Este CD da coleção Jazz Hour, lançado no Brasil pela Movieplay, é uma compilação que reúne seis faixas do lendário pianista Thelonious Monk, gravadas ao vivo em 1964 durante uma turnê pela Europa. Para os fãs de jazz, é uma oportunidade de ouvir o quarteto de Monk em grande forma, com destaque para a participação do saxofonista Charlie Rouse, que na época já tinha uma parceria consolidada com o pianista. A seleção de músicas é primorosa e representa bem o universo de Monk. A faixa-título, “Blue Monk”, um dos seus blues mais famosos, ganha uma interpretação estendida de quase 12 minutos, cheia de belos solos e daquele espaço característico que Monk dava aos músicos. Outras composições suas, como “Hackensack”, “Light Blue” e “Evidence”, mostram sua genialidade como compositor, com melodias tortas e ritmos que desafiam o ouvinte. A inclusão de “Jackie-Ing” e “Ruby My Dear” completa o panorama, mostrando tanto a vertente mais aventureira quanto a mais lírica do pianista. Comop sempre, a edição da Movieplay Brasil é direta. A qualidade do som é até boa, capturando a energia de uma apresentação ao vivo. Embora não seja uma edição com extras ou remasterizações especiais, ela cumpre muito bem seu papel: oferecer um ótimo registro de Monk em um momento inspirado, a um preço que era acessível na época. É um disco essencial para quem quer conhecer a obra de um dos maiores gênios do jazz.
.: interlúdio :. Thelonious Monk: Blue Monk
1 Hackensack 11:05
2 Light Blue 10:58
3 Evidence 11:41
4 Blue Monk 11:46
5 Jackie-Ing 10:09
6 Ruby My Dear 8:45
Bass – Larry Gales
Drums – Ben Riley
Piano – Thelonious Monk
Tenor Saxophone – Charlie Rouse BAIXE AQUI — DOWNLOAD HERE
A música de câmara de Brahms frequentemente respira de forma sinfônica e poucas obras exemplificam isso tão bem quanto seu Quinteto para Piano, Op. 34. Composta originalmente como uma sonata para dois pianos e depois como um quinteto de cordas, a obra encontrou sua forma definitiva ao unir o piano a um quarteto, criando uma textura de densidade e paixão orquestrais. Nesta gravação histórica, o lendário Quarteto Borodin e a pianista georgiana Eliso Virsaladze enfrentam este desafio com uma combinação de considerável poder e elegância. A performance do Quinteto é marcada por uma urgência que se impõe desde os acordes uníssonos e ameaçadores da abertura. O Borodin, conhecido por seu som encorpado, traz uma leitura limpa e de textura clara. Virsaladze se revela uma pianista que se iguala em estatura à força do quarteto. Sua performance dominante, especialmente nos momentos de clímax, como no Scherzo, onde a energia beira o feroz. Esta abordagem confere à obra uma dramaticidade impressionante, destacando a luta e a paixão intrínsecas à partitura. O Quarteto de Cordas No. 2, que completa o disco, recebe uma interpretação igualmente excelente. Os membros do Borodin, com mais de duas décadas de parceria na época da gravação, exibem um toque polido que confere à obra uma leitura “aristocrática”. A performance é bela, com o movimento lento transmitindo uma doçura melancólica e o finale se mostrando perfeito, na minha opinião.
Johannes Brahms (1833-1897): Quinteto para Piano / Quarteto Nº 2 (Virzaladze, Borodin)
Piano Quintet In F Minor, Op. 34
1 Allegro Non Troppo 15:13
2 Andante, Un Poco Adagio 9:03
3 Scherzo: Allegro ∙ Trio 7:33
4 Finale: Poco Sostenuto ∙ Allegro Non Troppo 10:30
String Quartet No. 2 In A Minor, Op. 51,2
5 Allegro Non Troppo 13:21
6 Andante Moderato 9:34
7 Quasi Minuetto, Moderato 4:56
8 Allegretto Vivace 7:06
Um documento histórico de interpretação musical. Lançado originalmente pela EMI e posteriormente relançado em diversas edições, este disco coloca frente a frente duas obras-primas do compositor vienense sob a ótica de um dos maiores pianistas e quartetos de cordas do século XX.
O Quinteto “A Truta”, gravado ao vivo em junho de 1980 no Castelo de Hohenems, na Áustria, é apresentado sob uma perspectiva notavelmente pessoal e, para muitos, surpreendente. A interpretação de Richter, em colaboração com os violinistas Mikhail Kopelman e Dmitri Shebalin, o violoncelista Valentin Berlinsky e o contrabaixista Georg Hörtnagel, é marcada por andamentos que se contam entre os mais lentos já registrados, uma escolha que confere à obra uma dimensão de intensidade hipnótica e lirismo profundo, afastando-se do jovial e despreocupado que muitas vezes se associa à peça. Longe de ser um defeito, essa abordagem mais ponderada e “richteriana” revela uma faceta menos explorada do quinteto, mergulhando em suas estruturas e na beleza melódica com uma seriedade que beira o contemplativo, como se pode notar especialmente no andamento Andante, que ganha uma duração excepcional e atmosfera onírica. Embora o Scherzo possa parecer um tanto duro para alguns, perdendo parte da leveza habitual, a troca é compensada por uma riqueza de detalhes e uma união de propósitos entre os músicos, que se equilibram com notável sensibilidade, valorizando os momentos em que as cordas devem brilhar, como na cantilena para viola e violoncelo no segundo movimento.
Porém, na minha nada abalizada opinião, o grande atrativo do disco, é a Fantasia “Wanderer” (D. 760), registrada em estúdio em 1963, em Paris, que serve como um complemento de peso e revela o outro lado da personalidade artística de Richter. Aqui, o pianista se entrega à obra com a fúria e a majestade de um titã, enfrentando as imensas dificuldades técnicas com uma desenvoltura que beira o sobre-humano e transformando a peça num monumento de poder e virtuosismo, contrastando com a introspecção do quinteto. Conhecido por sua aversão a gravações em estúdio com edições, Richter imprime uma fluidez impressionante, onde a fúria do Allegro con fuoco e a energia do Presto dão lugar a um Adagio de uma beleza transcendental e toques de uma delicadeza surpreendente. A inclusão desta gravação, que por muito tempo foi difícil de encontrar, transforma o CD em uma peça de colecionador, especialmente para os admiradores do pianista.
Franz Schubert (1797-1828): “Trout” Quintet / “Wanderer” Fantasy ( Borodin Quartet, Sviatoslav Richter)
Quintet For Piano, Violin, Viola, Cello And Double Bass In A Major, D 667 “The Trout”
I. Allegro Vivace 13:32
II. Andante 8:28
III. Scherzo. Presto – Trio 4:28
IV. Thema. Andantino – Var.I-IV 7:38
V. Allegro Giusto 9:57
Fantasy For Piano In C Major, D 760 “Wanderer”
VI. Allegro Con Fuoco Ma Non Troppo 5:54
VII. Adagio 6:51
VIII. Presto 4:33
IX. Allegro 3:34
Sviatoslav Richter (piano)
Mikhail Kopelman (violino)
Dmitri Shebalin (viola)
Valentin Berlinsky (violoncelo)
Georg Hörtnagel (contrabaixo)
Este CD reúne a Sinfonia nº 3 de Serguei Prokofiev (1891-1953), Arcana de Edgard Varèse (1883-1965) e Zavod (Iron Foundry) de Alexander Mosolov (1900-1973), é bom um retrato da modernidade musical do início do século XX. Chailly explora as afinidades entre três obras que, cada uma à sua maneira, celebram a energia, a violência e a transformação de um mundo novo. A Sinfonia Nº 3 de Prokofiev impressiona por sua força dramática e por seu caráter quase expressionista, herdado da ópera O Anjo de Fogo. Em Arcana, Varèse cria uma paisagem sonora monumental, feita de massas orquestrais em constante ebulição. É incrpivel! Já Zavod (Fundição de Ferro) continua sendo uma das mais melhores representações musicais da máquina industrial já compostas. A Orquestra do Concertgebouw responde com virtuosismo extraordinário às exigências dessas partituras. O resultado é uma gravação eletrizante, que combina precisão técnica, impacto sonoro e clareza estrutural. Mais do que uma reunião de obras modernas, este disco revela um momento em que a música procurava reinventar sua linguagem para expressar a velocidade, a inquietação e as promessas de um novo século.
O CD The Imaginary Music Book of J. S. Bach, gravado pelos franceses do Café Zimmermann, apresenta-se como um exercício de especulação histórica e criatividade musical que vai muito além de uma simples antologia. O programa parte de uma premissa fascinante: e se Johann Sebastian Bach tivesse compilado um caderno de música para seu próprio uso, um diário musical íntimo que refletisse seus gostos e influências, em vez dos cadernos didáticos que dedicou à família? Partindo dessa ideia, o grupo, liderado pelo violinista argentino Pablo Valetti e pela cravista Céline Frisch, constrói um recital de câmara de rara elegância e perspicácia, que é menos uma antologia e mais um diálogo imaginado com o compositor.
A espinha dorsal do disco é uma sequência engenhosa que contextualiza a música de Bach. A abertura com a Sinfonia da Cantata BWV 29, executada com uma vivacidade que dispensa a instrumentação original, já anuncia a abordagem do grupo: arranjos e transcrições são feitos com tanta naturalidade que soam como versões definitivas. O ponto central do programa é a grandiosa Sonata Trio da Oferenda Musical (BWV 1079), que é habilmente emoldurada pela Sonata Trio em Si bemol (Wq. 161/2) de seu filho, Carl Philipp Emanuel Bach. Esta justaposição é um golpe de mestre, pois permite ao ouvinte perceber com clareza a transição estilística entre a linguagem contrapontística de Johann Sebastian e o estilo galante e mais livre de C.P.E. Bach, que já anuncia o classicismo. O filho, longe de ser uma mera curiosidade, atua como um comentarista musical que impede a audição de se tornar um ato de devoção monolítica.
A seleção do restante do repertório é astuta, mesclando árias de cantatas, arranjadas para flauta, violino e contínuo, com arranjos atribuídos a ninguém menos que Wolfgang Amadeus Mozart. A inclusão do Adagio e Fuga, KV 404a, baseado em obras de Bach, não apenas sublinha a influência do compositor sobre as gerações futuras, como também insere uma reflexão sobre o “caderno imaginário”, transformando-o num documento que ultrapassa a própria vida de Bach. O programa se encerra com o coral Vor deinen Thron tret ich hiermit (BWV 668), uma peça envolta na lenda apócrifa de ter sido ditada pelo compositor em seu leito de morte.
Em sua formação reduzida para este projeto, o Café Zimmermann soa claro, preciso e polido. O fraseado é ágil e a interação entre os músicos – Karel Valter na flauta traversa, Petr Skalka no violoncelo, além de Valetti e Frisch – é de uma cumplicidade que cativa o ouvinte, que se vê transportado para a atmosfera do lendário café Zimmermann em Leipzig, onde Bach e seu Collegium Musicum entreteriam o público com sua alegria de tocar . Ainda que o conceito do “caderno imaginário” possa parecer um tanto vago e o programa uma colcha de retalhos para alguns, o resultado musical é de uma beleza tão suave e convincente que a busca por uma lógica programática se torna supérflua, pelamor. Este disco é um convite para folhear as páginas de um livro que nunca existiu, mas que soa como se sempre tivesse feito parte do nosso imaginário musical.
J. S. Bach (1685-1750) / C.P.E. Bach (1714-1788) / W. A. Mozart (1756-1791): The Imaginary Music Book Of J. S. Bach (Café Zimmermann)
Wir Danken Dir, Gott, BWV 29
1 Sinfonia In D major 3:26
Trio Sonata In B Flat Major, Wq. 161/2
Composed By – Carl Philipp Emanuel Bach
2 I. Allegro 6:11
3 II. Adagio Ma Non Troppo 4:45
4 III. Allegretto 6:58
Adagio And Fugue KV 404a
5 Adagio E Dolce (After Sonata N° 3 In D Minor, BWV 527 by Johann Sebastian Bach) 3:27
6 Fugue – Allegro (After The Art Of Fugue, BWV 1080 by Johann Sebastian Bach) 7:00
Composed By – Johann Sebastian Bach, Wolfgang Amadeus Mozart
Wir Danken Dir, Gott, BWV 29
7 Aria Hallelluja, Stärk’ Und Macht 4:42
Himmelskönig, Sei Wilkommen, BWV 182
8 Sinfonia In G Major 1:52
Gott Soll Allein Mein Herze Habe, BWV 169
9 Aria Gott Soll Allein Mein Herze Haben 5:25
Schwingt Freudig Euch Empor, BWV 36
10 Aria Auch Mit Gedämpften, schwachen Stimmen 6:17
Ein Ungefärbt Gemüthe, BWV 24
11 Aria Ein Ungefärbt Gemüthe 3:06
Sonate Sopr’il Soggetto Reale, BWV 1079
12 I. Largo 5:15
13 II. Allegro 5:50
14 III. Andante 2:44
15 IV. Allegro 3:09
16 Vor Deinen Thron Tret Ich Hiermit, BWV 668 4:17
Ensemble – Café Zimmermann
Flute – Karel Valter
Harpsichord – Céline Frisch
Violin – Pablo Valetti
Violoncello – Petr Skalka
Sofia Gubaidulina e Osvaldo Golijov compuseram obras monumentais para o projeto Passion 2000 da Bachakademie Stuttgart. Ambas as composições redefinem a tradição clássica da Paixão com abordagens modernas, linguagens multiculturais e reflexões místicas profundas.
A monumental Johannes-Passion de Gubaidulina impressiona pela intensidade mística, pela riqueza tímbrica e por uma linguagem que une tradição religiosa e modernidade radical. A compositora russa baseou-se nos textos do Evangelho de São João e do Livro do Apocalipse, criando a primeira “Paixão” escrita em língua russa. A obra tem um caráter estritamente litúrgico, profundo e místico. Marcada por uma predominância de vozes graves e metais, a música evoca a ressonância de eras antigas, contrapondo os eventos sombrios da crucificação com a esperança da ressurreição, expandida na sequência St John Easter.
Já La Pasión según San Marcos, de Golijov, apresenta uma visão vibrante e multicultural, em que ritmos latino-americanos, elementos populares e força dramática convivem numa celebração de extraordinária energia. O compositor argentino une a música folclórica sul-americana, ritmos cubanos, influências judaicas e o canto litúrgico, trazendo o relato bíblico para um contexto contemporâneo e universal. A obra destaca-se pela alta dramaticidade e vitalidade rítmica, usando a percussão e o canto visceral para retratar Jesus não como o estereótipo europeu, mas como um homem latino-americano e de cor.
O contraste entre os dois compositores é fascinante: Gubaidulina busca a transcendência pelo recolhimento e pela contemplação; Golijov, pela exuberância e pelo movimento. O resultado é um disco que convida à reflexão sobre a diversidade das linguagens musicais contemporâneas e sobre a permanência de temas espirituais num mundo aparentemente secularizado. Uma audição exigente, mas profundamente recompensadora, que revela duas maneiras muito diferentes — e igualmente poderosas — de transformar fé, sofrimento e esperança em música.
Sofia Gubaidulina (1931-2025) / Osvaldo Golijov (1960): Passions (Rilling, Guinand)
St. John Passion = Johannes-Passion Composed By – Sofia Gubaidulina
1-1 Das Wort = The word 1:20
1-2 Fußwaschung = The Washing Of Feet 10:34
1-3 Das Gebot Des Glaubens = The Commandment Of Faith 1:58
1-4 Das Gebot Der Liebe = The Commandment Of Love 2:51
1-5 Hoffnung = Hope 1:58
1-6 Liturgie Im Himmel = Liturgy In Heaven 13:25
1-7 Verrat, Verleugnung, Geißelung, Verurteilung = Betrayal, Denial, Flagellation, Condemnation 13:38
1-8 Gang Nach Golgotha = The Way To Golgotha 14:29
1-9 Eine Frau, Mit Der Sonne Bekleidet = A Woman Clothed With The Sun 1:37
1-10 Grablegung = Entombment 5:11
1-11 Die Sieben Schalen Des Zorns = The Seven Bowls Of Wrath 6:30
Nicholas Isherwood, Corby Welch, Julia Sukmanova, Bernd Valentin
Kammerchor der Musikhochschule Trossingen, Gächinger Kantorei, Radio-Sinfonieorchester Stuttgart des SWR
Helmuth Rilling
St. John Easter = Johannes-Ostern Composed By – Sofia Gubaidulina
2-1 Ostermorgen = Easter Morning 2:42
2-2 Maria Magdalena = Mary Magdalene 3:08
2-3 Erste Erscheinunge Des Auferstandenen Christus Vor Den Jüngern „Empfanget Den Heiligen Geist“ = Christ’s First… 2:43
2-4 “Ich Glaube Nicht” = I Will Not Believe 4:06
2-5 Der Reiter Auf Dem Weißen Pferd = The Rider On A White Horse 5:31
2-6 Zweite Erscheinung Des Auferstandenen Christus Vor Den Jüngern „Und Sei Nicht Ungläubig“ = Christ’s Second Appearance… 1:14
2-7 Intermedium = Interlude 2:45
2-8 „Ich Bin Das Lebendige Brot“ = I Am The Living Bread“ 1:50
2-9 Die Finsternis Vergeht = The Darkness Is Passing Away 1:14
2-10 Dritte Erscheinunge Des Auferstandenen Christus Vor Den Jüngern „Abschied“ = Christ’s Third Appearance To His… 13:25
2-11 Das Gericht = The Judgement 2:53
2-12 „Und Ich Sah Einen Neuen Himmel Und Eine Neue Erde“ = „I Saw A New Heaven And A New Earth“ 6:27
Julia Sukmanova, Nicholas Isherwood, Corby Welch, Bernd Valentin
Radio-Sinfonieorchester Stuttgart des SWR, Kammerchor der Musikhochschule Trossingen, Gächinger Kantorei
Helmuth Rilling
La Pasión Según San Marcos = St. Mark Passion Composed By – Osvaldo Golijov Parte 1
3-1 Visión: Bautismo En la Cruz = Vision: Baptism On The Cross (1. Part) 1:02
3-2 Danza Del Pescador Pescado = Dance Of The Ensnared Fisherman 0:51
3-3 Primer Anuncio = First Announcement 3:42
3-4 Segundo Anuncio = Second Announcement 2:15
3-5 Tercero Anuncio: En Fiesta No = Third Announcement: Not On The Feast Day 1:02
3-6 Dos Dias = Two Days 1:37
3-7 Unción En Betania = The Anointment In Bethany 1:30
3-8 ¿Por Qué? = Why? 3:56
3-9 Oración Lucumí (Aria Con Grillos) = Lukumi Prayer (Aria With Crickets)) 2:02
3-10 El Primer Día = The First Day 1:34
3-11 Judas. El Cordero Pascual = The Paschal Lamb 4:29
3-12 Quisiera Yo Renegar (Aria de Judas) = I Wish To Forswear (Aria Of Judas) 2:43
3-13 Eucaristía = The Eucharist 3:18
3-14 Demos Gracias Al Señor = We Give Thanks To The Lord 5:00
3-15 En El Monte de Los Olivos = On The Mount Of Olives 1:08
3-16 Cara A Cara = Face To Face 1:10
3-17 En Getsemaní = In Gethsemane 1:41
3-18 Agonía (Aria de Jesús) = Agony (Aria Of Jesus) 7:52
3-19 Arresto = The Arrest 2:34
3-20 Danza de la Sábana Blanca = Dance Of The White Sheet 1:30
3-21 Ante Caifás = Before Caiaphas 1:44
Reynaldo González-Fernandez, Luciana Souza, Samia Ibrahim
Orquesta La Pasion, Schola Cantorum de Caracas, Cantoria Alberto Grau
Maria Guinand
Parte 2
4-1 Soy Yo (Confesión) = I Am (Confession)) 2:27
4-2 Escarnio y Negación = Scorn And Denial 1:52
4-3 Desgarro de la Túnica = Tearing Of The Garment 1:23
4-4 Lúa Descolorida (Aria de Las Lágrimas de Pedro) = Colorless Moon (Aria Of Peter’s Tears) 5:51
4-5 Amanecer: Ante Pilato = Morning: Before Pilate 3:46
4-6 Silencio = Silence 1:46
4-7 Sentencia = Sentence 1:56
4-8 Comparsa Al Gólgotha = Parade: To Golgotha 3:24
4-9 Danza de la Sábana Púrpura – Manto Sagrado = Dance Of The Holy Purple Robe 0:36
4-10 Crucifixión = Crucifixion 2:03
4-11 Muerte = Death 1:03
4-12 Kaddish 6:31
Samia Ibrahim, Luciana Souza
Orquesta La Pasion, Schola Cantorum de Caracas, Cantoria Alberto Grau
Maria Guinand
Lançado em maio de 2024 pelo selo Chandos, este álbum que reúne a Sinfonia nº 13 de Dmitri Shostakovich e o De profundis de Arvo Pärt, sob a direção de John Storgårds, é mais do que um simples registo de duas obras do repertório do século XX, o disco propõe um diálogo sombrio e contemplativo entre a memória da tragédia e a esperança. A escolha de Storgårds por abrir o programa com a breve peça de Arvo Pärt revela-se, desde o primeiro instante, uma declaração de intenções. Composto em 1980 e aqui apresentado na versão de 2008 para coro masculino e orquestra de câmara, De profundis é uma meditação sobre o Salmo 130, construída na característica linguagem “tintinnabuli” do compositor . Sob a batuta de Storgårds, e com o Estonian National Male Choir a revelar uma precisão e uma profundidade textual notáveis, a peça soa como um lento cortejo fúnebre, uma descida às profundezas da alma onde a dor se encontra com a possibilidade da redenção. A atmosfera é de uma serenidade gelada, e o toque final do sino, que se extingue no silêncio, prepara de forma magistral o terreno para o turbilhão de angústia que se seguirá.
É esse turbilhão que ocupa o centro do disco: a Sinfonia nº 13, op. 113, “Babi Yar”. Escrita por Shostakovich em 1962 sobre poemas de Yevgeny Yevtushenko, esta é uma obra de uma coragem e uma subversão raras, que denuncia o antissemitismo e a opressão na União Soviética, começando pelo massacre de 33.771 judeus na ravina de Babi Yar, na Ucrânia. É aqui que a interpretação de John Storgårds se diferencia mais radicalmente das abordagens tradicionais. O seu “estilo britânico” afasta-se do expressionismo visceral e da fúria contida que caracterizam as leituras de maestros russos como Kirill Kondrashin. Em vez disso, Storgårds opta por uma leitura contida, de uma clareza quase analítica, onde a tragédia é sugerida mais pela tensão acumulada e pelo relevo dado ao texto do que por gestos ostensivos. Este enfoque é corroborado pela escolha do solista, o baixo-barítono alemão Albert Dohmen. A sua voz, mais conhecida pelos papéis wagnerianos de Wotan e Gurnemanz, não possui o peso agreste e a cor negra de um baixo russo “à Boris Godunov”. Dohmen canta com uma sobriedade e uma elegância que, à primeira escuta, podem parecer deslocadas na ferocidade poética de Yevtushenko. No entanto, esta abordagem permite que a ironia corrosiva de Shostakovich se imponham por si mesmas, sem o véu de um pathos demasiado evidente. A sua interpretação é particularmente eficaz nos momentos de reflexão e no sarcasmo do movimento final, “Career”, onde a sua linha vocal mais introspetiva se ajusta perfeitamente à crítica irónica aos burocratas e à defesa dos verdadeiros criadores.
A resposta da BBC Philharmonic e do Estonian National Male Choir é de uma excelência inquestionável. O coro é impecável, com uma projeção clara e um sentido dramático apurado, que vai do sussurro ao ataque incisivo no movimento satírico “Humour”. A orquestra, por seu lado, tira de letra a complexa e multifacetada partitura de Shosta. As madeiras são ácidas e zombeteiras, os metais soam rudes e ameaçadores, e as cordas criam camadas de textura de uma frieza gélida, especialmente nos movimentos “In the Store” e “Fears”, onde o clima de paranoia e desolação é magistralmente construído. A qualidade da gravação capta com impressionante clareza o peso do tímpano, o toque lúgubre do sino e os mais recatados pianíssimos do coro.
Este não é um álbum para quem procura uma catarse imediata ou uma recriação visceral da estreia russa da obra. A proposta de John Storgårds é deliberadamente mais intelectual, mais fria e, curiosamente por isso, profundamente melancólica. Ao colocar o grito de revolta de Shostakovich ao lado do recolhimento religioso de Pärt, o maestro finlandês convida-nos a uma escuta que transcende o protesto político e se aproxima de uma meditação sobre o sofrimento humano. Para alguns críticos, esta abordagem soou comedida, para outros representou uma visão poderosamente alternativa, que encontra a sua força não na tempestade, mas na profundidade silenciosa do seu olhar. É um registo que não se impõe facilmente, mas que, uma vez compreendido, revela grande integridade artística e coerência.
Shostakovich: Symphony No. 13 ‘Babi Yar’ / Arvo Pärt: De Profundis (Albert Dohmen, Estonian National Male Choir, BBC Philharmonic, John Storgårds)
Arvo Pärt– De Profundis (2008) 6:50
Dmitri Shostakovich Symphony No. 13 In B Flat Minor, Op. 113 ‘Babiy Yar’ (1962)
Bass-Baritone Vocals – Albert Dohmen
(1:02:35)
2 – 1. Babiy Yar. Adagio ‒ Più Mosso ‒ Adagio ‒ Più Mosso ‒ Allegro ‒ Adagio ‒ Poco Più Mosso ‒ Adagio ‒ Più Mosso 16:07
3 – 2. Humour. Allegretto 8:31
4 – 3. In The Store. Adagio ‒ Meno Mosso. Sostenuto ‒ Adagio ‒ Meno Mosso ‒ [Più Mosso] ‒ Meno Mosso ‒ Largo ‒ Adagio ‒ 12:00
5 – 4. Fears. Largo ‒ Sostenuto ‒ Più Mosso ‒ Moderato ‒ Largo ‒ Poco Più Mosso ‒ Sostenuto ‒ Allegretto ‒ Largo ‒ 12:00
6 – 5. Career. Allegretto ‒ Pesante ‒ Meno Mosso ‒ Allegretto ‒ Adagio ‒ Allegretto ‒ Adagio ‒ Allegretto ‒ Meno Mosso 13:49
Choir – Estonian National Male Choir
Conductor – John Storgårds
Leader – Zoë Beyers
Orchestra – BBC Philharmonic
Vocal Coach [Language Coach] – Alexandre Naoumenko
Eu adoro esta Sinfonia Nº 3 de Mahler. Para mim, é a melhor. É uma das obras mais monumentais do repertório sinfônico, ultrapassando muitas vezes os 100 minutos de duração. Mahler a descreveu como “a coisa mais louca que já escrevi”, tamanha sua ambição e complexidade. Neumann e seus tchecos são realmente muito bons! A obra está dividida em seis movimentos que traçam uma jornada filosófica ascendente desde a natureza primitiva até o amor divino:
1. Pã Desperta: o Verão Marcha: um enorme movimento de abertura enorme (cerca de 40 min) que emerge de uma textura densa e “primitiva”.
2. O que as Flores do Campo me Contam.
3. O que os Animais da Floresta me Contam: inclui um famoso solo de trompa, que cria uma atmosfera nostálgica e distante.
4. O que o Homem me Conta: um movimento para contralto solo, dá-lhe Christa!
5. O que os Anjos me Contam: envolve coro feminino e infantil, celebrando a alegria celestial.
6. O que o Amor me Conta: um adágio final muito bonito e comovente, onde as cordas e metais criam uma sensação de redenção.
Para Mahler, “uma sinfonia deve ser como o mundo. Deve conter tudo”. Assim, a obra transita entre o assustador e o sublime, combinando momentos de pura exuberância e profunda melancolia .
Gustav Mahler (1860-1909): Sinfonia Nº 3 (Neumann, Orquestra Filarmônica Tcheca)
I. Kräftig. Entschieden (Beg.) 26:28
I. Kräftig. Entschieden (Concl.) 4:33
II. Tempo Di Menuetto. Sehr Mässig 8:42
III. Comodo. Scherzando. Ohne Hast 16:27
IV. Sehr Langsam. Misterioso 9:50
V. Lustig Im Tempo Und Keck Im Ausdruck 4:36
VI. Langsam. Ruhevoll. Empfunden 19:58
Chorus – Kühnův Dětský Sbor (tracks: D1), Pražský Filharmonický Sbor*
Chorus Master – Jiří Chvála (tracks: D1), Josef Veselka
Conductor – Václav Neumann
Contralto Vocals – Christa Ludwig
Orchestra – Česká Filharmonie*
Este é o volume 15 da maravilhosa série capitaneada por Giovanni Antonini e a Orquestra de Câmara de Basel, assim como Il Giardino Armonico. A ideia da série é a de gravar todas as sinfonias até 2032, quando Haydn completará 300 de vida, pois está vivo até hoje. Diferentemente de uma abordagem cronológica tradicional, Antonini opta por agrupar as sinfonias por temas ou conceitos. O fio condutor do volume 15 são as figuras reais, fazendo referência direta à Sinfonia nº 85, apelidada de “La Reine”. A lenda conta que esta era a sinfonia favorita da Rainha Maria Antonieta da França. As outras obras do disco também possuem conexões reais, ainda que menos diretas: a Sinfonia nº 50 foi apresentada durante uma visita da Imperatriz Maria Teresa da Áustria, e a Sinfonia nº 62 foi composta no ano da morte da mesma imperatriz. A regência de Antonini recebe elogios quase unânimes da crítica especializada. O estilo é descrito como uma combinação feliz de vigor rítmico e sensibilidade lírica, sem recorrer a exageros ou efeitos que possam cansar em audições repetidas. Este Volume 15 – “La Reine” é um triunfo. Ele captura a essência do que torna a música de Haydn tão especial: a capacidade de ser ao mesmo tempo previsível e surpreendente, elegante e robusta, cheia de humor e profunda emoção. Com uma combinação inteligente de obras conhecidas e injustamente negligenciadas, com performances que respiram vitalidade e inteligência musical, este disco é um presente para os amantes de Haydn e um testemunho da importância de se ter um projeto de integrais bem planejado e executado.
F. J. Haydn (1732-1809): Sinfonias Nº 85, 62 e 50 (Kammerorchester Basel, Antonini)
Symphony No.85 In B Flat Major, Hob. I:85 ‘La Reine’
1 I. Adagio – Vivace 10:51
2 II. Romance. Allegretto 6:55
3 III. Menuet. Allegretto – Trio 3:18
4 IV. Finale. Presto 3:18
Symphony No.62 In D Major, Hob. I:62
5 I. Allegro 7:39
6 II. Allegretto 5:41
7 III. Menuet. Allegretto – Trio 2:19
8 IV. Finale. Allegro 7:57
Symphony No.50 In C Major, Hob. I:50
9 I. Adagio E Maestoso – Allegro Di Molto 4:42
10 II. Andante Moderato 4:38
11 III. Menuet – Trio 3:40
12 IV. Finale. Presto 5:23
Conductor – Giovanni Antonini
Orchestra – Kammerorchester Basel
Não é um CD para todos. É de 1992 e eu acho lindo! Este álbum com o Ensemble InterContemporain sob a direção de Pierre Boulez e Michel Tabachnik, é uma das portas de entrada para o universo de Iannis Xenákis. Reunindo obras compostas entre 1965 e 1986, o disco apresenta um compositor que pensa a música como arquitetura sonora: massas de som em movimento, explosões de energia e texturas de uma força quase física. Esta gravação continua sendo indispensável para quem ouve a música quase contemporânea… Mais do que desafiar o ouvinte, Xenákis o coloca dentro de uma experiência sonora radical, em que a percepção é constantemente testada e renovada. Nestas interpretações precisas e intensamente comprometidas, Boulez e Tabachnik revelam não apenas a violência e a complexidade dessa música, mas também sua surpreendente beleza. Convém evitar os dois extremos: o entusiasmo vazio (“Uau, música revolucionária!”) e o tecnicismo excessivo. Ela sugere algo essencial sobre sua obra: por trás da matemática, da arquitetura e da violência sonora, há uma busca genuína pela beleza — uma beleza diferente da de Debussy ou Mahler, mas nem por isso menos intensa.
Este CD do Café Zimmermann com o contratenor Dominique Visse, é uma deliciosa incursão por um lado menos conhecido do barroco francês: o da sátira, da paródia e do humor musical. O programa reúne cantatas e concertos cômicos de compositores hoje pouco frequentados, mas que revelam um século XVIII espirituoso e surpreendentemente irreverente. o barroco também sabia rir de si mesmo. Não é um imperdível, mas eu me diverti com ele. O Marais é maravilhoso, assim como o La Garde. O Café Zimmermann, liderado pelo argentino Pablo Valetti é um grupo muito foda.
Corrette / La Garde / De Grandval / Marais / Courbois: Dom Quichotte – Cantates & concertos comiques (Visse, Café Zimmermann)
Concerto Comique V ‘La Femme Est Un Grand Embarras’
Composed By – Michel Corrette
1 Allegro 2:09
2 Adagio 1:57
3 Allegro 1:48
Cantate ‘La Sonate’
Composed By – Pierre de La Garde
4 – 5:03
5 N’Admirés Vous Pas Ce Tableau… 2:44
6 Ainsi Par Des Sons Tout S’Exprime… 3:21
7 La Sonnerie De Ste Geneviève Du Mont De Paris
Composed By – Marin Marais
7:10
Cantate ‘La Matrone D’Ephèse’
Composed By – Nicolas Racot De Grandval
8 – 3:24
9 Un Autre Mort En Grand Silence… 6:03
10 Vous Êtes Mon Vainqueur… 4:58
11 Qu’Entends-je !… 3:51
Concerto Comique XXIV ‘La Marche Du Huron’
Composed By – Michel Corrette
12 Allegro 3:09
13 Amorozo 2:08
14 Allegro 1:56
Cantate ‘Dom Quichotte’
Composed By – Philippe Courbois
15 – 3:08
16 Air : Loin Des Yeux Qui M’Ont Fait Captif 3:41
17 Signalons Sur Ces Monts 5:43
18 Le Fameux Chevalier À La Triste Figure 3:43
Countertenor Vocals – Dominique Visse (tracks: 4 to 11, 15 to 18)
Ensemble – Café Zimmermann
Flute – Diana Baroni
Harpsichord, Organ – Céline Frisch
Lute, Guitar [Baroque Guitar] – Eric Bellocq
Other [Thank You] – Reiko Arai
Viola da Gamba – Guido Balestracci
Violin – David Plantier
Violin, Concertmaster – Pablo Valetti
Violoncello – Petr Skalka
Felix Mendelssohn foi um dos mais espantosos prodígios da história da música. Se Mozart impressionava aos cinco anos, Mendelssohn, aos 13, já compunha obras de uma complexidade e frescor que desmentiam sua idade. Este CD, com o trio Andreas Staier (fortepiano), Rainer Kussmaul (violino) e o Concerto Köln, oferece um mergulho fascinante nesse universo, capturando a energia bruta e a elegância em formação do compositor. A grande sacada deste disco é o uso de instrumentos de época e uma orquestra de câmara reduzida. Afinal, estas obras foram concebidas para serem ouvidas nos salões da família Mendelssohn, não em grandes salas de concerto. O Concerto Köln respeita essa origem intimista, utilizando, em certos momentos, apenas um instrumento por parte. Acho a abordagem do Concerto Köln ácida até mesmo para os padrões de instrumentos de época, tornando os tutti orquestrais (especialmente nos movimentos lentos) uma experiência um tanto estranha. Em vez de um tapete aveludado, o acompanhamento é pontiagudo — uma escolha que prioriza a clareza rítmica e a energia juvenil sobre a doçura. Se a orquestra é agressiva, os solistas são a alma poética do disco. Andreas Staier, craque na arte da performance historicamente informada, toca um fortepiano Fritz de 1825. O som do instrumento é muito diferente do piano de concerto moderno: tem menor projeção e ataque mais seco. Isso explica por que Mendelssohn escreveu tantas passagens em arpejos e escalas — era a forma de fazer o som aparecer. Staier navega com virtuosismo por essas águas, mas é no Concerto Duplo que a dinâmica fica mais interessante. O grande destaque, contudo, é o violinista Rainer Kussmaul. Ele toca com uma rara pureza, usando o vibrato de forma contida. Enquanto o piano de Staier muitas vezes se perde em meio à escrita juvenil (cheia de notas, mas nem sempre melódica), o violino de Kussmaul canta com uma doçura lírica que prende a atenção. Há um diálogo interessante no Concerto Duplo: Kussmaul puxa a emoção, enquanto Staier (que também rege a orquestra a partir do teclado) sustenta a estrutura. Este CD não é para quem busca uma audição relaxante ou uma entrada fácil no mundo de Mendelssohn. A abordagem do Concerto Köln é ríspida e vibrante, o que pode incomodar tanto quanto impressiona. No entanto, para os aficionados por música de época e para quem se interessa pelo processo criativo dos grandes compositores, este é um documento precioso. Andreas Staier e Rainer Kussmaul são guias excepcionais, mostrando como estas obras “menores” já continham as sementes do gigante romântico. A experiência é a de olhar um esboço de Leonardo da Vinci: não é a Mona Lisa, mas a genialidade do traço é inconfundível.
Felix Mendelssohn (1809-1847): Concerto para Piano e Cordas em lá menor / Concerto para Violino, Piano e Cordas em ré menor (Staier, Kussmaul, Concerto Köln)
Concerto For Piano And Strings In A Minor
1 Allegro 15:13
2 Adagio 9:11
3 Finale: Allegro Ma Non Troppo 10:16
Concerto For Violin, Piano And Strings In D Minor
4 Allegro 17:59
5 Adagio 10:03
6 Allegro Molto 8:40
A versão de Andris Nelsons que inaugura seu ciclo das gravações das Sinfonias de Mahler com a Filarmônica de Viena é muito digna de nota. É uma abordagem recomendada para ouvintes que valorizam interpretações ousadas, intelectualmente elaboradas e tecnicamente impecáveis — mesmo que isso venha às custas de um certo calor visceral. Não é recomendada para puristas que desejam uma Quinta Sinfonia tradicional, com um Adagietto romântico e uma narrativa dramática mais linear. Mahler linear? Ficaram loucos? A Quinta Sinfonia de Mahler é uma das obras mais monumentais e difíceis do repertório sinfônico — uma jornada de quase 80 minutos que parte da escuridão de uma marcha fúnebre e avança, através de tormentas e danças, rumo a um finale radiante. O problema é que Mahler não facilita: cada intérprete precisa decidir como contar essa história.
A sinfonia abre com a famosa fanfarra do trompete solo — um chamado que anuncia a Trauermarsch (marcha fúnebre). Nelsons conduz este movimento insistindo na solenidade do ritual fúnebre, sem pressa. O segundo movimento é uma explosão de fúria que contrasta com a marcha inicial. Aqui, Nelsons demonstra domínio da orquestração mahleriana — os metais soam poderosos e o diálogo entre seções é cuidadosamente esculpido. Uma joia. O terceiro movimento, um Scherzo vienense gigantesco para orquestra (com destaque para as trompas), é frequentemente um ponto polêmico. Mahler exige uma Viena dançante e vertiginosa — mas também um senso de estrutura para sustentar mais de quinze minutos de música. Nelsons inicia com leveza e alegria de viver, mas acho que essa energia se dissipa ao longo do movimento. Ou não? O famoso Adagietto para cordas e harpa é, para muitos, a alma da sinfonia — uma declaração de amor a Alma Mahler. Nelsons, porém, recusa uma leitura romântica. Ele o apresenta não como uma canção de amor, porém mais como uma tranquila meditação. Seu tempo é lento (cerca de dez minutos) e o tom é profundo e comovente, realçando a fragilidade e a introspecção. O Rondo-Finale é uma explosão de energia, com citações de temas anteriores que precisam soar como uma espécie de vitória. Nelsons conduz este movimento com “alegria e vivacidade”, e os últimos acordes são retumbantes.
Como considero Mahler um romântico tardio, herdeiro da tradição germânica, expressão extrema e obsessão pelos temas da morte e da transcendência, talvez Nelsons seja meio traidor, mas acho que não muito. Está tudo lá, só que sem derramamentos desnecessários.
P.S. — Para mim, esta sinfonia está muito associada ao covid. Em fevereiro de 2020, em nossa última viagem internacional, eu e minha mulher estávamos em Roma e vimos o último concerto na Academia Nacional de Santa Cecília antes de fechar em razão da pandemia. O grande Daniele Gatti foi o regente. As primeiras máscaras já apareciam. Quando chegamos em Porto Alegre, ninguém usava ainda.
Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia Nº 5 (Nelsons, Orquestra Filarmônica de Viena)
1 I. Trauermarsch: A. In Gemessenem Schritt 1:15
2 I. Trauermarsch: B. Etwas Gehaltener 2:02
3 I. Trauermarsch: C. Wieder Etwas Gehaltener 2:44
4 I. Trauermarsch: D. Plötzlich Schneller 0:48
5 I. Trauermarsch: E. A Tempo. F. Tempo I. 1:49
6 I. Trauermarsch: G. Schwer (15). H. Klagend 5:47
7 II. Stürmisch Bewegt, Mit Grösster Vehemenz: A. Sturmisch Bewegt 1:28
8 II. Stürmisch Bewegt, Mit Grösster Vehemenz: B. Bedeutend Langsamer 2:29
9 II. Stürmisch Bewegt, Mit Grösster Vehemenz: C. Tempo I Subito 0:53
10 II. Stürmisch Bewegt, Mit Grösster Vehemenz: D. Langsam Aber Immer 1:19
11 II. Stürmisch Bewegt, Mit Grösster Vehemenz: E. Tempo Moderato 1:36
12 II. Stürmisch Bewegt, Mit Grösster Vehemenz: F. Plötzlich Wieder Bedeutend Langsamer 1:36
13 II. Stürmisch Bewegt, Mit Grösster Vehemenz: G-J. Tempo I Subito. Etwas Langsamer. Nicht Eilen. Wuchtig 3:55
14 II. Stürmisch Bewegt, Mit Grösster Vehemenz: K. Pesante 1:29
15 II. Stürmisch Bewegt, Mit Grösster Vehemenz: L. Tempo I Subito 1:50
16 III. Scherzo. Kräftig, Nicht Zu Schnell: A-B. Kräftig, Nicht Zu Schnell 2:33
17 III. Scherzo. Kräftig, Nicht Zu Schnell: C. Etwas Ruhiger 1:05
18 III. Scherzo. Kräftig, Nicht Zu Schnell: D-E. Tempo I. Lansamer 1:50
19 III. Scherzo. Kräftig, Nicht Zu Schnell: F. Etwas Zurückhaltend 1:31
20 III. Scherzo. Kräftig, Nicht Zu Schnell: G-H. Molto Moderato. Nicht Eilen 3:28
21 III. Scherzo. Kräftig, Nicht Zu Schnell: I. A Tempo Molto Moderato 1:14
22 III. Scherzo. Kräftig, Nicht Zu Schnell: J-L. Poco Rit. A Tempo I. Nicht Eilen – Vorwärts Drängen 4:13
23 III. Scherzo. Kräftig, Nicht Zu Schnell: M-N. Tempo I. A Tempo Moderato 1:56
24 III. Scherzo. Kräftig, Nicht Zu Schnell: O. Tempo I Subito 0:59
25 IV. Adagietto. Sehr Langsam: A-B. Sehr Langsam. Wieder äußerst Langsam 4:47
26 IV. Adagietto. Sehr Langsam: C. Fliessender 1:57
27 IV. Adagietto. Sehr Langsam: D. Fliessend 0:52
28 IV. Adagietto. Sehr Langsam: E. Zurückhaltend 2:21
29 IV. Adagietto. Sehr Langsam: F. Zögernd 2:28
30 V. Rondo-Finale. Allegro: A-B. Allegro. Allegro Giocoso 1:19
31 V. Rondo-Finale. Allegro: C-D. Sempre L’Istesso Tempo. Grazioso 1:34
32 V. Rondo-Finale. Allegro: E. A Tempo I 0:35
33 V. Rondo-Finale. Allegro: F. Sempre L’Istesso Tempo 1:19
34 V. Rondo-Finale. Allegro: G. A Tempo 1:21
35 V. Rondo-Finale. Allegro: H-I. Sempre L’Istesso Tempo. Nicht Eilen 2:15
36 V. Rondo-Finale. Allegro: J. Nicht Eilen. A Tempo 1:31
37 V. Rondo-Finale. Allegro: K-L. Plötzlich Wieder Wie Zu Anfang. Unmerklich Etwas Einhaltend 2:36
38 V. Rondo-Finale. Allegro: M. Grazioso 2:08
39 V. Rondo-Finale. Allegro: N. Sehr Drängend 1:45
Esta gravação da Sinfonia Nº 5, de Bruckner, por Bernard Haitink à frente da Orquestra Sinfônica da Rádio Bávara é uma interpretação que privilegia a arquitetura da obra acima do efeito imediato. Haitink não procura monumentalidade teatral nem êxtases exagerados. Sua abordagem é de uma lucidez clássica, permitindo que a gigantesca construção de Bruckner apareça claramente ao ouvinte. A grande virtude desta leitura está no equilíbrio. Os tempos são raramente pesados e a extraordinária polifonia do último movimento emerge com clareza exemplar. A Orquestra da Rádio Bávara responde com sonoridade magnífica, especialmente nos metais, ricos e profundos. O resultado é uma Quinta menos dramática do que as de Furtwängler ou Jochum, mas mais transparente. Haitink conduz a música com paciência e inteligência, confiando que a força da partitura basta por si mesma. Para alguns críticos, essa objetividade chega a parecer excessivamente contida — para outros, trata-se justamente de uma das grandes realizações do catálogo moderno. É uma gravação para quem prefere contemplar a catedral em toda a sua grandiosidade estrutural, em vez de se deixar deslumbrar apenas pelos vitrais. Haitink nos mostra Bruckner como um mestre da forma — e, ao fazê-lo, alcança uma beleza serena e duradoura.
Anton Bruckner (1824-1896): Sinfonia Nº 5 (Haitink, Orquestra Sinfônica da Rádio Bávara)
I. Adagio – Allegro 20:38
II. Adagio 16:10
III. Scherzo: Molto vivace 13:40
IV. Finale: Adagio – Allegro moderato 25:14
Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks
Bernard Haitink
It Might as Well Be Swing é uma celebração da elegância. Com seu fraseado leve, inventivo e irresistivelmente melódico, Stéphane Grappelli (1908-1997) demonstra por que foi um dos grandes responsáveis por transformar o violino em instrumento do jazz. O disco transborda alegria sem jamais cair na superficialidade. Cada tema parece conversar com a tradição do swing ao mesmo tempo em que exibe a personalidade inconfundível de Grappelli: refinada, espirituosa e cheia de charme. É música que flui com naturalidade, como uma conversa entre velhos amigos, lembrando-nos que o jazz pode ser virtuoso sem perder a graça e sofisticado sem perder o sorriso.
.: interlúdio :. Stéphane Grapelli: It might as well be swing
1 You Took Advantage Of Me 4:56
2 Star Eyes 4:17
3 Anything Goes 4:32
4 Don’t Blame Me 5:04
5 Moonlight In Vermont 2:36
6 Caravan 7:15
7 It Might As Well Be Spring 4:53
8 Have You Met Miss Jones 4:02
9 Love Song 3:13
10 Sing Hallelujah 3:56
11 I Didn’t Know What Time It Was 5:50
Alto Saxophone, Tenor Saxophone, Clarinet – Phil Woods
Bass – Jean-Philippe Viret (tracks: 11), John Burr*
Drums – Louis Bellson
Guitar – Marc Fosset
Piano – McCoy Tyner (tracks: 11)
Violin – Stéphane Grappelli
Contemplativo and very english, este CD me encheu o saco. Há poucas boas músicas eruditas inglesas entre os dois gênios maiores da ilha: Purcell e Britten. O romance imensamente popular e “quintessencialmente inglês” de Vaughan Williams para violino e orquestra, The Lark Ascending, recebeu muitas gravações. Não há nenhuma evidência que sugira que o próprio compositor tenha considerado a peça de alguma forma excepcional, então por que ele se transformou no sucesso clássico que quase todo mundo conhece? Enquanto outrora este romance despretensioso era ouvido como uma evocação direta dos 12 versos de George Meredith que prefaciam a partitura, o público mais amplo de hoje desconhece em grande parte a sua fonte poética. A etiqueta “quintessencialmente inglesa” aplicável aos versos vitorianos parece cada vez mais inadequada para explicar o apelo global da música. Em 2011, quando a rede de rádio pública de Nova York perguntou aos ouvintes o que eles gostariam de ouvir no 10º aniversário do 11 de setembro, The Lark Ascending ficou em segundo lugar, atrás de Adagio de Barber. Eu não entendo. E vocês?
Vaughan Williams / Delius / Walton: Greensleeves · The Lark Ascending · Summer Night on the River · On Hearing the First Cuckoo in Spring (Zukerman / Black / Orquestra de Câmara Inglesa / Barenboim)
1 Fantasia sobre “Greensleeves” para orquestra de cordas, harpa e duas flautas (1934)
Composta por – Ralph Vaughan Williams
4:29
Concerto para oboé e orquestra de cordas em lá menor (1944)
Composta por – Ralph Vaughan Williams
Oboé – Neil Black (3)
2 1. Rondo Pastoral: Allegro Moderato 6:54
3 2. Minueto e Musette: Allegro Moderato 2:48
4 3. Finale (Scherzo): Presto 8:54
Duas peças para pequena orquestra
Composta por – Frederico Delius
5 1. Ao ouvir o primeiro cuco na primavera (1912) 7:12
6 2. Noite de verão no rio (1911) 5:41
Duas Aquarelas (1938)
Organizado por – Eric Fenby
Composta por – Frederick Delius
7 1. Lento, Ma Non Troppo 2:44
8 2. Alegremente, mas não rápido 2:10
9 Intermezzo (da ópera “Fennimore e Gerda”) (1909-10)
Composta por – Frederico Delius
5:50
Duas peças para cordas da música do filme “Henrique V” (1943-44)
Composta por – William Walton *
10 1. Passacaglia: Morte de Falstaff 2:47
11 2. “Toque seus lábios macios e parte” 2:01
12 The Lark Ascendente (Romance para violino e orquestra) (1914, Rev. 1920)
Composta por – Ralph Vaughan Williams
Violino – Pinchas Zukerman
Maestro – Daniel Barenboim
Orquestra – Orquestra de Câmara Inglesa
Eu não entendo nada dos românticos e nem dou muita bola pra eles, então o fato de eu ter gostado desta gravação talvez signifique que ela é uma merda. Estas talvez sejam interpretações musculosas demais. É justamente essa natureza “exagerada” que apreciei. Em fóruns de pianistas, ouvintes comuns elogiam Biret por colocar “muito sentimento e expressão”, enquanto que os especialistas não gostam muito. A gravação das Polonaises de Chopin pela turca Idil Biret representa uma visão muito pessoal e tecnicamente impecável dessas obras do período romântico. Porém, enquanto intérpretes mais clássicos podem buscar mais delicadeza, Biret aposta no drama, o que resulta em uma escuta vibrante e que certamente vai capturar sua atenção. Afinal, a coisa aqui é patriótica, né? Querem patriotismo sutil? Ah, vsf…
A gravação de L’Orfeo de Claudio Monteverdi conduzida por Sergio Vartolo e lançada pela Naxos em 1997 é uma das raras versões da obra protagonizada por um elenco predominantemente italiano. Ela foi gravada em agosto de 1996 no Théâtre Municipal de Puy-en-Velay, na França. O que diferencia esta gravação é sua sonoridade deliberadamente grandiosa — Vartolo empregou cerca de 40 instrumentistas, uma orquestra consideravelmente maior do que a utilizada em sua regravação da obra uma década depois. Ficou pior… Esta edição de Vartolo possui uma característica única entre as gravações de L’Orfeo: ela inclui ambas as versões do finale da ópera. A primeira edição impressa do libreto (1607) termina com uma cena em que Orfeu é atacado por Bacantes enfurecidas — porém não há música preservada para essa cena. Em 1609, Monteverdi publicou uma versão alternativa com um final feliz, no qual Apolo desce e leva Orfeu aos céus. Vartolo opta por apresentar ambas: primeiro a cena das Bacantes com atores declamando — ou melhor, gritando — suas falas, uma sequência de arrepiar o sangue, e em seguida o finale musical de 1609 com o descenso de Apolo.
Claudio Monteverdi (1567-1643): L`Orfeo (San Petronio Cappella Musicale Orchestra, Vartolo)
Disc 1
Monteverdi, Claudio
Striggio, Alessandro – Lyricist
L’Orfeo
1 Toccata 01:55
2 Prologue 07:18
3 Act I: Shepherd: In questo lieto e fortunato giorno 04:09
4 Act I: Chorus: Lasciate i monti 03:04
5 Act I: Orpheus: Rosa del ciel 03:37
6 Act I: Chorus: Lasciate i monti 02:19
7 Act I: Shepherd: Ma se il nostro gioir 07:32
8 Act II: Orpheus: Ecco pur ch’a voi 01:11
9 Act II: Shepherd: Mira ch’a se n’alletta 03:28
10 Act II: Orpheus: Vi ricorda, o bosch’ombrosi 03:00
11 Act II: Messenger: Ahi caso acerbo 10:51
12 Act II: Chorus: Ahi caso acerbo 02:59
13 Act II: Sinfonia 09:29
Disc 2
1 Act III: Orpheus: Scorto da te 05:58
2 Act III: Charon: O tu ch’innanzi 02:34
3 Act III: Orpheus: Possente spirto 15:15
4 Act III: Charon: Ben mi lusinga 05:51
5 Act III: Chorus: Nulla impresa per uom 02:56
6 Act IV: Proserpina: Signor, quell’infelice 08:18
7 Act IV: Chorus: Pietade, oggi, e Amore 00:53
8 Act IV: Orpheus: Qual onor di te 03:56
9 Act IV: Eurydice: Ahi, vista troppo dolce 03:24
10 Act IV: E la virtute un raggio 03:31
11 Act V: Orpheus: Questi i campi 08:38
12 Act V: Moresca 01:08
13 Act V: Baccanti 07:31
14 Act V: Sinfonia for Entry of Apollo 07:19
15 Act V: Final Chorus: Vanne Orfeo 01:01
16 Act V: Moresca 00:51
Seu sobrenome é Baiano, mas ele pode fazer as coisas velozmente… O cravista Enrico Baiano parece uma figura retirada das páginas de um livro de Pirandello. Bigodudo, e com uma incrível cara de quem está maquinando alguma coisa contra alguém. Mas ele se acabou se ralando, pois sua gravadora (a obscura Symphonía Digital italiana) fechou e este CD tornou-se uma raridade a ponto de os sites ostentarem a palavrinha “discontinued” nas apresentações que fazem do disco. Com tanta porcaria por aí, é uma ocorrência imerecida para este bom Baiano de movimentos rápidos cercando os delicados os adágios, largos, andantes e que tais vivaldianos. Os concertos foram retirados do Estro Armonico e da Stravaganza o que é garantia de um pedigree veneziano autêntico. Abaixo, mostro a vocês a latinha de Enrico Baiano. Não, não o acho bonito, contudo confesso que ela (a cara dele) me faz como se visse um personagem muito esperto de uma comédia italiana do passado. A propósito, Baiano gravou elogiados CDs de Sonatas de Domenico Scarlatti. Basta ouvir este CD para concluir que ele nasceu para tocar Scarlatti, o homem que tinha um caso com a princesa portuguesa Maria Bárbara de Bragança, fato verídico que Clara Schumann, direto da cidade do Porto, insiste em negar.
Vivaldi – Concerti pour clavecin, du Manuscrit de Ann Dawson (Bibliothèque de Manchester)
Origem dos concertos: Op. IV:10, IV:6, IV:3, IV:4, IV:1 de La Stravaganza; Op. III:7, III:9, III:5, III:12 de L’Estro Armonico
01 Opus IV, 10-1-Spiritoso
02 Opus IV, 10-2-Adagio
03 Opus IV, 10-3-Allegro
04 Opus IV, 6-1-Allegro
05 Opus IV, 6-2-Largo
06 Opus IV, 6-3-Allegro
07 Opus IV, 3-1-Allegro
08 Opus IV, 3-2-Largo
09 Opus IV, 3-3-Allegro Assai
10 Opus III, 7-1-Andante
11 Opus III, 7-2-Adagio, Allegro
12 Opus III, 7-3-Adagio, Allegro
13 Opus VII, 4-1-Allegro
14 Opus VII, 4-2-Grave
15 Opus VII, 4-3-Allegro assai
16 Opus III, 9-1-Allegro
17 Opus III, 9-2-Andante
18 Opus III, 9-3-Allegro
19 Opus III, 5-1-Allegro
20 Opus III, 5-2-Adagio e cantabile
21 Opus III, 5-3-Allegro
22 Opus IV, 1-1-Allegro
23 Opus IV, 1-2-Largo e cantabile
24 Opus IV, 1-3-Allegro assai
25 Opus III, 12-1-Allegro
26 Opus III, 12-2-Largo
27 Opus III, 12-3-Allegro
Enrico Baiano, clavecin François-Etienne Blanchet de 1733, copie de Olivier Fadini
Tenho mil razões para acreditar que esta é uma gravação pirata. E duas mil razões para mostrá-la aqui no PQP. Talvez vocês não saibam que eu e Bluedog temos verdadeira paixão pelas gravações ao vivo. E quanto menos maquiadas melhor. É ao vivo que o artista faz o contato direto com aquilo que imagina ser seu público; é ao vivo e no entusiasmo causado pela interação física do artista e seu público, que temos a expressão mais sincera e direta; é sem a mediação de engenheiros de som, produtores e outros que tais que o verdadeiro artista criará a expressão só possível de ser reinventada na presença do receptor. Para mim, o concerto ao vivo é a prova de que temos um artista autêntico ou algo produzido em laboratório. E a genial Viktoria Mullova, na esplêndida companhia do Il Giardino Armonico de Giovanni Antonini, dão uma das maiores demonstrações de musicalidade e tesão de amor pela música que tenho visto. Há erros? Sim, Mullova até desafina e se atrasa. E isto é que é sensacional. Ela deixou-se levar de tal maneira pelo clima e pela velocidade proposta por Antonini que mandou às favas a técnica na tentativa de fazer o melhor Vivaldi daquele dia de 2004, naquela Lugano, naquele teatro, para servir àquele público.
Trata-se de um CD arrepiante, entremeado de tosses e espirros da platéia e com os entusiasmados aplausos cortados subitamente por nosso “editor” pirata. E não adianta, eu não sei quem toca alaúde no R. 93.
CD espetacular! (Ah, a qualidade de som é inteiramente aceitável).
VIVALDI – CONCERTI R281, R187, R580, R93, R208. MULLOVA. GIARDINO. ANTONINI. EN VIVO
1 Concerto in Mi minore R281 «Il Favorito». I Allegro.mp3
2 Concerto in Mi minore R281 «Il Favorito». II Largo.mp3
3 Concerto in Mi minore R281 «Il Favorito». III Allegro.mp3
4 Concerto in Do Maggiore R187. I Allegro.mp3
5 Concerto in Do Maggiore R187. II Largo ma non molto.mp3
6 Concerto in Do Maggiore R187. III Allegro.mp3
7 Concerto in Si minore R580. I Allegro.mp3
8 Concerto in Si minore R580. II Largo.mp3
9 Concerto in Si minore R580. III Allegro.mp3
10 Concerto per Liuto in Re Maggiore R93. I Allegro.mp3
11 Concerto per Liuto in Re Maggiore R93. II Largo.mp3
12 Concerto per Liuto in Re Maggiore R93. III Allegro.mp3
13 Concerto in Re Maggiore R208. «Grosso Mogul» I Allegro.mp3
14 Concerto in Re Maggiore R208. «Grosso Mogul» II Largo.mp3
15 Concerto in Re Maggiore R208. «Grosso Mogul» III Allegro.mp3
Viktoria Mullova
Il Giardino Armonico
Giovanni Antonini
Grabación en vivo. Lugano, Palacio de Congresos, 7.6.2004.
Monk Suite: Kronos Quartet Plays Music of Thelonious Monk é um daqueles encontros improváveis que acabam parecendo inevitáveis depois de acontecidos. O Kronos Quartet transporta o universo cheio de pontas, irônico e melancólico de Thelonious Monk para o território da música de câmara sem domesticá-lo. Pelo contrário: os arcos parecem revelar ainda mais as dissonâncias, os silêncios e o humor torto de Monk. A presença de Ron Carter dá peso e pulsação jazzística ao projeto, especialmente em “Off Minor/Epistrophy”, enquanto peças como “‘Round Midnight” e “Crepuscule with Nellie” ganham uma beleza quase fantasmagórica. Não é jazz tradicional nem música clássica convencional: é um disco raro, elegante e inquieto, feito por músicos que compreendem que Monk sempre foi, sobretudo, um grande compositor contemporâneo.
Kronos Quartet: Monk Suite: Kronos Quartet Plays Music Of Thelonious Monk with Ron Carter
1 Well, You Needn’t
Written-By – Thelonious Monk
4:58
2 Rhythm-a-ning
Written-By – Monk*
3:04
3 Crepuscule With Nellie
Written-By – Monk*
2:39
4 Off Minor / Epistrophy
Written-By – Monk*
8:10
5 ‘Round Midnight
Written By – Monk-Williams
Written-By – Williams*, Monk*
4:33
6 Misterioso
Written-By – Monk*
4:00
“Monk Plays Ellington”:
7 It Don’t Mean A Thing (If It Ain’t Got That Swing)
Written By – Ellington-Mills
Written-By – Ellington*, Mills*
4:03
8 Black And Tan Fantasy
Written By – Ellington-Miley
Written-By – Miley*, Ellington*
3:42
9 Brilliant Corners
Written-By – Monk*
5:04
Bass – Chuck Israels (tracks: B3, B4), Ron Carter (tracks: A1 to A4)
Cello – Joan Jeanrenaud
Drums – Eddie Marshall (2) (tracks: B3, B4)
Viola – Hank Dutt
Violin [First] – David Harrington
Violin [Second] – John Sherba
Há discos que são clássicos instantâneos e discos que se tornam clássicos com o tempo. Este aqui é ambas as coisas. O álbum reúne três dos quartetos mais importantes do repertório russo — o Quarteto de Cordas nº 1, Op. 11 de Tchaikovsky, o Quarteto de Cordas nº 2 de Borodin e o Quarteto de Cordas nº 8, Op. 110 de Shostakovich — interpretados por dois grupos lendários. A escolha dos intérpretes já é um golpe de gênio. O Gabrieli String Quartet (ingleses conhecidos pela precisão e elegância) assume o Tchaikovsky, gravado em 1976 . Já o Borodin Quartet — em sua formação original de 1962, com Rostislav Dubinsky no primeiro violino — interpreta Borodin e Shostakovich. E por que isso importa? Porque o Borodin Quartet trabalhou pessoalmente com o próprio Shostakovich, que supervisionou suas interpretações.
O resultado é um contraste fascinante. No Quarteto de Tchaikovsky, a execução do Gabrieli é limpa, elegante e precisa, com uma certa contenção emocional tipicamente inglesa . O famoso Andante Cantabile — que fez Tolstói chorar ao ouvi-lo — ganha aqui uma leitura refinada, talvez até distante do sentimentalismo eslavo que muitos esperam.
Já no Borodin e no Shostakovich, o Borodin Quartet vem com o oposto. Não que sejam selvagens, são extatos, perfeitos, sensíveis, mas o clima é muito mais emocional. O Notturno do Quarteto nº 2 de Borodin — originalmente dedicado à esposa do compositor — é uma das peças mais belas já escritas para quarteto de cordas, e esta gravação é considerada a versão de referência. O violoncelo de Valentin Berlinsky conduz a melodia com uma ternura de cortar a alma.
E então vem Shostakovich. O Quarteto nº 8 é outro tipo de animal. Escrito em apenas três dias em 1960, o compositor o dedicou “à memória das vítimas do fascismo e da guerra” — mas todos sabiam que ele estava escrevendo seu próprio réquiem. As iniciais DSCH (Ré-Mi-Si-Dó em alemão, seu monograma musical) aparecem como um mantra obsessivo ao longo dos cinco movimentos . O Borodin Quartet interpreta isso com um conhecimento de causa que nenhum outro grupo pode reivindicar.
No fim das contas, não é um cedezinho de peças famosas, mas sim um documento histórico. O Borodin Quartet é a tradição dessas obras. Ouvir esta gravação é o mais próximo que podemos chegar de ouvir Shostakovich explicar sua própria música.
Veredito final: Essencial para qualquer coleção de música de câmara. O Borodin sozinho já vale o preço do disco.
Pyotr Ilyich Tchaikovsky String Quartet No. 1 In D Major, Op.11
Ensemble – Gabrieli String Quartet*
(28:05)
1 – I. Moderato E Semplice 10:37
2 – II. Andante Cantabile 6:32
3 – III. Scherzo & Trio: Allegro Non Tanto E Con Fuoco 3:53
4 – IV. Finale: Allegro Giusto 6:50
Alexander Borodin String Quartet No. 2 In D Major
Ensemble – Borodin String Quartet
(27:47)
5 – I. Allegro Moderato 7:52
6 – II. Scherzo 4:44
7 – III. Notturno: Andante 8:09
8 – IV. Finale: Andante – Vivace 6:54
Dmitri Shostakovich String Quartet No. 8 In C Minor, Op.110
Ensemble – Borodin String Quartet
(19:41)
9 – I. Largo – 4:24
10 – II. Allegro Molto – 2:43
11 – III. Allegretto – 3:59
12 – IV. Largo – 5:12
13 – V. Largo 3:25
Cello – Keith Harvey (faixas: 1 to 4), Valentin Berlinsky (faixas: 5 to 13)
Viola – Dmitri Shebalin (faixas: 5 to 13), Ian Jewel (faixas: 1 to 4)
Violin [II] – Brendan O’Reilly (4) (faixas: 1 to 4), Yaroslav Alexandrov (faixas: 5 to 13)
Violin [I] – Kenneth Sillito (faixas: 1 to 4), Rostislav Dubinsky (faixas: 5 to 13)
Coletâneas são desiguais, mas têm a vantagem de nos darem uma visão bastante clara das diversas vertentes de um artista, se ele as tiver, claro. Algumas das faixas abaixo já foram divulgadas no PQP, casos de Edges Of Illusion e Gone to the dogs, mas há outras extraordinárias, que me fazem desejar conhecer inteiramente os álbuns de onde saíram. Esta coletânea é uma espécie de isca. E eu a fisguei e estou bem feliz de ser puxado pelo anzol de Surman. A qualidade do som dos saxes e clarinetes do inglês é inacreditável.
John Surman – Selected Recordings (1976-1999)
1 Druid’s Circle
2 Number Six
3 Portrait of a Romantic
4 Ogeda
5 The Returning Exile
6 Edges Of Illusion
7 The Buccaneers
8 The Snooper
9 Mountainscape VIII
10 Figfoot
11 Piperspool
12 Gone To The Dogs
13 Stone Flower
John Surman – Soprano Saxophone, baritone saxophone, bass clarinet, recorder, synthesizer, keyboard
John Abercrombie – guitar
Paul Bley – piano
Gary Peacock – double-bass
Barre Phillips – double-bass
Chris Pyne – trombone
Terje Rypdal – guitar
Lançado em 1992, Pieces of Africa é um marco na trajetória do Kronos Quartet e na própria história da música contemporânea. O álbum reúne obras encomendadas pelo quarteto a sete compositores africanos — do Zimbábue, Marrocos, Gâmbia, Uganda, Egito, Gana e África do Sul — num gesto que, à época, foi tão audacioso quanto necessário. O mérito maior de Pieces of Africa está na abordagem: o Kronos não “usa” a África como cenário. Em cada faixa, os compositores tocam seus instrumentos tradicionais ao lado do quarteto — o sintir de Hassan Hakmoun, a kora de Foday Musa Suso, o tar de Hamza El Din — e o grupo se coloca, muitas vezes, como acompanhante, não como protagonista. A colaboração é genuína, e o resultado é um álbum que respira alegria, calor e, sim, alguma melancolia. Três décadas depois, a relevância do disco foi formalmente reconhecida: em 2024, Pieces of Africa foi incluído no National Recording Registry da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, ao lado de gravações consideradas “cultural, histórica ou esteticamente significativas”. Para quem busca uma porta de entrada para o Kronos Quartet — ou para a ideia de que o quarteto de cordas pode ser muito mais do que Haydn, Mozart e Beethoven — este disco continua sendo um ponto de partida excelente, vibrante e surpreendentemente acessível.
Addy / El Din / Hakmoun / Maraire / Suso / Tamusuza / Volans: Pieces of Africa (Kronos Quartet)
POSTAGEM ORIGINAL DE PQP BACH. IMAGENS POR VASSILY EM 30/10/2015,
Aproveitando a carona dessa nossa série sobre a Família das Cordas, reabilitamos os links para essa estupenda gravação do belga Sigiswald Kuijken. Sempre houve muita discussão dessas Suítes BWV 1007-1012, pois não há autógrafo do compositor, apenas uma cópia do punho de sua esposa Anna Magdalena, cheia de erros e inconsistências. Além disso, a verdadeira natureza do instrumento para o qual Bach concebeu essas obras também é objeto de polêmica, particularmente por conta da Suíte no. 6, que demanda um instrumento de cinco cordas. Alguns sustentaram que ele seria uma certa viola pomposa inventada pelo compositor, sobre cuja existência nunca houve provas além de anedotas. Outra possibilidade é o violoncello da spalla, cujo maravilhoso timbre, sob as mãos do violinista Kuijken, soa tão convincente que as dúvidas parecem dirimir.
Vassily Genrikhovich
POSTAGEM ORIGINAL DE PQP BACH EM 21/3/2009, EDITADA EM 28/2/2012
Filhos bastardos, eu e FDP não lembramos do 21 de março antes do dia de ontem. Improvisamos uma homenagem meio de qualquer jeito e acho que deu certo. Foram 5 posts com 10 impecáveis CDs.
Finalizamos nossa homenagem aos 324 anos de papai com uma nova versão para as Suítes para Violoncelo, tocadas pelo genial Sigiswald Kuijken num instrumento que hoje não se utiliza mais: o violoncello da spalla.
Ei-los [Vassily]Maior ainda que a viola, mas manuseado como se fosse um violino, o “violoncelo de ombro” presta-se a uma belíssima interpretação das suítes. E salve Mestre Kuijken!
IMPERDÍVEL!!!
Bach: Suítes para Violoncelo, BWV 1007-1012
CD 1
Suite N°1 in G major BWV 1007
1. Suite No. 1, S. 1007 In G Major: Prelude
2. Suite No. 1, S. 1007 In G Major: Allemande
3. Suite No. 1, S. 1007 In G Major: Courante
4. Suite No. 1, S. 1007 In G Major: Sarabande
5. Suite No. 1, S. 1007 In G Major: Menuett
6. Suite No. 1, S. 1007 In G Major: Gigue
Suite N°2 in d minor BWV 1008
7. Suite No. 2, S. 1008 In D Minor: Prelude
8. Suite No. 2, S. 1008 In D Minor: Allemande
9. Suite No. 2, S. 1008 In D Minor: Courante
10. Suite No. 2, S. 1008 In D Minor: Sarabande
11. Suite No. 2, S. 1008 In D Minor: Menuett
12. Suite No. 2, S. 1008 In D Minor: Gigue
Suite N°3 in C major BWV 1009
13. Suite No. 3, S. 1009 In C Major: Prelude
14. Suite No. 3, S. 1009 In C Major: Allemande
15. Suite No. 3, S. 1009 In C Major: Courante
16. Suite No. 3, S. 1009 In C Major: Sarabande
17. Suite No. 3, S. 1009 In C Major: Bouree
18. Suite No. 3, S. 1009 In C Major: Gigue
CD 2
Suite N°4 in E flat major BWV 1010
1. Suite No. 4, S. 1010 In E-Flat Major: Prelude
2. Suite No. 4, S. 1010 In E-Flat Major: Allemande
3. Suite No. 4, S. 1010 In E-Flat Major: Courante
4. Suite No. 4, S. 1010 In E-Flat Major: Sarabande
5. Suite No. 4, S. 1010 In E-Flat Major: Bourree
6. Suite No. 4, S. 1010 In E-Flat Major: Gigue
Suite N°5 in c minor BWV 1011
7. Suite No. 5, S. 1011 In C Minor: Prelude
8. Suite No. 5, S. 1011 In C Minor: Allemande
9. Suite No. 5, S. 1011 In C Minor: Courante
10. Suite No. 5, S. 1011 In C Minor: Sarabande
11. Suite No. 5, S. 1011 In C Minor: Gavotte
12. Suite No. 5, S. 1011 In C Minor: Gigue
Suite N°6 in D major BWV 1012
13. Suite No. 6, S. 1012 In D Major: Prelude
14. Suite No. 6, S. 1012 In D Major: Allemande
15. Suite No. 6, S. 1012 In D Major: Courante
16. Suite No. 6, S. 1012 In D Major: Sarabande
17. Suite No. 6, S. 1012 In D Major: Gavotte
18. Suite No. 6, S. 1012 In D Major: Gigue
Sigiswald Kuijken faz uma careta especial para o povo pequepiano | Imagem roubada do Facebook do grande violinista e maestro brasileiro Luis Otavio Santos