Tive um colega no saudoso Jornal da Tarde que costumava dizer: “escrever sobre quem a gente admira é a coisa mais fácil do mundo; escrever sobre quem a gente ama e idolatra é a coisa mais difícil”. Sentado na frente do computador para tentar botar pra fora algo sobre Maurizio Pollini (1942-2024), que nos deixou ontem, só posso concordar contigo, meu caro Eduardo. Pollini sempre esteve lá, desde o começo, meu big bang particular, quando o tempo e o universo nasceram. Se a chama da música foi acesa na minha vida por dois outros pianistas, Vladimir Horowitz e Glenn Gould, em um par de CDs que meu irmão trouxe de uma viagem a Nova York, Pollini foi o primeiro amor, o primeiro herói, um símbolo daquilo de mais belo e precioso que a humanidade produziu nesse rochedo que vaga pelo Sistema Solar. Se comecei a entender o que era o mundo pelas doces vozes de meus pais e irmãos me acalentando, foi com os discos de Pollini que comecei a entender o que era a música, esse Mistério de beleza e verdade que expressa aquilo que não se pode colocar em palavras (e, muitas vezes, também aquilo que se pode).
E, puxa, que sorte imensa poder passar o resto da vida navegando e mergulhando no oceano de gravações que maestro Pollini deixou, num arco que perfaz uns bons quatrocentos anos de música — grande artista que é — eu ia escrever “foi”, mas a verdade é que um ser iluminado como Pollini sempre “é”, nunca deixará de “ser” —, explorou um universo que foi do barroco a compositores do nosso tempo.

Uma vida e uma carreira marcadas por integridade artística, respeito aos compositores, generosidade para com os colegas e, dando corpo a tudo isso, uma humildade de alguém que compreendeu que a arte é aquilo que nos salva da barbárie, que nos dá asas e nos torna imortais. Quando Pollini tocava, não era sobre ele, era sobre a música. Uma lição tão essencial, tão básica, e também tão esquecida nesses tempos de likes, engajamentos e que tais.
Sem querer escorregar e fazer desse texto um detestável “eubituário”, conto que tive a sorte de vê-lo algumas vezes, em diferentes salas na capital alemã, ao longo de nove anos. Sempre, em todas elas, me pegava olhando em volta, para a Philharmonie enchendo aos pouquinhos, ou sentindo o cheiro das novíssimas poltronas das Pierre Boulez Saal, e pensando: cacete, vou ver o Pollini! Era sempre um sonho virando realidade. E foi sempre absolutamente excepcional.

Dito tudo isto, que gravação escolher para homenageá-lo? É quase como se perguntar “qual tijolo escolho para mostrar a beleza e a grandiosidade da Muralha da China” ou qualquer coisa que o valha. Resolvi seguir o coração e trazer as Quatro Baladas do mestre polonês. Se de alguma forma Chopin personifica em sua obra o que é o piano, a beleza e as possibilidades desse maravilhoso instrumento, Pollini também o faz com o estupendo repertório de gravações que deixou. Não existe maior testemunho do que se pode fazer com essas 88 teclas do que o legado fonográfico de Maurizio Pollini.
E aqui Pollini voa pelas harmonias chopinianas como um condor cruzando a Cordilheira dos Andes! Que maravilha são essas baladas, que coisa assombrosa é o pianismo desse homem, e quanta beleza, quanta poesia… Pollini mostra que a dicotomia entre técnica e sensibilidade é uma falácia, é um dilema que simplesmente não existe quando se trata dos grandes mestres. Sua técnica é um negócio de outro planeta, mas nada soa como virtuosismo superficial. A arquitetura de uma sonata de Beethoven, de uma Mazurka de Chopin ou de um Klavierstück de Stockhausen ganha, em suas mãos, uma expressão límpida e viva, prenhe de sentido e de verdade. Se existe aquilo que chamam de Deus, é com certeza Pollini que ele(a) escuta quando chega do trabalho e se senta em sua nuvem preferida para ouvir algo belo e esquecer que deu merda com essa tal de humanidade.
Grazie, maestro!
Frédéric Chopin (1810-1849)
1. Ballade No. 1 in G minor, Op. 23
2. Ballade No. 2 in F major, Op. 38
3. Ballade No. 3 in A flat major, Op. 47
4. Ballade No. 4 in F minor, Op. 52
5. Prelude Op. 45 in C sharp minor, No. 25
6. Fantasia in F minor, Op. 49
Maurizio Pollini, piano

Karlheinz


Maurizio Pollini faleceu hoje, dia 23 de março de 2024, aos 82 anos. Certamente, foi o pianista que mais ouvi tocar em meus 66 anos e o que maior prazer me causou. Meu pai começou tudo quando eu ainda era adolescente. Como esquecer da série de concertos de Mozart gravados por Pollini com Karl Böhm? Depois vieram seus imbatíveis Concertos para Piano de Brahms, a música moderna, as Sonatas de Schubert — sua Fantasia Wanderer… — as últimas Sonatas de Beethoven e depois a integral. E Debussy e Chopin. Eu não estou aqui para medir pianistas, mas não creio ter havido melhores do que S. Richter e Pollini. Ah, e como esquecer quando o vi em Londres? Como esquecer do discurso que minha mulher — uma muito talentosa e inteligente musicista — fez no intervalo, falando sobre como ele dava sentido a cada nota que tocava? O fato é que estou triste, apesar de termos registrados grandes momentos deste enorme artista. Jamais escreverei um RIP para ele, pois agora mesmo estou ouvindo estes CDs que ora posto. Não vou te deixar descansando, Maurizio. Esqueça.






IM-PER-DÍ-VEL !!!
IM-PER-DÍ-VEL !!! 
Ouvi este disco umas 4 vezes. Fiquei bem feliz de ouvi-lo, mas nada permaneceu na minha cabeça. Nada. Parece ser o CD ideal para se pensar em outra coisa sem ser muito incomodado. Não pensem que isto é uma critica. Se fosse, não o teria ouvido tantas vezes. O grande Georg Tintner não se importa em “chafurdar na névoa impressionista”. Ele mostra um Delius muito lírico e sutil, com harmonias lindas que nos fazem sonhar ou dormir. O concerto para violino é, como diz Tanya Tintner no encarte, uma espécie de solilóquio meditativo para violino e orquestra que deveria soar como “uma improvisação maravilhosa”. É bastante cansativo para o instrumentista, pois o violinista tem que tocar durante a maior parte da peça, mas não é uma demonstração de virtuosismo, mas sim de musicalidade. Philippe Djokic toca a obra de modo convincente.






Além de ser um extraordinário maestro, Leonard Slatkin é uma subcelebridade do twitter (ou X). Ele costuma divulgar as capas mais horrendas de discos de vários gêneros. Também conta piadas e comemora encontros com os maiores músicos, coisa normal em sua vida. E, por trás de tantos interesses e alegria esconde-se um espetacular artista. Haitink e Mravinsky estabeleceram padrões de referência tão elevados para as gravações desta sinfonia que apenas uma leitura excepcional ou que apresente a obra sob uma nova luz válida pode esperar competir. Slatkin não bate os citados, mas chega bem próximo. As partes mais tranquilas estão lindas, mas aquelas que são mais febris ou urgentes são subestimadas. Vale a audição, sem dúvida. Eu curto muito este CD.

O número de vezes que Bernard Haitink gravou a 4ª Sinfonia de Bruckner com diversas orquestras… Garanto que ele gravou em Viena, Londres (esta aqui, ao vivo) e Amsterdam (claro) e que deve ter apresentado a obra pela Europa inteira. Obviamente, era um especialista no compositor e ele novamente não nos decepciona, realizando uma gravação redonda e bela, apesar de mais branda que o habitual. Também, este é um registro quando o grande maestro já tinha 82 anos. O primeiro movimento está sensacional, mas depois parece que a coisa cai um pouco. Contribui para isso o fato de que achei o som meio ruim. O som está seco e os instrumentos (particularmente as madeiras, percussão e cordas graves) soam abafados. O resultado está longe do “som sensacional” que o LSO Live costuma apresentar. Um dos prazeres da música de Bruckner é o grandioso e visceral som orquestral que sua música atinge. Esta versão soa estranha. Mas é Haitink, né?
IM-PER-DÍ-VEL !!!













Este é um álbum quádruplo com um interessante cantinho do repertório bachiano. Há as Cantatas acima e as Missas Breves. A qualidade do registro de Herreweghe faz sonhar. O homem é muuuuuito bom! Excelentes cantatas, compreensiva regência, grandes cantores, orquestra perfeita.

Por algum motivo, até agora nada tínhamos postado de nenhum dos Scarlattis. Neste belo CD — bastante tranquilo para o padrão de Domenico –, o pianoforte utilizado por Aline Zilberajch foi fabricado na mesma época em que Scarlatti vivia, por um elemento chamado Bartolomeo Cristofori, que é considerado o inventor do piano. O encarte do CD contém uma interessante descrição do processo de criação e fabricação do instrumento, mas não nos diz se Domenico estava apaixonado por Maria Bárbara… Reconheço que até então nunca tinha ouvido falar em Aline Zilberajch, mas fiquei surpreso ao conhecer seu currículo. Sua especialidade é exatamente este período da história da música, séculos XVII e XVIII, e é uma das principais intérpretes deste instrumento. Ah, para alegria de Clara Schumann, é uma das grandes intérpretes dos seus amados Rameau, Couperin, entre outros tantos compositores franceses que viveram entre estes séculos.

IM-PER-DÍ-VEL !!!










Os seis Concerti Grossi Op. 3 de Handel nunca sofreram uma superexposição no catálogo de CDs e, de fato, a atenção consideravelmente maior dada ao Op. 6 é justificada. Com exceção do Concerto nº 4, estes são exemplos bastante comuns da habilidade de Handel como melodista. Não me interpretem mal, esta não é música de segunda categoria, mas é menor do que as do habitual Handel, o de primeira categoria. Ao contrário das obras posteriores do gênero, a maioria delas dá um papel solo dominante ao oboé (ou oboés) e, o que não é incomum para Handel, ele às vezes recicla material usado em outros lugares. O Concerto nº 4 é a única obra deste grupo que realmente se destaca das demais, desde a abertura francesa. Aqui temos não somente um gostinho do trabalho de um mestre talentoso, mas de um compositor superior. Em tudo isso, a Northern Sinfonia vai muito bem. É certamente agradável de ouvir, mas dá vontade de ouvir aquele outro Handel.

Estava caminhando na rua quando este CD começou a tocar. Logo pensei, ih, fusion, vou detestar. Mas depois algo de enorme categoria entrou pelos meus ouvidos. Parecia o time do Inter treinado por Coudet, nada da grossura gremista.
IM-PER-DÍ-VEL !!!





É um excelente CD, tão bom quanto aquele que postei dia desses com Andrew Manze e Richard Egarr. Acho que a dupla nipo-americana tem mais humor que Manze-Egarr. Há falhas em duas faixas (arquivos) da primeira sonata do CD — elas terminam abruptamente –, mas não tenho como fazer a correção, pois encontrei-as na rede. Christie é o regente, criador e dono do excelente conjunto Les Arts Florissants e Kurosaki seu primeiro violinista. Hiro Kurosaki traz uma técnica poderosa e bom senso musical às sonatas para violino de Handel. Na primeira Sonata deste CD, a HWV372, ele toca o Adagio de abertura de maneira suave e doce, e traz uma articulação esplendidamente nítida ao Allegro que se segue, com suas múltiplas paradas, e é igualmente enérgico no final. Admirei, também, a cantilena expressiva no movimento de abertura da HWV 364 e, ainda que um pouco ofegante, a execução rápida e vistosa do segundo movimento e também a execução suave e sutil da giga final. Um belo trabalho.