Certa vez, há algumas décadas, uma namorada, vendo que eu também era tarado por Bach, resolveu me dar todas as Cantatas pelo Helmuth Rilling. Gostei, ainda mais que não existiam as integrais de hoje (a do pugilista Gardiner, a de Suzuki, a de Koopman, a coleção da Netherlands Bach Society, a da Bachstiftung… Ah, a de Harnoncourt-Leonhardt me parecia meio anêmica — aliás, até hoje parece anêmica a este amante do historicamente informado) e que Rilling dava de dez na coleção parcial de Richter. E, ainda hoje, muitas vezes pego na estante um CD aleatório da coleção para ouvir. Bem, nesta manhã peguei um e me apaixonei por este que é o volume 53 da série. Já tinha me apaixonado por outros, mas este é bom também. Destaque para a presença do tenor catarinense Aldo Baldin na gravação. Prova de que havia vida inteligente em SC antes de todos se tornarem bolsonaristas.
Importamte: saibam que Rilling permanece vivo aos 90 anos e, parece-me, ainda ativo.
J. S. Bach (1685-1750): Cantatas BWV 47, 149 e 169 (Rilling)
1 Who Himself Exalteth, He Shall Be Made To Be Humble, Cantata BWV 47: 1. Chor – Arleen Auger/Phileppe Huttenlocher
2 Who Himself Exalteth, He Shall Be Made To Be Humble, Cantata BWV 47: 2. Aria – Arleen Auger
3 Who Himself Exalteth, He Shall Be Made To Be Humble, Cantata BWV 47: 3. Recitative – Philippe Huttenlocher
4 Who Himself Exalteth, He Shall Be Made To Be Humble, Cantata BWV 47: 4. Aria – Philippe Huttenlocher
5 Who Himself Exalteth, He Shall Be Made To Be Humble, Cantata BWV 47: 5. Chor – Arleen Auger/Phileppe Huttenlocher
6 They Sing Now Of Triumph With Joy, Cantata BWV 149: 1. Chor – Arleen Auger/Mechthild Georg/Aldo Baldin/Philippe Huttenlocher
7 They Sing Now Of Triumph With Joy, Cantata BWV 149: 2. Aria – Philippe Huttenlocher
8 They Sing Now Of Triumph With Joy, Cantata BWV 149: 3. Recitative – Mechthild Georg
9 They Sing Now Of Triumph With Joy, Cantata BWV 149: 4. Aria – Arleen Auger
10 They Sing Now Of Triumph With Joy, Cantata BWV 149: 5. Recitative – Aldo Baldin
11 They Sing Now Of Triumph With Joy, Cantata BWV 149: 6. Aria – Mechthild Georg/Aldo Baldin
12 They Sing Now Of Triumph With Joy, Cantata BWV 149: 7. Chor – Arleen Auger/Mechthild Georg/Aldo Baldin/Philippe Huttenlocher
13 God All Alone My Heart Shall Master, Cantata BWV 169: 1. Sinf – Helmuth Rilling
14 God All Alone My Heart Shall Master, Cantata BWV 169: 2. Arioso And Recitative – Carolyn Watkinson
15 God All Alone My Heart Shall Master, Cantata BWV 169: 3. Aria – Carolyn Watkinson
16 God All Alone My Heart Shall Master, Cantata BWV 169: 4. Recitative – Helmuth Rilling
17 God All Alone My Heart Shall Master, Cantata BWV 169: 5. Aria – Carolyn Watkinson
18 God All Alone My Heart Shall Master, Cantata BWV 169: 6. Recitative – Carolyn Watkinson
19 God All Alone My Heart Shall Master, Cantata BWV 169: 7. Chor – Arleen Auger/Mechthild Georg/Aldo Baldin/Philippe Huttenlocher
Soprano: Arleen Augér
Alto: Mechthild Georg
Tenor: Aldo Baldin
Baixo: Philippe Huttenlocher
Gächinger Kantorei Stuttgart
Bach-Collegium Stuttgart
Helmuth Rilling
Este CD da ótima violonista Sharon Isbin já tem mais de dez anos, doze para ser mais exato. Mas é de uma qualidade única. Até pouco tempo atrás eram poucas as mulheres solistas deste instrumento tão peculiar e masculino que é o violão. Felizmente, nos dias de hoje esse número cresceu.
Sharon Isbin fez as tarefas de casa direitinho. Estudou até mesmo com Rosalyn Tureck, uma das grandes especialistas em Bach no século XX. Tureck inclusive está por trás deste CD, auxiliando Isbin na sua concepção e edição das obras aqui interpretadas.
Enfim, para quem gosta do instrumento, sugiro sua audição com atenção. Bach explorou todos os recursos disponíveis do alaúde, e Isbin transpôs com grande habilidade e maestria para o violão. Sugiro os senhores darem uma olhada em sua página pessoal para melhor a conhecerem.
Johann Sebastian Bach (1685-1750): Complete Lute Suites (Sharon Isbin)
Suite BWV 1006a In E Major · E-Dur · Mi Majeur (17:08)
1 Prelude 4:23
2 Loure 2:45
3 Gavotte En Rondeau 3:11
4 Menuet I & II (Da Capo Menuet I) 2:57
5 Bourrée 1:55
6 Gigue 1:58
Suite BWV 995 In G Minor Performed In A Minor· A-Moll · La Mineur (21:34)
7.1 Prelude:
7.2 Trés Vite 6:45
8 Allemande 3:31
9 Courante 2:07
10 Sarabande 4:15
11 Gavotte I & II (En Rondeau) 2:41
12 Gigue 2:15
Suite BWV 996 In E Minor · E-Moll · Mi Mineur (17:28)
13.1 Praeludio: Passaggio
13.2 Presto 2:59
14 Allemande 3:09
15 Courante 2:24
16 Sarabande 4:46
17 Bourrée 1:20
18 Gigue 2:51
Suite BWV 997 In C Minor Performed In A Minor · A-Moll · La Mineur (22:12)
19 Prelude 3:10
20 Fugue 8:12
21 Sarabande 5:28
22 Gigue 2:43
23 Double 2:39
Um disquinho que tenho há muito tempo e a que sempre retorno. É uma bela interpretação deste grupo húngaro para a Naxos velha de guerra e, principalmente para o velho Bach. E as duas Cantatas são lindas, claro! Johann Sebastian Bach compôs a cantata Jauchzet Gott in allen Landen, BWV 51, em Leipzig. A obra é a única Cantata religiosa de Bach escrita para soprano e trompete solo. Ele a compôs para uso geral (ogni tempo), ou seja, não para uma data específica do calendário eclesiástico, embora a tenha usado no 15º domingo depois da Trindade. Sua primeira apresentação foi em 17 de setembro de 1730, em Leipzig. Was mir behagt, ist nur die muntre Jagd, BWV 208, também conhecida como Cantata de Caça, é uma cantata secular composta provavelmente para o aniversário do duque Cristiano de Saxe-Weissenfels, que era um caçador entusiasta, em 23 de fevereiro de 1713. A ária “Schafe können sicher weiden” é a parte mais conhecida da Cantata. E merece ser conhecida mesmo! É a mais antiga cantata secular sobrevivente de Bach, composta enquanto ele trabalhava como organista da corte em Weimar.
J. S. Bach (1685-1750): Cantatas 51 & 208 (Failoni / Antál)
Jauchzet Gott em allen Landen!, BWV 51
1 Ária: Jauchzet Gott em Allen Landen! 04:34
2 Recitativo: Wir beten zu dem Tempel an 02:18
3 Ária: Hochster, mache deine Gute 05:08
4 Coral: Sei Lob und Preis mit Ehren 03:55
5 Final: Aleluia! 02:30
Was mir behagt, ist nur die muntre Jagd, BWV 208, “Hunt Cantata”
6 Recitativo: Was mir behagt, ist nur die muntre Jagd! (Soprano) 00:41
7 Ária: Jagen ist die Lust der Gotter (Soprano) 02:23
8 Recitativo: Wie? Schonste Gottin! Quer dizer? (Tenor) 01:04
9 Ária: Willst du dich nicht mehr ergotzen (Tenor) 04:21
10 Recitativo: Ich liebe dich zwar noch! (Soprano, Tenor) 02:17
11 Recitativo: Ich, der ich sonst ein Gott in diesen Feldern bin (Baixo) 00:27
12 Ária: Ein Furst ist seines Landes Pan! (Baixo) 02:48
13 Recitativo: Soll denn der Pales Opfer hier das letzte sein? (Soprano) 00:37
14 Ária: Schafe konnen sicher weiden (Soprano) 03:45
15 Recitativo: So stimmt mit ein (Soprano) 00:20
16 Lebe, Sonne dieser Erden (Refrão) 02:33
17 Dueto: Entzucket uns beide (Soprano, Tenor) 01:52
18 Ária: Weil die wollenreichen Herden (Soprano) 01:44
19 Ária: Ihr Felder und Auen, último grunend euch schauen (baixo) 02:43
20 Ihr lieblichste Blicke! Seu freudige Stunden! (Coro) 03:58
Maestro(s): Antál, Mátyás
Orquestra(s): Orquestra de Câmara Failoni de Budapeste
Coro(s): Coro da Rádio Húngara
Artista(s): Gáti, István ; Kertesi, Ingrid ; Mukk, Jozsef ; Nemeth, Judite ; Paszthy, Julia
Após postarmos a versão de Maisky e Argerich com violoncelo e piano modernos, nada melhor do que voltar às origens.
Aliás, esta é a interpretação que mais amo destas Sonatas. Um trabalho notável!
Esta é a quarta nova gravação das Sonatas para Viola da Gamba de Bach que chegou até nós este ano, prova, sem dúvida, da merecida popularidade destas peças atraentes e melodiosas. Se tivesse que escolher apenas um CD para representar a música instrumental de câmara de Bach, talvez não houvesse melhor conjunto de obras para escolher do que estas. Jaap ter Linden e Richard Egarr entram num campo bastante disputado, que inclui inclusive um grande número de violoncelistas modernos que foram incapazes de resistir a esta música fantástica. Porém, creio que a dupla deste CD surge como séria candidata ao pódium. (Gramophone, trecho de resenha livremente traduzida, datada de dezembro de 2000)
Bach: Sonatas para Viola da Gamba e outras obras
1. Sonata in G Major BWV 1027 – Adagio
2. Sonata in G Major BWV 1027 – Allegro ma non tanto
3. Sonata in G Major BWV 1027 – Andante
4. Sonata in G Major BWV 1027 – Allegro Moderato
5. Capriccio in B-flat Major BWV 992 – Arioso, Adagio
6. Capriccio in B-flat Major BWV 992 – Double
7. Capriccio in B-flat Major BWV 992 – Adagiosissimo
8. Capriccio in B-flat Major BWV 992 – Double
9. Capriccio in B-flat Major BWV 992 – Allegro Poco
10. Capriccio in B-flat Major BWV 992 – Fuga
11. Sonata in D Major BWV 1028 – Adagio
12. Sonata in D Major BWV 1028 – Allegro
13. Sonata in D Major BWV 1028 – Andante
14. Sonata in D Major BWV 1028 – Allegro
15. Capriccio in E Major BWV 993
16. Sonata in G Minor BWV 1029 – Vivace
17. Sonata in G Minor BWV 1029 – Adagio
18. Sonata in G Minor BWV 1029 – Allegro
Jaap ter Linden: Viola da gamba
Richard Egarr: harpsichord
Nas obras corais de Bach, muitos são os momentos de celebração grandiosa: os grandes corais com tímpanos e três trompetes do oratório de Natal, da BWV 80 (festa da Reforma), do Magnificat, etc. Há outros momentos que são de de séria reflexão sobre a vida após a morte: a cantata BWV 106, as Paixões de Cristo, etc. E há ainda movimentos ou cantatas inteiras com orquestração minimalista, camerística, simplicidade nos meios permitindo um ou dois instrumentos se destacarem. Neste disco de cantatas gravadas sob a direção do suíço Rudolf Lutz, temos sobretudo esse terceiro aspecto de Bach, com momentos memoráveis do oboé, flautas doces, violino e violoncelo, um de cada vez, ressaltando o colorido típico de cada um deles.
No século seguinte, Hector Berlioz escreveria em seu Traité d’instrumentation (1844) que o oboé “tem um caráter camponês, cheio de afeto, mesmo de timidez. A graça inocente, a doce alegria, ou a dor de um ser frágil, tudo isso convém aos sons do oboé: ele as exprime maravilhosamente no seu cantabile.”
Jean Jacques de Boissieu – Um oboísta e dois pastores (1782)
O movimento mais famoso da BWV 156 é a Sinfonia que abre a cantata: um grande solo para oboé que aparece às vezes em compilações do tipo “O melhor de Bach”, tendo sido gravada por orquestras sinfônicas maiores regidas por maestros como Ormandy e Stokowski. Aqui, o oboé é acompanhado por uma orquestra de seis violinos e instrumentos são de época, com cordas de tripas de carneiro, etc.
Na já citada Cantata BWV 106 (apelidada Actus Mysticus, ou Actus Tragicus) os cantores são acompanhados por um número reduzido de instrumentos: duas flautas doces, violas de gamba e continuo, sem violinos. Da mesma maneira, na longa ária para soprano da cantata BWV 127, duas flautas doces e o continuo fazem o acompanhamento quase o tempo todo sozinhos, enquanto soprano e oboé solam em uma espécie de dueto em que o instrumento e a cantora repetem um ao outro. As cordas fazem uma breve entrada no meio do movimento, mas na maior parte do tempo os três instrumentos de sopro tocam sozinhos com o continuo, aqui composto de órgão, cravo, fagote, violoncelo e violino. Aliás, refletindo as diferenças de caráter entre cantatas, Rudolf Lutz e sua turma variam a composição do continuo. Na BWV 156, não há cravo, por exemplo.
O oboé, portanto, é o ator que rouba a cena em muitos momentos das cantatas BWV 127 e 156. Na 127, o caráter mais suave e tímido se explica pela data para a qual a obra foi escrita: para um domingo logo antes da quaresma, no qual o público na igreja já se preparava para o período de reflexão e ausência de festas. Ainda sobre a cantata BWV 127, o maestro e boxeador J. E. Gardiner escreveu sobre as duas árias desta cantata: após a primeira e mais longa, “para soprano com oboé obbligato e acompanhamento staccato de duas flautas doces”, caso alguém tenha “caído de sono durante essa ária hipnótica e arrebatadora, “Bach chama um trompete e o naipe de cordas inteiro” no movimento seguinte, uma evocação do Juízo Final, com uma “selvagem seção em 6/8 em que o inferno aparece em verdadeiro estilo concitato (‘animado’) Monteverdiano. Teologicamente e musicalmente é altamente complexo, sofisticado e inovador”, conclui Gardiner sobre esse movimento que funde recitativo e ária com mudanças de humor meio à maneira de C.P.E. Bach.
A última cantata do álbum, a BWV 97, é a única aqui a se abrir com um grandioso movimento coral mais grandioso – a BWV 156 começa com a “sinfonia” instrumental” e a 127 começa com um coro, mas de escrita um tanto sóbria. Mas o destaque nela, ao menos para os meus ouvidos, fica também nas árias com poucos instrumentos. Cada um dos quatro solistas tem sua ária: o baixo tem como acompanhamento apenas o continuo (violoncelo e órgão nesta gravação), depois o tenor faz a ária mais notável, em dueto com um violino solista à maneira de Vivaldi. As cantatas para uma voz solo e violino solista obbligato, como se sabe, eram comuns na Itália: A. Scarlatti e Händel (no seu período italiano) compuseram dezenas delas, talvez mais de cem…
A voz de alto – aqui cantada por uma mulher, ao contrário desta gravação de cantatas para alto solo – tem como acompanhamento não só um violino mas um naipe de cordas sem sopros; e finalmente na ária para soprano temos novamente dois oboés roubando a cena. Essa progressão bastante esquemática, com a ária da voz mais grave sendo seguida pelas outras vozes em ordem crescente, não é a regra na maioria das cantatas, o que dá a impressão de que nesta cantata, datada de 1734 (portanto uma das últimas de todas as mais de 200), Bach estava exercendo um pouco seu lado de grande mestre ensinando aos pupilos: vejam, crianças, como se fazem árias e coros com todos os tipos de vozes e instrumentos…
Johann Sebastian Bach (1685-1750):
1-5. Cantata BWV 127 «Herr Jesu Christ, wahr’ Mensch und Gott» (para o domingo antes da Quaresma, estreada em Leipzig, 11/fev/1725)
6-11. Cantata BWV 156 «Ich steh mit einem Fuß im Grabe» (para o 3º domingo após a Epifania, estreada em Leipzig, 23/jan/1729[?])
12-20. Cantata BWV 97 «In allen meinen Taten» (para data desconhecida, estreada em 1734)
Choir & Orchestra of the J.S. Bach Foundation, Conductor: Rudolf Lutz
Ao longo desses anos, todas as mais de 200 cantatas de Bach serão apresentadas pela fundação J.S.Bach Stiftung de Saint Gallen, Suíça. Eles já passaram da metade, em um ritmo lento: cada dia uma única cantata acompanhada de debates sobre os temas e contexto de cada uma.
Diálogo entre oboé e duas flautas doces na BWV 127
Quando Maurizio Pollini completou 70 anos, a DG fez-lhe esta homenagem em 3 CDs. A boa curiosidade que são seleções pessoais do pianista de suas gravações para a Deutsche Grammophon: de Petrushka de Stravinsky e Estudos de Chopin a concertos de Beethoven e Mozart. Também inclui sua primeira e rara gravação de sua premiada performance do Primeiro Concerto para Piano de Chopin em Varsóvia, em 1960. Ganhei este álbum de alguém — desculpe, esqueci de quem. Os 3 CDs vêm acoplados num um livro de capa dura colorido de 120 páginas, com muitas fotos e a discografia completa de Pollini na DG. Para um fã do pianista, imperdível é pouco.
Aliás, em junho deste ano, o grande pianista nos deu um belo susto. Aos 81 anos, ele esqueceu da obra que estava tocando e se atrapalhou totalmente. Pior, passou a tocar uma que viria depois e passou longe de seus habituais e altíssimos padrões de interpretação. Tudo aconteceu no imenso Royal Festival Hall, do Southbank Center, local onde vi Pollini tocar esplendidamente em fevereiro de 2014. A primeira peça do programa, o Arabesque de Schumann, foi interpretada lindamente de memória, mas em seguida, em vez da anunciada Fantasia de Schumann, ele começou uma Mazurka de Chopin, que deveria vir no segundo bloco. Ele pareceu se perder (ou possivelmente lembrou de que estava na peça errada) e de repente parou e saiu do palco por alguns minutos. Voltou com uma partitura da Fantasia de Schumann e começou a tocá-la, mas continuou folheando as páginas aparentemente ao acaso. Algumas das páginas estavam soltas e foram parar no chão, então ele caiu em verdadeira confusão, muitas vezes parando e arruinando qualquer senso de fluxo da música. Deve ter sido muito triste de assistir. Pollini sempre foi perfeito, imaculado, dando grande sentido a cada nota. Na segunda metade, um vira-páginas esteve presente e a execução foi muito mais parecida com o que temos experimentado com ele nos últimos anos. Foi certamente uma bela execução, mas também com algumas notas erradas e passagens confusas. Ele toca há décadas de memória, sempre. É claro que ele foi aplaudido de pé, mas nenhum bis foi oferecido. A experiência deve tê-lo abalado.
Para tirar o gosto amargo do parágrafo acima, coloco aqui o texto que publiquei em meu perfil do Facebook logo após ver Pollini p0wela primeira vez ao vivo em 18 de fevereiro de 2014:
“Hoje foi um dia especialíssimo e irrepetível — quem sabe? — em Londres. Eu e Elena assistimos ao concerto de Maurizio Pollini no Royal Festival Hall, sala principal do Southbank Center. O programa era vasto, mas centrado em peças de Chopin e Debussy. Ele tocou o primeiro livro dos prelúdios do francês e peças esparsas do primeiro. O concerto foi dedicado por Pollini à memória de Claudio Abbado. Talvez isso explique a recolocação no programa da Sonata nº 2 para piano, Op. 35, cujo terceiro movimento é a célebre Marcha Fúnebre. Tudo isso contribuiu para que a eletricidade estivesse no ar. Mas talvez o melhor seja passar a palavra para a Elena, que não tinha tido ainda muito contato com Pollini, enquanto que eu o conheço desde os anos 70, chamo-o de deus no PQP Bach e considero-o um dos maiores artistas vivos de nosso planeta, tão vulgar. No intervalo, após uma série de Chopins, a Elena já me dizia: “Ele tem altíssima cultura musical e concisão. Enquanto o ouvia, pensava em diversas formas de reciclagem: ecológica, emocional, psíquica… Sua interpretação é a de um asceta que pode tudo, mas demonstra humildade e grandeza em trabalhar apenas para a música. Pollini não fica jogando rubatos e efeitos fáceis para o próprio brilho, mas me fez rezar e chorar. Que humanidade, que sabedoria! Depois desse concerto, minha vida não será a mesma”. Foi a primeira vez que vi Pollini em ação, após ouvir dúzias de seus discos. Acho que não vou esquecer da emoção puramente musical — pois ela existe, como não? — de ouvir meu pianista predileto. Para Pollini ser absolutamente fabuloso, só falta o que não quero que aconteça e que já ocorreu com Abbado.
Stravinsky / Chopin / Beethoven / Webern / Liszt / Debussy / Mozart / Bach: The Art of Maurizio Pollini
Three Movements From Petrushka
Composed By – Igor Stravinsky
1-1 Danse Russe: Allegro Giusto 2:32
1-2 Chez Petrouchka 4:18
1-3 Le Semaine Grasse: Con Moto – Allegretto – Tempo Giusto – Agitato 8:28
12 Etudes, Op.25
Composed By – Frédéric Chopin
1-4 No: 1 In A Flat Major: Allegro Sostenuto 2:13
1-5 No: 2 In F Minor: Presto 1:27
1-6 No: 3 In F Major: Allegro 1:53
1-7 No: 4 In A Minor: Agitato 1:41
1-8 No: 5 In E Minor: Vivace 2:56
1-9 No: 6 In G Sharp Minor: Allegro 2:04
1-10 No: 7 In C Sharp Minor: Lento 4:52
1-11 No: 8 In D Flat Major: Vivace 1:04
1-12 No: 9 In G Flat Major: Allegro Assai 0:57
1-13 No: 10 In B Minor: Allegro Con Fuoco 3:58
1-14 No: 11 In A Minor: Lento – Allegro Con Brio 3:32
1-15 No: 12 In C Minor: Molto Allegro, Con Fuoco 2:31
Piano Sonata No: 32 In C Minor, Op.111
Composed By – Ludwig van Beethoven
1-16 Maestoso – Allegro Con Brio Ed Appassionato 8:47
1-17 Arietta: Adagio Molto Semplice E Cantabile 17:22
Variations For Piano, Op.27
Composed By – Anton Webern
1-18 Sehr Maassig 1:53
1-19 Sehr Schnell 0:40
1-20 Ruhig Fliessend 3:26
2-1 Polonaise In F Sharp Minor, Op.44 – Tempo Di Polacca-Doppio Movimento, Tempo Di Mazurka-Tempo I
Composed By – Frédéric Chopin
10:51
2-2 Polonaise In A Flat Major, Op.53 “Heroic” – Maestoso
Composed By – Frédéric Chopin
7:02
Piano Concerto No: 5 In E Flat Major, Op. 73 “Emperor”
Composed By – Ludwig van Beethoven
Conductor – Karl Böhm
Orchestra – Wiener Philharmoniker
2-3 Allegro 20:28
2-4 Adagio Un Poco Mosso – Attaca 8:02
2-5 Rondo: Allegro 10:15
2-6 La Lugubre Gondola I, S200 No: 1
Composed By – Franz Liszt
4:04
2-7 R.W. – Venezia, S201
Composed By – Franz Liszt
3:45
Preludes, Book 1
Composed By – Claude Debussy
2-8 VI: Des Pas Sur La Neige. Triste Et Lent. 3:45
2-9 Vii: Ce Qu’A Vu Le Vent D’Ouest. Anime Et Tumultueux. 3:06
2-10 X: La Cathedrale Engloutie Profondement Calme 6:10
Piano Concerto No: 24 In C Minor, K. 491
Cadenza – Salvatore Sciarrino
Composed By – Wolfgang Amadeus Mozart
Leader – Maurizio Pollini
Orchestra – Wiener Philharmoniker
3-1 Allegro 12:33
3-2 Larghetto 8:12
3-3 Allegretto 9:23
The Well-Tempered Clavier, Book 1 – “Prelude And Fugue In C Sharp Minor”, Bwv 849
Composed By – Johann Sebastian Bach
3-4 Praeludium IV 2:43
3-5 Fuga IV 4:48
The Well-Tempered Clavier, Book 1 – “Prelude And Fugue In G Major”, Bwv 860
Composed By – Johann Sebastian Bach
3-6 Praeludium XV 0:57
3-7 Fuga XV 2:52
Piano Concerto No: 1 In E Minor, Op. 11
Composed By – Frédéric Chopin
Conductor – Jerzy Katlewicz
Orchestra – Warsaw Philharmonic Orchestra*
3-8 Allegro Maestoso 16:10
3-9 Romance: Larghetto 9:44
3-10 Rondo: Vivace 9:32
Conductor – Jerzy Katlewicz (faixas: CD 3 (8 to 10)), Karl Böhm (faixas: CD 2 (3 to 5))
Orchestra – Warsaw Philharmonic Orchestra* (faixas: CD 3 (8 to 10)), Wiener Philharmoniker (faixas: CD 2 (3 to 5); CD 3 (1 to 3))
Piano – Maurizio Pollini (faixas: All Tracks)
“São na verdade solos de violino sem baixo, três sonatas e três partitas, que, no entanto, podem ser muito bem executadas no teclado”. (Jacob Adlung, Anleitung zu der musikalischen Gelahrtheit, 1758)
“O compositor frequentemente as tocava no próprio clavicórdio, e acrescentava tanta harmonia a elas quanto achasse necessário.” (Johann Friedrich Agricola, 1775, Bach-Dokumente III, Nr. 808)
No ano 2000 foi lançado o resultado de um projeto realizado pela Bachakademie Stuttgart e a gravadora Hänssler Classic – uma caixa com 170 CDs contendo a integral da obra de Johann Sebastian Bach, o santo padroeiro do blog. Já se vai quase um quarto de século e eu ainda não explorei devidamente essa caixota – como diria um de meus mais saudosos amigos.
Algumas peças do disco são interpretadas ao clavicórdio
Pois antes que chegue mais uma dessas efemérides e nova caixas surjam, decidi vasculhar esse material. Algumas de suas preciosidades já foram aqui apresentadas, como a extraordinária gravação das Partitas BWV 825 – 830, pelo regente e cravista Trevor Pinnock.
Para hoje temos a música de Bach interpretada pelo cravista Robert Hill. Nestes dois discos o programa é de transcrições de música escrita originalmente para instrumentos de cordas, como a Partita BWV 1004, escrita para violino solo e que termina com a famosíssima Ciaccona.
As duas frases que estão em destaque no início do texto são evidências da prática comum tanto de Bach quanto das gentes que o cercava de interpretarem assim, ao teclado, música que fora concebida para cordas.
… outras no alaúde com teclado
No disco temos transcrições feitas na época de Bach e outras recentes, feitas pelo próprio Robert Hill. Na listagem das obras a seguir isso ficará explicitado. Além disso, diferentes instrumentos de teclado são usados na gravação – cravo, clavicórdio e cravo-alaúde (Lautenklavier).
Espero que você ouça a música sem maiores preocupações com originalidade ou não, simplesmente desfrutando esse universo sonoro decididamente Bachiano. Veja que Robert Hill reúne excelente formação musical, experiência, prática e é músico de mão cheia. Há mais contribuições dele na nossa fila de espera…
Johann Sebastian Bach (1685 – 1750)
CD1
Partita em sol menor (transcrição da Partita em ré menor BWV 1004, por Robert Hill)
Allemanda
Corrente
Sarabanda
Giga
Ciaccona
Sonata em ré menor BWV 964 (transcrição da Sonata em lá menor BWV 1003)
Grave
Fuga
Andante
Allegro
Sonata em sol maior BWV 968 (transcrição da Sonata em dó maior BWV 1005 – movimentos 2 a 4 por Robert Hill)
Adagio
Fuga – Alla Breve
Largo
Allegro Assai
Robert Hill, cravo
CD2
Partita em mi maior BWV 1006a
Preludio
Loure
Gavotte En Rondeau
Menuet I
Menuet II
Bourrée
Gigue
Sonata em dó maior BWV 966 (Composição de J.A. Reincken e arranjo de J.S. Bach)
Prélude
Fuga
Adagio/Presto
Allemande
Adagio em lá menor BWV 965 (Composição de J.A. Reincken e arranjo de J.S. Bach)
Adagio
Sonata em lá menor BWV 965 (Composição de J.A. Reincken e arranjo de J.S. Bach)
Adagio
Fugue
Adagio/Presto
Allemande
Courante
Sarabande
Gigue
Fuga em si bemol maior BWV 954 (Composição de J.A. Reincken e arranjo de J.S. Bach)
Fuga
Sonata em dó menor (transcrição da Sonata em sol menor BWV 1001 feita por Robert Hill)
Adagio
Allegro
Siciliana
Presto
Robert Hill, cravo-alaúde (1-7, 20-24), clavicórdio (8-12), cravo (13-19)
Foto de R Hill nos dias que ele agitava com Reinhardt Goebel e a banda MAK
Para saber um pouco mais sobre R Hill, clique aqui.
Particularmente interessantes as faixas 12 e 13, nas quais a mesma música, composta por Reincken e transcrita para teclado por Bach, é interpretada ao calvicórdio e logo a seguir ao cravo, permitindo comparar a sonoridade dos dois instrumentos.
Dizem que ele viveu 100 anos, mas pode não ser tanto assim…
Johann Adam Reincken foi, assim como Dietrich Buxthehude, compositor e organista de uma geração anterior a J.S. Bach. Ambos eram expoentes na arte da improvisação e serviram como modelo para Bach, que visitou ambos em sua juventude, como parte de sua formação.
Reincken era organista em Hamburgo onde foi visitado por Bach mais uma vez em 1720, quando este fora até a cidade em busca de uma posição. Nesta ocasião Bach deu um concerto no órgão da Igreja de Santa Catarina, instrumento do qual ele muito gostava, com a presença de Reincken, que lhe pedira uma improvisação sobre o coral luterano An Wasserflüssen Babylon. Conta a história que o velho músico teria dito a Sebastian: Eu achava que esta arte [da improvisação] estivesse extinta, mas pude ver que ela ainda vive em você.
Nascido em Teerã, no Irã, 39 anos atrás, Mahan Esfahani cresceu nos Estados Unidos, onde estudou musicologia na Universidade de Stanford. Estudou cravo em Praga com Zuzana Ruzicková. Em 2009, fixou-se em Londres. E hoje vive em Praga. Ele é decididamente um cravista fora da curva. Nos últimos treze anos encomendou obras a compositores contemporâneos e as estreou, algumas para cravo e orquestra. E, claro, notabilizou-se também no chamado repertório fundamental do instrumento – as obras do período barroco, sobretudo as de Bach. Já tocou com nomes ilustres do mundo clássico, como François Xavier-Roth, Ilan Volkov, Thomas Dausgaard, Antoni Wit, Jiri Belohlávek e o atual maestro titular e diretor artístico da Osesp Thierry Fischer. Entre seus parceiros de concertos e gravações estão Michala Petri e Emmanuel Pahud; e estreou obras de compositores como George Lewis, Brett Dean, Ben Sorensen. Grava para a Hyperion e para a Deutsche Grammophon.
E é da Hyperion, selo independente inglês que foi recentemente comprado pelo grupo Universal, que também detém a Deutsche Grammophon, o excepcional CD desta semana. Ele se intitula “Bach: os Pequenos Livros para Anna Magdalena”. Pela primeira vez, juntam-se no mesmo álbum as peças curtas instrumentais com nove árias sacras constantes dos álbuns de 1722 e 1725, onde Bach inclui, além de suas peças, as de outros compositores seus contemporâneos, como o cravista francês François Couperin.
No texto do encarte brilhante – tão bom quanto suas interpretações ao cravo – Esfahani denuncia a misoginia multissecular que transformou em praticamente material descartável, mero gesto de gentileza do gênio para sua segunda esposa estes cadernos manuscritos, para serem usados na atmosfera familiar. Ora, escreve o cravista, Anna era cantora profissional até casar-se com Johann Sebastian e praticamente abandonou o canto para se dedicar à numerosa família: “A presença de peças para cravo e também outras vocais de caráter sacro tem um significado mais profundo do que a descrição em geral informal desta música como subprodutos menores e até mesmo imperfeita do que se descreve imperfeitamente como “devoção pessoal’. Se as obras do ‘pequeno livro’ são modestas e parecem de escasso valor comparadas às grandes suítes e variações e às fantasias e fugas virtuosísticas, elas representam, porém, o espírito de uma civilização que coloca no mesmo patamar tanto estas quanto as que exigem maiores competências técnicas e expressivas”.
E fecha com chave de ouro: “Cada uma delas é um precioso artefato que sobreviveu até os dias atuais, de uma mulher sobre quem sabemos tão pouco que nem temos uma representação física. Para conhecê-la e conhecer o homem que era Johann Sebastian, seria bom prestarmos atenção à música que ambos consideravam digna o bastante para acompanhar seus pensamentos diários, em família”.
Johann Sebastian Bach (1685-1750): Notebooks for Anna Magdalena (Esfahani / Sampson)
01. Bach: Minuet in F major, BWVAnh113 (1:46)
02. Pezold: Minuets in G major / G minor, BWVAnh114 & 115 (3:34)
03. Couperin: Rondeau in B flat major, BWVAnh183 (4:17)
04. Bach: Minuet in G major, BWVAnh116 (1:44)
05. Bach: Polonaise in F major, BWVAnh117 (1:18)
06. Bach: Minuet in B flat major, BWVAnh118 (1:24)
07. Bach: Polonaise in G minor, BWVAnh119 (1:13)
08. Bach: Wer nur den lieben Gott lässt walten, BWV691 (1:36)
09. Bach: Gib dich zufrieden, BWV510 (1:20)
10. Bach: Gib dich zufrieden, BWV511 (1:14)
11. Bach: Minuet in A minor, BWVAnh120 (1:28)
12. Bach: Minuet in C minor, BWVAnh121 (1:03)
13. Bach (CPE): March in D major, BWVAnh122 (1:04)
14. Bach (CPE): Polonaise in G minor, BWVAnh123 (1:19)
15. Bach (CPE): March in G major, BWVAnh124 (1:26)
16. Bach (CPE): Polonaise in G minor, BWVAnh125 (1:59)
17. Bach: Erbauliche Gedanken eines Tobackrauchers, BWV515a, ‘So oft ich meine Tobackspfeife’ (5:28)
18. Böhm: Menuet fait par Mons Böhm in G major (1:09)
19. Bach: Musette in D major, BWVAnh126 (0:43)
20. Bach (CPE): March in E flat major, BWVAnh127 (1:13)
21. Bach: Polonaise in D minor, BWVAnh128 (1:17)
22. Stölzel: Bist du bei mir, BWV508 (2:47)
23. Bach: Goldberg Variations ‘Aria mit verschiedenen Veränderungen’, BWV988 – Movement 01: Aria (4:21)
24. Bach (CPE): Solo per il cembalo, BWVAnh129 (2:13)
25. Hasse: Polonaise in G major, BWVAnh130 (2:00)
26. Bach: The well-tempered Clavier Book 1, BWV846-869 – No 01 in C major, BWV846. Movement 1: Prelude (2:11)
27. Bach (JC): Rigaudon in F major, BWVAnh131 (0:44)
28. Bach: Warum betrübst du dich?, BWV516 (1:37)
29. Bach: Ich habe genug, BWV82 – No 2. Recitativo: Ich habe genug (1:07)
30. Bach: Ich habe genug, BWV82 – No 3. Aria: Schlummert ein, ihr matten Augen (7:09)
31. Bach: Schaffs mit mir, Gott, BWV514 (0:57)
32. Bach: Minuet in D minor, BWVAnh132 (0:54)
33. Bach: Willst du dein Herz mir schenken, BWV518 (2:58)
34. Bach: Dir, dir, Jehova, will ich singen, BWV299b (0:55)
35. Bach: Wie wohl ist mir, o Freund der Seelen, BWV517 (1:32)
36. Bach: Gedenke doch, mein Geist, zurücke, BWV509 (0:58)
37. Bach: O Ewigkeit, du Donnerwort, BWV513 (1:22)
38. Bach: Jesus, meine Zuversicht, BWV728 (1:49)
39. Bach: Minuet in G major, BWV841 (1:18)
40. Stölzel: Bist du bei mir, BWV508 (2:40)
Ouvi este álbum duplo ontem à noite. É realmente de entusiasmar, principalmente se pensar que sempre coloquei as Inglesas após as Partitas e as Suítes Francesas, obras análogas em formato. Desta vez, fiquei até com vontade de rever meus conceitos. Tudo muito elegante, fluido e musical. Hewitt veio realmente para ficar. Confiram e me digam se não é verdade.
(Todas estas postagens maravilhosas da Hewitt têm o patrocínio da extraordinária Hyperion e de FDP Bach, que as mandou num esperto pen drive para este que vos escreve).
J. S. Bach (1685-1750): As Suítes Inglesas (completas)
Disc: 1
English Suite No 1 in A major BWV806
1. Prelude
2. Allemande
3. Courante I
4. Courante II
5. Sarabande
6. Bourree I And II
7. Gigue
English Suite No 2 in A minor BWV807
8. Prelude
9. Allemande
10. Courante
11. Sarabande Et Les Agrements De La Meme Sarabande
12. Bourree I And II
13. Gigue
English Suite No 3 in G minor BWV808
14. Prelude
15. Allemande
16. Courante
17. Sarabande Et Les Agrements De La Meme Sarabande
18. Gavotte I And II
19. Gigue
Arabella Steinbacher monta um interessante programa formado por obras de Bach e Pärt. Em Bach, sua interpretação não é a historicamente informada, mas é muito boa e convincente. Seus vibratos não são exagerados e a coisa vai muito bem. Arabella percebe Bach e Pärt como companheiros porque eles ‘têm uma origem espiritual comum’ e sua música a comove emocionalmente. Ela vai bem no Fratres de Pärt, introduzindo suas variações com uma hábil seção de solo inicial e transmitindo seu efeito hipnótico com segurança e arte. No entanto, embora hipnotizante, para meu gosto, sua abordagem à simples e bela Spiegel im Spiegel de Pärt acaba superaquecida pelo vibrato exagerado.
J. S. Bach, Arvo Pärt: Bach & Pärt (Steinbacher, Koncz, Stuttgarter Kammerorchester)
1 Fratres (Version For Violin, String Orchestra & Percussion)
Composed By – Arvo Pärt
12:34
Violin Concerto in E Major, BWV 1042
Composed By – Johann Sebastian Bach
2 I. Allegro 7:43
3 II. Adagio 6:31
4 III. Allegro Assai 2:43
Violin Concerto In A Minor, BWV 1041
Composed By – Johann Sebastian Bach
5 I. Allegro Moderato 3:36
6 II. Andante 6:08
7 III. Allegro Assai 3:45
Concerto For 2 Violins In D Minor, BWV 1043 “Double Concerto”
Composed By – Johann Sebastian Bach
8 I. Vivace 3:36
9 II. Largo, Ma Non Tanto 6:06
10 III. Allegro 4:44
11 Spiegel Im Spiegel (Version For Violin & Piano)
Composed By – Arvo Pärt
11:26
Andrew Manze e Rachel Podger que retomam peças fundamentais do barroco alemão: os Concertos para Violino de Johann Sebastian Bach. O CD merece todo meu respeito. O estilo de Manze é altamente individual. Alguns de seus acordes soam notavelmente rústicos. Ele usa o vibrato mínimo, que é o correto. Além disso, ele não tem medo de ornamentar os concertos solo — uma prática que pode irritar quanto satisfazer os ouvintes. Ele geralmente reserva essas alterações nas recapitulações e defende seus embelezamentos com base na própria prática de Bach. Essas novidades vão desde as notas no final do Allegro de abertura do BWV1043 até as intervenções mais extensas no primeiro Allegro de BWV1042. Ouvintes conservadores podem sair correndo… A Academia de Música Antiga oferece um papel coadjuvante competente. Mas vale sempre a pena ouvir Manze em palavras e ações. E aqui ele está acompanhado de uma futura estrela, a jovem, na época, Rachel Podger. Um fato curioso é que ninguém pode ter certeza de quantos concertos para violino Bach escreveu. Sua produção de concerto consiste em várias obras escritas para determinados instrumentos, depois reorganizadas para outros. O cânone estabelecido de seus concertos para violino é limitado ao BWV 1043, 1041 e 1042. O resto não se sabe.
Johann Sebastian Bach (1685-1770) – Solo & Double Violin Concertos
Concerto in D Minor for Two Violins BWV 1043
01. Vivace
02. Largo ma non tanto
03. Allegro
Concerto in A Minor for Violin BWV 1041
04. Allegro
05. Andante
06. Allegro Assai
Concerto in E Major for Violin BWV 1042
07. Allegro
08. Adagio
09. Allegro assai
Concerto in D Minor for Two Violins BWV 1060
10. Allegro
11. Adagio
12. Allegro
Andrew Manze & Rachel Podger, violinos
The Academy of Ancient Music
Andrew Manze, regente
Os Concertos para Cravo de Bach surgiram da necessidade de música para os concertos no Collegium Musicum, uma sociedade musical centrada nos alunos da Universidade em Leipzig, que se reunia semanalmente no Café Zimmerman. Bach foi o diretor dessa sociedade por certo tempo e para conseguir os concertos usou material de outras ocasiões adaptando-o para esse novo formato.
Esses concertos para cravo e orquestra sobreviveram em uma cópia feita pelo próprio Bach, reunindo os Concertos enumerados BWV 1052 – 1059. Na verdade, o manuscrito começa com a inscrição JJ – Jesus juva (Jesus, ajude) e, após o Concerto BWV 1057, encontra-se a inscrição Finis. S.D.Gl. (Soli Deo Gloria). Isso indica que esses seis concertos formam um conjunto de seis peças. A parte de cravo do Concerto BWV 1058 tem muitas correções e o Concerto BWV 1059 contém apenas fragmentos. Apesar disso, este concerto pode ser recomposto, como foi feito neste disco, pelo cravista Steven Devine, uma vez que Bach usou seus movimentos em três números da Cantata BWV 35 – Geist und Seele wird verwirret.
Steven Devine no Castelo do PQP Bach, na Turíngia
O disco foi lançado há poucos dias reunindo a ótima Orchestra of the Age of Enlightenment sob a regência desde o cravo de Steven Devine, com produção do também relativamente novo selo inglês Resonus, fundado em 2011. Steven já tem ótimos discos lançados pelo selo Resonus, que já ganhou alguns prêmios por seus excelentes produtos.
Como bônus para nossos fiéis seguidores, acrescento os três movimentos da Cantata BWV 35 – Espírito e Alma estão confusos, na gravação do contratenor Alex Potter acompanhado pelo conjunto Il Gardelino, pelo selo belga Passacaglie.
Johann Sebastian Bach (1685 – 1750)
Concerto em ré maior, BWV 1052
Allegro
Adagio
Allegro
Concerto em lá maior, BWV 1055
Allegro
Larghetto
Allegro ma non tanto
Concerto em ré maior, BWV 1054
[Allegro]
Adagio e piano sempre
Allegro
Concerto em ré menor, BWV 1059 (reconstrução – S. Devine)
Steven Devine combines a career as a conductor and director of orchestral, choral and opera repertoire with that of a solo harpsichordist and fortepianist. He is Conductor and Artistic Advisor of The English Haydn Festival; Music Director of New Chamber Opera, Oxford and Director of the Orchestra of the Age of Enlightenment’s “Bach the Universe & Everything” series.
The harpsichord concertos of J.S. Bach form the origins of the keyboard concerto genre that was to continue to flourish through the music of his sons, C.P.E. Bach and J.C. Bach, and onwards.
Here, celebrated keyboardist Steven Devine is joined by members of the Orchestra of the Age of Enlightenment in this recording that features the Concerto in D minor, BWV 1052, Concerto in A major BWV 1055, and the Concerto in D major BWV1054, together with a new reconstruction by Steven Devine of the Concerto in D minor BWV 1059.
Um bom disco de transcrições. É normal que músicos encontrem maneiras de adaptar as composições de Bach para caber em seus instrumentos, sejam eles tocando saxofone, marimba ou violão. Os instrumentistas do Ensemble Cordevento reconstroem criativamente quatro concertos para a flauta doce, apesar do inconveniente fato de que Bach não ser conhecido por ter escrito nenhum… O primeiro concerto tem seu primeiro e terceiro movimentos adaptados de árias rápidas da Cantata Secular Preise dein Glücke, gesegnetes Sachsen (BWV215), enquanto o movimento lento é baseado em uma ária de diálogo da Cantata Liebster Jesu, mein Verlangen (BWV32). A flauta doce de Erik Bosgraaf é fluente e animada em todas as partes rápidas e seus cinco colegas (cordas e cravo) fornecem acompanhamentos enxutos, elegantes e precisos. Sua passagem rápida é impressionante no Allegro que começa o BWV1055, assim como no Presto final do BWV 1059.
J. S. Bach (1685-1750): Concertos para Flauta Doce (Bosgraaf)
Concerto In G Major Arias From Cantatas Bwv 215 & 32
1 Allegro
2 Adagio
3 Presto
Concerto in B Flat major Bwv 1055
4 Allegro
5 Larghetto
6 Allegro Ma Mon Tanto
Concerto In D Major Bwv 1053
7 Allegro
8 Siciliano
9 Allegro
Concerto In D Minor Bwv 1059
10 Allegro
11 Adagio
12 Presto
Liebster Jesu, Wir Sintd Hier Bwv 731
13 Liebster Jesu, Wir Sintd Hier Bwv 731
Há pouquíssimos instrumentos para os quais Bach nada escreveu. No seu tempo, era costume tocar um concerto ou um solo com algum instrumento durante a comunhão, na igreja, e ele compôs um grande número de obras assim, escrevendo-os de tal forma que eles ajudavam quem os estivesse interpretando a tornar-se um artista ainda melhor – a maior parte deles se perdeu.
J.N.Forkel
Guillaume Rebinguet Sudre
Neste disco Guillaume Rebinguet Sudre dirige o Ensemble Baroque Atlantique e interpreta concertos de J.S. Bach – o Concerto para Violino No. 1 BWV 1041, o Concerto para três Violinos BWV 1096 (uma transcrição do Concerto para três Cravos BWV 1064) e um Concerto para dois Violinos, transcrito pelo próprio Guillaume a partir da Sonata para Órgão (Triosonata) BWV 530. No livreto, Guillaume explica como as conhecidas transcrições do próprio Bach lhe serviram de guia e inspiração.
Funcionando como interlúdios entre os concertos, temos uma sarabanda e duas sinfonias e aberturas de cantatas, que reforçam o lado mais introspectivo e reflexivo da música de Bach, fazendo bom contraste com os movimentos mais solares dos concertos.
O disco não é um primor de produção, mas vale a novidade da transcrição e o amor dos artistas pela música fica evidente em cada trecho.
Johann Sebastian Bach (1685 – 1750)
Concerto para Dois Violinos em sol maior, BWV 530
Guillaume Rebinguet Sudre e Diana Lee, solistas
Vivace
Lento
Allegro
Suite para Cravo em mi menor, BWV 996
Sarabande
Jean-Luc Ho, cravo
Christ lag in Todesbanden, BWV 4 & 12
Sinfonias
Violin Concerto para Violino No. 1 em lá menor, BWV1041
—
Andante
Allegro assai
Der Herr denket an uns, BWV 196
Sinfonia. Andante
Concerto para Três Violinos em dó maior, BWV 1096
Guillaume Rebinguet Sudre, Alix Boivert e Simon Pierre, solistas
Os músicos do Ensemble Baroque Atlantique são todos apaixonados por instrumentos antigos
Quem é Guillaume Rebinguet Sudre? Professor de violino barroco no Conservatório de Bordeaux, discípulo de Enrico Gatti e Hélène Schmitt. Ele também é um fabricante de cravo em Charente.
Vista do Palácio PQP Bach nas margens do rio Charente
O Chat PQP ajudou na tradução de trechos de uma crítica original em francês: Você quer um jovem conjunto francês imaculado e às vezes até esplêndido, de primeira classe, mas previsível? Veja Pigmalião […]. Quer um coletivo às vezes desajeitado, mas cheio de ideias, que se diverte no seu primeiro disco para sacudir nossos hábitos em Bach? O Ensemble Baroque Atlantique recordará que, até há pouco tempo, a música antiga era movida pelo espírito de aventura.
O Concerto para dois violinos baseado na Sonata para Órgão BVW 530 e é menos legítimo historicamente, mas muito mais convincente musicalmente do que muitas “reconstruções” recentes.
O cartão de visita está pronto. Que a banda Atlantic dedique todo o seu tempo para entregar uma segunda obra à altura de seu talento.
Pianista, polímata, foi criança prodígio, e agora Kit Armstrong está ensinando apreciação musical à inteligência artificial. Kit Armstrong compunha música aos cinco anos, estudava ciências na universidade aos 10 anos, foi solista de grandes orquestras durante a adolescência, e fez o mestrado em Matemática Pura só para ‘relaxar’.
Esta é a abertura de uma reportagem escrita por Enid Tsui para um jornal de Hong Kong em dezembro de 2022, quando o então jovem de 30 anos Kit Armstrong daria concertos por lá.
Este disco já tem dez anos, mas parece ter sido lançado ontem. O programa reúne uma coletânea de Prelúdios Corais de Bach, seguidos de uma peça escrita pelo próprio Kit Armstrong – uma fantasia sobre BACH. Segue a Partita em si bemol maior, BWV 825, e uma escolha de peças de Ligeti, da série Musica ricercata. Como você já deve saber, vintage Ligeti, composições da década de 1950, mas que soam bastante novas para mim.
Com a ajuda de nosso tradutor multilíngue, descobrimos o que disse sobre o disco um comprador da Amazon no Japão: É diferente da chamada performance de época de Bach, mas é uma performance maravilhosa que faz você sentir oração e significado em cada nota. Sinto até frescor. Ainda não há valor de nome, mas não há dúvida de que ele é uma pessoa talentosa que será responsável pelo futuro.
Encerrada a visita ao estúdio. O americano, que tem só 22 anos, não apenas demonstra incrível presença [carisma] em concerto, mas desde antes detinha uma reputação de gênio completo, com diplomas em Matemática e Composição. O fato de que ele só agora tenha consolidado sua carreira com uma estreia em CD deve-se provavelmente a Alfred Brendel, que o encorajou anteriormente. E deve ter sido Brendel que familiarizou o bachiano pianista Armstrong com as antigas gravações de Edwin Fischer, a quem admirava tanto. Isso porque o “poder mágico da paz interior”, que Brendel certa vez apontou enquanto escutava o Bach de Fischer, encontra-se em cada virada de página nos doze Prelúdios-corais que Armstrong gravou. Ele banhou com suave luminosidade alguns célebres ‘bálsamos’ da alma, como “Jesu, meine Freude” e “Allein Gott in der Höh’ sei Ehr”. E ele interpreta de maneira declamatória, fluência e delicadeza “O Mensch, bewein dein´ Sünde groß”. Apesar de toda discrição e nobreza no fraseado, que o próprio Armstrong leva muito a sério na Partita no. 1, BWV 825, esse Bach é muito mais moderno que o de seu mentor. O que, por um lado, não é uma proeza: afinal, Brendel espessava Bach romanticamente. Armstrong, por outro lado, consegue conectar coração e mente ao tornar a lógica interna das obras transparente com naturalidade. Armstrong combinou essas obras com sua própria “Fantasia sobre B-A-C-H” e meia dúzia de peças do ciclo “Música Ricercata”, de György Ligeti, completado em 1953. Enquanto Armstrong espalha fragmentos melódicos de Bach aqui e ali em sua Fantasia, essa obra de 2011 não é um peso-leve pós-moderno. Os atritos são deslumbrantemente ousados demais para isso. E bem no final o ritmo torna-se mecanicamente furioso, como se Armstrong tivesse em mente o americano Conlon Nancarrow, que Ligeti redescobrira. Tremenda, então, é a facilidade com que estabelece o neobarbarismo e os polirritmos diabólicos de Ligeti! Nada mau o cartão de visitas que Armstrong usou para recomendar-se ao futuro. [Guido Fischer]
Johann Sebastian Bach (1685 – 1750)
Jesus Christus unser Heiland, BWV 666
Bicinium: Allein Gott in der Höh’ sei Ehr’, BWV 711
In dulci jubilo, BWV 729
Vom Himmel hoch, da komm’ ich her, BWV 738
Gottes Sohn ist kommen, BWV 724
Christ lag in Todesbanden, BWV 625
Wer nur den lieben Gott lässt walten, BWV 690
In dich hab’ ich gehoffet, Herr, BWV 712
Jesu, meine Freude, BWV 713
Herr Jesu Christ, dich zu uns wend’, BWV 655
Allein Gott in der Höh’ sei Ehr’, BWV 715
O Mensch, bewein’ dein’ Sünde groß, BWV 622
Kit Armstrong (1992 – )
Fantasy on BACH
Johann Sebastian Bach (1685 – 1750)
Partita No. 1 in B Flat Major, BWV 825
Praeludium
Allemande
Courante
Sarabande
Menuett I & II
Gigue
György Ligeti (1923 – 2006)
Musica Ricercata
Tempo Di Valse (Poco Vivace) ” L’orgue de Barbarie”
Allegro Con Spiritu
Vivace. Capriccioso
Adagio. Mesto. Allegro Maestoso (Bla Bartk in Memoriam)
“I have experienced lots of wonderful things as a full-time musician since graduating from my cience studies in 2012. I will still tour a lot [as a concert pianist], but to be only a performer, selling the same product again and again, it has become less important for me than an overarching idea of what I can do for classical music.” KA
‘I had to make time for him’: Alfred Brendel on Kit Armstrong
‘Eu precisei arranjar tempo para ele!’
A uncharacteristic decision to take on an extraordinary pupil has brought new insights for both Alfred Brendel and Kit Armstrong. Leia a reportagem aqui.
Uma decisão incomum de aceitar um aluno extraordinário trouxe novas perspectivas tanto para Alfred Brendel quanto para Kit Armstrong.
Veja também o documentário: Set the Piano Stool on Fire
Andreas Staier é uma minhas preferências absolutas. Gosto demais de tudo o que ele gravou nas últimas décadas. Aqui, ele volta demonstrar sua notável competência. Discordo de algumas de suas escolhas estéticas, mas o conjunto é indubitavelmente uma versão de referência, uma first choice. Staier é menos poético quanto a maioria de seus pares, trazendo-nos talvez algo mais extravagante. Ele parece estar mais interessado na arquitetura e no colorido das peças do que em suas poesias, mas tenho que ouvir de novo para confirmar a impressão. Ou será que tentou ser didático? Eu ainda fico com Chorzempa (outra extravagância?), Hewitt e Pinnock (1 e 2).
Johann Sebastian Bach (1685-1750): O Cravo Bem Temperado, Livro I (Staier)
01. Prelude No. 1 in C Major, BWV 846
02. Fugue No. 1 in C Major, BWV 846
03. Prelude in C Minor, BWV 847
04. Fugue in C Minor, BWV 847
05. Prelude in C-Sharp Major, BWV 848
06. Fugue in C-Sharp Major, BWV 848
07. Prelude in C-Sharp Minor, BWV 849
08. Fugue in C-Sharp Minor, BWV 849
09. Prelude in D Major, BWV 850
10. Fugue in D Major, BWV 850
11. Prelude in D Minor, BWV 851
12. Fugue in D Minor, BWV 851
13. Prelude in E-Flat Major, BWV 852
14. Fugue in E-Flat Major, BWV 852
15. Prelude in E-Flat Minor, BWV 853
16. Fugue in D-Sharp Minor, BWV 853
17. Prelude in E Major, BWV 854
18. Fugue in E Major, BWV 854
19. Prelude in E Minor, BWV 855
20. Fugue in E Minor, BWV 855
21. Prelude in F Major, BWV 856
22. Fugue in F Major, BWV 856
23. Prelude in F Minor, BWV 857
24. Fugue in F Minor, BWV 857
25. Prelude in F-Sharp Major, BWV 858
26. Fugue in F-Sharp Major, BWV 858
27. Prelude in F-Sharp Minor, BWV 859
28. Fugue in F-Sharp Minor, BWV 859
29. Prelude in G Major, BWV 860
30. Fugue in G Major, BWV 860
31. Prelude in G Minor, BWV 861
32. Fugue in G Minor, BWV 861
33. Prelude in A-Flat Major, BWV 862
34. Fugue in A-Flat Major, BWV 862
35. Prelude in G-Sharp Minor, BWV 863
36. Fugue in G-Sharp Minor, BWV 863
37. Prelude in A Major, BWV 864
38. Fugue in A Major, BWV 864
39. Prelude in A Minor, BWV 865
40. Fugue in A Minor, BWV 865
41. Prelude in B-Flat Major, BWV 866
42. Fugue in B-Flat Major, BWV 866
43. Prelude in B-Flat Minor, BWV 867
44. Fugue in B-Flat Minor, BWV 867
45. Prelude in B Major, BWV 868
46. Fugue in B Major, BWV 868
47. Prelude in B Minor, BWV 869
48. Fugue in B Minor, BWV 869
Aos heróis alviverdes de 1993, na figura de Evair Aparecido Paulino
Jan Gossart, “Um casal de velhos” (1510-28?)
12 de junho, Dia dos Namorados! Dia de pegar fila em restaurante, pagar caro para comer fondue e tirar a barriga das floriculturas da miséria. Uma data para exaltar o amor e a paixão, o estar junto com quem se ama. E, claro, nós do PQP, românticos que somos, não deixaríamos nossos leitores na mão. Convenhamos, existe alguma maneira melhor de dizer “eu te amo” para quem faz nosso coração bater mais rápido do que mergulhar juntos nessas cinco horas e tanto de celebração luterana do evangelho? Se existe, este blogueiro desconhece.
Pensando nisso, trouxemos não só uma, mas as duas Paixões escritas por ele, ele mesmo, nosso guia, o velho Kapellmeister Johann Sebastian Bach (1685-1750), que sobreviveram de forma integral até chegar a nós: a Paixão segundo São Mateus, BWV 244 (1727) e a Paixão segundo São João, BWV 245 (1724). E em duas gravações bem distintas, em muitos sentidos: abordagem, sonoridade, época e até continente. Uma pequena mostra da genial universalidade da obra de Bach, que há séculos nos assombra e nos redime.
Nesses dois oratórios, em cinco cds, parece caber a humanidade inteira.
Franz Hals, “São Mateus”, 1625
A Paixão segundo São Mateus é a mais tocada das duas. Com libreto de Picander (pseudônimo do poeta Christian Friedrich Henrich, 1700-1764), ela foi composta a partir dos capítulos 26 e 27 do Evangelho de Mateus da Bíblia luterana. Se inicia com Jesus anunciando sua morte em Jerusalém e termina com um grande coro que chora a morte do Messias, após José de Arimateia pedir seu corpo para Pôncio Pilatos.
A gravação que trazemos é histórica: Otto Klemperer (1885-1973), um judeu alemão que fugiu do nazismo para tornar-se uma figura fundamental na música de concerto da Inglaterra, à frente de sua Philharmonia Orchestra, 1961. O time de cantores é de primeiríssima linha, e destacamos a linha de frente: o tenor Peter Pears (Evangelista), o barítono Dietrich Fischer-Dieskau (Jesus), a soprano Elisabeth Schwarzkopf, a mezzo-soprano Christa Ludwig e o tenor Nicolai Gedda.
Otto Klemperer gravando com a Philharmonia Orchestra, anos 1960
Como dizem os americanos, temos aqui Klemperer at his very best: paixão, densidade, uma paleta de cores fortes, mas com um senso de equilíbrio a nortear a arquitetura da peça. Uma sonoridade intensa, mas que ao final não deixa qualquer sensação de que algo ali foi exagero. Klemperer extrai imensa beleza da dor e do trágico, nos lembrando das inevitabilidades da vida (e da morte).
Fechar os olhos e mergulhar neste Bach klemperiano é como adentrar uma imensa catedral, em algum canto da velha Europa, e sentir o ar frio entrar em nosso peito, fazendo-nos sentir vivos. Vivos em meio aos mortos, como sempre foi e sempre há de ser — até um dia não ser mais. Como dizia o saudoso Afonso Arinos, “amor pelo passado e sentimento do futuro”.
El Greco, “São João Evangelista”, 1605
A Paixão segundo São João é um pouco anterior, composta durante o primeiro ano em que Bach foi Kapellmeister da Thomaskirche, em Leipzig. Foi estreada na Sexta-Feira Santa, 7 de abril de 1724, a alguns quarteirões dali, na Nikolaikirche. É uma obra dividida em duas partes, pensadas para serem apresentadas antes e depois de um sermão. Ela foi escrita a partir dos capítulos 18 e 19 da Bíblia luterana — o Evangelista canta as palavras exatas do texto bíblico —, combinando-os com outras fontes sacras (recitativos, coros e hinários inspirados no Evangelho de João). Bach a revisou algumas vezes ao longo da vida, e a versão que trazemos nesse post é a de 1749.
Se a Paixão segundo São Mateus parece, de alguma forma, mais “concluída”, organizada segundo uma arquitetura mais próxima do léxico bachiano, a Paixão Segundo São João tem um espírito visceral e urgente, que tinge sua beleza com algo de feroz. A introdução da obra é das coisas mais magníficas que Bach escreveu: são 36 compassos em que a orquestra já informa nosso espírito sobre a grandeza da ação que vai ser contada. O coro, então, entra como se fosse um dos dons flamejantes de Pentecostes desabando do céu, anunciando a glória divina: “Herr! Herr! Herr! Unser Herrscher, dessen Ruhm in allen Landen herrlich ist!” (“Senhor! Senhor! Senhor! Nosso Senhor, cuja glória é magnífica em todas as terras!”). João, o Evangelista, nos guia então até o enterro do salvador.
Primeira página do manuscrito da “Paixão Segundo São João”
A estupenda gravação — de abril de 1998 — que trazemos para vocês, queridos leitores e leitoras e leitores do PQP, fica por conta do regente, organista e cravista Masaaki Suzuki (1954*), a primeira à frente do grupo que criou em 1990 e dirige até hoje, no mais alto panteão da música barroca feita neste planetinha azul que gira pelo espaço: o Bach Collegium Japan.
Masaaki Suzuki e o Bach Collegium Japan no Carnegie Hall, em Nova York
Para alguém que ganha a vida escrevendo, como é o caso deste por trás destas linhas, é um certo atestado de incompetência dizer “não tenho palavras para expressar” tal ou tal coisa. Mas o Bach de Suzuki e seu Collegium é tão bom, mas tão bom, mas tão bom, que não sobra muito por dizer a este blogueiro a não ser: ouçam! Cancelem compromissos, levantem barricadas nas ruas, parem tudo e escutem algumas das coisas mais belas que a humanidade jamais produziu. É desta categoria que estamos falando. O tipo de coisa que faz a gente agradecer por estar vivo, ter um aparelho de som, viver nesse tempo e poder escutar algo tão sublime.
O intuito desse post foi exaltar, mais uma vez e sempre que possível, a genialidade de um certo Johann Sebastian Bach. Como a fibra que tece suas obras é feita do tecido mais íntimo daquilo que podemos talvez chamar de “espírito humano”, abrindo oceanos infinitos de interpretações. Percorrer Bach é, sempre, contemplar o infinito.
A escolha por juntar ambas as Paixões, além de trazer duas gigantescas obras do repertório bachiano em gravações espetaculares, também teve o intuito de evitar a comparação direta de interpretações, que por vezes pode conter o risco de limitar o nosso olhar a detalhes ou questões pontuais. Isso também tem seu interesse, mas o objetivo aqui era bem distinto: celebrar a riqueza e as possibilidades que vêm de reunir um grupo de pessoas para dar vida às obras compostas por um gênio em um tempo distante.
Ouvir Bach é como olhar as estrelas: passado, presente e futuro são um só. Ou não?
Feliz dia dos namorados!
***
12/06/1993: Evair cobrando o pênalti dos 4×0: o Jesus de Crisólia se eterniza no Dia da Paixão alviverde
PS: Esse post é dedicado aos jogadores da Sociedade Esportiva Palmeiras que, há exatos 30 anos, em 12 de junho de 1993, goleavam o rival Corinthians por 4 a 0 e colocavam fim a uma fila de quase dezessete anos sem títulos ao conquistar o Campeonato Paulista. O Dia da Paixão alviverde é um dos mais significativos da história do clube, unindo as pontas da vida de gerações de torcedores, cuja fé e memória são amparadas em uma mitologia compartilhada.
Se, convenhamos, a música é a maior invenção humana, o futebol certamente é a segunda. Em ambas temos o ser humano em tudo o que tem de mais glorioso e de mais trágico. Ao menos assim me contaram, e assim sigo contando…
Este é um bom vinil duplo / CD simples de 1975. É uma gravação um pouquinho antiquada, mas não tanto quanto a de Nicolet / Richter, que parece ter saído das cavernas quando ouvida hoje. A versão de Graf não chega ao nível daquilo que fizeram neste século, por exemplo, Pontecorvo, Oberlinger, Marc Hantaï (a minha preferida) ou mesmo Pahud e a clássica gravação de Larrieu (1967). Mas é pra lá de boa!
As Sonatas para Flauta de Bach são belíssimas. Apesar disso, a cenário é nebuloso. Algumas delas apresentam problemas de atribuição. A Sonata BWV 1020, por exemplo, é provavelmente de seu filho Carl Philipp Emanuel. Ela está ausente neste disco. Há dúvidas ainda sobre a autoria das BWV 1031 e 1033, embora seja quase certo serem mesmo de Johann Sebastian. Por outro lado, algumas delas estão entre as melhores obras de Bach, especialmente a BWV 1030, que tem o autógrafo autêntico de JS. Outra questão a respeito destas obras é sobre o uso de flautas doces ou flautas transversais. As sonatas foram compostas na época de transição entre os dois tipos de instrumento. A BWV 1030, por exemplo, foi escrita para transversal.
J. S. Bach (1685-1750): Sonatas para Flauta e Baixo Contínuo (Graf / Sax / Dahler)
Sonate H-moll Für Flöte Und Obligates Cembalo BWV 1030
1 Andante 7:28
2 Largo 3:35
3 Presto 6:22
Sonate Es-dur Für Flöte Und Obligates Cembalo BWV 1031
4 Allegro 3:40
5 Siciliano 2:05
6 Allegro 5:00
Sonate A-dur Für Flöte Und Obligates Cembalo (Ohne 1. Satz) BWV 1032
7 Largo 3:01
8 Allegro 4:49
Sonate C-dur Für Flöte Und Continuo BWV 1033
9 Andante, Allegro 4:29
10 Adagio 1:45
11 Menuetto I + II 2:54
Sonate E-moll Für Flöte Und Continuo BWV 1034
12 Adagio 3:28
13 Allegro 2:52
14 Andante 3:49
15 Allegro 5:08
Sonate E-dur Für Flöte Und Continuo BWV 1035
16 Adagio 2:33
17 Allegro 3:09
18 Siciliano 3:15
19 Allegro Assai 3:22
Celebramos mais um aniversário da Rainha, e ela não dá sinais de arrefecer o radiador. Vá lá, volta e meia a assombrosa octogenária nos dá um susto, só para daí voltar com tudo – cancelando um concerto ou outro, naturalmente, como sói acontecer desde que Martha é Martha – e nos fazer sonhar com mais uma década todinha (a nona de sua vida, e a oitava como pianista) com ela a forrar nossos tímpanos de deleite.
Já é meu bem surrado costume cantar-lhe parabéns pelo cumple e celebrar a data gaiatamente, compartilhando presentes gravados pela própria aniversariante. Marthinha segue tão ativa fazendo música quanto afastada dos estúdios, de modo que todos os novos registros de sua arte, como há já algumas décadas, provêm somente de apresentações ao vivo. Entre as adições à discografia marthinhiana lançadas desde o 5 de junho passado – as quais passo a lhes oferecer a seguir -, apenas uma foi gravada, conforme a promessa do título desta postagem, na nona década de vida da Rainha. Trata-se de um recital em duo com o violinista Renaud Capuçon, gravado no ano passado, em que ela nos serve algumas de suas especialidades: além de uma das sonatas de Schumann, que a mantém entre os poucos grandes intérpretes a prestigiá-las em
seu repertório, ela demonstra seguir afiada como sempre na realização das eletrizantes partes pianísticas da “Kreutzer” e da sonata de Franck.
Robert Alexander SCHUMANN (1810-1856) Sonata para violino e piano no. 1 em Lá menor, Op. 105
1 – Mit leidenschaftlichem Ausdruck
2 – Allegretto
3 – Lebhaft
Ludwig van BEETHOVEN (1770-1827) Sonata para violino e piano no. 9 em Lá maior, Op. 47, “Kreutzer”
4 – Adagio sostenuto – Presto
5 – Andante con variazioni
6 – Finale. Presto
César-Auguste-Jean-Guillaume-Hubert FRANCK (1822-1890) Sonata em Lá maior para violino e piano
7 – Allegretto ben moderato
8 – Allegro
9 – Recitativo – Fantasia. Ben moderato
10 – Allegretto poco mosso
Renaud Capuçon, violino
Gravado ao vivo no Grand Théâtre de Provence em Aix-en Provence (França) em 22 de abril de 2022.
Opa, postei sem texto (obs. de 17/05, 19h49). Vou escrever agora, vamos lá!
IM-PER-DÍ-VEL !!!
András Schiff é um cara curioso. Não consigo imaginar nenhum outro pianista de seu calibre indo em direção a um clavicórdio, apenas se por brincadeira. Mas Schiff é diferente. Ele disse que costuma iniciar seu dia tocando Bach num clavicórdio… Bem, e aqui temos este grande artista tocando esplendorosamente o pequeno teclado que precede o pianão. Eu gostei muito do que eu ouvi. A face historicamente informada de Schiff é autêntica e muito bonita. Fiquei muito feliz de ouvir. Como explica o longo artigo do livreto, o clavicórdio era o instrumento favorito de Bach, que supostamente achava que permitia capacidades expressivas não oferecidas pelo cravo. De fato, como Schiff exemplifica nesta gravação, o clavicórdio oferece ao executante tanto sutis mudanças dinâmicas quanto delicado vibrato, feito ao mover a tecla depois de tocada. Schiff toca uma réplica de um clavicórdio Specken de 1743, construído por Joris Potvlieghe em 2003. Se no piano moderno Schiff nos traz Bach em toda a sua majestade, no clavicórdio ele convida o público a escutar o próprio Bach, como se estivesse sentado na mesma sala, ou ‘num oásis tranquilo’, como Schiff coloca em suas anotações. Minha única reclamação é a de que ele torna difícil para mim voltar a ouvir essas obras no piano moderno, ou pelo menos no piano, com qualquer outro músico.
Johann Sebastian Bach (1685-1750): Clavichord — Capriccio Sopra La Lontananza Del Fratello Dilettissimo / 15 Invenções / 4 Duetos / 15 Sinfonias / Ricercare a 3 da Oferenda Musical / Fantasia e Fuga Cromática (András Schiff, Clavicórdio)
Capriccio Sopra La Lontananza Del Fratello Dilettissimo BWV 992
1-1 Arioso. Adagio – Ist Eine Schmeichelung Der Freunde, Um Denselben Von Der Reise Abzuhalten. = Is A Cajoling By His Friends To Deter Him From His Journey. 1:31
1-2 Ist Eine Vorstellung Unterschiedlicher Casuum, Die Ihm In Der Fremde Könnten Vorfallen. = Is A Representation Of Various Calamities That Might Befall Him In Foreign Parts. 1:12
1-3 Adagiosissimo – Ist Ein Allgemeines Lamento Der Freunde. = Is A General Lament Of His Friends. 2:05
1-4 Allhier Kommen Die Freunde (Weil Sie Doch Sehen, Dass Es Anders Nicht Sein Kann) Und Nehmen Abschied. = Here Come The Friends (As They See That It Cannot Be Otherwise) And Say Farewell To Him. 0:36
1-5 Aria Di Postiglione. Adagio Poco 1:36
1-6 Fuga All’ Imitatione Di Posta 2:27
Inventions BWV 772 – 786
1-7 No. 1 In C Major 1:28
1-8 No. 2 In c Minor 1:50
1-9 No. 3 In D Major 1:14
1-10 No. 4 In d Minor 0:45
1-11 No. 5 In E-flat Major 1:24
1-12 No. 6 In E Major 3:24
1-13 No. 7 In e Minor 1:41
1-14 No. 8 In F Major 0:56
1-15 No. 9 In f Minor 1:45
1-16 No. 10 In G Major 0:58
1-17 No. 11 In g Minor 0:59
1-18 No. 12 In A Major 1:12
1-19 No. 13 In a Minor 1:22
1-20 No. 14 In B-flat Major 1:20
1-21 No. 15 In b Minor 1:10
Four Duets BWV 802 – 805
1-22 No. 1 In e Minor 3:02
1-23 No. 2 In F Major 2:58
1-24 No. 3 In G Major 3:08
1-25 No. 4 In a Minor 2:10
1-26 Ricercar À 3 From “Das Musikalische Opfer” BWV 1079 5:50
Sinfonias BWV 787 – 801
2-1 No. 1 In C Major 1:08
2-2 No. 2 In c Minor 2:07
2-3 No. 3 In D Major 1:13
2-4 No. 4 In d Minor 1:45
2-5 No. 5 In E-flat Major 2:07
2-6 No. 6 In E Major 1:20
2-7 No. 7 In e Minor 2:06
2-8 No. 8 In F Major 0:59
2-9 No. 9 In f Minor 3:03
2-10 No. 10 In G Major 1:05
2-11 No. 11 In g Minor 1:55
2-12 No. 12 In A Major 1:29
2-13 No. 13 In a Minor 1:41
2-14 No. 14 In B-flat Major 1:18
2-15 No. 15 In b Minor 1:29
Mahan Esfahani é um esplêndido e original cravista. Ele não se preocupa em ser o perfeitinho limpinho engomadinho, mas tem uma percepção musical toda própria. Às vezes parece atropelado ou atabalhoado. Em suas declarações públicas, e talvez um pouco mais moderadamente em suas apresentações reais, Esfahani declarou independência de qualquer aplicação puritana ou dogmática da prática histórica da performance. Nesta gravação, dedicada às duas obras-chave do Clavierübung II de Bach – o Concerto Italiano e a Abertura em Estilo Francês – ele explicita ainda mais essa independência, ampliando sobremaneira a capacidade dinâmica e expressiva do cravo. Seu instrumento particular foi feito em 2018 na oficina de Jukka Ollikka em Praga, uma peça de mão dupla com registros de 16 pés e 4 pés para cores extras, bem como uma placa de ressonância composta de fibra de carbono. Produz sonoridades de órgão, especialmente em seus alcances mais baixos, e Esfahani explora toda a sua variedade, incluindo algumas escolhas de registro curiosas e até excêntricas. A faixa dinâmica expandida do instrumento é particularmente bem-vinda nos contrastes solo-conjunto do Concerto italiano e é particularmente eficaz na ilusão de um instrumento de sopro solo do segundo movimento. As possibilidades coloridas expandidas são melhor ouvidas na ampla coleção de danças da Abertura, que explora uma gama de escolhas de registro eficazes. Mas Esfahani não está apenas exibindo um instrumento. Sua ornamentação e articulação são inventivas e envolventes, e enviarão os ouvintes atentos a suas memórias de outros executantes, enquanto o ouvido tenta descobrir exatamente o que ele está fazendo. Esfahani tem um toque nervoso e hiperatento, com figuras rítmicas afiadas e precisas. Pode ser exaustivo, mas o álbum é melhor ouvido trabalho por trabalho, e não como um todo. Mas certifique-se de reservar atenção especial para o Capriccio em si bemol ‘na partida de seu amado irmão’, um trabalho inicial e às vezes descartado como ingênuo e não do melhor Bach. Esfahani o leva a sério. A fuga final é a pièce de résistance, transformando a despedida em uma selvagem declaração de independência de tal forma que a própria gravação se torna não apenas uma coleção de obras de Bach, mas um manifesto do intérprete.
Johann Sebastian Bach (1685-1750): Concerto Italiano / Abertura Francesa / Duetos / Caprichos (Esfahani)
Ouvertüre nach Französischer Art ‘French Overture’ BWV831[33’44]
4 Ouverture[12’53]
5 Courante[2’06]
6 Gavotte I[1’15]
7 Gavotte II[1’13]
8 Gavotte I da capo[0’42]
9 Passepied I[1’02]
10 Passepied II[0’47]
11 Passepied I da capo[0’35]
12 Sarabande[3’55]
13 Bourrée I[1’07]
14 Bourrée II[1’23]
15 Bourrée I da capo[0’45]
16 Gigue[3’01]
17 Echo[3’00]
18 Duet in E minor BWV802[2’43]
19 Duet in F major BWV803[3’04]
20 Duet in G major BWV804[2’37]
21 Duet in A minor BWV805[2’38]
Capriccio in B flat major ‘on the departure of his beloved brother’ BWV992[10’09]
22 Ist eine Schmeichelung der Freunde, um denselben von seiner Reise abzuhalten: Arioso (Adagio)[2’08]
23 Ist eine Vorstellung unterschiedlicher Casuum, die ihm in der Fremde könnten vorfallen[1’23]
24 Ist ein allgemeines Lamento der Freunde: Adagissimo[2’26]
25 Allhier kommen die Freunde (weil sie doch sehen, dass es anders nicht sein kann) und nehmen Abschied[0’42]
26 Aria di postiglione: Allegro poco[1’03]
27 Fuga all’imitazione della cornetta di postiglione[2’27]
28 Capriccio in E major ‘in honorem Johann Christoph Bachii Ohrdrufiensis’ BWV993[6’07]
Neste interessante CD, Marc-André Hamelin interpreta gente como ele, ou seja, compositores-pianistas. OK, quase todos são, mas Hamelin se dedica aos grandíssimos virtuoses que, de vez em quando, achatam suas bundas numa cadeira para compor. O resultado é uma série de obras onde, em sua maioria, são exigidas habilidades demoníacas dos pianistas, o que não é problema para Hamelin, um pianista que parece ter e controlar uns 36 dedos sem se confundir. Há umas coisas decididamente bobas, outras lindas e outras em que a gente fica pensando: como ele consegue tocar essa coisa? Bem coloquemos as coisas em seus devidos lugares: o pianista canadense Marc-Andre Hamelin é um fenômeno, tendo uma série de gravações de tirar o fôlego. Ele se estabeleceu mais ou menos como o maior virtuose do planeta, e este disco só irá aumentar essa reputação — isto não significa que ele seja o melhor, claro. Hamelin faz parte de uma longa linhagem de compositores-pianistas. Alguns compuseram obras de dificuldade sobre-humana para exibir suas próprias proezas e fazer seus colegas se acovardarem, outros o fizeram para se apresentaram em público, ou seja, por razões financeiras (Rachmaninov e Medtner são bons exemplos). Este disco contém uma amostra representativa destes trabalhos, muitos dos quais não foram gravados anteriormente ou pelo menos são difíceis de encontrar. O CD também traz músicas de dois “gênios reclusos”: Charles-Valentin Alkan e Kaikhosru Shapurji Sorabji, ambos homens que produziram obras de desafios técnicos diabólicos enquanto se isolavam de quase todo contato humano e musical.
1 Toccata In G Flat Major Op 13
Composed By – Leopold Godowsky
3:18
2 Poème Tragique Op 34
Composed By – Alexander Scriabin*
3:13
3 Etude No 9 (D’après Rossini)
Composed By – Marc-André Hamelin
3:48
4 Etude No 10 (D’après Chopin) (‘Pour Les Idées Noires’) 2:01
5 Schübler Chorale No 6 (transcription)
Composed By – Bach*
Transcription By – Samuel Feinberg*
3:29
6 Andante From Symphony No 94 (transcription)
Composed By – Haydn*
Transcription By – Charles-Valentin Alkan
5:48
Esquisses Op 63
Composed By – Charles-Valentin Alkan
7 No 46: Le Premier Billet Doux 1:05
8 No 47: Scherzetto 2:11
9 Fantasia Nach J S Bach
Composed By – Ferruccio Busoni
13:37
10 Moment Musical In E Flat Minor Op 16 No 2 (Revised Version 1940)
Composed By – Sergei Rachmaninov*
2:45
11 Etude-Tableau In E Flat Op 33 No 4 (Originally No 7)
Composed By – Sergei Rachmaninov*
1:37
Deux Poèmes Op 71
Composed By – Alexander Scriabin*
12 No 1: Fantastique 1:18
13 No 2: En Rêvant, Avec Une Grande Douceur 1:51
14 Berceuse Op 19a
Composed By – Samuel Feinberg*
4:53
15 Improvisation No 1 In B Flat Minor Op 31 No 1
Composed By – Nikolai Medtner
7:02
16 Pastiche On The Hindu Merchant’s Song From ‘Sadko’ By Rimsky-Korsakov
Composed By – Kaikhosru Shapurji Sorabji
4:05
17 Prelude And Fugue (Etude No 12)
Composed By – Marc-André Hamelin
Soli Deo Glori – era isso o que Bach escrevia ao fim de cada uma de suas partituras, fosse a música sacra ou não. Fé e religiosidade permeia toda a sua obra e isso transparece para nós todos, mesmo aqueles entre nós que não professam alguma tipo de crença.
Nesses dias que antecedem a Semana Santa temos uma oportunidade de experimentar algum tipo de exercício de espiritualidade, de nos aproximarmos um pouco deste lado mais misterioso da vida, pois que nem só de pão vive o homem.
Julian Prégardien, o evangelista
Eu gosto desse período e faço isso de algumas formas e ouvir esse tipo de música me leva a isso, a acreditar que podemos ainda nos elevar. Este ano estou um pouco mais animado e sinto tanto no trabalho como em minhas outras realizações algumas boas razões para agradecer ao Bom Deus, mesmo que sempre haja pelo que implorar.
O mistério da Paixão de Cristo é grande, mas a música de Bach nos ajuda a alguns vislumbres. A mensagem hoje é de esperança, pois que depois do sacrifício há a ressurreição. Ainda mais sendo a música assim tão boa, como a da gravação.
O grupo francês Pygmalion e seu jovem regente Raphaël Pichon tem mostrado como ainda há o que dizer sobre estas obras usando o estilo de instrumentos e práticas de época, como mostram seus inúmeros prêmios e excelentes críticas. Tudo é excelente, como no caso de Evangelista Julian Prégardien, filho de outro Prégardien, que cantou em tantas outras memoráveis gravações. Sinal de renovação e que você também tenha a oportunidade de ouvir tantas belezas e refletir sobre o que é menos óbvio na vida.
The breath of the spiritʼ Bach and Pygmalion: the story of a passion, linking the genius of the Thomaskantor to a reflection on inner drama and constantly renewed vocality. This Matthäus Passion marks a major stage in this fifteen-year companionship and testifies to the culmination of their work on Bach, characterised by its precision and humility. Read through the prism of a tragedy in five acts, at once intimate and theatrical, human and metaphysical, the Passion is revealed here in a new light: as a deeply moving and universal epic. Harmonia Mundi
With its glowing inner vitality and penetrating observations, this is a Passion that makes a very definite statement about what this work can communicate in our times. Gramophone, abril de 2022
Traduzi um pedaço de uma resposta dada por Raphaël Pichon em uma entrevista que consta no libreto: A história da Paixão de Cristo se apresenta até hoje como um drama vivo e um dilema moral de relevância universal, no qual — qualquer que seja nossa espiritualidade ou cultura — todos nós somos confrontados com a nossa própria mortalidade, nossa própria busca por respostas. Todos nós compartilhamos sua humanidade. A imensa genialidade de Bach foi sair completamente da liturgia formal, colocando-nos bem dentro do drama: nos tornamos atores, fazemos parte da ação, a sentimos tanto em nossa sensibilidade quanto fisicamente. Nós atravessamos um drama que é acima de tudo humano: injustiça, traição, amor, sacrifício, perdão, remorso, compaixão, pena… De maneira sem precedentes, Bach comunica e nos faz sentir a fragilidade e as falhas da humanidade e descreve um mundo cheio de erros, onde amor e fé são as únicas respostas. Na busca de desafiar e consolar a consciência humana, ele nos oferece um genuíno ‘bálsamo para a alma”, unversal e atemporal.
Egon Petri (1881-1962) foi um pianista de cidadania holandesa nascido na Alemanha. Dono de uma técnica refinada, é alguém ainda por ser propriamente redescoberto pelos ouvintes do século XXI. Seu nome não é lembrado e louvado com a atenção que merece, talvez justamente por encarnar uma espécie de forma de tocar que tem algo de arcaica, com raízes profundas no século XIX.
Petri foi um dos discípulos mais dedicados do lendário pianista, compositor e professor italiano Ferruccio Busoni (1866-1924), e um ardoroso defensor de sua música, por toda a vida. Petri acompanhou Busoni à Suíça durante a Primeira Guerra Mundial e posteriormente seguiu o mestre para Berlim, onde também deu aulas. Entre seus alunos estavam Vitya Vronsky (do duo Vronsky & Babin), Gunnar Johansen e o comediante e pianista dinamarquês Victor Borge.
Em 1927 ele se estabeleceu em Zakopane, na Polônia, dedicando-se ao ensino e a gravações. Ele viveu lá até 1939, quando escapou às pressas literalmente na véspera da invasão alemã, em setembro daquele ano. Petri então passou a dar aulas na Cornell University, em Ithaca, e mais tarde no Mills College, em Oakland. Ele se naturalizaria americano nos anos 50, e teve entre seus pupilos em solo americano o brilhante pianista inglês John Ogdon (1937-89), aquele que dividiu o primeiro lugar do Concurso Tchaikovsky com Vladimir Ashkenazy em 1962 (as finais deste concurso foram lançadas em disco e logo mais vão pintar aqui no PQP).
As gravações presentes neste disco duplo são deste trágico período, em que Petri teve que cruzar um oceano para sobreviver, realizadas entre 1938 e 1942. São testemunhos sonoros de uma época e de uma filosofia musical e pianística.
Duas curiosidades desimportantes sobre Busoni. A primeira é que o nome completo dele é, no mínimo, pomposo: Dante Michelangelo Benvenuto Ferruccio Busoni. A segunda é que ele está enterrado no Friedhof Schöneberg III, também conhecido como Friedhof Stubenrauchstraße, mesmo endereço em que também desfrutam o repouso eterno a atriz Marlene Dietrich e o fotógrafo Helmut Newton.
1 – SCHUBERT-TAUSIG: Andante & Variations 2 a 25 – CHOPIN: Preludes, op. 28 26 a 28 – FRANCK: Prélude, choral et fugue
CD 2
1 – GLUCK-SGAMBATI: Mélodie
2 – J. S. BACH-PETRI: Menuet 3 – J. S. BACH-BUSONI: Ich ruf’ zu dir, Herr Jesu Christ
4 – J. S. BACH-BUSONI: In dir ist Freude
5 – J. S. BACH-BUSONI: Wachet auf, ruft uns die Stimme
6 – J. S. BACH-BUSONI: Nun freut euch, lieben Christen gemein
7 – BUSONI: Fantasia after J. S. Bach
8 – BUSONI: Serenade (Mozart, Don Giovanni)
9 – BUSONI: An die Jugend, no. 3
10 – BUSONI: Sonatina no. 3
11 – BUSONI: Sonatina no. 6
12 – BUSONI: Indianisches Tagebuch
13 – BUSONI: Albumblatt no. 3
14 – BUSONI: Elegie no. 2
Como perguntou o querido René Denon aos demais pqpianos hoje: Deus faz aniversário? Uma boa questão, e a resposta varia de acordo com a religião de cada um. Para nós, que somos devotos de Johann Sebastian Bach, a resposta é sim, e é justamente hoje, 21 de março, que comemoramos a chegada do filho mais notório de Eisenach neste planetinha azul…
Dando prosseguimento às comemorações aqui no blog, um disquinho algo curioso: os concertos para 2, 3 e 4 pianos de Bach tocado por três grandes nomes da música alemã – Christoph Eschenbach (que também rege a Filarmônica de Hamburgo), Justus Frantz e o jovem talento Gerhard Oppitz – e um, digamos, pianista bissexto. Mas não um qualquer! Trata-se de Helmut Schmidt, que, na época dessas gravações (fevereiro de 1985), era “apenas” membro do parlamento e ex-chanceler da Alemanha, sucedendo ninguém menos do que Willy Brandt.
E a verdade é que Schmidt não faz feio (reforçando uma opinião já esboçada quando de sua gravação dos concertos de Mozart, ao lado de parte da turma desse disco). São gravações simpáticas, leves, que jogam luz sobre um repertório que não está entre os mais tocados do velho mestre. Um disco despretensioso, que não decepciona.
O encarte traz um trecho de um discurso proferido por Schmidt em Hamburgo por ocasião do 300º aniversário de Bach:
“Há dez anos, durante uma visita à Feira de Leipzig, nós escutamos uma cantata de Bach executada na Thomaskirche. A igreja estava lotada até o último assento. Nós ficamos calmamente observando aquele lugar. Nosso olhar caiu então sobre uma longa rosa vermelha caída sobre o chão. Um exame mais detido mostrou que ela repousava sobre uma placa memorial. Sua simplicidade, sem adornos, trazia o nome e as datas de Johann Sebastian Bach. Eu fui tomado por uma indescritível sensação. Ali em sua Thomaskirche, ouvindo sua música, eu tomei consciência de tudo que, ao longo de toda minha vida, me fez ser grato pela música de Bach.
A música é um fenômeno cultural internacional, trans-nacional. Viver sem música – esse poderia ser o destino de uma geração que afunda em meio a um mar de ruídos. A cultura musical é algo que deve ser sempre preservado e recriado. Devemos, por isso, assegurar que se cante e que se toque música em nossos lares e escolas, para que as novas gerações aprendam a encontrar a alegria que a música oferece a elas.”
Alles Gute zum Geburtstag, Herr Bach!
Karlheinz
Helmut Schmidt e sua esposa Loki visitando Justus Frantz