Tenho meus problemas com Herbert von, porém, apesar do molho pesado de sempre, gostei deste CD. Quase chorei no Lacrimosa, não pela regência, mas pela lembrança do final de Vá e Veja. Aqui temos um programa duplo das obras sacras de Mozart: o monumental Réquiem, K. 626, e o muito legal Exsultate, Jubilate, K. 165. Trata-se de um lançamento que reúne duas gravações de arquivo da Deutsche Grammophon, sob a batuta de dois maestros distintos: Herbert von Karajan rege a Filarmônica de Berlim no Réquiem, enquanto Bernhard Klee comanda a Orquestra Estatal de Dresden no Ex.
O Réquiem é a última e incompleta obra de Mozart, envolta em mistério e concluída por Franz Xaver Süssmayr após a morte do compositor. A obra, composta em 1791, é uma missa de réquiem que se destaca pela sua intensidade dramática e profundidade emocional. Do Requiem aeternam inicial ao Lux aeterna, passado pelo Lacrimosa, a música transita entre o sombrio e o esperançoso, criando uma atmosfera de solene contemplação.
Em contraste, Exsultate, Jubilate é uma obra da juventude de Mozart, composta em 1773 durante a sua terceira viagem à Itália. Este moteto para soprano é uma peça de pura alegria e virtuosismo, com a sua famosa secção final, o “Alleluia”, a exigir da solista grande técnica vocal. A obra é um “hino de alegria”, um “cântico de exultação” que representa o oposto da atmosfera fúnebre do Réquiem.
Como disse, gostei do Réquiem, porém a interpretação de Karajan é uma leitura em tudo estranha. O maestro, conhecido pelo seu estilo grandioso, imprime à obra uma envergadura romântica excessivamente e desnecessariamente pesada. Sei disso. Sua abordagem confere ao Réquiem é operística quase Verdi. Esta visão contrasta com outras gravações mais contidas e historicamente informadas. Por exemplo, a de Peter Schreier com a Staatskapelle Dresden, que é certamente alternativa superior. Apesar das críticas, a grandiosidade da Filarmônica de Berlim e a qualidade do Wiener Singverein são inegáveis, criando momentos de grande impacto sonoro, ainda que por vezes à custa da clareza dos contrapontos.
O Exsultate, Jubilate, sob a direção de Bernhard Klee, oferece um contraste refrescante. Esta gravação, com a soprano Edith Mathis, é brilhante e muito elegante, captando a exuberância e a leveza da obra. A interpretação de Klee é mais direta e límpida, contrastando com a densidade arrotativa de Karajan.
W. A. Mozart (1756-1791): Réquiem, Exultate Jubilate (Berliner, Karajan / Dresden, Klee)
Requiem In D Minor, KV 626
1 Requiem
2 II. Kyrie
3 No. 1 Dies Irae
4 No. 2 Tuba Mirum
5 No. 3 Rex Tremendae
6 No. 4 Recordare
7 No. 5 Confutatis
8 No. 6 Lacrimosa
9 No. 1 Domine Jesu
10 No. 2 Hostias
11 V. Sanctus
12 VI. Benedictus
13 VII. Agnus Dei
14 Lux Aeterna
Exsultate, Jubilate, KV. 165 (158a)
15 Allegro – (Andante) – (Vivace)
Conductor – Bernhard Klee (faixas: 15), Herbert von Karajan (faixas: 1 to 14)
Orchestra – Berliner Philharmoniker (faixas: 1 to 14), Dresden State Orchestra* (faixas: 15)
Organ – Hans Otto (faixas: 15), Wolfgang Meyer (2) (faixas: 1 to 14)
Vocals – Agnes Baltsa (faixas: 1 to 14), Anna Tomowa-Sintow (faixas: 1 to 14), Edith Mathis (faixas: 15), José van Dam (faixas: 1 to 14), Werner Krenn (faixas: 1 to 14)

PAP