Sergei Prokofiev (1891-1953): Scythian Suite / Symphony No. 5 (Celibidache, Stuttgart)

Sergei Prokofiev (1891-1953): Scythian Suite / Symphony No. 5 (Celibidache, Stuttgart)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Um tremendo disco! Uma linda gravação ao vivo com Celi em grande forma. Aliás, Celibidache não apreciava os estúdios, preferindo sempre os registros ao vivo. Concordo com ele. Ao vivo, no ambiente de concerto, tudo fica muito melhor. A Quinta Sinfonia foi composta em 1944 e estreada em Moscou a 13 de janeiro de 1945, sob a regência do próprio compositor. Segundo Sviatoslav Richter, a obra é reflexo de “uma alcançada maturidade interior e uma volta ao passado”. Para ele, o compositor olhava “para a própria vida e para tudo o que aconteceu”. Prokofiev tinha retornado ao momento anterior do exílio de dezessete anos e revivia seu passado como artista e como homem. Mesmo tolhido artisticamente, viu que era preciso dar uma face russa a sua obra. A Quinta Sinfonia foi escrita quinze anos após a Quarta e dez anos após o reingresso de Prokofiev na Rússia. Nesse hiato, o compositor viu seu estilo de composição sofrer uma transformação considerável e buscava inspiração na força melódica autêntica do seu país, em suas raízes: “o estrangeiro não combina com minha inspiração, porque eu sou russo e a coisa pior para um homem como eu é viver no exílio. Devo voltar. Devo ouvir ressoar ao ouvido a língua russa, devo falar com as pessoas, a fim de que possa restituir-me o que me falta: os seus cantos, os meus cantos.” Sobre a Quinta Sinfonia, ele disse: “esta música amadureceu dentro de mim, encheu minha alma” […] “não posso dizer que escolhi estes temas, eles nascem em mim e devem se expressar”. A volta ao país natal se desdobrou no retorno às raízes musicais de sua juventude, na qual demonstrara amar profundamente a música de Haydn. A simplicidade e inocência das composições de Haydn eram vistas por Prokofiev como exemplo de clareza e sofisticação. O regresso à natureza neoclássica da Primeira Sinfonia deveu-se mais ao renascimento em si do espírito haydniano que propriamente pela censura impingida à sua música pelo Comitê Central do Partido Comunista. Ao compor nos moldes do “realismo socialista”, Prokofiev inaugurou uma fase chamada por ele de “nova simplicidade”. Nas palavras do compositor: uma “linguagem musical que possa ser compreendida e amada por meu povo”. Simples, sem ser simplista, ele fez sua música retornar ao predomínio do elemento melódico, à transparência na orquestração e à nitidez da forma, de acordo com as normas clássicas. Se os movimentos lentos I e III – Andante e Adagio – se vestem de uma ternura elegíaca e de introspecção, os allegros II e IV, um scherzo e um finale refletem o puro humor advindo de Haydn. Desse contraste, sem dores nem tristezas, nasceu uma das obras mais célebres da música soviética, definida pelo compositor como o “canto ao homem livre e feliz, à sua força, à sua generosidade e à pureza de sua alma”.

Adaptado deste texto de Marcelo Corrêa para a Filarmônica de Minas Gerais.

Sergei Prokofiev (1891-1953): Scythian Suite / Symphony No. 5 (Celibidache, Stuttgart)

Scythian Suite Op. 20
1 The Adoration Of Veless And Ala (Allegro Feroce – Poco Meno Mosso – Poco Meno Lento) 6:29
2 The Enemy God And The Dance Of The Spirits Of Darkness (Allegro Sostenuto) 3:21
3 Night (Andantino – Poco Più Mosso) 6:54
4 The Glorious Departure Of Lolly And The Sun’s Procession (Tempestoso – Un Poco Sostenuto – Allegro – Andante Sostenuto) 6:17

Symphony No. 5 In B Flat Major Op. 100
5 Andante 12:50
6 Allegro Marcato 9:02
7 Adagio 13:52
8 Allegro Giocoso 9:31

SWR Stuttgart Radio Symphony Orchestra
Sergiu Celibidache

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Celi com seu grupo de heavy metal

PQP

Francesco Tristano (1981) / J. S. Bach (1685-1750) / John Cage (1912-1992): bachCage (Tristano)

Francesco Tristano (1981) / J. S. Bach (1685-1750) / John Cage (1912-1992): bachCage (Tristano)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Esta foi, em 2011, a estreia de Francesco Tristano no mundo das gravações. Tristano é pianista e compositor e aqui mistura-se com Bach e Cage. Tristano é um representantes daquele tipo de músico que não pertence mais a uma escola específica. Os mais diversos tipos de música estão lado a lado, tirados de seu contexto típico e disponíveis, digamos, de uma forma democrática. Tristano faz uso disso, deixando sua marca. Mas vejam bem, o sotaque dele para as peças de Bach é bem estranho, mas eu acho as estranhezas muito estimulantes. Indo mais longe, digo que a brincadeira que ele e o engenheiro de som fazem no Menuett II From French Suite N. 1, BWV 812, me atingiu o coração de tal maneira que quase me apaixonei. Bom disco. (Acho que não é a primeira vez que ouço um CD com peças de Bach e Cage. Sabem que é uma mistura que funciona?).

Francesco Tristano (1981) / J. S. Bach (1685-1750) / John Cage (1912-1992): bachCage

1 Introit
Written-By – Francesco Tristano
1:21

Partita N. 1 In B Flat Major, BWV 825
Composed By – Johann Sebastian Bach
2 Praeludium 1:50
3 Allemande 2:41
4 Courante 2:41
5 Sarabande 4:17
6 Menuet I 1:08
7 Menuet II – Menuett I Da Capo 1:16
8 Gigue 1:50

9 In A Landscape
Composed By – John Cage
9:02

The Seasons (1947)
Composed By – John Cage
10 Prelude 1:09
11 Winter 1:20
12 Prelude II 1:00
13 Spring 3:05
14 Prelude III 0:53
15 Summer 3:33
16 Prelude IV 0:47
17 Fall 2:33
18 Finale (Prelude I Reprise) 0:50

Vier Duette, BWV 802-805
Composed By – Johann Sebastian Bach
19 Duett N. 1 In E Minor, BWV 802 2:03
20 Duett N. 2 In F Major, BWV 803 2:18
21 Duett N. 3 In G Major, BWV 804 1:58
22 Duett N. 4 In A Minor, BWV 805 2:44

23 Etude Australe N. VIII, Book I (1974-1975)
Composed By – John Cage
4:56

24 Interludes
Written-By – Francesco Tristano
2:34

25 Menuett II From French Suite N. 1, BWV 812
Composed By – Johann Sebastian Bach
1:41

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Tristano fazendo alongamento sobre o piano. Ele sabe que as girafas de pescoço longo foram beneficiadas na seleção natural.

PQP

Johann Nepomuk Hummel (1778-1837) / George Onslow (1784-1853): Quintetos para Piano (Nepomuk)

Johann Nepomuk Hummel (1778-1837) / George Onslow (1784-1853): Quintetos para Piano (Nepomuk)

Como muitos, um disco muito bem interpretado em cima de obras pouco interessantes. Hummel é um austríaco, velho conhecido nosso — tem um belo Concerto para Trompete e vários Concertos para Piano mais ou menos –, já o menino Onslow é um francês de ascendência inglesa, cuja reputação declinou rapidamente após sua morte, o que também aconteceu com Hummel, mas nem tanto. Em comum, ambos conheciam Beethoven, porém não adiantou. A luz do talento brilha para poucos. De qualquer maneira, este é um disco agradável, que não agride nem irrita ninguém. Sabem? Achei o menino Onslow mais interessante que o velho Hummel no repertório deste CD.

Johann Nepomuk Hummel (1778-1837) / George Onslow (1784-1853): Quintetos para Piano (Nepomuk)

Quintet Opus 74 In D Minor
Composed By – Johann Nepomuk Hummel
1 Ellegro Con Spirito 14:57
2 Menuetto O Scherzo (Allegro) 5:54
3 Andante Con Variazioni 8:29
4 Finale (Vivace) 8:32

Quintet Opus 70 In B Minor
Composed By – George Onslow
5 Allegro Grandioso E Non Troppo Presto 11:55
6 Andantino Cantabile E Simplice 6:31
7 Allegretto Molto Moderato 8:58

Nepomuk Fortepiano Quintet

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O menino Onslow

PQP

.: interlúdio :. Gary Burton & Keith Jarrett / Throb (Burton)

.: interlúdio :. Gary Burton & Keith Jarrett / Throb (Burton)

Eu não ouvia este CD há anos, e minha impressão — neste período em que fiquei longe dele — é a de que ele soava muito datado. A sonoridade geral situa-no claramente nos anos 70. Porém, hoje, muito rapidamente, fiquei impressionado com a sensação de que há algo muito limpo e original no álbum. Há grande exuberância, são músicos tocando coisas que gostam e se divertindo fazendo isso. Há momentos em que tudo beira o pop, e o som do rock da época jamais se afasta. No entanto, a musicalidade, harmonia e improvisação são claramente o produto de músicos de jazz altamente talentosos. Você logo descobrirá que não consegue tirar as pequenas melodias peculiares da sua cabeça. As músicas têm aquela agradável característica de serem ao mesmo tempo bonitas ​​e inesperadas. Não é um disco necessário, mas é mais do que apenas agradável.

Gary Burton & Keith Jarrett (1971)
1 Gary Burton & Keith Jarrett– Grow Your Own 4:51
2 Gary Burton & Keith Jarrett– Moonchild / In Your Quiet Place 7:19
3 Gary Burton & Keith Jarrett– Como En Vietnam 7:02
4 Gary Burton & Keith Jarrett– Fortune Smiles 8:28
5 Gary Burton & Keith Jarrett– The Raven Speaks 8:15

Throb (1969)
6 Gary Burton– Henniger Flats 4:22
Composed By – David Pritchard (2)
7 Gary Burton– Turn Of The Century 5:03
8 Gary Burton– Chickens 2:25
9 Gary Burton– Arise, Her Eyes 3:45
10 Gary Burton– Prime Time 3:59
Composed By – Jerry Hahn
11 Gary Burton– Throb 4:27
12 Gary Burton– Doin The Pig 3:40
13 Gary Burton– Triple Portrait 4:25
14 Gary Burton– Some Echoes 6:54

Bass – Steve Swallow
Composed By – Keith Jarrett (tracks: 1, 2, 4, 5), Michael Gibbs (tracks: 7, 11, 13, 14), Steve Swallow (tracks: 3, 8, 9, 12)
Drums – Bill Goodwin
Guitar – Jerry Hahn (tracks: 6 to 14), Sam Brown (2) (tracks: 1 to 5)
Piano, Electric Piano, Soprano Saxophone – Keith Jarrett (tracks: 1 to 5)
Vibraphone [Vibes] – Gary Burton (tracks: 1 to 5)
Vibraphone [Vibes], Piano – Gary Burton (tracks: 6 to 14)
Violin – Richard Greene (tracks: 6 to 14)

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Beethoven (1770-1827) e Brahms (1833-1897): Concertos Triplo e Duplo (Poseidon / Järvi)

Beethoven (1770-1827) e Brahms (1833-1897): Concertos Triplo e Duplo (Poseidon / Järvi)


IM-PER-DÍ-VEL !!!

Grande gravação do Trio Poseidon com a Orquestra de Gotemburgo, sob a direção de Neeme Järvi (os titulares da orquestra são Järvi, Gustavo Dudamel e Christian Zacharias). Gostei mais da gravação do Poseidon para o Triplo de Beethoven do que as dos registros de gigantes como o trio Richter, Oistrakh e Rostropovich ou Barenboim, Perlman e Ma. Não é pouca coisa não e sei que nem todos concordarão. A primeira qualidade deste trabalho é a interpretação mais coesa — afinal, eles formam um trio! –, a segunda é a excelente qualidade sonora, sob o altíssimo padrão Chandos.

Beethoven (1770-1827) e Brahms (1833-1897): Concertos Triplo e Duplo

Ludwig van Beethoven (1770-1827):
Concerto for Piano, Violin, Cello and Orchestra, Op.56
1 Triple Concerto For Violin, Cello And Piano In C Major, Op. 56: I. Allegro 17:58
2 Triple Concerto For Violin, Cello And Piano In C Major, Op. 56: II. Largo – 5:41
3 Triple Concerto For Violin, Cello And Piano In C Major, Op. 56: III. Rondo Alla Polacca 12:57

Johannes Brahms (1833-1897):
Concerto for Violin, Cello and Orchestra, Op.102
4 Double Concerto For Violin And Cello In A Minor, Op. 102: I. Allegro 17:08
5 Double Concerto For Violin And Cello In A Minor, Op. 102: II. Andante 6:58
6 Double Concerto For Violin And Cello In A Minor, Op. 102: III. Vivace Non Troppo 8:30

Trio Poseidon
Gothenburg Symphony Orchestra
Neeme Järvi

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Trio Poseidon
Trio Poseidon

PQP

Luigi Boccherini (1743-1805): Quintetos para Violão Nos. 4, 7 and 9 “La ritirata di Madrid” (Yepes / Melos Quartett)

Luigi Boccherini (1743-1805): Quintetos para Violão Nos. 4, 7 and 9 “La ritirata di Madrid” (Yepes / Melos Quartett)

Boccherini não é um mágico. Ele faz coisas bonitas, mas não “magica” como um compositor de grande talento faria. Seus quintetos são pouco divulgados, então estas gravações restauradas tornam-se importantes para quem queira ter contato com o compositor. A versão de 1969 do No. 7 de Julian Bream ainda é a melhor disponível e o conjunto integral dos Quintetos por Pepe Romero también es muy bueno. O que este disco oferece são os dois itens mais coloridos de todos, os últimos movimentos do nº 9 (La ritirata di Madrid) e do nº 4 (Fandango, com castanholas). Elas estão muito abaixo do nível de ‘obra-prima’, mas  isso não tem importância. Este disco também oferece um toque de primeira linha de todos os participantes, embora o violão pudesse ter recebido um pouco mais de destaque na gravação.

Luigi Boccherini (1743-1805): Quintetos para Violão Nos. 4, 7 and 9 “La ritirata di Madrid” (Yepes / Melos Quarttet)

Quintett No. 4 D-Dur (Gérard No. 448)
1 1. Allegro Maestoso 4:50
2 2. Pastorale 5:14
3 3. Grave Assai – Fandango 7:06

Quintett No. 7 E-Moll (Gérard No. 451)
4 1. Allegro Moderato 5:15
5 2. Adagio 4:30
6 3. Minuetto – Trio – Minuetto 4:12
7 4. Allegretto 5:18

Quintett No. 9 C-Dur (Gérard No. 453)
8 1. Allegro Maestoso Assai 9:26
9 2. Andantino 3:20
10 3. Allegretto 5:49
11 4. Maestoso E Lento ; Variazoni I-XII, “La Ritirata Di Madrid” 6:12

Ensemble [String Quartet] – Melos Quartett
Guitar – Narciso Yepes

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Luigi Boccherini: Muy feliz en esta rara aparición en PQP Bach.

PQP

Johannes Brahms (1833-1897): Integral das Sinfonias (Rattle e Filarmônica de Berlim)

Johannes Brahms (1833-1897): Integral das Sinfonias (Rattle e Filarmônica de Berlim)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Um excelente registro de uma parte importante da obra de um de meus compositores mais amados. Todos sabem que meus três compositores preferidos são Bach, Beethoven, Brahms, Mahler, Shostakovich e Bartók. Rattle aparece raivoso na estupenda Sinfonia Nº 1 e mais próximo do convencional nas outras. A orquestra… Bem, a Filarmônica de Berlim apenas segue um organismo perfeito. Temos (ou tivemos) no PQP as integrais de Abbado e de Jochum e digo-lhes: não vou fazer comparações entre tais gigantes.

A Primeira é solene e dramática. É a maior de todas as sinfonias, segundo este que vos escreve. A Segunda é mais pastoral com sua orquestração leve e brilhante. A Terceira, com dois movimentos lentos e um final sombrio, é a mais pessoal e enigmática. A Quarta tem orquestração compacta e a monumental chacona do finale remetem o ouvinte à música pré-clássica, principalmente a Bach.

Sinfonia No. 1 in C minor, Op. 68
01. Un poco sostenuto-allegro-meno allegro
02. Andante sostenuto
03. Un poco allegretto e grazioso
04. Finale

Sinfonia No. 2 in D major, op. 73
01. I. Allegro non troppo
02. II. Adagio non troppo
03. III. Allegretto grazioso (quasi andantino) – Presto ma non assai – Tempo I
04. IV. Allegro con spirito

Sinfonia Nº 3 in F Major, op. 90
01. I. Allegro con brio
02. II. Andante
03. III. Poco Allegretto
04. IV. Allegro

Sinfonia No. 4 em E menor, Op. 98
01 Allegro Non Troppo
02 Andante Moderato
03 Allegro Giocoso, Poco Meno Presto, Tempo
04 Allegro Energico E Passionato, Più Allegro

Berliner Philharmoniker
Simon Rattle

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Simon Rattle não tem como não ser feliz
Simon Rattle não tem como não ser feliz

PQP

Girolamo Frescobaldi (1583-1643) e Louis Couperin (1626-1661): Peças para Cravo

Girolamo Frescobaldi (1583-1643) e Louis Couperin (1626-1661): Peças para Cravo

Girolamo Frescobaldi é considerado um dos maiores compositores de música para cravo do século XVII. Foi também um organista reconhecido. Foi cantor e virtuoso de diversos instrumentos, entre os quais o órgão. São famosos os seus livros de tocatas publicados entre 1615 e 1627], em cujo prefácio antecipa a maneira de tocar com efeitos cantáveis que será, depois, típica do subsequente melodrama. Tendo-se transferido a Roma durante a juventude, frequentou a Accademia Nazionale di Santa Cecilia e foi organista na igreja de Santa Maria em Trastevere. Durante vinte anos foi organista em São Pedro. Teve cinco filhos de Orsola del Pino, com quem se casou em 1613.

Louis Couperin foi um compositor francês do barroco que contribuiu significativamente para o desenvolvimento da música para teclado naquele período. Sendo um excelente cravista, organista e gambista, foi um dos fundadores da escola francesa do cravo, tendo inventado o gênero de prelúdio non mesuré (sem compasso) para o cravo. Ele e seu sobrinho François Couperin, o Grande, foram os mais renomados membros da família Couperin.

Mas, ali no CD, ouvindo o extraordinário Gustav Leonhardt trabalhar, Couperin parece-nos muito mais compositor.

Girolamo Frescobaldi (1583-1643) e Louis Couperin (1626-1661): Peças para Cravo

1 Il primo libro d’intavolatura di toccate di cimbalo et organo, No.2, Toccata seconda – Girolamo Frescobaldi (4:45)
2 Ricercari, et canzoni franzese, Vol.1 No.15, Canzon Quinta. Nono Tono, for keyboard – Girolamo Frescobaldi (2:26)
3 Fantasie a quattro, No.4 “Fantasia quarta, sopra un due soggietti” – Girolamo Frescobaldi (6:14)
4 Capricci … et arie in partitura, Vol.1 No.5, Capriccio Quinto sopra la bassa fiammenga, for keyboard – Girolamo Frescobaldi (5:35)
5 Il secondo libro de toccate, canzone…di cimbalo et organo, No.7, Toccata Settima – Girolamo Frescobaldi (3:04)
6 Ricercari, et canzoni franzese, Vol.1 No.1, Recercar Primo, for keyboard – Girolamo Frescobaldi (4:58)
7 Il secondo libro de toccate, canzone…di cimbalo et organo, No.15, Canzona Terza – Girolamo Frescobaldi (3:55)
8 Il primo libro d’intavolatura di toccate di cimbalo et organo, No.8, Toccata otova – Girolamo Frescobaldi (4:18)

9 Prélude for harpsichord in D major (Pièces de clavecin, No. 2) – Louis Couperin (3:28)
10 Allemande for harpsichord in D major (Pièces de clavecin, No. 58) – Louis Couperin (3:30)
11 Courante for harpsichord in D major (Pièces de clavecin, No. 59) – Louis Couperin (1:08)
12 Sarabande for harpsichord in D major (Pièces de clavecin, No. 60) – Louis Couperin (1:46)
13 Gaillarde for harpsichord in D major (Pièces de clavecin, No. 61) – Louis Couperin (1:54)
14 Chaconne for harpsichord in D major (Pièces de clavecin, No. 62) – Louis Couperin (2:03)
15 Passacaille for harpsichord in G minor (Pièces de clavecin, No. 98) – Louis Couperin (5:07)
16 Prélude for harpsichord in E minor (Pièces de clavecin, No. 14) – Louis Couperin (1:19)
17 Allemade de la Paix, for harpsichord in E minor (Pièces de clavecin, No. 63) – Louis Couperin (3:02)
18 Courante for harpsichord in E minor (Pièces de clavecin, No. 64) – Louis Couperin (1:18)
19 Sarabande for harpsichord in E minor (Pièces de clavecin, No. 65) – Louis Couperin (1:54)
20 Pavane for harpsichord in F sharp minor (Pièces de clavecin, No. 120) – Louis Couperin (4:34)

Gustav Leonhardt, cravo

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Louis Couperin, mais interessante do que Frescobaldi
Louis Couperin, mais interessante do que Frescobaldi

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Johannes Brahms (1833-1897): Sinfonia Nº 1 / Tragic Overture / Academic Festival Overture (Jochum)

Johannes Brahms (1833-1897): Sinfonia Nº 1 / Tragic Overture / Academic Festival Overture (Jochum)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Brahms compôs a melhor de todas as sinfonias (bem…) entre 1855 e 1876. Em Düsseldorf, nos anos de 1854 e 55 — onde ajudava Clara Schumann com seus sete filhos, enquanto Robert iniciava sua temporada asilo de loucos –, Brahms prometeu em duas ocasiões escrever uma sinfonia. A intenção era a de fazer uma peça gigantesca e grave, na tradição da Grosse Fuge e da Hammerklavier. Esboços do último movimento foram guardados para posterior desenvolvimento. Quando, em 1862, mostrou os resultados para a Clara-já-viúva, ela expressou aprovação, mas criticou seu abrupto término. Nos 12 anos seguintes, Brahms manteve essa música sempre à mão, mexendo aqui e ali. Finalmente, em 1874, ele decidiu finalizá-la, pois Clara e os amigos estavam enchendo demais o saco.

Escreveu o primeiro movimento e, por último, o scherzo e o movimento lento. Se o primeiro movimento parece Beethoven, os movimentos centrais são schubertianos e o final é a maior homenagem que os mestres do barroco da Alemanha já receberam: papai, tio Bux, Froberger e Handel estão ali. E Beethoven, claro. Embora pertença à geração que sucedeu Chopin e Schumann, Brahms tinha profunda admiração pelo barroco. É estranho que, com uma orquestra beethoveniana e tendo o barroco em vista, Brahms tenha alcançado sonoridades de Bruckner nesta sinfonia absolutamente perfeita.

Já postamos várias vezes esta sinfonia, mas nunca por Eugen Jochum. É uma baita versão.

Johannes Brahms (1833-1897): Sinfonia Nº 1 (Jochum)

Symphony No. 1 in C minor, Op. 68
1) I: Un poco sostenuto – Allegro (16:58)
2) II: Andante sostenuto (8:45)
3) III: Un poco allegretto e grazioso (4:45)
4) IV: Adagio – Più andante – Allegro non tropo ma con brio (16:00)

5) Tragic Overture, Op. 81 (12:17)

6) Academic Festival Overture, Op. 80 (10:09)

London Philharmonic Orchestra
Eugen Jochum

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Eugen Jochum: um dos monstros do século XX

PQP

Thomas Linley, o Jovem (1756-1778): Odes Líricas sobre Fadas, Seres Aéreos e Bruxas de Shakespeare (The Parley of Instruments)

Thomas Linley, o Jovem (1756-1778): Odes Líricas sobre Fadas, Seres Aéreos e Bruxas de Shakespeare (The Parley of Instruments)

Um bom disco. Notáveis intérpretes, excelente gravação, textos mais ou menos e música apenas razoável. É música menor da época de Haydn e Mozart, é decididamente conservadora e provinciana, parecendo ser bem mais antiga do que é. O jovem Linley conheceu e tocou com o jovem Mozart — exatamente da mesma idade — em Florença no ano de 1770. Ele era tecnicamente um compositor razoavelmente talentoso. Esta é uma música, digamos, profissional, que se divide em duas partes. Composta em 1776, seu título completo é “Uma Ode Lírica sobre as Fadas, Seres Aéreos e Bruxas de Shakespeare”. Musicalmente, ele se sai um pouco melhor nas fadas e nos seres aéreos do que nas bruxas, pois os toques sinistros, tons menores, uníssonos e cromatismos capturam um mundo mais ‘gótico’ do que o verdadeiramente sombrio de Shakespeare. O destaque do CD é Julia Gooding, cuja voz tem a habilidade de flutuar a frase, o que muitas das melodias de Linley pedem. Música agradável e despretensiosa: um disco que vale a pena experimentar.

Thomas Linley, o Jovem (1756-1778): Odes Líricas sobre Fadas, Seres Aéreos e Bruxas de Shakespeare (The Parley of Instruments)

1 OVERTURE Andante — Allegro [5’58]
2 Minuetto [1’55]
3 PART 1 CHORUS O guardian of that sacred land [4’27]
4 RECITATIVE Spirit of Avon ’Tis thine alone [1’00]
5 AIR Spirit of Avon Come then, O Fancy, bend thy bow [2’24]
6 RECITATIVE Fancy At Shakespeare’s happy birth [1’20]
7 AIR Fancy And now is come the fated hour [1’59]
8 CHORUS Be Shakespeare born! [2’13]
9 RECITATIVE Spirit of Avon So spake the god [0’26]
10 AIR Spirit of Avon There in old Arden’s inmost shade [3’09]
11 RECITATIVE Spirit of Avon And as before his purged eyes [0’24]
12 AIR Spirit of Avon Thy hand his youthful footsteps led [3’50]
13 AIR Fancy Some drive the clam’rous owl away [1’59]
14 CHORUS Some drive the clam’rous owl away [2’48]
15 PART 2 RECITATIVE Fearful observer But oh! what sudden gloom [1’42]
16 CHORUS By the pale light of yon blue fire [0’37]
17 RECITATIVE Fearful observer See, through the glimmering darkness [0’18]
18 CHORUS What howling whirlwinds rend the sky! [1’48]
19 RECITATIVE Fearful observer For whom, at yonder livid flame [1’13]
20 AIR Fearful observer Whither ye beldames do ye roam? [4’03]
21 CHORUS and AIR Spirit of Avon The tempests cease [3’14]
22 RECITATIVE Spirit of Avon No more the elves, with printless pace [0’30]
23 AIR Spirit of Avon Ariel, who sees thee now? [3’59]
24 RECITATIVE Fancy No more shalt thou upon the sharp north run [0’24]
25 DUET Fancy, Spirit of Avon For who can wield like Shakespeare’s skilful hand? [4’52]
26 CHORUS Yet, Fancy, once again on Britain smile [3’20]

Spirit of Avon — JULIA GOODING soprano
Fancy — LORNA ANDERSON soprano
Fearful observer — RICHARD WISTREICH bass
THE PARLEY OF INSTRUMENTS BAROQUE ORCHESTRA AND CHOIR
PETER HOLMAN director
PAUL NICHOLSON conductor

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As bruxas em ‘Macbeth’ de Shakespeare

PQP

Edvard Grieg (1843-1907): Holberg Suite / Music For Strings (Bergen / Ruud)

Edvard Grieg (1843-1907): Holberg Suite / Music For Strings (Bergen / Ruud)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Grieg por noruegueses! Claro que as revelações são muitas e boas. Há a excelente Orquestra Sinfónica de Gotemburgo, sob Neeme Järvi na DG, que é e continua a ser excelente. Ainda assim, aqui temos variedade na interpretação. Ole Kristian Ruud, ele próprio um norueguês, regendo a Orquestra Filarmônica de Bergen, gravando no Grieg Hall, em Bergen, Noruega!! É isso! Este é um dos registros mais bonitos que ouvi da música para cordas de Grieg, da qual gosto muito. Aqui temos a Suíte Holberg, talvez a peça orquestral mais conhecida de Grieg. Originalmente escrita para piano (o compositor era pianista), sua versão para orquestra de cordas é mais conhecida. Complementando, há as Duas Melodias Elegíacas, Op. 34, as Duas Melodias Op. 53, as Duas Melodias Nórdicas Op. 63, e as Duas Peças Líricas que ele orquestrou (das cinco compostas) Op. 68. Tudo em dupla. Este é um excelente programa de Grieg, tão bem executado quanto se poderia desejar e a introdução perfeita à música deste compositor, bem como uma importante adição a qualquer coleção de música de Grieg.

Edvard Grieg (1843-1907): Holberg Suite / Music For Strings

Holberg Suite, Op. 40 (19:52)
1 I. Prelude 2:43
2 II. Sarabande 4:00
3 III. Gavotte 3:48
4 IV. Air 5:35
5 V. Rigaudon 3:52

Two Elegiac Melodies, Op. 34 (8:58)
6 I. The Wounded Heart 3:14
7 II. Last Spring 5:36

Two Melodies, Op. 53 (9:09)
8 I. Norwegian 4:26
9 II. The First Meeting 4:37

Two Nordic Melodies, Op. 63 (12:00)
10 I. Popular Song 7:24
11 II. Cow Keepers’ Tune And Country Dance 4:28

Two Lyric Pieces, Op. 68 (7:47)
12 I. Evening In The Mountains 3:55
13 II. At The Cradle 3:47

Bergen Philharmonic Orchestra
Ole Kristian Ruud

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Bergen é tão feia…

PQP

Boris Lyatoshynsky (1895-1968) / Valentin Silvestrov (1937) / Victoria Poleva (1962): Ukrainian Piano Quintets

Boris Lyatoshynsky (1895-1968) / Valentin Silvestrov (1937) / Victoria Poleva (1962): Ukrainian Piano Quintets

É claro que estou postando este disco em razão da  guerra — absurda como todas. Mas saibam que é um lindo disco. Boris Lyatoshynsky foi um dos principais membros de uma nova geração de compositores ucranianos que surgiram na década de 1920. Seu Quinteto Ucraniano é emocionante, com um belíssimo segundo movimento Lento e tranquillo.  A linguagem é firmemente enraizada na tradição romântica tardia. Todo o quinteto, em seus quatro movimentos, é muito bonito. Dedicado a Lyatoshynsky, o Quinteto para Piano de Valentin Silvestrov data de seus primórdios como compositor. Silvestrov tinha 24 anos e ainda não era bem Silvestrov, Aliás, seu professor, Lyatoshynsky, não gostou muito da coisa, que tem uma retórica meio soviética. Já o Simurgh de Victoria Poleva faz parte de um estilo que abraça temas espirituais e uma simplicidade musical definida como “minimalismo sacro”. Pivnenko e seus colegas são intensos e cheios de sangue, além de tecnicamente magistrais. 

Boris Lyatoshynsky / Valentin Silvestrov / Victoria Poleva: Ukrainian Piano Quintets

Lyatoshinsky, Boris Mikolayovich
Ukrainian Quintet, Op. 42
1. I. Allegro e poco agitato 00:11:40
2. II. Lento e tranquillo 00:12:34
3. III. Allegro 00:05:56
4. IV. Allegro risoluto 00:09:58

Silvestrov, Valentin
Piano Quintet
5. I. Prelude: Andante 00:07:39
6. II. Fugue: Allegro 00:06:31
7. III. Aria: Andante 00:05:18

Poleva, Victoria Vita
Simurgh-quintet
8. Simurgh – quintet 00:17:45

Pivnenko, Bogdana
Pogoretskyi, Yurii
Starodub, Iryna
Suprun, Kateryna
Yaropud, Taras

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Boris Lyatoshynsky (1895-1968)

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Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791): Concertos para Piano Nº 19 & 23 (Grimaud, Erdmann)

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791): Concertos para Piano Nº 19 & 23 (Grimaud, Erdmann)

Este repertório sempre lembra meu pai, falecido em 1993. Ele amava os Concertos para Piano de Mozart e, mesmo que não saiba qual é qual, conheço cada nota de todos eles e, quando acaba um movimento, a jukebox do meu cérebro já começa a antecipar os primeiros compassos do próximo. Esta gravação de Grimaud é um tremendo acerto. Sou um pouco avesso à pianista, às vezes ela me parece padecer de falta de expressividade. Talvez ela precise do calor do público para render mais, sei lá — e este registro é ao vivo. O que sei é que ela dá um show neste CD. Os dois concertos, ambos em ensolaradas tonalidades maiores, não estão entre os mais gravados da produção do compositor. E há uma adição substancial na forma de uma ária de concerto, originária de Idomeneo, para soprano e orquestra, com piano obbligato. Este não é o gentil e acariciante Mozart de Maria João Pires. Grimaud encontra força e profundidade no movimento Adagio do Concerto Nº 23, tornado mais devagar do que o habitual, e uma vivacidade borbulhante no Allegro final. Da mesma forma, ela vai muto bem no Concerto Nº 19, onde transmite a natureza despreocupada de uma das obras mais brilhantes e alegres de Mozart. Erdmann canta belamente a ária. E, nestas peça, novamente o piano de Grimaud é um trunfo.

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791): Concertos para Piano Nº 19 & 23 (Grimaud, Erdmann)

Piano Concerto No.19 in F, K.459
Cadenzas: W.A. Mozart
1. Allegro [11:58]
2. Allegretto [7:59]
3. Allegro assai – Cadenza: Wolfgang Amadeus Mozart [7:53]

Ch’io mi scordi di te… Non temer, amato bene, K.505
(Varesco)
4. Ch’io mi scordi di te? [1:53]
5. Non temer, amato bene [3:15]
6. Alme belle, che vedete [5:07]

Piano Concerto No.23 in A, K.488
Cadenza: Ferruccio Busoni
7. Allegro [10:42]
8. Adagio [7:38]
9. Allegro assai [7:56]

Hélène Grimaud – Piano
Mojca Erdmann – Soprano
Kammerochester des Bayerischen Rundfunk

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Talentosa e linda, linda e talentosa

Karlheinz Stockhausen (1928-2007) : Harlekin für Klarinette (Michele Marelli)

Karlheinz Stockhausen (1928-2007) : Harlekin für Klarinette (Michele Marelli)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Um esplêndido disco! Harlekin (1975) é uma das mais apreciadas obras de Karlheinz Stockhausen pela originalidade de sua mise-en-scène e modo de composição: o clarinetista, de fato, toca, faz mímica e dança. Por isso, há bastante sons de marcenaria no CD, tanto do clarinete quanto dos passos de dança de Marelli. Uma maravilha de ouvir. O Arlequim de Stockhausen já não possui quase nada da commedia dell’arte: o personagem que vemos no palco não se expressa pela palavra, mas pela música e linguagem corporal. A pantomima, em sua totalidade, torna-se uma representação abstrata de sua vida. Stockhausen usa sua Formula. A Formula é uma coleção de notas, dinâmicas, ritmos e fraseados conectados por laços internos e equilibrados por cálculos matemáticos precisos. Entenderam? Pois é. A Formula de Harlekin consiste em 13 sons que evoluem e são modificados, no espaço de 43 minutos, através de nove seções. 

Michele Marelli (1978) é reconhecido internacionalmente como um dos melhores músicos contemporâneos de sua geração. Colaborou com Karlheinz Stockhausen por mais de 10 anos, dando estreias sob sua regência e gravando 2 CDs com o próprio compositor. Stockhausen foi colega de Pierre Boulez, Edgar Varése e Iannis Xenakis. Todos estudaram com o compositor e organista Olivier Messiaen. Críticos do seu trabalho apontam-no como “um dos grandes visionários do século XX no contexto da música pós-moderna”. É conhecido, entre outras coisas, por um trabalho durante a gênese da música eletroacústica e do indeterminismo musical. Músicos de jazz como Miles Davis, Cecil Taylor, Charles Mingus, Herbie Hancock, Yusef Lateef e Anthony Braxton citaram Stockhausen como influência, assim como artistas do rock como Frank Zappa.

AQUI, MAIS E MELHOR.

Karlheinz Stockhansen (1928-2007) : Harlekin ür Klarinette (Michele Marelli)

1. Der Traumbote [5:49]
2. Der spielerische Konstrukteur [6:41]
3. Der verlebte Lyriker [3:22]
4. Der pedantische Lehrer [7:42]
5. Der spitzbübische Joker [3:40]
6. Der leidenschaftliche Tänzer [3:22]
7. Dialog mit einem Fuss [2:10]
8. Harlekin’s Tanz [2:35]
9. Der exaltierte Kreiselgeist [7:24]

Michele Marelli, clarinetto e danza

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Stock feliz por reaparecer no PQP Bach.

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Johannes Brahms (1833-1897): Os Concertos para Piano (Buchbinder / Harnoncourt)

Johannes Brahms (1833-1897): Os Concertos para Piano (Buchbinder / Harnoncourt)

Despojada da maioria dos gostos do final do século 19 e início do século 20, aqui temos uma interpretação clara, nítida e comovente. Sob Harnoncourt, a maravilhosa Royal Concertgebouw Orchestra soa sombria e tempestuosa com um toque da inclinação de menos vibrato aqui e ali. Rudolf Buchbinder e Nikolaus Harnoncourt essencialmente tentam fazer pelas duas obras-primas de Brahms o que Krystian Zimerman conseguiu com tanto sucesso com os dois concertos para piano de Chopin. Eles propõem performances livres de qualquer traço de convenção, nunca dando nada como certo, questionando as partituras e recolocando a música no contexto cultural e biográfico originais. E eles não fazem apenas ajustes: eles encontram respostas. Harnoncourt não muda nada no que Brahms escreveu. Ele apenas dá a cada detalhe, incluindo aqueles geralmente esquecidos, seu devido lugar na trajetória geral da performance. Como especialista em música do Período Clássico – suas sonatas Haydn completas para Teldec ainda estão entre as melhores já gravadas –, Buchbinder se encaixa bem nessa concepção, oferecendo uma execução ao mesmo tempo ousada, bem articulada e dramática, mas sensível ao som e ao equilíbrio. Os andamentos são cuidadosamente escolhidos – espaçosos e tensos nos movimentos externos e relativamente rápidos nos movimentos centrais, para evitar o sentimentalismo excessivo e o risco de tédio. Gostei.

Johannes Brahms (1833-1897): Os Concertos para Piano (Buchbinder / Harnoncourt)

Piano Concerto No.1 In D Minor, D-moll, Op.15
1-1 Maestoso 24:24
1-2 Adagio 13:05
1-3 Rondo: Allegro Non Troppo 12:14

Piano Concerto No.2 In B-Flat Major, B-dur, Op.83
2-1 Allegro Non Troppo 17:49
2-2 Allegro Appassionato 8:57
2-3 Andante 11:41
2-4 Allegretto Grazioso 8:26

Cello – Gregor Horsch (track: 2-3)
Conductor – Nikolaus Harnoncourt
Orchestra – Royal Concertgebouw Orchestra
Piano – Rudolf Buchbinder

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Buchbinder testando um dos pianos da PQPBach Organisationen Klaviertestraum

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Konrad von Würzburg (c.1225-1287): Lieder (Andrea von Ramm)

Konrad von Würzburg (c.1225-1287):  Lieder (Andrea von Ramm)

Um bom disco de música antiga. Como diz o título, são canções de Konrad von Würzburg. Coisinha simples e bonitinha, ideal para dar uns pulinhos medievais pela sala. Konrad von Würzburg foi um poeta, músico e compositor poeta alemão que, durante o declínio da cavalaria medieval, procurou preservar os ideais da vida da corte. De origem humilde, serviu uma sucessão de patronos como poeta profissional e acabou por se estabelecer em Basileia. Suas obras vão de letras de amor e poemas didáticos curtos a épicos em grande escala. Porém, ele está no seu melhor em seus poemas narrativos mais curtos. A originalidade de Konrad é mais de forma do que de conteúdo. O caráter explicitamente didático de sua poesia lhe valeram a estima de seus contemporâneos. Um século depois, a nova geração de poetas-artesãos conhecidos como Meistersingers o nomeou como um dos “12 velhos mestres” da poesia medieval de quem eles se orgulhavam descender. Este disco, por sua vez, descende de um LP bem curtinho.

Konrad von Würzburg (c.1225-1287): Lieder (Andrea von Ramm)

1 Die meister habent wol gesungen (im ‘Langen Ton’) 2:05
2 Hofton 8:53
3 Nun ist niht mêre min dedinge (Kontrafaktur nach dem troubadour Peire Vidal) 3:28
4 Gevîolierte blüete kunst (Totenklage auf Konrad im ‘Zarten Ton’) 2:13
5 Aspis-Ton 4:50
6 Willekomen, sumerweter süeze! 3:32
7 Von allen Singern (in Marners ‘Langem Ton’) 4:30
8 Morgenwîse 6:10

Andrea von Ramm, vocals
Sterling Jones, fiddle, rebec, lyra, hurdy gurdy
Timothy C. Nelson, flute, tin whistle, hurdy gurdy
Christian Schmid-Cadalbert, narration

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Simone Martini (1312)

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Jean-Philippe Rameau (1683-1764): Pièces de clavecin (completas) (Esfahani)

Jean-Philippe Rameau (1683-1764): Pièces de clavecin (completas) (Esfahani)

Jean-Philippe Rameau escreveu três livros de Pièces de Clavecin. A primeira, Premier Livre de Pièces de Clavecin , foi publicado em 1706 ; o segundo , Pièces de Clavessin, em 1724 ; e o terceiro, Nouvelles Suites de Pièces de Clavecin, em 1726 ou 1727. Eles foram seguidos em 1741 pelo Pièces de Clavecin en concerts, em que o cravo pode ser acompanhado por violino e viola da gamba ou tocar sozinho. Uma parte isolada, “La Dauphine”, sobrevive de 1747. Tudo é bom, mas as peças finais da coleção são esplêndidas.

Mahan Esfahani é um jovem e grande mestre do cravo, alguém cujo aparecimento nos enche de alegria. Tem 38 anos e esperamos que grave a obra completa de Bach para o instrumento. Pode-se dizer que é um talento do tamanho de Gustav Leonhardt. Ou maior. Que amadureça!

Jean-Philippe Rameau (1683-1764): Pièces de clavecin

1. Suite No 1 in A minor | Prélude [2’04]
2. Suite No 1 in A minor | Allemande I [4’08]
3. Suite No 1 in A minor | Allemande II [1’55]
4. Suite No 1 in A minor | Courante [1’52]
5. Suite No 1 in A minor | Gigue [2’23]
6. Suite No 1 in A minor | Sarabandes I & II [2’58]
7. Suite No 1 in A minor | Vénitienne [1’29]
8. Suite No 1 in A minor | Gavotte [1’28]
9. Suite No 1 in A minor | Menuet [1’06]
10. Suite in E minor | Allemande [3’47]
11. Suite in E minor | Courante [1’36]
12. Suite in E minor | Gigues en rondeau I & II [3’36]
13. Suite in E minor | Le rappel des oiseaux [2’57]
14. Suite in E minor | Rigaudons I, II & double [2’07]
15. Suite in E minor | Musette en rondeau [2’14]
16. Suite in E minor | Tambourin [1’17]
17. Suite in E minor | La villageoise (rondeau) [2’31]
18. Suite in D major | Les tendres plaintes (rondeau) [2’58]
19. Suite in D major | Les niais de Sologne [5’15]
20. Suite in D major | Les soupirs [3’57]
21. Suite in D major | La joyeuse (rondeau) [1’16]
22. Suite in D major | La follette (rondeau) [1’27]
23. Suite in D major | Lentretien des Muses [5’49]
24. Suite in D major | Les tourbillons (rondeau) [2’11]
25. Suite in D major | Les cyclopes (rondeau) [3’05]
26. Suite in D major | Le lardon (menuet) [0’48]
27. Suite in D major | La boiteuse [1’01]
28. Menuet en rondeau in C major [0’35]

Disc: 2
1. Suite No 2 in A minor | Allemande [6’37]
2. Suite No 2 in A minor | Courante [3’51]
3. Suite No 2 in A minor | Sarabande [2’40]
4. Suite No 2 in A minor | Les trois mains [4’38]
5. Suite No 2 in A minor | Fanfarinette [2’37]
6. Suite No 2 in A minor | Le triomphante [1’28]
7. Suite No 2 in A minor |Gavotte [7’26]
8. Suite in G minor |Les tricotets (rondeau) [1’40]
9. Suite in G minor | Lindifferente [1’41]
10. Suite in G minor | Menuets I & II [3’02]
11. Suite in G minor | La poule [4’42]
12. Suite in G minor | Les triolets [3’59]
13. Suite in G minor | Les sauvages [2’18]
14. Suite in G minor | Lenharmonique [5’41]
15. Suite in G minor | Legiptienne [3’41]
16. La Dauphine [2’49]
17. Les petits marteaux [1’42]

Mahan Esfahani, cravo

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Mahan Esfahani, um monstro
Mahan Esfahani, um monstro

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Gustav Mahler (1860-1911): A Canção da Terra (Haitink)

Gustav Mahler (1860-1911): A Canção da Terra (Haitink)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Se Mahler não é um compositor para diletantes, o que dizer de A Canção da Terra (Das Lied von der Erde)? Na lista de maestros que gravaram a obra há poucos que não são de primeira linha. A obra é belíssima, muito sutil e difícil. Não é para qualquer orquestra ou regente. É algo para Haitink. A Canção da Terra é considerada por alguns a obra mais importante de Mahler. Nesta obra, tornam-se visíveis as qualidades mais singulares do compositor: a angústia existencial e a sublime grandiosidade. A obra consiste num ciclo de seis canções baseadas em antigos poemas chineses, adaptados para o alemão por Hans Bethge. Mahler trabalhou nesta sua obra durante os últimos verões da sua vida. Conseguiu concluí-la em 1911, pouco antes de morrer. Ele não chegou a ouvir a estreia, apesar de tê-la interpretado inúmeras vezes ao piano, auxiliado por seu amigo e aluno Bruno Walter — que viria a estreá-la em Munique, em novembro de 1912, um ano e meio após a morte do compositor. Tudo aqui é esplêndido, mas o último movimento… Olha, é muito poético, a instrumentação rarefeita de Mahler é levada às ultimas consequências, é tudo lindo demais. Consta que Das Lied von der Erde não foi catalogada como sinfonia devido a uma superstição que pesava sobre os músicos alemães: ninguém ousava ultrapassar o número nove. Beethoven, Schubert e Dvorak tinham morrido após suas nonas e Mahler não quis escrever a sua… Quando escreveu, pum, vocês já sabem, ele morreu… Mas A Canção da Terra é nitidamente uma sinfonia vocal, que culmina a linha composicional mahleriana — melancólica, pessimista porém cheia de bandinhas, melodiosa, monumental porém íntima — iniciada na Primeira Sinfonia. Eu amo as sinfonias de Mahler de 1 a 7. Amo A Canção da Terra. Detesto a Oitava, sou indiferente à Nona e volto a amar o fragmento da Décima… Para finalizar, um conselho para nosso leitor: não escreva sua Nona Sinfonia, é muito perigoso.

Gustav Mahler (1860-1911): A Canção da Terra (Haitink)

1 1. Das Trinklied Vom Jammer Der Erde 8:14
2 2. Der Einsame Im Herbst 10:26
3 3. Von Der Jugend 3:07
4 4. Von Der Schönheit 7:31
5 5. Der Trunkene Im Früling 4:25
6 6. Der Abschied 31:07

Mezzo-soprano Vocals – Janet Baker
Tenor Vocals – James King
Orchestra – Concertgebouw Orchestra, Amsterdam*
Conductor – Bernard Haitink

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Olivier Messiaen (1908-1992): Quarteto para o fim dos tempos (Nash)

Olivier Messiaen (1908-1992): Quarteto para o fim dos tempos (Nash)

O Quarteto para o fim dos tempos para piano, clarinete, violino e violoncelo foi composto a partir de maio de 1940 no campo de prisioneiros Stalag VIIIA e executado pela primeira vez no mesmo local no dia 15 de janeiro de 1941 para 5000 prisioneiros. A partitura é encabeçada com o seguinte excerto do Apocalipse de São Jõao (10, 1-7): “Vi um anjo poderoso descer do céu envolvido numa nuvem; por cima da sua cabeça estava um arco-íris; o seu rosto era como o Sol e as suas pernas como colunas de fogo. Pôs o pé direito sobre o mar e o pé esquerdo sobre a terra e, mantendo-se erguido sobre o mar e a terra levantou a mão direita ao céu e jurou por Aquele que vive pelos séculos dos séculos, dizendo: não haverá mais tempo; mas nos dias em que se ouvir o sétimo anjo, quando ele soar a trombeta, será consumado o mistério de Deus”.

A estruturação da obra em oito movimentos é explicada por Messiaen da seguinte forma: “Sete é o número perfeito, a criação em seis dias santificada pelo Sábado divino; o sete deste repouso prolonga-se na eternidade e se converte no oito da luz inextinguível e da paz inalterável”.

1 – Liturgia de cristal

“Principia com o despertar dos pássaros entre três e quatro horas da manhã. Um melro ou um rouxinol solista improvisa, acompanhado por um conjunto de trilos perdidos no alto das árvores. Esta cena transposta para o plano religioso significa o silêncio harmonioso do céu”.

2 – Vocalise, para o anjo que anuncia o fim dos tempos

Este movimento divide-se em três partes. “A primeira e a terceira parte , muito breves, evocam o poder desse anjo. A segunda parte representa as harmonias intangíveis do céu. No piano, doces cascatas de acordes envolvem o canto monótono do violino e do violoncelo”.

3 – Abismo dos pássaros

“O abismo é o tempo, com suas tristezas e aborrecimentos. Os pássaros, pelo contrário, simbolizam o nosso desejo de luz, de estrelas, de arco-íris e de demonstração de júbilo”.

4 – Intemédio

“Scherzo, de caráter menos íntimo que os outros movimentos, mas relacionado com eles por citações rítmicas e melódicas”.

5 – Louvor à eternidade de Jesus

Neste número, “Jesus é considerado um quarto Verbo. Uma grande frase, extremamente lenta do violoncelo, exprime com amor e devoção a eternidade deste Verbo poderoso e doce, para quem os anos jamais terão fim. Majestosamente, se extenue numa espécie de tenra e suprema distância”.

6 – Dança do furor para as sete trombetas

Do ponto de vista rítmico é a peça mais característica da série. “Os quatro instrumentos, sempre em uníssono, imitam os gongos e trombetas do Apocalipse. Em toda a obra é a única alusão ao aspecto cataclísmico do juízo final”.

7 – Turbilhão de arco-íris, para o anjo que anuncia o fim dos tempos

Repetem-se aqui trechos do segundo movimento. “O poderoso anjo aparece e sobretudo o arco-íris que o cobre (arco-íris: símbolo da paz, da sabedoria e de uma vibração luminosa e sonora”).

8 – Louvor à imortalidade de Jesus

“Este segundo louvor dirige-se especialmente à segunda natureza de Jesus, a Jesus-homem, ao Verbo feito carne, ressuscitado para nos dar a vida. É todo amor. A lenta ascensão até o extremo agudo é a elevação do homem até o seu Deus, do Filho de Deus até o Pai, da criatura divinizada até o Paraíso”.

Olivier Messiaen (1908-1992): Quarteto para o fim dos tempos (Nash)

1. No. 1, Liturgie de cristal
2. No. 2, Vocalise pour l’ange qui annonce la fin du temps
3. No. 3, Abime des oiseaux
4. No. 4, Intermede
5. No. 5, Louange a l’eternite de Jesus
6. No. 6, Danse de la fureur, pour les sept trompettes
7. No. 7, Fouillis d’arcs-en-ciel, pour l’ange qui announce la fin du temps
8. No. 8, Lourange a l’immortalite de Jesus

Nash Ensemble

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Messiaen observa um, novo fim dos tempos no Brasil de Bolsonaro. Melhor mesmo ficar com teus pássaros, Olivier.

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.: interlúdio :. Astor Piazzolla (1921-1992): Astor Piazzolla y su Quinteto – Adiós Nonino

.: interlúdio :. Astor Piazzolla (1921-1992): Astor Piazzolla y su Quinteto – Adiós Nonino

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Bem, não vamos exagerar. Mas este talvez seja o melhor LP de Astor Piazzolla. Ainda sem exagerar, digo que talvez ele mereça estar entre os melhores de todos os tempos. Inicia com duas obras conhecidíssimas e segue com outras não tão divulgadas, mas que são absolutamente LINDAS, com destaque para Coral e para o Final da Tangata. E, vejam só, um montão de gente grava Piazzolla. É justificado, claro, todos podem dar suas versões da obra do mestre, só que eu acho que ninguém jamais superou as gravações originais. Há algo de maior e mais ousado em Piazzolla por Piazzolla. O disco foi gravado entre março e junho de 1969 nos estúdios Ión SA em Buenos Aires e depois foi remasterizado.

Astor Piazzolla (1921-1992): Astor Piazzolla y su Quinteto – Adiós Nonino

1 Adiós Nonino 8:04
2 Otoño Porteño 5:10
3 Michelangelo 70 3:20
4 Coral 6:00

Tangata (Silfo Y Ondina) (18:27)
5 Fugata 3:50
6 Soledad 6:52
7 Final 7:47

Bandoneón, Written-By – Astor Piazzolla
Contrabass – Kicho Díaz*
Guitar – Oscar López Ruiz*
Piano – Dante Amicarelli
Violin – Antonio Agri

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Piazzolla numa visita ao Tango Salon Sonido de Oro da PQP Bach Corp.

PQP

.: interlúdio :. John Surman: Brewster’s Rooster (2009)

.: interlúdio :. John Surman: Brewster’s Rooster (2009)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Tal como Jan Garbarek, o reflexivo saxofonista britânico John Surman (1944) determinou sua identidade em meio a sombrios tons menores. Mas não é o que ocorre neste álbum solto e jazzístico, onde é acompanhado por um espetacular Abercrombie e pela renascida poliríta do impressionante Jack DeJohnette. Aqui, Surman está longe de seus projetos semiclássicos com quartetos de cordas ou corais. Surman reaparece com agilidade folclórica em Hilltop Dancer e No Finesse. Também demonstra ferocidade em Kickback, onde ele e DeJohnette parecem trancar-se num quarto para desferirem ofensas um ao outro. E é emocionante. Com colaboradores de longa data, Brewster’s Rooster é um tremendo CD. E fazia tempo que eu não trazia um Surman, não?  E como é bom ouvir seu o som de seus saxofones.

John Surman: Brewster’s Rooster

1. Slanted Sky 6:34 $1.29
2. Hilltop Dancer 7:27
3. No Finesse 6:52 $1.29
4. Kickback 7:25
5. Chelsea Bridge 5:49
6. Haywain 6:18
7. Counter Measures 10:44
8. Brewster’s Rooster 6:37
9. Going For A Burton 6:48

John Surman, saxofones
Jack DeJohnette, percussão
John Abercrombie, guitarra
Drew Gress, baixo

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John Surman: só melhora com os anos
John Surman: só melhora com os anos

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Johannes Brahms (1833-1897): Concerto Duplo / Sinfonia Nº 2 (Haitink, LSO, Nikolitch, Hugh)

Johannes Brahms (1833-1897): Concerto Duplo / Sinfonia Nº 2 (Haitink, LSO, Nikolitch, Hugh)

Bernard Haitink e a Orquestra Sinfônica de Londres sempre tiveram excelente relacionamento. A orquestra sempre foi viva e receptiva às suas demandas, um fator que é sempre melhor avaliado em gravações como esta, que é de uma performance ao vivo. Este concerto foi particularmente bem preparado e ocorreu no Barbican Center, em Londres, em maio de 2003.

Depois de lutar muito para completar sua primeira sinfonia, Brahms a Sinfonia nº 2 com facilidade e a obra transborda com uma beleza descontraída e pastoral. A leitura da Sinfonia nº 2 de Brahms é cheia de luz e Haitink encontra todas as vozes internas às vezes enterradas na espessa escrita orquestral de Brahms. Esta é uma leitura brilhante e alegre, com excelentes respostas de todas as seções em suas porções solo.

A segunda parte desta gravação — na verdade tocada primeiro no CD — é o Concerto Duplo de Brahms, no qual o primeiro violoncelista Tim Hugh e o concertino, o violinista Gordan Nikolitch surgem como competentes solistas. Esta leitura enfatiza a atmosfera das danças húngaras de Brahms. Os solistas enfatizam o sabor cigano raramente ouvido em performances desta composição estranha e talvez insatisfatória, em comparação aos outros concertos de Brahms. O finale é carregado de exaltação e intensidade. Gordan Nikolitch e Tim Hugh são expressivos, nunca vistosos. Eles estão no mesmo nível do que as duplas de estrelas que gravaram o trabalho antes.

Johannes Brahms (1833-1897): Symphony No 2 / Double Concerto (Haitink, LSO, Nikolitch, Hugh)

Double Concerto (33:35)
1 Allegro 17:23
2 Andante 7:19
3 Vivace Non Troppo 8:43

Symphony No 2 (41:11)
4 Allegro Non Troppo 15:56
5 Adagio Non Troppo 9:49
6 Allegretto Grazioso (Quasi Andantino) 5:32
7 Allegro Con Spirito 9:39

Gordan Nikolitch
Tim Hugh
London Symphony Orchestra
Bernard Haitink

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Haitink: bom de Mahler, bom de Bruckner, bom de Brahms, bom em tudo.

PQP

Dia Internacional da Mulher: Hildegard von Bingen (1098-1179): Music From Symphonia Harmonia Caelestium Revelationum (Alba)

Dia Internacional da Mulher: Hildegard von Bingen (1098-1179): Music From Symphonia Harmonia Caelestium Revelationum (Alba)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Um belíssimo CD, muito bem interpretado. As obras de von Bingen são realmente excelentes, de uma estranha e permanente intensidade. Bem, como eu sou um amante da cerveja — espero que a maioria de vocês também seja –, confiram abaixo o papel desta “gênia” medieval na produção da bebida. Afinal, Santa Hildegard (sim, ela foi canonizada) é a Santa do Lúpulo. Foi a abadessa e santa alemã que relatou, no século XII, a propriedade conservante do lúpulo na cerveja. E ela também descreveu o orgasmo feminino, o que faz dela uma pioneira.

Feminista, santa e rebelde: A monja que descreveu o orgasmo feminino há 900 anos

Por Laila Vidal

Ela foi pintora, poeta, compositora, cientista, monja, filósofa, médica e profeta. Conheça a incrível história de Hildegarda de Bingen, a monja feminista que escrevia poemas de amor e sexo, e descreveu o orgasmo feminino no ano de 1.140 d.c.

Décima filha de um casal católico, Hildegarda de Bingen teve seu destino determinado ao nascer, seria doada como dízimo à igreja.

Nascida na cidade de Bermersheim na Alemanha no ano de 1.098, Hildegarda foi entregue à Igreja para ser monja.

Seus pais a deixaram em um monastério que possuía uma ala destinada às mulheres quando ela tinha apenas oito anos de idade.

Vitral católico representando à santa Hildegarda de Bingen

Desde os três anos Hildegarda tinha visões, mas só depois dos quarenta começou a escutar uma voz que lhe dizia que escrevesse e desenhasse tudo aquilo que seus olhos e ouvidos alcançassem.

Conheça agora essa mulher incrível que escreveu e desenhou o que sua alma lhe pediu, e nos deixou uma obra intrigante e bela, sobre a mulher, a amor e o sexo.

Quem foi a monja Hildegarda

Pintora, poeta, compositora, cientista, monja, filósofa, profeta… Uma mulher de um poder e uma coragem impensáveis para a época, que conseguiu uma autorização do vaticano para estudar e escrever sobre seus estudos.

Vivendo em um monastério de monjas desde criança, Hildegarda tornou-se abadessa. Atormentada por suas visões convenceu o Papa que a permitisse escrevê-las e assim começou a registrar suas visões, suas previsões, escreveu livros de medicina, de remédios naturais, cosmologia e teologia.

Com o passar do tempo a monja começou a estreitar relações com as autoridades eclesiásticas e políticas tornando-se conselheira, algo que era totalmente vetado para mulheres naquela época.

Uma mulher visionária, detentora de algum poder secreto que a fez ascender a posições jamais imaginadas em uma era medieval, onde mulheres eram queimadas por produzirem remédios caseiros ou simplesmente por escolherem uma religião não cristã.

Hildegarda interpretada por Bárbara Sukowa no filme “Visión”

A monja e o sexo

Com relação ao sexo a monja foi uma revolução quase inacreditável. Hildegarda falava do tema com uma liberdade que não existia na época, especialmente na vida religiosa, e mais ainda se tratando de uma mulher.

Em uma linguagem clara e apaixonada Hildegarda fez o que seria a primeira descrição do orgasmo feminino do ponto de vista de uma mulher e se atreveu a garantir que o prazer sexual era de ambos, homem e mulher, e não somente do homem como se fazia acreditar na época.

Para ela, o ato sexual era algo belo, sublime e ardente. Nos seus livros dedicados à medicina abordou com frequência o tema da sexualidade.

No livro “Causa et Curae” (Causa e Cuidado), escrito por ela, vemos uma descrição detalhada e técnica do ato sexual entre homem e mulher:

“Quando a mulher se une ao homem, o calor do cérebro dela, que tem em si o prazer, faz com que ela saboreie o prazer da união e atraia a ejaculação do sêmen. E quando o sêmen cai em seu lugar, esse fortíssimo calor do cérebro o puxa e o retém consigo, e imediatamente o órgão sexual da mulher se contrai e se fecham todos os membros que durante a menstruação estão prontos para abrir-se, do mesmo modo como um homem forte agarra uma coisa dentro de sua mão.”

Hildegarda de Bigen no livro “Causa et Curae”

Eva e a maça: A verão feminista de Hildegarda sobre o pecado original

Além de sua produção relacionado ao sexo, em particular sobre a mulher e sua sexualidade, Hildegarda tinha uma leitura bem polêmica com relação a diversos dogmas católicos, como por exemplo sua visão ultra feminista de Eva e o pecado original.

No livro “História Medieval do sexo e do erotismo”, Ana Martos explica a forma como Hildegarda percebia a passagem bíblica onde somos apresentados ao pecado através do deslize de Eva com a maça e o assédio da serpente:

“Assim como para Santo Agostinho a concupiscência é o castigo de Deus, para Hildegarda, que não se atreveu a contradizê-lo e admitiu a ideia de que o pecado original era de luxúria, a culpa foi de Satanás, que soprou veneno sobre a maçã antes de entregá-la a Eva, invejoso de sua maternidade. Esse veneno foi, precisamente, o prazer, e seu sabor, o desejo sexual.”

História medieval do sexo e do erotismo – Ana Martos

Incrível o que foi capaz de produzir esta mulher, em 1.140! Uma época onde as mulheres eram perseguidas e queimadas em gigantescas fogueiras. Uma figura especial não só na história do conhecimento, mas também da Igreja Católica.

Cena do filme “Visión” que conta a história de Hildegarda de Bingen

“O desejo sexual é o sabor da maçã”

Hildegarda interpretada por Bárbara Sukowa no filme “Visión”

Poemas de amor e sexo da monja rebelde

O erotismo permeou toda sua obra, seus poemas também levantavam as questões sexuais.

“Tu Dulcissime Amator” (Seu doce amante,) um poema dedicado às virgens:

Nascemos no pó,

ai!, ai!, e no pecado de Adão

É muito duro resistir

O sabor que tem a maçã

Eleva-nos, Cristo Salvador

Cerveja e ressaca, temas que Hildegarda tratou em seus livros sobre saúde

A monja era a favor da cerveja e tinha até uma receitinha caseira para curar a ressaca que aparece em seu livro de medicina “Causa et Curae” (Causa e Cuidado):

“(…) de sua parte, a cerveja engorda as carnes e proporciona ao homem uma cor saudável no rosto, graças à força e boa seiva de seu cereal. Em troca, a água debilita o homem e, se está doente, às vezes lhe causa malignidade ao redor dos pulmões, já que a água é fraca e não tem vigor nem força alguma. Mas um homem saudável, se bebe água às vezes, ela não lhe fará mal.

Para atenuar os sintomas do excesso, molhar uma cadela na água e, com essa água, molhar a frente da pessoa afetada.”

Hildegarda de Bingen no livro “Causa et Curae”

A santa Hildegard von Bingen

Canonizada em 2012, a santa “Hildegard von Bingen” teve uma vida movimentada e repleta de êxitos.

É difícil compreender como uma monja que viveu em uma época onde as mulheres não tinham direito a quase nada, nem mesmo de aprender a ler e escrever, foi capaz de conseguir tanto espaço para se expressar e produzir.

Alguns indícios nos ajudam a chegar mais perto de entender o que foi a vida desta mulher, que estava cercada de encantos e magias inexplicáveis.

Suas várias mortes, as premonições, o uso que fazia da música para curar doenças, e sua morte real aos 82 anos em uma época em que a expectativa de vida era de 40, constroem um pouco essa aura de santa que sempre envolveu a menina que foi dada à Igreja como dízimo.

Hildegarda interpretada por Bárbara Sukowa no filme “Visión”

O filme que conta a fascinante história de Hildegarda Von Bingen

“Visión” foi lançado em 2009 e conta a história desta santa feminista da era medieval.

Os diálogos do filme estão baseados em frases textuais extraídas de seus tratados e cartas.

Aa músicas que compõem a trilha sonora do filme foram compostas pela própria Hildegarda durante sua vida no convento nos anos 1.100.

Um filme lindo para uma história incrível que vale à pena assistir. As fotos que ilustram esse post foram todas tiradas deste filme.

Artistas que se inspiraram na vida da monja feminista

Além da medicina, da ciência e da filosofia, Hildegarda foi uma artista, escreveu poemas e compôs músicas. E claro que inspirou, e continua inspirando até os dias de hoje vários artistas ao redor do mundo.

Um destes artistas é o músico americano Devendra Banhart, que fez uma canção que se chama “Für Hildegard von Bingen”.

Esta música foi inspirada nesta santa alemã, revolucionária e feminista.

Deixo aqui o videoclipe da música, com Hildegarda sendo interpretada por uma joven negra, rebelde e feminina, que foge do convento para ser uma cantora de sucesso.

Esta foi Hildegarda von Bingen, uma santa, rebelde e feminista que nos fascina pela força com que se manteve fiel aos seus ideais, mesmo vivendo em uma época onde as mulheres não deveriam falar, nem pensar.

Próxima semana vamos conhecer a história de mais uma mulher intrigante e inspiradora, que ousou ser mais do que a sociedade permitia a uma mulher ser.

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Hildegard von Bingen, a santa do lúpulo

Por Sergio Crusco

Quem já pesquisou a história dos ingredientes cervejeiros – mais especificamente o lúpulo – provavelmente topou com o nome da abadessa alemã Hildegard von Bingen, um dos luminares do conhecimento sobre a flor que dá amargor e aroma à cerveja, além de conservar a bebida. Como virou santa em 1584, é fácil imaginar que vez em quando se dê uma rezadinha para Hildegard, para que a brassagem não desande ou sobre dinheiro e saúde para a próxima boa cerveja.

Hildegard, nascida em 1098 na Renânia, tem fama cervejeira merecidíssima, mas não é autora da primeira citação a respeito do lúpulo na elaboração de uma de nossas bebidas prediletas, como se diz à boca larga. A glória cabe a outro santo, Adelardo, que em 822, no monastério beneditino de Corbie, França, enumerava obrigações dos abades – uma delas fornecer um décimo do malte e do lúpulo colhido ao monge incumbido de fabricar a cerveja. Adelardo não deixa claro como o lúpulo era utilizado na fabricação de cerveja, mas chegou antes. De qualquer forma, não perca sua fé: reze para os dois santos.

Hildegard foi quem, pela primeira vez, explicitou a qualidade conservante do lúpulo para a cerveja, embora não fosse grande fã dos efeitos da planta no organismo. Em sua avaliação, o lúpulo deixava o cabra meio jururu, caidão. “Ele não é muito útil ao bem estar do homem, porque faz a melancolia crescer, deixa a alma do homem triste e faz pesar seus órgãos internos. Porém, como resultado de seu próprio amargor, evita certas putrefações das bebidas, às quais deve ser adicionado, e assim elas podem durar muito mais tempo”, escreveu na obra Physica Sacra, de cerca de 1150, em que descreve o uso medicinal e prático de várias espécies que pesquisou.

Se você ainda devota Hildegard como a mais lupulina de todas as santas, é bom saber que ela preferia uma cerveja mais levinha, feita à base de aveia, gruit e folhas de freixo. Na mesma obra ela dá a receita: “Se você também deseja fazer cerveja com aveia sem lúpulo, mas apenas com gruit, deve fervê-la depois de adicionar um número muito grande de folhas de freixo. Esse tipo de cerveja purga o estômago do bebedor e torna seu coração leve e alegre”.

Outro mito que envolve Hildegard von Bingen é o de que ela própria teria sido mestre-cervejeira. Adoraríamos ardentemente acreditar nisso, mas não há documento que prove a destreza da santa no comando das panelas de brassagem. O historiador da cerveja Martyn Cornell, no entanto, acredita sua obra deixa indícios suficientes de que ela manjava de longe a técnica de fazer cerveja com lúpulos e é de se supor que tenha de fato colocado a mão na massa em algum momento. Suposição com base em sua história de mulher curiosa.

Pioneira na cerveja, no feminismo,  na causa ecológica e na música

Uma história peculiar e avançada para a época, dada a posição inferior da mulher na Europa do século 12 e em séculos subsequentes. Como décimo rebento da família (na época era comum ter-se mais de uma dezena de filhos), Hildegard nasceu predestinada a ser confiada à igreja, como mandava a tradição. Aos 8 anos foi entregue aos cuidados de Jutta, mestra em um claustro de monjas no mosteiro beneditino de Disibodenberg, onde em 1114 fez seus votos definitivos e ingressou na ordem.

De pequena tinha visões e acreditava ouvir a voz divina. Viveu em relativa clausura até chegar à casa dos 40 anos, mas acredita-se que tenha desenvolvido seus conhecimentos de medicina e botânica atendendo a gestantes e doentes que acorriam ao mosteiro. Dizia não ter tido uma educação muito esmerada, mas a obra caudalosa que escreveria durante a segunda metade de sua vida (chegou aos 81) prova o contrário.

Em 1141, teve uma visão que a ordenou que escrevesse tudo o que ouvia. Era Ele, afinal, quem mandava aquela brasa. Pôs mãos à obra e seus escritos chegaram ao conhecimento do Papa Eugênio III, que deu aval ao seu pensamento teológico. A aprovação papal fez de Hildegard uma celebridade na Europa e, fato incomum para uma mulher da época, viajou por Alemanha e parte da França pregando a doutrina cristã em público – a única mulher na história medieval a fazê-lo. Em vida, sua obra foi aceita pelos teólogos da Universidade de Paris, então a mais respeitada instituição de ensino europeia. A essa altura, também atendendo ao chamado de uma visão, já havia criado seu próprio mosteiro, em Bingen am Rhein (daí a alcunha von Bingen).

Sua obra extrapolou as questões de fé (como sabemos, chegou à cerveja) e envolveu teses e saberes que inspiram até hoje os movimentos feminista e ambiental. Não via o papel da mulher em seu tempo como satisfatório e foi a primeira a escrever sobre sexualidade e ginecologia, inclusive descrevendo o orgasmo feminino. Fez alegorias em que Deus era a figura de uma mãe amamentando a humanidade e a criação. Sua visão da medicina tinha caráter holístico, acreditava na união indissolúvel do homem com a natureza (não se formou médica, no entanto, pois o ensino era vetado para mulheres). Uma de suas profecias (fez várias) pregava que a profanação da natureza faria com que ela se voltasse contra o homem. Alguma relação com aquecimento global, efeito estufa e outras catástrofes modernas?

Foi biografada por dois monges com quem conviveu e essas obras ajudaram o processo de canonização, uma vez que lhe atribuíam milagres. Estudiosos atuais, porém, discutem a origem das visões de Hildegard. Uma turma acredita que se tratava de alucinações, causadas por uma espécie de neurose histérica, ou obra de uma terrível enxaqueca crônica. Há quem seja da tese de que Hildegard foi mesmo esperta: numa época em que não se ouvia a voz da mulher em nenhum assunto considerado sério, o prestígio de uma suposta revelação divina poderia abrir-lhe os ouvidos alheios.

Como se fosse pouca coisa, Hildegard von Bingen ainda compôs uma obra musical – evidentemente sacra, para ser cantada por freiras. Sua música ficou esquecida por séculos até 1979, quando ganhou as primeiras gravações. Lançado em 1982, o álbum A Feather On The Breath Of God, da soprano inglesa Emma Kirkby, virou hit. Hoje há dezenas de gravações disponíveis. E milhares de cervejas, mais ou menos lupuladas, para nosso prazer.

Hildegard von Bingen (1098-1179): Music From Symphonia Harmonia Caelestium Revelationum (Alba)

1 O Viriditas 8:48

O Virilissima Virga (11:35)
2 O Virilissima Virga
3 Columba Aspexit
4 O Virilissima Virga

5 O Euchari 8:32

6 O Quam Mirabilis Est 3:27

7 Ave Generosa 8:08

Caritas Abundat (10:22)
8 Caritas Abundat
9 O Frondens Virga
10 O Nobilissima Viriditas

11 O Spirit Sancto 8:07

Alto Vocals – Agnethe Christensen
Harp – Helen Davies
Pipe [Pipe & Pasaltery], Tar (Drum), Triangle – Poul Høxbro
Members of the vocal ensemble CON FUOCO

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Hildegard von Bingen

PQP

Dia Internacional da Mulher: Hildegard von Bingen (1098-1179) — Hildegard von Bingen e sua época (Herpichböhm / Ganser / Lutzenberger / Schwamm)

Dia Internacional da Mulher: Hildegard von Bingen (1098-1179) — Hildegard von Bingen e sua época (Herpichböhm / Ganser / Lutzenberger / Schwamm)

Um disco muito bom, sempre variado e interessante, com obras ou de von Bingen ou que giram em torno desta surpreendente e talentosa mulher medieval. Este disco é fino e raro. A gravação é ao vivo e muito boa, com aquele ar pirata porque ninguém limpou os sons do público em meio às interpretações.

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Mística, teóloga, escritora de livros de medicina natural e compositora. O Dia Internacional da Mulher é a data ideal para relembrar uma das personagens femininas mais interessantes da Idade Média.

Da Deutsche Welle

Talvez a abadessa alemã Hildegard von Bingen tenha sido a primeira feminista da história.

Num mundo medieval dominado pela insegurança, pelo clero e por senhores feudais, Von Bingen não se deixou dominar. Com muita habilidade e trabalho, construiu e administrou dois conventos, escreveu livros de teologia, medicina e ciências naturais, compôs música sacra. Sua maior batalha, no entanto, foi não se deixar calar.

Hildegard von Bingen desafiou sua época

Habilidades especiais

Quando Hildegard nasceu – não se pode precisar o dia em 1098 –, as primeiras cruzadas partiam para Jerusalém. Em 1095, o papa Urbano 2° conclamara a cristandade a “libertar a Terra Santa das mãos dos infiéis”, o que aconteceu quatro anos mais tarde.

A religiosa é sempre é retratada escrevendo

Com os cruzados, não somente pagãos, judeus e muçulmanos foram combatidos, mas também ensinamentos do Oriente chegaram à Europa medieval.

Hildegard provinha de família nobre da região de Alzey, no sul da Alemanha. Já aos três anos de idade, a futura abadessa demonstrava habilidades visionárias. Mas foi somente aos 15 anos, como interna do convento junto ao mosteiro beneditino de Disibodenberg, que percebeu quão especial era a habilidade que possuía.

Como era de costume entre as famílias nobres medievais, meninas e meninos saíam de casa, já na idade de sete anos, para a formação como cavaleiros e freiras. Além disso, muitas famílias preferiam ver suas filhas num convento do que nas mãos de um bruto senhor feudal.

Trívio e quadrívio

Relíquias de Von Bingen estão em Eibingen

Além da leitura dos escritos sagrados, a curiosa Hildegard pôde, no convento beneditino, aprender a ler e a escrever rudimentos de latim. Ela não teve, no entanto, um aprendizado sistemático dos cânones do conhecimento medieval baseados nas sete artes liberais, divididas em trívio (gramática, retórica e dialética) e quadrívio (aritmética, geometria, música e astronomia). Isto era reservado aos membros masculinos da ordem.

Hildegard viveu vários anos como uma simples freira. Com a morte da tutora Jutta, em 1136, ela se tornou a superiora do convento. Sempre acometida de doenças, tentava esconder suas visões. Aos 42 anos, recebeu a incumbência divina de escrevê-las. Por medo da tarefa, caiu doente. Somente após a intervenção de Volmar, seu padre-confessor, e do abade Kuno, ela começou sua obra.

Hildegard trabalhou durante cinco anos no livro Scivias (Saiba o caminho), ditando-o para Volmar, que corrigia gramaticalmente os escritos em latim. São Bernardo de Clairvaux, um dos maiores teólogos do século 12, interveio junto ao papa Eugênio 3° em prol de Hildegard. O papa enviou uma comissão para examinar o caráter de seus escritos. Não houve dúvidas, eram palavras de Deus.

Novas visões

Abadia foi reconstruída em Eibingen, em estilo neoromânico

Pouco tempo depois, uma nova visão acometeu a futura abadessa. Deus lhe ordenava construir seu próprio convento, não mais sob a égide dos monges beneditinos. Estes ficaram bastante insatisfeitos com a decisão. O apoio papal tornara a visionária a atração do mosteiro em Disibodenberg. Hildegard caiu novamente doente, conseguindo assim vencer a resistência do abade Kuno, de quem se despede em 1150.

Acompanhada pelo monge Volmar, Hildegard construiu seu convento em Rupertsberg, próximo à cidade de Bingen, onde nunca morou, mas que lhe deu o nome pelo qual é conhecida até hoje.

Hildegard demonstrou grande talento como administradora. Conseguiu o apoio do papa e do arcebispo de Mainz na briga com os monges de Disibodenberg pelas terras, até então administradas pelos monges beneditinos, dadas pelas famílias das freiras que a acompanharam para o novo convento.

Sem proteção, nenhum convento poderia sobreviver na Idade Média. A prespicácia de Hildegard fez com que tanto o arcebispo de Mainz como seu admirador Frederico Barbarossa, eleito imperador do Sacro Império Romano Germânico, se tornassem responsáveis pela segurança de Rupertsberg.

Causa e cura

Cidade de Bingen deu nome à abadessa

No convento, a abadessa afrouxa as regras beneditinas. A música é muito importante para Hildegard. Para receberem o sacramento da comunhão, suas freiras, com anel no dedo e vestidas de branco e de flores, entoam canções que ela mesmo compunha. A idéia do casamento substitui a da morte na relação com Cristo, o que explica as procissões de freiras que antes pareciam fúnebres. Para Hildegard, a Igreja é uma mulher ao lado do Senhor.

Os trabalhos no hospital e na horta do convento levam a duas outras importantes obras da abadessa, o livro de ciências naturais Physica e o livro de medicina natural Causae et Curae, escritos entre 1151 e 1158. A obra de Hildegard sobre plantas medicinais escrita em 1158 é, até hoje, referência da medicina natural. Assim como São Bernardo de Clairvaux, Hildegard não acredita encontrar Deus na razão.

Ela aprendeu a olhar os lírios dos campos e a ver neles a presença divina que também levaria a cura de doenças. Para ela, o homem saudável estava em sintonia com Deus. Hildegard aliou a antiga medicina dos gregos, propagada por Galeno, à fé cristã. Para ela, micro e macrocosmo interagem lado a lado em sua percepção do homem e de Deus. Para honrar a Deus, o homem teria que interagir com seu meio-ambiente.

O século 12 trouxe muitas mudanças para a Idade Média, que se distanciava da idéia de um Deus absoluto. Hildegard foi aristotélica avant la lettre. Somente no século seguinte, São Tomás de Aquino, o mais sábio dos santos, resgataria teologicamente o aristotelismo na doutrina cristã.

Telúrica demais para ser santa

Miniatura de ‘Scivias’: Hildegard em visão divina

Por volta de 1160, novas visões divinas lhe levaram a pregar por diversas cidades alemães. Em Colônia, ela se opôs ao luxo do clero e à acídia dos cátaros. Em Trier, combateu a arrogância de clérigos e eruditos. Hildegard também se posicionou contra o fanatismo religioso da plebe. Em 1165, fundou em Eibingen um novo convento, que visitava duas vezes por semana.

Ela previu a própria morte para o dia 17 de setembro de 1179. E assim o foi. Hildegard von Bingen foi canonizada por decreto papal somente em 2012 pela Igreja Católica. Sua sagacidade também lhe gerara resistência e controvérsia. Talvez por isso seu processo de canonização tenha levado quase 900 anos.

Por outro lado, como poderia ter sido diferente para uma mulher que ousou penetrar um terreno destinado aos homens, alguém que sempre esteve tão próximo à terra?

Para Hildegard von Bingen, Deus existe para aqueles que achavam que ele existe. Pela mesma lógica, ela sempre foi santa para aqueles que achavam que ela o era. O boom da medicina natural prova que suas ideias ressoam até hoje, pois as doenças da sociedade industrial não podem ser curadas com os remédios que ela mesmo produz.

Hildegard von Bingen (1098-1179): Hildegard von Bingen e sua época

01 – Hildegard von Bingen – O magne Pater
Length: 2mn 59s

02 – Hildegard von Bingen – O aeterne Deus
Length: 2mn 12s

03 – Hildegard von Bingen – Ave generosa
Length: 4mn 23s

04 – Hildegard von Bingen – O frondens virga
Length: 5mn 12s

05 – Petrus Abaelardus – Planctus David
Length: 9mn 31s

06 – Hildegard von Bingen – O felix anima
Length: 3mn 42s

07 – Hildegard von Bingen – Ave, Maria, o auctrix vitae
Length: 4mn 17s

08 – Petrus Abaelardus – O quanta qualia
Length: 4mn 59s

09 – Anonimo – Promat chorus hodie
Length: 3mn 21s

10 – Anonimo – Verbum patris humanatur
Length: 1mn 37s

11 – Anonimo – Annus novus in gaudio
Length: 4mn 48s

12 – Magister Iohannes Legalis – Vox nostra resonet
Length: 2mn 15s

13 – Anonimo – Fulget dies celebris
Length: 2mn 8s

14 – Hildegard von Bingen – O quam mirabilis
Length: 5mn 36s

15 – Hildegard von Bingen – O virtus sapientiae
Length: 2mn 47s

16 – Hildegard von Bingen – O vis aeternitatis
Length: 6mn 0s

17 – Bis: La quinte estampie royal (instr.)
Length: 3mn 8s

Vocals, Guitar [Chittara Sarasenica], Harp, Percussion – Rainer Herpichböhm
Vocals, Psaltery, Percussion – Hans Ganser
Vocals, Recorder, Shawm – Sabine Lutzenberger
Vocals, Vielle, Lira, Shawm, Hurdy Gurdy, Liner Notes – Heinz Schwamm

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Claude Debussy & Maurice Ravel: Quartetos de Cordas (Emerson)

Claude Debussy & Maurice Ravel: Quartetos de Cordas (Emerson)

O acoplamento dos extraordinários Quartetos de Debussy e Ravel é muito comum, mas felizmente faz muito mais sentido do que outros pares que andam por aí. Para ambos os compositores, seus quartetos de cordas foram suas primeiras incursões na música de câmara. As duas são representativas de seus anos de formação antes de ganharem reconhecimento. Muitas semelhanças podem ser encontradas também na comparação da música. Os dois quartetos têm movimentos introdutórios rápidos, seguidos de um scherzo com partes de pizzicato, um movimento lento e um final vigoroso. Ravel foi acusado de imitação, pois Debussy produziu o seu primeiro, em 1893, e o de Ravel veio dez anos depois. Ravel estava em boas relações com Debussy na época e obviamente admirava seu Quarteto o suficiente para escrever parecido, o que levou os críticos a comentar que o trabalho de Ravel era apenas uma boa repetição do primeiro. Ravel sempre se ressentiu dessas acusações e protestou contra elas. As obras receberam reações estranhas quando estreadas. César Franck e Gabriel Fauré, professores de Debussy e Ravel respectivamente, tiveram apenas palavras de desaprovação a dizerem sobre a direção estilística de seus alunos. Mas a gente não dá bola, a gente gosta dos dois, um pouquinho mais do de Ravel. Já o Emerson é um capítulo especial. Que baita quarteto de cordas! Que prazer ouvir seu som vigoroso quando é o caso e delicado quando precisamos disso…

Claude Debussy & Maurice Ravel: Quartetos de Cordas (Emerson)

Claude Debussy – String Quartet In G Minor Op. 10
1 Animé Et Très Décidé 6:23
2 Assez Vif Et Bien Rythmé 3:46
3 Andantine, Doucement Expressif 7:42
4 Très Modéré — Très Mouvementé Et Avec Passion 7:08

Maurice Ravel – String Quartet In F Major
5 Allegro Moderato 8:13
6 Assez Vif — Très Rythmé 5:59
7 Très Lent 8:38
8 Vif Et Agité 5:14

Emerson String Quartet

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O Emerson nasceu em 1976 — tem 46 anos. Esta gravação é de 1990, quando eles ainda tinham cabeças castanhas e esta foto é 2014.

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