Quando um compositor não tem referências culturais em sua infância e junto a isso, uma vida entediante e normal, dificilmente sua obra terá características próprias e originais. Por outro lado, na nossa sociedade descartável, muitos compositores negam suas origens por vergonha mesmo. Que compositor teria coragem de colocar em suas obras traços influenciados pelas bailarinas do chacrinha ou da égua pocotó? Mas ao negar sua origem, o compositor abusa de referências alemãs serialistas e sonoridades stockhausianas. Por isso a música deste tipo de compositor soa travestida, esse mundo ele não viveu.
O compositor americano Daugherty não se acovarda, além de não esconder suas referências culturais, ele as homenageia. Fã do super-homem desde menino, escreveu uma sinfonia em comemoração aos cinquenta anos (1988) da criação deste personagem. Eu já tive a oportunidade de ver está a sinfonia Metropolis ser apresentada na Holanda. Todo o público ficou satisfeito com a riqueza orquestral, mas o melhor de tudo, e o público sabia disso, aquele mundo era nosso. Os movimentos sinfônicos estão nesta ordem: 1 – Lex, referencia ao super vilão Lex Luthor, aqui representado por um violino endiabrado; 2 – Krypton, o planeta destruído do super-homem. O movimento é sombrio, os detalhes percussivos são riquíssimos; 3 Mxyzptlk, o duende da quinta dimensão. Pelas firulas das flautas, este movimento representa o scherzo da sinfonia. 4- Oh Lois! é um movimento alucinante, um pequeno concerto para orquestra em 5 minutos. Referência óbvia à jornalista Lois Lane. 5 – Red Cape Tango, o último movimento, a trágica batalha do super-homem com Doomsday, o canto medieval Dies Irae é desenvolvido, assim como no final da sinfonia fantástica de Berlioz, para dá o tom fúnebre ao destino do super-homem.
Já a outra obra do disco, Deus Ex Machina (2007) para piano e orquestra, é um concerto dedicado aos trens. O concerto tem o padrão rápido-lento-rápido dos concertos clássicos, mas a orquestra e piano estão em pé de igualdade, podemos dizer que está peça está mais para uma sinfonia concertante para piano e orquestra. Muito empolgante.
Faixas:
1. Metropolis Symphony: I. Lex
2. Metropolis Symphony: II. Krypton
3. Metropolis Symphony: III. Mxyzptlk
4. Metropolis Symphony: IV. Oh, Lois!
5. Metropolis Symphony: V. Red Cape Tango
6. Deus ex Machina: I. Fast Forward (Di andata veloce)
7. Deus ex Machina: II. Train of Tears
8. Deus ex Machina: III. Night Steam
Orchestra Nashville Symphony
Conductor by Giancarlo Guerrero

cdf

Eu adoro a barroca Bergamasque, mas normalmente acho um porre a música para piano de Debussy. Ela é ideal para dormir. Tem tantos admiradores, mas tantos, que certamente é mais um de meus problemas. (Tenho muitos, mas não sou bolsonarista). Sabem?, acho perfeitamente legítimo e até comum ter uma relação complexa com a música para piano de Debussy. Ela exige um tipo de escuta específica e foge de muitas expectativas. Das minhas, principalmente. Gosto dos vanguardistas, só que Debby faz a anti-sonata. Sua revolução é a de dissolver a narrativa em sensações (uhhh, ohhh) e resulta, para mim, numa sensação de ausência de destino, de andamento sem chegada e isto que eu corro 5 Km duas vezes por semana dando voltas numa pista. Admiro sua importância histórica – ele libertou o som, mas, pessoalmente, muitas de suas peças me soam como impressionismo de salão: atmosféricas demais, emocionalmente esquivas. Apesar de tudo isto, Weissenberg (1929-2012) é um mestre e realmente não entedia a gente, só faz dormir bem.

IM-PER-DÍ-VEL !!!
IM-PER-DÍ-VEL !!!




Estes quartetos costumam ser companheiros de CDs e vinis. Quando aparece um, vem o outro grudado. Mas dá para entender. São dois dos melhores compositores franceses, ambos escreveram somente um quarteto de cordas, e apenas 10 anos anos os separam. O Claude Debussy é de 1893 e p de Maurice Ravel é de 1902-03). Ambos os quartetos são pilares do repertório moderno e mostram dois caminhos para renovar a tradição. Enquanto Debussy dissolve as fronteiras formais em sensação, Ravel as reinventa com cuidado. O de Debussy faz uma revolução silenciosa no gênero, rompendo com a tradição germânica (Beethoven, Brahms) e abrindo caminho para o modernismo francês. O de Ravel foi muito combatido, porém, para nossa sorte, Ravel recusou-se a reescrevê-lo, dizendo: “Não toquem numa nota; está perfeito como está.” Hoje, é um modelo de modelo de concisão e elegância no repertório camarístico. Excelente CD!


Georg Philipp Telemann (1681-1767): Suite em A menor, Concerto em F maior, Concerto em C maior e Sinfonia em F maior
Telemann: Bläserkonzerte (Wind Concertos)


Excelente CD dedicado à música de Telemann, um contemporâneo de Bach que, na época em que viviam, era muito mais popular e considerado maior. Claro que era mesmo um monstro, mas não era Bach, nem de longe. Ele compôs em todas as formas e estilos existentes em sua época. Sua música tem um caráter inconfundível, sendo clara, agradável e fluida. Gosto bastante. Telemann deixou mais de 3.000 obras, incluindo cantatas, oratórios, concertos e música de câmara, na qual era um craque. Ele aprendeu música quase sozinho, contra a vontade da família, que queria que fosse advogado. Família é uma merda, né?
IM-PER-DÍ-VEL !!!
Nocturnes
Prélude À L’Après-midi D’un Faune
Os CDs da gravadora brasileira Imagem eram espécimes muito curiosos. Qual é a relação entre o belíssimo Concerto para Piano de Khachaturian e uma das maiores obras já compostas, o Quinteto para Clarinete de Brahms? (Vocês sabiam que a autobiografia de Erico Verissimo, Solo de Clarineta, tem este nome em homenagem ao quinteto de Brahms? Pois é, vivendo e aprendendo…)

Uma manhã luminosa que enfatiza bem seu caráter gracioso e eloquente. Estas gravações foram lançadas na década de 70 em LPs pela PHILIPS e nenhuma foi relançada em CD, até as séries de relançamentos (PHILIPS DUO) dos anos 90. Haitink inclusive gravou novamente essas obras para lançamento exclusivo em CD, mas o brilho destas primeiras incursões é, para mim, insuperável.



IM-PER-DÍ-VEL !!!
FDP Bach teve uma semana complicada, apesar de curta, que se encerrou com seu desligamento da empresa em que trabalhava. Ou seja, sua cabeça estava envolvida em outras coisas, por esse motivo deixou o blog um pouco às moscas. Mas felizmente seu caro irmão PQP voltou de férias, e colocou ordem na casa. Volto com mais barroco, numa bela gravação de Trevor Pinnock e seu English Concert, com suas gravações com instrumentos de época. E o que é mais importante, tocando Telemann, compositor muito caro a este que vos escreve e ao seu irmão PQP, e também ao nosso leitor/ouvinte Pedro, que teceu grandes elogios à ele, quando da última postagem realizada deste compositor. Tratam-se de um Concerto com três trompetes solistas, além de duas Suítes. Portanto, mais barroco com quem entende do assunto.






Boa gravação. O Ghost foi composto em 1808, no mesmo período da Sinfonia No. 5 e da Sinfonia No. 6 colocando-o firmemente no período médio de Beethoven. Por que “Ghost” (Fantasma)? O apelido não foi dado pelo compositor, mas surgiu devido ao caráter único e sobrenatural do segundo movimento (Largo assai ed espressivo). O apelido está intimamente ligado a um projeto de ópera que Beethoven tinha em mente, baseado em “Macbeth”, de Shakespeare. Ele estava esboçando música para a cena em que as três bruxas aparecem para Macbeth. Essa música era sombria, misteriosa e cheia de um suspense fantasmagórico. Beethoven, insatisfeito e abandonando o projeto da ópera, reaproveitou o material musical e o clima dessa cena para compor o segundo movimento deste trio. O aluno, factótum e amigo Carl Czerny, foi quem confirmou essa conexão. Então, quando você ouve o segundo movimento, está essencialmente ouvindo a música que Beethoven imaginou para uma assembleia de bruxas sobrenaturais – daí a sensação de “fantasma”. Uhhhhh… O segundo Trio também é ótimo viram?

Mais um IM-PER-DÍ-VEL !!! 