200 anos de Chopin – Marcha Fúnebre com orquestração de Elgar

O texto abaixo foi publicado ontem no blog Do fim, escrito pelo poeta, contista, escritor e professor de Literatura e Língua Portuguesa Alessandro Reiffer.

Hoje o mundo comemora os 200 anos de nascimento de Frédéric Chopin, um dos maiores gênios do romantismo musical e um dos mais importantes compositores para piano da história da música.

Chopin nasceu em 1º de março de 1810, na pequena cidade de Zelazowa Wola, na Polônia, vivendo, no entanto, grande parte de sua vida em Paris, onde faleceu, segundo a história oficial, de tuberculose, embora estudos mais recentes sugiram que ele tenha morrido de fibrose cística. Chopin contava com apenas 39 anos de idade. Em Paris, é célebre o seu romance com a escritora Aurore Dudevant (que se utilizava do pseudônimo de George Sand), a qual muito inspirou o compositor polonês em suas apaixonadas e melancólicas melodias.

A música de Chopin é quase que exclusivamente para piano, solo ou com acompanhamento, característica que o torna único entre os grandes compositores. Trata-se de uma música bastante original e de grande expressividade técnica. Suas composições são geralmente densas e sombrias, de uma profunda expressão sentimental, carregadas de paixão e melancolia. Atingem os maiores extremos emocionais, partindo de uma celestial ternura e flutuante delicadeza até amargurados acordes de uma violência desesperada.

Pode-se dizer que o amor e a saudade da pátria são os temas mais constantes nas obras de Chopin. Antes dos 20 anos, Chopin já havia composto seus dois concertos para piano e orquestra, dois dos mais belos e expressivos concertos para esse instrumento já criados. Foram inspirados em seu amor por Constance Gladkowska, a quem teve que abandonar ao ver se obrigado a deixar a Polônia.

Logo após deixar seu país natal, sofreu uma profunda crise psicológica, conhecida como Crise de Stuttgart. Essa crise ficou registrada em uma série de escritos, o seu Diário de Stuttgart. Escreveu Chopin nesse diário:

“Por que vivemos essa vida miserável, que só nos devora e serve para nos converter em cadáveres? (…) É como se morrer fosse a melhor ação do homem… Qual será a pior? Nascer, desde o momento que é o contrário de sua melhor ação. Portanto, é perfeitamente plausível que eu esteja aborrecido por ter nascido neste mundo. Por que deveria querer permanecer em um mundo para o qual não estou preparado? O que minha existência poderia oferecer a alguém?”

Mas a sua existência ofereceu muito a toda a humanidade… Quantos milhares de casais já alimentarem sua paixão e seu amor ao som de suas mágicas notas, quantas vezes o seu gênio entristecido já nos ajudou a aprender a amar? E quantos homens desesperançados já se consolaram com os seus sobrenaturais noturnos e sonatas, com a tensa beleza e vivo mistério de suas mazurcas e polonesas e estudos e prelúdios…? E quem não conhece a sua marcha fúnebre? Sim todos a conhecem, ainda quem não saibam que a compôs. De modo, Chopin, que tua existência teve muito a nos oferecer…

(na imagem, Chopin pintado por Scheffer)

BAIXE A MARCHA FÚNEBRE, COM ORQUESTRAÇÃO DE SIR EDWARD ELGAR
London Philharmonic Orchestra – Sir Adrian Boult

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C.P.E. Bach (1714-1788): Die Auferstehung und Himmelfahrt Jesu

Calma, Auferstehung und Himmelfahrt Jesu significa apenas Ressurreição e Ascensão de Jesus, tá? Não fiquem nervosos.

Este Oratório talvez possa ser considerado o mais importante trabalho sacro escrito desde a morte de Johann Sebastian Bach até o aparecimento de Haydn, o qual não era nada trouxa e conhecia muito bem as composições do segundo filho de meu pai, meu irmão. A riqueza da linguagem musical, a sutileza dos detalhes e a profundidade dramática do Oratório, mostra-nos até que ponto Carl Philipp Emanuel foi um mestre. O trabalho é moderno, possui expressividade contrastante, é menos estereotipado e menos óbvio do que os de seus contemporâneos. Auferstehung und Himmelfahrt Jesu deixou sua marca nas gerações seguintes e justificadamente despertaram a admiração de, entre outros, Haydn e Beethoven.

Uma carta do compositor para sua editora revelou que ele considerava este Oratório uma de suas maiores obras-primas.

Este registro de Sigiswald Kuijken, his singers and little band é absolutamente notável e mereceu ser coberto de prêmios, como foi. Duvido que você ouça apenas uma vez. Você vai é berrar pela casa:

— Olha o CPE Bach chegando aí, geeeeeeente!!!!

E então, animal, vai ouvir ou não?

IM-PER-DÍ-VEL !!!!

C.P.E. Bach — Die Auferstehung und Himmelfahrt Jesu

1. [Erster Teil] Einleitung
2. Chorus: Gott du wirst
3. Recitative: Judaa zittert
4. Aria: Mein Geist voll Furcht und Freuden
5. Chorus: Triumph! Triumph!
6. Recitative: Die frommen Tochter
7. Aria: Wie bang hat dich mein Lied beweint
8. Recitative: Wer ist die Sionitin
9. Duet: Vater deiner schwachen Kinder
10. Recitative: Freundinnen Jesu
11. Aria: Ich folge dir
12. Chorus: Tod! Wo ist dein Stachel?
13. [Zweiter Teil] Einleitung
14. Recitative: Dort seh’ ich aus den Toren Jerusalems
15. Aria: Willkommen, Heiland
16. Chorus: Triumph! Triumph!
17. Recitative: Elf auserwahlte Junger
18. Aria: Mein Herr, mein Gott
19. Chorus: Triumph! Triumph!
20. Recitative: Auf einem Hugel
21. Aria: Ihr Tore Gottes
22. Chorus: Gott fahret auf mit Jauchzen

Uta Schwabe: soprano
Christoph Genz: tenor
Stephan Genz: bass

Ex Tempore
La Petite Bande
Sigiswald Kuijken

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Dmitri Shostakovich (1906-1975): O Nariz (ópera)

O Nariz foi escrito no final da década de 1920 na União Soviética, quando houve uma política muito liberal para a música. Compositores se aventuravam a extremos que só o Ocidente conhecia. Depois, como sabemos, tudo mudou.

O Nariz, como vocês devem saber, é baseada na obra de Nikolai Gogol, talvez o mais cômico dos sutores russos. Shostakovich não se fez de rogado e nos preparou uma obra-prima em que há interlúdios entregues inteiramente à percussão, mas também há arrotos (eructações emitidas pelos cantores) e peidos (flatulências emitidas pelo fagote) e todo o gênero de estranhezas. É uma das maiores obras do jovem Shostakovich, um tour de force eletrizante de selvagem acrobacia vocal e instrumental. Um colorido absurdo teatral. O história, como TODOS vocês, pessoas cultas, sabem, é a de um alto e pomposo funcionário público, Kovalyov, que acorda um dia e descobre que seu nariz ganhou vida própria e saiu para uma caminhada ao redor da cidade de São Petersburgo. O resultado, nas mãos do cruel, sarcástico e irreverente de Shostakovich, é uma loucura.

Algumas observações retiradas do livro Shostakovich — Vida, Música, Tempo, de Lauro Machado Coelho:

No Nariz, o mecanismo dos mexericos peuqeno-burgueses é exposto com rara acuidade. As conversas estúpidas nascidas de coisa alguma, a anedota insignificante é inchada às dimensões de uma bolha de sabão fantástica, que acaba por estourar bruscamente, só deixando por trás dela — como era de se esperar — o mais total vazio. (Sollertínski)

O Nariz é a bomba na mão de um anarquista. (Gvózdiev)

As pessoas não cantam em o Nariz. Declamam, discutem, vociferam, arrotam, conversam fiado, sussurram, insulktam, fofocam. Um dos traços característicos dessa escrita será, aliás, a impiedosa exploração dos registros agudos. AS vozes de tenoe soprano dominam e recorre-se a elas até mesmo em situações banais, como a cação de Ivan, berrada a plenos pulmões, acima da pauta. As vozes graves pertencem, via de regra, a pessoas obtusas e sonolentas… (Kaminski)

IM-PER-DÍ-VEL !!!

Shostakovich — O Nariz

1. The Nose: Act I, Prologue, “U tebia, Ivan Yakovlevich…”
2. The Nose: Act I, Scene I, The Barber Shope of Ivan Yakovleich, “A…Segodnia ya…”
3. The Nose: Act I, Scene II, The Embankment, “Podymil! Von ty chto-to uronil”
4. The Nose: Act I, Interlude
5. The Nose: Act I, Scene III, Kovalev’s Bedroom, “Brr. Brr. Brr, brr.”
6. The Nose: Act I, Galop
7. The Nose: Act I, Scene IV, Kazan Cathedral, “A…A…A…”
8. The Nose: Act II, Prologue, “U sebia politsmeister?”
9. The Nose: Act II, Scene V, At the Newspaper Office, “Poverite li, sudar’…”
10. The Nose: Act II, Interlude
11. The Nose: Act II, Scene VI, Kovalev’s Apartment, “Nepobedimoi siloi…”

1. The Nose: Act III, Scene VII, Outskirts of St. Petersburg, “Vlast’iu moei daetsia…”
2. The Nose: Act III, Scene VIII, Kovalev’s Apartment And Podtochina’s Apartment, “Zdes’ Il Zhivet…”
3. The Nose: Act III, Interlude, “Nos Maior Kovaleva progulivaetsia zdes’…”
4. The Nose: Act III, Kovalev’s Apartment, “Vot on! Vot on! Nos!”
5. The Nose: Act III, Nevsky Prospect, “Zdravstvuite, Platon Kuzmichi!”

Zhanna Dombrovskaya
Tatiana Kravtsova
Elena Vitman
Andrei Popov
Sergey Semishkur
Sergei Skorokhodov
Yevgeny Strashko
Vladislav Sulimsky
Gennady Bezzubenkov
Vadim Kravets
Alexei Tanovitsky

Valery Gergiev
St. Petersburg Mariinsky Theater Orchestra
St. Petersburg Mariinsky Theater Chorus

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J. S. Bach (1685-1750): As Sonatas para Violino e Teclado

É complicado, mas tem gente que consegue. Este CD com as maravilhosas Sonatas para Violino e Teclado de papai recebe aqui uma abordagem fria e sem graça de John Holloway e acompanhantes. Eles são bons músicos, capricharam nas variações de instrumentos para fazer o contínuo (cravo, órgão, violoncelo), mas sem dúvida já publicamos registros muito mais vivos e interessantes destas grandes obras. Prova de que nem sempre as baratas caixas de álbuns duplos da Virgin dão certo. Esta é, na minha opinião, uma merda um embuste…

J. S. Bach (1685-1750): As Sonatas para Violino e Teclado

CD 1

1. Sonata in G major: I. Adagio / BWV 1021
2. Sonata in G major: II. Vivace / BWV 1021
3. Sonata in G major: III. Largo / BWV 1021
4. Sonata in G major: IV. Presto / BWV 1021

5. Sonata in E minor: I. (Prelude) – Adagio ma non tanto / BWV 1023
6. Sonata in E minor: II. Allemanda / BWV 1023
7. Sonata in E minor: III. Gigue / BWV 1023

8. Sonata No.1 in B minor: I. Adagio / BWV 1014
9. Sonata No.1 in B minor: II. Allegro / BWV 1014
10. Sonata No.1 in B minor: III. Andante / BWV 1014
11. Sonata No.1 in B minor: IV. Allegro / BWV 1014

12. Sonata No.2 in A major: I. Dolce / BWV 1015
13. Sonata No.2 in A major: II. Allegro assai / BWV 1015
14. Sonata No.2 in A major: III. Andante un poco / BWV 1015
15. Sonata No.2 in A major: IV. Presto / BWV 1015

16. Sonata No.3 in E major: I. Adagio / BWV 1016
17. Sonata No.3 in E major: II. Allegro / BWV 1016
18. Sonata No.3 in E major: III. Adagio ma non tanto / BWV 1016
19. Sonata No.3 in E major: IV. Allegro / BWV 1016

CD 2

1. Sonata No.4 in C minor: I. Largo / BWV 1017
2. Sonata No.4 in C minor: II. Allegro / BWV 1017
3. Sonata No.4 in C minor: III. Adagio / BWV 1017
4. Sonata No.4 in C minor: IV. Allegro / BWV 1017

5. Sonata No.5 in F minor: I. Lamento / BWV 1018
6. Sonata No.5 in F minor: II. Allegro / BWV 1018
7. Sonata No.5 in F minor: III. Adagio / BWV 1018
8. Sonata No.5 in F minor: IV. Vivace / BWV 1018

9. Sonata No.6 in G major: I. Allegro / BWV 1019
10. Sonata No.6 in G major: II. Largo / BWV 1019
11. Sonata No.6 in G major: III. Allegro [harpsichord solo] / BWV 1019
12. Sonata No.6 in G major: IV. Adagio / BWV 1019
13. Sonata No.6 in G major: V. Allegro / BWV 1019

14. Sonata No.6 in G major (appendix): I. Adagio / BWV 1019a
15. Sonata No.6 in G major (appendix): II. Cantabile, ma un poco adagio / BWV 1019a
16. Sonata No.6 in G major (appendix): III. [harpsichord solo] / BWV 1019a
17. Sonata No.6 in G major (appendix): IV. Violino solo e basso / BWV 1019a

John Holloway: violin
Davitt Moroney: harpsichord, chamber organ
Susan Sheppard: cello

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Cecilia Bartoli – Chant d'amour (Mélodies françaises)

Grande coleção de canções muito pouco ouvidas por aí. Bartoli está mais contida, pois as músicas não pedem aquele histrionismo que ela está sempre pronta a dar. Sua voz é provocante, adaptando-se a cores e personagens diferentes. Certamente Cecilia Bartoli não é a campeã da canção francesa, mas é raro ouvir um álbum que tem muitas canções que nunca foram gravadas. Os pontos altos do CD — e estes são altíssimos! — são a Havanaise de Viardot e a indescritível La mort d’Ophélie de um surpreendente (e sutil) Berlioz.

Cecilia Bartoli – Chant d’amour (Mélodies française)

Bizet
01 – Chant d’amour [Vingt mélodies No. 17]
02 – Ouvre ton coeur
03 – Adieux de l’hôtesse arabe
04 – Tarentelle
05 – La Coccinelle [Vingt Mélodies No. 16]

Delibes
06 – Les Filles de Cadiz(1)

Viardot
07 – Hai luli!
08 – Havanaise
09 – Les Filles de Cadix

Berlioz
10 – La mort d’Ophélie
11 – Berlioz – Zaïde

Ravel
12 – Chants populaires – Chanson française
13 – Chants populaires – Chanson espagnole
14 – Chanson italienne
15 – Chants populaires – Chanson hébraïque
16 – Vocalise-étude (en forme de habanera)(1)
17 – Kaddisch
18 – L’énigme éternelle
19 – Tripatos

Cecilia Bartoli,
Myung-Whun Chung, piano

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Um Bach quieto e denso

O som do CD deixa o piano um pouco ao fundo, ausente: o efeito está lá, mas é como se não houvesse o contato físico entre mãos e teclas, pés e pedais, martelos e cordas. Em uma primeira audição, Maurizio Pollini parece fazer um Bach mais harmônico, com ênfase na arquitetura estrutural. Mas a impressão deixa de predominar a partir da segunda escuta da recém-lançada gravação do primeiro volume de O Cravo Bem Temperado.

A primeira coleção de 24 prelúdios e fugas, que seguem em progressão de meio em meio tom através das 12 tonalidades maiores e menores, foi completada por Johann Sebastian Bach (1685 – 1750) em 1722. Artista do prestigioso selo Deutsche Grammophon desde 1971, o pianista milanês de 68 anos nunca havia gravado Bach. Sua discografia inclui as principais obras de Beethoven e Chopin, mas também cultiva o século 20 (Boulez, Nono e Schoenberg).

Embora não chame a atenção em um primeiro momento, o teor contrapontístico da escrita bachiana (as melodias que imitam umas às outras em tempos defasados) está presente em sua interpretação. Mas não vem acompanhado de cores, brilhos e ornamentos, como na versão de Andras Schiff, nem de contrastes de articulações e tempo, como na de Angela Hewitt.

Parece que Pollini constrói um Cravo Bem Temperado passível de diversas magnitudes de “zoom’’, todas ao mesmo tempo independentes e integradas, como se cada camada comentasse aspectos diversos da arte de Bach. Não só as entradas dos temas das fugas estão cuidadosamente equalizadas, mas elementos aparentemente menos importantes também sobressaem, como o desenho formado pelas notas longas no prelúdio em fá menor.

O segredo parece ser o controle do fluxo temporal: nenhuma linha é interrompida, não há gratuidade. Não há esforço aparente (digital e intelectual) nem qualquer exibicionismo.

Mas essa homogeneidade jamais se torna “fria’’: nunca desanda o amálgama improvável entre delicadeza, lucidez e densidade. A quietude das antológicas interpretações dos prelúdios e fugas em dó sustenido menor, ré sustenido menor e lá menor faz lembrar pinturas de Vermeer, o que corrobora a tese do crítico Edward Said de ser Pollini um “curador do repertório’’, cujas performances são capazes de gerar verdadeiros “ensaios sem palavras’’.

SIDNEY MOLINA | Folhapress

Morreremos felizes

Comentário que apareceu neste post. Nossa equipe de postadores compulsivos pode morrer feliz. Vamos ao Paraíso, onde teremos tantas virgens que até os muçulmanos nos invejarão.

Meu caro PQP

Fosse eu um ilustrado escritor e teria forma de expressar toda a gratidão e reconhecimento pelo seu trabalho em prol, não só da cultura musical de todos nós, mas também do meu melómano prazer, mania até!

Sendo apenas um “irmão” de pátria-lingua deixo aqui o meu esforçado testemunho de tudo o que referi.

Aqui em Angola, infelizmente, ainda não chegou a vez da Cultura, a cultura (de semear) as mentes e as Almas. Ainda estamos no materialismo básico da escola, do hospital, da estrada, do matar a fome, do tirar da miséria. O materialismo impulsivo da compra ainda nao está disponivel (Bem Haja!). Por isso fica minha consciencia aliviada por me ter tornado, com sua preciosa colaboração, num pirata culto-cibernético…

No entanto, sempre que posso e me encontro em frente aquelas deslumbrantes estantes dos livros e dos CD’s do chamado Mundo Desenvolvido – uma das ultimas a magnifica “biblioteca de Alexandria” da Leitura em São Paulo – babo-me de deleite e prazer e contribuo para os criadores comprando livros e cd’s.

Meu caro Amigo – Amigo, pois faz muito mais por mim do que muitos dos que se intitulam “amigos” – no que de mim depender terá o seu lugar assegurado no Nirvana, no Paraíso ou em qualquer outro Refugio Final que for do seu agrado ou conveniência. Serei sua testemunha abonatória… E mais não lhe consigo dizer.

Alexandre Sines Fernandes

PQP

Georges Bizet (1838-1875): Suíte Carmen – Suíte L'Arlésienne

Ontem, estava ouvindo este CD quando vi que O Ser da Música tinha postado e-xa-ta-men-te aquilo que eu estava ouvindo, só que em outra gravação. Fui examinar o post e, só de olhar a capa do CD, concluí rapidamente e sem medo de errar: bem, ele postou a versão gay, vou postar a versão viril. Fui ver quem era o meu regente e li: Leonard Bernstein… Putz, jogo empatado.

UM BAITA CD !!!

Bizet: Suíte Carmen – Suíte L’Arlésienne

01. Carmen Suite, No. 1 The Toreadors
02. Prelude to Act 1
03. Aragonaise
04. Intermezzo
05. Seguidilla
06. The Soldiers Of Alcala

07. Carmen Suite, No. 2 March Of The Smugglers
08. Habanera
09. Nocturne
10. The Toreador Song
11. Children´s Chorus
12. Bohemian Dance

13. L´Arlesienne Suite No. 1 Overture
14. Minuet
15. Adagietto
16. Carillon

17. L´Arlesienne Suite No. 2 Pastorale
18. Intermezzo
19. Minuet
20. Farandole

New York Philharmonic Orchestra
Leonard Bernstein

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J.S. Bach (1685-1750): Lieder ohne Worte / Transcriptions for Oboe and Orchestra

Esse é daqueles CDs que tem tudo para ser ruim. São transcrições de obras de Bach para oboé e orquestra em que o foco — está no título — parece ser o de provar que meu pai não era apenas um compositor de estruturas colossais, mas um grande inventor de melodias. Lieder ohne Worte parafraseia Mendelsohn e significa Canções sem Palavras. O resultado impressiona. Confesso que fui obrigado a esquecer a mistureca de obras e gêneros, fui trazido de tal forma para o confortável e seguro mundo de um Bach melódico que simplesmente deixei outras considerações para depois. E para ainda depois.

Talvez não mereça o IMPERDÍVEL, mas merece fácil fácil o outro bordão:

UM BAITA CD !!!

Bach: Canções sem Palavras

1. Clavier Übung II, BWV 971: Italienisches Konzert, BWV 971: Allegro
2. Orgelbüchlein (Choralvorspiele): “Ich ruf’ zu dir, Herr Jesu Christ”, BWV 639
3. Orchestersuite Nr. 2 h-moll, BWV 1067: Bourrée I und II
4. Flötensonate E-Dur, BWV 1035: Siciliano
5. Matthäus-Passion, BWV 244. Aria: “Erbarme dich”
6. Konzert für Cembalo und Orchestrer f-moll, BWV 1056: Largo
7. Magnificat, BWV 243: Aria: “Esurientes implevit bonis”
8. Choralvorspiele III, BWV 659: “Nun komm’ der Heiden Heiland”
9. Oster-Oratorium “Kommt, eilet und laufet”, BWV 249: Aria “Saget, saget mir geschwinde”
10. Kantate Nr. 12 “Weinen, Klagen, Sorgen, Zagen”, BWV 12: Sinfonia
11. Matthäus-Passion, BWV 244: Aria: “Mache dich, mein Herze, rein”
12. Toccata, Adagio und Fuge C-Dur, BWV 564: Intermezzo: Adagio
13. Konzert für Cembalo und Orchester A-Dur, BWV 1055: Allegro ma non tanto
14. Kantate Nr. 208, “Was mir behagt, ist nur die muntre Jagd” (“Jagdkantate”), BWV 208: Aria: “Schafe können sicher weiden”
15. Oster-Oratorium “kommt, eilet und laufet”, BWV 249: Sinfonia (Adagio)
16. Messe in h-moll, BWV 232: Aria: “Agnus Dei”

Albrecht Mayer, oboé
Sinfonia Varsovia

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Astor Piazzolla (1921-1992): Piazzolla and Beyond – London Concertante

Um CD low profile de Piazzolla e de alguns compositores ingleses que se arriscaram no tango. O grande destaque é a London Concertante, conjunto que desconhecia e que dá uma tremenda demonstração de competência — clássica, jazzística e tangueira. Depois de um Libertango bastante apaixonado, as outras peças são interpretadas com delicadeza algo rara nos grupos vizinhos (argentinos). Eu adorei. Surpreendentemente, é um CD da Harmonia Mundi, o que mostra que o mundo se move em direções inesperadas. A ECM vai para o clássico, a HM para o tango, nós vamos vivendo de amor e Lula ganha o que FHC apenas sonhou. Eu achei a peça de David Gordon, Augmented Tango de extrema sensualidade. Até tasquei uns beijos de língua na patroa. Pena que ela estivesse com cólicas menstruais. Mas um inglês escrever uma peça que parece um tango moderno e que este entusiasme um habitante do Rio Grande do Sul é a prova de que o hip hop germânico ainda dominará o mundo.

Piazzolla and Beyond – London Concertante

01 astor piazzolla-libertango 04:56
02 astor piazzolla-angel suite 07:53
03 astor piazzolla-decarissimo 04:21
04 david gordon-augmented tango 07:09
05 adam summerhayes-when churchyards yawn 03:59
06 astor piazzolla-soledad 04:43
07 astor piazzolla-michelangelo 70 03:02
08 david gordon and adam summerhayes-milonga bourgeois 05:06
09 astor piazzolla-invierno porteno 05:20
10 adam summerhayes-el desposiedo 05:32

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As merecidas

PQP Bach simplesmente esqueceu-se de avisar. Não avisou os frequentadores, nem seus colegas de blog. O fato é que ele está gozando férias até dia 4 ou 5. Postou até o dia 28 apenas porque deixou agendadas postagens até 28 de dezembro… Mas já estava na praia desde 24. E agora está numa Lan House. E depois vai tomar mais uma Bohemia. Afinal, está quente. Mas a próxima será a última, promete. A última antes de ir ao banheiro abrir espaço para mais.

Fiquem bem. Feliz 2010 com muito dinheiro, saúde, música, mulheres, sexo oral, cinema, literatura e álcool.

PQP

Que tal visitar Hades amanhã à noite a fim de tentar recuperar o grande amor perdido?

Amanhã, no StudioClio, Porto Alegre. Não seja louco de perder.

Orfeão – concerto de Orfeu e Mitra

Neste concerto, o herói patrono da música, Orfeu, e o deus-herói Mitra serão homenageados pela Confraria Música Antiga, sob direção de Fernando Cordella. Serão executadas seleções da ópera L’Orfeo, de Claudio Monteverdi (1567-1643). Estreada em 24 de fevereiro de 1607, no Palácio Ducal de Mântua, esta ópera é considerada precursora do gênero. Nela, o mito de Orfeu é representado, consagrando os poderes místicos da música e a atualidade dos mitos clássicos gregos na criação artística pós-renascentista. As passagens selecionadas apresentam parte substantiva da ópera, inclusive sua estrutura dramática e as melhores passagens de canto lírico e instrumental.

Nesta apresentação, integram a Confraria Música Antiga os músicos Cíntia de Los Santos, soprano, Fernando Cordella, cravo, e Nikolaj De Fine Lichts, flautas.

Ao final, teremos a estreia da obra Solis invictus, de Dimitri Cervo e Francisco Marshall, com a participação especial de César Rodrigues Pereira, tenor, de Dimitri Cervo, piano, e de Javier Balbinder, oboé.

Promovida pelo StudioClio em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura – PMPA, a série Orfeão é um programa de concertos que valoriza músicos e músicas de Porto Alegre, com repertórios locais e internacionais. Os concertos primam pela exposição e compreensão da linguagem musical, com diversos recursos didáticos.

Primeira parte
Claudio Monteverdi (1567-1643), selecta de L’Orfeo (1607)

PROLOGO

1. Tocatta
2. Ritornello – La Musica: Dal mio Permesso Amato

ATTO PRIMO

3. Ninfa: Muse honor di Parnaso
4. Coro di Ninfe e Pastori: Lasciate i monti
5. Danza di Ninfe e Pastori
6. Coro di Ninfe e Pastori: Vieni Imeneo deh vieni
7. Ritornello

ATTO SECONDO

8. Sinfonia – Orfeo: Ecco pur ch’a voi ritorno
9. Orfeo: Vi ricorda o Boschi ombrosi
10. Mensaggiera: Ahi caso acerbo!
11. Coro: Ahi caso acerbo

ATTO TERZO

12. Sinfonia
13. Sinfonia de Caronte

ATTO QUARTO

14. Proserpina: Signor quel infelice che per queste di morte ampie campagne

ATTO QUINTO

15. Ritornello
16. Finale: Vanne, Orfeo, Felice e pieno

17. Francisco Marshall (1966) e Dimitri Cervo (1968)
Solis invictus (2009), soprano, tenor, oboé e piano

Realização conjunta
Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre

Quando: Dia 18 de dezembro, sexta-feira, às 20h30
Vagas: 98
Duração:
Valor(es):
R$ 15,00 (público em geral)
R$ 10,00 (professores, estudantes e idosos)

PQP

J. S. Bach (1685-1750): As Seis Suítes para Violoncelo Solo

A francesa Anne Gastinel é uma das melhores novidades dos últimos anos. Tem som poderoso, limpo, e, como convém, é musicalmente inquieta. Para esta gravação, ela utilizou o que ela chamou de um “profundo e magnífico instrumento” de Testore (1665 – 1716), projetado em 1690. Gastinel sai-se maravilhosamente bem nos tempos rápidos, acelerando muito as coisas, mas fazendo-o de forma a não cantar os pneus nas curvas nem de os fritar nas desacelerações. Sua proeza é a de exercutar todas as passagens, mesmo as mais rápidas, com facilidade e limpeza. A entonação é consistente, o colorido é variado e a qualidade do som da Naïve é esplêndida. Como disse Gardiner, as danças de Bach têm sido cada vez mais apreciadas e é neste quesito que nossa francesinha dá um show. Não que ela descuide do resto, é que a forma com ele aborda os movimentos de dança é surpreendente.

Como só estou postando CDs, digamos, indiscutíveis, lá vai mais um

IM-PER-DÍ-VEL !!!!

Obs.: Postei os dois CDs num mesmo arquivão.

Johann Sebastian Bach: The Six Cello Suites

CD 1
Cello Suite No. 1 in G major BWV 1007
1) Prélude [2:18]
2) Allemande [5:12]
3) Courante [2:28]
4) Sarabande [3:05]
5) Menuets I & II [3:03]
6) Gigue [1:39]

Cello Suite No. 4 in E flat major BWV 1010
7) Prélude [4:26]
8. Allemande [4:58]
9) Courante [3:24]
10) Sarabande [4:46]
11) Bourrées I & II [5:06]
12) Gigue [3:00]

Cello Suite No. 5 in C minor BWV 1011
13) Prélude [5:46]
14) Allemande [6:46]
15) Courante [2:22]
16) Sarabande [2:45]
17) Gavottes I & II [4:59]
18) Gigue [3:13]

CD 2
Cello Suite No. 2 in D minor BWV 1008
1) Prélude [3:41]
2) Allemande [3:55]
3) Courante [2:11]
4) Sarabande [4:21]
5) Menuets I & II [3:00]
6) Gigue [2:33]

Cello Suite No. 3 in C major BWV 1009
7) Prélude [2:58]
8. Allemande [3:42]
9) Courante [3:09]
10) Sarabande [3:56]
11) Bourrées I & II [3:53]
12) Gigue [3:13]

Cello Suite No. 6 in D major BWV 1012
13) Prélude [4:47]
14) Allemande [7:38]
15) Courante [3:26]
16) Sarabande [5:29]
17) Gavottes I & II [4:21]
18) Gigue [4:10]

Anne Gastinel, Cello

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George Philipp Telemann (1681-1767): Obra completa para órgão

Somente nos últimos tempos a importância de Telemann foi reconhecida na história musical: seu papel é mais do que de coadjuvante, ele foi protagonista do século XVIII. Foi da mesma geração de Bach e Handel, e tentou participar da transição estilística do barroco para o galantea seu modo. Junto com mano Carl Philipp Emanuel, realizou a ligação entre Bach e Mozart. Foi compositor de primeira linha.

Este álbum triplo é uma raridade. O som é excelente, mas as infomações são parcas, Encontrei-o durante uma perigosa navegação em alto mar. O nome da gravadora é Da Camera Magna. Famosíssima. Mas editou esta joia IM-PER-DÍ-VEL !!!

Telemann — Obra Completa para Órgão

CD 1

1. Sonate D-Dur für zwei Klaviere und Pedal (Triosonate) Grave-Presto-Andante-Scherzando 9’31”
2. Fantasie D-Dur 3’11”

Choralvorspiele
3. “Nun komm der Heiden Heiland” (4-stimmig) 1’59”
4. “Nun freut euch, lieben Christen gemein” (2 Variationen) 2’51”
5. Fughetta F-Dur 1’45”
6. Fughetta D-Dur 1’43”

Choralvorspiele
7. “Ach Gott vom Himmel sieh darein” (3-stimmig) 3’36”
8. “Ach Gott vom Himmel sieh darein” (2-stimmig) 3’19”
9. “Ach Herr, mich armen Sünder” (3-stimmig) 3’59”
10. “Ach Herr, mich armen Sünder” (2-stimmig) 1’54”
11. “O wir armen Sünder” (3-stimmig) 2’34”
12. “O wir armen Sünder” (2-stimmig) 2’19”
13. “Schmücke dich, o liebe Seele” (3-stimmig) 4’20”
14. “Schmücke dich, o liebe Seele” (2-stimmig) 3’15”
15. “Allein Gott in der Höh sey Ehr” (3-stimmig) 2′ 14″
16. “Allein Gott in der Höh sey Ehr” (2-stimmig) 1’53”
17. “Christus, der uns seelig macht” (3-stimmig) 2’18”
18. “Christus, der uns seelig macht” (2-stimmig) 1’38”

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CD 2 (77 104)

Orgelfugen
1. Fuge 1 1’21”
2. Fuge 2 1’19”
3. Fuge 3 1’49”
4. Fuge 4 1’13”
5. Fuge 5 1’54”
6. Fuge 6 138″
7. Fuge 7 139″
8. Fuge 8 1’24”
9. Fuge 9 1’37”
10. Fuge 10 1’13”
11. Fugeil 1’24”
12. Fuge 12 1’35”
13. Fuge 13 1’18”
14. Fuge 14 1’11”
15. Fuge 15 1’11”
16. Fuge 16 1’38”
17. Fuge 17 1’15”
18. Fuge 18 0’58”
19. Fuge 19 1’28”
20. Fuge 20 1’42”

Choralvorspiele
21. “Alle Menschen müssen sterben” (3-stimmig) 3’30”
22. “Alle Menschen müssen sterben” (2-stimmig) 1’38”
23. “Herr Christ, der einig’ Gottes Sohn” (3-stimmig) 2’47”
24. “Herr Christ, der einig’ Gottes Sohn” (2-stimmig) 1’45”
25. “Christ lag in Todesbanden” (3-stimmig) 2’58”
26. “Christ lag in Todesbanden” (2-stimmig) 1 ’31”

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CD 3

????

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Franz LÖRCH, órgão

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P. I. Tchaikovski (1840-1893): Sinfonia No. 4 & Capricho Italiano

Foram lançadas gravações sensacionais da Quarta Sinfonia de Tchaikovski, nos últimos anos. Houve Barenboim, Fischer e esta aqui, da Harmonia Mundi, que é a melhor de todas. Gatti aborda o primeiro movimento de forma extremamente rápida — é urgente, apaixonado, mas também adequado. Tem graça, é balé. É uma interpretação emocionante, uma que dá à música um maior impacto, o que justifica ouvi-la novamente.

O modo Gatti também funciona muito bem no segundo movimento, que é interpretado como uma canção que permite que as melodias sejam ouvidas como se tivessem palavras. É bonito. Há virtuosismo das cordas no scherzo, e o final funciona bem, com o ritmo das cordas e sopros em suas trocas. A orquestra e dá o necessário à Gatti, tanto na sinfonia quanto no Capricho Italiano, que nunca se torna vulgar ou simplesmente agitado.

Tchaikovski: Sinfonia No. 4 & Capricho Italiano

1. Symphony No.4 in F minor, Op.36 – I. Andante sostenuto – Moderato con anima
2. Symphony No.4 in F minor, Op.36 – II. Andantino in modo di canzona
3. Symphony No.4 in F minor, Op.36 – III. Scherzo: Pizzicato ostinato – Allegro
4. Symphony No.4 in F minor, Op.36 – IV. Finale: Allegro con fuoco

5. Capriccio Italien, Op.45

Royal Philharmonic Orchestra
Daniele Gatti

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Piotr Ilich Tchaikovsky (1840-1893): Sinfonia Manfredo / A Tempestade

(Este post já estava pronto há dias. Agora, com a postagem anterior e seus comentários, vai parecer provocação, mas não é).

PQP Bach não é um grande apreciador de Tchai, mas o que ele deve fazer se as gravações caem em suas mãos? Deve distribuí-las, não? Penso que ele apenas não divulgaria Dvořák, compositor ao qual devota ódio incondicional, pois se até já ouviu e gostou de coisas de Rachmaninov e Tchaikovsky, jamais se satisfez minimamente com o xaropão checo.

A Sinfonia Manfredo, Op. 58, foi escrita por Tchaikovski entre maio e setembro de 1885, baseada no poema Lorde Byron. Teve sua estréia em Moscou, Rússia, dia 23 de março de 1886, regida por Max Erdmannsdörfer e Mily Balakirev.

A música para abertura do drama A tempestade, de Ostrovsky, foi escrita no tempo de miserê de Tchai, antes do sucesso e da sucessão de fracassos com mulheres — falo do pinto de vista sexual, nunca do financeiro.

Tchaikovsky: Sinfonia Manfredo / A Tempestade

1. The Tempest, Op.18 21:44
2. Manfred Symphony, Op.58 – 1. Lento lugubre – Moderato con moto – Andante 15:26
3. Manfred Symphony, Op.58 – 2. Vivace con spirito 9:50
4. Manfred Symphony, Op.58 – 3. Andante con moto 10:17
5. Manfred Symphony, Op.58 – 4. Allegro con fuoco 18:30

Russian National Orchestra
Mikhail Pletnev

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Feliz na sexta-feira

Na última sexta-feira, P.Q.P. Bach compareceu ao StudioClio a fim de assistir ao quarteto de cordas formado por

Guillaume Tardif e
Rodrigo Bustamante (violinos),
Hella Frank (viola) e
Rodrigo Silveira (violoncelo),

apresentarem um programa como um programa deve ser:

1. Quarteto de Cordas Op. 76 Nº 3 “Imperador”, de F. J. Haydn;
2. Quarteto K. 465 “Das Dissonâncias”, de Mozart e
3. Quarteto Op. 59 Nº 2 “Razumovsky”, de Beethoven.

Em primeiro lugar, analisemos o contexto. Este não é um quarteto que toca regularmente ou que tenha um repertório estabelecido. Não era natural, portanto, a escolha do Quarteto das Dissonâncias e muito menos do massacre representado pelo segundo Razumovsky, uma música dificíl e perigosa para todo quarteto, o que dirá para um recém formado ou formado para apenas uma apresentação. Porém, quando o grupo entrou no pequeno palco do StudioClio, notei aquela eletricidade que muita vontade e alguma raiva — pois três integrantes do quarteto moram numa cidade triste, onde tudo parece ter sido melhor no passado — , criam. Em resposta, a platéia lotava o espaço, desejando que tudo fosse diferente da Orquestra da Desgovernadora, aquela coisa disforme e sem testosterona (desculpe, Hella). Os caras estavam ali para tocar porque são bons músicos e bons músicos preferem a boa música, só desistindo quando veem que a estrutura está ali para fazer com que desistam da música que os tornou músicos, o que os torna deprimidos e sem motivação.

O Haydn foi maravilhoso com Tardif no comando. As Dissonâncias foram ainda melhores com Bustamante no primeiro violino, mas a interpretação do Beethoven foi espantosa, com Tardif de volta ao posto. Cheio de enunciados afirmativos e súbitos silêncios, o primeiro movimento foi levado com absoluto rigor e uma musicalidade raramente ouvida nas gravações que temos em casa. Dou destaque à descoberta de um movimento ao qual não dava grande importância: o segundo (Molto Adagio). Em razão da interpretação cheia de emoção do grupo fui levado a ler a respeito. Sabem o que Beethoven anotou na partitura? Si tratta questo pezzo com molto di sentimento. Esta peça é para ser tratada com muito sentimento. Grande trabalho do violoncelista Rodrigo Silveira. O ritmo do Presto que o segue é para ser russo, mas parece que antes de Mussorgsky e Korsakov era complicado ser autenticamente russo. Se falta Rússia, sobra a música de Beethoven, o que absolutamente não é pouco. O último movimento, cheio de episódios contrastantes, foi levado pelo quarteto já sabendo que a noite estava ganha. Por isso, aqueles diálogos rápidos entre os instrumentos foram feitos com exatidão através de olhares alegres.

O bis veio com a Contraponto Nº 1 de A Arte da Fuga. Bustamante, certamente cansado, entrou meio mole na jogada e desafinou logo na apresentação do tema, talvez no único erro grande cometido; porém, estava todo mundo tão feliz que aquilo apenas fez todo o resto do quarteto e o teatrinho inteiro sorrirem. Minha mulher, ao final do concerto, disse algo curioso:

— Os melhores concertos deveriam terminar sempre com Bach. Não por ser superior, mas por ser marcante, equilibrado, por ser o fundamento. É como o Q.E.D. dos teoremas.

Afirmo, sem medo de errar, que foi o melhor concerto que Porto Alegre assistiu neste ano.

Obs. final: Gosto muito de Hella Frank. Está sempre metida em projetos intessantes, não obstante ser professora universitária.

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Heitor Villa-Lobos (1887-1959) – Sinfonia Nº 10 (Ameríndia) e Chôros Nº 12

Nota: esta postagem, assim como todas as demais com obras de Heitor Villa-Lobos, não contém links para arquivos de áudio, pelos motivos expostos AQUI

Fazia tempo que eu não postava algo raro MESMO, né? Pois hoje vou matar a vontade postando o raro Choros Nº 12 para orquestra e a raríssima Sinfonia Nº 10, em sua primeira gravação mundial (hoje já há outra), realizada em setembro do ano 2000, se não me engano. É a única sinfonia importante escrita por Villa-Lobos.

Abaixo, deixo para vocês um texto explicativo da sinfonia escrito pela regente Gisele Ben-Dor e traduzido para o português de Portugal por Augusta Marques da Silva. Importante: o texto foi obtido por OCR, a partir do libreto original, sem correções.

Uma nota da directora de orquestra

A Décima Sinfonia de Heitor Villa-Lobos apresenta varios desafios: escolha de tempos (não existem marcas de metrónomo, pouco habitual para uma obra composta em meados do século XX), interpretação das linhas vocais, estilo cantado adequado ao carácter do texto utilizado, pronuncia do texto em Tupé, ou decisões relacionadas com os numerosos erros que aparecem nas partituras e partes.

Durante a preparação desta gravação em estréia mundial, lembrei-me de que o compositor tinha dirigido a estréia mundial desta obra em Paris, no ano de 1957 (nos antes da sua morte). Como me foi impossível conseguir uma cópia, viajei a Paris e dediquei-me a ouvir extensivamente a bobina histórica e extremamente bem conservada. Consegui obter uma boa imagem sobre as intenções do compositor, incluindo as muitas e felizes liberdades que se permitiu com a partitura, tonalidades que diferiam da partitura e partes e tipo de cantores com quem trabalhou. Numa nota menos satisfatória, mas contudo reveladora, estava a recepção dos ouvintes auditivamente negativa e que se podia atribuir à pobre qualidade da performance.

Se pensarmos que uma boa parte dos resultados musicalmente insatisfatórios poderão ter origem nas limitações de Villa-Lobos enquanto director de orquestra, falta de tempo para ensaios ou falta de oportunidades para rever a partitura subsequentemente, fiz um arranjo sobre uma possível interpretação que, espero, pudesse ter agradado ao compositor. Estou também muito agradecida pela ajuda que me foi prestada pelo Museu de Villa-Lobos no Rio de Janeiro, em particular, no que concerne ao texto em Tupi. Existem cerca de duas centenas de dialectos indígenas no Brasil, que o meu Português familiar (aprendido no meu país nativo, Uruguai), bem como o de quase toda a maioria dos brasileiros, não seria suficiente para decifrar.

Havia muito pouco contraste entre os três solistas masculinos na performance de Villa-Lobos. Para além disso, empregava vozes mais altas do que as que se poderiam depreender das instruções na partitura e que, para completar o meu quebra-cabeças, eram por vezes ambivalentes ou simplesmente não seguidas pelos cantores sob a batuta do maestro Villa-Lobos, incluindo, num dos exemplos, o canto com a chave errada ou noutro ainda, com o tenor interpretando a parte do barítono. O registo vocal, tal como escrito na partitura, parecia muitas vezes demasiado agudo para uma base grave (a base precisando de estar em contraste com o barítono) e bastante grave para o tipo de tenor adequado à expressividade do conjunto musical composto para o texto em Latim. A parte da base sendo bastante curta e o tenor tendo uma só ária para interpretar ao longo de toda a peça (“Tu mihi”). Também influenciei a interpretação final. Simplesmente coloquei um barítono capaz de fazer soar „o Dragão infernal” com suficiente ferocidade para encontrar a profundeza necessária à „Voz da Terra.”

O uso de uma voz feminina a solo numa extensa passagem do quarto andamento (”Servili culpae”), associada aos contra-altos do coro, foi uma decisão de carácter puramente pessoal. Achei que a natureza intimativa, à procura da alma e contrita da prece, “Aos pés da Virgem” precisava de uma voz individual, a qual ao apresentar nuances e sendo imprevisível, projectaria de forma mais eloquente, e paradoxalmente, o seu conteúdo emocional universal e traria também cor, contraste e equilíbrio a esta enorme tela presente na obra.

Normalmente, dada a profunda sensibilidade católica presente no extenso poema Mariano, adequado à maioria religiosa da cidade de São Paulo, a interpretação das linhas vocais foi concebida com o cunho da tradição italiana, com a sua paixão e drama.

E, o ouvinte acredita ter viajado muito longe no mundo sonoro de Villa-Lobos, abarcando todos os compassos; os gêneros território do Brasil, culturas multi-raciais e exóticas, através de séculos de estratos históricos e invenção melódica e ilimitada em três línguas; a surpresa do último e inesquecível acorde: extasiante, bombástico e até mesmo vulgar. É como se abandonássemos o misticismo da igreja com a severa harmonia e o fervor religioso e ficássemos com a sensação de nos encontrarmos no meio de uma multidão de brasileiros igualmente fervorosos, orgulhosos, amantes da vida, festejando ardentemente a sua cidade natal, tal como o fariam numa partida de futebol; um final propício para uma obra que tinha começado com uma fanfarra populista, desinibida e bastante rouca.

Aqueles que já estiveram no Brasil poderão atestar a veracidade do retrato musical de Villa-Lobos sobre um povo e uma cultura espirituais, onde a espontaneidade, enormes contrastes e con-tradições coexistem numa tapeçaria única de riqueza e cor.

HEITOR VILLA-LOBOS / Décima Sinfonia, Ameríndia

Heitor Villa-Lobos (1887-1959), brasileiro, foi tão prolífero que ele próprio declarou não saber ao certo quantas músicas compôs. A sua volumosa produção inclui uma dúzia de sinfonias (de entre as quais uma, a Quinta, se perdeu) representando uma impressionante variedade de estilos e aproximações ao conceito de sinfonia. Porém, pode-se indubitavelmente afirmar que nenhuma dessas sinfonias se aproxima da Décima, no que diz respeito à riqueza musical ou à grandiosa beleza de concepção.

Villa-Lobos aprendeu a tocar violoncelo com o pai, conseguindo alcançar posteriormente um peculiar domínio da viola. Contudo, como compositor foi quase inteiramente um autodidacta. Embora, desde muito jovem, a profissão de médico estivesse pensada para ele, preferia passar os dias na vida boémia dos músicos de rua, a desenvolver a agilidade necessária ao improviso nos acompanhamentos à viola para as caprichosas variações da música popular instrumental, mais conhecida por “choros.” Entre os dezoito e os vinte e cinco anos de idade partiu em viagens pelo Brasil com a intenção de estudar os vários tipos do folclore local e anotar as respectivas características típicas. Esta experiência contribuiu de forma decisiva para a maturidade do seu estilo musical. De princípio, a sua música era desprezada no seu próprio país, devido à novidade e ao carácter exótico que consigo transportava. Fez amizades com muitos músicos de renome artístico da época (como é o caso do pianista Artur Rubinstein), que não se tornaram apenas admiradores devotos da sua arte, mas também divulgaram as suas obras em recitais. Ao longo da vida nunca parou de proliferar numa corrente quase ilimitada de novas obras, quase todas elas caracterizadas pela frescura melódica (muitas vezes marcadas pelos estilos populares brasileiros), por uma vitalidade rítmica e uma vigorosa e imaginativa cor instrumental.

As obras mais conhecidas combinam folclore brasileiro com o estilo de contraponto do seu ídole, J. S. Bach, tendo atribuído a essas obras o título genérico de Bachianas Brasileiras. Um dos movimentos mais populares de toda a obra do compositor é um poema de sons em miniatura imitando um comboio que atravessa a floresta e a montanha, tirando dos instrumentos os efeitos de som evocativos.

E praticamente impossível fazer um levantamento da vasta obra de Villa-Lobos; uma boa parte continua sem publicar e está escassamente catalogada. As estimativas do vasto número de composições que escreveu vão desde as setecentas até mais do dobro; embora esta inconsistência seja, em parte, devida ao facto de ele ter feito frequentemente vários arranjos para uma só peça e uma contagem poder considerar tais arranjos como obras individuais. A confusão também se levanta do prazer que ele sentia em mistificar as coisas, em contar histórias sobre si próprio que poderão não ter sido sempre as mais verdadeiras.

Nos seus primeiros anos de compositor no Brasil era considerado como demasiado avançado para o público. Muito embora, nesse período, tenha composto quatro quartetos para cordas e cinco sinfonias (incluindo a que desapareceu) e ainda as deslumbrantes peças nacionalistas para piano, publicadas sob o título Prole do bebê. Estas sugerem a mesma forma da tradição folclórica associada ao modernismo que Stravinski escrevia exactamente na mesma altura, mas do qual Villa-Lobos não tinha o mínimo conhecimento, tendo-se aproximado de Stravinski de forma completamente independente.

O nacionalismo aberto e exótico das composições de Villa-Lobos escritas em Paris atraíram a maior e mais duradoira das atenções, já que a cena musical estava com os olhos postos em Paris, esperando novidades artísticas nas décadas posteriores à Primeira Guerra Mundial. Dois grandes ciclos de obras surgiram nessa altura – os Choros entre 1920 e 1929 e as Bachianas Brasileiras entre 1930 e 1945. Estas obras expressam a música popular das cidades brasileiras e o folclore do mundo rural, agrupados e recriados em peças para concerto de surpreendente variedade. Algumas das peças de cada um desses ciclos são destinadas a ensembles de grandes dimensões (incluindo, por exemplo, coro, banda e orquestra para o Choro N° 14 de 1928 e Bachianas Brasileiras Nos. 2, 3, 7 e 8), enquanto que outras são tão variadas em dimensão e instrumentação quanto se possa imaginar (a popular Bachiana Brasileira N” 5 chama oito violoncelos e voz soprano; a N° 6 para flauta solista e fagote).

Também durante os anos trinta, Villa-Lobos jogava um papel activo e vital no desenvolvimento da educação musical do seu país natal, tendo composto para este fim uma série de música coral e outras obras destinadas às escolas, tal como Kodály na Hungria e outros compositores nos respectivos países natais.

De 1945 até à sua morte, Villa-Lobos passou a dirigir mais o seu interesse para questões de virtuosidade instrumental e compôs cinco concertos para piano, dois concertos para violoncelo e um para harpa, um para viola e um para harmónica. As suas obras para piano tornaram-se mais extensas e conscientemente mais brilhantes (muito embora Rudepoema, escrito para Rubinstein nos anos vinte, já fosse considerado uma das mais difíceis obras criadas para o instrumento). Prosseguiu também ao longo de toda a sua vida e com uma certa regularidade com a composição de quartetos para cordas (no total dezassete e um décimo oitavo que deixou inacabado quando faleceu). Foi também nesta altura, após um intervalo de um quarto de século, que começou novamente a compor sinfonias; tendo composto a sua Sexta em 1944 e continuado até à sua Décima Segunda em 1957.

E como se tudo isto não bastasse, compôs seis peças de ballet, bandas sonoras para filmes, um par de óperas e até mesmo um espectáculo para a Broadway, Magdalena, juntamente com a equipa de Robert Wright e George Forrest, bem conhecidos por converter as melodias de velhos compositores em melodias destinadas a espectáculos para êxitos como Song of Norway (Grieg) e Kismet (Borodin).

As obras deste último período alcançaram na sua totalidade um considerável sucesso popular junto das audiências aquando das respectivas estréias, apesar de à medida que o tempo mudava e que o serialismo de doze tons se estabelecia como a essência do modernismo a meados do século, muitos músicos começassem a sentir que o sucesso de Villa-Lobos surgia da composição simples e de carisma popular e que era considerado um „grito longíquo” das últimas novidades na „música moderna.”

Actualmente, quatro décadas depois da sua morte, as obras que se ouvem com mais frequência, oriundas da pena fluente de Villa-Lobos, são as composições mais nacionalistas dos anos vinte e trinta. Durante muito tempo, as suas composições nos géneros clássicos padrão – em particular os quartetos para cordas e as sinfonias foram ignoradas. Muitas delas nem sequer tinham sido publicadas, o que tornava a decisão dos intérpretes em aceitar interpretar essas peças extremamente difícil.

De todas as peças esquecidas de Villa-Lobos, a Décima Sinfonia foi uma das mais difíceis de dominar. Uma das razões para esta relativa negligência talvez tenha sido o facto de estar planeada para um evento específico em detrimento de outros, já que demasiado limitado em interesse para merecer uma pesquisa mais alargada. O evento em questão foi o 400° aniversário da edificação de São Paulo, Brasil, em 1952; a peça foi concebida de certa forma como uma espécie de lição musical de história. Mas, como com todas as composições escritas para uma ocasião específica, é a música que determina se a peça merece uma atenção mais profunda, e realmente quase não houve oportunidade para julgar a
Décima de Villa-Lobos, através do critério do efeito actual na interpretação. (Hoje em dia não se espera necessariamente ouvir uma composição escrita para, a inauguração do Canal de Suez ou uma peça composta para a reedificação de uma catedral inglesa bombardeada pelos alemães durante a Segunda Guerra Munidal; mas se omitirmos estas composições „ocasionais” do nosso repertório, não teríamos nunca a oportunidade de ouvir hoje Aida de Verdi ou War Requiem de Britten, duas das obras mais refinadas dos séculos dezanove e vinte, respectivamente). Já é bastante invulgar que a estréia da obra não tenha ocorrido em São Paulo, mas sim em Paris, em 4 de Abril de 1957, com o compositor dirigindo a Orquestra da Rádio Nacional Francesa.

Ao criar a Décima Sinfonia (às vezes chamada de Ameríndia, outras vezes denominada por uma frase com uma linguagem mesclada Sumé Pater Patrium), Villa-Lobos compôs uma obra que é mais um oratório do que uma sinfonia tradicional com os respectivos quatro andamentos instrumentais abstractos. Para além da orquestra, chamou também solistas vocais e um coro para interpretar um texto derivado dos escritos deixados pelo Padre José de Anchieta, jesuíta e missionário colonial no Brasil, tendo deixado uma relação da conversão dos nativos ao Cristianismo. Para a finalidade da sinfonia, o texto foi traduzido para várias línguas – Tupi, a língua nativa; Latim a língua dos missionários e Português, a língua dos colonizadores europeus. O objectivo era produzir uma „relação alegórica, histórica e religiosa da cidade de São Paulo.”

Para poder concretizar este plano musical, Villa-Lobos empregou três tipos diferentes de estilos musicais, representando três culturas diferentes: a população nativa, representada por extensas melodias contínuas com muitos intervalos repetidos, no estilo do canto nativo; os portugueses, cuja música apresenta tons bem ambíguos, como representantes de uma agência estranha que obrigava à mudança e à adaptação e a população afro-brasileira com síncopes, hemiólios e ritmos cruzados. E compôs para uma enorme orquestra com três instrumentos de madeira, quatro instrumentos de sopro em metal, um largo corpo de percussão, duas harpas, piano, órgão, bem como uma larga parte para cordas para balançar, não esquecendo as vozes a solo e o coro misto. Todas estas forças dispostas com uma soberba variedade e sensação de cor.

O primeiro movimento, Allegro, é uma espécie de abertura. Talvez não seja ir demasiado longe se se disser que na explosão orquestral da abertura, seguida da vigorosa continuação se ouve uma representação das florestas virgens do Brasil e dos seus habitantes, antes da chegada dos Europeus. É puramente instrumental e dividida em várias partes, principalmente em tempos acelerados. Um dos motivos fundamentais é uma figura consistindo num par de notas vizinhas seguidas por um salto ascendente. O movimento está cheio de acentos de ritmos cruzados, dando-lhe um carácter pictórico e dramático.

Lento é o primeiro tempo marcando o segundo movimento, mas na verdade o tempo modifica-se várias vezes durante o andamento. Pode-se afirmar que a música, pelo menos em parte, pretende ser um lamento pela tranquilidade perdida e pelo isolamento do mundo rural. Um toque de clarins em quintas paralelas introduz uma lamuriante melodia inglesa. A primeira entrada vocal surge de um coro feminino, sem palavras, seguido pelo coro misto cantando melódicamente, sugerindo a população nativa. Finalmente, um contrabaixo a solo representando a „Voz da Terra,” descreve (numa breve frase) a beleza da terra onde a cidade irá ser edificada.

O terceiro movimento, um scherzo festivo, começa com padrões rítmicos de três-contra-dois, já que 9/8 e 3/4 de tempos surgem simultaneamente. Quando a subst,ncia da abertura é novamente repetida, o coro participa (tal como o solista num concerto clássico com uma disposição de “apresentação dupla”). As vozes masculinas soam em forma de cântico enquanto que a “Voz da Terra” e um outro solista masculino, „0 Ameríndio,” se juntam ao coro sem palavras.

Os dois últimos andamentos têm um carácter coral mais acentuado, mais ao modo de “oratório” do que de “sinfonia.” No Lento dos quatro movimentos, novamente o texto, adaptado de Anchieta, é apresentado em partes de dimensões variadas, culminando com uma fusão de passado e de futuro. O “Ameríndio” intercala as suas perguntas com as palavras do coro, possivelmente como o papel do Evangelista num dos passos da Paixão do compositor mais admirado e favorito de Villa-Lobos, J. S. Bach. Uma voz falando à distância (representando Anchieta, o papel do tenor) anuncia a chegada dos portugueses, trazendo consigo o Cristianismo. O coro canta em Latim excertos de um poema Mariano de Anchieta (o poema inteiro tem mais de 5000 linhas!), disposto num estilo de oratório inteiramente tradicional, com coro, cântico e solistas, numa concepção elaborada por partes, seguindo as sensações mutáveis do texto. (Uma passagem destinada a todos os „contra-altos” do coro, assim determinado por Villa-Lobos, é cantada aqui por um solista, uma vez que a linha melódica e o acompanhamento orquestral se encontram ambos entre as passagens mais suaves da sinfonia inteira e expressos numa intensa poesia pessoal.) Seguindo este suave interlúdio, o solo do barítono luta contra o Dragão Infernal (neste poema típico da Contra-Reforma torna-se claro que o “dragão” é “Calvino, portador da morte” e as forças do Protestantismo); faz a sua interpretação numa música obscuramente dramática para terminar o quarto movimento.

O movimento final, Poco Allegro, abre com um espírito muito mais cintilante e luminoso, a entrada orquestral preparando-se para o doce entusiamo lírico do coro para a história de Natal. Sinos e instrumentos de sopro vão colorindo a textura à medida que a poesia se vai desdobrando. Partes mais calmas anunciam a figura de Jesus (Adagio) e invocam a vinda do Espirito Santo (Moderato). Uma marcha lenta para celebrar a divina glória e a sinfonia vai-se intensificando para um fecho glorioso com Aleluias e uma declamação coral do original e moderno nome da cidade de São Paulo de Ipiratininga.

Esta extraordinária peça é única na obra de Villa-Lobos. Reflecte a história do seu país nativo, projectando-lhe uma música de grande cor e variedade com uma orquestra chamando uma parte de percussão bem mais extensa. Os ouvintes que esperam que uma sinfonia seja uma sinfonia talvez fiquem atónitos, mas aqueles que estiverem dispostos a aceitar a peça por aquilo que ela verdadeiramente representa e não por aquilo que um rótulo pretende impor, encontrá-la-ão plena de vigorosas ideias musicais.

1. Chôros Nº 12 para orquestra
Orchestre Philarmonique de Liège
Pierre Bartholomée

Symphony No. 10 – Ameríndia – Sume Pater Patrium (em cinco movimentos, sobre poemas de José de Anchieta, escrita para o quarto centenário da cidade de São Paulo)
Oratorio in Five Parts
2. Allegro (A Terra e suas Criaturas)
3. Lento (Lamento da Guerra)
4. Scherzo: Allegreto Scherzando
5. Lento (De Beata Virgine dei Mater Maria)
6. Poco Allegro (Gloria aos Céus e Paz na Terra)
Carla Wood, mezzo-soprano
Carlo Scibelli, tenor
Nmon Ford-Livene, baixo-barítono
Santa Barbara Symphony Orchestra and Choir
Gisele Ben-Dor

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Heitor Villa-Lobos (1887 – 1959) – Música para Piano II

Nota: esta postagem, assim como todas as demais com obras de Heitor Villa-Lobos, não contém links para arquivos de áudio, pelos motivos expostos AQUI

Não apenas Bartók escreveu belos arranjos para canções populares. Esta postura era uma das qualidades dos nacionalistas do início do século XX e Villa estava totalmente inserido no movimento. A mim causa emoção de ouvir estas canções simples, mas também um certo pasmo por não reconhecer a maioria delas. Sonia Rubinsky dá novamente um banho de competência e fico feliz por saber que toda a série estará a cargo da bela campineira. Como diz no livrinho do CD, é engraçado que os europeus considerem um compositor tão profundamente brasileiro como influenciado por Stravinski (???). Algumas certezas dos outros é melhor ignorar…

Heitor VILLA-LOBOS: Piano Music, Vol. 2 (A Prole do Bebe, No. 2 / Cirandinhas)

1 A Lenda do Caboclo 00:03:30
2 Ondulando 00:03:57
3 Valsa da Dor 00:05:02

A Prole do Bebe, No. 2 (The Baby’s Family, No. 2)
4 A Baratinha de papel 00:02:20
5 O Gatinho de papelao 00:03:09
6 O Camundongo de massa 00:03:29
7 O Cachorrinho de borracha 00:03:13
8 O Cavalinho de pau 00:02:55
9 O Boisinho de chumbo 00:05:07
10 O Passarinho de panno 00:03:33
11 O Ursozinho de algodao 00:03:12
12 O Lobosinho de vidro 00:05:18

Cirandinhas (Little Round Songs)
13 Zangou – se o Cravo com a Rosa 00:01:24
14 Adeus, Bela Morena 00:01:32
15 Vamos, maninha 00:01:33
16 Olha aquela menina 00:01:35
17 Senhora pastora 00:01:35
18 Cae, cae, balao 00:01:42
19 Todo o mundo passa 00:01:08
20 Vamos ver a mulatinha 00:01:41
21 Carneirinho, carneirao 00:02:12
22 A canoa virou 00:01:33
23 Nesta rua tem um bosque 00:02:33
24 Lindos olhos que ela tem 00:03:38

Sonia Rubinsky, piano

Total Playing Time: 01:07:57

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Heitor Villa-Lobos (1887 – 1959) – Sinfonia Nº 6 e Rudá

Nota: esta postagem, assim como todas as demais com obras de Heitor Villa-Lobos, não contém links para arquivos de áudio, pelos motivos expostos AQUI

Mais uma bela gravação de Villa-Lobos que a Naxos-Marco Polo edita. Se já conhecia a Sinfonia Nº 6, desconhecia o divertido balé “Rudá”, uma encomenda do Scala de Milão. Não é muito claro para mim o motivo da hostilidade que as sinfonias de Villa-Lobos sempre sofreram por parte dos críticos. Não são obras que fiquem abaixo das Bachianas ou dos Choros orquestrais. Villa dedicou-se muito ao gênero, tanto que escreveu 12 sinfonias. Já o balé Rudá inclui surpresas como solos de órgão e danças que estão a um passo do jazz.

Symphony No. 6 “Sobre a linha das montanhas do Brasil” (rev. R. Duarte)
01 Allegro non troppo 00:05:50
02 Lento 00:08:33
03 Allegretto 00:04:34
04 Allegro 00:06:06

Ruda “Dio d’amore” (rev. R. Duarte)
05 Os Maias 00:08:52
06 Os Aztecas 00:09:30
07 Os Incas 00:03:59
08 Os Marajoaras 00:10:46
09 La vittoria dell’amore nel tropico 00:06:47
10 Epílogo 00:04:18

Slovak Radio Symphony Orchestra
Roberto Duarte, Conductor

Total Playing Time: 01:09:15

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Heitor Villa-Lobos (1887 – 1959) – Música para Piano I

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Nem que a vaca tussa chegarei ao final desta nova série antes de minhas pequenas férias. Mas comecemos as sinfonias, quartetos e obras para piano deste compositor ultra-baixado em nosso blog. Apesar dos grandes sucessos românticos publicados pelo mano FDP, Villa permanece imbatível como nosso campeão de audiência. Eu gosto muito deste CD de cirandas infantis e de uma inusitada homenagem à Chopin – compositor ironizado numa das falas gravadas por Villa que publicamos aqui, lembram? A pianista brasileira – nascida em Campinas – Sonia Rubinsky não é apenas bonita como competentíssima. O CD desta candidata ao Grammy de 1999, justamente com a série de Villa-Lobos que ora postamos, é de entusiasmar.

VILLA-LOBOS: Piano Music, Vol. 1 (A Prole do Bebê, No. 1 / Cirandas)

A Prole do Bebê, No. 1 (The Baby’s Family, No. 1)
01 Branquinha (A boneca de louça) 00:02:24
02 Morenhina (A boneca de massa) 00:01:43
03 Caboclinha (A boneca de barro) 00:02:46
04 Mulatinha (A boneca de borracha) 00:01:36
05 Negrinha (A boneca de pau) 00:01:19
06 A pobrezinha (A boneca de trapo) 00:02:21
07 O polichinelo 00:00:52
08 A bruxa (A boneca de pano) 00:02:26

Cirandas
09 Terezinha de Jesus 00:02:11
10 A Condessa 00:02:52
11 Senhora Dona Sancha 00:01:30
12 O cravo brigou com a rosa 00:01:59
13 Pobre cega 00:01:35
14 Passa, passa gaviao 00:01:30
15 Xô, xô, passarinho 00:03:22
16 Vamos atras de Serra, Calunga 00:03:21
17 Fui no tororó 00:02:34
18 O pintor de Cannahy 00:02:27
19 Nesta rua, nesta rua 00:03:00
20 Olha o passarinho, Domine 00:02:23
21 A procura de uma agulha 00:03:43
22 A canoa virou 00:02:49
23 Que lindos olhos! 00:04:23
24 Có, có, có 00:02:14

Hommage a Chopin
25 Noturno 00:02:31
26 A la balada 00:05:13

Sonia Rubinsky, piano

Total Playing Time: 01:05:04

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Heitor Villa-Lobos (1887-1957) – Chôros, o Adendo: o Chôros Nº 12!

Nota: esta postagem, assim como todas as demais com obras de Heitor Villa-Lobos, não contém links para arquivos de áudio, pelos motivos expostos AQUI

Não há nada como nossos leitores-ouvintes. Abaixo, um comentário recebido ontem à noite. É de Henrique Bente (Hique):

Olá.

Mais uma pequena colaboração para o projeto “Chôros Completos do Villa”: o Chôros no. 12, para orquestra. Tinha somente o MP3, que achei depois de vasculhar teimosamente minhas bagunças, mas perdi sua ficha técnica. Até onde me lembro, a interpretação é da Orchestre Philarmonique de Liège. O regente, provavelmente, é Pierre Bartholomée – mas aqui o Google me ajudou, hehe!

Espero que aproveitem!

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Pequena colaboração? Que modéstia, Hique! A partir de agora, aguardamos as partituras extraviadas. Não duvido de nada.

:¬)))

Muito obrigado.

Heitor Villa-Lobos (1887 – 1959) – Os Chôros Completos (CD 4 de 4)

Nota: esta postagem, assim como todas as demais com obras de Heitor Villa-Lobos, não contém links para arquivos de áudio, pelos motivos expostos AQUI

 

Montei um arquivo com os Choros restantes e mais algumas gravações. Tendo recebido do Hique (muito obrigado!) os dois Choros-Bis e uma deliciosa explicação do próprio Villa em francês sobre o que são seus choros (Faixa 1 – Qu´est-ce qu´un Chôros), aproveitei para incluir algumas outras falas de Villa – estas em português – que estão num CD da falecida edição brasileira da revista Diapason junto com outras pequenas obras esparsas, também retiradas do CD da revista. Só há um problema, perdi a revista e não sei quem toca as peças… Alguém poderia me auxilliar?

01 Qu´est-ce qu´un Chôros
02 2 Chôros-bis – no.1
02 2 Chôros-bis – no.2
04 Fala Villa 1
05 Chôros Nº2
06 Fala Villa 2
07 Kankikis
08 Fala Villa 3
09 Idílio na Rede
10 Valsa Concerto Nº2
11 A Canoa Virou (Cirandas)
12 Nesta rua, nesta rua (Cirandas)
13 O Polichinelo (Prole do Bebê nº1)
14 Branquinha (Prole do Bebê nº1)

2 e 3: Henri Bronschwak (violino) e Jacques Neilz (violoncelo)
1, 4, 6 e 8: Voz de Villa-Lobos
5, 7 e 9 a 14: perdi a Diapason! Alguém me ajuda?

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