Nessas gravações da década de 1950, Géza Anda mostra grande afinidade com as alterações bruscas de humor nesses três ciclos de Schumann.
Os Estudos Sinfônicos (Études symphoniques, Sinfonischen Etüden) seguem a forma “Tema e Variações”, bem conhecida dos ouvintes de J.S. Bach e Beethoven. Em uma edição revisada no fim de sua vida, Schumann mudou o nome da obra para Estudos em forma de variações, mas este segundo nome não pegou. A obra contém algumas das passagens mais difíceis da pena do compositor alemão, e faz parte do repertório de outros pianistas especialistas em Schumann, como Novaes (aqui), Richter e Arrau, mas para mim os grandes destaques do álbum são os outros dois ciclos.
No Carnaval, Schumann também faz variações sobre quatro notas: Lá Mi bemol, Dó e Si, o que na notação alemã corresponde a A S C H – letras que aparecem no seu sobrenome, assim como na palavra alemã para carnaval, entre outros possíveis criptogramas. O fato é que cada movimento vai se apresentando com um caráter muito próprio, de modo que rapidamente o aspecto mais intelectual das variações é esquecido e a apreciação musical, digamos, torna-se mais romântica e menos racional.
Na Kreisleriana, assim como no Carnaval, os movimentos vão se alternando de forma mais imprevisível do que nos Estudos. Os temas que reaparecem são fluidos e vagos como memórias do passado, nunca rígidos e idênticos à sua aparição anterior. Schumann, aqui, se situa entre a forma miniatura (usada, por exemplo, nos Noturnos e Mazurkas de Chopin, Impromptus de Schubert e Bagatelas de Beethoven) e as formas mais amplas, porque cada momento tem sua lógica interna de miniatura e, ao mesmo tempo, a publicação do ciclo como um conjunto dá aos pianistas uma certa obrigação de tocar tudo junto, o que (antes da era dos LPs e CDs) nunca tinha sido o caso com os Noturnos e Mazurkas e Chopin, publicados separados ao longo de décadas. O dicionário Grove de 1980 fala o seguinte sobre as formas cíclicas: o termo “cíclico” descreve as obras em que ocorrem ligações temáticas entre diferentes movimentos. Exemplos podem ser encontrados em obras instrumentais do século 17, e em diversas obras sacras, como a Missa em Si Menor de Bach. Mas os exemplos são raros no século 18. Beethoven e Berlioz estabeleceram as fundações sobre as quais Mendelssohn, Schumann, Liszt e Franck elevariam princípios cíclicos a grande importância, estabelecendo uma coesão em obras com múltiplos movimentos.
Robert Schumann (1810-1856):
1-21. Carnaval, op. 9
22-36. Etudes symphoniques, op. 13
37-46. Kreisleriana, op. 16
Géza Anda, piano
Recorded in Abbey Road, London, 1953 & 1955
BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE – FLAC
