Admito: quase que não demos os parabéns a Ludwig. Ontem mesmo nosso colega René apontou que o aniversário de quem chamou de vice-padroeiro do blog passara em branco, pelo que resolvi antecipar essa postagem que já tinha no prelo, e ainda em tempo de lhe render homenagem. Afinal, presume-se que Beethoven, batizado em 17 de dezembro de 1770, nasceu um dia antes, mas nem ele próprio sabia em que dia sua querida mãe o trouxera ao mundo, de modo que celebrava seu natalício no dia 17 e, alemão que era, provavelmente não apreciasse a ideia de receber parabéns na véspera, esperando com isso agouros ainda piores que os tantos desgostos que teve na vida.
Não foi só para não fazer desfeitas, entretanto, que lhes apresento esta gravação. Faço-o porque desde que foi lançada, há já ano e meio, ela quase só encontrou, entre um e outro resmunguinho, bramidos de aclamação. Não me importaria com eles, claro, e jamais haveria de compartilhá-la, por óbvio, se um desses bramidos não fosse meu – e porque sim, meus caros, essa leitura de Dame Mitsuko para as Variações Diabelli é realmente transcendental.
Admito, também, enquanto ainda surfo a mesma onda sincericida com que abri essa postagem, que esperava algo bem diferente quando me coloquei a ouvi-la pela primeira vez. Talvez mais o fogo e a fúria com que Mitsuko-san atacara, por exemplo, a leviatânica Hammerklavier, que demonstrações da sabedoria amealhada em quase sete décadas a debulhar os caroços do repertório beethoveniano. Estranhei, por exemplo, as diminutas cisuras na apresentação do tema e a acentuação peculiar dos tempos da valsinha (ou, mais apropriadamente, do Ländler) de Diabelli, só para, algumas variações adiante, ouvir essa acentuação fazer todo sentido, ao reaparecer como um dos poucos elementos reconhecíveis do tema, então transfigurado por completo. Quando dei por mim, uma fabulosa hora já tinha passado e me vi a recomeçar a jornada com Uchida, a reencontrar a valsinha de Diabelli e reconhecer a coerência sobre-humana que a arte dela concedera àquele longo arco de trinta e três transformações.
[Poucas vezes, aliás – se me permitem não só parênteses, mas também colchetes -, a preferência de Beethoven pelo termo Veränderungen (“transformações”) em lugar do consolidado Variationen para o título da primeira edição soou-me tão sobejamente honrada numa gravação dessa sua última grande obra para piano, testamento da dedicação de uma vida inteira, e desde a tenra idade, tanto ao piano quanto à forma das variações]
Escutei-a inda outra vez – a terceira em sequência -, com a partitura em mãos, e me maravilhei com a atenção da intérprete às indicações precisas de articulação e dinâmica que Beethoven lhe deixou, a despeito de toda minha (agora reconhecia) insensata estranheza inicial. Estava, e isso vocês já perceberam, inteiramente arrebatado pela gravação. Passei então alguns meses sem ouvi-la, para tentar ganhar dela algum distanciamento, e então reencontrá-la, talvez, com ouvidos mais críticos. Teria eu, perguntava-me, embriagado pelo hype dos bramidos supracitados, realmente exagerado em minha reação? Ou teria tão só, doente de tanta dor, doideira e feiúra que testemunhara no Brasil dos anos anteriores, me deixado emocionar por um encontro schopenhaueriano com a Arte ante o sofrimento da vida?
“Não”, respondi – e foi um “não” tão cabal, e tanto, e a tal ponto, que hesito até em revisitar as minhas gravações outrora prediletas das Diabelli. Teriam sido elas menos convincentes? Não lhes sei responder. Talvez haja algumas com mais colorido, ademais fundamental para sustentar quase uma hora toda em Dó maior (pois apenas quatro das variações, todas no final da série, não são nessa tonalidade), mas, se aqui a cores não faltam, tampouco Mitsuko-san as exagera. Talvez outras realcem mais os bruscos contrastes de temperamento que permeiam, com sugestões da legendária rabugice do compositor, a maior parte da obra. Uchida, sabiamente, consegue realçar tais contrastes e o abundante humor da partitura sem que isso soe como histrionismo raso. Mais ainda: ela supera sem taquicardias aparentes as medonhas exigências técnicas para nos oferecer uma sequência de tours de force que jamais exaspera e nos deixa, ao final de cada variação, sempre doidos de vontade pelo que vem a seguir (e sua maestria é tamanha que eu convido os leitores-ouvintes a perceberem que até as durações dos intervalos entre as variações parecem escolhidos à perfeição).
Ouço-a uma vez mais, enquanto preparo esta postagem, e ela me reforça a impressão de que esse registro está para esse K-2 (e não Everest, porque é ainda mais repleto de despenhadeiros) da literatura pianística como a lendária gravação de Carlos Kleiber está para a Quinta do renano: uma interpretação reveladora, tão rica em atenção ao detalhe, ao pulso e à arquitetura de uma obra-prima que nos fará ouvir com ouvidos novos, e ainda mais aguçados, tudo o que vier depois.
Mesmo depois de tanta rasgação de seda, não serei capaz de recomendar-lhes essa gravação o bastante. Reconheço que há poucos frutos mais espinhudos dos visionários anos finais da carreira de Beethoven (sim, Grosse Fuge: estou olhando para ti!) e que as Diabelli são de difícil digestão a muitos ouvintes. Convido-os, ainda assim, a arriscar o repasto: talvez o que lhes tenha faltado até hoje, enfim, fosse alguém com os afiados dedos de Uchida para perfurar-lhe a carapaça e remover-lhe os caroços.
Ludwig van BEETHOVEN (1770-1827)
Trinta e três variações em Dó maior para piano sobre uma valsa de Anton Diabelli, Op. 120
1 – Tema: Vivace
2 – Variação I: Alla marcia maestoso
3 – Variação II: Poco allegro
4 – Variação III: L’istesso tempo
5 – Variação IV: Un poco più vivace
6 – Variação V: Allegro vivace
7 – Variação VI: Allegro ma non troppo e serioso
8 – Variação VII: Un poco più allegro
9 – Variação VIII: Poco vivace
10 – Variação IX: Allegro pesante e risoluto
11 – Variação X: Presto
12 – Variação XI: Allegretto
13 – Variação XII: Un poco più moto
14 – Variação XIII: Vivace
15 – Variação XIV: Grave e maestoso
16 – Variação XV: Presto scherzando
17 – Variação XVI: Allegro
18 – Variação XVII: Allegro
19 – Variação XVIII: Poco moderato
20 – Variação XIX: Presto
21 – Variação XX: Andante
22 – Variação XXI: Allegro con brio – Meno allegro – Tempo primo
23 – Variação XXII: Allegro molto, alla «Notte e giorno faticar» di Mozart
24 – Variação XXIII: Allegro assai
25 – Variação XXIV: Fughetta (Andante)
26 – Variação XXV: Allegro
27 – Variação XXVI: (Piacevole)
28 – Variação XXVII: Vivace
29 – Variação XXVIII: Allegro
30 – Variação XXIX: Adagio ma non troppo
31 – Variação XXX: Andante, sempre cantabile
32 – Variação XXXI: Largo, molto espressivo
33 – Variação XXXII: Fuga: Allegro
34 – Variação XXXIII: Tempo di Menuetto moderato
Mitsuko Uchida, piano
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Vassily


























Creio que eu nunca teria acesso a esse CD se Randy Brecker não tivesse tocado nele. Cheguei nele quando estava atrás da discografia do ótimo trompetista norte americano, que tem uma pequena participação nesta delicada, sincera e singela homenagem que o flautista Herbie Mann faz ao lendário pianista de jazz e compositor, Bill Evans. A curiosidade é que mesmo sendo homenagem a um pianista, os arranjos que Herbie Mann escreveu para essas obras não têm piano. Fica a cargo de uma guitarra, muito bem tocada por Bruce Dumlap, que ficou responsável pela parte harmônica. Um fiel escudeiro de Bill Evans também se faz presente, o baixista Eddie Gomez, e a bateria ficou a cargo de Louis Nash, com algumas intervenções do percussionista Sammy Figueroa. Enfim, um grande CD, tocado por ótimos músicos homenageando seu grande mestre, Bill Evans.
Susato foi certamente um nome mágico em minha adolescência. Ouvir música do Renascimento era moda e, em meio daqueles autores anônimos ou de nomes estranhos, o do flamengo Susato era o que mais se repetia. Comecei a notar aquele autor, mas acho que nunca tinha visto ou procurado um CD com obras exclusivamente dele. A música do Renascimento saiu de moda e ele estava esquecido num canto da memória quando vi este CD dando sopa. O grupo de Philip Pickett torna Susato um tanto “sinfônico”, longe daqueles grupinhos dos anos 70, mas é um excelente disco da música do século XVI. Ele foi compositor e editor em Antuérpia. Ele escreveu (e publicou) vários livros de missas e motetos que seguem o estilo polifônico típico da época. Também escreveu dois livros de canções que foram projetadas especificamente para serem cantadas por cantores jovens e inexperientes. Susato também foi um prolífico compositor de música instrumental, e grande parte dela ainda é gravada e tocada hoje. Ele produziu um livro de música para dança em 1551, Het derde musyck boexken… alderhande danserye , composto de peças em arranjos simples, mas artísticos. A maioria dessas peças são formas de dança (alemandes , galliards e assim por diante). Adivinhe o que você ouvirá!

IM-PER-DÍ-VEL !!!




















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IM-PER-DÍ-VEL !!!
Este CD de 1985 é um discreto clássico da discografia bachiana. As Invenções e Sinfonias de Bach fazem parte da formação de todo tecladista. Valiosa instrução técnica e soberba originalidade são alguns de seus atributos. Escrita para seu filho mais velho, Wilhelm Friedmann (nascido em 1710), a diversidade temática e a ampla gama de ideias musicais são infinitas, um verdadeiro oceano. Esta versão de Kenneth Gilbert é linda. Bach intitulou a coleção:











Muita gente tem pedido a repostagem destes concertos de Violino de Mozart com o Carmignola e com o Claudio Abbado, postagem de uns três anos atrás, creio. Porém, no momento, não é possível fazer esta repostagem pelo simples fato de não ter mais este cd, devido a diversos problemas que tive nos últimos tempos com meu computador pessoal, onde ele estava armazenado.
Tem uma história curiosa esta obra que está entre as mais importantes de meu pai, Johann Sebastian Bach. Porém, antes dela, um detalhe pessoal: tenho sete gravações da Oferenda Musical. Fico um pouco desconcertado pelo fato de que as três melhores estejam em discos de vinil. Não ouvi ninguém executar melhor esta obra do que Hermann Scherchen em 1964 ou Karl Münchinger em 1976 ou o Musica Antiqua de Köln nos anos 70 ou 80. Não obstante, a gravação que apresento aqui para vocês é bastante boa. Vamos às muitas curiosidades da obra. O texto abaixo foi retirado da Wikipedia. Fiz alguns cortes e pequenas correções.
O concerto de Schnittke (1990) é triste e desolado. com bastante dissonância. A forma de tocar de Alexander Ivashkin é impressionante. Ele comanda um pesadelo inquietante com sons de arrepiar os cabelos. O violoncelo é imponente, até pela forma com que foi gravado. Eu preferiria ouvir mais a orquestra, especialmente porque ela está repleta de detalhes. A sepultura cavada é avassaladora e o amado cravo do compositor aparece aqui. A passacaglia final é o mais longo dos cinco movimentos e baseia-se num tema da sua música para o filme Agonia. É lindo e desesperado. Em suma, neste concerto, Schnittke vence fácil os escandinavos no jogo sombrio. Não adianta, este é o Schnittke pós-AVC de 1985, ele perdeu toda a muita alegria que tinha. Ele nos joga num redemoinho depressivo.

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Certa vez, há algumas décadas, uma namorada, vendo que eu também era tarado por Bach, resolveu me dar todas as Cantatas pelo Helmuth Rilling. Gostei, ainda mais que não existiam as integrais de hoje (a do pugilista Gardiner, a de Suzuki, a de Koopman, a coleção da Netherlands Bach Society, a da Bachstiftung… Ah, a de Harnoncourt-Leonhardt me parecia meio anêmica — aliás, até hoje parece anêmica a este amante do historicamente informado) e que Rilling dava de dez na coleção parcial de Richter. E, ainda hoje, muitas vezes pego na estante um CD aleatório da coleção para ouvir. Bem, nesta manhã peguei um e me apaixonei por este que é o volume 53 da série. Já tinha me apaixonado por outros, mas este é bom também. Destaque para a presença do tenor catarinense Aldo Baldin na gravação. Prova de que havia vida inteligente em SC antes de todos se tornarem bolsonaristas.

Este CD da ótima violonista Sharon Isbin já tem mais de dez anos, doze para ser mais exato. Mas é de uma qualidade única. Até pouco tempo atrás eram poucas as mulheres solistas deste instrumento tão peculiar e masculino que é o violão. Felizmente, nos dias de hoje esse número cresceu.
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