrukteur [6:41]
3. Der verlebte Lyriker [3:22]
4. Der pedantische Lehrer [7:42]
5. Der spitzbübische Joker [3:40]
6. Der leidenschaftliche Tänzer [3:22]
7. Dialog mit einem Fuss [2:10]
8. Harlekin’s Tanz [2:35]
9. Der exaltierte Kreiselgeist [7:24]
Nestes dias de notícias tão alarmantes, de tantas preocupações, verdadeiras atribulações, encontrar uns pedacinhos de alegria ao se reunir com amigos, em receber notícias pessoais que podem ao mesmo tempo alarmar e alegrar, servem como um refrigério.
Nesta lista de coisas que têm me ajudado a sorrir estão a visita da neta, uma ou outra reunião com amigos e familiares e, é claro, a música.
Este disco poderia muito bem ter me escapado entre as muitas tentações que abarrotam minha pasta de música. O selo e o pianista são ingleses e a música, mais francesa impossível. Mas foi amor à primeira audição e quando isso acontece, a postagem acaba acontecendo.
Um disco inteiramente dedicado a peças de Francis Poulenc. E vejam que ele mesmo não as tinha em alta estima. No entanto, esta coleção de peças curtas revela aspectos típicos de sua música, como um que de nostalgia, bastante leveza e muita elegância. Para que essa magia possa ser totalmente revelada é preciso um intérprete sensível, além de competente. Veja que beleza são as Trois Novelettes, passando por diferentes tipos de humor. Outra preciosidade é a suíte Napoli, com uma barcarolle, um noturno e um capricho italiano. Segundo o próprio Charles Owen: “Uma das grandes alegrias ao tocar este repertório é a necessidade de recapturar a joie de vivre inerente nestas composições”.
Charles Owen owns a piano…
Em uma pequena entrevista na BBC Music Magazine, ele revelou algumas peças musicais de que gosta por razões especiais. A Sonata para Piano em lá menor, D 845, de Schubert, o Concerto para Violino de Elgar, o ciclo de Lieder Frauenliebe und -leben, de Schumann, além da ode pastoral L’Allegro, il Peseroso ed il Moderato, de Handel, finalizando com a ópera A Raposinha Esperta, de Janáček.
Estas escolhas se devem a momentos especiais em sua vida, como foi o caso da sonata de Schubert. Aos 13 anos, quando era aluno da Menuhin School, assistiu a um concerto da pianista Imogen Cooper que interpretou esta sonata, deixando-o muito impressionado. Posteriormente Charles tornou-se aluno de Imogen. Você pode já imaginar que a conexão com o Concerto de Elgar se deu através do violinista Yehudi Menuhin. Mas, chega de spoilers, vá em busca da entrevista para descobrir o resto. Além disso, não quero tomar mais de seu tempo, ande, vá logo em busca do download. Tenho certeza que, mesmo ao ouvir este disco uma só vez, vai lembra-se dele com um sorriso.
Francis Poulenc (1899 – 1963)
Les Soirées de Nazelles
Preambule
Cadence
Variation 1: Le comble de la distinction
Variation 2: Le coer sur la main
Variation 3: La desinvoltue et la discretion
Variation 4: La suite dans les idees
Variation 5: Le charme enjoleur
Variation 6: Le contentement de soi
Variation 7: Le gout du malheur
Variation 8: L’alerte vieillesse
Cadence
Finale
Napoli – suite for piano
Barcarolle
Nocturne
Caprice Italien
Mélancolie
Mélancolie
Novelettes
Novelette No. 1 em dó maior: Modere sans lenteur
Novelette No. 2 em si bemol menor: Tres rapide et rythme
Novelette No. 3 em mi menor: Andantino tranquillo
Improvisations
Improvisation No. 1 em si menor
Improvisation No. 2 em lá bemol maior
Improvisation No. 3 em si menor
Improvisation No. 4 em lá bemol maior
Improvisation No. 5 em lá menor
Improvisation No. 6 em si bemol maior
Improvisation No. 7 em dó maior
Improvisation No. 8 em lá menor
Improvisation No. 9 em ré maior
Improvisation No. 10 em fá mior, “Eloge des gammes”
Improvisation No. 11 em sol menor
Improvisation No. 12 em mi bemol maior, “Hommage a Schubert”
Improvisation No. 13 em lá menor
Improvisation No. 14 em ré bemol maior
Improvisation No. 15 em dó menor, “Hommage a Edith Piaf”
Charles Owen esperando o pessoal do PQP Bach para uma entrevista,certo de que terá a última palavra…
A magical album. Charles Owen empathises closely with Poulenc’s elusive idiom catching its delicacy and insouciance brilliantly. An album to cherish and one that will undoubtedly figure highly in my recital discs of 2005. [MusicWeb International]
Owen’s playing is marvellously alive. Where there are nuances, he finds them; where Poulenc plays the vulgarian (oh so aristocratically!), there too Owen is on the mark. Add to that a lovely ear for balance and fingers that are more than capable of these twisting exercises, and you have enjoyment at a high level. [Gramophone 2004]
Despojada da maioria dos gostos do final do século 19 e início do século 20, aqui temos uma interpretação clara, nítida e comovente. Sob Harnoncourt, a maravilhosa Royal Concertgebouw Orchestra soa sombria e tempestuosa com um toque da inclinação de menos vibrato aqui e ali. Rudolf Buchbinder e Nikolaus Harnoncourt essencialmente tentam fazer pelas duas obras-primas de Brahms o que Krystian Zimerman conseguiu com tanto sucesso com os dois concertos para piano de Chopin. Eles propõem performances livres de qualquer traço de convenção, nunca dando nada como certo, questionando as partituras e recolocando a música no contexto cultural e biográfico originais. E eles não fazem apenas ajustes: eles encontram respostas. Harnoncourt não muda nada no que Brahms escreveu. Ele apenas dá a cada detalhe, incluindo aqueles geralmente esquecidos, seu devido lugar na trajetória geral da performance. Como especialista em música do Período Clássico – suas sonatas Haydn completas para Teldec ainda estão entre as melhores já gravadas –, Buchbinder se encaixa bem nessa concepção, oferecendo uma execução ao mesmo tempo ousada, bem articulada e dramática, mas sensível ao som e ao equilíbrio. Os andamentos são cuidadosamente escolhidos – espaçosos e tensos nos movimentos externos e relativamente rápidos nos movimentos centrais, para evitar o sentimentalismo excessivo e o risco de tédio. Gostei.
Johannes Brahms (1833-1897): Os Concertos para Piano (Buchbinder / Harnoncourt)
Piano Concerto No.1 In D Minor, D-moll, Op.15
1-1 Maestoso 24:24
1-2 Adagio 13:05
1-3 Rondo: Allegro Non Troppo 12:14
Piano Concerto No.2 In B-Flat Major, B-dur, Op.83
2-1 Allegro Non Troppo 17:49
2-2 Allegro Appassionato 8:57
2-3 Andante 11:41
2-4 Allegretto Grazioso 8:26
Cello – Gregor Horsch (track: 2-3)
Conductor – Nikolaus Harnoncourt
Orchestra – Royal Concertgebouw Orchestra
Piano – Rudolf Buchbinder
Um bom disco de música antiga. Como diz o título, são canções de Konrad von Würzburg. Coisinha simples e bonitinha, ideal para dar uns pulinhos medievais pela sala. Konrad von Würzburg foi um poeta, músico e compositor poeta alemão que, durante o declínio da cavalaria medieval, procurou preservar os ideais da vida da corte. De origem humilde, serviu uma sucessão de patronos como poeta profissional e acabou por se estabelecer em Basileia. Suas obras vão de letras de amor e poemas didáticos curtos a épicos em grande escala. Porém, ele está no seu melhor em seus poemas narrativos mais curtos. A originalidade de Konrad é mais de forma do que de conteúdo. O caráter explicitamente didático de sua poesia lhe valeram a estima de seus contemporâneos. Um século depois, a nova geração de poetas-artesãos conhecidos como Meistersingers o nomeou como um dos “12 velhos mestres” da poesia medieval de quem eles se orgulhavam descender. Este disco, por sua vez, descende de um LP bem curtinho.
Konrad von Würzburg (c.1225-1287): Lieder (Andrea von Ramm)
1 Die meister habent wol gesungen (im ‘Langen Ton’) 2:05
2 Hofton 8:53
3 Nun ist niht mêre min dedinge (Kontrafaktur nach dem troubadour Peire Vidal) 3:28
4 Gevîolierte blüete kunst (Totenklage auf Konrad im ‘Zarten Ton’) 2:13
5 Aspis-Ton 4:50
6 Willekomen, sumerweter süeze! 3:32
7 Von allen Singern (in Marners ‘Langem Ton’) 4:30
8 Morgenwîse 6:10
Andrea von Ramm, vocals
Sterling Jones, fiddle, rebec, lyra, hurdy gurdy
Timothy C. Nelson, flute, tin whistle, hurdy gurdy
Christian Schmid-Cadalbert, narration
Assim como Domenico Scarlatti foi organista na Basílica de São Pedro do Vaticano quando jovem, o Padre Antonio Soler aproximou-se da corte espanhola quando, aos 23 anos e após já ser titular do órgão de igrejas menores, assume os cargos de organista e diretor de coro no grandioso Monasterio de El Escorial, construído no século 16 próximo a Madrid e que, além de Monastério, também era um Palácio Real e local de enterro dos reis da Espanha. Durante os últimos cinco anos de vida de Scarlatti, Soler foi seu aluno e também parece ter sido seu copista, pois ele escreve “e se se encontra nas Obras de Scarlatti tal sinal [duplo sustenido], não a tenham por escrita dele, mas minha.”
Ao mesmo tempo, Soler já começava a compor suas próprias sonatas para cravo, e a proximidade dos dois era tamanha que, em um manuscrito da época, intitulado “Sonatas del Sr. Dn. Domingo Escarlati y otras de frai Antonio Soler”, as sonatas dos dois se misturam ao longo de todo o documento. O nome “frai Antonio Soler” faz referência ao seu período como frade da ordem de São Jerônimo, mas durante a maior parte de sua vida ele foi citado como padre.
Além de sonatas, Soler compôs seis concertos para dois órgãos, além de mais de 300 obras vocais incluindo missas, hinos, motetos e também villancicos, que são obras profanas. E atualmente sua obra mais famosa é um dançante Fandango cheio de variações sobre um baixo constante, muito tocado nos recitais de gente como Scott Ross e Christian Zacharias. O Fandango tem tido sua autoria questionada, mas não deixa de ser uma grande obra espanhola do século 18, sendo ou não de Soler.
Soler é descrito como um homem culto, profundo conhecedor de Latim, de espírito sensível e profundamente religioso. Muito humilde, recusou-se a ser retratado para a galeria dos músicos ilustres da Espanha, postura que nos impediu de conhecer o seu rosto. Grande estudioso, ele publicou um tratado em 1762: Llave de la modulación, y antigüedades de la música. Ali, Soler busca conceituar a modulação que ele e seus contemporâneos faziam no cravo, pianoforte e órgão, normalmente de forma improvisada: “a Modulação, segundo sua definição geral, é a suavidade nos trânsitos de um tom a outro”. No prefácio, Don Joseph de Nebra, Organista e Vice-Maestro da Real Capela de Sua Majestade, afirma: “Confesso com ingenuidade que nunca pensei que pudessem dar regras fixas para Modulações tão sofisticadas: acreditava que eram produzidas pela prática, pelo bom gosto, pela fineza do ouvido …” E Don Antonio Ripa, outro grande organista da época, apresentou a obra de Soler com estas palavras que deixam claro que a função da obra era sobretudo como guia para o improviso, e que nem todos os improvisadores da Espanha eram tão bons como Soler, alguns até incomodavam os ouvidos:
“Julgo que esta Obra há de ser de muita utilidade, não só para Mestres de Capela e Organistas, a quem abre portas com várias regras e Modulações de bom gosto, para que à sua imitação suas produções musicais tenham novidade e boa harmonia, sem incorrer no defeito da aspereza e sem serem ingratas ao ouvido”.
Eu gosto de álbuns como este, em que Maggie Cole toca a música de Soler em dois instrumentos: um fortepiano e um cravo. Fica evidente que a música de Soler soa bem em ambos e que a busca por um instrumento mais correto que os outros às vezes é um preciosismo bobo, provavelmente impensável nos tempos de Soler, quando se tocava com o instrumento que estivesse disponível e afinado. Outra constatação: ao contrário do piano dos nossos dias, de som muito mais potente que o cravo, naquela época talvez os pianofortes fosse mais suaves e com um som menos encorpado do que seu parente mais velho. De fato, muitos cravos de meados do século 18 eram bem maiores do que aqueles do século anterior… Como resume o especialista em instrumentos antigos Michael Latcham, os novos cravos na corte espanhola tinham sessenta e uma notas, mais do que qualquer um dos cinco pianofortes que a rainha Maria Bárbara havia encomendado de Florença. O maior cravo, segundo Latcham, era transportado de palácio em palácio conforme a corte se mudava ao longo do ano. No outono a corte ficava no Escorial. Ali, Soler deve ter ouvido Maria Bárbara e Scarlatti tocarem neste instrumento.
Padre Antonio Soler (1720-1783) – Sonatas, Fandango
01. Sonata 72 in F minor
02. Sonata 41 in E flat Major
03. Sonata 18 in C minor
04. Sonata 19 in C minor
05. Sonata 87 in G minor
06. Sonata 78 in F sharp minor
07. Fandango
08. Sonata 84 in D Major
09. Sonata 86 in D Major
10. Sonata 85 in F sharp minor
11. Sonata 90 in F sharp Major
12. Sonata 88 in D flat Major
Maggie Cole, fortepiano (1-6) and harpsichord (7-12)
Fortepiano: Derek Adlam 1987, after Anton Walter, Vienna circa 1795
Harpsichord: Robert Goble 1986, after AH Haas, Hamburg 1740
Recorded at Abbey Road Studio nº1, London November 1989
Encontrei essa gravação na bagunça mais ou menos organizada de um HD externo. Tinha esquecido dela. Estava guardada em uma subpasta dedicada aos Kuijken, em uma pasta que dedico a intérpretes. E a identificação da pasta era realmente impossível de entender. Não sei o que eu pensava na época em que armazenei esse CD naquele HD externo. Enfim …
Mas toda essa introdução confusa serviu apenas para dizer, no final das contas, que temos aqui uma gravação inestimável, imperdível, com certeza. Tudo funciona às mil maravilhas. A sonoridade da Petite Bande dirigida por Sigiswald Kuijken é única, adoro essa orquestra. Mas o destaque com certeza fica com o solista, Hidemi Suzuki, um espanto como esse homem toca. A forma com que ele consegue extrair novas possibilidades destes já tão conhecidos concertos de Haydn mostra um intérprete ciente de sua capacidade e maturidade.
Franz-Joseph Haydn (1732-1809): Cello Concerto no.1 in C-major
01. I. Moderato
02. II. Adagio
03. III. Allegro molto Cello Concerto no.2 in D-major
04. I. Allegro moderato
05. II. Adagio
06. III. Allegro Sinfonia Concertante
07. I. Allegro
08. II. Andante
09. III. Allegro con spirito
Hidemi Suzuki – Cello
Ryo Teraokado – Violin (Sinfonia Concertante)
Patrick Beaugiraud – Oboe (Sinfonia Concertante)
Marc Vallon – Fagott (Sinfonia Concertante)
La Petite Bande
Sigiswald Kuijken – Conductor
PS. Em recente votação durante um almoço na sede da PQP Bach Corp., nossa equipe elegeu por aclamação as gravações das sinfonias de Haydn por Kuijken como as melhores já postadas aqui neste blog. Você já ouviu?
Esta foi uma de minhas primeiras postagens, lá em 2008, há quatorze anos. Outros tempos, outra realidade, outra tecnologia. O link para Download foi colocado no falecido Rapidshare, era o que tinhamos naquele momento.
Um usuário encontrou essa pequena delícia chamada “Virtuosi” la naqueles primórdios do PQPBach e pediu para atualizar o link. O CD reune o vibrafonista e o pianista Makoto Ozone, músico totalmente desconhecido para mim naquele momento.
Mas além do CD solicitado trago outro CD desta parceria, que foi lançado em 1995, o CD intitulado ‘Face to Face’, onde a dupla toca alguns clássicos do Jazz, assim como obras do próprio Ozone, Thelonius Monk, Benny Goodman, dentre outros. O texto abaixo é da postagem original.
Outra preciosidade encontrada em meu velho porta cds, dos tempos em que ainda baixava mp3 via Soulseek. Um belo dia digitei Gary Burton, e no meio de um monte de coisas, também excelentes, encontrei essa jóia da coroa de meus cds de Jazz.
O nome dado ao CD, “Virtuosi”, define bem a proposta: o encontro de dois virtuoses em seus respectivos instrumentos. Gary Burton com seu vibrafone, e o até então desconhecido para mim, Makoto Ozone, pianista. Algus poderão torcer o nariz e comentar com desdém “mais um disco do tão famigerado encontro OcidentexOriente”. Mas lamento informar senhores de nariz torcido, de que não se trata de nada disso. O que se ouve aqui neste cd é música ocidental, com arranjos de obras de Ravel até Brahms. E tocadas com uma precisão e correção que beira as raias do absurdo. Ainda com relação a esta mesma precisão, dá-se a impressão de que eles tocam juntos há incontáveis décadas, mas existe aí uma diferença de gerações, porém o jovem Makoto Ozone não se deixa intimidar frente ao gigante Gary Burton, que traz junto de si toda a tradição de outros mestres do instrumento no jazz, como Lionel Hampton ou Milt Jackson.
Apesar de poder soar estranho num primeiro momento, garanto-lhes que o que os senhores irão ouvir é da mais pura beleza. Como comentei acima, existe uma cumplicidade tremenda entre os músicos, dando a nítida impressão de eles tocam juntos há muito tempo.
Boa audição.
Gary Burton & Makoto Ozone – Face to Face
01 – Kato’s Revenge
02 – Monk’s Dream
03 – For Heaven’s Sake
04 – Bento Box
05 – Blue Monk
06 – O Grande Amor
07 – Laura’s Dream
08 – Opus Half
09 – My Romance
10 – Times Like These
11 – Eiderdown
1 – Le tombeau de Couperin, for piano – Prelude – Composed by Maurice Ravel
2 – Excursions (4), for piano, Op. 20 No. 1 – Composed by Samuel Barber
3 – Prelude for piano No.19 in A minor, Op. 32/8 – Composed by Sergey Rachmaninov
4 – Milonga, for guitar – Composed by Jorge Cardoso
5 – Preludes (3) for piano II – Composed by George Gershwin
6 – Sonata for keyboard in E major, K. 20 (L. 375) “Capriccio” – Composed by Domenico Scarlatti
7 – Three Little Oddities, suite for piano Impromptu – Composed by Zez Confrey
8 – Concerto in F, for piano & orchestra Movement III – Composed by George Gershwin
9 – Lakmé, opera Medley: Berceuse / Duettino – Composed by Leo Delibes
10 – Capriccio for piano in B minor, Op. 76/2 – Composed by Johannes Brahms
11 – Something Borrowed, Something Blue – Composed by Makoto Ozone
Jean-Philippe Rameau escreveu três livros de Pièces de Clavecin. A primeira, Premier Livre de Pièces de Clavecin , foi publicado em 1706 ; o segundo , Pièces de Clavessin, em 1724 ; e o terceiro, Nouvelles Suites de Pièces de Clavecin, em 1726 ou 1727. Eles foram seguidos em 1741 pelo Pièces de Clavecin en concerts, em que o cravo pode ser acompanhado por violino e viola da gamba ou tocar sozinho. Uma parte isolada, “La Dauphine”, sobrevive de 1747. Tudo é bom, mas as peças finais da coleção são esplêndidas.
Mahan Esfahani é um jovem e grande mestre do cravo, alguém cujo aparecimento nos enche de alegria. Tem 38 anos e esperamos que grave a obra completa de Bach para o instrumento. Pode-se dizer que é um talento do tamanho de Gustav Leonhardt. Ou maior. Que amadureça!
Jean-Philippe Rameau (1683-1764): Pièces de clavecin
1. Suite No 1 in A minor | Prélude [2’04]
2. Suite No 1 in A minor | Allemande I [4’08]
3. Suite No 1 in A minor | Allemande II [1’55]
4. Suite No 1 in A minor | Courante [1’52]
5. Suite No 1 in A minor | Gigue [2’23]
6. Suite No 1 in A minor | Sarabandes I & II [2’58]
7. Suite No 1 in A minor | Vénitienne [1’29]
8. Suite No 1 in A minor | Gavotte [1’28]
9. Suite No 1 in A minor | Menuet [1’06]
10. Suite in E minor | Allemande [3’47]
11. Suite in E minor | Courante [1’36]
12. Suite in E minor | Gigues en rondeau I & II [3’36]
13. Suite in E minor | Le rappel des oiseaux [2’57]
14. Suite in E minor | Rigaudons I, II & double [2’07]
15. Suite in E minor | Musette en rondeau [2’14]
16. Suite in E minor | Tambourin [1’17]
17. Suite in E minor | La villageoise (rondeau) [2’31]
18. Suite in D major | Les tendres plaintes (rondeau) [2’58]
19. Suite in D major | Les niais de Sologne [5’15]
20. Suite in D major | Les soupirs [3’57]
21. Suite in D major | La joyeuse (rondeau) [1’16]
22. Suite in D major | La follette (rondeau) [1’27]
23. Suite in D major | Lentretien des Muses [5’49]
24. Suite in D major | Les tourbillons (rondeau) [2’11]
25. Suite in D major | Les cyclopes (rondeau) [3’05]
26. Suite in D major | Le lardon (menuet) [0’48]
27. Suite in D major | La boiteuse [1’01]
28. Menuet en rondeau in C major [0’35]
Disc: 2
1. Suite No 2 in A minor | Allemande [6’37]
2. Suite No 2 in A minor | Courante [3’51]
3. Suite No 2 in A minor | Sarabande [2’40]
4. Suite No 2 in A minor | Les trois mains [4’38]
5. Suite No 2 in A minor | Fanfarinette [2’37]
6. Suite No 2 in A minor | Le triomphante [1’28]
7. Suite No 2 in A minor |Gavotte [7’26]
8. Suite in G minor |Les tricotets (rondeau) [1’40]
9. Suite in G minor | Lindifferente [1’41]
10. Suite in G minor | Menuets I & II [3’02]
11. Suite in G minor | La poule [4’42]
12. Suite in G minor | Les triolets [3’59]
13. Suite in G minor | Les sauvages [2’18]
14. Suite in G minor | Lenharmonique [5’41]
15. Suite in G minor | Legiptienne [3’41]
16. La Dauphine [2’49]
17. Les petits marteaux [1’42]
Peço perdão pelo longo silêncio que já virou praxe, mas a vida anda dando suas pequenas voltas. A pior foi queimar o HD e estar sem meus LPs e CDs por alguns meses. Mas este não é o caso da compositora de hoje, que estava no meu mp3 player todo o tempo. Seu nome é Tatyana Mikheyeva (lê-se Mirreieva), cazaque, nascida em 1962 em Talgar, no sul do Cazaquistão, próximo a antiga capital Almaty, já na fronteira com a República Quirguiz. Estudou no Conservatório de Música justamente de Almaty, mas quando estive lá, o pessoal do conservatório não sabia quem era (ou fizeram pouco esforço para lembrar, já que eu disse que ela estava em Moscou agora. Parece também que já chegou a dar uma passada pelo Festival Música Nova, em Santos.
Deixando de lado o blá, blá, blá biográfico de quem nada sabe da vida da moça, sua música é muito interessante. Não que seja profundamente revolucionária. Está mais para um crossover, cheio de elementos folclóricos e improvisação jazzística, mas tendendo tudo a caminhar em direção à música clássica, embora, frequentemente, com mais soltura (que é o que me pega aqui). Boa parte das peças são cantadas, mas não é nada que lembre canto lírico. Tem tudo isso, no entanto, uma força magnífica, uma preocupação expressiva bem peculiar e uma harmonização de diversos elementos que me chamam a atenção. Basicamente, não é uma revolução, mas me soa muito singular.
Coloquei tudo que tenho dela aqui (e tudo vêm do Classical Archives). Eu, particularmente, gosto muito da “Morning Mountain Music for Voice, Piano, Cello and Small Ensemble” e me divirto muito com várias partes do Réquiem (ainda que, às vezes, ela exagere um pouquinho no sintetizador).
Boa diversão!!
Tatyana Mikheyeva (1962- )
01 – Archaic Canons for Cello, Voices, Choir and Phonograph
02 – Moonlight Woman for Flute, Alto Flute and Percussion
03 – Morning Mountain Music for Voice, Piano, Cello and Small Ensemble
04 – Music for the Pregnant for Voice and Synthesizer
05 – Music in the Dark for two Pianos, Percussion and Phonograph
06 – The Prophecy of Yahavi’ for Voice, Percussion and Sea Wave
Requiem in Memory of Dmitry Pokrovsky
07 I. Great Devastation
08 II. Trisna
09 III. Voices of Ancestors
10 IV. Krada
11 V. Lullaby of Iriy
Dmitry Cheglakov, cello (faixa 1) K. Drasavin, voz (faixa 1) T. Smyslova, regente (faixa 1, 7-11) Tatyana Mikheyeva, soprano (faixa 1, 7-11), sons eletrônicos (faixa 3), voz (faixa 4, 6) D.Pokrovsky Theater of Folk Music Chamber Ensemble (faixa 1, 7-11) D. Denisov, flauta (alta) (faixa 2) Natalia Pshenichnikova, flauta (faixa 2) V. Grishin, percussion (faixa 2) Andrey Zelensky, sintetizador (faixa 3) N. Shiryaev, baixo (elétrico) (faixa 3)
N. Vintskevich, saxofone (faixa 3) V. Kuleshov, bateria (faixa 3) M. Dubov, piano (faixa 5), M. Pekarski, piano (faixa 5) Mark Pekarsky Percussion Ensemble Chamber Ensemble (faixa 5) Bolshoi Theater Percussion Ensemble Chamber Ensemble (faixa 6) V. Grishin, regente (faixa 6) V. Pushechnikov, piano (faixa 6)
Se Mahler não é um compositor para diletantes, o que dizer de A Canção da Terra (Das Lied von der Erde)? Na lista de maestros que gravaram a obra há poucos que não são de primeira linha. A obra é belíssima, muito sutil e difícil. Não é para qualquer orquestra ou regente. É algo para Haitink. A Canção da Terra é considerada por alguns a obra mais importante de Mahler. Nesta obra, tornam-se visíveis as qualidades mais singulares do compositor: a angústia existencial e a sublime grandiosidade. A obra consiste num ciclo de seis canções baseadas em antigos poemas chineses, adaptados para o alemão por Hans Bethge. Mahler trabalhou nesta sua obra durante os últimos verões da sua vida. Conseguiu concluí-la em 1911, pouco antes de morrer. Ele não chegou a ouvir a estreia, apesar de tê-la interpretado inúmeras vezes ao piano, auxiliado por seu amigo e aluno Bruno Walter — que viria a estreá-la em Munique, em novembro de 1912, um ano e meio após a morte do compositor. Tudo aqui é esplêndido, mas o último movimento… Olha, é muito poético, a instrumentação rarefeita de Mahler é levada às ultimas consequências, é tudo lindo demais. Consta que Das Lied von der Erde não foi catalogada como sinfonia devido a uma superstição que pesava sobre os músicos alemães: ninguém ousava ultrapassar o número nove. Beethoven, Schubert e Dvorak tinham morrido após suas nonas e Mahler não quis escrever a sua… Quando escreveu, pum, vocês já sabem, ele morreu… Mas A Canção da Terra é nitidamente uma sinfonia vocal, que culmina a linha composicional mahleriana — melancólica, pessimista porém cheia de bandinhas, melodiosa, monumental porém íntima — iniciada na Primeira Sinfonia. Eu amo as sinfonias de Mahler de 1 a 7. Amo A Canção da Terra. Detesto a Oitava, sou indiferente à Nona e volto a amar o fragmento da Décima… Para finalizar, um conselho para nosso leitor: não escreva sua Nona Sinfonia, é muito perigoso.
Gustav Mahler (1860-1911): A Canção da Terra (Haitink)
1 1. Das Trinklied Vom Jammer Der Erde 8:14
2 2. Der Einsame Im Herbst 10:26
3 3. Von Der Jugend 3:07
4 4. Von Der Schönheit 7:31
5 5. Der Trunkene Im Früling 4:25
6 6. Der Abschied 31:07
Mezzo-soprano Vocals – Janet Baker
Tenor Vocals – James King
Orchestra – Concertgebouw Orchestra, Amsterdam*
Conductor – Bernard Haitink
O Quarteto para o fim dos tempos para piano, clarinete, violino e violoncelo foi composto a partir de maio de 1940 no campo de prisioneiros Stalag VIIIA e executado pela primeira vez no mesmo local no dia 15 de janeiro de 1941 para 5000 prisioneiros. A partitura é encabeçada com o seguinte excerto do Apocalipse de São Jõao (10, 1-7): “Vi um anjo poderoso descer do céu envolvido numa nuvem; por cima da sua cabeça estava um arco-íris; o seu rosto era como o Sol e as suas pernas como colunas de fogo. Pôs o pé direito sobre o mar e o pé esquerdo sobre a terra e, mantendo-se erguido sobre o mar e a terra levantou a mão direita ao céu e jurou por Aquele que vive pelos séculos dos séculos, dizendo: não haverá mais tempo; mas nos dias em que se ouvir o sétimo anjo, quando ele soar a trombeta, será consumado o mistério de Deus”.
A estruturação da obra em oito movimentos é explicada por Messiaen da seguinte forma: “Sete é o número perfeito, a criação em seis dias santificada pelo Sábado divino; o sete deste repouso prolonga-se na eternidade e se converte no oito da luz inextinguível e da paz inalterável”.
1 – Liturgia de cristal
“Principia com o despertar dos pássaros entre três e quatro horas da manhã. Um melro ou um rouxinol solista improvisa, acompanhado por um conjunto de trilos perdidos no alto das árvores. Esta cena transposta para o plano religioso significa o silêncio harmonioso do céu”.
2 – Vocalise, para o anjo que anuncia o fim dos tempos
Este movimento divide-se em três partes. “A primeira e a terceira parte , muito breves, evocam o poder desse anjo. A segunda parte representa as harmonias intangíveis do céu. No piano, doces cascatas de acordes envolvem o canto monótono do violino e do violoncelo”.
3 – Abismo dos pássaros
“O abismo é o tempo, com suas tristezas e aborrecimentos. Os pássaros, pelo contrário, simbolizam o nosso desejo de luz, de estrelas, de arco-íris e de demonstração de júbilo”.
4 – Intemédio
“Scherzo, de caráter menos íntimo que os outros movimentos, mas relacionado com eles por citações rítmicas e melódicas”.
5 – Louvor à eternidade de Jesus
Neste número, “Jesus é considerado um quarto Verbo. Uma grande frase, extremamente lenta do violoncelo, exprime com amor e devoção a eternidade deste Verbo poderoso e doce, para quem os anos jamais terão fim. Majestosamente, se extenue numa espécie de tenra e suprema distância”.
6 – Dança do furor para as sete trombetas
Do ponto de vista rítmico é a peça mais característica da série. “Os quatro instrumentos, sempre em uníssono, imitam os gongos e trombetas do Apocalipse. Em toda a obra é a única alusão ao aspecto cataclísmico do juízo final”.
7 – Turbilhão de arco-íris, para o anjo que anuncia o fim dos tempos
Repetem-se aqui trechos do segundo movimento. “O poderoso anjo aparece e sobretudo o arco-íris que o cobre (arco-íris: símbolo da paz, da sabedoria e de uma vibração luminosa e sonora”).
8 – Louvor à imortalidade de Jesus
“Este segundo louvor dirige-se especialmente à segunda natureza de Jesus, a Jesus-homem, ao Verbo feito carne, ressuscitado para nos dar a vida. É todo amor. A lenta ascensão até o extremo agudo é a elevação do homem até o seu Deus, do Filho de Deus até o Pai, da criatura divinizada até o Paraíso”.
Olivier Messiaen (1908-1992): Quarteto para o fim dos tempos (Nash)
1. No. 1, Liturgie de cristal
2. No. 2, Vocalise pour l’ange qui annonce la fin du temps
3. No. 3, Abime des oiseaux
4. No. 4, Intermede
5. No. 5, Louange a l’eternite de Jesus
6. No. 6, Danse de la fureur, pour les sept trompettes
7. No. 7, Fouillis d’arcs-en-ciel, pour l’ange qui announce la fin du temps
8. No. 8, Lourange a l’immortalite de Jesus
Incrível que já se tenha passado um ano desde que, antes da gafe de deixar o patrão PQP tocar sozinho a série de postagens com a obra completa de Béla Bartók, assumi o papel de mestre de cerimônias no 140º natalício do grande homem e mostrei-lhes algumas de suas muitas façanhas como compositor, pianista, pedagogo e colecionador.
Pois hoje, enquanto colocamos mais uma velinha no bolo do mestre, voltarei àquele que é, talvez, o mais suculento gomo de sua obra. Entre todas suas composição, são as peças para violino – solo, em duo, com piano e acompanhadas por orquestra – que me parecem mais dependentes do “sotaque húngaro”, aquela tecla em que batemos obsessivamente ao longo da série de postagens do ano passado. Claro que há exceções, mas é muito difícil que elas – com seus modos, ataques e efeitos tão calcados no folclore da “Grande Hungria”, estudados à minúcia pelo compositor – sejam executadas a contento por intérpretes não magiares.
Endre Gertler (1907-1998), natural de Budapest, tinha, além de todo esse sotacão, uma tremenda familiaridade com essas obras, advinda da familiaridade com seu próprio autor: ele colaborou com Bartók em recitais ao longo dos anos 20 e 30 e foi, juntamente com József Szigeti, seu consultor para assuntos de técnica violinística. Mesmo depois de se radicar na Bélgica, tornar-se professor do Real Conservatório de Bruxelas e adotar o prenome “André”, o sotaque não se perdeu. Gertler já beliscava os sessenta anos quando foi à Tchecoslováquia, acompanhado dum regente patrício (János Ferencsik) e da esposa, a pianista dinamarquesa Diane Andersen, registrar a integral de Bartók para violino solista, ao lado de orquestras e solistas tchecos. O resultado foi essa gravação emblemática que ora lhes apresento e que, para mim, ainda é a referência nesse repertório, mais de cinquenta anos depois de ser dada ao mundo. O ótimo selo Supraphon é notório pelo cuidado de seus engenheiros de som, e a remasterização para a edição em CD fez jus ao material original. Se tiverem que escolher apenas um disco, sugiro-lhes o segundo: além duma eletrizante leitura da sonata para violino solo, vocês encontrarão minha interpretação predileta dos quarenta e quatro duos, em que o excelente Josef Suk – neto do compositor homônimo e bisneto de Antonín Dvořák – parece trocar de pedigree para tagarelar em magiar com o violino de Gertler.
Béla Viktor János BARTÓK (1881-1945)
A Obra Completa para Violino André Gertler, violino
Gravações realizadas em 1966
Disco 1
01 – Rapsódia no. 1 para violino e orquestra, Sz. 87
02 – Rapsódia no. 2 para violino e orquestra, Sz. 90
Com a Filharmonie Brno (Orquestra Filarmônica de Brno)
János Ferencsik, regência
Concerto para violino e orquestra no. 2, Sz. 112
03 – Allegro non troppo
04 – Andante tranquillo – Lento – Allegro scherzando – Comodo – Tempo I
05 – Allegro molto
Com a Česká Filharmonie (Orquestra Filarmônica Tcheca)
Karel Ančerl, regência
Disco 2
Quarenta e quatro duos para dois violinos, Sz. 98
1 – Livro I: Párosíto – Kalamajkó – Menuetto – Szentivánéji – Tót nóta – Magyar nóta – Oláh nóta – Tót nóta – Játék – Rutén nóta – Gyermekrengetéskor – Szénagyűjtéskor – Lakodalmas – Párnás tánc
2 – Livro II: Katonanóta – Burleszk – Menetelő nóta 1 – Menetelő nóta 2 – Mese – Dal – Újévköszöntő – Szunyogtánc – Mennyasszonybúcsútató – Tréfás nóta – Magyar nóta
3 – Livro III: “Ugyan édes komámasszony…” – Sánta-tánc – Bánkódás – Újévköszöntő – Újévköszöntő – [3] Újévköszöntő – Máramarosi tánc – Ara táskor – Számláló nóta – Rutén kolomejka – Szól a duda – A 36 Sz. Változata
4 – Livro IV: Preludium és kanon – Forgatós – Szerb tánc – Oláh tánc – Scherzo – Arab dal – Pizzicato “Erdélyi” tánc
Com Josef Suk, violino
Sonata para violino solo, Sz. 117 5 – Tempo di ciaccona
6 – Fuga. Risoluto, non troppo vivo
7 – Melodia. Adagio
8 – Presto
Disco 3
Sonata no. 1 para violino e piano, Sz. 75
1 – Allegro appassionato
2 – Adagio
3 – Allegro
Sonata no. 2 para violino e piano, Sz. 76
4 – Molto moderato (attacca)
5 – Allegretto
Com Diane Andersen, piano
Contrasts, para clarinete, violino e piano, Sz. 111
6 – Verbunkos
7 – Pihenő
8 – Sebes
Com Milan Etlík, clarinete e Diane Andersen, piano
Disco 4
Concerto no. 1 para violino e orquestra, Sz. 36
1 – Andante sostenuto – attacca:
2 – Allegro giocoso
Com a Filharmonie Brno (Orquestra Filarmônica de Brno)
János Ferencsik, regência
Sonata em Mi menor para violino e piano, Op. póstumo
3 – Allegro moderato (molto rubato)
4 – Andante
5 – Vivace
Sonatina para violino e piano sobre temas folclóricos da Transilvânia
(arranjo de André Gertler para a Sonatina para piano, Sz. 55) 6 – Allegretto – attacca:
7 – Moderato – attacca:
8 – Finale. Allegro vivace
9 – Canções folclóricas húngaras para violino e piano, Sz. 42
BÔNUS: toda festa de aniversário que se preza tem sua dose de constrangimento ao aniversariante, então não poderíamos deixar de servir-lhe uma bela torta de climão. Quem sairá de dentro dela será sua antiga paixão de juventude, a violinista Stefi Geyer, que inspirou seu primeiro concerto para violino, prontamente engavetado por cinquenta anos depois que ela deu o fora em Béla, e publicado só treze anos depois da morte do compositor. Para piorar o constrangimento, Stefi sairá da torta a tocar o concerto para violino – também dedicado a ela – composto por Othmar Schoeck, que era ninguém menos que o rival de Bartók no embate pelo coraçãozinho da moça. Se me acham perverso por isso, tsc, eu lhes peço que escondam suas venenosas línguas: Geyer é ótima violinista, e melhor ainda é Dennis Brain, o genial trompista que executa o idiomático concerto que completa o disco.
Othmar SCHOECK (1886-1957)
Concerto para violino e orquestra “quasi una fantasia” em Si bemol menor, Op. 21
1 – Allegretto
2 – Grave, non troppo lento
3 – Allegro con spirito