O post de hoje dá início a uma série de nove discos que reúnem a integral das obras orquestrais (as óperas estão de fora, à exceção de versões suíte, mas os concertos estão dentro) de um daqueles que, afinal, melhor soube criar mundos cintilantes e imaginativos a partir da paleta sonora da orquestra sinfônica moderna: o alemão Richard Strauss (1864-1949). Um repertório que compreende algumas das estrelas mais brilhantes da literatura de concerto do século XX.
Os nove discos da caixa trazem o registro de um encontro muito feliz entre um regente visionário e uma orquestra com muito talento e orgulho de sua tradição, Rudolf Kempe e a mítica Staatskapelle Dresden. Ele foi diretor artístico da orquestra e da Semperoper Dresden entre 1949 e 1952, quando a cidade era apenas ruínas e dor, mas a parceria — concertos, turnês, festivais e muitas gravações — se estendeu para o resto da vida do maestro. As gravações aqui reunidas foram feitas entre 1970 e 1975, já nos últimos anos da vida de Kempe, que viria a falecer em 1976, em Zurique, na Suíça.
Kempe regendo a Staatskapelle Dresden, 1975
O primeiro disco da caixa traz duas das mais importantes, conhecidas, tocadas e influentes obras de Strauss: Assim Falou Zaratustra (Also Sprach Zarathustra), Op. 30, e Morte e Transfiguração (Tod und Verklärung), Op. 24. Completam o álbum duas versões de concerto de trechos de óperas: a Suíte de Valsas de O Cavaleiro da Rosa, Op. 59, e a Música de Luar, de Capriccio, Op. 85.
Aproveitando as comemorações pascoais do próximo domingo, faço retornar uma bela postagem — pela música, jamais por meu texto — alusiva à efeméride, escrita entre a compra de um ovo de chocolate e outro. Como chocólatra incondicional, amo a Páscoa! Este é CD lindamente interpretado por este conjunto que desconhecia. Claro, Pachelbel não é Bach, mas não julgo possível que os pequepianos mais afeitos ao barroco torçam seus sensíveis narizes para estas peças muito difíceis de se encontrar por aí. O CD é excelente! Bom Coelhinho para todos!
Johann Pachelbel (1653-1706): Cantatas de Páscoa (La Capella Ducale, Musica Fiata, Roland Wilson)
1. Deus In Adjutorium
2. Christ Lag In Todesbanden
3. Halleluja! Lobet Den Herrn
4. Christ Ist Erstanden
5. Jauchzet Dem Herrn
6. Magnificat In C Major
“There is in Poulenc a bit of monk and a bit of hooligan.” Claude Rostand
Este disco ganhou quatro em cinco estrelas da coluna Lebrecht Weekly e basta ouvi-lo para entender o porquê. O programa é formado principalmente pelas sonatas para violino e piano e para violoncelo e piano. O resto são lindas peças para essas mesmas combinações, mas também algumas surpresas, como você poderá perceber ao ouvir o disco ou reparar na lista dos créditos, logo a seguir.
Eu me encanto sempre com a canção Les chemins de l’amour e aqui você poderá ouvir dois arranjos dela: para violino e piano e para violoncelo e piano.
Para fechar o disco um número do balé Les Mariés de la tour Eiffel, chamado Le discours du Général. Os diversos números musicais do balé foram compostos pelos compositores do Grupo do Seis.
Veja trechos dos comentários da coluna do Lebrecht: The music performed here is from the 1940s, not the happiest of decades, but Poulenc was adept at shutting out headline news. […] Here he engages in confidential conversation between violin and piano, cello and piano, and something called a ‘pipeau’, which calls to mind a medical laboratory. Nowhere does Poulenc harbour dark thoughts. The players – violinist Tatiana Samuil, cellist Justus Grimm and pianist David Lively – keep it light and wistful.
A música tocada aqui é da década de 1940, não a mais feliz das décadas, mas Poulenc era adepto de bloquear as manchetes. […] Aqui ele se envolve em uma conversa confidencial entre violino e piano, violoncelo e piano, e algo chamado de “pipeau”, que lembra um laboratório médico. Em nenhum lugar Poulenc abriga pensamentos sombrios. Os músicos — a violinista Tatiana Samuil, o violoncelista Justus Grimm e o pianista David Lively — mantêm o ambiente leve e melancólico.
Francis Poulenc (1899 – 1963)
Sonate pour violon et piano, FP 119:
Allegro con fuoco
Intermezzo
Presto Tragico
Léocadia
Les chemins de l’amour (Arr. for violin & piano by Francis Poulenc)
Sonate pour Violoncelle et Piano, FP 143:
Allegro – Tempo di Marcia
Cavatine
Ballabile
Finale
Souvenir pour violoncelle et piano
Souvenir
Villanelle pour pipeau et piano
Villanelle
Léocadia
Les chemins de l’amour (Arr. for Cello & Piano by Francis Poulenc)
The titular ‘Chemins de l’Amour’ is a song Poulenc wrote for an Yvonne Printemps show in December. Who would know Paris was under German occupation? Poulenc kept his window shut.
Estreada em Paris em 1911, L’heure espagnole é uma ópera cômica, e só isso já a diferencia das grandiosas e sérias óperas de Wagner e Verdi e dos one-hit-wonders de Bizet e Debussy nos palcos. Passada na Espanha como boa parte das obras de Ravel (Alborada del gracioso, Rapsodie Espagnole…), a ópera tem apenas um ato e, sem grandes acrobacias vocais, talvez o maior destaque seja para a originalíssima orquestração que remete ao tema dos relojoeiros com vários tipos de tic-tacs, carrilhões, sinos, cucos, etc.
O libretto é de Franc-Nohain, poeta amigo de Alfred Jarry, este último o autor de Ubu rei, obra-prima do teatro do absurdo. Não vou entrar em detalhes aqui mas a cena se passa em Toledo, Espanha, e a única mulher tem diálogos mais ou menos sedutores com alguns dos homens… enfim, o mais importante é a orquestra de Ravel, que aparece nesta gravação em primeiro plano ao contrário de discos antigos de maestros como B. Maderna, E. Ansermet e A. Cluytens nos quais os detalhes orquestrais ficavam um tanto abafados.
Já em Shéhérazade o ambiente é o do orientalismo, é claro, que também interessou a outros compositores do mesmo período como Rimsky-Korsakov e Richard Strauss (Salomé). Ravel completou 150 anos de nascimento em março deste ano, logo após o carnaval, e a data passou batida aqui neste blog, então deixo, mesmo atrasada, essa lembrança acompanhada de obras menos frequentemente gravadas do que outras como La Valse, Gaspard de la nuit e os dois Concertos para Piano.
Maurice Ravel (1875–1937):
Shéhérazade
(Três Poemas para voz e orquestra)
Stéphanie D’Oustrac (soprano)
L’heure espagnole
(Ópera cômica em um ato)
Concepción – Stéphanie D’Oustrac (soprano)
Torquemada – Jean-Paul Fouchécourt (tenor)
Ramiro – Alexandre Duhamel (barítono)
Don Inigo Gomez – Paul Gay (baixo)
Gonzalve – Yann Beuron (tenor)
Radio-Sinfonieorchester Stuttgart des SWR
Stéphane Denève
Recorded: 2014-2015
Mais um excelente CD trazendo o soprano Miriam Feuersinger, aquela cujo sobrenome diz tudo. Na enorme obra de cantatas de Johann Sebastian Bach, as “cantatas de diálogo” ocupam uma posição muito especial: como se em um diálogo pessoal, a ‘alma cristã’ (soprano) e ‘Cristo’ (baixo) entram em diálogo, quase como em uma ópera. Bach se refere às palavras de Martinho Lutero, segundo as quais “a fé une a alma a Cristo como uma noiva ao seu noivo”, e assim se vincula à ideia medieval do misticismo nupcial. Esse diálogo se torna um “dueto de amor” espiritual, por assim dizer, que Miriam Feuersinger e Klaus Mertens — ambos estão entre os grandes intérpretes de Bach do nosso tempo — interpretam aqui da maneira mais íntima. As duas cantatas “Ich geh und suche mit Verlangen” BWV 49 e “Liebster Jesu, mein Verlangen” BWV 32 são complementadas pelo Concerto para Oboé em Dó maior GWV 302 de Christoph Graupner, interpretado pela oboísta Elisabeth Grümmer.
J. S. Bach (1685-1750): Cantatas BWV 49 & 32 / C. Graupner (1683-1760): Concerto para Oboé (Feuersinger, Grümmer, Ensemble der »Bachkantaten in Vorarlberg«)
Bach, J S: Cantata BWV49 ‘Ich geh und suche mit Verlangen’ 26:22
I. Sinfonia 6:57
II. Aria (Bass): Ich geh und suche mit Verlangen 4:59
III. Rezitativo – Dialog (Sopran & Bass): Mein Mahl ist zubereit‘ 2:05
IV. Aria (Sopran): Ich bin herrlich, ich bin schön 5:47
V. Rezitativo – Dialog (Sopran & Bass): Mein Glaube hat mich selbst 1:44
VI. Duetto (Sopran & Bass): Dich hab ich je und je geliebet 4:50
Miriam Feuersinger (soprano), Klaus Mertens (bass-baritone)
Ensemble der »Bachkantaten in Vorarlberg«
Graupner: Oboe d’Amore Concerto in C major, GWV302 11:02
I. Vivace 4:53
II. Tempo giusto 2:14
III. Allegro 3:55
Elisabeth Grümmer (oboe)
Ensemble der »Bachkantaten in Vorarlberg«
Bach, J S: Cantata BWV32 ‘Liebster Jesu, mein Verlangen’ 23:58
I. Aria (Sopran): Liebster Jesu, mein Verlangen 6:24
II. Recitativo (Bass): Was ists, dass du mich gesuchet? 0:27
III. Aria (Bass): Hier, in meines Vaters Stätte 7:16
IV. Recitativo Dialogo (Sopran & Bass): Ach! heiliger und großer Gott 2:52
V. Aria Duetto (Sopran & Bass): Nun verschwinden alle Plagen 5:35
VI. Choral: Mein Gott, öffne mir die Pforten 1:24
Miriam Feuersinger (soprano), Klaus Mertens (bass-baritone)
Ensemble der »Bachkantaten in Vorarlberg«
A cultura não é meramente conhecimento, não é algum tipo de realização artística, mas sim um modo de vida.
László Németh
Tudo culpa de Bartók. O cara me deixou tão curioso sobre o folclore húngaro que simplesmente tento ouvir tudo o que passa por mim. O Muzsikás é um grupo de Budapeste que surgiu do movimento “Tanchaz” (literalmente, “casa de dança”) da década de 1970, quando os húngaros começaram a se interessar profundamente por sua herança folclórica, aprendendo a dançar e tocar músicas antigas. Os músicos do grupo, assim como Bartók e Kodály, fizeram viagens fantásticas para a Transilvânia e coletaram canções com a última geração de autênticos músicos e dançarinos folclóricos. Neste disco, testemunhamos o respeito e o amor que ligam os jovens aos músicos mais velhos e que ainda os conectam até hoje. Na Transilvânia, a música parece brotar espontaneamente. O Muzsikás consiste em violinos, um contrabaixo de três cordas tocado com um arco curto e a voz etérea de Marta Sebyesten. Como disse, a música em “The Prisoner’s Song” consiste em grande parte de composições folclóricas da Transilvânia. Lembre-se, a Transilvânia era parte da Hungria e, mais tarde, do Império Austro-Húngaro até depois da Primeira Guerra Mundial. Hoje, ela faz parte de Romênia e é conhecida por suas cidades medievais, fronteiras montanhosas e castelos como o de Bran, uma fortaleza gótica associada à lenda do Drácula. Bem, embora todas as músicas tenham sido compostas independentemente umas das outras, o Muzsikás as arranjou neste álbum para contar uma espécie de conto: uma história de desejo, amor e liberdade. A música é autêntica, nunca datada e não “modernizada” em nenhuma extensão. Mihaly Csipos toca seu violino como um velho cigano, Marta Sebyesten é angelical. Os Muzsikás são bastante populares na Hungria, e o movimento Tanchaz continua com força total.
Muzsikás: The Prisoner’s Song
A1 Rabnóta = Prisoner’s Song 4:12
A2 Eddig Vendég = The Unwelcome Guest 3:49
A3 Azt Gondoltam, Esö Esik = I Thought It Was Raining 4:02
A4 Hidegen Fújnak A Szelek = Cold Winds Are Blowing 3:10
A5 Bujdosódal = Outlaw’s Song 5:06
B1 Repülj Madár, Repülj = Fly Bird, Fly 3:32
B2 Régen Volt, Soká Lesz = It Was Long Ago 4:06
B3 Szerelem, Szerelem = Love, Love 4:30
B4 Én Scak Azt Csodálom = I Am Only Wondering 4:47
B5 Elment A Madarka = The Bird Has Flown 4:15
“Começou de forma muito simples: apenas uma pulsação no registro mais baixo. Então, de repente, bem acima, soou uma única nota no oboé, que ficou ali, inabalável, me perfurando, até que a respiração não conseguiu mais segurá-la, e um clarinete a tirou de mim e a adoçou em uma frase de tal deleite que me fez tremer. A luz tremeluziu na sala. Meus olhos ficaram nublados… pareceu-me que eu tinha ouvido uma voz de Deus…” Peter Shaffer: Amadeus
Mozart claramente amava instrumentos de sopro: eles geralmente são como cantores lado a lado das vozes reais em suas óperas e são os verdadeiros cantores em sua música instrumental. Richard Bratby
Eu adorei esse disco, que tem como peça principal a Serenata em si bemol maior K 361, mais conhecida como a Gran Partita. Quando Mozart a compôs em 1781, em Munique, dispunha de excelentes músicos do naipe de sopros, que estavam a serviço da Corte Bávara e eram originários da famosa Orquestra de Mannheim. A Gran Partita foi composta para 13 instrumentos de sopros, sendo que um contrabaixo é geralmente usado na parte do contrafagote. A genialidade de Mozart produziu uma obra prima em um gênero considerado menor.
Música para conjuntos de sopros com seis, oito instrumentos, era muito comum e servia para acompanhar a vida social dos nobres e abastados. Esse tipo de música era chamado de harmoniemusik e seu repertório contava com peças originais, divertimentos, serenatas, assim como arranjos de óperas de sucesso.
Além da obra prima de Mozart, o disco nos brinda com outras duas composições que exemplificam essa forma musical. Johnn Nepomuk Wendt fez um arranjo de oito trechos de O Rapto do Serralho para um conjunto de instrumentos de sopros. Esse arranjo certamente é reflexo do sucesso dessa primeira ópera composta por Mozart após sua mudança de Salzburgo para Viena. É uma delícia reconhecer os momentos correspondentes da ópera, como o dueto de Blonde e Osmin ou o último movimento, outro cômico momento envolvendo o malvado Osmin e o esperto Pedrillo.
Joan Enric Lluna, fundador do excelente conjunto Moonwinds
Na última parte da maravilhosa Don Giovanni há um jantar para o libertino cavaliere para o qual uma orquestra de sopros, uma harmonie, é contratada. Essa orquestra toca exatamente trechos de óperas de sucesso. Mozart coloca nesse momento um trecho de uma ópera de um ‘rival’, Vicente Martín y Soler, Lo Spagnulo, como os vienenses o chamavam. Soler era um músico que peregrinou por várias cidades europeias e por um certo período viveu em Viena. Ele fez sucesso compondo óperas, ao lado de Mozart e Salieri. Assim como no caso de Mozart, Soler produziu três óperas com libretos de Lorenzo da Ponte. Entre elas, Una cosa rara, a ópera que mereceu uma citação de Mozart. No disco, um arranjo de trechos dessa ópera feito pelo próprio Soler. Se você baixar o disco e ouvir até o fim, vai lembrar-se do trecho da ópera Don Giovanni no qual Una cosa rara é citada…
Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)
Serenata em si bemol maior K.361 Gran Partita
Largo – Molto Allegro
Menuetto – Trio I – Trio II
Adagio
Menuetto: Allegretto – Trio I – Trio II
Romance: Adagio – Allegretto
Tema con 6 variazioni (Andante)
Finale (Molto Allegro)
El Rapto En El Serrallo
Arranjo de Johann Nepomuk Wendt (1745-1801)
Presto – Abertura (Presto)
Hier Soll Ich Dich Sehen
Ich Gehe, Doch Rate Ich Dir
Durch Zärtlichkeit Und Schmeichein
Wenn Der Freude Tränen Fliessen
Ha, Wie Will Triumphieren
Welche Wonne, Welche Lust
Viva Bacchus, Bacchus Lebe
Vicente Martín y Soler (1754-1806)
Divertimento para octeto de sopros sobre temas de ‘Una cosa rara’
Moonwinds was born from the artistic initiative of Joan Enric Lluna with the desire to bring together outstanding wind instruments to form a stable group of chamber music
O grupo Sopros da Lua
Seção ‘The Book is on the Table’: Moonwinds show a more balanced approach, play all the repeats, and give us, in the two extra items, a vivid impression of the scope of Viennese wind music in the 1780s. JN Wendt’s arrangement of eight numbers from Die Entführung is imaginative and professional, and the Martín y Soler, drawn from his operatic hit Una cosa rara, has a third movement that’s the very piece Mozart quoted in Don Giovanni (using Martín’s own wind arrangement). Moonwinds play all this with spirit and finesse (the oboe solo in the second movement of the Martín is especially fine).
Trago uma pequena colaboração à série de posts que o patrão PQP Bach tem feito com o resgate da monumental obra de J. S. Bach pelas mãos de um dos maiores pianistas de todos os tempos, o canadense Glenn Gould (1932-1982). Essa aqui é uma gravação curiosa e pouco conhecida da obra que definiu os rumos de sua carreira, as Variações Goldberg, BWV 988, e que não é nem a pioneira de 1955, que o alçou ao estrelato, nem o seu canto do cisne gravado em 1981.
(spoiler: mês que vem tem outra)
A versão que trazemos hoje é anterior à primeira — esta é de 1954, o ano em que Gould passou a tocar a obra em público. Aliás, salvo engano, esta é a gravação mais antiga de Gould a sobreviver até os dias de hoje: uma transmissão ao vivo da rádio CBS de um recital em Toronto, no dia 21 de junho de 1954. Ou seja, praticamente exatamente um ano antes da histórica gravação nos estúdios da Columbia na 30th Street, em Nova Iorque, que aconteceu entre 10 e 16 de junho de 1955.
Gould durante a gravação das Goldberg em NY, 1955
O som da gravação contém problemas e é irregular, como se poderia esperar, já que essa é uma gravação particular em discos de acetato de 33 rpm feita pelos Gould em casa, a partir da transmissão radiofônica. Isso à parte, é um documento interessantíssimo, de valor inestimável, da gênese de um dos artistas mais discutidos e influentes da era de ouro das gravadoras, profundamente inquieto e sempre original. Completam o disco quatro prelúdios e fugas do segundo livro de O Cravo Bem Temperado.
J. S. Bach (1685-1750) Variações Goldberg, BWV 988
1 a 32 – Ária e 30 variações
O Cravo Bem Temperado, vol. II
33, 34 – Prelúdio e Fuga no. 14, em fá sustenido menor, BWV 883
35, 36 – Prelúdio e Fuga no. 7, em mi bemol maior, BWV 786
37, 38 – Prelúdio e Fuga no. 22, em si bemol menor, BWV 891
39,40 – Prelúdio e Fuga no. 9, em mi maior, BWV 878
Glenn Gould, piano
Transmissão radiofônica de recital do dia 21 de junho de 1954, em Toronto, no Canadá.
Post publicado originalmente em 1º de janeiro de 2012
Um bom modo de começar o ano. Sem exageros e já fazendo a desintoxicação pós-festa. Uns russos que tocam muito bem fazem um repertório bastante conhecido dos pequepianos. Um disco consistente para que deve ser baixado e ouvido tranquilamente neste começo de 2012, ano em que o Internacional vencerá mais uma Copa Libertadores da América. Peço sinceras desculpas aos gremistas e corintianos. Sei que o mundo vai acabar este ano e, como parece que o mundo acaba cedo em dezembro, espero não ter que enfrentar o Barcelona. Menos um problema.
Ah, não esqueçam que, se o mundo acabar, o Michel Teló acaba junto.
W. A. Mozart (1756-1791): Concerto para Piano Nº 23 e para Violino Nº 3
Piano Concerto No.23 in A major, K 488
I.Allegro
II.Adagio
III.Allegro assai
Violin Concerto No.3 in G major, K 216
I.Allegro
II.Adagio
III.Rondo
Veronika Reznikovskaya, piano
Mikhail Gantvarg, violin
Solist of St.Petersburg Chamber Ensemble
Artistic director Mikhail Gantvarg
Recorded by Petersburg Recording Studio, 1994
Um absurdo de bom este Hamilton de Holanda. Tudo é bom neste CD ao vivo. As interpretações, as composições — das 8 faixas, 4 são de Hamilton — e, vocês sabem, quando é Milton é bom. Hamilton tem uma longa discografia seja suas próprias composições ou homenagens a alguns de seus ídolos. Ele lançou suas gravações em sua própria gravadora independente, Brasilianos, ou em parceiros mundiais como Universal, ECM, MPS, Adventure Music. Ele entende que a indústria musical precisa de definições de categorias para a música que toca, como por exemplo Jazz, Brazilian Jazz, Brazilian Popular Music; mas para ele a inspiração transcende os rótulos, é algo que cresce livremente sem a necessidade de ser definido. Gosta de se explicar como um explorador musical em busca de beleza e espontaneidade. Dividiu o palco ou gravou com Wynton Marsalis, Chick Corea, The Dave Mathews Band, Paulinho da Costa, Chucho Valdes, Egberto Gismonti, Ivan Lins, Milton Nascimento, Joshua Redman, Hermeto Pascoal, Gilberto Gil, Richard Galliano, John Paul Jones, Bela Fleck, Stefano Bollani entre muitos outros.
.: interlúdio :. Hamilton de Holanda: 01 byte 10 cordas
1 . No Rancho Fundo — Ary Barroso , Lamartine Babo
2 . Ainda Me Recordo — Pixinguinha , Benedito Lacerda
3 . O Sonho — Hamilton de Holanda
4 . 01 Byte 10 Cordas — Hamilton de Holanda
5 . Pedra Sabão — Hamilton de Holanda
6 . Flor Da Vida — Hamilton de Holanda
7 . Disparada — Théo de Barros , Geraldo Vandré
8 . Adiós Nonino — Astor Piazzolla
Hamilton de Holanda, bandolim solo (gravado ao vivo no Rio Design Leblon, Rio de Janeiro (RJ), nos dias 16/12/2004 e 13/01/2005).
Não sei de onde saiu este CD. Não sei de quem ganhei. Não conheço o All your gardening needs, não sei é uma pessoa ou um grupo. É algo super pirata, bastante bom e divertido, que veio num CD vagabundo da MultiLaser. Mas o conteúdo não é nada vagabundo. (Vagabundo é Bolsonaro). São trabalhos bastante ousados sobre canções e falas de Adoniran Barbosa (1910-1982). Um Adoniran elétrico, computadorizado, um pogréssio, enfim. Creio que eu não precise dizer quem foi Adoniran. O brasileiro que veio aqui e desconhece este gênio está convidado a sair deste blog. Imediatamente! O brasileiro que não conhece “Trem das Onze”, “Tiro Ao Álvaro”, “Saudosa Maloca”, “Prova de Carinho” e “Samba do Arnesto” não merece o ar que respira.
Pogréssio: All your gardening needs encontra Adoniran Barbosa
1. Milonga de pampa a sampa
2. Ponte aérea 2099
3. Animado baile jovem no conjunto habitacional Vila Ibiza
4. Por aí
5. `ceridade
6. Apara o casamento
7. Vagabundos / Roubando bolinhas
8. Alfred Hitchcock`s Av. Paulista
9. Carnaval é disco
10. As Chaves
Em 1894, o oficial de artilharia do exército francês Alfred Dreyfus foi levado a julgamento e condenado a prisão perpétua em um tribunal marcial a portas fechadas, acusado de alta traição num processo baseado em documentos falsos e provas forjadas. Depois, novos documentos apontam o verdadeiro culpado. Em um novo julgamento em 1899, contra todas as evidências, outro tribunal referenda a condenação anterior. Indignado, o escritor Émile Zola publica uma carta aberta ao presidente da República, provocando comoção popular. A carta – J’accuse! (Eu acuso!) – se tornou um clássico. Zola recebeu muitos apoios, mas também ameaças antisemitas e xenófobas (seu pai era italiano) e foi processado por difamação pelo Estado francês, se exilando por 11 meses.
Dreyfus foi solto por indulto presidencial e anos mais tarde, já em 1906, foi declarado inocente.*
O romancista Marcel Proust foi um dos melhores cronistas do caso Dreyfus:
“Aconteceu com o dreyfusismo (defensores da liberdade de Dreyfus) o mesmo que com o casamento de Saint-Loup com a filha de Odette, casamento que chocou muitos. Hoje, ao vermos todas as pessoas conhecidas frequentando a casa dos Saint-Loups, aprovamos tudo como se sua esposa fosse uma nobre viúva. O dreyfusismo é hoje integrado a uma série de coisas respeitáveis e habituais. Quanto a se perguntar o que ele valia em si próprio, ninguém pensava nisso, nem para inocentá-lo agora nem para condená-lo antigamente.” (O Tempo Redescoberto)
Em seu romance sobre a passagem do tempo, ele mostra que os gostos e os humores mudam com os anos, que o culpado de hoje é o herói de amanhã e que é um erro delimitar a sociedade em classes estanques:
“De certa maneira as manifestações sociais (muito inferiores aos movimentos artísticos, às crises políticas, à evolução que leva o gosto do público em direção ao teatro de ideias, depois à pintura impressionista, depois à música alemã e complexa, depois à música russa e simples, ou em direção às ideias sociais, às ideias de justiça, à reação religiosa, ao ataque patriótico) são o reflexo distante, rachado, incerto, nebuloso, mutável, desses movimentos. De forma que as pessoas não podem ser descritas em uma imobilidade estática.”
(Sodoma e Gomorra)
Da mesma forma, as estreias da 1ª Sinfonia e do 1º Concerto para Piano de Rachmaninoff foram completos fiascos, que levaram o compositor à depressão e à perda da sua autoestima. Alguns anos depois, em 1901, o 2º Concerto para Piano teve grande sucesso e sua autoestima voltou. Pouco depois vieram os 10 Prelúdios opus 23.
O som de sinos – típico das igrejas russas – era uma obsessão de Rachmaninoff, desde seu Prelúdio em dó # menor op.3, reaparecendo em quase todas suas obras para piano e até em The Bells (1913) para coro e orquestra.
Os críticos xingaram a música de Rach com os adjetivos mais feios da época: romântica demais, acessível, superficial, barata. Era música russa e simples, desse tipo que Proust menciona mais acima. Stravinsky o desprezava.
No entanto, o tempo passa e muitos dos vanguardistas da época hoje viraram nota de rodapé, quase não são ouvidos nas salas de concerto, enquanto a música de Rach ainda é tocada e tem seu público.
Em 1915 Rachmaninoff programou um recital de piano em homenagem a Scriabin (1872-1915), seu compatriota e colega de Conservatório. Os críticos, pra variar, detestaram: o pianista Rach não entendia o estilo de Scriabin e “Enquanto a música de Scriabin flutuava nas nuvens, Rach trouxe-a para a terra”. Essa oposição descreve bem os dois russos: o místico, leve Scriabin e o pesado e depressivo Rach.
Eu pessoalmente gosto da música de Rach para piano e tenho horror a sua escrita orquestral: aquelas cordas exageradamente emotivas dos concertos, aquelas sinfonias previsíveis… Mas há quem goste e, como diria Proust, as modas e os gostos mudam. Nunca diga nunca.
Sergei Rachmaminoff: 10 Preludes op. 23
1) F♯ minor (Largo)
2) B♭ major (Maestoso)
3) D minor (Tempo di minuetto)
4) D major (Andante cantabile)
5) G minor (Alla marcia)
6) E♭ major (Andante)
7) C minor (Allegro)
8) A♭ major (Allegro vivace)
9) E♭ minor (Presto)
10) G♭ major (Largo)
5 Morceaux de Fantaisie op. 3
11) Elegie in E♭ minor
12) Prelude in C♯ minor
13) Melody in E major
14) Polichinelle in F♯ minor
15) Serenade in B♭ minor
Idil Biret tem mais de 3 milhões de CD’s vendidos. A maioria provavelmente de Chopin e Rachmaninoff
Pleyel e o piano russo, parte 1 *Qualquer semelhança com o Brasil é mera coincidência. Ou não. [postagem original de 2018, época do Vampirão na presidência…]
Nada como terminar a semana com uma grande obra-prima numa clássica interpretação que já recebeu três capas diferentes da EMI. Quem não se arrepiar no Kyrie inicial ou não gosta de música ou acabou de deixar de gostar. CD obrigatório, com Leppard em perfeita forma e Kiri nem se fala. Esta nasceu para cantar Mozart. A orquestra é enorme, mas Leppard (1927-2019) era um sujeito que sabia dosar as coisas. Ele não economiza nos tutti, mas aqui eles têm função. A Grande Missa K. 427 é tida como uma de suas maiores obras de Mozart. Ele a compôs em Viena em 1782 e 1783, após seu casamento, quando se mudou de Salzburgo para Viena. É uma missa solene composta para dois solistas soprano , um tenor e um baixo, coro duplo e grande orquestra. Permaneceu inacabada, faltando grandes partes do Credo e do Agnus Dei.
W. A. Mozart (1756-1791): Grande Missa em Dó Menor K. 427 (Cotrubas, Kiri Te Kanawa, New Philharmonia, Leppard)
1 I. Kyrie 8:05
2 II. Gloria: Gloria In Excelsis 2:52
3 II. Gloria: Laudamus Te 4:53
4 II. Gloria: Gratias Agimus Tibi 1:30
5 II. Gloria: Domine Deus 2:52
6 II. Gloria: Qui Tollis Peccata Mundi 6:27
7 II. Gloria: Quoniam Tu Solus Sanctus 4:18
8 II. Gloria: Jesu Christe 0:46
9 II. Gloria: Cum Sancto Spiritu 4:09
10 III. Credo: Credo In Unum Deum 3:59
11 III. Credo: Et Incarnatus Est 8:25
12 IV. Sanctus: Sanctus 2:03
13 IV. Sanctus: Osana 2:16
14 V. Benedictus 6:30
Ilena Cotrubas
Kiri te Kanawa
Werner Krenn
Hans Sotin
John Aldis Choir
New Philharmonia Orchestra
Raymond Leppard
Como eu já falei aqui e aqui, para os meus ouvidos o som mais intimista dos instrumentos de época combina com o espírito romântico de Schubert… esse tipo de romantismo contido, sem exageros nem de alegria nem de melancolia.
Neste álbum gravado nos Países Baixos em 2018, os intérpretes escolheram gravar alguns dos pequenos ciclos de canções publicados por Schubert, por isso mesmo com números de Opus (enquanto os números “D” foram atribuídos depois por pesquisadores). São muito comuns as gravações de canções avulsas, e não há nada de errado nisso, pois no século XIX também era comum cantarem obras avulsas e não necessariamente o ciclo inteiro. Mas aqui Markus e Zvi buscaram apresentar os ciclos na ordem que foi decidida por Schubert em conjunto com os editores de suas partituras. O encarte do álbum explica:
That these have remained for a long time totally unknown can be explained by the decisions and choices made by nineteenth-century music publishers. In the Old Schubert Edition, publication of the Lieder was based on their chronological order, whilst in the complete Peters edition the order was determined by the popularity of the works. The smaller song cycles arranged by Schubert himself were thus broken up completely. Only in the Neue Schubert-Ausgabe, edited by Walther Dürr, were the songs published according to the opus numbers.
The view held by Markus Schäfer and Zvi Meniker about these cycles is that “they were not planned on purpose, like Die schöne Müllerin or Winterreise, but were mostly songs that he wrote at different times and then found connections between them. He always composed according to his mood, without planning in advance. Not like Mozart, who worked on commission or with the prospect of a performance, or like Beethoven with an eye on publishing, but simply by inspiration. Schubert got the spark, and then he wrote. Therefore, every song, no matter how short, is a gem. Hence the many unpublished songs; and he often grouped the songs together quite a long time after their composition, just for publication. There is a clear development in each cycle, each one has a direction, a beginning and an end. Each cycle has a theme, even if it’s a bit hidden sometimes.” That said, there are a number of opera which were conceived as cycles from the outset, for example the Drei Gesänge des Harfners (Op. 12), with texts drawn from Goethe’s novel Wilhelm Meisters Lehrjahre. This is also the case of the Refrainlieder (Op. 95), which were probably composed in June 1828 and were published on August 13 in the same year.
A good number of these smaller song cycles were developed by Schubert around a particular subject. For example, the Op. 5 set consists of five songs to poems by Goethe whose central theme is love. Whilst this opus was put together in 1821 for the publishers Cappi and Diabelli, the Lieder which make it up were composed in 1815 and 1816.
Franz Schubert (1797-1828):
1-5. Fünf Lieder op. 5 (1821), sobre poemas de Johann Wolfgang von Goethe
6-8. Drei Lieder op. 12 (1822), Drei Gesänge des Harfners aus “Wilhelm Meister”, sobre poemas de Johann Wolfgang von Goethe
9-12. Vier Lieder op. 59 (1826), sobre poemas de August von Platen e Friedrich Rückert
13-15. Drei Lieder op. 65 (1826), sobre poemas de Johann Mayrhofer e Friedrich von Schlegel
16-18. Drei Lieder op. 80 (1827), sobre poemas de Johann Gabriel Seidl
19-22. Vier Refrain-Lieder op. 95 (1828), sobre poemas de Johann Gabriel Seidl
MARKUS SCHÄFER tenor
ZVI MENIKER fortepiano after Conrad Graf, Vienna 1819, by Paul McNulty, Divisov 2012
Uma obra prima haydniana nas mãos de Trevor Pinnock e seu English Concert & Choir. Esplêndida versão, com corais magníficos, para se ajoelhar e ficar em adoração, mesmo sendo ateu. Meu irmão PQP já se declarou fã ardoroso destas missas, então irei postar uma série delas, para seu deleite. Para uma análise mais apurada da obra, sugiro este link.
Franz-Joseph Haydn (1732-1809) -Missa In Angustiis “Nelson Mass”, Hob. Xxii:11 In D Minor, Te Deum In C Major – Hob.Xxiiic:2
1. Missa In Angustiis “Nelson Mass”, Hob. Xxii:11 In D Minor – Kyrie
2. Missa In Angustiis “Nelson Mass”, Hob. Xxii:11 In D Minor – Gloria: Gloria In Excelsis Deo
3. Missa In Angustiis “Nelson Mass”, Hob. Xxii:11 In D Minor – Gloria: Qui Tollis
4. Missa In Angustiis “Nelson Mass”, Hob. Xxii:11 In D Minor – Gloria: Quoniam
5. Missa In Angustiis “Nelson Mass”, Hob. Xxii:11 In D Minor – Credo: Credo In Unum Deum
6. Missa In Angustiis “Nelson Mass”, Hob. Xxii:11 In D Minor – Credo: Et Incarnatus Est
7. Missa In Angustiis “Nelson Mass”, Hob. Xxii:11 In D Minor – Credo: Et Resurrexit
8. Missa In Angustiis “Nelson Mass”, Hob. Xxii:11 In D Minor – Sanctus
9. Missa In Angustiis “Nelson Mass”, Hob. Xxii:11 In D Minor – Benedictus
10. Missa In Angustiis “Nelson Mass”, Hob. Xxii:11 In D Minor – Agnus Dei: Agnus Dei Qui Tollis
11. Missa In Angustiis “Nelson Mass”, Hob. Xxii:11 In D Minor – Agnus Dei: Dona Nobis Pacem
12. Te Deum In C Major – Hob.Xxiiic:2 – “Te Deum Laudamus” Allegro
13. Te Deum In C Major – Hob.Xxiiic:2 – “Te Ergo Quaesumus” Adagio
14. Te Deum In C Major – Hob.Xxiiic:2 – “Aeterna Fac Cum Sanctis Tuis -…Allegro Moderato “Aet
Felicity Lott · Carolyn Watkinson Maldwyn Davies David Wilson-Johnson The English Concert and Choir Trevor Pinnock
E não é que os dois letões se entendem? Sem medo de serem invadidos pela Rússia, Skride e Nelsons fazem um Shostakovich absolutamente entusiasmante! Sem exageros ou firulas desnecessárias, a dupla mostra-se perfeita junto à ótima BSO. Em uma demonstração de virtuosismo e musicalidade, os dois letões se unem para uma performance eletrizante do Primeiro Concerto para Violino de Shostakovich. Ambos os concertos são executados com ousadia e podemos imaginar um Nelsons curvado pulando e dançando no pódio enquanto a solista e a orquestra unificados seguem suas deixas. A química entre é inegável. A orquestra e o solista funcionam como uma unidade coesa, sem que um sobrepuje o outro. Skride foi capaz de trazer esplendidamente a Passacaglia para o grandioso final de Shostakovich. O final da peça — diabolicamente sincopado e rápido — torna esta peça especialmente difícil de executar. Mais uma vez, Skride e Nelsons lidaram com este desafio sem esforço. No final da peça, eu já estava na ponta da cadeira implorando que a coisa jamais terminasse. Quanto ao Segundo Concerto, nunca gostei muito dele.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Concertos para Violino Nº 1 e 2 (Skride, Nelsons)
Violin Concerto No.1 in A minor, Op.99 (formerly Op.77)
01 I. Nocturne. Moderato 14:46
02 II. Scherzo. Allegro 06:59
03 III. Passacaglia. Andante 16:04
04 IV. Burlesque. Allegro con brio – Presto 05:19
Violin Concerto No.2 Op.129
05 I. Moderato 15:54
06 II. Adagio 12:16
07 III. Adagio – Allegro 09:33
Baiba Skride
Boston Symphony Orchestra
Andris Nelsons
Friedrich Gulda disse numa entrevista que queria morrer no dia do aniversário de seu compositor predileto, Mozart. Conseguiu o feito; e aparentemente sem provocá-lo! Morreu em 27 de janeiro de 2000. Mas este não é o maior milagre de Gulda. O pianista não era nada ortodoxo e demonstrava um enorme desprezo pelas autoridades da Academia de Viena e outras. Uma vez foi-lhe oferecido o prêmio “Beethoven Ring”, pelas suas interpretações do compositor, mas o prêmio foi recusado por Gulda. Além disso, ele gravou um disco de jazz com Chick Corea, escreveu um Prelúdio e Fuga em ritmo de jazz que foi interpretado por Emerson, Lake & Palmer, compôs Variações sobre Light My Fire, de The Doors. Também gravou standards do jazz no álbum As You Like It.
Mas nem só de estrepolias é feito o austríaco. Ele foi profe de Martha Argerich e Claudio Abbado e é com seu pupilo que realizou estas gravações seminais dos maiores concertos de Mozart. Eu concordo com a escolha. Quem não gostar dela que reclame nos comentários. Será inútil mas pode ser divertido. Talvez eu me irrite se começarem a citar concertos mais jovens. Aliás, já estou ficando meio puto. Vão se fuder.
W. A. Mozart (1756-1791): Os Maiores Concertos para Piano (mesmo?) (Gulda, Abbado, VP)
1. Concerto No.20 In D Minor, K 466 / Allegro
2. Concerto No.20 In D Minor, K 466 / Romance
3. Concerto No.20 In D Minor, K 466 / Rondo
4. Concerto No.21 In C Major, K.467 / Allegro
5. Concerto No.21 In C Major, K.467 / Andante
6. Concerto No.21 In C Major, K.467 / Allegro Vivace
7. Concerto No.25 In C Flat Major, K.503 / Allegro Maestoso
8. Concerto No.25 In C Flat Major, K.503 / Andante
9. Concerto No.25 In C Flat Major, K.503 / Allegretto
10. Concerto No.27 In B Flat Major, K.595 / Allegro
11. Concerto No.27 In B Flat Major, K.595 / Larghetto
12. Concerto No.27 In B Flat Major, K.595 / Allegro
Friedrich Gulda, Piano
Vienna Philharmonic Orchestra
Claudio Abbado, Conductor
Yuja Wang é uma daquelas raras pianistas — aí incluídos os pianistos — que unem vasto repertório, consistência e pernas. Esqueçamos as pernas, mas jamais da elegância da moça nesta gravação. Sua interpretação de Shostakovich é como se ela não tivesse feito outra coisa na vida senão estudá-lo, o que sabemos não ser verdade. O Concerto Nº 1 aparece enormemente sofisticado em suas mãos e nas de Andris Nelsons, este sim um especialista no russo. No passado, os russos reclamavam muito das interpretações recebidas por seus compositores. Eles achavam que os ocidentais sujavam a sofisticação — que eles efetivamente têm — achando que seus compositores deles eram mais “primitivos” do que os nossos. Isto tem mudado, talvez por medo de uma invasão por parte de Gergiev e Putin. Se bem que o acorde dela (aquele acordão, vocês sabem) no último movimento do Primeiro Concerto é digno de um Oreshnik. Bem, a tremenda alegria e os jogos propostos no Nº 2 estão belamente realizados. Explico: o Nº 2 foi dedicado e estreado pelo filho de Shosta, Maxim, e contém muitas alusões ao rebento. Por exemplo, no centro do movimento final há um exercício para pianistas que Maxim devia praticar em casa.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Concertos para Piano Nº 1 e 2 (Wang, Nelsons)
Piano Concerto No.1 for piano, trumpet & strings, Op.35
01 I. Allegro moderato 06:04
02 II. Lento 08:33
03 III. Moderato 01:53
04 IV. Allegro con brio 06:53
Piano Concerto No.2 in F, Op.102
05 I. Allegro 07:03
06 II. Andante 06:07
07 III. Allegro 05:22
Yuja Wang, piano
Thomas Rolfs, trompete
Boston Symphony Orchestra
Andris Nelsons
Sim, um Heifetz, mas não chega a ser uma coisa de louco. Eu não roubaria nem mataria por estas gravações do grande violinista. Gravação jurássica pisando a linha do suportável, não obstante o inigualável talento de Jascha Heifetz. Para quem chegou anteontem de Marte, o lituano Heifetz (1901-1987) foi um dos maiores virtuosos da história do violino, famoso por suas interpretações de Paganini, Beethoven, Brahms, Tchaikovsky, Saint-Saëns, Sibelius e de todos os que passaram por suas mãos. É considerado por muitos o melhor violinista do século XX. Descobri que esta gravação do Concerto de Mozart é dos anos 40 e, bem, era difícil de recuperá-la com um som decente.
W. A. Mozart (1756-1791): Concerto para Violino Nº 5, K. 219 / Sonata para Violino e Piano, K. 378 / Quinteto para Cordas, K. 516 (Heifetz e amigos)
Concerto No. 5 K.219, “Turkish” In A
Allegro Aperto 9:31
Adagio 9:58
Rondeau. Tempo Di Menuetto 6:43
Sonata, K.378 In B Flat
Allegro Moderato 8:14
Andantino Sostenuto E Cantabile 4:27
Rondo Allegro 3:59
Quintet, K.516 In G Minor
Allegro 8:57
Menuetto 4:23
Adagio Ma Non TRoppo 8:16
Adagio: Allegro 8:24
Orchestra – Chamber Orchestra* (tracks: 1–3)
Piano – Brooks Smith (2) (tracks: 4–6)
Viola – Virginia Majewski, William Primrose (tracks: 7–10)
Violin – Jascha Heifetz
Violin [II] – Israel Baker (tracks: 7–10)
Violoncello – Gregor Piatigorsky (tracks: 7–10)
Quando desta postagem original, estávamos completando 6 aninhos. Hoje já temos 18…
Um disco estupendo para os admiradores da música da Renascença. Savall em grande forma. ‘Carlos V’ não busca meramente reconstruir um evento em particular, mas uma vida inteira, a do Imperador Carlos V. Uma ampla gama de peças é apresentada como tendo uma conexão, de uma forma ou de outra, com Carlos V, que teve inúmeras obras dedicadas a ele e que é conhecido por ter aprendido música quando criança. Era um conhecedor de música. Uma figura interessante. Aqueles familiarizados com as gravações de Hesperion XXI sabem o que esperar: “orquestração” colorida, incluindo percussão, e acompanhamento de viola para a música sacra, que geralmente funciona muito bem. As vozes de La Capella Reial de Catalunya sempre valem a pena ouvir.
Alfonso X (El Sabio), Arbeau, Cabezon, Desprez, Encina, Flecha, Isaac, Janequin, Morales, Narvaez, Parabosco, Willaert: A vida musical à época de Carlos V (Savall)
1. Fortuna Desperata: Nasci, Pati, Mori (Isaac) 4:19
2. Dit Le Bourguygnon (Instrumental) (Anónimo (Petrucci)) 1:16
3. Quand Je Bois Du Vin Clairet (Tourdion) (Anónimo) 4:51
4. Amor Con Fortuna (Villancico) (Del Enzina) 2:08
5. Vive Le Roy (Instrumental) (Des Prés) 1:27
6. Todos Los Bienes Del Mundo (Villancico) (Del Enzina) 4:18
7. La Spagna, A 5 (Instrumental) (Des Prés) 3:10
8. Harto De Tanta Porfía (Villancico) (Anónimo (Canc. Palacio)) 7:18
9. Pavana “La Battaglia” (Instrumental) (Janequin / Susato) 2:07
10. Belle Qui Tiens Ma Vie (Chanson) (Arbeau) 3:16
11. Diferencias Sobre “Belle Qui Tiens Ma Vie” (De Cabezón) 3:30
12. Vecchie Letrose (Villanesca Alla Napolitana) (Willaert) 2:33
13. Fanfarria (Anónimo) 1:08
14. Sanctus De La Missa “Mille Regretz”, A 6 (De Morales) 6:10
15. Da Pacem Domine (Ricercare XIV) (Parobosco) 5:01
16. Jubilate Deo Omnis Terra (Motete), A 6 (De Morales) 6:26
17. Mille Regretz (Chanson) (De Prés) 2:17
18. Todos Los Buenos Soldados (La Guera) (Flecha) 1:47
19. Agnus Dei De La Missa “Mille Regretz”, A 6 (De Morales) 7:03
20. Mille Regrets: Canción Del Emperador” (Josquin / De Navráez) 3:02
21. Circumdederunt Me Gemitus Mortis (Motete) (De Morales) 3:09
Minha geração e a anterior foram muito marcadas pelo pianista Glenn Gould (1932-1982). Eu, nascido em 1957, já nos anos 70 queria ouvir as coisas em instrumentos originais –, mas era impossível não considerar a qualidade e as manias de um gênio como Gould. Ele acentuava Bach de um modo diferente, mais inteligente, e sua passagem de 50 anos pelo mundo foi um vendaval. Ele abandonou as apresentações ao vivo em 1964, dedicando-se, desde então, somente às gravações em estúdio, com um estilo de tocar muito peculiar, às vezes excêntrico, mas jamais contornável. Foi discutidíssimo e criava polêmica onde ia ou chegava através de suas interpretações. Era canhoto — o que talvez explique a perfeição implacável de seu ritmo — e tinha uma habilidade talvez só comparável às de Martha Argerich e de Yuja Wang. Mas, contrariamente às citadas, tudo em Gould é conceitual, ele sempre traz novidades, por vezes muito brilhantes e que influenciaram muita gente. Também pode ser irritante. Muitas de suas gravações são tão idiossincráticas que são difíceis de ouvir, a não ser que você seja uma pessoa como eu, que gosta de observar fascinado até onde alguém pode ir. Ele ultrapassava quaisquer limites. Sua gravação das sonatas para piano de Mozart é um exemplo. Ele as gravou por obrigação contratual, mas sua antipatia por Mozart é evidente. Algumas delas ele toca muito suavemente, criando um romantismo que não é de Mozart e que dá vontade de rir, outras ele mutila acelerando tudo como uma caixinha de música alucinada. Tudo muito perfeito, mas feito de maneira voluntariamente ruim. Era sim um gênio atrevido. Mas quando é bom, ele é muito, muito bom. Gould pode ser surpreendente, poético e muito inpirador. Ouça sua gravação do Prelúdio em Dó Sustenido Maior, BWV 872 do Livro II do Cravo Bem Temperado (E sim, é Glenn que você pode ouvir cantando ao fundo!). É isso que torna Glenn Gould um enigma, um contraste inteiro. E muito digno de ser explorado. Como esta gravação estava há muito tempo sem links funcionando e, pior, dividida em dois posts, aqui vai uma revalidação com cara de curadoria, pois sem Gould não dá para ficar.
Johann Sebastian Bach (1685-1750): O Cravo bem temperado, Livros I e II, BWV 846-893 (Gould, piano)
Existe a Música Antiga, o Barroco e há Savall. A abordagem do gambista, violoncelista e regente Jordi Savall à música pré-barroca é tão talentosa e interessada, que parece de um gênero diferente. É um grande mestre que, de forma inesperada e paradoxal, “renova” a música antiga, revelando como ela pode ser, quando interpretada com sensibilidade e senso de estilo. Para completar, Savall promove diálogos interculturais em seus discos e, sem palavras, faz-nos pensar.
Música Antiga com Jordi Savall e o Hesperion XX: Folias & Canarios
1 Folias (Pavana Con Su Glosa) Composed By – Antonio de Cabezón 2:03
2 Fantasia Composed By – Alonso Mudarra 2:45
3 Tiento De Falsas Composed By – Joan Cabanilles* 4:02
4 Jàcaras Composed By – Gaspar Sanz 2:15
5 Canarios Composed By – Gaspar Sanz 2:01
6 Paduana Del Re Composed By – Anonyme* 2:18
7 Saltarello Composed By – Anonyme* 1:10
8 Arpegiatta Composed By – Girolamo Kapsberger* 1:43
9 Gallarda Composed By – Giacomo De Gorzanis* 1:35
10 Canarios Composed By – Girolamo Kapsberger* 2:07
11 Si Ay Perdut Mon Saber Composed By – Jordi Savall, Ponç d’Ortafà* 3:59
12 La Mariagneta Composed By – Anon*, Jordi Savall 1:48
13 Con Que La Lavaré Composed By – Anonyme* 2:19
14 El Pare I La Mare Composed By – Anonyme*, Jordi Savall 3:39
15 Paradetas Composed By – Andrew Lawrence King*, Lucas Ruiz De Ribadayaz* 3:19
16 Clarines Y Trompetas Composed By – Gaspar Sanz 5:29
17 Fantasia Composed By – Joan Cabanilles* 2:33
18 Toccata & Chiaccona Composed By – Alessandro Piccinini 3:44
19 Todo El Mundo En General Composed By – Francisco Correa De Arauxo 3:57
20 Canarios Composed By – Anonyme*, Jordi Savall 2:19
Fechando o mês das mulheres, um disco de Vivaldi com uma orquestra francesa de sonoridade suave e bela, regida por Ophélie Gaillard – que também é a solista dos concertos. Além de concertos variados (para um ou dois violoncelos como solistas, mas também um com dois violinos solando), temos duas árias de óperas de Vivaldi com cello obbligato, nas quais a voz humana e a do instrumento dialogam, prática também comum em algumas árias de Bach.
Em 2024, Ophélie esteve nas notícias de crimes, após um furto em sua casa em uma pequena cidade no leste da França, não muito longe de Genebra (Suíça), onde ela dá aulas. Na noite de 24 de setembro, sua residência em Saint-Julien-en-Genevois se encontrava sem gente e foi invadida por bandidos que levarem equipamentos eletrônicos, um violoncelo – fabricado em 1737 pelo luthier veneziano Francesco Goffriller – e dois arcos de violoncelo. Após dois meses de angústia, Ophélie Gaillard recebeu um telefonema da polícia anunciando que foi encontrado o instrumento: muito provavelmente os ladrões não conseguiram comprador para um instrumento absolutamente único, que os especialistas facilmente identificariam.
No encarte do álbum, escrito em 2020, portanto antes do furto, Ophélie escreveu: já fazem quase quinze anos que divido minha vida com um violoncelo veneziano de voz de baixo profundo e agudos cantantes. Desde então, busquei saber mais sobre sua história, saber quais mãos amorosas haviam escolhido essa madeira excepcional, mas pouco foi possível descobrir de seus segredos, exceto que foi conservado por longos anos em um atelier em Udine, perto de Veneza.
Antonio Vivaldi (1678-1741): I Colori dell’Ombra
CD 1
Cello Concerto In G Minor, Rv. 416
“Sovvente Il Sole” (from Andromeda Liberata, Rv Anh. 117) – Mezzo-soprano: Lucile Richardot
Concerto For 2 Cellos In G Minor, Rv. 531
Concerto For Cello And Bassoon In E Minor, Rv. 409
Concerto For Violoncello Piccolo In G Major, Rv. 414
Sinfonia For Strings And Basso Continuo In C Major, Rv. 112
CD 2
Concerto For 2 Violins And 2 Cellos In D Major, Rv. 575
Cello Concerto In B Flat Major “per Teresa”, Rv. 788 (Larghetto) – Reconstructed By Olivier Fourés
Concerto For Violoncello Piccolo In B Minor, Rv. 424
“Di Verde Ulivo” (from Tito Manlio, Rv. 738) – Contralto: Delphine Galou
Cello Concerto In D Minor, Rv. 405
Cello Concerto In A Minor, Rv. 419 (Allegro)
Cello, Music Director – Ophélie Gaillard
Cello [Second Solo] – Atsushi Sakaï
Pulcinella Orchestra
Recorded: Église luthérienne Saint Pierre (Paris), 2019
Para manter o clima escandinavo, minha próxima contribuição é de uma gravação estupenda do “Peer Gynt”, de Grieg, nas competentes mãos de Esa-Pekka Sallonen, regendo a Orquestra Filarmônica de Oslo, com seu respectivo coral e com a maravilhosa voz de Barbara Hendricks. Essa gravação se destaca exatamente pelas partes cantadas, que poucos conhecem. Geralmente o que é gravado são as duas suítes, se deixando de lado estas preciosidades vocais. Comprei este CD há muitos anos atrás, e nunca mais tive oportunidade de encontrá-lo em outro local. É uma gravação fora dos catálogos da Sony. Em minha opinião, as partes que se destacam, escolha difícil diante da beleza desta obra, são as conhecidas “Canção de Solveig”, interpretada por Hendricks, e o coral na conhecida passagem “In the Hall of Mountain King”. De qualquer forma, é uma gravação maravilhosa. Espero que seja devidamente apreciada, pois é um registro um tanto quanto raro.
Edvard Grieg (1843-1907) : Excertos de Peer Gynt (Hendricks, Salonen, Oslo Philh.)
1 Act one – Prelude : In the wedding garden
2 Act one – The bridal procession passes
3 Act one – Halling
4 Act one – Springar
5 Act two – Prelude : The abduction of the bride – Ingrid’s lament
6 Act two – In the hall of the mountain King
7 Act two – Dance of the mountain King’s daughter
8 Act three – Prelude : Deep in the coniferous forest
9 Act three – Solveig’s song
10 Act three – Ase’s death
11 Act four – Prelude : Morning mood
12 Act four – Arabian dance
13 Act four – Anitra’s dance
14 Act four – Solveig’s song
15 Act five – Prelude : Peer Gynt’s journey home
16 Act five – Solveig’s song in the hut
17 Act five – Whitsun hymn
18 Act five – Solveig’s lullaby
Barbara Hendricks
Oslo Philharmonic Chorus
Oslo Philharmonic Orchestra
Esa-Pekka Salonen
Data de gravação: mai 1989
A cantora paulista Eliane Elias se mudou jovem para os Estados Unidos. É mais um daqueles casos de músicos brasileiros que fazem muito sucesso no exterior mas são desconhecidos no Brasil. Dona de uma discografia imensa, ganhadora de inúmeros prêmios, incluindo dois Grammy Latinos, ela atua como uma embaixadora brasileira da boa música.
Já tocou com muitos músicos de jazz renomados, nem vou listá-los pois a lista é enorme. Teve uma filha com o trompetista norte americano Randy Brecker, a também cantora e compositora Amanda Brecker. Cunhada de um de meus saxofonistas favoritos, Michael Brecker, participou de um dos grandes grupos de Jazz dos anos 80 e 90, o Steps Ahead, banda que ainda pretendo trazer aqui no PQPBach.
Vou trazer para os senhores dois discos dela dedicados a Tom Jobim em sequência, um de 1998, ‘Eliane Elias Sings Jobim” e em outro momento “Eliane Elias Plays Jobim”, também gravado pelo prestigioso selo de Jazz Blue Note. Nos dois discos o que ouvimos é música brasileira de primeira qualidade, interpretada por músicos de altíssimo nível.
Nesta primeira postagem temos “Eliane Elias Sings Jobim” gravado pelo selo Blue Note. Nele ouviremos diversos clássicos da Bossa Nova, com produção do grande Oscar Castro Neves, onde a voz tímida, sem muita força, às vezes quase sussurrada de Eliane, contrasta por vezes com a impetuosidade de um piano virtuoso, porém discreto. Exceção é “Esquecendo Você”, onde um belíssimo solo de piano se destaca. Em “Falando de Amor” ela tem apenas o acompanhamento do violão de Castro Neves, um dos melhores momentos do disco, com certeza. Em “Garota de Ipanema” “Ela é Carioca” e “A Felicidade” o sax de Michael Brecker se destaca, porém sem muitos vôos virtuosísticos do músico. O acompanhamento do Contrabaixo de seu companheiro Marc Johnson e a Bateria de Paulo Braga completam a lista dos músicos. Neste disco eu diria que a voz se sobressai ao piano, os solos são muito discretos e pontuais. Temos aqui com certeza um belíssimo disco de Bossa Nova.
Espero que apreciem.
1 Garota De Ipanema
2 Samba De Uma Nota Só
3 Só Danco Samba
4 Ela E Carioca
5 Anos Dourados
6 Desafinado
7 Falando De Amor
8 Samba Do Aviao
9 A Felicidade
10 Por Toda A Minha Vida
11 How Insensitive
12 Esquecendo Voce
13 Pois E
14 Amor Em Paz
15 Modinha
16 Caminhos Cruzados
Eliane Elias – Piano e Voz
Marc Johnson – Contrabaixo
Oscar Castro-Neves – Violão
Paulo Braga – Bateria
Michael Brecker – Sax Tenor
Café – Percussão