Conheci esta gravação do carioca Jean Louis Steuerman através duma fita cassete – – por si só um atestado de vetustos martelos, bigornas e estribos – antes mesmo do célebre registro de Glenn Gould, e sempre a tive em alta estima. Depois de muito tempo sem ouvi-la, e um pouco receoso de constatar que ela não tivesse resistido à passagem do tempo, ou qualquer outro nome que se dê ao fenômeno de se ficar cada vez menos impressionável quanto mais velho se fica, bem, eu a reencontrei e fiquei muito contente com o que ouvi. O toque preciso de Steuerman continuava lá, articulando com verve e graça os movimentos rápidos, e com economia nos ornamentos nos lentos. Não percebera, em meus imberbes tempos, o quão pouco afeito ele era a aderir às repetições sugeridas por Bach, mas o que ouvi agora, com maduros ouvidos, ainda me agradou demais. Lembro, sem muitas saudades, daqueles tempos em que ganhava mesada em cruzados novos, mas tinha sonhos precificados em dólar, e dos habitués daquele templo ar-condicionado da (minha) cobiça, quase todos velhotes que, pelo jeito, ganhavam em dólar, discutindo se esta grande música realmente se prestava a ser tocada com cravo, e entrincheirando-se entre aqueles que consideravam a versão de Gould insuperável, e o pequeno pelotão daqueles que preferiam Schiff, Martins ou Steuerman. De lá para cá, surgiram tantas gravações maravilhosas (lembro-me das de Angela Hewitt e de Murray Perahia, sem nem entrar no mérito das tantas por excelentes cravistas) que este embate perdeu totalmente o sentido – mas, já que me tornei um próprio um velhote, embora ainda não ganhe em dólar, vou à forra e lhes digo, sem que me tenham perguntado isso, que prefiro as partitas ao piano, que adoro a versão de Gould, que a de Martins não envelheceu bem, e que a de Steuerman segue firme em meu desimportante conceito.
BACH – JEAN LOUIS STEUERMAN – THE 6 PARTITAS BWV 825-830
Johann Sebastian BACH (1685-1750)
Partita no. 1 em Si bemol maior, BWV 825
1 – Praeludium
2 – Allemande
3 – Courante
4 – Sarabande
5- Menuet I
6 – Menuet II
7 – Gigue
- Partita no. 2 em Dó menor, BWV 826
8 – Sinfonia
9 – Allemande
10 – Courante
11 – Sarabande
12 – Rondeau
13 – Capriccio
- Partita no. 3 em Lá menor, BWV 827
14 – Fantasia
15 – Allemande
16 – Corrente
17 – Sarabande
18 – Burlesca
19 – Scherzo
20 – Gigue
- Partita no. 4 em Ré maior, BWV 828
21 – Overture
22 – Allemande
23 – Courante
24 – Aria
25 – Sarabande
26 – Menuet
27 – Gigue
Partita no. 5 em Sol maior, BWV 829
28 – Praeambulum
29 – Allemande
30 – Corrente
31 – Sarabande
32 – Tempo di Minuetto
33 – Passepied
34 – Gigue
- Partita no. 6 em Mi menor, BWV 830
35 – Toccata
36 – Allemande
37 – Corrente
38 – Air
39 – Sarabande
40 – Tempo di Gavotta
41 – Gigue
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Jean Louis Steuerman, piano

Vassily















Parem tudo o que estão fazendo e ouçam isso. Não exagero: eu parei minha série de postagens da obra completa de Beethoven em pleno Ano Beethoven, e acho que Ludovico não se chatearia com a reverência ao demiurgo João Sebastião, recriado pelo talento do mais fascinante dos violinistas em atividade, o canadense James Ehnes. Atentem para os andamentos mais lentos que o habitual, que permitem à linda entonação de Ehnes destacar as diversas vozes com clareza, particularmente nas fugas. Percebam seu uso comedido do vibrato, tão em desuso nessa era de preferências historicamente informadas, que nem de longe descamba para romantismo ou, menos ainda, sacarose sentimental. Maravilhem-se com momentos como o prelúdio da terceira partita, que cintila e efervesce. E – nem sei o que lhes dizer – SINTAM nessa Chacona, também mais lenta que o costumeiro, o domínio absoluto que Ehnes tem sobre tudo, e sobretudo ao pulso do tempo, enquanto desenrolam-se as engenhosas variações na criação instrumental suprema de Bach. Eu fui fisgado logo no primeiro acorde da primeira sonata, e só parei de ouvir muito depois da última partita terminar, para então colocar novamente a Chacona para conseguir acreditar no que meus sentidos me diziam: que aquela era a mais bela versão das sonatas e partitas que conheci na última década, e certamente uma das melhores que jamais existirão.










































