Repostagem apressada para homenagear o grande instrumentista Jack DeJohnette (1942-2025), aqui em um de seus momentos mais vanguardistas e, para mim, um dos mais brilhantes discos ao vivo dos últimos 30 anos (Pleyel)
Invisible Nature é um álbum ao vivo do saxofonista inglês John Surman e do baterista norte-americano Jack DeJohnette, gravado em Tampere (Finlândia) e Berlim em 2000. Quem segue o PQP sabe de minha tara por Surman. Bem, há cinco décadas, John e Jack encontram-se em Londres para jams regulares. Seu primeiro disco como dupla, The Amazing Adventures of Simon Simon, definiu um estilo espaçoso e aberto, quase de free jazz.
Os saxofones e o clarinete de Surman sempre tiveram um tom leve, de pássaro. Ele vibra, tece e mergulha no ar. DeJohnette é um baterista que usa suas habilidades com bom gosto e discrição. Ele se acomoda tranquilamente em Invisible Nature, até realiza isto com certo abandono em músicas como Rising Tide e Outback Spirits, ao lado das explorações proporcionalmente enérgicas de Surman. O CD oferece uma variedade idiossincrática de sons e abordagens. As melodias variam de sussurrantes a exploratórias, e a eletrônica expande a paleta de cada músico. Estas performances demonstram que DeJohnette e Surman têm um relacionamento intuitivo e aventureiro. Ao final de Fair Trade, Surman fala no fantastic Jack DeJohnette, Não há como não concordar. Surman também é.
(Relendo o que escrevi, acho que sugeri que o CD tem muita coisa eletrônica. É falso. Quase tudo é acústico).
.: interlúdio :. John Surman & Jack DeJohnette: Invisible Nature (ao vivo)
1 Mysterium 15:57
2 Rising Tide 9:32
3 Outback Spirits 12:30
4 Underground Movement 9:45
5 Ganges Groove 6:36
6 Fair Trade 11:21
7 Song For World Forgiveness 9:29
John Surman – soprano and baritone saxophones, bass clarinet, synthesizers
Jack DeJohnette – drums, electronic percussion, piano
Entre 1899 e 1903, Béla Bartók estudou na Real Academia de Música de Budapeste. Mas o principal aprendizado foi de 1908 a 1914 quando se dedicou a estudar e coletar melodias folclóricas húngaras, romenas e de vários outros povos da Europa do leste. A outra grande influência de Bartók, especialmente para sua música orquestral, foi Claude Debussy: menos no que se refere à busca por sonoridades únicas (mas também um pouco nisso) e sobretudo pela quebra que Debussy faz na narratividade musical da música romântica. O tipo de desenrolar não linear de cenas como no Fauno, em La Mer e nos Noturnos, que buscam evitar os desenvolvimentos grandiosos rumos aos céus tão típicos da música austro-germânica (Beethoven, Wagner, Bruckner, Mahler, Strauss). Isso tudo foi absorvido tanto por Bartók como por Stravinsky, lembrando aliás que estes dois nasceram a um ano de distância. Então há diversos momentos no Mandarim de Bartók em que as viradas e paradinhas orquestrais nos fazem crer que estamos ouvindo algo de Debussy ou de Stravinsky.
Nesta gravação, com o compositor Bruno Maderna regendo a orquestra de Mônaco, não temos tutti orquestrais tão impactantes quanto os de Boulez/Chicago (aqui), Rattle/Birmingham (aqui) ou Salonen/Los Angeles (aqui), o destaque aqui fica com os vários momentos solos dos sopros: oboé, fagote… Além das percussões e outros detalhes da composição do jovem Bartók que, aliás, gerou um pequeno escândalo na época pela temátca escandalosa que envolvia prostituição e crimes.
Na Sonata para Dois Pianos e Percussão, o estilo é mais fortemente característico de Bartók. Composta em 1937 e estreada em 38 pelo compositor e sua esposa como pianistas – portanto, doze anos após a estreia do Mandarim que foi composto entre 1918 e 24 -, ela tem elementos já desenvolvidos em obras como Out of doors (1926, aqui) e os Concertos para Piano nº 1 e 2 (1926 e 1931, aqui), como os momentos percussivos dos pianos e o uso de clusters (várias notas próximas tocadas ao mesmo tempo). A pianista Geneviève Joy era uma especialista na música do século XX: basta dizer que ela estreou a belíssima sonata para piano de Henri Dutilleux.
Béla Bartók (1881-1945):
1. O Mandarim Miraculoso
2-4. Sonata para dois pianos e percussão
5. Suíte de Danças (Maderna, Monte Carlo / Joy, Robin, Casadesus, Drouet)
Orchestre National de l’Opéra de Monte-Carlo, Bruno Maderna (faixas 1, 5)
Pianos: Geneviève Joy, Jacqueline Robin (faixas 3-5)
Percussão: Jean-Claude Casadesus, Jean-Pierre Drouet (faixas 3-5)
Ninguém é tão pessoal quanto Scarlatti: as únicas regras que ele obedece são as suas próprias. Chegando em Portugal com 34 anos, ele era ainda um compositor convencional à sombra do seu famoso pai, mas já reconhecido como um virtuose excepcional do cravo e do órgão. Mas a descoberta de novas culturas teve sobre ele um efeito renovador… Nas suas sonatas, tudo pode se confrontar e se misturar. Dança, retórica, teatro, exotismo, prática instrumental, tradições eruditas e populares se articulam e dão origem a simbioses e experiências.
(Adaptado das contracapas dos discos)
Giuseppe Domenico Scarlatti (Nápoles, 26 de outubro de 1685 — Madrid, 23 de julho de 1757) nascia há exatos 340 anos, alguns meses após os nascimentos de J.S. Bach e de G.F. Händel em terras alemãs. É uma coincidência impressionante o nascimento desses três compositores que, entre outras obras, tanto escreveram para os instrumentos de teclado, dos quais o cravo tinha a predominância em ambientes seculares e o órgão, nas igrejas. Então celebremos hoje a vida de Domenico, vida longa para a nossa sorte, pois ao contrário de tantos gênios precoces (Mozart, Chopin, Scriabin) ele produziu a maior parte de sua obra depois dos 40 anos e provavelmente mesmo depois dos 60.
O cravista Pierre Hantaï é um velho conhecido do pessoal aqui do blog, principalmente pelas suas gravações de J.S. Bach (aqui, aqui, aqui, entre muitos outros CDs). Aqui, como em outras gravações, ele utiliza instrumentos de sonoridades um tanto delicadas, cheias de nuances às vezes suaves, diferentes dos cravos que se ouvia mais nas décadas de 1950 a 80, quando o som do instrumento era mais estridente e combinava mais com trilhas de filmes de terror do que com melodias folclóricas espanholas e napolitanas. Não dá pra dar todo o crédito ao instrumentista francês, é claro, pois a preparação do instrumento envolveu outras pessoas: nas últimas décadas os afinadores e outros técnicos especializados passaram a conhecer muito melhor esses instrumentos após o seu ocaso de cerca de 200 anos.
Uma curiosidade sobre a música de Scarlatti é o quanto ela, com diversas melodias de caráter popular, era admirada por Béla Bartók que, como sabemos, além de compositor era também um dedicado estudioso de expressões musicais folclóricas. Como um pintor que escolhe expor os seus quadros ao lado daqueles de poucos mestres selecionados a dedo, quando Bartók tocava piano em público, era quase certo que algumas sonatas de Scarlatti estariam presentes, como relata a biografia Béla Bartók, por József Ujfalussy:
One striking feature of his recitals is that the works performed were, apart from his own compositions and those of Kodaly, mainly sonatas by the eighteenth-century composer, Scarlatti, and selections from Debussy’s Preludes. (…)
In 1911, he played works by Scarlatti, Couperin and Rameau at the concerts organized by UMZE; and in 1912 he wrote an article for Zenekdzlony on ‘the performance of works written for the clavecin’.
The concert he gave in Szeged [Hungary] in November 1921 (…) At this concert he played works by Scarlatti and Kodaly and also some of his own songs and piano compositions.
Domenico Scarlatti (1685-1757):
100 Sonatas (6 CDs)
Pierre Hantaï, cravo
Os napolitanos Farinelli (centro) e Scarlatti (direita) segurando partituras na corte de Madrid, pelo pintor napolitano Jacopo Amigoni (1685-1752)
Pleyel
Quase não há algum aspecto da vida espanhola, da música e dança popular espanhola, que não tenha encontrado seu lugar no microcosmo que Scarlatti criou com suas sonatas.
Domenico Scarlatti nasceu em 1685, o mesmo ano em que nasceram Bach e Handel, dois gigantes da música barroca. O pai de Domenico era um famoso compositor napolitano de óperas e Domenico seguiu os passos do pai, produzindo o mesmo tipo de música que ele. Mas, Domenico era um ás do teclado, especialmente do cravo. De 1720 em diante sua vida se entrelaçou com a Corte Portuguesa e ele tornou-se professor de música da princesa Maria Bárbara de Bragança, que se casou com o príncipe que se tornaria o rei Ferdinando IV de Espanha. De Portugal para Espanha, do fado para o flamenco, calles e castanholas, tudo combinando para a criação de 550 ou mais peças maravilhosas para instrumentos de teclado, que desde suas criações fazem parte do repertório de grandes cravistas e pianistas.
Muzio Clementi editou 10 dessas sonatas em 1791 (ano da morte de Mozart, Beethoven tinha 21 anos e ainda estava morando em Bonn). Carl Czerny (que foi aluno de Beethoven), Brahms e especialmente Chopin tinham grande admiração pelas sonatas de Scarlatti.
Horowitz, Ralph Kirkpatrick, Michelangeli são alguns nomes de uma geração de tecladistas que sempre mantiveram, cada um com seu talento e forte personalidade, vivo o interesse pela obra de Domenico. Eu admiro imensamente as gravações feitas na década de 1990 por Mikhail Pletnev (generosa seleção de 31 sonatas) e Ivo Pogorelich (15 belíssimas sonatas) que me deixaram Scarlatti-dependente. Essas e as (poucas, pena!) sonatas gravadas por Perahia no seu disco com obras de Handel e Scarlatti, outro disco antológico. Passei muito tempo ouvindo esses discos, de novo e de novo. Identificar as sonatas que aparecem em duas (ou mais) dessas gravações é uma diversão muito prazerosa.
Mas, hoje é dia de Alberto Urroz, o artista que escolhi para a postagem, parte da homenagem e a comemoração pelos 340 anos de nascimento do grande Domenico Scarlatti. Isso porque decidi buscar entre os lançamentos mais recentes gravações que exibissem um contínuo interesse pela obra dele e que mostrassem que as novas gerações de intérpretes estão a altura das grandezas dos intérpretes do passado, mesmo que recente.
Urroz dando um ‘test drive’ em um grand da coleção de pianos do PQP Bach Coop.
Escolhi este particular disco do pianista Alberto Urroz por vários motivos. O disco gravado pelo selo espanhol lbs Classical, foi gravado no Auditório Manuel de Falla, em Granada, entre 2 e 4 de setembro de 2017 e tem produção impecável. Som espetacular e livreto muito informativo em espanhol e inglês. A escolha cuidadosa das sonatas forma um conjunto muito representativo. As Sonatas K. 9, em ré menor, K. 96, em ré maior, K. 8, em sol menor, K. 213, em ré menor, aparecem também no álbum de Mikhail Pletnev e eu as amo. Dois exemplos de ‘pares de sonatas’: K. 208 e 209, em lá maior, e K. 132 e 133, em dó maior. A Sonata em lá maior, K. 208 é outras dessas figurinhas carimbadas, linda, é introspectiva e tímida, enquanto sua ‘irmã’, K. 209, é extrovertida, toda saída. Uma deve ter seguido para o convento enquanto a outra vivia nas ruas e feiras… Se você já é fã da obra de Scarlatti, vai se deliciar com o disco. Se você ainda não tem tanta familiaridade assim com ela, encontrará aqui um bom lugar para começar, uma oportunidade para travar conhecimento com música que vai lhe encantar por toda a vida.
Alberto Urroz’s interpretations of Scarlatti’s piano sonatas have been praised for their color, movement, and rhythmic sense, which are informed by dance and subtle variations in timbre.
As the artistic director of the Mendigorria International Music Festival in Spain, pianist Alberto Urroz has produced and created multidisciplinary programs featuring music, art, and dance. I mention this only because color and movement inform his Scarlatti playing, meaning that his rhythmic sense is informed by dance, and he discreetly varies his timbre to imbue repeated phrases with variety and to underline the composer’s tangy dissonances. […] In all, there’s lots of engaging music-making afoot, and if you share my weakness for investigating Scarlatti piano collections, give this release a spin.
I gave even more than one spin…
Aproveite!
René Denon
Tri-gênios da música barroca! Eles compravam suas perucas do mesmo ‘peluquero’…
Para honrar a memória e celebrar o legado extraordinário de Arthur Moreira Lima, um dos maiores brasileiros de todos os tempos, publicaremos a integral da coleção Meu Piano/Três Séculos de Música para Piano – seu testamento musical – de 16 de julho, seu 85° aniversário, até 30 de outubro de 2025, primeiro aniversário de seu falecimento. Esta é a oitava das onze partes de nossa eulogia ao gigante.
A relativa linearidade da trajetória de Arthur como estudante e pianista de concerto – da juventude no Rio nos anos 40 e 50, passando pelos períodos formativos em Paris e Moscou nos 60, até a década de 70, vivida mormente em turnês com bases em Viena e Barcelona – até que tornou fácil minha tarefa de contar suas muitas proezas ao longo das sete postagens anteriores. Como se diz nas conversas de boteco:
– Até aqui, tudo bem.
O que, sim, me tirou o sono desde que comecei essa série foi a perspectiva de ter que lhes explicar como um multilaureado pianista de concerto, que praticamente tinha cosidas a si a casaca e a gravata-borboleta, mergulhou num mundo povoado por chorões e bardos nordestinos, fardado da inseparável jaqueta de couro de alce finlandês, que usou quase até a desintegração completa.
Ei-la.
Esse longo arco, que começou com o horror de uma mestra – Lúcia Branco, mortificada com o conjunto “Filhos da Pauta”, que tinha Arthur como pianeiro e seus colegas de Colégio Militar a animarem aniversários com boleros e sambas-canção -, terminou com o muxoxo de outro mestre: Rudolf Kehrer, um ardente fã do ex-pupilo que, não obstante, fez saber através de amigos em comum da decepção com os rumos que sua carreira tomara.
Foto totalmente fora de contexto, mas não perderíamos a oportunidade de compartilhar esse registro maravilhoso de Arthurzinho e Nelsim tocando a quatro mãos e, parece, num concurso de semblante mais blasé.
Não que Arthur se importasse: morando na Europa e exasperado pela rotina de turnês, contemplou longamente a ideia de dar um cavalo de pau na sua vida. Sua guinada foi catalisada pela morte precoce de um grande amigo, Cláudio Mauriz, seu colega no Liceu Francês e ex-goleiro do Santos Futebol Clube, que mal conseguira rever entre as andanças de ambos pelo globo. De que lhe valiam suas conquistas, pensava, se não conseguia estar perto dos que mais lhe importavam? Enfim decidira: não só voltaria ao Brasil, como também começaria, aos poucos, a deixar a doideira da rotina de concertista internacional para embarcar em outras doideiras.
Em pouco tempo, enquanto colhia sucessos plantados com a jaqueta de alce e a calçar mocassins, já tinha que se defender assim da previsível chuva de tomates críticos:
O músico não pode ficar restrito a um instrumento, a um gênero musical. Ele tem de errar. Tem de ensaiar, tentar atingir novos universos. O essencial não é brilhar, mas tentar e fazer”
Não faltaram tentativas, e a elas – tomates à parte – tampouco faltou brilho. Arthur estreou no choro em grandíssimo estilo, com o Época de Ouro, conjunto fundado por seu ídolo, Jacob do Bandolim. Mario de Aratanha, fundador da Kuarup Discos, assim nos conta em suas notas ao LP “Chorando Baixinho”:
O envolvimento de Arthur Moreira Lima com a música popular carioca foi gradual, e partiu de seu amor pelo choro e de seus antológicos álbuns dedicados a Ernesto Nazareth. O sucesso que se seguiu levou Albino Pinheiro [um dos fundadores da Banda de Ipanema] a convidá-lo para o famoso Seis e Meia, em setembro de 77. Lá, no [Teatro] João Caetano, Arthur tocou pela primeira vez com um regional: duas músicas com o conjunto do Dadinho, que ele mesmo havia trazido de Santos para a Praça Tiradentes.
Em maio de 78, recém chegado da Europa, Arthur topou fazer seu primeiro show só de música popular, ao lado do conjunto Galo Preto, reforçado na época pelo [violão de] 7 cordas de Raphael Rabello, o Rafa. Foi no MAM do Rio, sob a direção do Paulo Moura, quando ele lançou o Choro de Mãe do Wagner Tiso, tocou Tom e Luizinho Eça, e ‘chorou’ à vontade durante cinco noites. Numa esticada na Churrascaria Jardim, Arthur desabafou seu grande sonho: tocar com os maiores cobrões do choro:
– Imagina eu tocando com o Abel Ferreira? E com o Copinha? E o Época de Ouro em peso lá atrás, com o Dino na baixaria? Hein? Hein? – e voltou a atacar uma nova fatia de maminha de alcatra.
[…] E tudo deu certo. Além de Abel, Copinha e o Época de Ouro, chamou-se o Zé da Velha. No último momento, o Ronaldo do Época de Ouro ficou com hepatite, e o Jorginho então chamou o Joel Nascimento para os solos de bandolim. O Airton Barbosa reuniu o pessoal na casa da Maliza, tia do Arthur, na Avenida Atlântica, e os ensaios viraram roda de choro em volta do piano de sarau. Foi um espetáculo só […] E o sonho virou disco.”
Treinado, dir-se-ia adestrado, desde os tempos de calças curtas a seguir estritamente a música depositada em pautas, Arthur via-se compelido a reinventar-se fora delas, tanto para acompanhar músicos que nunca as precisaram seguir, como para também improvisar com eles. Nesse afã de encontrar um caminho do meio entre a música posta em papel e ouvida em teatros e tudo o mais que havia fora deles, ele soube exatamente a quem recorrer.
Radamés Gnattali, um dos músicos brasileiros mais versáteis de todos os tempos, era dotado duma capacidade única de transitar entre universos e de aproximá-los, com harmonia e orquestração refinadíssimas, de forma sofisticada e inovadora. Tremendo pianista, que Arthur sempre colocou na lista dos maiores que conheceu, Gnattali tivera planos de se tornar concertista, mas foi premido a ganhar o pão como operário da Música. Despendeu décadas como maestro, pianista e prolífico arranjador para rádio e televisão e mostrou que o samba e o choro podiam ser material de música de concerto cheia de verve e elegância.
Para aquela traiçoeira navegação por universos musicais ditos dicotômicos não poderia haver farol melhor. O veterano, por sua vez, ao ver achegar-se aquele virtuose que conhecia desde menino e se enfadara com a vida que ele sonhara para si mesmo, viu a oportunidade de realizar através dele muito do melhor que imaginou para o piano. Sabendo do imenso amor do ex-moscovita por Noel Rosa (ele chegou a declarar ao Pasquim que, se fosse mulher e vivesse no tempo dele, estariam feitos), dedicou-lhe um concerto baseado em seus temas favoritos do mestre de Vila Isabel, que já lhes oferecemos aqui. A morte de Radamés, em 1988, reviveu em Arthur os sentimentos de orfandade que tanto lhe marcaram a infância. Crendo firmemente que jamais fora grato o bastante ao falecido, e sabedor do quão rapidamente o Brasil esquecia seus gênios, teve urgência em lhe fazer um tributo. Em tempo recorde, sob os auspícios da então pujante Varig, viria a público a homenagem ao demiurgo recém-chegado ao céu:
O improvável encontro com Marcus Pereira, que levou à gravação dos álbuns nazarethianos e todos seus desdobramentos, levaria a outro, ainda menos plausível. Dessa vez, foi Marcus quem fez as honras e lhe apresentou o bardo Elomar, o raríssimo combo de músico, poeta e criador de bodes de quem, obviamente, tornou-se instantaneamente amigo. Logo no primeiro encontro, Elomar – doravante “Bodão”, que era como todos amigos o chamavam – assegurou ao pianista que sua música não tinha “nada dessa suvaqueira de bossa nova”. E não tinha mesmo: Arthur achou-a quase medieval e teve a sacada de acompanhá-la ao cravo, que tomou emprestado ao cravista e luthier Roberto de Regina. Não tardou para a parceria, que tantos diriam esdrúxula como siri com Toddy, virasse show e álbum:
Arthur e Bodão planejavam algo ainda maior e, antes que pudessem acionar seu mentor, viram-se devastados pela morte de Marcus Pereira. Enquanto secavam o choro, uniram-se a dois outros virtuoses – Paulo Moura e Heraldo do Monte – e lançaram seu tributo a Marcus na forma do ConSertão, que virou show e também um álbum que vocês já ouviram aqui no PQP.
Arthur é ótimo; o que estraga são os amigos.
Se até críticos que normalmente o reverenciavam, como José Tinhorão, autor do aforismo acima, torciam o nariz ao verem o Arthur de Jaqueta Velha a tocar “André de Sapato Novo“, que diriam aqueles que desde sempre o desancaram? Mesmo alguns fãs rezavam segundo o adágio corrente, o de que Arthur era tão só um ex-pianista que buscara refúgio no ecletismo para disfarçar sua incapacidade de atender aos rigores do pianismo de concerto.
Deixarei que o defenda Luis Fernando Veríssimo, que assim escreveu para o álbum-tributo a Radamés Gnattali:
O eclético, coitado, seria o cara obrigado a se diminuir, dispersando o seu talento. A versatilidade seria a marca da concessão, da rendição ao mercado, do abandono da seriedade. Mesmo os que não são ecléticos por necessidade, mas por gosto, sofrem com este tipo de preconceito. Uma produção musical muito abrangente – segundo o preconceito – só é feita com o sacrificio do rigor que separa o verdadeiro artista do menos verdadeiro. Incrivelmente, o academicismo brasileiro ainda não decidiu se Villa-Lobos, por ter experimentado tanto com formas populares, foi um grande compositor ou apenas um bom gigolô do exótico. Nunca se ouviu discussão parecida sobre o que Béla Bartók fez com o folclore da terra dele. Até o Arthur Moreira Lima é discutido. Haveria algo de errado, de não muito respeitável, com tanta abertura para tantas formas de prazer musical. No Brasil, depois de dizer ‘eclético’ você precisa acrescentar: ‘no bom sentido. Para ficar claro que é elogio.”
Não que nosso eclético herói, que sempre sonhou grande, se importasse com isso. Pelo contrário: adotou com orgulho o epíteto cunhado por Verissimo e, como bom gigolô do exótico, foi mostrar sua surrada jaqueta de alce para as massas.
ARTHUR MOREIRA LIMA – MEU PIANO/TRÊS SÉCULOS DE MÚSICA PARA PIANO Coleção publicada pela Editora Caras entre 1998-99, em 41 volumes Idealizada por Arthur Moreira Lima Direção artística de Arthur Moreira Lima e Rosana Martins Moreira Lima
Volume 20: CLÁSSICOS FAVORITOS IV/MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
José Gomes “ZEQUINHA” DE ABREU (1880-1935)
1 – Tico-Tico no Fubá
Eduardo José Alves SOUTO (1882-1942)
2- O Despertar da Montanha
Alfredo da Rocha Vianna Filho, dito PIXINGUINHA (1897-1973)
3 – Lamento
4 – Carinhoso
Antônio Carlos “TOM” Brasileiro de Almeida JOBIM (1927-1994)
5 – Luiza
Laércio de FREITAS (1941-2024)
6 – Teclas e Dedos
Francisco “CHICO” BUARQUE DE HOLLANDA (1944) Marcus VINÍCIUS da Cruz de Mello MORAES (1913-1980)
7 – Valsinha
ARISTIDES Manuel BORGES (1884-1946)
8 – Subindo ao Céu
EROTIDES Jonas de CAMPOS Neves (1896-1945) 9 – Ave Maria
Joaquim Antônio da Silva CALLADO (1848-1880)
10 – Flor Amorosa
Henrique Alves de MESQUITA (1830-1906)
11 – La Brésilienne
Francisca Edviges Neves “CHIQUINHA” GONZAGA (1847-1935)
12 – Gaúcho
Paulo MOURA (1932-2010)
13 – Mão Esquerda
Heraldo do MONTE (1935)
14 – Chuva Morna
Arthur Moreira Lima, piano
Faixas 1, 6, 7 & 9: Gravações: American Institute of Music, Nova York, Estados Unidos, 1984. Produção e engenharia de som: Judith Sherman Coordenação geral: Jay K. Hoffman Coordenação da produção: Manuel Luiz da Silva Piano: Steinway & Sons, Hamburgo
Faixas 2, 8 & 10-14: Gravações: Sala Cecília Meirelles, Rio de Janeiro, Brasil, 1980 e 1982 Piano: Steinway & Sons, Nova York
Faixa 3: Gravação: Multistudios, Rio de Janeiro, Brasil, 1983.
Piano: Steinway & Sons, Nova York.
Faixas 4 & 5: Gravação: St. Philip’s Church, Londres, Reino Unido, 1998. Engenharia de som: Peter Nicholls Piano: Steinway & Sons, Hamburgo
Produção, edição e masterização: Rosana Martins Moreira Lima, na Cia. de Áudio, São Paulo, 1998.
Oito Estudos em Ritmo de Choro 2 – Alma Brasileira
3 – Noturno (com Joel Nascimento, bandolim)
4 – Capoeirando
5 – Duas Contas (com Zeca Assumpção, contrabaixo)
6 – Encontro com a Saudade (com Zeca Assumpção, contrabaixo)
7 – Guriatan de Coqueiro
8 – Por Quê?
9 – Nova Ilusão
Brasiliana nº 8 para dois pianos
13 – Schottisch
14 – Valsa
15 – Choro
Arthur Moreira Lima, piano
(nas faixas 13-15, Arthur toca as partes dos dois pianos)
Gravação: Master Studios, Rio de Janeiro, Brasil, janeiro de 1989.
Produção musical: João Pedro Borges Engenheiro de som: Carlos Eduardo de Andrade (Carlão) Técnicos de gravação: Mario Roberto Doria Possollo (Leco) e Luiz Felipe (Mequinho) Afinação, regulagem e afinação dos Pianos: Olivio Valarini Edição musical: Carlos Eduardo de Andrade (Carlão) e João Pedro Borges Supervisão do projeto: Lúcio Ricardo Marques da Silva Idealização, direção artística e produção executiva: Arthur Moreira Lima Coordenação da produção: Manuel Luis da Silva Pianos: Steinway & Sons, Hamburgo Produção, edição e masterização: Rosana Martins Moreira Lima, na Cia. de Áudio, São Paulo, 1998
Volume 30: HINO NACIONAL BRASILEIRO/BRAZÍLIO ITIBERÊ
BRASÍLIO ITIBERÊ da Cunha (1846-1913)
01 – A Sertaneja, Fantasia Característica, Op. 15
02 – Poème d’Amour, Fantaisie, Op. 22
03 – Étude de Concert d’Après C.P.E. Bach
04 – Caprices à La Mazurka, Op. 32 nº 3
05 – Une Larme, Méditation, Op. 19
06 – Grande Mazurka de Salão, Op. 41
07 – A Serrana, Fantasia Característica
08 – La Dahabieh (La Gondole du Nil), Barcarolle de la Suite “Nuits Orientales”, Op. 27
Louis Moreau GOTTSCHALK (1829-1869)
09 – Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro, para piano
Arthur Moreira Lima, piano
Gravação: Teatro Álvaro de Carvalho, Florianópolis, Brasil, 1995
Piano: Steinway & Sons, Hamburgo
Engenheiro de Som: Carlos Eduardo de Andrade (Carlão)
Idealização do projeto: Rafael Greca de Macedo
Direção artística e produção executiva: Arthur Moreira Lima
Produção musical e supervisão da gravação: Rosana Martins Moreira Lima
Supervisão do projeto: Geraldo Pougy de Rezende Martins
Coordenação da produção: Manuel Luis da Silva
Edição e masterização: Estúdio Visom (Rio de Janeiro) por Rosana Martins Moreira Lima e Rodrigo Lopes
Masterização final: Estúdio Mondo di Cromo (São Paulo) por Luiz Ferreira e Vanderlei Quintino
Volume 35: CLÁSSICOS FAVORITOS VIII – VALSAS BRASILEIRAS
Zequinha de Abreu
Arranjo de Arthur Moreira Lima
1 – Branca
Alberto MARINO (1902-1967) Arranjo de Laércio de Freitas
2 – Rapaziada do Brás
Ernesto Júlio de NAZARETH (1863-1934)
3 – Epônina
Gravação: St. Philip’s Church, Londres, Reino Unido, 1998. Engenharia de som: Peter Nicholls Piano: Steinway & Sons, Hamburgo Produção, edição e masterização: Rosana Martins Moreira Lima, na Cia. de Áudio, São Paulo, 1998.
Francisco MIGNONE (1897-1986)
Doze Valsas de Esquina, para piano
4 – Nº 1 em Dó menor: Soturno e seresteiro
5 – Nº 2 em Mi bemol menor: Lento e mavioso
6 – Nº 3 em Lá menor: Com entusiasmo
7 – Nº 4 em Si bemol menor: Vagaroso e seresteiro
8 – Nº 5 em Mi menor: Cantando, e com naturalidade
9 – Nº 6 em Fá sustenido menor: Tempo de valsa movimentada
10 – Nº 7 em Sol menor: Moderadamente
11 – Nº 8 em Dó sustenido menor: Tempo de valsa caipira
12 – Nº 9 em Lá bemol menor: Andantino mosso
13 – Nº 10 em Si menor: Lento, romântico e contemplativo
14 – Nº 11 em Ré menor: Moderato
15 – Nº 12 em Fá menor: Moderato – Vivo
Gravação: Sala Cecília Meireles, Rio de Janeiro, Brasil, julho de 1980 (valsas nos. 1, 2, 7, 8 & 12) & janeiro de 1982 Engenheiro de gravação e edição: Carlos Fontenelle Assessoria acústica: Américo Brito Produção musical: João Pedro Borges Assistência da direção: Janine Houard Assistência da gravação: Homero Moraes Assistência da produção: Heloisa Freire, Paulo Barbosa e Grace Elizabeth Produção executiva e direção geral: Mario de Aratanha
“8ª parte da entrevista do pianista Arthur Moreira Lima a Alexandre Dias, em que ele abordou os seguintes tópicos: LP “Com licença”, e os shows de lançamento por várias cidades do Brasil; LP “De Repente”; sua amizade com Adolpho Bloch o programa de TV “Um toque de classe”, que ele apresentou na Manchete; sua ligação com Raphael Rabello; o show “O pescador de pérolas”, com Ney Matogrosso; os 3 discos de Villa-Lobos, de 1988; suas gravações que ele gosta reouvir; as diferenças entre as gravações de Ernesto Nazareth que ele fez em 1975 e 1982; as diferenças entre gravar um disco e tocar um recital ao vivo; os 8 Estudos em ritmo de choro, de Radamés Gnattali, que ele gravou no final da década de 1980″
Em homenagem a Fluminense Moreira Lima, seguimos com o álbum de figurinhas dos campeões da Copa Rio de 1952. Eis o meia-esquerda Orlando de Azevedo Viana, o Orlando Pingo de Ouro (1923-2004).
Vocês pensam que a lua é de queijo, que o PQP é a fila da Disney, que a vida é um morango? Pois fiquem sabendo que não é nada disso, mas que hoje postamos dois CDs, ambos bastante bons de um período que se pode chamar rigorosamente de “clássico”. Postagens coerentes uma com a outra, uma raridade em nosso blog.
O polonês Blechacz é um jovem pianista — nasceu em 1985 — que é bom pra caralho e que está cheio de gravações na DG. Sua especialidade é Chopin, mas aqui ele dá um show alhures. Muito bom CD!
Haydn / Beethoven / Mozart: Sonatas para Piano (Blechacz)
Franz Joseph Haydn (1732 – 1809)
Piano Sonata in E flat, H.XVI No.52 1) 1. Allegro [7:32]
2) 2. Adagio [7:07]
3) 3. Finale (Presto) [5:30]
Ludwig van Beethoven (1770 – 1827) Piano Sonata No.2 in A, Op.2 No.2
4) 1. Allegro vivace [6:23]
5) 2. Largo appassionato [7:45]
6) 3. Scherzo (Allegretto) [2:58]
7) 4. Rondo (Grazioso) [6:21]
Wolfgang Amadeus Mozart (1756 – 1791) Piano Sonata No.9 in D, K.311 8) 1. Allegro con spirito [4:11]
9) 2. Andantino con espressione [6:07]
10) 3. Rondeau (Allegro) [6:41]
Para finalizar este festival de concertos de Haydn, trazemos hoje este de 2010 da Accademia Bizantina. O primeiro concerto é mesmo que fecha o último CD de Haydn postado por mim. É a única repetição dentre os nove postados. Finalmente livre dos maneirismos ornamentais de seu início de carreira, Dantone nos traz um Haydn cheio de musicalidade. O disco é excelente e feliz como o compositor.
F. J. Haydn (1732-1809): Concertos para Cravo e Violino (Dantone, Accademia Bizantina)
1. Harpsichord Concerto In D Major Hob.XVIII:11 – 1. Vivace 8:36
2. Harpsichord Concerto In D Major Hob.XVIII:11 – 2. Un Poco Adagio 6:33
3. Harpsichord Concerto In D Major Hob.XVIII:11 – 3. Rondo All’Ungherese Allegro Assai 4:50
7. Clavier Concerto In F, H.XVIII No.6 With Solo Violin – 1. Allegro Moderato 7:46
8. Clavier Concerto In F, H.XVIII No.6 With Solo Violin – 2. Largo 8:10
9. Clavier Concerto In F, H.XVIII No.6 With Solo Violin – 3. Presto 3:37
Ottavio Dantone, cravo e regência
Stefano Montanari, violino
Accademia Bizantina
Aqui estão os três concertos para piano de Haydn tocados com pianoforte. Os intérpretes são grandes especialistas neste gênero de repertório, um luxo. Se Andreas Staier é um dos maiores pianistas e cravistas da nova geração, afirmo que a a Orquestra Barroca de Freiburg é o conjunto de melhor sonoridade que tenho ouvido. Suas gravações das obras dos filhos de Bach, meus irmãos, são esplêndidas e vocês deveriam tê-las. Destaque para o primeiro e último concertos. Para tocar Haydn adequadamente, é necessário uma boa dose de humor. Staier e von der Goltz nos demonstram claramente tal fato. Staier chega a ser excessivo no último movimento do terceiro concerto… Vocês identificarão facilmente o acorde a que me refiro. CD da Harmonia Mundi alemã.
E nunca duvidem das previsões futebolísticas deste que vos fala. O post de ontem foi escrito pela manhã, quando já prevíamos a derrocada gremista e vascaína, deixando o São Paulo livre para fazer uma grande festa no próximo domingo. Já que o meu Inter não conseguiu nada no Brasileiro, melhor que nosso odioso adversário local fique também de fora, apesar da clasificação quase certa para a Libertadores.
Haydn – Concertos para Piano
1. Concerto Pour Pianoforte Et Cordes En Sol Majeur, Hob.XVIII:4: I. Allegro 10:27
2. Concerto Pour Pianoforte Et Cordes En Sol Majeur, Hob.XVIII:4: II. Adagio 8:28
3. Concerto Pour Pianoforte Et Cordes En Sol Majeur, Hob.XVIII:4: III. Finale. Rondo Presto 5:58
4. Concerto Pour Pianoforte, Violon Et Cordes En Fa Majeur, Hob.XVIII:6: I. Allegro Moderato 7:20
5. Concerto Pour Pianoforte, Violon Et Cordes En Fa Majeur, Hob.XVIII:6: II. Largo 8:37
6. Concerto Pour Pianoforte, Violon Et Cordes En Fa Majeur, Hob.XVIII:6: III. Presto 3:47
7. Concerto Pour Pianoforte Et Orchestre En Ré Majeur, Hob.XVIII:11: I. Vivace 8:31
8. Concerto Pour Pianoforte Et Orchestre En Ré Majeur, Hob.XVIII:11: II. Un Poco Adagio 6:13
9. Concerto Pour Pianoforte Et Orchestre En Ré Majeur, Hob.XVIII:11: III. Rondo All’Ungarese 4:52
Andreas Staier, piano
Freiburg Baroque Orchestra
Gottfried von der Goltz
Três concertos, três instrumentos solistas, três regentes, três maestros, nove movimentos, todos de Haydn, formam este espetacular CD. A Sony catou em seu catálogo o que de melhor tinha do compositor e saiu isso aqui. O disco recebeu 5 avaliações na Amazon, todas com a nota máxima. Deveria ir lá e dar a sexta nota cinco. Que beleza de CD. Um raio de sol e alegria.
F. J. Haydn (1732-1809): Three Favorite Concertos
1. Concerto In E-Flat Major For Trumpet And Orchestra: I – Allegro
2. Concerto In E-Flat Major For Trumpet And Orchestra: II – Andante
3. Concerto In E-Flat Major For Trumpet And Orchestra: III – Allegro
Wynton Marsalis
National Philharmonic Orchestra
Raymond Leppard
4. Concerto In D Major For Cello And Orchestra, Op. 101: I – Allegro moderato
5. Concerto In D Major For Cello And Orchestra, Op. 101: II – Adagio
6. Concerto In D Major For Cello And Orchestra, Op. 101: III. – Allegro
Yo-Yo Ma
English Chamber Orchestra
José Luís García
7. Concerto In C Major For Violin And String Orchestra, Hob. VIIa, No. 1: I – Allegro moderato
8. Concerto In C Major For Violin And String Orchestra, Hob. VIIa, No. 1: II – Adagio
9. Concerto In C Major For Violin And String Orchestra, Hob. VIIa, No. 1: III – Presto
Cho-Liang Lin
Minnesota Orchestra
Neville Marriner
Este disco é o irmão do outro postado dias atrás também com cantatas para alto de J.S. Bach. Também aqui, o órgão tem espaço para brilhar, ao contrário da grande maioria das cantatas, na qual esse instrumento faz parte do continuo junto com outros como cravo, viola da gamba, violoncelo, alaúde, etc. O continuo, na música daquele período, não tinha uma instrumentação obrigatória: por exemplo, podemos imaginar que se um talentoso contrabaixista estava visitando a cidade ele se juntava ao grupo naquele dia em específico. Quando um instrumento era realmente obrigatório, usava-se a palavra obbligato, indicando que aquele instrumento é essencial, não devendo ser omitido nem substituído.
Esses dois discos gravados pelos ingleses Davies/Cohen/Arcangelo abrangem todas as cantatas de Bach para alto. Além das três estreadas em 1726 (BWV 35, 169, 170), há também a BWV 54, estreada em Weimar por volta de 1715, e a BWV 82 – Ich habe genug, uma das mais famosas cantatas. Esta última estreou em Leipzig para voz de baixo (1727), depois foi transposta para soprano (1731) e para alto (1747), o que mostra que ela já era popular na época. Tanto a BWV 54 como a 82, como aliás a grande maioria das cantatas de Bach, não têm sofisticados solos para órgão. Nelas, o órgão se funde com o violoncelo e outros instrumentos do continuo, o que apenas acentua o encontro raro e significativo da voz com o órgão naquelas três cantatas de 1726. Naquele momento, Bach “descobriu” os duetos de alto com órgão, descoberta comparável à “descoberta” do clarinete por Mozart e do tímpano por Haydn: um encontro do compositor já maduro com sons que o estimularam por mares nunca dantes navegados. Encontro influenciado por coincidências da vida, algo que os esotéricos talvez relacionariam a uma conjunção de estrelas e os religiosos poderia chamar de milagre.
IESTYN DAVIES countertenor
with CAROLYN SAMPSON soprano / JOHN MARK AINSLEY tenor / NEAL DAVIES bass-baritone
MARK WILLIAMS organ
ARCANGELO / JONATHAN COHEN conductor
Recorded in St Jude-on-the-Hill, Hampstead Garden Suburb, London, 2015
Para honrar a memória e celebrar o legado extraordinário de Arthur Moreira Lima, um dos maiores brasileiros de todos os tempos, publicaremos a integral da coleção Meu Piano/Três Séculos de Música para Piano – seu testamento musical – de 16 de julho, seu 85° aniversário, até 30 de outubro de 2025, primeiro aniversário de seu falecimento. Esta é a sétima das onze partes de nossa eulogia ao gigante.
Teatro Municipal do Rio de Janeiro, 16 de agosto de 1966. Depois de iniciar seu exigente programa com a Fantasia de Schumann e a Sexta Sonata de Prokofiev, e antes de fechá-lo com os vinte e quatro Prelúdios de Chopin, o quase moscovita Arthur Moreira Lima, de visita ao pago, viu-se compelido pela bruta força da lei a tocar uma cota de peças brasileiras. Inimigo do óbvio, como sempre, guardou seus muitos Villa-Lobos nas mangas da casaca e tascou as notas inventadas por um seu conterrâneo nascido não tão longe dali, no morro do Nheco. Era a valsa de um pianeiro – pois assim chamavam os pianistas populares, ou de “bossa”, em seu tempo -, de um operário do piano que sonhara com as ribaltas dos grandes teatros, mas tivera que ganhar a vida a dar aulas e tocar em saraus, alguns dos quais frequentados por Luísa, a avó de Arthur. E assim, décadas depois de ser barrada daquele mesmo palco, por ser fruto de um pianeiro e, portanto, acharem-na indigna das salas de concerto, que a grande música de Ernesto Nazareth foi ouvida pela primeira vez no Municipal e o nosso herói começou a dar o maior cavalo de pau de sua vida.
Tocar Nazareth no Municipal era tão improvável que o redator se embananou na descrição do programa e criou um compositor híbrido polono-brasileiro, Ernesto N. Chopin.
Além de “Coração que Sente“, Arthur tocou o “Batuque“. A plateia veio abaixo e a crítica, surpreendentemente, guardou seus tomates. “Com a mesma independência que moveu Moreira Lima a colocar Nazareth entre Schumann, Prokofieff e Chopin”, escreveu um deles, “deve-se assinalar aqui que foram essas breves composições as mais comoventes de toda a noite”. Arthur lembraria, décadas mais tarde, da sensação causada por seu arrojo:
Me orgulho de ter podido contribuir para esse revival de Nazareth numa época em que ele andava meio esquecido, meio fora de moda. Mas como eu ia esquecer, se cresci ouvindo minha avó tocar aqueles tangos todos? É uma imagem que guardo viva comigo: eu pequeno, na casa da rua Dois de Dezembro, no Catete, ouvindo minha avó tocar o piano de armário dela: ‘Famoso’, ‘Escorregando’, ‘Odeon’, ‘Brejeiro’ e o próprio ‘Coração que sente'”
Na década seguinte, o então semivienense estava em nova visita à terrinha. Seu amigo, o jornalista e crítico musical Sérgio Cabral, chamou-o para almoçar. Entre chopes e ante um bobó de camarão, apresentou-lhe um outro amigo, um publicitário que se urdira da túnica de produtor fonográfico e embarcara na mais ambiciosa, desenfreada e maravilhosa iniciativa até então vista de criar uma gravadora movida tão só a grande Música Brasileira. Arthur Moreira Lima e Marcus Pereira se adoraram à primeira vista, e bastou a centelha de duas palavras de Cabral – “Ernesto Nazareth” – para que recém-amigos se incendiassem com a ideia de gravar aquela grande música. Saíram de lá com o plano firme de um álbum duplo com obras do Mestre do Morro do Nheco, cuja lista preliminar Arthur já rabiscara no primeiro papel que encontrou. Em alguns meses, naquele mesmo ano da graça de 1974, ele adentraria um estúdio londrino para de lá sair, em meros dois dias, com vinte e cinco faixas gravadas. “Arthur Moreira Lima Interpreta Ernesto Nazareth”, lançado no ano seguinte, vendeu sensacionais duzentas mil cópias, e rendeu um segundo tomo, lançado em 1977, com outras vinte e quatro obras e o seguinte veredito do crítico José Ramos Tinhorão, do Jornal do Brasil:
[O disco cumpre o papel de] exorcizar, definitivamente, o preconceito de dependência cultural europeia da elite brasileira, segundo a qual somente autores consagrados merecem interpretação recitalista”
Óbvio que assinamos com o relator.
O sucesso da dobradinha Ernesto/Arthur transformou aquele carioca que tocava mais russamente que os próprios russos no xodó de chorões do Brasil inteiro, e no glúteo favorito dos pontapés de tanta gente obtusa. Inaugurava-se, assim, um dos passatempos favoritos de seus pares no Brasil: falar dele com desdém, certamente incensado pela inveja, a que Arthur, às gargalhadas, sempre deu de ombros até o fim de seus dias. “Dizem que vou ao cinema para torcer pelo bandido”, ria nosso herói, talvez a reconhecer que, para muitos compatriotas incompreensivos, ele próprio era um pouco bandido – um gauche da Música.
Os gauches, claro, sempre se atraem. Em inda outra visita à terrinha, em 1979, já nas saideiras de Barcelona, quase com um pé de volta ao Rio, o novo Rei do Tango Brasileiro encontrou o Demiurgo do Tango Argentino. Astor Piazzolla estava em turnê pelo Brasil, e Arthur aproveitou o ensejo para realizou o antigo sonho de conhecer o ídolo. Não deixaria de fazê-lo, por óbvio, em grande estilo: ofereceu seus préstimos de fã, melômano e afiado hispanohablante a uma emissora de televisão e dela ganhou a incumbência de, com credenciais de repórter impromptu, entrevistar a azeda fera. O que era para ser um curto encontro acabou virando, entre incontáveis veja-bens e che-boludos, uma noite virada em animada charla. Adoraram-se instantaneamente e tornaram-se amigos para toda a vida. Ainda mais que a admiração pela grande música do mestre argentino, Arthur identificava-se com o longo exílio e, sobretudo, com a incompreensão experimentada por Astor em seu país natal, onde era, entre outros impropérios, “el asesino deltango“, acusado de distorcer aquele sacrossanto tesouro cultural argentino com tacapes de música de concerto e de corroê-lo com ácidos jazzísticos.
A devoção a Piazzolla, pensava ele ao sair do memorável encontro, teria que ser eternizada em disco. Levou quase vinte anos para gravá-lo. Astor, que morrera em 1991, chegou mesmo a legar ao amigo brasileiro a distinta dedicatória de uma peça inédita, para que dela fizesse a primeira gravação: um tango para piano solo composto em 1953 em Paris, nos tempos em estudara com Nadia Boulanger, e que deveria chamar-se “Tango” (“sencillamente ‘Tango’, Arthur, nada más“), mas acabou publicada como “Tango Preludio”. Tocá-la, claro, não seria qualquer problema – o que lhe tirava o sono era preencher o restante do álbum, transpondo para um teclado e tão só dez dedos toda a complexidade das composições de Piazzolla para o bandoneón e seu conjunto. Ao conhecer o genial Laércio de Freitas, suspirou em alívio: não só descobriu a quem confiaria a tarefa, com também fez outro amigo para o resto de seus dias:
ARTHUR MOREIRA LIMA – MEU PIANO/TRÊS SÉCULOS DE MÚSICA PARA PIANO Coleção publicada pela Editora Caras entre 1998-99, em 41 volumes Idealizada por Arthur Moreira Lima Direção artística de Arthur Moreira Lima e Rosana Martins Moreira Lima
Gravações: American Institute of Arts, Nova York, Estados Unidos, 1982. Produção e engenharia de som: Judith Sherman Coordenação geral: Jay K. Hoffman Coordenação da produção: Manuel Luiz da Silva Piano: Steinway & Sons, Hamburgo Remasterização: Rosana Martins Moreira Lima, na Cia. de Áudio, São Paulo, 1998.
1 – Prelúdio em Dó Menor, BWV 999
2 – Prelúdio para órgão em Sol menor, BWV 535 (transcrição para piano de Aleksandr Siloti)
Partita no. 1 em Si bemol maior, BWV 825
3 – Praeludium
4 – Allemande
5 – Courante
6 – Sarabande
7 – Menuet I & II
8 – Gigue
9 – Invenção a duas vozes em Ré menor, BWV 775
Fantasia Cromática e Fuga em Ré menor, BWV 903
10 – Fantasia
11 -Fuga
Partita no. 2 em Dó menor, BWV 826
12 – Sinfonia
13 – Allemande
14 – Courande
15 – Sarabande
16 – Rondeau
17 – Capriccio
Arthur Moreira Lima, piano
Gravação: St. Philip’s Church, Londres, Reino Unido, 1998. Engenharia de som: Peter Nicholls Piano: Steinway & Sons, Hamburgo Produção, edição e masterização: Rosana Martins Moreira Lima, na Cia. de Áudio, São Paulo, 1998.
Astor Pantaleón PIAZZOLLA (1921-1992) Arranjos de Laércio de Freitas (1941-2024)
Tangata, Silfo y Ondina 1 – Fugata
2 – Soledad
3 – Finale
4 – Libertango
Das Cuatro Estaciones Porteñas:
5 – Invierno Porteño
6 – Decarisimo
7 – Oblivion
Astor PIAZZOLLA
8 – Tango-Preludio (dedicado a Arthur Moreira Lima)
Astor PIAZZOLLA Arranjos de Laércio de Freitas
9 – Onda Nueve
10 – Balada para un Loco
11 – Adiós, Nonino
Arthur Moreira Lima, piano
Gravação: St. Philip’s Church, Londres, Reino Unido, 1997. Engenharia de som: Peter Nicholls Piano: Steinway & Sons, Hamburgo Produção, edição e masterização: Rosana Martins Moreira Lima, na Cia. de Áudio, São Paulo, 1998.
Gravações: American Institute of Arts, Nova York, Estados Unidos, 1982. Produção e engenharia de som: Judith Sherman Coordenação geral: Jay K. Hoffman Coordenação da produção: Manuel Luiz da Silva Piano: Steinway & Sons, Hamburgo Remasterização: Rosana Martins Moreira Lima, na Cia. de Áudio, São Paulo, 1998.
BÔNUS: as históricas gravações de Ernesto Nazareth para o selo Discos Marcus Pereira, que já tínhamos publicado aqui, em ripagens muito melhores que as anteriormente disponibilizadas.
ARTHUR MOREIRA LIMA INTERPRETA ERNESTO NAZARETH, VOLUME 1 (1975)
Disco 1
Fon Fon
Confidências
Retumbante
Faceira
Turuna
Ameno Resedá
Batuque
Coração que sente
Duvidoso
Turbilhão de Beijos
Labirinto
Apanhei-te Cavaquinho
“7ª parte da entrevista do pianista Arthur Moreira Lima a Alexandre Dias, em que ele falou sobre sua participação como jurado em um concurso de choro no final da década de 1970, época em que presenciou o renascimento do choro. Falou sobre sua parceria com Elomar, que resultou nos discos Parcelada malunga e ConSertão, e também comentou sobre seu LP Com licença, lançado no início da década de 1980, consolidando sua dedicação à música brasileira. Também mencionou o recital e disco “Bach Meets Chopin” que realizou com João Carlos Martins, e as gravações que ele fez de obras de Chopin, que resultando na gravação da maior parte de seus ciclos, e todas suas obras para piano e orquestra. Falou sobre sua histórica regravação de obras de Ernesto Nazareth em 1982, que teve reconhecimento internacional, e comentou sobre sobre a sua participação na gravadora independente L’Art, da qual ele era um dos sócios.”
Em homenagem a Fluminense Moreira Lima, estamos a montar um álbum de figurinhas dos campeões da Copa Rio de 1952. Na imagem, o atacante Mário Pedro, o Marinho (1926-2005).
Quando a gente encontra um CD com este nome, o mínimo que se espera é que ele seja engraçado. Este tem alguns bons momentos de comédia, mas acaba mesmo por se surpreender pela qualidade do Musica Antiqua Ambergensis. Um disco bem divertido, ao gosto de Clara Schumann (*) e seus elisabetanos. Bem, talvez seja um CD hilariante, mas faltam os textos pra gente poder rir junto. De qualquer maneira, triste não é.
(*) Ex-participante do PQP Bach. Era uma portuguesa admiradora de Schubert e dos “isabelinos”. Ela sumiu.
Banchieri, Vecchi, Dowland, Holborne, etc.: Commedia Musicale (Musica Antiqua Ambergensis)
Adriano Banchieri Madrigalkomödie “Festino”
01 – Chi Brama Havere (5 St.) – Il Diletto Moderno Per Introduzione (1. Szene) 2:18
02 – Qui Vi Siamo (5 St.) – Gl’ Amanti Morescano (Moresca In Aria Spagnoletta) (7. Szene) 1:22
03 – Contraponto Bestiale Alla Mente (5 St.) (12. Szene) 1:34
04 Anonymous– Pastorella (4 St. Instrumental) 1:18
05 Ludwig Senfl– Mag Ich, Herzlieb, Erwerben Dich 2:34
06 Tobias Wipacher– Geigt auf (4 St.) Regensburg 1614 2:27
07 Hans Leo Haßler– HerzliebZu Dir Allein (5 St.) 2:48
08 Johann Hermann Schein– Suite 15 In G: 1. Padouna (5 St.) – 2. Gagliarda (5 St.) – 3. Courente (5 St.) – 4. Allemande (4 St.) – 5. Tripla (4 St.) 6:14
09 Johann Hermann Schein– So Dir Mein Liebes Brüderlein (5 St.) 3:03
Horatio Vecchi* Madrigalkomodie “Le Veglie Dei Siena” – Prima Veglia (Seconda Proposta)
10 – E Voi Signora Laura (6 St.) (4. Szene) 1:07
11 – Villanella Son Io Ma Bella (3 St.) Imitatione della Villanella (5. Szene) 1:26
12 – O Che Sciolta Favella (6 St.) Applauso (6. Szene) 0:57
13 Anonymous– A L’Entrada (Balada) 1:45
14 Moniot D’Arras– Ce Fu En Mai 2:01
15 Pierre-Francisque Caroubel– Bransle Double De Poictu – Bransle Gay Double (4 St. Instrumental) 1:49
16 Antonio Cebrián– Lágrimas (Canción) (4 St.) 1:36
17 John Dowland– Awake, Sweet Love 2:29
18 John Dowland– Fine Knacks For Ladies 1:56
19 Anthony Holborne– Alman “The Honeysuckle” (5 St. Instrumental) 1:49
20 John Dowland– Woeful Heart 2:40
21 John Dowland– Shall I Sue? 1:47
22 Martin Peerson– Locke Up, Fair Lids (4 St.) 3:03
Horatio Vecchi* Madrigalkomödie “Le Veglie Dei Siena” (Seconda Veglia I Varii Homori Della Musica Moderna)
23 – Fate Silentio (6 St.) – Proemio 2:23
24 – Si Grav’é L Mio Dolore (6 St.) 3:27
25 – Viva La Gioia (5 St.) – L’humor Sveggghiato 1:33
26 – Di Marmo Sete Voi (5 St.) – L’humor Licentioso 2:11
27 – Qual’honor (6 St.) – Complimenti Del Principe A Vegliatori 1:26
Este post ficou sem minha inútil introdução por culpa da NET. Mas agora ela finalmente voltou e vocês vão ter que me engolir! Copland não é somente aquele compositor de obras representativas dos States e que Lenny traçou, o compositor também tem boa produção para piano, produto principalmente de seus anos jovens de estudo com Nadia Boulanger, em Paris. Há peças realmente obscuras — complicadíssimas — que revelam que Schoenberg não era estranho a ele. Há outras espaçosas, alegres e estimulantes como suas obras mais famosas para orquestra. E há coisas lindíssimas, como a genial e curtinha Midday Thoughts, escrita quando Copland tinha 82 anos e já estava às portas do Alzheimer. O pianista Smit é um velho amigo e colaborador do compositor. Ninguém melhor do que ele para interpretar esta integral.
Aaron Copland (1900-1990): The Complete Music for Solo Piano
Disc 1
1 Scherzo Humoristique: The Cat and the Mouse (1920)
2 Piano Variations (1930)
3 In Evening Air (1966)
4 Passacaglia (1922)
Piano Sonata (1939-41)
5 I. Molto moderato
6 II. Vivace
7 III. Andante sostenuto
Two Piano Pieces (1982)
8 Midday Thoughts
9 Proclamation
Three Moods (1920-1921)
10 embittered
11 wistful
12 jazzy
Disc 2
1 Petite Portrait (1921)
2 Sentimental Melody (1926)
3 Piano Fantasy (1955-57)
Four Piano Blues (1926-48)
4 Freely Poetic (for Leo Smit)
5 Soft and Languid (for Andor Foldes)
6 Muted and Sensuous (for William Kapell)
7 With Bounce (for John Kirkpatrick)
8 Midsummer Nocturne (1947)
9 The Young Pioneers (1936)
10 Sunday Afternoon Music (1936)
11 Down A Country Lane (1962)
12 Night Thoughts (Homage to Ives) (1972)
Mais um CD de qualidade extraordinária tendo como estrela o soprano Barbara Hannigan. Como 2016 foi o ano do 150º aniversário de nascimento de Erik Satie, Barbara Hannigan e Reinbert de Leeuw apresentam, com grande intensidade expressiva, o mundo sonoro fascinante deste compositor e pianista francês. Hannigan e Leeuw nos permitem descobrir e experimentar composições vocais quase esquecidas de Satie: Trois Mélodies, Trois Autres Mélodies e Hymne. O trabalho principal e título do álbum é a composição Socrate composta por três partes – Portrait de Socrate, Les Bords d’Illissus e Mort de Socrate: música que soa clara, transparente e frágil.
Hannigan e Leeuw durante um papo no jardim
Erik Satie (1866-1925): Socrate, hino e melodias
01. Trois Melodies: Les Anges
02. Trois Melodies: Elegie
03. Trois Melodies: Sylvie
04. Trois Autres Melodies: Chanson
05. Trois Autres Melodies: Chanson medievale
06. Trois Autres Melodies: Les fleurs
07. Hymne
08. Socrate: Portrait de Socrate
09. Socrate: Les Bords d’illissus
10. Socrate: Mort de Socrate
Barbara Hannigan, soprano
Reinbert De Leeuw, piano
Creio que esta seja a terceira vez que estou postando este CD, que considero um de meus favoritos. A qualidade da música e dos músicos envolvidos não deixa dúvidas: esta provavelmente é uma das melhores gravações já realizadas destas obras.
Este é um daqueles cds fundamentais em minha discoteca, um daqueles que me acompanharia se fosse para viver em uma ilha deserta. A dupla formada por Sviatoslav Richter e Mstislav Rostropovich é a minha favorita para este repertório, desde que comprei esse mesmo cd em formato de LP duplo, há uns vinte e sete anos ou mais. E ainda o tenho guardado ali no armário. Enfim, um cd fundamental, obrigatório. E tenho dito e mais não preciso dizer.
CD 1
01. No. 1- I. Adagio sostenuto – Allegro
02. No. 1- II. Rondo (Allegro vivace)
03. No. 4- I. Andante – Allegro vivace
04. No. 4- II. Adagio – Tempo d’andante – Allegro vivace
05. No. 5- I. Allegro con brio
06. No. 5- II. Adagio con molto sentimento d’affetto
07. No. 5- III. Allegro – Allegro fugato
CD 2
01. No. 2- I. Adagio sostenuto ed espressivo – Allegro molto piu tosto presto
02. No. 2- II. Rondo (Allegro)
03. No. 3- I. Allegro ma non tanto
04. No. 3- II. Scherzo (Allegro molto)
05. No. 3- III. Adagio cantabile – Allegro vivace
Sviatoslav Richter – Piano
Mstislav Rostropovich – Cello
Sigamos destemidamente em nosso empreendimento. Desta vez, surge a maravilhosa sinfonia número 6. Para ser franco, cada vez que escuto Bruckner, mais impressiono com Bruckner. Como alguém como ele, sujeito capenga, tímido, de alma frágil, compôs trabalhos tão atordoadores? Confesso que não gostava de Bruckner. Achava o seu trabalho demasiadamente extravagante, habitado por divagações forçadas. Cansava-me com facilidade quando ouvia qualquer das suas obras. O “repisamento”, uma impressão de circularidade, a força julgada, em alguns casos, desnecessária, afastou-me por muito tempo desse católico inveterado. Até que um dia, a música de Bruckner me abraçou com força. Não pude me desvencilhar de seu abraço fatal. Hoje, quando o ouço, faço questão de ligar o volume do meu som numa altura considerável. Sei que os vizinhos me olham obliquamente, mas não ligo. Outro dia estava ouvindo a Quarta Sinfonia do mesmo Bruckner com Harnoncourt e alguém comentou: “Só tu mesmo… Tu é doido!”. Forcei um riso de complacência, mas fiquei interiormente a rir em meu silêncio exultante. Cheguei a uma teoria: as sinfonias de Bruckner, Mahler e Shostakovich só podem ser apreciadas quando em volume máximo. Que os vizinhos reclamem; que continuem com os sorrisos de escárnio. Bruckner é uma galáxia e eu me perco nele. Boa apreciação!
Anton Bruckner (1824-1896) – Sinfonia No. 6 em Lá maior 01. Applause I
02. I. Majestoso
03. II. Adagio. Sehr feierlich
04. III. Scherzo. Nicht schnell – Trio. Langsam
05. IV. Finale. Bewegt, doch nicht zu schnell
06. Applause II Münchner Philharmoniker
Sergiu Celibidache, regente
Gravado ao vivo em Munique, 1991
Mais uma sinfonia dessa imperdível integral. A “Romântica” de Bruckner, como também é conhecida a Quarta Sinfonia, foi gravada em 1874 e passou por inúmeras revisões até o ano de 1888. Revisionismo era uma palavra que seguiu a carreira de Bruckner. Muitas das suas sinfonias passaram por imensas “remodelagens”. Talvez isso fosse uma traço da insegurança do compositor. Embora a Sinfonia No. 4 tenha o nome de “Romântica”, ela não segue o ideário do “amor romântico” do século XVIII. Bruckner segue um programa medieval, inspirado nas óperas Lohengrin e Siegfried de Richard Wagner. Esqueçamos Wagner e nos fixemos em Bruckner, num dos trabalhos mais belos e populares do seu repertório. Confesso que não gostei tanto da versão do Celibidache. As versões com o Abbado e com o Harnoncourt ficaram bem melhores. Com Abbado eu já postei; com Harnoncourt, ainda postarei. Não deixe de ouvir. Boa apreciação!
Anton Bruckner (1824-1896) – Sinfonia No. 4 em Mi bemol maior – “Romântica”
01 – I – Bewegt, nicht zu schnell
02 – II – Andante quasi Allegretto
03 – III – Scherzo. Bewegt – Trio. Nicht zu schnell. Keinesfalls schleppend
04 – IV – Finale. Bewegt, doch nicht zu schnell
Edition: Robert Haas
Total time: 79:11
Münchner Philharmoniker
Sergiu Celibidache, regente
Gravado ao vivo em Munique, 1991
Se Mahler, em toda a sua vida, tivesse escrito apenas o terceiro movimento da Ressurreição, já teria um lugar garantido na história da música. Mas há o resto, e que resto! Obra espetacular e fundamental na obra de Mahler, a Sinfonia Ressurreição se utiliza de um enorme contingente de músicos. A orquestra é ora tratada convencionalmente, ora separada em pequenos grupos de câmara, tornando-se de poderosa para rarefeita, de delicada para violenta, como se estivesse sofrendo a melhor das psicoses maníaco-depressivas.
Mahler foi o maior regente de seu tempo e sabia o que estava fazendo. A “Ressurreição” é obra cheia de surpresas e que não hesita em utilizar alguns recursos pouco convencionais. Há, por exemplo, grupos de instrumentos que tocam fora do palco. Explico o motivo: os dois últimos movimentos da sinfonia propõem-se a fazer uma representação exterior (se bem que, como Mahler dizia, tudo era representação interior…) de nada menos que o Dia do Juízo Final e da Ressurreição dos mortos. Para tanto, o autor manda alguns instrumentistas (trompetes, trompas, percussão) para fora do palco e de lá, dos bastidores, eles iniciam um conflito fantasmagórico com a orquestra que está no palco. Quando a orquestra do palco executa o suave tema da redenção, de fora vem o som das trompas e da percussão executando o que Mahler dizia representar “as vozes daqueles que clamam inutilmente no deserto”. Depois começa a marcha dos ressuscitados no Juízo Final. Em meio a este tema, as trompas e os trompetes que estão lá atrás nos bastidores – representando agora a enorme multidão de almas penadas -, enchem o ar com seus apelos vindos de todos os lados do palco.
Todo este aparato propõe-se simplesmente a responder à pergunta: “Por que se vive?”.
Jorge de Sena, em 1967, escreveu o seguinte poema sobre esta música:
MAHLER: SINFONIA DA RESSURREIÇÃO
Ante este ímpeto de sons e silêncio, ante tais gritos de furiosa paz, ante o furor tamanho de existir-se eterno, há Portas no Infinito que resistam?
Há infinito que resista a não ter portas para serem forçadas? Há um paraíso que não deseje ser verdade? E que Paraíso pode sonhar-se a si mesmo mais real que este?
Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia Nº 2 “Ressurreição” (Rattle)
1. Allegro maestoso
2. Andante Moderato
3. In ruhig fliessender bewegung
4. Urlicht. Sehr feierlich, aber schlicht
5. Im Tempo des Scherzos.
Wild herausfahrend
Wieder sehr breit
Ritardando…Maestoso
Wieder zuruckhaltend
Langsam. Misterioso
Etwas bewegter
Mit Aufschwung aber nicht eilen
Birmingham Symphony Orchestra with
Arleen Auger, Dame Janet Baker
Conducted by Simon Rattle
Se você gosta de música barroca de câmara bem tocada, com bom equilíbrio, estilo sem afetações, com instrumentos originais, esse CD Kleine Cammer-Music da Camerata Köln é um ótimo download. É ideal tanto para ouvintes que desejam mergulhar no universo de Telemann quanto para quem quer ficar tranquilo num fim de tarde ou em leituras, como faz a moça da capa. (Ou aquilo seria uma partitura?) Dá até para esquecer uma derrota em Gre-Nal. Quem espera interpretações extremamente livres ou ornamentadas pode achar contida esta versão mais contida. A Camerata Köln opta por elegância e clareza, transparência sonora e diálogo entre os instrumentos, em vez de virtuosismo pavão.
Georg Philipp Telemann (1681-1767): Kleine Cammer-Music (Camerata Köln)
Kleine Cammer-Music (Petite Musique De Chambre)
Partita 1 For Oboe And B.c. In B Flat Major / B-Dur, TWV 41:B1 (6:31)
1 Con Affetto 1:53
2 Aria 1. Presto 1:17
3 Aria 2. Dolce 2:38
4 Aria 3. Vivace 1:06
5 Aria 4. Largo 2:14
6 Aria 5 0:38
7 Aria 6. Largo 0:51
Partita 6 For Recorder And B.c. In E Flat Major / Es-Dur, TWV 41:Es1 (5:20)
8 Affettuoso 1:52
9 Aria 1. Presto 0:48
10 Aria 2. Vivace 1:13
11 Aria 3. Tempo Di Ciacona 1:20
12 Aria 4. Allegro 0:43
13 Aria 5. Allegro 1:46
14 Aria 6. Tempo Di Minuetto 2:21
Partita 4 For Viola Da Gamba And B.c. In G Minor / G-Moll, TWV 41:G2 (10:17)
15 Grave 1:59
16 Aria 1. Allegro 0:51
17 Aria 2. Allegro 1:53
18 Aria 3. Tempo Di Minuetto 0:57
19 Aria 4. Allegro 1:44
20 Aria 5. Tempo Giusto 1:24
21 Aria 6. Allegro Assai 2:07
Partita 3 For Oboe And B.c. In C Minor / C-Moll, TWV 41:c1 (8:40)
22 Adagio 1:27
23 Aria 1. Presto 0:46
24 Aria 2. Vivace 1:01
25 Aria 3. Vivace 1:15
26 Aria 4. Allegro 0:37
27 Aria 5. Vivace 1:27
28 Aria 6. Presto 0:57
Partita 2 For Transverse Flute And B.c. In G Major / G-Dur, TWV 41:G2 (10:51)
29 Siciliana 1:25
30 Aria 1. Allegro 1:07
31 Aria 2. Allegro 1:26
32 Aria 3. Vivace 0:56
33 Aria 4. Affettuoso 2:38
34 Aria 5. Presto 0:43
35 Aria 6. Tempo Di Minuetto 2:36
Partita 5 For Violin And B.c. In E Minor / E-Moll, TWV 41:e1 (9:29)
36 Andante 1:20
37 Aria 1. Vivace 1:23
38 Aria 2. Presto 0:57
39 Aria 3. Vivace 1:02
40 Aria 4. Siciliana 2:39
41 Aria 5. Vivace 1:24
42 Aria 6. Presto 0:44
Cello – Rainer Zipperling
Ensemble – Camerata Köln
Flute – Michael Schneider (2)
Harpsichord, Organ [Trunk Organ] – Sabine Bauer
Oboe – Hans-Peter Westermann
Traverso [Transverse Flute] – Karl Kaiser
Viola da Gamba – Julie Borsodi
Violin – Mary Utiger
O aparecimento de Danielle de Niese foi assombroso. Imaginem que ela estrou no Met com 19 anos… Em 2007, aos 28, fez sua estreia com este disco que hoje disponibilizamos para vocês. Hoje, ela já tem 46 e cresceu bem bonita. Este CD trata-se de um notável recital de árias de óperas de Handel, algumas familiares e outras relativamente obscuras. A forma espontânea de de Niese dá-nos a fantasia de que está cantando apenas para seu próprio prazer. Faz as pirotecnias exigidas por Handel com leveza, bom humor e segurança, mas está também em casa na gravidade emocional dos lamentos Lascia Ch’io Pianga, de Rinaldo, e Piangerò la sorte mia, de Giulio Cesare. William Christie conduz maravilhosamente a Les Arts Florissants. Um disco espetacular. Não gostou? Morra!
G. F. Handel (1685-1759): Handel Arias (Danielle de Niese)
1. Giulio Cesare / Act 3 – “Da tempeste il legno infranto” 6:16
2. Rinaldo / Act 2 – “Lascia ch’io pianga” 5:02
3. Alcina / Act 1 – Tornami a vagheggiar 4:32
4. Teseo, HWV 9 / Act 2 – Dolce riposo 3:51
5. Teseo, HWV 9 / Act 2 – Ira, sdegni…O stringerò nel sen 4:36
6. Apollo e Dafne (La terra è liberata) – Aria: “Felicissima quest’alma” 5:49
7. Ariodante HWV 33 / Act 2 – “Il mio crudel martoro” 11:11
8. Rinaldo / Act 2 – Vo’ far guerra 7:31
9. Amadigi di Gaula / Act 1 – Ah! Spietato! 5:33
10. Semele HWV 58 / Act 3 – Myself I shall adore 7:34
11. Giulio Cesare / Act 3 – “Piangerò la sorte mia” 6:20
12. Semele HWV 58 / Act 1 – Endless Pleasure, Endless Love 3:32
Danielle de Niese
Les Arts Florissants
Conducted by William Christie
A soprano Natalie Dessay e a cravista e regente Emmanuelle Haim unem-se neste belo programa de duas cantatas solo de Handel, além de uma importante ária de Aci, Galatea e Polifemo (a versão italiana, não a em inglês, composta dez anos depois). Estas duas musicistas francesas já tinham unido suas forças em duas magníficas gravação de 2004: L’Orfeo de Monteverdi e outro Handel delicioso: Arcadian Duets. A voz de Dessay fez dela uma famosa intérprete de Mozart e músicas do bel canto, mas ultimamente ela tem feito incursões por Strauss e Massenet. No entanto, ela parece especialmente adequada para Handel. Le Concert d’Astrée é uma excelente orquestra. A cantata de abertura, Il Delirio Amoroso, com texto do cardeal Pamphili, é o lamento de Clori sobre a morte de Tirsi e inclui solos de destaque para oboé, violino, violoncelo e flauta. Da mesma forma, a ária de Aci – a mais longa e indiscutivelmente a melhor faixa do disco – enfatiza o solo vocal através de um instrumental brilhante que, paradoxalmemente, serve para lembrar o narrador de sua solidão. Parecido com a cantata de abertura, mas mais conciso, Mi palpita il cor também lida com a angústia de amor perdido e, novamente, um solo de oboé faz dueto com Dessay em contraponto melódico. Um baita disco.
G. F. Handel (1685-1759): Il Delirio Amoroso (Dessay / Haïm)
1) Introduzione
2) Recitative: Da Quel Giorno Fatale
3) Aria (Allegro): Un Pensiero Voli In Ciel
4) Recitative: Ma Fermati Pensier
5) Aria: Per Te Lasciai La Luce
6) Recitative: Non Ti Bastava Ingrato
7) Aria: Lascia Omai Le Brune Vele
8. Recitative: Ma Siamo Giunti In Lete
9) Entrée
10) Minuet: Inquesto A Mene Piaggie Serene
11) Recitative: Si Disse Clori
12) Minuet
Aci, Galatea E Polifemo
13) Aria: Qui L’augel Da Pianta In Pianta Lieto Vola (Aci)
Mi palpita Il Cor
14) Adagio: Mi Palpita Il Cor
15) Allegro: Agitata É L’alma Mia
16) Recitativo: Tormento E Gelosia
17) Aria (Largo): Ho Tanti Affanni In Petto
18) Recitativo: Clori Dite Mi Lagno
19) Aria (Allegro): S’un Di M’adora La Mia Crudele
Natalie Dessay, soprano
Le Concert D’Astrée
Emmanuelle Haïm, direction
Estou renovando aqui uma postagem lá de 2018, nem tão antiga assim, mas mesmo assim, muita água já passou por baixo da ponte. Vale conferir, os dois intérpretes aqui são feras e referências em seus instrumentos. Além disso, é Beethoven, pôxa, com uma abordagem ‘diferente’.
Por que nunca nos cansamos de postar cds com obras de Beethoven? Ora, porque se trata de Beethoven … mais do que isso se torna redundante falar ou explicar.
Achei esta coleção em um velho HD externo que estava guardado já há algum tempo, e me supreendi ao ouvi-lo, não que ouvir o pianista van Immerseel ainda me supreenda, mas a sonoridade dos instrumentos, não digo apenas do pianoforte, mas o som do violino de Midori Seiler é incrível. Soa por vezes rústico, nos oferecendo um Beethoven diferente daquele que estamos acostumados a ouvir, principalmente aquelas leituras mais românticas por assim dizer.
Amo estas obras, e não canso de ouvi-las, talvez nunca canse, e esta é daquelas gravações que se possível devem ser ouvidas com um bom fone de ouvido para podermos melhor captar os detalhes da obra.
Lembro de que se trata de interpretações com instrumentos de época, com dois especialistas na área, o piano de Immerseel foi construído em 1888 e o violino de Midori é um violino barroco construido com modelo de um instrumento do século XVIII, semelhante ao utilizado por Beethoven na composição destas obras.
CD 1
01. Violin Sonata No.5 in F major, op.24 ‘Spring’ – I. Allegro
02. Violin Sonata No.5 in F major, op.24 ‘Spring’ – II. Adagio molto espressivo
03. Violin Sonata No.5 in F major, op.24 ‘Spring’ – III.Scherzo. Allegro molto
04. Violin Sonata No.5 in F major, op.24 ‘Spring’ – IV. Rondo. Allegro ma non troppo
05. Violin Sonata No.1 in D major, op.12, no.1 – I. Allegro con brio
06. Violin Sonata No.1 in D major, op.12, no.1 – II. Tema con variazoni.
07. Violin Sonata No.1 in D major, op.12, no.1 – III. Rondo. Allegro
08. Violin Sonata No.2 in A major, op.12, no.2 – I. Allegro vivace
09. Violin Sonata No.2 in A major, op.12, no.2 – II. Andante più tosto allegretto
10. Violin Sonata No.2 in A major, op.12, no.2 – III. Allegro piacèvole
11. Violin Sonata No.3 in E flat major, op.12, no.3 – I. Allegro con spirito
12. Violin Sonata No.3 in E flat major, op.12, no.3 – II.Adagio con molta espressione
13. Violin Sonata No.3 in E flat major, op.12, no.3 – III. Rondo Allegro molto
CD 2
1 Sonata No. 6 in A, Op. 30 No. 1: I. Allegro
2 Sonata No. 6 in A, Op. 30 No. 1: II. Adagio molto espressivo
3 Sonata No. 6 in A, Op. 30 No. 1: III. Allegretto con variazioni
4 Sonata No. 7 in C Minor, Op. 30 No. 2: I. Allegro con brio
5 Sonata No. 7 in C Minor, Op. 30 No. 2: II. Adagio cantabile
6 Sonata No. 7 in C Minor, Op. 30 No. 2: III. Scherzo. Allegro
7 Sonata No. 7 in C Minor, Op. 30 No. 2: IV. Finale. Allegro
8 Sonata No. 10 in G, Op. 96: I. Allegro moderato
9 Sonata No. 10 in G, Op. 96: II. Adagio espressivo
10 Sonata No. 10 in G, Op. 96: III. Scherzo. Allegro
11 Sonata No. 10 in G, Op. 96: IV. Poco allegretto – Adagio espressivo – Allegro
CD 3
1 Sonata No. 4 in A Minor, Op. 23: I. Presto
2 Sonata No. 4 in A Minor, Op. 23: II. Andante scherzoso più allegretto
3 Sonata No. 4 in A Minor, Op. 23: III. Allegro molto
4 Sonata No. 8 in G, Op. 30 No. 3: I. Allegro assai
5 Sonata No. 8 in G, Op. 30 No. 3: II. Tempo di minuetto ma molto moderato e grazioso
6 Sonata No. 8 in G, Op. 30 No. 3: III. Allegro vivace
7 Sonata « Kreutzer » No. 9 in A, Op. 47: I. Adagio sostenuto – Presto
8 Sonata « Kreutzer » No. 9 in A, Op. 47: II. Andante con variazioni
9 Sonata « Kreutzer » No. 9 in A, Op. 47: III. Presto
Midori Seiler – Violin
Jos Van Immerseel – Pianoforte
Dois discos pouco conhecidos de John Coltrane, discos com nome um tanto complicado de se pronunciar, mas a música não é complicada. O de 1965 é da fase em que Coltrane queria expandir seu quarteto e trouxe músicos adicionais incluindo o saxofonista Pharoah Sanders, mas o conjunto da obra é menos vanguardista do que outros discos dos últimos anos de vida de John Coltrane. E o de 1958 é da época em que Coltrane tocava frequentemente com Miles Davis, mas aqui o trompetista que divide a liderança do grupo é outro, Wilbur Harden (1924 – 1969). Harden toca também o flugelhorn, com seu som mais agudo que o do trompete. Os arranjos aqui são bem convencionais mas os solos… acho que geniais e impressionantes não são palavras inadequadas.
Wilbur Harden & John Coltrane: Tanganyika Strut
1. Tanganyika Strut – 9:57
2. B.J. – 4:32
3. Anedac – 5:12
4. Once in a While – 9:28
Recorded on June 24 and May 13 1958.
John Coltrane: Kulu Sé Mama
1. Kulu Sé Mama (Juno Sé Mama) (18:50)
2. Vigil (9:51)
3. Welcome (5:24)
John Coltrane — tenor saxophone
McCoy Tyner — piano (tracks 1, 3)
Jimmy Garrison — double bass (tracks 1, 3)
Elvin Jones — drums
Frank Butler — drums, vocals (track 1)
Pharoah Sanders — tenor saxophone, percussion (track 1)
Donald Rafael Garrett — clarinet, double bass, percussion (track 1)
Juno Lewis — vocals, percussion, conch shell, hand drums (track 1)
Recorded:
United Western Recorders, Hollywood, California, October 14, 1965 (track 1)
Van Gelder Studio, New Jersey, June 10-16, 1965 (tracks 2, 3)
Impressionante mesmo que faz o Ensemble Organum de Marcel Pérès neste CD duplo. Há trechos sublimes e outros decididamente fantasmagóricos (ouvir a faixa 2-19 [39], por exemplo). Mas vamos a alguns detalhes.
Originário do mosteiro de Benediktbeuren, o manuscrito de Carmina Burana incluía muito pouca música religiosa. O Grande Mistério da Paixão é uma das raras peças realmente sacras. Composta durante o século XIII, enquadra-se admiravelmente na tradição dos dramas litúrgicos e apresenta uma teatralização dos personagens que prenuncia os grandes mistérios do século XV. Obra-prima de um certo classicismo medieval, essa paixão foi encenada em 1988 pelo Atelier Lyrique du Rhin, em colaboração com o Ensemble Organum. Em alguns momentos, parece canto gregoriano, depois há solos vocais de grande beleza e virtuosismo. Vale a pena conhecer. Os idiomas são variados. Uma loucura.
Este título foi lançado pela primeira vez em 1990.
Mas Carmina Burana? Pois é. Carmina Burana (em português: “Canções de Beuern”, sendo “Beuern” uma redução de Benediktbeuern, município situado na Baviera) é o título, em latim, de um manuscrito de 254 poemas e textos dramáticos, datados, em sua maioria, dos séculos XI e XII, sendo alguns do século XIII. As peças são, em geral, picantes, irreverentes e satíricas e escritas em latim medieval, embora algumas tenham sido escritas em médio-alto-alemão, com alguns traços de francês antigo ou provençal. Há também partes macarrônicas, numa mistura de latim vernáculo com alemão ou francês.
Carmina Burana – Le Mystere de la Passion
Procession Des Rameaux
1-1 Hymne Vexilla Regis 4:29
1-2 Antiphone Cum Appropinquaret Dominus Jerosolyman 4:41
1-3 Antiphone Cum Audisset Populus 4:22
1-4 Hymne Gloria Laus 3:08
Scène De Marie-Madeleine
1-5 Marie-Madeleine Mundi Delectatio 2:10
1-6 Intervention Du Marchand Michi Confer, Venditor 1:29
1-7 Première Intervention De L’Ange O Maria Magdalena 1:15
1-8 Intervention De L’Amant Wol Dan, Minnekliche Chint 0:36
1-9 Deuxième Intervention De L’Ange O Maria Magdalena 1:15
1-10 Courtisane Mundi Delectatio 2:01
1-11 Troisème Intervention De L’Ange O Maria Magdalena 1:31
1-12 Remords De Marie-Madeleine Heu, Vita Preterita 1:22
1-13 Quatrième Intervention De L’AngeDico Tibi 0:35
1-14 Renoncement De Marie-Madeleine Hinc, Ornatus Seculi 1:33
1-15 Chantres: Accessit Ad Pedes Iesu 3:51
1-16 Prière De Marie-Madeleine Iesus Troest Der Sele Min 1:05
1-17 Jésus: Absolution de Marie-Madeleine Fides Tua Salvum Te Fecit 1:44
1-18 Lamentation De Marie-Madeleine Sur Ses Péchés Awe, Awe 2:54
Scène De Lazare
1-19 Procession D’Enterrement: Antiphone Ego Sum Resurrectio Et Vita 3:27
1-20 Résurrection De Lazarre 2:34
1-21 Profession De Foi De Lazare: Repons: Si Ambulem In Medio Umbre Mortis 4:56
Trahison De Judas
1-22 Judas O Pontifices, O Viri Magni Consilii 1:31
Procession Avant La Messe
1-23 Repons Ingrediente Domino 3:26
Messe Des Rameaux
1-24 Introït Domine, Ne Longe Facias 6:29
1-25 Graduel Tenuisti Manum Dexteram Mean 7:34
Messe Des Rameaux
2-1 Trait Deus, Deus Meus 12:25
Passion De Notre Seigneur Jésus-Christ
2-2 Jésus Au Mont Des Oliviers 5:36
2-3 Arrestation De Jésus 5:15
2-4 Prière Des Saintes Femmes: Repons Angelis Suis 4:23
2-5 Reniement De Pierre Comprehendentes Autem Eum 2:17
Le Procès
2-6 Conseil Des Grands-Prêtres Collegerunt Pontifices 4:17
2-7 Repons Astiterunt Reges Terrae 2:41
2-8 Jésus Devant Pilate Et Hérode 1:09
2-9 Repons Astiterunt Reges 0:59
2-10 Jésus Devant Pilate 1:14
Flagellation De Jésus
2-11 Repons Omnes Amici Mei 2:33
2-12 Dernier Dialogue Entre Pilate Et Jésus 3:25
2-13 Repentir De Judas Penitet Me Graviter 1:26
2-14 Lamentation Des Femmes De Jérusalem Pendant Le Chemin De Croix 2:09
Le Golgotha
2-15 Crucifixion 2:02
2-16 Lamentation De Marie Awe, Awe 5:21
2-17 Flete Fideles 3:22
2-18 Marie Planctus Ante Nescia 5:29
2-19 Jean Et Dernières Paroles Du Christ 3:07
Déposition
2-20 Hymne Crux Fidelis 7:32
Para honrar a memória e celebrar o legado extraordinário de Arthur Moreira Lima, um dos maiores brasileiros de todos os tempos, publicaremos a integral da coleção Meu Piano/Três Séculos de Música para Piano – seu testamento musical – de 16 de julho, seu 85° aniversário, até 30 de outubro de 2025, primeiro aniversário de seu falecimento. Esta é a sexta das onze partes de nossa eulogia ao gigante.
No minuto derradeiro do concerto [no. 3] de Rachmaninoff, durante a coda, em meio ao crescendo da orquestra rumo ao apoteótico final da peça, Arthur levantou os olhos do piano e se deixou levar. Admirou entorpecido aquela deslumbrante sala lotada, como quem sonha acordado. Atrás de si, era fitado por um gigantesco retrato de Tchaikovsky. Os dedos agiam por conta própria no teclado. Nesses segundos, ele teve a dimensão do momento, a exata sensação de que uma fase de sua vida terminava, num espetacular rito, diante dos melhores do planeta. Desceu a mão com força descomunal no último acorde, levantou-se quase saltando e foi aplaudido com furor. Quase vinte minutos. Soltou um grito primal, entre lágrimas, mandando a modéstia, e o resultado do concurso, às favas:
– P***a, consegui… Eu cheguei até aqui…, repetia, enquanto se curvava em agradecimentos.
Nesse trecho de “O Piano e a Estrada” (Casa Maior Editora, 2009 – fora de catálogo, mas facilmente disponível no grande brique da interné), Marcelo Mazuras descreve a epifania que abraçou Arthur Moreira Lima nos momentos derradeiros de sua gloriosa participação no Concurso Tchaikovsky de 1970, na Grande Sala do Conservatório de Moscou. Favorito do público (“Arthur – nosso“, lembram?), aclamado pelos pares (como o gigante Emil Gilels, que o chamou de “um artista maduro, com sua própria paleta de sons” num edital do Pravda para os 250 milhões de soviéticos), e veterano de mais vivências do que parecia caber em seus recém-feitos trinta anos, nosso herói punha assim um fim a seu período formativo para dar partida no resto de sua vida.
Com duas filhas pequenas, Beatriz e Martha (um nome que é prova cabal de que a disputa com La Argerich em 1965 não deixou qualquer ressentimento, só admiração), e sem a bolsa do Ministério da Cultura da União Soviética, poderia haver alguma preocupação com carnês a pagar. Arthur, todavia, parece ter dispensado o anticlimático ritual de passagem que aflige todos os formandos, aquela memorável noite em que se vai dormir estudante e se acorda desempregado. Afinal, as muitas láureas nos concursos, aqueles moedores implacáveis de tantos bons pianistas, garantiram chuvas de convites. Seu equipamento era o melhor possível: a reputação de virtuoso jovem e carismático; mãos que coriscavam um repertório de vinte e quatro concertos e tantos quantos programas de recitais solo; um som tão russo quanto o dos grandes mestres daquela Escola; e um passaporte brasileiro que permitia uma liberdade de movimentos muito maior que a de seus colegas soviéticos, sempre amarrados por autorizações de saída, vistos de entrada e arapongas de butuca.
A supernova do piano contemplou brevemente a possibilidade de voltar ao Brasil, mas os prantos e o tilintar do chumbo que de cá ouvia disseram-lhe que não, não era ainda hora de voltar. Disposto a afinal colocar em seus bornais algo além de rublos, e já com alguns anos de gravações e concertos programados em várias repúblicas da União Soviética, Arthur escolheu então sua nova morada: seria Viena, uma metrópole tão encharcada de Arte quanto Moscou, donde poderia com facilidade lançar incursões para os dois lados da férrea Cortina.
Deu muito certo, certo até demais: sua agenda abarrotada fez seu apartamento vienense receber quase mais pernoites de colegas ilustres, como o amigo Emil Gilels e a supracitada Martha Argerich, que dele próprio. Em alguns anos, talvez saudoso de algo do calor e da radiação ultravioleta de sua São Sebastião natal, o carioca zarparia para Barcelona, acompanhando a esposa, a diplomata e pianista Eliana. Mal conseguiu gastar os solados das chinelas catalãs, ocupadíssimo que estava com intensas turnês. Numa delas, num dia de clima especialmente miserável na brumenta Glasgow, rodeado por escoceses de sotaque tão espesso que não conseguia entender, enfim perguntou-se:
– O que eu tô fazendo aqui???
A grande ficha caíra. No final da Década de Sangue e Chumbo, o Brasil estava cada vez mais a chamar de volta sua tanta gente que partira em aviões e rabos de foguete. Nosso herói, enfim, atenderia seu chamado, não sem antes iniciar uma guinada de repertório e rumos que culminaria, anos mais tarde, na boleia dum caminhão-teatro, com o mais épico capítulo da história do Piano Brasileiro.
ARTHUR MOREIRA LIMA – MEU PIANO/TRÊS SÉCULOS DE MÚSICA PARA PIANO Coleção publicada pela Editora Caras entre 1998-99, em 41 volumes Idealizada por Arthur Moreira Lima Direção artística de Arthur Moreira Lima e Rosana Martins Moreira Lima
Volume 4: BEETHOVEN – SONATAS FAMOSAS
Ludwig van BEETHOVEN (1770-1827)
Sonata para piano no. 8 em Dó menor, Op. 13, “Patética”
1 – Grave – Allegro di molto e con brio
2 – Andante cantabile
3 – Rondo: Allegro
Sonata para piano no. 14 em Dó sustenido menor, Op. 27 no. 2, “Luar”
4 – Adagio sostenuto
5 – Allegretto
6 – Presto agitato
Sonata para piano no. 23 em Fá menor, Op. 57, “Appassionata”
7 – Allegro assai
8 – Andante con moto
9 – Allegro ma non troppo
Arthur Moreira Lima, piano
Gravação: St. Philip’s Church, Londres, Reino Unido, 1997 Engenheiro de som: Peter Nicholls Idealização e direção musical: Arthur Moreira Lima Idealização, direção musical, produção e edição: Rosana Martins Moreira Lima Piano: Steinway & Sons, Hamburgo Remasterização: Rosana Martins Moreira Lima
Concerto para piano e orquestra n° 22 em Mi bemol maior, K. 482
1 – Allegro (cadenza: Arthur Moreira Lima)
2 – Andante
3 – Allegro (cadenza: Arthur Moreira Lima)
Franz Joseph HAYDN (1732-1809)
Concerto para piano e orquestra em Sol maior, Hob. XVIII:4
4 – Allegro moderato
5 – Adagio
6 – Rondo: Presto
Arthur Moreira Lima, piano Orquestra de Câmara de Moscou Rudolf Barshai, regência
Gravações: Estúdio no. 1 da Rádio de Moscou, União Soviética, 1971 (Mozart) e 1974 (Haydn) Engenheiro de som: Igor Veprintsev Produção: Larysa Abelyan Piano: Steinway & Sons, Hamburgo Remasterização: Rosana Martins Moreira Lima, na Cia. de Áudio, São Paulo, 1998.
Sonata para piano em Lá menor, K. 310
1 – Allegro maestoso
2 -Andante cantabile con espressione
3 – Presto
Sonata para piano em Fá maior, K. 332 4 – Allegro
5 – Adagio
6 – Allegro assai
Sonata para piano em Ré maior, K. 576
7 – Allegro
8 – Adagio
9 – Allegretto
Arthur Moreira Lima, piano
Gravação: Rosslyn Hill Chapel, Hampstead, Londres, Reino Unido, 1999 Engenheiro de som: Peter Nicholls Idealização e direção musical: Arthur Moreira Lima Idealização, direção musical, produção e edição: Rosana Martins Moreira Lima Piano: Steinway & Sons, Hamburgo Remasterização: Rosana Martins Moreira Lima
Concerto para piano e orquestra n° 23 em Lá maior, K. 488
1 – Allegro
2 – Adagio
3 – Allegro assai
Rondó em Ré maior para piano e orquestra, K. 382
4 – Allegretto grazioso
Arthur Moreira Lima, piano Orquestra de Câmara de Moscou Rudolf Barshai, regência
Gravações: Estúdio no. 1 da Rádio de Moscou, União Soviética, 1971 Engenheiro de som: Igor Veprintsev Produção: Larysa Abelyan Piano: Steinway & Sons, Hamburgo Remasterização: Rosana Martins Moreira Lima
Sonata para piano em Lá menor, K. 331
5 – Andante grazioso – Tema con variazioni
6 – Menuetto
7 – Alla turca: Allegretto
Gravação: Rosslyn Hill Chapel, Hampstead, Londres, Reino Unido, 1999 Engenheiro de som: Peter Nicholls Idealização e direção musical: Arthur Moreira Lima Idealização, direção musical, produção e edição: Rosana Martins Moreira Lima Piano: Steinway & Sons, Hamburgo Remasterização: Rosana Martins Moreira Lima, na Cia. de Áudio, São Paulo, 1998.
Dentro da insana agenda de Arthur como astro internacional nos anos 70, destaca-se sua relação muito especial com o Japão. A notória devoção japonesa ao Chopin polonês – que outro país do mundo tem uma Revista Chopin mensal? – converteu-se, naturalmente, em muito apetite pela arte do Chopin de Estácio, que voltaria ao país por doze anos consecutivos, legando-nos, entre outros, estes frutos colhidos do pomar do – quem mais? – Instituto Piano Brasileiro:
Um primoroso LP da Denon/Nippon Columbia (1976) com som imaculado e uma leitura das valsas de Chopin ainda melhor que sua outra, lançada na década seguinte.
Um dos recitais da maratona (doze concertos em vinte dias) da primeira visita de Arthur ao Japão, em 1976, que também rendeu o álbum acima.
Outro álbum primoroso da Denon/Nippon Columbia, totalmente dedicado a Chopin (1978)
Outro recital, de inda outra maratona japonesa, no mesmo 1984 em que Arthur fez sua gravação legendária do Rach 3.
Shopan wa suki desu ka?
“6ª parte da entrevista do pianista Arthur Moreira Lima a Alexandre Dias, em que ele falou sobre o disco de Chopin que gravou pela Marcus Pereira em 1976, sua ligação com o Japão nesta época, e o novo repertório que passou a explorar nesta época, ligando-se a músicos populares, incluindo músicos de choro, como Época de Ouro e Waldir Azevedo. Comentou sobre como foi sua volta ao Brasil, em meio a uma plena carreira internacional de sucesso, falou sobre outros LPs que gravou pela Marcus Pereira e Kuarup, e sobre sua admiração por Radamés Gnattali, com quem teve bastante contato, chegando a gravar e estrear obras suas. Por fim, falou sobre sua admiração por outro grande mestre, o Laércio de Freitas, que fez os arranjos de músicas de Piazzolla que Arthur depois gravou em disco.”
Em homenagem a Fluminense Moreira Lima, seguimos com o álbum de figurinhas dos campeões da Copa Rio de 1952. Na imagem, o imberbe lateral-esquerdo João Ferreira, vulgo Bigode (1922-2003). Escalado para a infame tarefa de marcar Alcides Ghigghia no Maracanazo de 16 de julho de 1950, só não foi mais massacrado pela opinião pública que o arqueiro Barbosa após o tento da virada uruguaia. A conquista da Copa Rio, em 1952, foi sua redenção no mesmo gramado que antes o condenara – e, não, não encontrei qualquer imagem do moço com o adereço piloso homônimo.