Viva a Rainha! – As Idades de Marthinha, parte II (1951-1961) [Martha Argerich, 80 anos]


Em homenagem aos oitenta anos da Rainha, adicionaremos mais uma camada à sua já extensa discografia aqui no PQP Bach. Eis a segunda de oito partes:


Logo que ficou ficou óbvio que não haveria professores no Hemisfério Sul capazes de darem conta da pequena María Martha (porque eu tinha HOJE anos de idade quando descobri que Martha também é María), começaram as tratativas para que a niña precoz fosse estudar na Europa. A escolha de María era clara: queria ir para Viena estudar com Friedrich Gulda, um pianista brilhante que já granjeara fama de excêntrico e anticonvencional, e cujo antiacademicismo mui provocativo o tornava o mais improvável dos professores.

E isso tudo antes de adotar o visual que, a partir dos anos 70, fê-lo ser mimosamente comparado a um “cafetão sérvio”.

Como os Argerich não nadavam em recursos, a mãe de María resolveu tomar providências. A (assim a chamemos) mui assertiva Juanita, com quem Martha sempre teria uma relação complicada, resolveu as coisas com ninguém menos que Juan Domingo Perón. Nas palavras da filha:

Eu tinha pouco mais de 12 anos, tinha tocado no Teatro Colón e o Perón tinha me convidado para um encontro na residência presidencial. Mamãe perguntou se ela poderia vir comigo, e eles disseram que sim, é claro. Eu não era muito peronista; lembro-me que estava sempre colando pedacinhos de papel em todos os lugares que diziam “Balbín-Frondizi” [antiperonistas ferrenhos e candidatos da oposição às eleições de 1951]. Perón nos recebeu e me perguntou: “E para onde você quer ir, ñatita?” E eu queria ir para Viena, estudar com Friedrich Gulda. Ele gostou de eu não querer ir para os Estados Unidos. O mais engraçado foi que minha mãe, para bajulá-lo, disse a ele que eu adoraria fazer um show na UES [União dos Alunos do Ensino Médio]. E devo ter feito uma cara um tanto reveladora de que não gostei da ideia, pois o Perón começou a concordar com mamãe, dizendo “claro senhora, vamos organizar”, enquanto piscava para mim e, por baixo da mesa, fazia com um dedo que não. Ele estava contendo mamãe e isso me acalmou – percebeu que eu não queria. Fantástico, não é? E ele deu um emprego ao meu pai. Ele o nomeou adido econômico em Viena. E disse à mamãe que a achava também muito inteligente, empreendedora e capaz, e que conseguiu outro cargo para ela na embaixada.

Naqueles tempos, o que Perón mandava, o governo fazia: no ano seguinte, os Argerich deixariam Buenos Aires com mala e cuias, rumo a Viena e ao encontro de Gulda.

Martha e Gulda em Viena, sob o olhar atendo do filho mais ilustre de Aracati, o grande Jacques Klein (à esquerda). Foto do acervo de Nelson Freire, disponibilizada pelo Instituto Piano Brasileiro.

Foram apenas dezoito meses de estudo, durante os quais Martha foi a única aluna de Gulda, um mestre apenas onze anos mais velho que ela e de ademais pouquíssimos alunos. Ainda que viesse a receber lições de Maria Curcio, de Stefan Askenaze e de Arturo Benedetti Michelangeli, Gulda foi a mais decisiva influência na carreira de nossa Rainha. Ela sempre o idolatrou, e frequentemente o cita em suas entrevistas. O austríaco, no entanto, não se impressionou com o estrelato posterior de sua aluna, aparentemente por achá-lo convencional demais para seus heterodoxos parâmetros. E a vida pessoal de Martha, também, parecia bater recordes mesmo para os caóticos padrões guldanianos: ao encontrá-la num camarim, décadas depois, depois de um recital, Gulda – que ficaria notório por divulgar a notícia de sua morte um ano antes de morrer de fato, e que intitulou seu concerto seguinte “Festa da Ressurreição” – tascou:

O que fizeste da tua vida???
O que fazer da vida é a preocupação de todas as ex-crianças prodígio, e Martha, egressa dos estudos com Gulda, não sabia o que fazer dela. Estava longe da bajulação que tinha na Argentina, mas ainda controlada a cabresto pela mãe, e no coração dum continente onde se levantava uma pedra e, debaixo dela, saíam enxames de pianistas promissores. A saída mais óbvia eram as láureas em concursos de piano, e ela conseguiu duas em menos de um mês, em 1957: no Concurso Internacional Busoni em Bolzano (Itália), e no Concurso Internacional de Genebra (Suíça), o qual Gulda também vencera com 16 anos.

Enquanto botava as manguinhas de fora para morar sozinha, Martha excursionava extensamente pelo continente e, antes dos vinte anos, fez sua estreia discográfica oficial pela prestigiosa Deutsche Grammophon, ostentando na capa os cabelos cacheados e o olhar tristonho típicos daquela década. A relação da promissora jovem com seu instrumento, enfim, sempre tivera profundas rachaduras e muito poucas alegrias. Num dos trechos mais tocantes do documentário assinado por sua filha, Stéphanie, Martha está a olhar álbuns da infância e estimar sua idade nas fotos pela presença do sorriso – sinal de que o piano ainda não entrara em sua vida.

Esse difícil período de transição entre ex-criança prodígio e superestrela do teclado é admiravelmente coberto por esta caixa da Hänssler, que mostra que nossa Rainha era uma artista consumada antes de completar 20 anos. Em diversas gravações ao vivo de qualidade variável, além da supracitada gravação de estreia em estúdio, são óbvias as qualidades que até hoje, mais de sessenta anos depois, nos deixam boquiabertos. Entre várias interpretações de Mozart, um compositor a que voltaria relativamente pouco em sua carreira, e o primeiro de seus sete registros do concerto de Ravel, que é de seus cavalos de batalha favoritos, o curioso destaque – e a prova principal de que Martha estava disponível para todas empreitadas – é o registro de dois recitais em Leningrado (atual São Petersburgo), no qual ela acompanhava o já famoso violinista Ruggiero Ricci, vinte anos mais velho, e que permaneceu seu amigo por toda vida.


Joseph Maurice RAVEL (1875-1937)

Concerto em Sol maior para piano e orquestra, M. 83
1 – Allegramente
2 – Allegro assai
3 – Presto
Südwestfunk-Sinfonieorchester Baden-Baden
Ernest Bour, regência
Gravação de 1960

Gaspard de la Nuit, três poemas para piano após Aloysius Bertrand, M. 55
4 – Ondine
5 – Le Gibet
6 – Scarbo
Gravação de 1960

Sonatina para piano em Fá sustenido menor, M. 40
7 – Modéré
8 – Mouvement de Menuet
9 – Animé
Gravação de 1960

Jeux d’eau, para piano, M. 30
10 – Très doux
Gravação de 1960

Béla Viktor János BARTÓK (1881-1945)
Sonatina para violino e piano, Sz. 55, BB 102a (arranjo de A. Gertler)
11 – Cornemuses. Allegretto
12 – Danse De L’ours. Moderato
13 –  Finale: Allegro Vivace
Ruggiero Ricci, violino
Gravação de 1961

Pablo Martín Melitón de SARASATE y Navascués (1844-1908)
Introdução e tarantela para violino e piano, Op. 43
14 – Moderato
Ruggiero Ricci, violino
Gravação de 1961

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Wolfgang Amadeus MOZART (1756-1791)
Concerto para piano e orquestra no. 21 em Dó maior, K. 467
1 -Allegro maestoso
2 – Andante
3 –  Allegro vivace assai
Kölner Rundfunk-Sinfonieorchester
Peter Maag, regência
Gravado em 1960

Ludwig van BEETHOVEN (1770-1827)
Das Três sonatas para piano, Op. 10: 
No. 3 em Ré maior
4 – Presto
5 – Largo e Mesto
6 – Menuetto. Allegro
7 – Rondo. Allegro
Gravado em 1960

Das Três sonatas para violino e piano, Op. 12:
No. 3 em Mi bemol maior
8 – Allegro con spirito
9 – Adagio con molt’espressione
10 – Rondo. Allegro molto
Ruggiero Ricci, violino
Gravado em 1961

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Wolfgang Amadeus MOZART
Sonata para piano no. 8 em Lá menor, K. 310
1 – Allegro maestoso
2 – Andante cantabile con espressione
3 – Presto

Sonata para piano no. 13 em Si bemol maior, K. 333
4 – Allegro
5 – Andante cantabile
6 – Allegretto grazioso

Sonata para piano no. 18 em Ré maior, K. 576
7 – Allegro
8 –  Andante cantabile
9 – Allegretto grazioso
Gravadas em 1960

Robert Alexander SCHUMANN (1810-1856)
Toccata em Dó maior para piano, Op. 7
10 – Allegro
Gravadas em 1960

Johannes BRAHMS (1833-1897)
Duas rapsódias para piano, Op. 79
11 – Agitato, em Si menor
12 – Molto passionato, ma non troppo allegro, em Sol menor
Gravadas em 1961

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Franz LISZT (1811-1886)
1 – Rapsódia Húngara no. 6, para piano
Gravada em 1961

Fryderyk Francyszek CHOPIN (1810-1849)
2 – Barcarola em Fá sustenido maior para piano, Op. 60
3 – Scherzo para piano no. 3 em Dó sustenido menor, Op. 39
4 – Balada para piano no. 4 em Fá menor, Op. 52
Gravadas em 1960-61

Dos Doze estudos para piano, Op. 10
5 – No. 1 em Dó maior
Gravado em 1955 em Buenos Aires

Sergey Sergeyevich PROKOFIEV (1891-1953)
6 – Toccata para piano, Op. 11
7 – Sonata para piano no. 3 em Lá menor, Op, 28
Gravadas em 1961

Franz LISZT
8 1 – Rapsódia Húngara no. 6, para piano
Gravada ao vivo em 1957, durante o Concurso Internacional de Genebra

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Unsere Königin spricht Deutsch

 

PQP Bach, pelo saudoso Ammiratore (1970-2021)

Vassily

1 comment / Add your comment below

  1. Apenas para somar algumas observações sobre essa fase de aprendizados…

    “Em 1955 viajou para a Europa, tendo prosseguido os seus estudos em Londres, em Viena e na Suíça. Foi aluna de Bruno Seidlhofer, Friedrich Gulda, Nikita Magaloff, Madeleine Lipatti e Stefan Askenase.”
    https://gulbenkian.pt/musica/biography/martha-argerich2/

    Gulda realmente não fez fama como professor de piano. Creio que dar aulas jamais foi sua principal fonte de renda. Provavelmente, seu tipo de aula era mais sobre aspectos de interpretação, conselhos sobre obras e repertório… Aliás, ela também devem ter tido conselhos muito bons com Nikita Magaloff.

    Outro tipo de professor é aquele(a) que se concentra nos aspectos técnicos: dedilhado, oitavas, escalas… Nesse sentido, creio que os principais tenham sido Scaramuzza, que você mencionou na postagem da infância, e Bruno Seidlhofer. Este último, em Viena, talvez desse aulas pra Martha nos dias em que Gulda viajava pra tocar, ou algo do tipo. O que sabemos é que Seidlhofer teve uma longa carreira de professor em Viena, com alunos como N. Freire, R. Buchbinder e o próprio Gulda.

    É inegável também que Martha costuma citar Gulda em 1º lugar. E sobre Maria Curcio, há uma entrevista no Instituto do Piano Brasileiro em que o pianista e compositor Amaral Vieira diz que ela era uma fraude. Vá saber, mas é a opinião dele.

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