Este CD foi lançado em 2012, mas merece ser ouvido com todo carinho e dedicação necessários. Sendo uma das grandes pianistas da atualidade, Hewitt encara estas obras tão delicadas com sobriedade, uma técnica apurada e uma maturidade musical exemplar. Os clientes da amazon são unânimes em dar cinco estrelas para esse CD.
E como é o mês dele, Claude Debussy, vamos então lhes apresentar outro grande CD do selo Hyperion, em outro grande momento de Angela Hewitt.
Claude Debussy (1862-1918) – Solo Piano Music – Angela Hewitt
01. Children’s Corner – 1. Doctor Gradus ad Parnassum
02. Children’s Corner – 2. Jimbo’s Lullaby
03. Children’s Corner – 3. Serenade for the Doll
04. Children’s Corner – 4. The snow is dancing
05. Children’s Corner – 5. The Little Shepherd
06. Children’s Corner – 6. Golliwog’s Cake-Walk
07. Suite Bergamasque – 1. Prélude
08. Suite Bergamasque – 2. Menuet
09. Suite Bergamasque – 3. Clair de lune
10. Suite Bergamasque – 4. Passepied
11. Danse
12. 2 Arabesques – 1. Andantino
13. 2 Arabesques – 2. Allegretto scherzando
14. Pour le piano – 1. Prelude
15. Pour le piano – 2. Sarabande
16. Pour le piano – 3. Toccata
17. Masques
18. L’isle joyeuse
19. La plus que lente
P.S. de Pleyel: muitos alunos intermediários de piano passam pelos Arabesques e pelo Clair de lune, mas não se enganem, é música muito sofisticada apesar da relativa simplicidade técnica. Angela Hewitt deixa isso muito claro aqui.
Sofia Gubaidulina e Osvaldo Golijov compuseram obras monumentais para o projeto Passion 2000 da Bachakademie Stuttgart. Ambas as composições redefinem a tradição clássica da Paixão com abordagens modernas, linguagens multiculturais e reflexões místicas profundas.
A monumental Johannes-Passion de Gubaidulina impressiona pela intensidade mística, pela riqueza tímbrica e por uma linguagem que une tradição religiosa e modernidade radical. A compositora russa baseou-se nos textos do Evangelho de São João e do Livro do Apocalipse, criando a primeira “Paixão” escrita em língua russa. A obra tem um caráter estritamente litúrgico, profundo e místico. Marcada por uma predominância de vozes graves e metais, a música evoca a ressonância de eras antigas, contrapondo os eventos sombrios da crucificação com a esperança da ressurreição, expandida na sequência St John Easter.
Já La Pasión según San Marcos, de Golijov, apresenta uma visão vibrante e multicultural, em que ritmos latino-americanos, elementos populares e força dramática convivem numa celebração de extraordinária energia. O compositor argentino une a música folclórica sul-americana, ritmos cubanos, influências judaicas e o canto litúrgico, trazendo o relato bíblico para um contexto contemporâneo e universal. A obra destaca-se pela alta dramaticidade e vitalidade rítmica, usando a percussão e o canto visceral para retratar Jesus não como o estereótipo europeu, mas como um homem latino-americano e de cor.
O contraste entre os dois compositores é fascinante: Gubaidulina busca a transcendência pelo recolhimento e pela contemplação; Golijov, pela exuberância e pelo movimento. O resultado é um disco que convida à reflexão sobre a diversidade das linguagens musicais contemporâneas e sobre a permanência de temas espirituais num mundo aparentemente secularizado. Uma audição exigente, mas profundamente recompensadora, que revela duas maneiras muito diferentes — e igualmente poderosas — de transformar fé, sofrimento e esperança em música.
Sofia Gubaidulina (1931-2025) / Osvaldo Golijov (1960): Passions (Rilling, Guinand)
St. John Passion = Johannes-Passion Composed By – Sofia Gubaidulina
1-1 Das Wort = The word 1:20
1-2 Fußwaschung = The Washing Of Feet 10:34
1-3 Das Gebot Des Glaubens = The Commandment Of Faith 1:58
1-4 Das Gebot Der Liebe = The Commandment Of Love 2:51
1-5 Hoffnung = Hope 1:58
1-6 Liturgie Im Himmel = Liturgy In Heaven 13:25
1-7 Verrat, Verleugnung, Geißelung, Verurteilung = Betrayal, Denial, Flagellation, Condemnation 13:38
1-8 Gang Nach Golgotha = The Way To Golgotha 14:29
1-9 Eine Frau, Mit Der Sonne Bekleidet = A Woman Clothed With The Sun 1:37
1-10 Grablegung = Entombment 5:11
1-11 Die Sieben Schalen Des Zorns = The Seven Bowls Of Wrath 6:30
Nicholas Isherwood, Corby Welch, Julia Sukmanova, Bernd Valentin
Kammerchor der Musikhochschule Trossingen, Gächinger Kantorei, Radio-Sinfonieorchester Stuttgart des SWR
Helmuth Rilling
St. John Easter = Johannes-Ostern Composed By – Sofia Gubaidulina
2-1 Ostermorgen = Easter Morning 2:42
2-2 Maria Magdalena = Mary Magdalene 3:08
2-3 Erste Erscheinunge Des Auferstandenen Christus Vor Den Jüngern „Empfanget Den Heiligen Geist“ = Christ’s First… 2:43
2-4 “Ich Glaube Nicht” = I Will Not Believe 4:06
2-5 Der Reiter Auf Dem Weißen Pferd = The Rider On A White Horse 5:31
2-6 Zweite Erscheinung Des Auferstandenen Christus Vor Den Jüngern „Und Sei Nicht Ungläubig“ = Christ’s Second Appearance… 1:14
2-7 Intermedium = Interlude 2:45
2-8 „Ich Bin Das Lebendige Brot“ = I Am The Living Bread“ 1:50
2-9 Die Finsternis Vergeht = The Darkness Is Passing Away 1:14
2-10 Dritte Erscheinunge Des Auferstandenen Christus Vor Den Jüngern „Abschied“ = Christ’s Third Appearance To His… 13:25
2-11 Das Gericht = The Judgement 2:53
2-12 „Und Ich Sah Einen Neuen Himmel Und Eine Neue Erde“ = „I Saw A New Heaven And A New Earth“ 6:27
Julia Sukmanova, Nicholas Isherwood, Corby Welch, Bernd Valentin
Radio-Sinfonieorchester Stuttgart des SWR, Kammerchor der Musikhochschule Trossingen, Gächinger Kantorei
Helmuth Rilling
La Pasión Según San Marcos = St. Mark Passion Composed By – Osvaldo Golijov Parte 1
3-1 Visión: Bautismo En la Cruz = Vision: Baptism On The Cross (1. Part) 1:02
3-2 Danza Del Pescador Pescado = Dance Of The Ensnared Fisherman 0:51
3-3 Primer Anuncio = First Announcement 3:42
3-4 Segundo Anuncio = Second Announcement 2:15
3-5 Tercero Anuncio: En Fiesta No = Third Announcement: Not On The Feast Day 1:02
3-6 Dos Dias = Two Days 1:37
3-7 Unción En Betania = The Anointment In Bethany 1:30
3-8 ¿Por Qué? = Why? 3:56
3-9 Oración Lucumí (Aria Con Grillos) = Lukumi Prayer (Aria With Crickets)) 2:02
3-10 El Primer Día = The First Day 1:34
3-11 Judas. El Cordero Pascual = The Paschal Lamb 4:29
3-12 Quisiera Yo Renegar (Aria de Judas) = I Wish To Forswear (Aria Of Judas) 2:43
3-13 Eucaristía = The Eucharist 3:18
3-14 Demos Gracias Al Señor = We Give Thanks To The Lord 5:00
3-15 En El Monte de Los Olivos = On The Mount Of Olives 1:08
3-16 Cara A Cara = Face To Face 1:10
3-17 En Getsemaní = In Gethsemane 1:41
3-18 Agonía (Aria de Jesús) = Agony (Aria Of Jesus) 7:52
3-19 Arresto = The Arrest 2:34
3-20 Danza de la Sábana Blanca = Dance Of The White Sheet 1:30
3-21 Ante Caifás = Before Caiaphas 1:44
Reynaldo González-Fernandez, Luciana Souza, Samia Ibrahim
Orquesta La Pasion, Schola Cantorum de Caracas, Cantoria Alberto Grau
Maria Guinand
Parte 2
4-1 Soy Yo (Confesión) = I Am (Confession)) 2:27
4-2 Escarnio y Negación = Scorn And Denial 1:52
4-3 Desgarro de la Túnica = Tearing Of The Garment 1:23
4-4 Lúa Descolorida (Aria de Las Lágrimas de Pedro) = Colorless Moon (Aria Of Peter’s Tears) 5:51
4-5 Amanecer: Ante Pilato = Morning: Before Pilate 3:46
4-6 Silencio = Silence 1:46
4-7 Sentencia = Sentence 1:56
4-8 Comparsa Al Gólgotha = Parade: To Golgotha 3:24
4-9 Danza de la Sábana Púrpura – Manto Sagrado = Dance Of The Holy Purple Robe 0:36
4-10 Crucifixión = Crucifixion 2:03
4-11 Muerte = Death 1:03
4-12 Kaddish 6:31
Samia Ibrahim, Luciana Souza
Orquesta La Pasion, Schola Cantorum de Caracas, Cantoria Alberto Grau
Maria Guinand
Quando certa manhã PQP Bach acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama tomado por uma monstruosa vontade de ouvir as “Quatro Últimas Canções” de Strauss com a Jessye Norman e o Kurt Masur. Estava deitado sobre suas costas duras de torcedor colorado e, ao levantar um pouco a cabeça, olhou para a estante e não encontrou esse disco. Procurou na caixinha de busca do site e ele tampouco estava ali. Suas duas pernas, torneadas pelos quilômetros corridos nas calçadas da capital gaúcha, repousavam desamparadas diante de seus olhos.
“Eu é que não vou ouvir esse disco no YouTube”, pensou.
Não era um sonho. E foi assim que, como o bater de asas da famosa borboleta e seu efeito, nasceu a cadeia de acontecimentos que fez esse disco vir parar aqui no blog. Lacuna braba, que agora a gente vem mui humildemente preencher. O próprio PQP diria: Im-per-dí-vel! Incontornável, basilar, seminal, referência, enfim, dê o nome que quiser, esse disco é tudo isso e mais um pouco. João Gilberto dizia que não sabia se a perfeição existe, mas que a perfeição o incomodava pra caramba. Pois bem, existe sim, e é esse disco aqui.
Jessye Norman clicada por Irving Penn, 1983
Um repertório transcendental, uma cantora estupenda e uma orquestra em estado de graça, sob o comando de um de seus Kapellmeister mais marcantes. Ruim, não teria como ser, mas putz, que encontro, que milagre, que grande feito humano que é esse disquinho. Se Deus está morto, como querem alguns (entre os que acreditam que Ele(a)/ele(a) existe), esse disco bem que poderia ter sido tocado em seu funeral — que, segundo os relatos, foi um senhor rolê, com o trio final de Der Rosenkavalier regido por Sir Georg Solti, nas vozes de Marianne Schech, Maud Cunitz e Gerda Sommerschuh. Mas essa é outra história, para outro dia.
Compostas quando Strauss tinha 84 anos e já vislumbrava o doce suspiro da morte, as Vier letzte Lieder são algumas das mais belas canções de todo o repertório de concerto. O sublime como poucas vezes foi atingido na história dessa nossa combalida espécie. Quem as reuniu como um ciclo de quatro pontas não foi o compositor, mas seu amigo e editor Ernest Roth, da Boosey & Hawkes. As três primeiras canções são a partir de poemas de Hermann Hesse, e a última, Im Abendrot, de Joseph von Eichendorff. Aliás, um poemaço:
Im Abendrot
Wir sind durch Not und Freude gegangen Hand in Hand; vom Wandern ruhen wir nun überm stillen Land. Rings sich die Täler neigen, es dunkelt schon die Luft. Zwei Lerchen nur noch steigen nachträumend in den Duft. Tritt her und laß sie schwirren, bald ist es Schlafenszeit. Daß wir uns nicht verirren in dieser Einsamkeit. O weiter, stiller Friede! So tief im Abendrot. Wie sind wir wandermüde— Ist dies etwa der Tod?
A tradução da Wikipedia, não creditada, vai assim:
No crespúsculo
Através de dores e alegrias, nós caminhamos de mãos dadas; agora descansamos da nossa errância sobre uma terra silenciosa. Em torno de nós se inclinam os vales e já escurece o céu. Apenas duas cotovias alçam voo, sonhando no ar perfumado. Aproxime-se, e deixe-as voejar. Logo será hora de dormir. Venha, que não nos percamos nesta grande solidão. Ó paz imensa e tranquila tão profunda no crepúsculo! Como nós estamos cansados dessa jornada — Seria talvez isso já a morte?
Strauss infelizmente não viveu para ouvir a obra; a estreia foi em maio de 1950, com Kirsten Flagstad cantando e ninguém mais, ninguém menos que Wilhelm Furtwängler regendo a Philharmonia Orchestra. O lado B do disco é um apanhado de seis outras canções orquestrais de Strauss, de diferentes opuses e poetas. Uma mais linda que a outra. Você, caro leitor, cara leitora, tem alguma preferida?
O velho Strauss sorrindo para você que, além de nos ler, comenta nas postagens do blog
Richard Strauss (1864-1949)
Vier Letzte Lieder
1 – Frühling (Hesse)
2 – September (Hesse)
3 – Beim Schlafengehen (Hesse)
4 – Im Abendrot (Eichendorff)
Lançado em maio de 2024 pelo selo Chandos, este álbum que reúne a Sinfonia nº 13 de Dmitri Shostakovich e o De profundis de Arvo Pärt, sob a direção de John Storgårds, é mais do que um simples registo de duas obras do repertório do século XX, o disco propõe um diálogo sombrio e contemplativo entre a memória da tragédia e a esperança. A escolha de Storgårds por abrir o programa com a breve peça de Arvo Pärt revela-se, desde o primeiro instante, uma declaração de intenções. Composto em 1980 e aqui apresentado na versão de 2008 para coro masculino e orquestra de câmara, De profundis é uma meditação sobre o Salmo 130, construída na característica linguagem “tintinnabuli” do compositor . Sob a batuta de Storgårds, e com o Estonian National Male Choir a revelar uma precisão e uma profundidade textual notáveis, a peça soa como um lento cortejo fúnebre, uma descida às profundezas da alma onde a dor se encontra com a possibilidade da redenção. A atmosfera é de uma serenidade gelada, e o toque final do sino, que se extingue no silêncio, prepara de forma magistral o terreno para o turbilhão de angústia que se seguirá.
É esse turbilhão que ocupa o centro do disco: a Sinfonia nº 13, op. 113, “Babi Yar”. Escrita por Shostakovich em 1962 sobre poemas de Yevgeny Yevtushenko, esta é uma obra de uma coragem e uma subversão raras, que denuncia o antissemitismo e a opressão na União Soviética, começando pelo massacre de 33.771 judeus na ravina de Babi Yar, na Ucrânia. É aqui que a interpretação de John Storgårds se diferencia mais radicalmente das abordagens tradicionais. O seu “estilo britânico” afasta-se do expressionismo visceral e da fúria contida que caracterizam as leituras de maestros russos como Kirill Kondrashin. Em vez disso, Storgårds opta por uma leitura contida, de uma clareza quase analítica, onde a tragédia é sugerida mais pela tensão acumulada e pelo relevo dado ao texto do que por gestos ostensivos. Este enfoque é corroborado pela escolha do solista, o baixo-barítono alemão Albert Dohmen. A sua voz, mais conhecida pelos papéis wagnerianos de Wotan e Gurnemanz, não possui o peso agreste e a cor negra de um baixo russo “à Boris Godunov”. Dohmen canta com uma sobriedade e uma elegância que, à primeira escuta, podem parecer deslocadas na ferocidade poética de Yevtushenko. No entanto, esta abordagem permite que a ironia corrosiva de Shostakovich se imponham por si mesmas, sem o véu de um pathos demasiado evidente. A sua interpretação é particularmente eficaz nos momentos de reflexão e no sarcasmo do movimento final, “Career”, onde a sua linha vocal mais introspetiva se ajusta perfeitamente à crítica irónica aos burocratas e à defesa dos verdadeiros criadores.
A resposta da BBC Philharmonic e do Estonian National Male Choir é de uma excelência inquestionável. O coro é impecável, com uma projeção clara e um sentido dramático apurado, que vai do sussurro ao ataque incisivo no movimento satírico “Humour”. A orquestra, por seu lado, tira de letra a complexa e multifacetada partitura de Shosta. As madeiras são ácidas e zombeteiras, os metais soam rudes e ameaçadores, e as cordas criam camadas de textura de uma frieza gélida, especialmente nos movimentos “In the Store” e “Fears”, onde o clima de paranoia e desolação é magistralmente construído. A qualidade da gravação capta com impressionante clareza o peso do tímpano, o toque lúgubre do sino e os mais recatados pianíssimos do coro.
Este não é um álbum para quem procura uma catarse imediata ou uma recriação visceral da estreia russa da obra. A proposta de John Storgårds é deliberadamente mais intelectual, mais fria e, curiosamente por isso, profundamente melancólica. Ao colocar o grito de revolta de Shostakovich ao lado do recolhimento religioso de Pärt, o maestro finlandês convida-nos a uma escuta que transcende o protesto político e se aproxima de uma meditação sobre o sofrimento humano. Para alguns críticos, esta abordagem soou comedida, para outros representou uma visão poderosamente alternativa, que encontra a sua força não na tempestade, mas na profundidade silenciosa do seu olhar. É um registo que não se impõe facilmente, mas que, uma vez compreendido, revela grande integridade artística e coerência.
Shostakovich: Symphony No. 13 ‘Babi Yar’ / Arvo Pärt: De Profundis (Albert Dohmen, Estonian National Male Choir, BBC Philharmonic, John Storgårds)
Arvo Pärt– De Profundis (2008) 6:50
Dmitri Shostakovich Symphony No. 13 In B Flat Minor, Op. 113 ‘Babiy Yar’ (1962)
Bass-Baritone Vocals – Albert Dohmen
(1:02:35)
2 – 1. Babiy Yar. Adagio ‒ Più Mosso ‒ Adagio ‒ Più Mosso ‒ Allegro ‒ Adagio ‒ Poco Più Mosso ‒ Adagio ‒ Più Mosso 16:07
3 – 2. Humour. Allegretto 8:31
4 – 3. In The Store. Adagio ‒ Meno Mosso. Sostenuto ‒ Adagio ‒ Meno Mosso ‒ [Più Mosso] ‒ Meno Mosso ‒ Largo ‒ Adagio ‒ 12:00
5 – 4. Fears. Largo ‒ Sostenuto ‒ Più Mosso ‒ Moderato ‒ Largo ‒ Poco Più Mosso ‒ Sostenuto ‒ Allegretto ‒ Largo ‒ 12:00
6 – 5. Career. Allegretto ‒ Pesante ‒ Meno Mosso ‒ Allegretto ‒ Adagio ‒ Allegretto ‒ Adagio ‒ Allegretto ‒ Meno Mosso 13:49
Choir – Estonian National Male Choir
Conductor – John Storgårds
Leader – Zoë Beyers
Orchestra – BBC Philharmonic
Vocal Coach [Language Coach] – Alexandre Naoumenko
Eu adoro esta Sinfonia Nº 3 de Mahler. Para mim, é a melhor. É uma das obras mais monumentais do repertório sinfônico, ultrapassando muitas vezes os 100 minutos de duração. Mahler a descreveu como “a coisa mais louca que já escrevi”, tamanha sua ambição e complexidade. Neumann e seus tchecos são realmente muito bons! A obra está dividida em seis movimentos que traçam uma jornada filosófica ascendente desde a natureza primitiva até o amor divino:
1. Pã Desperta: o Verão Marcha: um enorme movimento de abertura enorme (cerca de 40 min) que emerge de uma textura densa e “primitiva”.
2. O que as Flores do Campo me Contam.
3. O que os Animais da Floresta me Contam: inclui um famoso solo de trompa, que cria uma atmosfera nostálgica e distante.
4. O que o Homem me Conta: um movimento para contralto solo, dá-lhe Christa!
5. O que os Anjos me Contam: envolve coro feminino e infantil, celebrando a alegria celestial.
6. O que o Amor me Conta: um adágio final muito bonito e comovente, onde as cordas e metais criam uma sensação de redenção.
Para Mahler, “uma sinfonia deve ser como o mundo. Deve conter tudo”. Assim, a obra transita entre o assustador e o sublime, combinando momentos de pura exuberância e profunda melancolia .
Gustav Mahler (1860-1909): Sinfonia Nº 3 (Neumann, Orquestra Filarmônica Tcheca)
I. Kräftig. Entschieden (Beg.) 26:28
I. Kräftig. Entschieden (Concl.) 4:33
II. Tempo Di Menuetto. Sehr Mässig 8:42
III. Comodo. Scherzando. Ohne Hast 16:27
IV. Sehr Langsam. Misterioso 9:50
V. Lustig Im Tempo Und Keck Im Ausdruck 4:36
VI. Langsam. Ruhevoll. Empfunden 19:58
Chorus – Kühnův Dětský Sbor (tracks: D1), Pražský Filharmonický Sbor*
Chorus Master – Jiří Chvála (tracks: D1), Josef Veselka
Conductor – Václav Neumann
Contralto Vocals – Christa Ludwig
Orchestra – Česká Filharmonie*
Este é o volume 15 da maravilhosa série capitaneada por Giovanni Antonini e a Orquestra de Câmara de Basel, assim como Il Giardino Armonico. A ideia da série é a de gravar todas as sinfonias até 2032, quando Haydn completará 300 de vida, pois está vivo até hoje. Diferentemente de uma abordagem cronológica tradicional, Antonini opta por agrupar as sinfonias por temas ou conceitos. O fio condutor do volume 15 são as figuras reais, fazendo referência direta à Sinfonia nº 85, apelidada de “La Reine”. A lenda conta que esta era a sinfonia favorita da Rainha Maria Antonieta da França. As outras obras do disco também possuem conexões reais, ainda que menos diretas: a Sinfonia nº 50 foi apresentada durante uma visita da Imperatriz Maria Teresa da Áustria, e a Sinfonia nº 62 foi composta no ano da morte da mesma imperatriz. A regência de Antonini recebe elogios quase unânimes da crítica especializada. O estilo é descrito como uma combinação feliz de vigor rítmico e sensibilidade lírica, sem recorrer a exageros ou efeitos que possam cansar em audições repetidas. Este Volume 15 – “La Reine” é um triunfo. Ele captura a essência do que torna a música de Haydn tão especial: a capacidade de ser ao mesmo tempo previsível e surpreendente, elegante e robusta, cheia de humor e profunda emoção. Com uma combinação inteligente de obras conhecidas e injustamente negligenciadas, com performances que respiram vitalidade e inteligência musical, este disco é um presente para os amantes de Haydn e um testemunho da importância de se ter um projeto de integrais bem planejado e executado.
F. J. Haydn (1732-1809): Sinfonias Nº 85, 62 e 50 (Kammerorchester Basel, Antonini)
Symphony No.85 In B Flat Major, Hob. I:85 ‘La Reine’
1 I. Adagio – Vivace 10:51
2 II. Romance. Allegretto 6:55
3 III. Menuet. Allegretto – Trio 3:18
4 IV. Finale. Presto 3:18
Symphony No.62 In D Major, Hob. I:62
5 I. Allegro 7:39
6 II. Allegretto 5:41
7 III. Menuet. Allegretto – Trio 2:19
8 IV. Finale. Allegro 7:57
Symphony No.50 In C Major, Hob. I:50
9 I. Adagio E Maestoso – Allegro Di Molto 4:42
10 II. Andante Moderato 4:38
11 III. Menuet – Trio 3:40
12 IV. Finale. Presto 5:23
Conductor – Giovanni Antonini
Orchestra – Kammerorchester Basel
A musicalidade natural e segura de Lukáš Vondráček, aliada a uma técnica notável, há muito o destacam como um músico talentoso e maduro.
Lukáš olhando a capa do disco de estreia e achando linda!
Após uma semana ouvindo canções napolitanas (e adorando isso) dei com meus costados neste disco que achei maravilhoso, refrescante, cheio de vigor e verve.
O pianista checo Lukáš Vondráček já nos brindou com uma ótima integral dos concertos para piano de Rachmaninov, que você pode desfrutar clicando aqui, numa ancestral postagem da coluna Dose Dupla – Dois pelo preço de um.
O disco desta postagem é mais antigo do que a gravação dos concertos, é o primeiro disco ‘comercial’ do moço. O repertório é de largo espectro, como convém para o primeiro projeto de um jovem talentoso artista. Começa com uma clássica sonata de Haydn com suas melhores características evidenciadas – humor memorável, ritmos marcantes e temas adoráveis. Em seguida, quase 20 minutos de romantismo tardio lançando um olhar sobre um tema marcante na história da música – La Folia – na peça Variações sobre um tema de Corelli, de Rachmaninov. Para terminar, um banho de modernidade, a espetacular Sonata No. 7, de Prokofiev, uma das Três Sonatas da Guerra.
Eu ouvi o disco umas três vezes de enfiada e continuo voltando a ele, especialmente pelas sonatas. Ah, mas o tema de Corelli também é muito bonito.
Franz Joseph Haydn (1732-1809)
Sonata in C major, Hob. XVI:50
Allegro
Adagio
Allegro molto
Sergei Rachmaninoff (1873-1943)
Variations on a Theme by Corelli, Op. 42
Variations
Sergei Prokofiev (1891-1953)
Sonata No. 7, Op. 83
Allegro inquieto
Andante caloroso
Precipitato
Lukáš Vondráček, piano
Recorded at: Endler Hall, StellenboschUniversity, South Africa, 29 – 30/09/2012
TwoPianists Records is delighted to introduce Lukáš in his first major solo disc. […] What appealed to us about his playing is Lukáš’ immense musical personality – untamed, fresh, individual and above all, effortless. In an industry filled with talent, Lukáš Vondráček is most certainly a name to watch!
Czech pianist Lukáš Vondráček’s album featuring Haydn, Rachmaninov, and Prokofiev showcases his immense, untamed musical personality. Critics praise his effortless technique, where he balances volatile, thunderous power in Rachmaninov and Prokofiev with a rare, crystalline clarity and imagination in Haydn’s classical structures.
Não é um CD para todos. É de 1992 e eu acho lindo! Este álbum com o Ensemble InterContemporain sob a direção de Pierre Boulez e Michel Tabachnik, é uma das portas de entrada para o universo de Iannis Xenákis. Reunindo obras compostas entre 1965 e 1986, o disco apresenta um compositor que pensa a música como arquitetura sonora: massas de som em movimento, explosões de energia e texturas de uma força quase física. Esta gravação continua sendo indispensável para quem ouve a música quase contemporânea… Mais do que desafiar o ouvinte, Xenákis o coloca dentro de uma experiência sonora radical, em que a percepção é constantemente testada e renovada. Nestas interpretações precisas e intensamente comprometidas, Boulez e Tabachnik revelam não apenas a violência e a complexidade dessa música, mas também sua surpreendente beleza. Convém evitar os dois extremos: o entusiasmo vazio (“Uau, música revolucionária!”) e o tecnicismo excessivo. Ela sugere algo essencial sobre sua obra: por trás da matemática, da arquitetura e da violência sonora, há uma busca genuína pela beleza — uma beleza diferente da de Debussy ou Mahler, mas nem por isso menos intensa.
Este CD do Café Zimmermann com o contratenor Dominique Visse, é uma deliciosa incursão por um lado menos conhecido do barroco francês: o da sátira, da paródia e do humor musical. O programa reúne cantatas e concertos cômicos de compositores hoje pouco frequentados, mas que revelam um século XVIII espirituoso e surpreendentemente irreverente. o barroco também sabia rir de si mesmo. Não é um imperdível, mas eu me diverti com ele. O Marais é maravilhoso, assim como o La Garde. O Café Zimmermann, liderado pelo argentino Pablo Valetti é um grupo muito foda.
Corrette / La Garde / De Grandval / Marais / Courbois: Dom Quichotte – Cantates & concertos comiques (Visse, Café Zimmermann)
Concerto Comique V ‘La Femme Est Un Grand Embarras’
Composed By – Michel Corrette
1 Allegro 2:09
2 Adagio 1:57
3 Allegro 1:48
Cantate ‘La Sonate’
Composed By – Pierre de La Garde
4 – 5:03
5 N’Admirés Vous Pas Ce Tableau… 2:44
6 Ainsi Par Des Sons Tout S’Exprime… 3:21
7 La Sonnerie De Ste Geneviève Du Mont De Paris
Composed By – Marin Marais
7:10
Cantate ‘La Matrone D’Ephèse’
Composed By – Nicolas Racot De Grandval
8 – 3:24
9 Un Autre Mort En Grand Silence… 6:03
10 Vous Êtes Mon Vainqueur… 4:58
11 Qu’Entends-je !… 3:51
Concerto Comique XXIV ‘La Marche Du Huron’
Composed By – Michel Corrette
12 Allegro 3:09
13 Amorozo 2:08
14 Allegro 1:56
Cantate ‘Dom Quichotte’
Composed By – Philippe Courbois
15 – 3:08
16 Air : Loin Des Yeux Qui M’Ont Fait Captif 3:41
17 Signalons Sur Ces Monts 5:43
18 Le Fameux Chevalier À La Triste Figure 3:43
Countertenor Vocals – Dominique Visse (tracks: 4 to 11, 15 to 18)
Ensemble – Café Zimmermann
Flute – Diana Baroni
Harpsichord, Organ – Céline Frisch
Lute, Guitar [Baroque Guitar] – Eric Bellocq
Other [Thank You] – Reiko Arai
Viola da Gamba – Guido Balestracci
Violin – David Plantier
Violin, Concertmaster – Pablo Valetti
Violoncello – Petr Skalka
Que país europeu melhor inspiraria algum de seus poetas a escrever versos como estes que não fosse a Itália? Lembremo-nos da Sinfonia Italiana, de Mendelssohn. Há alguma sinfonia ainda mais ensolarada do que ela?
Pois na Itália há lugares lindos, como a região de Nápoles, com sua cidade entre o mar e o vulcão. Suas belezas inspiram seus habitantes há muitos séculos. Com uma cultura riquíssima, gastronomia e música entre elas, é certamente um lugar para se conhecer. Ainda não deu tempo de ir? Então, não deixe de ler o livro de Susan Sontag – O Amante do Vulcão –, e de ouvir as canções da postagem.
Primeira edição da coluna ‘Dois Pelo Preço de Um – Dose Dupla’ do tipo .: interlúdio :. , com dois álbuns contrastantes, mas sobre o mesmo tema e, em algum sentido, complementares.
Carmine no Borello
Você pode estar se perguntando: como esse cara foi dar com seus costados em tais paragens? Pois bem, eu explico: perto de onde moro há um restaurante que serve comida italiana e em algumas noites da semana, terças e quintas-feiras, por exemplo, há música ao vivo. Tudo por conta de um simpaticíssimo chef-cantor, o Carmine. Nas quintas ele é acompanhado pelo maestro pianista que também o persegue levando o acordeão quando o tenor sai brindando algumas das mesas com uma canção específica, seja por um pedido especial, seja por ter aparecido algum comensal em dia de aniversário, e o contrabaixista, que dá deveras profundidade à música que eles produzem com clara cumplicidade e alegria. Canções napolitanas fazem parte forte do repertório e aprendi rápido que há algumas pérolas que brilham mesmo quando a interpretação não é perfeita, contanto que venha do coração. Marechiaro é uma delas, assim como a animada Funiculì, funiculà, você certamente já a ouviu por aí. Cada frequentador do restaurante que aparece mais de uma vez começa a desenvolver uma predileção por esta ou aquela. Eu adorei ‘O surdato ‘nnamurato. Foi assim que comecei a ouvir essas ‘canções napuletanas’ também fora do restaurante.
Este tipo de música popular tem raízes bem antigas nesta região de Nápoles e floresceu com muita força no fim do século XIX e início do século XX, com verdadeiros hits, tais como O sole mio, Torna a Surriento e o já mencionado hino aos bondinhos do vulcão, o Funiculì, funiculà, todas aí nos dois discos da postagem. O gênero é popular, mas sempre atraiu os grandes cantores de óperas – os tenores famosos –, desde Enrico Caruso, Tito Schipa, Mario Lanza, Giuseppe Di Stefano e Franco Corelli. É uma grande oportunidade para o cantor aproximar-se de um público que nem sempre está inclinado a ouvir música erudita. Os temas, como é de esperar, são de grande apelo: amores interrompidos, dores de cotovelo, saudades de algum lugar especial…
Eu escolhi dois álbuns que estão recheados de sucessos e, ao mesmo tempo, oferecem perspectivas diferentes destas tais ‘canções napuletanas’. O disco do Pene Pati – Serenata a Napoli – eu achei lindo e é bem recente. Ele tem uma voz muito bonita e a usa com leveza e suavidade. Além disso, o acompanhamento é primoroso, colocado ao encargo do grupo Il Pomo d’Oro, sob a liderança do guitarrista Antonello Paliotti, que nasceu em Nápoles. Além das canções, você ouvirá alguns números instrumentais.
Para uma perspectiva mais próxima da ópera, temos o disco do tenor José Carreras, gravado já há um bom tempo. Carreras é um dos vértices do famoso triângulo dos tenores, os outros dois, Pavarotti e Plácido Domingo. Eles também gravaram discos no gênero, mas eu me sinto mais à vontade com a abordagem do José. Ah, ia me esquecendo, no disco do Carreras o acompanhamento é da English Chamber Orchestra, aquela a que recorríamos para segurança da música barroca, antes do movimento dos instrumentos e práticas de época.
Para saber mais detalhes sobre as canções, seus compositores e letristas, busquei bastante e achei muito boa a página criada por Natalia Chernega, que você pode acessar aqui.
Nesta mencionada página há gravações antigas das canções lá mencionadas. Acabei assim montando um arquivo para cada disco, com gravações alternativas, são assim uma versão ‘genérica’ dos discos, completados por uma ou duas outras gravações que busquei no Youtube. A qualidade do som não chega a atender os requisitos do selo PQP Bach-Iso de Qualidade, mas a diversão é certamente garantida, com algumas boas surpresas.
Uma delas é o cantor Roberto Murolo, que canta a versão genérica da canção Marechiaro, uma pérola. Roberto é filho de um poeta, Ernesto Murolo, que escreveu letras de muitas canções napolitanas. Creio que ele merece uma postagem própria, mas primeiro vamos de Pati e Carreras.
Quais são as canções que eu gostei mais, que Carmine e eu recomendaríamos sem dúvida, aquelas que grudaram por mais tempo nos meus ouvidos?
Pois bem, ‘O surdato ‘nnamurato é minha mais preferida, ela grudou mesmo, especialmente o pedacinho em que se canta
Oje vita, oje vita mia!
Oje core ‘e chistu core!
Sì stata ‘o primmo ammore
E ‘o primmo e ll’urdemo sarraje pe’ mme!
A canção foi composta em 1915, durante a Primeira Grande Guerra e dá para entender o tema a partir daí.
Mas, Maria, Marì, Era di Maggio e ‘A vucchella são também belíssimas. Maggio, como você deve adivinhar, é o mês de Maio, que no Norte é o mês da Primavera. Lembram do lindo Lied de Schumann, Im wunderschönen Monat Mai?
Vucchella, vocês sabem o que é? Eu meio que custei a descobrir… Vucca significa boca no dialeto napolitano e vucchella significa boquinha, assim como no Português a terminação faz o diminutivo. Aliás, ouvindo o Roberto Murolo cantar me fez lembrar da nossa língua, de vez em quando.
Falando nisso, não deixe de ouvir a canção Marechiaro, outra que eu ouço sem cançar. Core ‘ngrato é bonita, começa com o cara dizendo o nome da moça: Catarì, Catarì… e Dicitencello vuie chegou a aparecer no álbum da Zizi Possi, que canta lá umas coisas bem bonitas, ainda vou passar algum tempo ouvindo a moça.
Assim, você poderá também explorar e descobrir um pouco dessa arte tão popular, mas também bem próxima do canto lírico.
Eduardo Di Capua / Giovanni Capurro
O sole mio
Paolo Costa (Pasquale Mario Costa) / Salvatore Di Giacomo
Napulitanata
Eduardo Di Capua / Vincenzo Russo
Maria, Marì
Antonello Paliotti
Variazioni sul Basso di Tarantella: I. Preludio
Variazioni sul Basso di Tarantella: II. Variazioni
Paolo Costa (Pasquale Mario Costa) / Salvatore Di Giacomo
Era di maggio
Francesco Paolo Tosti / Gabriele D’Annunzio
A vucchella
Antonello Paliotti
Inquietudine
Enrico Cannio / Aniello Califano
O surdato ‘nnammurato
Francesco Buongiovanni / Aniello Califano
Mandulinata a mare
Paolo Costa (Pasquale Mario Costa) / Salvatore Di Giacomo
Serenata Napoletana
Antonello Paliotti
Romance
Salvatore Gambardella / Gennaro Ottaviano
‘O marenariello
Francesco Paolo Tosti
Marechiaro
Gaetano Lama / Libero Bovio
Silenzio Cantatore
Antonello Paliotti
Tarantella storta
Gaetano Lama / Libero Bovio
Reginella
Francesco Buongiovanni / Salvatore Di Giacomo
Palomma ‘e notte
Ermes Alessandro Mario
Canzone appassiunata
Antonello Paliotti
Fronna e Ballo del Pomo d’Oro: I. Fronna d’o limone
A voz de tenor brilhante de Pene Pati, descrita pelo Le Monde como “cheia de luz solar”, faz dele o intérprete ideal para papéis como Rodolfo em La bohème e o Duque de Mântua em Rigoletto. Agora, com Serenata a Napoli, ele traz seu calor singular para outra forma de arte tipicamente italiana: a canção napolitana. Além de grandes sucessos como “O sole mio” e “Funiculì funiculà”, a era de ouro da canzone napoletana (1880-1930) produziu abundantes expressões líricas de paixão, melancolia e alegria. Evocando uma autêntica atmosfera napolitana, Pene Pati é acompanhado por oito instrumentistas do Il Pomo d’Oro, liderados pelo guitarrista napolitano Antonello Paliotti, que tocam instrumentos de corda friccionada, dedilhada e percussão – e castanholas.
“Abordei essas canções da mesma forma que abordaria as canções tradicionais da minha própria herança samoana”, diz Pene Pati. “Sejam de Samoa ou de Nápoles, canções como essas sempre contam uma história – falam de amor, família, da sua terra natal… Não se tratava apenas de escolher as peças mais populares, mas sim de encontrar as canções que evocam as memórias e conexões mais profundas. Também quis prestar muita atenção a cada detalhe em relação ao povo napolitano – o sotaque, a atmosfera, as emoções – queria tentar fazê-los acreditar que eu era napolitano… Trabalhei em estreita colaboração com o Il Pomo d’Oro, ouvindo as letras, as histórias dos napolitanos e, a partir daí, moldando a minha própria compreensão.”
José Carreras traz seu calor lírico característico, interpretação apaixonada e fraseado delicado para canções napolitanas e italianas. Críticos e fãs elogiam sua narrativa emotiva em clássicos como “Core ‘ngrato” e “Torna a Surriento”, embora os puristas observem que seu estilo operístico, inerentemente vigoroso, por vezes carece das nuances mais leves e idiomáticas dos cantores nativos.
Aproveite! Aproveite!
René Denon
PS: Nas listas com os créditos dos discos, os nomes estão colocados aos pares: Compositor / Letrista. As eventuais fotos são sempre do compositor.
Felix Mendelssohn foi um dos mais espantosos prodígios da história da música. Se Mozart impressionava aos cinco anos, Mendelssohn, aos 13, já compunha obras de uma complexidade e frescor que desmentiam sua idade. Este CD, com o trio Andreas Staier (fortepiano), Rainer Kussmaul (violino) e o Concerto Köln, oferece um mergulho fascinante nesse universo, capturando a energia bruta e a elegância em formação do compositor. A grande sacada deste disco é o uso de instrumentos de época e uma orquestra de câmara reduzida. Afinal, estas obras foram concebidas para serem ouvidas nos salões da família Mendelssohn, não em grandes salas de concerto. O Concerto Köln respeita essa origem intimista, utilizando, em certos momentos, apenas um instrumento por parte. Acho a abordagem do Concerto Köln ácida até mesmo para os padrões de instrumentos de época, tornando os tutti orquestrais (especialmente nos movimentos lentos) uma experiência um tanto estranha. Em vez de um tapete aveludado, o acompanhamento é pontiagudo — uma escolha que prioriza a clareza rítmica e a energia juvenil sobre a doçura. Se a orquestra é agressiva, os solistas são a alma poética do disco. Andreas Staier, craque na arte da performance historicamente informada, toca um fortepiano Fritz de 1825. O som do instrumento é muito diferente do piano de concerto moderno: tem menor projeção e ataque mais seco. Isso explica por que Mendelssohn escreveu tantas passagens em arpejos e escalas — era a forma de fazer o som aparecer. Staier navega com virtuosismo por essas águas, mas é no Concerto Duplo que a dinâmica fica mais interessante. O grande destaque, contudo, é o violinista Rainer Kussmaul. Ele toca com uma rara pureza, usando o vibrato de forma contida. Enquanto o piano de Staier muitas vezes se perde em meio à escrita juvenil (cheia de notas, mas nem sempre melódica), o violino de Kussmaul canta com uma doçura lírica que prende a atenção. Há um diálogo interessante no Concerto Duplo: Kussmaul puxa a emoção, enquanto Staier (que também rege a orquestra a partir do teclado) sustenta a estrutura. Este CD não é para quem busca uma audição relaxante ou uma entrada fácil no mundo de Mendelssohn. A abordagem do Concerto Köln é ríspida e vibrante, o que pode incomodar tanto quanto impressiona. No entanto, para os aficionados por música de época e para quem se interessa pelo processo criativo dos grandes compositores, este é um documento precioso. Andreas Staier e Rainer Kussmaul são guias excepcionais, mostrando como estas obras “menores” já continham as sementes do gigante romântico. A experiência é a de olhar um esboço de Leonardo da Vinci: não é a Mona Lisa, mas a genialidade do traço é inconfundível.
Felix Mendelssohn (1809-1847): Concerto para Piano e Cordas em lá menor / Concerto para Violino, Piano e Cordas em ré menor (Staier, Kussmaul, Concerto Köln)
Concerto For Piano And Strings In A Minor
1 Allegro 15:13
2 Adagio 9:11
3 Finale: Allegro Ma Non Troppo 10:16
Concerto For Violin, Piano And Strings In D Minor
4 Allegro 17:59
5 Adagio 10:03
6 Allegro Molto 8:40
Nessas gravações da década de 1950, Géza Anda mostra grande afinidade com as alterações bruscas de humor nesses três ciclos de Schumann.
Os Estudos Sinfônicos (Études symphoniques, Sinfonischen Etüden) seguem a forma “Tema e Variações”, bem conhecida dos ouvintes de J.S. Bach e Beethoven. Em uma edição revisada no fim de sua vida, Schumann mudou o nome da obra para Estudos em forma de variações, mas este segundo nome não pegou. A obra contém algumas das passagens mais difíceis da pena do compositor alemão, e faz parte do repertório de outros pianistas especialistas em Schumann, como Novaes (aqui), Richter e Arrau, mas para mim os grandes destaques do álbum são os outros dois ciclos.
No Carnaval, Schumann também faz variações sobre quatro notas: Lá Mi bemol, Dó e Si, o que na notação alemã corresponde a A S C H – letras que aparecem no seu sobrenome, assim como na palavra alemã para carnaval, entre outros possíveis criptogramas. O fato é que cada movimento vai se apresentando com um caráter muito próprio, de modo que rapidamente o aspecto mais intelectual das variações é esquecido e a apreciação musical, digamos, torna-se mais romântica e menos racional.
Na Kreisleriana, assim como no Carnaval, os movimentos vão se alternando de forma mais imprevisível do que nos Estudos. Os temas que reaparecem são fluidos e vagos como memórias do passado, nunca rígidos e idênticos à sua aparição anterior. Schumann, aqui, se situa entre a forma miniatura (usada, por exemplo, nos Noturnos e Mazurkas de Chopin, Impromptus de Schubert e Bagatelas de Beethoven) e as formas mais amplas, porque cada momento tem sua lógica interna de miniatura e, ao mesmo tempo, a publicação do ciclo como um conjunto dá aos pianistas uma certa obrigação de tocar tudo junto, o que (antes da era dos LPs e CDs) nunca tinha sido o caso com os Noturnos e Mazurkas e Chopin, publicados separados ao longo de décadas. O dicionário Grove de 1980 fala o seguinte sobre as formas cíclicas: o termo “cíclico” descreve as obras em que ocorrem ligações temáticas entre diferentes movimentos. Exemplos podem ser encontrados em obras instrumentais do século 17, e em diversas obras sacras, como a Missa em Si Menor de Bach. Mas os exemplos são raros no século 18. Beethoven e Berlioz estabeleceram as fundações sobre as quais Mendelssohn, Schumann, Liszt e Franck elevariam princípios cíclicos a grande importância, estabelecendo uma coesão em obras com múltiplos movimentos.
Robert Schumann (1810-1856):
1-21. Carnaval, op. 9
22-36. Etudes symphoniques, op. 13
37-46. Kreisleriana, op. 16
Géza Anda, piano
Recorded in Abbey Road, London, 1953 & 1955
“A música barroca é uma celebração da beleza e da diversidade da experiência humana.”
[William Christie]
Para esta edição da coluna ‘Dois Pelo Preço de Um – Dose Dupla’, escolhi dois álbuns de um conjunto musical espanhol que bastante me impressionou, o Ars Combinatoria, orquestra e coro. Se bem que nos discos ouviremos apenas a orquestra.
Esse grupo surgiu em 1991 com o intuito de interpretar música polifônica espanhola do Século XVI, cantigas medievais e interpretar música de Bach, como conta a página do grupo, que você pode acessar clicando aqui.
Nestes dois discos estão reunidos apenas quatro concertos – dois de Handel, do opus 6, e dois de Vivaldi, do Estro Armonico. Acreditem, pouco tempo de música, mas muita qualidade.
Os dois concertos de Handel têm a adequada gravidade (gravitas), pomposidade, ajudada pela acústica do local de gravação (dos dois discos), o Mosteiro de Madalena, Sarria, na Galícia (no Caminho de Santiago).
Os dois concertos de Vivaldi, Nos. 8 e 11 (que tem uma fuga no seu primeiro movimento) e devem ter impressionado o padroeiro do blog, Sr. João Sebastião Ribeiro, quando este ainda jovem entrou em contato com a obra do Padre Vermelho. Tanto que fez transcrições para instrumentos de teclas de cinco deles, incluindo estes dois. Veja referências: [Rinaldo Alessandrini], [Simon Preston] ou [Keiko Nakata].
Como sugeriu WC em sua citação, vamos celebrar a experiência humana, pelo menos as positivas, ouvindo ótima música barroca!
Este álbum pode ser encontrado na plataforma de streaming Tidal.
Trecho da página da gravadora sobre o disco de Handel: Estes concertos destacam-se pela energia e contrastes dinâmicos. O seu carácter festivo e luminoso alternado com melodias doces refletem a capacidade de Handel em combinar técnica e expressão.
Trecho da página da gravadora sobre o disco de Vivaldi: Ars combinatoria escolhe os mesmos concertos que Johann Sebastian Bach escolheu para fazer as famosas transcrições de órgão, estes No. 8 em lá menor (BWV 593) e No. 11 em Ré menor (BWV 596).
Aproveite! Aproveite!
René Denon
Canco aproveitando o conforto das poltronas do Great Hall do PQP Bach Coo. em Gravataí