Um documento histórico de interpretação musical. Lançado originalmente pela EMI e posteriormente relançado em diversas edições, este disco coloca frente a frente duas obras-primas do compositor vienense sob a ótica de um dos maiores pianistas e quartetos de cordas do século XX.
O Quinteto “A Truta”, gravado ao vivo em junho de 1980 no Castelo de Hohenems, na Áustria, é apresentado sob uma perspectiva notavelmente pessoal e, para muitos, surpreendente. A interpretação de Richter, em colaboração com os violinistas Mikhail Kopelman e Dmitri Shebalin, o violoncelista Valentin Berlinsky e o contrabaixista Georg Hörtnagel, é marcada por andamentos que se contam entre os mais lentos já registrados, uma escolha que confere à obra uma dimensão de intensidade hipnótica e lirismo profundo, afastando-se do jovial e despreocupado que muitas vezes se associa à peça. Longe de ser um defeito, essa abordagem mais ponderada e “richteriana” revela uma faceta menos explorada do quinteto, mergulhando em suas estruturas e na beleza melódica com uma seriedade que beira o contemplativo, como se pode notar especialmente no andamento Andante, que ganha uma duração excepcional e atmosfera onírica. Embora o Scherzo possa parecer um tanto duro para alguns, perdendo parte da leveza habitual, a troca é compensada por uma riqueza de detalhes e uma união de propósitos entre os músicos, que se equilibram com notável sensibilidade, valorizando os momentos em que as cordas devem brilhar, como na cantilena para viola e violoncelo no segundo movimento.
Porém, na minha nada abalizada opinião, o grande atrativo do disco, é a Fantasia “Wanderer” (D. 760), registrada em estúdio em 1963, em Paris, que serve como um complemento de peso e revela o outro lado da personalidade artística de Richter. Aqui, o pianista se entrega à obra com a fúria e a majestade de um titã, enfrentando as imensas dificuldades técnicas com uma desenvoltura que beira o sobre-humano e transformando a peça num monumento de poder e virtuosismo, contrastando com a introspecção do quinteto. Conhecido por sua aversão a gravações em estúdio com edições, Richter imprime uma fluidez impressionante, onde a fúria do Allegro con fuoco e a energia do Presto dão lugar a um Adagio de uma beleza transcendental e toques de uma delicadeza surpreendente. A inclusão desta gravação, que por muito tempo foi difícil de encontrar, transforma o CD em uma peça de colecionador, especialmente para os admiradores do pianista.
Franz Schubert (1797-1828): “Trout” Quintet / “Wanderer” Fantasy ( Borodin Quartet, Sviatoslav Richter)
Quintet For Piano, Violin, Viola, Cello And Double Bass In A Major, D 667 “The Trout”
I. Allegro Vivace 13:32
II. Andante 8:28
III. Scherzo. Presto – Trio 4:28
IV. Thema. Andantino – Var.I-IV 7:38
V. Allegro Giusto 9:57
Fantasy For Piano In C Major, D 760 “Wanderer”
VI. Allegro Con Fuoco Ma Non Troppo 5:54
VII. Adagio 6:51
VIII. Presto 4:33
IX. Allegro 3:34
Sviatoslav Richter (piano)
Mikhail Kopelman (violino)
Dmitri Shebalin (viola)
Valentin Berlinsky (violoncelo)
Georg Hörtnagel (contrabaixo)

PQP