Viva a Rainha! – As Idades de Marthinha: a Segunda Década (1951-1960) [Martha Argerich, 80 anos]


Eis a segunda de oito partes da homenagem aos oitenta anos de Martha Argerich – publicada por ocasião do aniversário da deusa, em 2021, e ampliada e reformulada em 2022, para uniformizar o estilo com o das publicações subsequentes e para completar sua discografia.


Logo que ficou ficou óbvio que não haveria professores no Hemisfério Sul capazes de darem conta da pequena María Martha (porque eu tinha HOJE anos de idade quando descobri que Martha também é María), começaram as tratativas para que a niña precoz fosse estudar na Europa. A escolha de María era clara: queria ir para Viena estudar com Friedrich Gulda, um pianista brilhante que já granjeara fama de excêntrico e anticonvencional, e cujo antiacademicismo mui provocativo o tornava o mais improvável dos professores.

E isso tudo antes de adotar o visual que, a partir dos anos 70, fê-lo ser mimosamente comparado a um “cafetão sérvio”.

Como os Argerich não nadavam em recursos, a mãe de María resolveu tomar providências. A (assim a chamemos) mui assertiva Juanita, com quem Martha sempre teria uma relação complicada, resolveu as coisas com ninguém menos que Juan Domingo Perón. Nas palavras da filha:

Eu tinha pouco mais de 12 anos, tinha tocado no Teatro Colón e o Perón tinha me convidado para um encontro na residência presidencial. Mamãe perguntou se ela poderia vir comigo, e eles disseram que sim, é claro. Eu não era muito peronista; lembro-me que estava sempre colando pedacinhos de papel em todos os lugares que diziam “Balbín-Frondizi” [antiperonistas ferrenhos e candidatos da oposição às eleições de 1951]. Perón nos recebeu e me perguntou: “E para onde você quer ir, ñatita?” E eu queria ir para Viena, estudar com Friedrich Gulda. Ele gostou de eu não querer ir para os Estados Unidos. O mais engraçado foi que minha mãe, para bajulá-lo, disse a ele que eu adoraria fazer um show na UES [União dos Alunos do Ensino Médio]. E devo ter feito uma cara um tanto reveladora de que não gostei da ideia, pois o Perón começou a concordar com mamãe, dizendo “claro senhora, vamos organizar”, enquanto piscava para mim e, por baixo da mesa, fazia com um dedo que não. Ele estava contendo mamãe e isso me acalmou – percebeu que eu não queria. Fantástico, não é? E ele deu um emprego ao meu pai. Ele o nomeou adido econômico em Viena. E disse à mamãe que a achava também muito inteligente, empreendedora e capaz, e que conseguiu outro cargo para ela na embaixada.

Naqueles tempos, o que Perón mandava, o governo fazia: no ano seguinte, os Argerich deixariam Buenos Aires com mala e cuias, rumo a Viena e ao encontro de Gulda.

Martha e Gulda em Viena, sob o olhar atento do filho mais ilustre de Aracati, o grande Jacques Klein (à esquerda). Foto do acervo de Nelson Freire, disponibilizada pelo Instituto Piano Brasileiro.

Foram apenas dezoito meses de estudo, durante os quais Martha foi a única aluna de Gulda, um mestre apenas onze anos mais velho que ela e de ademais pouquíssimos alunos. Ainda que viesse a receber lições de outros pianistas (sobre os quais o colega Pleyel gentilmente versou no primeiro comentário dessa postagem), Gulda foi a mais decisiva influência na carreira de nossa Rainha. Ela, que sempre o idolatrou,  frequentemente o cita em suas entrevistas. O austríaco, no entanto, não se impressionou com o estrelato posterior de sua aluna, aparentemente por achá-lo convencional demais para seus heterodoxos parâmetros. E a vida pessoal de Martha, também, parecia bater recordes mesmo para os caóticos padrões guldanianos: ao encontrá-la num camarim, décadas depois, depois de um recital, Gulda – que ficaria notório por divulgar a notícia de sua morte um ano antes de morrer de fato, e que intitulou seu concerto seguinte “Festa da Ressurreição” – tascou:

O que fizeste da tua vida???

O que fazer da vida é a preocupação de todas as ex-crianças prodígio, e Martha, egressa dos estudos com Gulda, não sabia o que fazer da. Estava longe da bajulação que tinha na Argentina, mas ainda controlada a cabresto pela mãe, e no coração dum continente onde saíam enxames de pianistas promissores debaixo de qualquer pedra que se levantasse. A saída mais óbvia eram as láureas em concursos de piano, e ela conseguiu duas em menos de um mês, em 1957: no Concurso Internacional Busoni em Bolzano (Itália), e no Concurso Internacional de Genebra (Suíça), o qual Gulda também vencera com 16 anos.

Enquanto botava as manguinhas de fora para morar sozinha, Martha excursionava extensamente pelo continente e, antes dos vinte anos, fez sua estreia discográfica oficial pela prestigiosa Deutsche Grammophon, ostentando na capa os cabelos cacheados e o olhar tristonho típicos daquela década:

MARTHA ARGERICH – PIANO

Fryderyk Francyszek CHOPIN (1810-1849)
Scherzo para piano no. 3 em Dó sustenido menor, Op.
39
1 – Presto con fuoco

Johannes BRAHMS (1833-1897)
Duas rapsódias para piano, Op. 79
2 – Agitato, em Si menor
3 – Molto passionato, ma non troppo allegro, em Sol menor

Sergey Sergeyevich PROKOFIEV (1891-1953)
Toccata para piano em Ré menor, Op. 11
4 – Allegro marcato

Joseph Maurice RAVEL (1875-1937)
Jeux d’eau, para piano, M. 30
5 – Très doux

Fryderyk CHOPIN
Barcarola em Fá sustenido maior para piano, Op. 60
6 – Allegretto

Franz LISZT
Rapsódia Húngara no. 6 em Ré bemol maior, para piano, S. 244
7 – Introduction (Tempo giusto – Presto) – Lassan (Andante) – Friska (Allegro)

Gravado em Hannover, Alemanha Ocidental, de 4 a 8 de julho de 1960

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A relação da promissora jovem com seu instrumento, enfim, sempre tivera profundas rachaduras e muito poucas alegrias. Num dos trechos mais tocantes do documentário assinado por sua filha, Stéphanie, Martha está a olhar álbuns da infância e estimar sua idade nas fotos pela presença do sorriso – sinal de que o piano ainda não entrara em sua vida.

Esse difícil período de transição entre ex-criança prodígio e superestrela do teclado será ilustrado pelas gravações seguintes, que mostram nossa Rainha como uma artista consumada antes mesmo de completar 20 anos. Em diversos registros ao vivo de qualidade variável, principalmente para rádios alemãs, são óbvias as qualidades que até hoje, mais de sessenta anos depois, nos deixam boquiabertos. Perceba-se também que, com a notável exceção de Mozart, cujo espaço diminuiria um tanto em seu repertório na maturidade, já estava escalado o time de compositores a que ela mais se dedicaria: Beethoven; Chopin e Schumann; Prokofiev e Ravel.

Como o sucesso universal de Martha, sobretudo após o triunfo do Concurso Internacional Chopin de 1965, reavivou o interesse em suas gravações antigas, elas acabaram relançadas num sem-número de discos, sempre com os mesmos fonogramas, em ordens sortidas. Para facilitar a vida dos leitores-ouvintes, resolvi fazer uma compilação das melhores fontes disponíveis e organizá-las em ordem cronológica, com a exceção de dois álbuns com orquestra, que virão na sequência

Fryderyk CHOPIN
Dos Doze estudos para piano, Op. 10:
1 – No. 1 em Dó maior
Gravado em 1955 em Buenos Aires

Franz LISZT
Dos Três estudos de concerto, S. 144:
2 – No. 2: La Leggerezza
Gravado ao vivo em Bolzano, Itália, agosto de 1957, durante o Concurso Internacional Busoni

Sergey PROKOFIEV
Toccata para piano em Ré menor, Op. 11
3 – Allegro marcato
Gravada ao vivo em Bolzano, Itália, agosto de 1957, durante o Concurso Internacional Busoni

Franz LISZT
Rapsódia Húngara no. 6 em Ré bemol maior, para piano, S. 244
4 – Introduction (Tempo giusto – Presto) – Lassan (Andante) – Friska (Allegro)
Gravada ao vivo em Genebra, Suíça, setembro de 1957, durante o Concurso Internacional de Genebra

Robert Alexander SCHUMANN (1810-1956)
Do Concerto para piano e orquestra em Lá menor, Op. 54:
5 – Allegro affettuoso
Orchestre de la Suisse Romande
Samuel Baud-Bovy, regência
Gravado ao vivo em Genebra, Suíça, setembro de 1957, durante o Concurso Internacional de Genebra

Fryderyk CHOPIN
Balada para piano no. 1 em Sol menor, Op. 23
6 – Largo – Lento – Moderato – Presto in coda
Gravada em Berlim Ocidental, janeiro de 1959

Wolfgang Amadeus MOZART (1756-1791)
Sonata para piano no. 18 em Ré maior, K. 576
7 – Allegro
8 –  Andante cantabile
9 – Allegretto grazioso
Gravada em Colônia, Alemanha Ocidental, janeiro de 1960

Fryderyk CHOPIN
Balada para piano no. 4 em Fá menor, Op. 52
10 – Andante con moto
Gravada em Colônia, Alemanha Ocidental, janeiro de 1960

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Joseph Maurice RAVEL (1875-1937)
Gaspard de la Nuit, três poemas para piano após Aloysius Bertrand, M. 55
1 – Ondine
2 – Le Gibet
3 – Scarbo

Sergey PROKOFIEV
Toccata para piano em Ré menor, Op. 11
4 – Allegro marcato

Sonata para piano no. 3 em Lá menor, Op. 28
5 – Allegro tempestoso – Moderato – Allegro tempestoso – Moderato – Più lento – Più animato – Allegro I – Poco più mosso

Sonata para piano no. 7 em Si bemol maior, Op. 83
6 – Allegro inquieto
7 – Andante caloroso
8 – Precipitato

Gravados em Hamburgo, Alemanha Ocidental, março de 1960

Wolfgang Amadeus MOZART
Sonata para piano no. 8 em Lá menor, K. 310
9 – Allegro maestoso
10 – Andante cantabile con espressione
11 – Presto
Gravada em Munique, Alemanha Ocidental, abril de 1960

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Wolfgang Amadeus MOZART
Sonata para piano no. 13 em Si bemol maior, K. 333, “Linz”
1 – Allegro
2 – Andante cantabile
3 – Allegretto grazioso
Gravada em Munique, Alemanha Ocidental, abril de 1960

Ludwig van BEETHOVEN (1770-1827)
Das Três sonatas para piano, Op. 10: 
No. 3 em Ré maior
4 – Presto
5 – Largo e Mesto
6 – Menuetto. Allegro
7 – Rondo. Allegro

Maurice RAVEL
Sonatina para piano em Fá sustenido menor, M. 40
8 – Modéré
9 – Mouvement de Menuet
10 – Animé

Robert SCHUMANN
Toccata em Dó maior para piano, Op. 7
11 – Allegro

Wolfgang Amadeus MOZART
Sonata para piano no. 18 em Ré maior, K. 576
12 – Allegro
13 –  Andante cantabile
14 – Allegretto grazioso

Gravadas em Colônia, Alemanha Ocidental, setembro de 1960

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Completam a discografia da segunda década de Marthinha esses dois álbuns com gravações ao vivo, feitas durante transmissões radiofônicas. O primeiro é notório tanto por conter os mais antigos registros de nossa deusa tocando dois de seus mais famosos cavalos de batalha- o Concerto em Sol de Ravel e o Mi menor de Chopin – quanto por marcar a primeira parceria dela com seu amigo de toda a vida e futuro marido, Charles Dutoit, que a acompanha no Ravel. O segundo, feito com orquestras alemãs, alinha o concerto de Ravel com o no. 21 de Mozart, que Martha tocou muito em sua juventude e, parece, abandonou na maturidade.

Maurice RAVEL
Concerto em Sol maior para piano e orquestra, M. 83
1 – Allegramente
2 – Allegro assai
3 – Presto
Orchestre de Chambre de Lausanne
Charles Dutoit, regência

Gravado em Lausanne, Suíça, em 19 de janeiro de 1959

Fryderyk CHOPIN
Concerto para piano e orquestra no. 1 em Mi menor, Op. 11
4 – Allegro maestoso
5 – Romanze – Larghetto
6 – Rondo – Vivace
Orchestre de la Suisse Romande
Louis Martin, regência

Gravado em Genebra, Suíça, em 25 de setembro de 1959

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Maurice RAVEL
1 – 3 Concerto em Sol maior para piano e orquestra, M. 83
Südwestfunk-Sinfonieorchester Baden-Baden
Ernest Bour, regência

Gravado em Baden-Baden, Alemanha Ocidental, em 4 de fevereiro de 1960

Wolfgang Amadeus MOZART
Concerto para piano e orquestra no. 21 em Dó maior, K. 467
4 – Allegro maestoso
5 – Andante
6 – Allegro vivace assai
Kölner Rundfunk-Sinfonieorchester
Peter Maag, regência

Gravado em Colônia, Alemanha Ocidental, em 5 de setembro de 1960

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Unsere Königin spricht Deutsch

Vassily

3 comments / Add your comment below

  1. Apenas para somar algumas observações sobre essa fase de aprendizados…

    “Em 1955 viajou para a Europa, tendo prosseguido os seus estudos em Londres, em Viena e na Suíça. Foi aluna de Bruno Seidlhofer, Friedrich Gulda, Nikita Magaloff, Madeleine Lipatti e Stefan Askenase.”
    https://gulbenkian.pt/musica/biography/martha-argerich2/

    Gulda realmente não fez fama como professor de piano. Creio que dar aulas jamais foi sua principal fonte de renda. Provavelmente, seu tipo de aula era mais sobre aspectos de interpretação, conselhos sobre obras e repertório… Aliás, ela também devem ter tido conselhos muito bons com Nikita Magaloff.

    Outro tipo de professor é aquele(a) que se concentra nos aspectos técnicos: dedilhado, oitavas, escalas… Nesse sentido, creio que os principais tenham sido Scaramuzza, que você mencionou na postagem da infância, e Bruno Seidlhofer. Este último, em Viena, talvez desse aulas pra Martha nos dias em que Gulda viajava pra tocar, ou algo do tipo. O que sabemos é que Seidlhofer teve uma longa carreira de professor em Viena, com alunos como N. Freire, R. Buchbinder e o próprio Gulda.

    É inegável também que Martha costuma citar Gulda em 1º lugar. E sobre Maria Curcio, há uma entrevista no Instituto do Piano Brasileiro em que o pianista e compositor Amaral Vieira diz que ela era uma fraude. Vá saber, mas é a opinião dele.

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