Uma escolha perfeita para quem deseja entrar na área dos eruditos. Grandes artistas, em seus respectivos auges, interpretando o mais melodioso dos compositores. Porque meu jesus cristinho, que CD bom! Creio que Schubert deva ter sido o maior inventor de melodias de todos os tempos. A junção de três obras schubertianas de primeira linha — onde as melodias vão brotando em superfetação — e um conjunto de técnica superior e enorme tesão, comandados pela notável dupla Ax-Ma, fazem deste trabalho um CD obrigatório. É difícil de acontecer, mas não faço reparo algum à interpretação do extraordinário grupo de músicos. Eles fazem o melhor Schubert. E ponto final.
Franz Schubert (1797-1828): Trout Quintet / Arpeggione Sonata / Die Forelle
1. Quintet in A Major for Piano and Strings, Op. post. 114, D. 667 “The Trout”: I. Allegro vivace 13:14
2. Quintet in A Major for Piano and Strings, Op. post. 114, D. 667 “The Trout”: II. Andante 6:37
3. Quintet in A Major for Piano and Strings, Op. post. 114, D. 667 “The Trout”: III. Scherzo. Presto – Trio 3:51
4. Quintet in A Major for Piano and Strings, Op. post. 114, D. 667 “The Trout”: IV. Theme & Variations. Andantino 7:46
5. Quintet in A Major for Piano and Strings, Op. post. 114, D. 667 “The Trout”: V. Finale. Allegro giusto 6:20
6. Sonata in A minor for Piano and Arpeggione (Cello). D. 821: I. Allegro moderato 11:11
7. Sonata in A minor for Piano and Arpeggione (Cello). D. 821: II. Adagio 4:21
8. Sonata in A minor for Piano and Arpeggione (Cello). D. 821: III. Allegretto 8:55
9. Die Forelle, D. 550 2:16
Emanuel Ax, piano
Pamela Frank, violino
Rebecca Young, viola
Yo-Yo Ma, violoncelo
Edgar Meyer, contrabaixo
Barbara Bonney, soprano
Eu não sei se eu já deixei isso explícito, ou se vocês já perceberam, mas de todas as fases da música erudita, a música contemporânea é a que mais me fascina. E é aquela a qual vou me dedicar a polinizar neste blog, principalmente.
Claro – vocês como ouvintes devem saber – a música contemporânea pode ser dita como a mais difícil de ser ouvida. Mas, mesmo sendo difícil de ser ouvida, quando conseguimos ela é deliciosamente apaixonante, mais até do que o romantismo é capaz. Apaixonante não em um sentido romântico, mas num sentido envolvente e libertador. Por exemplo, quando eu só ouvia música popular, mesmo variando estilos (rock, reggae, pop, MPB, etc.) eu sentia uma limitação que não conseguia resolver. Quando descobri que música clássica não era tão difícil de apreciar mesmo com a duração enorme de algumas de suas obras ou pela complexidade a que eu não estava acostumado, fiquei tremendamente apaixonado. E ainda estou. Mas claro, assim como nem só do popular vive um homem, nem só de barroco, clássico e romântico se pode viver também. Assim fui conhecendo alguns compositores contemporâneos que num primeiro contato eu “vomitei”. Mas ao conhecer as obras certas e dando mais algumas chances eu aprendi a gostar daquele prato tão diferente ao meu paladar. Claro que ainda estou preso nas estruturas tradicionais; os compositores contemporâneos que mais gosto ainda usam melodia, harmonia e outras características de forma não tão radical como por exemplo, os serialistas integrais, que eu odeio. Mudanças radicais não costumam funcionar bem. Como bem disse Tancredi em Il Gattopardo: “as coisas devem mudar para que continuem as mesmas”.
É difícil definir o que é contemporâneo. Alguns dão o início lá em Stravinsky como primeiro compositor a se libertar inteiramente da sombra de Beethoven, colocando Arnold Schönberg e Claude Debussy como compositores de transição dessa sombra que cobre todo o século XIX. Enquanto outros só pensam em música contemporânea na música minimalista que surge nos anos 80 e outros movimentos que vêm depois do serialismo integral e das experiências pós-modernas dos anos 70 e 80. É difícil fazer essa definição, e não vou me arriscar aqui.
O Kronos Quartet, grupo formado há mais de vinte e cinco quarenta anos, são especialistas em música contemporânea. Claro que eles se embrenharam no repertório clássico também, mas o foco deles desde o início foi tocar a música produzida nos dias de hoje. E considero esse trabalho, que eles fazem tão bem, muito importante para a perpetuação e desenvolvimento da música como arte no mundo atual. Eu, como bom amante da música contemporânea que sou, não poderia deixar de postar essa coleção e honrar a esse grupo.
Neste álbum, o primeiro dessa coleção do aniversário de 25 anos completado em 1998 – (iihhh, já tem um tempinho ein tio?) – temos a melhor interpretação da Missa Syllabica de Arvo Pärt que já ouvi, juntamente com a pior de Psalom. E temos deliciosas obras recheadas de jams e ritmos dançantes do compositor estadunidense John Adams em John’s Book of Alleged Dances.
Semana que vem teremos Ken Benshoof (quem é esse cara?) e Astor Piazzolla no segundo volume da coleção.
Como hoje é véspera de ano novo, sugiro uma resolução para vocês: ouvir mais música erudita contemporânea em 2016.
25 Years of the Kronos Quartet [BOX SET 1/10]
John Adams (1947):
John’s Book of Alleged Dances:
01 Judah to Ocean
02 Toot Nipple
03 Dogjam
04 Pavane: She’s So Fine
05 Rag the Bone
06 Habanera
07 Stubble Crotchet
08 Hammer & Chisel
09 Alligator Escalator
10 Standchen: The Little Serenade
11 Judah to Ocean (Reprise)
Arvo Pärt (1935):
12 Fratres
13 Psalom
14 Summa
Missa Syllabica*:
15 Kyrie
16 Gloria
17 Credo
18 Sanctus
19 Agnus Dei
20 Ite, Missa Est
Kronos Quartet:
David Harrington, violin
John Sherba, violin
Hank Dutt, viola
Joan Jeanrenaud, cello
Ellen Hargis, soprano*
Suzanne Elder, alto*
Neal Rogers, tenor*
Paul Hillier, baritone*
Clica antes aqui, malandro! Depois clica ali embaixo no melhor disco de 2014 na categoria Concerto da revista Gramophone. Ah, pois é, né?
Este é daqueles discos que você tem por dois motivos: pela qualidade dos concertos e por amor a sua coleção ou discoteca. Bavouzet não é Argerich, mas é quase — é excelente e faz jus aos concertos de Prokofiev. Estes concertos pedem um alongamento espiritual que nem todo pianista alcança. Vão do rapidíssimo ao lerdo, do selvagem ao sublime muito subitamente. Parece que existe uma gravação da mesma parceria para os Concertos de Bartók. Gostaria de ouvir, imagina se não.
Serguei Prokofiev (1891-1953): Os 5 Concertos para Piano
Piano Concerto No. 1 in D-Flat Major, Op. 10
1 Allegro brioso – 3:27
2 Meno mosso – 3:16
3 Andante assai – 4:20
4 Allegro scherzando – 4:28
Piano Concerto No. 2 in G Minor, Op. 16
5 I. Andantino – Allegretto – 11:09
6 II. Scherzo. Vivace – 2:31
7 III. Intermezzo. Allegro moderato – 6:19
8 IV. Finale. Allegro tempestoso – 11:22
Piano Concerto No. 3 in C Major, Op. 26
9 I. Andante – Allegro – 9:18
10 II. Tema con variazioni – 8:57
11 III. Allegro ma non troppo – 9:35
Piano Concerto No. 4 in B-Flat Major, Op. 53
1 I. Vivace – 4:25
2 II. Andante – 9:33
3 III. Moderato – 8:09
4 IV. Vivace – 1:35
Piano Concerto No. 5 in G Major, Op. 55
5 I. Allegro con brio – 4:54
6 II. Moderato ben accentuato – 3:41
7 III. Toccata. Allegro con fuoco – 1:54
8 IV. Larghetto – 7:07
9 V. Vivo – 5:32
Jean-Efflam Bavouzet, piano
BBC Philharmonic
Gianandrea Noseda
Depois do excelente impacto da postagem de 13 de outubro, com dois dos sete álbuns póstumos do Nick Drake, aqui vão os três álbuns que o moço lançou em vida – dos 21 aos 24 anos, antes de sua precoce partida em 1974, aos 26.
Sugestão: se você, como eu, achar as capas um tanto de mau gosto, não se deixe enganar: o conteúdo musical e poético está, de modo geral, muito acima delas. (Digo “de modo geral” apenas porque o segundo álbum não me parece estar no mesmo nível de tudo mais que que já ouvi dele; chega a parecer um esforço de ser o que ele menos era: pop).
Se, além da música, quiser conhecer um pouco da pessoa e sua história, o leitor DiMenez compartilhou com a gente o link de um documentário de 48 min., legendado em português. Valeuzaço, DiMenez… e agora deixo vocês com o vídeo… e sobretudo com a música!
Nick Drake: FIVE LEAVES LEFT (1969)
01 Time Has Told Me
02 River Man
03 Three Hours
04 Way To Blue
05 Day Is Done
06 Cello Song
07 The Thoughts Of Mary Jane
08 Man In A Shed
09 Fruit Tree
10 Saturday Sun
Nick Drake: BRYTER LAYTER (1971)
01 Introduction
02 Hazy Jane II
03 At The Chime Of A City Clock
04 One Of These Things First
05 Hazey Jane I
06 Bryter Layter
07 Fly
08 Poor Boy
09 Northern Sky
10 Sunday
Nick Drake: PINK MOON (1972)
01 Pink Moon
02 Place To Be
03 Road
04 Which Will
05 Horn
06 Things Behind The Sun
07 Know
08 Parasite
09 Free Ride
10 Harvest Breed
11 From The Morning
Ah, o CD ao lado é a nova edição — de 2007 — em álbum duplo destas canções Schubert gravadas por Hendricks e Lupu. Ela junta dois CDs lançados separadamente. Aqui temos um deles. O melhor.
Uma boa cantora, um bom pianista que saiba ser discreto e Schubert. Gol certo. Este CD não existe mais, tendo sido relançado em mp3 juntamente com outro que Hendricks e Lupu gravaram depois. É de 1986. A seleção de Lieder é excelente e temos vários grandes momentos, mas creio que se compara à leveza que a dupla alcançou na delicada Im Frühling, cuja simplicidade e ritmo me fazem desejar (calma, gente, só desejar) sair dançando pela sala.
Grande CD!
Schubert: Lieder
01. Der Wanderer An Den Mond D.870
02. Der Blinde Knabe D.833
03. Der Einsame D.800
04. Nacht Und Traüme D.827
05. Suleika I, D.720
06. Ganymed D.544
07. Rastlose Liebe D.138
08. Wanderers Nachtlied D.768
09. Die Forelle D.550 (La Truite)
10. Suleika II, D.717
11. Der Musensohn D.764
12. Lied Der Mignon D.877
13. Der König In Thule D.367
14. Gretchen Am Spinnrade D.118
15. Du Bist Die Ruh D.776
16. Im Frühling D.882
Só a versão de Christine Walevska para o “Schlemo” de Bloch já vale a audição deste CD. Como diria meu caro PQPBach, eis uma leitura visceral, arrancada do fundo da alma. Emocionante, para não dizer mais nada. O CD se completa com outra obra fundamental para o violoncelo, de Max Bruch, o ‘Kol Nidrei’ e ainda tem apenas o Concerto para Violoncelo de Schumann, e as Variações sobre um Tema Rococó, de Tchaikovsky. Em outra ocasião eu já havia trazido outro CD desta excepcional violoncelista, e foi muito bem recebido. Espero que o mesmo aconteça com esse aqui.
01. Bloch Hebraic Rhapsody ‘Schelomo’
02. Bruch Kol Nidrei, op.47
03. Schumann Cello conserto in A minor, op.129
04. Schumann Cello conserto in A minor, op.129
05. Schumann Cello conserto in A minor, op.129
Christina Walevska – Cello
Orchestre Philharmonique de Monte-Carlo
Eliahu Inbal – Conductor
06. Tchaikovsky Variations on a Rococo theme
Christina Walevska – Cello
London Philharmonic Orchestra
Sir Alexander Gibson – Conductor
Vamos por partes. Já ouvimos aqui algumas das melhores obras para vozes de Arvo Pärt, e já ouvimos algumas de suas melhores obras orquestrais. Agora venho com mais esse álbum que possui talvez não as melhores, mas duas obras muito conhecidas e importantes para piano: Für Alina (para piano solo) e Spiegel im Spiegel (para cordas e piano).
Para que vocês apreciem melhor essas obras é necessário entender o porquê delas serem como são e o porquê de elas serem importantes.
Já havia dito no meu debut que Pärt possuía três fases na sua carreira de compositor. Essas fases são, primeiro, a de vanguarda (avant-garde); segundo: a fase experimental com collage, e a última, a minimalista. Na primeira fase o compositor era na maior parte um neoclássico, mas chegou a compor obras com estilo dodecafônico e serialista. Uma obra serialista dessa fase é Nekrolog. É uma fase que o compositor tem uma forte obsessão por fazer inovações. Acho que dessa fase pouca coisa é aproveitável, por isso vou focar nas obras das fases seguintes.
Na fase de transição, Pärt realiza uma série de experimentações e colagens em suas obras. Collage ou colagem é uma técnica de composição onde os compositores fazem uma mistura de obras de vários compositores dentro de uma obra sua, misturando desde Bach até Mahler. As vezes sai algo interessante, outras, nem tanto. Essa fase da carreira de Pärt é interessante, pois ele não apenas faz essas colagens em suas obras para seguir uma tendência, ele faz uso dessa técnica numa tentativa desesperada de encontrar a si mesmo enquanto compositor [crise de identidade]. Pärt nessa época de transição, desiste da sua obsessão de inovação e rejeita o serialismo e as regras impostas pelos movimentos avant-garde de sua época, e nisso tenta realizar obras que desafiem isso. O collage, por citar o passado, talvez tenha sido uma forma de fazer essa afronta.
É possível entender a transição de Pärt como um processo de liminaridade, um processo que constitui um rito de passagem que o antropólogo Victor Turner caracterizava por três fases: a separação de uma estrutura anterior, o limbo ou limiar entre duas estruturas, e a agregação a uma nova estrutura. Julgando que a época em que ele vivia essa crise era o auge da guerra fria, pode-se pensar em termos sociológicos como que os movimentos sociais na Estonia sob o regime comunista influenciavam diretamente os pensamentos do “indivíduo Arvo Pärt” na época. É justamente nessa época, final dos anos 60 e começo dos anos 70, que o compositor abandona o luteranismo para se juntar ao cristianismo ortodoxo. Ou seja, Pärt se separa de uma estrutura social anterior para se juntar à outra. Isso se reflete em sua música também, embora em um tempo diferente. A música que mais evidencia seu rito de passagem é Credo, uma obra onde ele cita Bach, usa de atonalidade e de textos sacros.
Talvez tenha sido pura coincidência, ou talvez tenha sido por sentimento mesmo, mas durante uma época em minha vida em que estava passando justamente por um processo de liminaridade no meu pensamento intelectual pessoal, eu senti que deveria ouvir essa música. Já tinha escutado antes, mas foi dessa vez que senti aquilo que Pärt sentia quando a compôs, ou melhor, me identifiquei com seus sentimentos, pois passava justamente pelo mesmo processo. Credo é um ótimo exemplo para entender esse limiar, pois a música começa estável, desmorona em uma atonalidade caótica desesperadora (eu realmente senti desespero ouvindo essa parte), e depois se solidifica novamente em esperança e beleza. O único “porém” dela é voltar ao “mesmo” digamos assim, e isso não configura um rito de passagem completo (nem mesmo uma superação das contradições anteriores), mas podemos entender isso como uma previsão de Pärt do que viria: ele voltaria à beleza, às regras de uma estrutura. [Neste sentido a visão de Turner, de que um processo de liminaridade põe em cheque a ideia de estrutura é equivocada, pois tal processo pode ser entendido como um processo comum da própria estrutura. Ou seja, Pärt abandona um grupinho, fica meio perdido, mas encontra uma outra turminha com quem possa andar no recreio.]
E foi isso que ele fez. Depois de mais ou menos oito anos de silêncio criativo quase absoluto (com exceção apenas da Terceira Sinfonia, que já mostrara alguns sinais do estilo que viria), Pärt finalmente renasce com um estilo de música totalmente novo, mas por mais irônico que talvez seja (talvez não tão irônico, se pensarmos que de alguma forma – nos termos de Victor Turner – para completar o ritual de passagem, era necessário aderir a uma nova estrutura), um estilo que possui regras tão complexas quanto aquelas presentes no serialismo, como explica Tom Service pelo The Guardian:
“Pärt criou regras estritas para controlar como as vozes harmônicas se movem com as linhas melódicas em sua música, regras tão estritas quanto o serialismo; ironicamente, dada a sua rejeição às suas obsessões de inovação anteriores, o sucesso de sua linguagem musical depende exatamente daquela objetividade de pensamento que a composição serial demanda. Essa austeridade do processo faz com que o tintinnabuli de Pärt apresente um novo uso da atonalidade, até mesmo um novo tipo de tonalidade, e explica porquê sua musica soa ao mesmo tempo tão antiga e moderna, e porque ela encorpa uma expressividade genuína ao invés de uma repetição de convenções de segunda mão.”
Eu diria que a música de Arvo Pärt não soa antiga e moderna ao mesmo tempo por acaso. Como eu disse acima, Pärt se converteu ao cristianismo ortodoxo e é no leste europeu onde o antigo estilo de canto conhecido como canto gregoriano (ou cantochão), é ainda bastante preservado, justamente devido a presença do cristianismo ortodoxo. As obras para vozes de Pärt do período minimalista possuem clara influência do cantochão tanto no sentido estético quanto no estrutural da música. Não seria errado dizer que o cantochão é um estilo de canto minimalista se pensarmos apenas nas características e não na época; é com a Ars Nova, o renascimento e finalmente o barroco que as obras para vozes tomam proporções maiores do que vigorou pela maior parte da idade média. Mas claro que Pärt vai muito além, ele cria uma harmonia e um timbre únicos, e além disso, ele está se inspirando numa música antiga em um contexto moderno (ou pós-moderno), por isso a música soaria antiga e moderna ao mesmo tempo. [Seu novo estilo, o tintinnabuli (que é uma forma de minimalismo), é como uma superação da contradição entre suas duas fases anteriores: as regras exigentes da vanguarda, mais as experimentações com o passado.]
Für Alina, embora não seja para vozes, é a primeira obra que surge com essa inovação na sua técnica de composição após o hiato de vários anos do compositor. Quero que vocês tenham isso em mente quando ouvirem pela primeira vez Für Alina, que aquela nota grave que você ouve, seguida de notas mais agudas, foi a primeira nota que nasce depois de um silêncio de muitos anos, e elas nascem como uma ressurreição do compositor, então é necessária delicadeza e lentidão ao lidar com elas, como se o pianista e o ouvinte estivessem brincando com um vidro muito frágil e valioso. Se o pianista for delicado e o ouvinte não for, a magia se quebra e a obra se perde no vazio, se o ouvinte for delicado mas o pianista não for, o ouvinte vai sentir a magia da obra rachando e quebrando diante de seus ouvidos que esperavam delicadamente apreciar uma delicadeza que não ocorre. Do nascimento dessas pequenas e delicadas notas nasceriam outras raízes mais fortes dessa semente: Spiegel im Spiegel, Tabula Rasa, Frates, Cantus In Memory of Benjamin Britten, Summa e outras. Essas obras são as bases desse novo estilo de Pärt: minimalista, profundo e hipnotizante.
E tudo isso são só os primeiros galhos, o estilo minimalista de Pärt mesmo sendo “pouco” rende muito. Já podemos dizer que existe uma árvore razoavelmente grande de obras só da terceira fase. Torço para que esse velhinho de 80 anos viva pelo menos até os 100, e continue nos honrando com sua maravilhosa música profundamente tocante por muito tempo.
Arvo Pärt (1935): Alina
01 Spiegel im Spiegel
02 Für Alina
03 Spiegel im Spiegel
04 Für Alina
05 Spiegel im Spiegel
Vladimir Spivakov, violino
Sergej Bezrodny, piano
Dietmar Schwalke, violoncelo
Alexander Malter, piano
Quando eu ouço um CD ou um concerto de música barroca tocado no cravo, passo a achar o piano pesado demais. Foi o caso deste. Ele só começou a entrar na minha cabeça, quando ouvi os fantásticos pássaros do movimento Le rappel des oiseaux, esplêndida quinta faixa deste CD. E então, minha cabeça foi até os pássaros de outro francês, Messiaen, cuja certa música só pode ser apreciada após uma visita a um parque arborizado e cheio de pássaros. E retornei à primeira faixa, já achando tudo normal e Angela Hewitt uma gênia. Olha, um baita CD.
Jean-Philippe Rameau (1683-1764): Suítes para teclado
1. Allemande (Suite in E minor – Pieces de clavecin)
2. Courante
3. Gigue en rondeau I
4. Gigue en rondeau II
5. Le rappel des oiseaux
6. Rigaudons I and II
7. Museete edn rondeau
8. Tambourin
9. La villageoise
10. Les tricotets (Suite in G minor-nouvelles suites de pieces de clavecin)
11. L’indifferente
12. Menuets I and II
13. La poule
14. Les triolets
15. Les sauvages
16. L’enharmonique
17. L’egiptienne
18. Allemande (Suite in A minor – Nouvelles suites de pieces de clavecin)
19. Courante
20. Sarabande
21. Les trios mains
22. Fanfarinette
23. La triomphante
24. Gavote
25. Double 1
26. Double 2
27. Double 3
28. Double 4
29. Double 5
30. Double 6
Um Mozart moderno, poderiamos dizer deste CD, com um pianista um tanto desconhecido, porém de enorme talento e versatilidade. A curiosidade é que ele se juntou a Rinaldo Alessandrini, que um amigo chama de xiita das interpretações ditas históricamente corretas. Mas aqui Rinaldi encara Mozart, não Vivaldi ou qualquer outro compositor barroco. E nos oferece um resultado muito interessante, com uma orquestra pequena, porém muito competente, o conjunto “Divertissement”.
O solista é Olivier Cavé, até então um ilustre desconhecido para este que escreve, mas como comentei acima, dono de um talento muito grande e muito criativo e versátil. O comentário no site do solista fala do encontro entre o moderno e o antigo, e é aí que reside o interesse neste CD: a sonoridade do piano Stenway & Sons moderno frente a uma orquestra que procura trazer a sonoridade das orquestras nos tempos de Mozart, “nem dogmática nem estúpidamente clássica”, nas palavras do comentarista do site. Ouçam e depois me deem sua opinião. Detalhe: este CD só será lançado dentro de alguns dias, portanto, aproveitem.
01. Piano Concerto No. 13 in C Major, K. 415387B I. Allegro
02. Piano Concerto No. 13 in C Major, K. 415387B II. Andante
03. Piano Concerto No. 13 in C Major, K. 415387B III. Rondeau. Allegro
04. Piano Concerto No. 5 in D Major, K. 175 I. Allegro
05. Piano Concerto No. 5 in D Major, K. 175 II. Andante ma un poco adagio
06. Piano Concerto No. 5 in D Major, K. 175 III. Allegro
07. Piano Concerto No. 25 in C Major, K. 503 I. Allegro maestoso
08. Piano Concerto No. 25 in C Major, K. 503 II. Andante
09. Piano Concerto No. 25 in C Major, K. 503 III. Allegretto
Olivier Cavé – Piano
Divertissement
Rinaldo Alessandrini – Conductor
Do que Mozart era capaz, hein? Nas suas mãos, até um instrumento como a harpa faz música! Desculpem, não gosto do som da harpa. É inacreditável o ponto de delicadeza que este gênio encontrou, fazendo com que a harpa não pisasse de modo algum na vulgaridade na qual outros compositores a deixam sempre. Só Mozart conseguiu! Este CD de 1987 é uma joia de absoluta gentileza e musicalidade. Todos os concertos são bons, Hogwood e seus solistas estiveram no mesmo estado de graça de Karl Böhm, Nicanor Zabaleta e Wolf Schultz em sua famosa gravação do Concerto para Flauta e Harpa de 1977 para a DG. Só que aqui os concertos que acompanham o K. 299 são melhores, fazendo um disco bem mais equilibrado do que aquele. Um grande CD!
Mozart – Concerto para flauta e harpa (K.299), Andante para flauta (K.315), Concerto para fagote (K.191) e para flauta (K.313)
1. Fl And Hp Con in C, K299: I. Allegro – Lisa Beznosiuk / Frances Kelly
2. Fl And Hp Con in C, K299: II. Andantino – Lisa Beznosiuk / Frances Kelly
3. Fl And Hp Con in C, K299: III. Rondeau: Allegro – Lisa Beznosiuk / Frances Kelly
4. Andante in C, K315 – Lisa Beznosiuk
5. Bn Con in B flat, K191: I. Allegro – Danny Bond
6. Bn Con in B flat, K191: II. Andante Ma Adagio – Danny Bond
7. Bn Con in B flat, K191: III. Rondo: Tempo Di Menuetto – Danny Bond
8. Fl Con NO.1 in G, K313: I. Allegro Maestoso – Lisa Beznosiuk
9. Fl Con NO.1 in G, K313: II. Adagio Ma Non Troppo – Lisa Beznosiuk
10. Fl Con NO.1 in G, K313: III. Rondo: Tempo Di Menuetto – Lisa Beznosiuk
Lisa Beznosiuk (Flauta),
Danny Bond (Fagote)
Frances Kelly (Harpa)
Os clarinetistas nasceram com o rabo virado para a lua, conforme diria minha mãe. Tanto Mozart quanto Brahms ficaram amigos de clarinetistas ao final de suas vidas, sendo convencidos por este seres soprantes a comporem para o instrumento justo em seus respectivos auges. E houve ainda outros clarinetistas e compositores no mesmo caso, mas Mozart e Brahms foram os mais notórios. Tal fato deu ao instrumento um tremendo repertório. Imaginem que Brahms ainda escreveu duas excepcionais Sonatas para Clarinete e Piano e Mozart seu Concerto K. 622! Bem, este CD é uma joia. Ah, sabem porque os livros de memórias de Erico Verissimo chamam-se Solo de Clarineta I e II? Sim, em função do belíssimo Quinteto de Brahms que comparece neste CD. A coisa é de arrepiar. Vai lá e ouve logo, bagual! Tá esperando o quê?
W. A. Mozart (1756-1791) / J. Brahms (1833-1897): Clarinet Quintets
1 Mozart: Clarinet Quintet in A, K.581 – 1. Allegro 9:20
2 Mozart: Clarinet Quintet in A, K.581 – 2. Larghetto 6:41
3 Mozart: Clarinet Quintet in A, K.581 – 3. Menuetto 6:45
4 Mozart: Clarinet Quintet in A, K.581 – 4. Allegretto con variazioni 9:00
5 Brahms: Clarinet Quintet in B minor, Op.115 – 1. Allegro 13:09
6 Brahms: Clarinet Quintet in B minor, Op.115 – 2. Adagio 11:07
7 Brahms: Clarinet Quintet in B minor, Op.115 – 3. Andantino – Presto non assai, ma con sentimento 4:49
8 Brahms: Clarinet Quintet in B minor, Op.115 – 4. Con moto 8:50
Mandando bala: o Emerson String Quartet com Shifrin. Acompanhe da esquerda para a direita: Eugene Drucker, Philip Setzer, David Shifrin, David Finckel e Lawrence Dutton, durante o Quinteto para Clarinete de Mozart
Tenho especial predileção por Hindemith, um cara que fazia uma música moderna, muito contrapontística e bela. Suas obras foram consideradas degeneradas pelos nazistas, o que não deixa de ser um elogio. Neste concerto e nas sonatas que o seguem, está boa parte das características do compositor. Ele buscava uma “música utilizável”, e uma “música para brincar”. Vocês facilmente reconhecerão estas duas vertentes neste CD. Suas maiores obras são as peças intituladas “Música de Câmara” para várias formações, lembrando um pouco os Concertos de Brandenburgo de J. S. Bach.
Paul Hindemith (1895-1963): Violin Concerto, Violin Sonatas
1 Violin Concerto: I. Massig bewegte Halbe 00:09:05
2 Violin Concerto: II. Langsam 00:08:41
3 Violin Concerto: III. Lebhaft 00:09:45
Violin Sonata, Op. 31, No. 2, ‘Es ist so schones Wetter draussen’
4 Violin Sonata, Op. 31, No. 2, “Es ist so schones Wetter draussen”: I. Leicht bewegte Viertel 00:01:57
5 Violin Sonata, Op. 31, No. 2, “Es ist so schones Wetter draussen”: II. Ruhig bewegte Achtel 00:02:21
6 Violin Sonata, Op. 31, No. 2, “Es ist so schones Wetter draussen”: III. Gemachliche Viertel 00:01:10
7 Violin Sonata, Op. 31, No. 2, “Es ist so schones Wetter draussen”: IV. 5 Variationen uber deas lied “Komm, lieber Mai” 00:03:49
Violin Sonata in E flat major, Op. 11, No. 1
8 Violin Sonata in E flat major, Op. 11, No. 1: I. Frisch 00:04:20
9 Violin Sonata in E flat major, Op. 11, No. 1: II. Im Zeitmass eines langsamen, feierlichen Tanzes 00:04:31
Violin Sonata in E major
10 Violin Sonata in E major: I. Ruhig bewegt 00:03:39
11 Violin Sonata in E major: II. Langsam – Sehr Lebhaft 00:05:41
Violin Sonata in C major
12 Violin Sonata in C major: I. Lebhaft 00:02:11
13 Violin Sonata in C major: II. Langsam 00:03:59
14 Violin Sonata in C major: III. Fuge: Ruhig bewegt 00:07:02
Frank Peter Zimmermann, Violino
Enrico Pace, piano
Olá pqpequianos, me perdoem pela minha ausência das últimas semanas, estava finalizando uma épica batalha com a academia. Agora já estou de férias, então vocês me verão novamente com frequência regular.
O álbum que trago hoje contêm duas obras de Takashi Yoshimatsu, o concerto para saxofone e a terceira sinfonia. O destaque fica para o concerto.
No primeiro movimento deste concerto ouvimos uma espécie de introdução ao tema, com algumas atonalidades na orquestra alternando com um ritmo bem jazziaco no piano e percussão acompanhando o saxofone, mas a marcante característica romântica do compositor no piano quando tocado solo entre as idas e vindas do tema. No segundo movimento não existe espaço para dúvidas, é o romantismo de Yoshimatsu fundido com um cool jazz suave… e olhem, é arrebatador, nenhuma alma romântica vai se segurar diante disso, preparem vossos corações caso alguém seja cardíaco. O terceiro movimento segue a tradição, allegro, retornamos ao tema do primeiro movimento.
Não acho que as sinfonias sejam o forte dele, mas essa terceira sinfonia consegue convencer; os sopros no início que lembram um pouco algo de indígena (ou estou louco?), a percussão que toma tons de jazz no segundo movimento, o trabalho com as cordas no terceiro movimento, são algumas das características que agradam.
O concerto para saxofone com certeza vale a pena, já a sinfonia fica a julgamento de vocês.
01 Saxophone concerto – I. Bird in collors; allegro
02 Saxophone concerto – II. Bird in grief; andante
03 Saxophone concerto – III. Bird in the wind; presto
Nobuya Sugawa, saxophone
BBC Philharmonic
Sachio Fujioka, regente
04 Symphony No 3 – I. Allegro; adagio grave – allegro molto
05 Symphony No 3 – II. Scherzo; allegro scherzando
06 Symphony No 3 – III. Adagio; adagio
07 Symphony No 3 – IV. Finale; andante sustenuto – allegro molto
Não chega a ser uma maravilha. Aqui, Meredith Monk aparece com obras que parecem a música de Erik Satie para dois pianos. A nova-iorquina Monk é compositora, performer, diretora, vocalista, cineasta e coreógrafa. Desde os anos sessenta, Monk tem criado trabalhos multidisciplinares que combinam música, teatro e dança, gravando sempre para a ECM. Este disco dá uma boa ideia de seu trabalho, mas nada se compara ao vinil Dolmen Music (1979). Ela é minimalista, mas aqui exagerou no mínimo.
Meredith Monk: Piano Songs
1 Monk: Obsolete Objects 1:59
2 Monk: Ellis Island 3:02
3 Monk: Folkdance 4:03
4 Monk: Urban March (Shadow) 3:08
5 Monk: Tower 1:37
6 Monk: Paris 3:11
7 Monk: Railroad (Travel Song) 2:15
8 Monk: Parlour Games 7:37
9 Monk: St. Petersburg Waltz 7:04
10 Monk: Window In 7’s 2:46
11 Monk: Totentanz 3:07
12 Monk: Phantom Waltz 7:14
Na opinião deste bastardo, a Orquestra Barroca de Freiburg é a melhor do gênero em atividade. Isso há vários anos. Aí, eles convidam Andreas Staier para ser o solista e os Concertos são de Bach. É uma verdadeira covardia. Tipo 7 x 1, só que a favor do ouvinte. Para quem não conhece muito os Concertos de Bach, saiba que há três que são transcrições do próprio autor de seus Concertos para Violino. Estes sete concertos são notavelmente inventivos e uma etapa chave na história da forma concertante. O conjunto foi escrito durante os anos de Leipzig de Bach, enquanto dirigia o Collegium Musicum. Nas interpretações de Andreas Staier e da Freiburger Barockorchester, estas obras ganham vida nas leituras alegres que merecem. A gravação da Harmonia Mundi, sua qualidade de som, é algo espetacular.
A Orquestra Barroca de Freiburg. Quem é o chefão? O primeiro loirinho cabeludo sentado à direita.
J. S. Bach (1685-1750): Os Concertos para Cravo (completos) – Staier, Freiburger Barockorchester
Concerto No.1 BWV 1052 in D minor
01. I. Allegro 7’48
02. II. Adagio 7’06
03. III. Allegro 8’05
Concerto No.2 BWV 1053 in E major
04. I. – 8’31
05. II. Siciliano 4’43
06. III. Allegro 6’38
Concerto No.7 BWV 1058 in G minor
07. I. – 3’36
08. II. Andante 5’46
09. III. Allegro assai 4’06
Concerto No.3 BWV 1054 in D major
10. I. – 7’41
11. II. Adagio e piano sempre 6’39
12. III. Allegro 2’41
Concerto No.4 BWV 1055 in A major
13. I. Allegro 4’24
14. II. Larghetto 5’14
15. III. Allegro ma non troppo 4’20
Concerto No.5 BWV 1056 in F minor
16. I. – 3’05
17. II. Largo 2’40
18. III. Presto 3’36
Concerto No.6 BWV 1057 in F major
19. I. – 6’52
20. II. Andante 3’32
21. III. Allegro assai 4’50
Repost de 18 de Outubro de 2015 – Um ano desde que comecei a postar no PQP Bach!
Olá caros leitores do PQP Bach, faço minha estreia aqui nesse blog com o compositor contemporâneo de música erudita que mais gosto: Arvo Pärt. Possuo muitos cds com obras deste compositor que, como dito pelo nosso mestre P.Q.P, não recebeu ainda a devida atenção neste blog. Venho para preencher esta lacuna e para preencher outras que acredito que os senhores considerarão muito oportunas. Junto com o download está o livrete do CD, para que os senhores possam saber mais detalhadamente de outras informações que lhes forem de interesse.
Vou falar um pouco das minhas impressões pessoais sobre esse álbum. O que me levou a comprá-lo foi a obra My Heart in the Highlands, e não, não foi em A Grande Beleza onde eu a ouvi pela primeira vez, mas sim em um documentário sobre o estilo de composição atual de Arvo Pärt. Digo atual pois o compositor já teve três fases onde as obras são notavelmente distintas em seus respectivos estilos. A discussão sobre essas fases é uma outra história que deve ser contada em um outro momento. Neste álbum, com exceção de Solfeggio (que é da primeira fase, a de vanguarda), todas as outras obras são da terceira fase, a minimalista, chamada pelo compositor de tintinnabuli (que é a fase atual).
Voltando a “My Heart in the Highlands”, bem, a primeira vez que eu ouvi essa obra não foi apenas a melodia profundamente melancólica que me tocou, mas também os belos versos que por alguns minutos me arrebataram de tal forma que eu me senti “como um lobo solitário que vive nas montanhas geladas, mas que quando vai à cidade se torna um mero humano de coração apertado, coração apertado de saudades das montanhas geladas e dos cervos, que correm desesperados diante da calma taciturna do lobo que os caça”. Foi uma história mais ou menos assim que por breves momentos inundou minha mente, senti saudades de coisas que jamais vivi (coisa que sinto toda vez que experimento uma boa obra “impressionista”, seja música, cinema ou artes plásticas) e um dia irei passa-la de minha mente para o papel, mas até lá ainda me regojizarei com ela em minha mente.
Mas a grande surpresa do álbum com certeza foi o Stabat Mater de Pärt. A única vez que esse texto havia me tocado tão profundamente em forma de música havia sido com a versão de Antonio Vivaldi. Eu já ouvi a de Pergolesi, a de Dvorák, e de outros, mas só as de Vivaldi e de Pärt tocam meu coração tão profundamente, talvez seja a grande ausência de sinais de alegria ou euforia, mas puramente a presença de dor e melancólica melodia.
Outro destaque do álbum é The Deer’s Cry, por algum motivo essa obra me faz me sentir profundamente cristão (coisa que já fui). Adoro ouvi-la aos domingos. O coro e os solistas cantam sublimemente, como se estivessem inundados de fé, e a história por trás da composição do texto da obra torna tudo mais saboroso; segundo o livrete, o texto cujo nome original é Lorica foi composto por São Patrício em 433. Sabendo de uma emboscada para matar ele e seus seguidores, São Patrício guiou seus homens pela floresta enquanto cantavam essa música. Eles então foram transformados em cervos que foram guiados por 20 gamos. Graças a esse milagre São Patrício e seus homens foram salvos. Apesar do fato de que cantar numa floresta enquanto foge é uma péssima ideia para despistar perseguidores, a história é bonita.
Certa vez ao entrevistar Arvo Pärt, a cantora Björk (que se diz uma fã da música de Pärt) descreveu a música do compositor como uma música que dá espaço ao ouvinte, e eu concordo plenamente, só acrescento que esse espaço é para que você sinta profundamente os sentimentos que lhe inundam ao ouvir essas obras. Seja “My Heart in the Highlands”, seja o “Stabat Mater” ou “The Deer’s Cry”. Não é a toa que o ideal por trás desse estilo de composição de Pärt seja “o amor por cada nota“, é justamente um estilo que busca fazer o ouvinte “meditar” profundamente sobre aquilo que ele ouve e sente em sua mente. Podemos amar tudo aquilo que compreendemos, mas aquilo que não compreendemos nós tememos, e por não compreendermos e temermos podemos chegar a odiar. Por isso a música do compositor é simples eu suponho, para que você possa compreendê-la e então amá-la.
Arvo Pärt (1935): Creator Spiritus
1. Veni creator (3:19)
2. The Deer’s Cry (4:38)
3. Psalom (5:05)
4. Most Holy Mother of God (4:34)
5. Solfeggio (4:46)
6. My heart’s in the highlands (8:40)
7. Peace upon you, Jerusalem (5:23)
8. Ein Wallfahrtslied (9:10)
9. Morning Star (3:17)
10. Stabat Mater (26:03)
Ars Nova Copenhagen
Paul Hillier
Theatre of Voices
Christopher Bowers-Broadbent, orgão
NYYD Quartet
Eu não sou exatamente um tarado pelas gravações do passado, mas quando se trata de Ferenc Fricsay (1914-1963) sou obrigado a ouvir. Mesmo com um som de segunda linha, aqui temos mais uma comprovação do toque de Midas de Fricsay. Esta gravação é lá do início dos anos 50 e é absolutamente espetacular, uma referência mesmo. A construção para o grande clímax do primeiro movimento é calculada mantendo um delicado equilíbrio entre os extremos. O controle magistral de Fricsay neste movimento é provavelmente o melhor na história, superando até mesmo Mravinsky. O segundo e terceiro movimentos estão bem equilibrados e matizados, pena o som apenas bom. E o final é tão comovente como podemos esperar que depois de três movimentos soberbamente executados.
Symphonie No. 6 Patética
1 Adagio – Allegro Non Troppo
2 Allegro Con Grazia
3 Allegro Molto Vivace
4 Finale: Adagio Lamentoso
5 Abertura 1812
6 Valsa de A Bela Adormecida
Berliner Philharmoniker
RIAS-Symphonie-Orchester Berlin y RIAS Kammerchor (faixas 5 e 6)
Ferenc Fricsay
Mais um belo disco com repertório desconhecido. A Holanda sempre se destacou na pintura e menos na música, né? O Concerto de Wilms é muito bom — tem um adágio inesquecível –, o de Schmitt é alegre e mozartiano e o de Fodor não deixa o cachimbo cair. A interpretação segue o alto padrão da gravadora Alpha. São concertos daquela época meio estranha: o barroco já fora embora, mas os clássicos ainda não estavam estabelecidos, ainda mais na Holanda da época, longe do glamour de Viena, Paris e da grande música alemã. A música de Fodor, esta sim já tinha a grandiosidade do clássico, apesar de um “Finale Turco”, que talvez provoque risos em nossa amiga Asli Berktay. A orquestra de Fodor já é mais potente e as introduções são longas como mandava o figurino da época. Bom disco, muito agradável!
Fodor (1768-1846), Schmitt (1734-1791) & Wilms (1772-1847): Concertos holandeses para piano
Johann Wilhelm Wilms
Concerto Pour Le Clavecin Ou Le Pianoforte Avec Plusieurs Instruments En Mi Majeur, Opus 3
1 – Allegro 12:45
2 – Poco Adagio 6:54
3 – Rondo Allegro 6:59
Joseph Schmitt
Quatuor Pour Le Pianoforte, Traverso, Violon & Violoncelle En Do Majeur, Opus 9 No.1
4 – Allegro Moderato 4:45
5 – Adagio 5:34
6 – Allegro Molto 2:16
Carolus Antonius Fodor
Concerto Pour Le Clavecin Ou Le Pianoforte Avec Plusieurs Instruments En Sol Mineur, Opus 12
7 – Allegro Con Fuoco 13:02
8 – Adagio Non Tanto 5:41
9 – Rondo Alla Turque, Allegro Non Troppo 8:04
Hoje, amados leitores, trago uma abordagem erudita da música eletroacústica. O legal é que ao contrário da abordagem popular, você não vai simplesmente ouvir aqueles puts puts que minha mãe, respeitosamente falando, gosta tanto de desdenhar, e que é tão clichê na música eletroacústica popular de hoje. Em alguns casos, ouviremos as boas e velhas cordas, sopros e a percussão junto das mágicas modernas que a tecnologia nos proporciona. Embora mais “modernices” do que os sons de costume, mas não tenham medo.
Pelo menos esse é o caso da abordagem de Anna Clyne, compositora britânica muito jovem (apenas 35 anos), mas que graças ao fato de ser uma compositora residente da Baltimore Symphony Orchestra, e pelo fato de a diretora musical dessa orquestra (Marin Alsop) ser também a diretora musical e regente titular da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP), tive a oportunidade de ver um ótimo concerto para violino (chamado The Seamstress, A Costureira) com elementos de eletroacústica (ma non troppo), e procurei saber mais da compositora.
Esse álbum foi uma das coisas que encontrei nessa empreitada, e fiquei bastante surpreso. Primeiro pelo fato de uma compositora do meio erudito com tal abordagem estar tendo o mínimo de atenção no cenário atual. Outros compositores jovens de nosso tempo só fazem sucesso recorrendo ao velho sistema tonal e as coisinhas bonitinhas de sempre. Isso quando não estão obcecados com a tentativa de inovar a custo de qualquer coisa. Segundo pelo fato de ela conseguir harmonizar tão bem algumas técnicas (como aquela que John Cage adorava fazer de criar “música” a partir da sintonia aleatória de vários rádios diferentes) com uma harmonia e melodias notáveis. Em uma das músicas ela faz isso, mas com apenas uma rádio trocando a sintonização algumas vezes, e fica incrivelmente bom, não sei se foi algo aleatório mesmo ou se foi algo planejado, mas achei adequado. Não tem nada de extremamente “modernoso” (ou pós-moderno) aqui, então é perfeitamente possível apreciar sem dificuldades.
A música eletroacústica não é o centro da música de Clyne, mas é uma ferramenta que ela parece usar periodicamente. Este álbum é, de certa forma, uma exceção, já que a música eletroacústica é o elemento mais utilizado. A primeira faixa, Fits + starts, apesar do estranhamento inicial que pode ocorrer, gruda na cabeça. O destaque do álbum, em minha humilde opinião, está em Roulette: cordas, atonalidade e vísceras com uma melodia perfeita que sabe a hora de descer, subir e dançar com os outros elementos da música.
Pessoalmente gostaria de ouvir mais abordagens na música erudita que trouxessem elementos da eletroacústica pra valer (como esse álbum), ou nem que fossem abordagens tímidas como a do concerto para violino de Anna Clyne que eu citei acima. No mundo contemporâneo temos acesso a uma gama incrível de dados, informações e claro, a uma variedade, inimaginável em outros tempos, a outros tipos de música, então porque nos restringirmos? É gostoso ouvir o bom e velho Mozart, mas um Messiaen de vez em quando não mata ninguém. Talvez não seja fácil abandonar os velhos gostos, mas relaxem, não abandonem nada, só tentem dar uma chance para novas experiências…
Anna Clyne (1980): Blue Moth
01 Fits + Starts
Anna Clyne & Benjamin Capps
02 Rapture
Anna Clyne & Eileen Mack
03 1987
Anna Clyne, Paul Taub, Laura Deluca, Mikhail Shmidt & David Sabee
04 Choke
Anna Clyne & Argeo Ascani
05 Roulette
Anna Clyne, Cornelius Dufallo, Mary Rowell, Ralph Farris, Dorothy Lawson, Caleb Burhans & Martha Cluver
06 Steelworks
Anna Clyne, Jennifer Gunn, John Bruce Yeh & Cynthia Yeh
Aos poucos venho ensaiando meu retorno ao PQPBach, por isso, não se surpreendam se novamente eu sumir por algum tempo. Problemas pessoais, aliados a questão do fechamento do PQPShare me deixaram um tanto desgostoso, então resolvi dar um tempo. Como estamos nos aproximando das festividades de comemoração dos 10 anos do blog, resolvi contribuir mais um pouco, na medida do possível, mas tenho me estressado um tanto quanto na questão da escolha do novo servidor. Ainda estou me decidindo entre o MEGA, cuja senha simplesmente esqueci, ou o Drive, que nosso mentor PQPBach vem usando.
Então trago mais um lançamento, mais uma gravação destes dois grandes concertos para violoncelo de Shostakovich, nas mãos muito competentes de Alisa Weilerstein, que encara os dois petardos com muita segurança e competência. Sugiro ouvirem algumas vezes seguidas este CD, para melhor apreciarem a qualidade da interpretação.
01 – Cello Concerto No. 1 in E Flat Major, Op. 107 – I. Allegretto
02 – Cello Concerto No. 1 in E Flat Major, Op. 107 – II. Moderato
03 – Cello Concerto No. 1 in E Flat Major, Op. 107 – III. Cadenza
04 – Cello Concerto No. 1 in E Flat Major, Op. 107 – IV. Allegro con moto
05 – Cello Concerto No. 2 in G Major, Op. 126 – I. Largo
06 – Cello Concerto No. 2 in G Major, Op. 126 – II. Scherzo, Allegretto
07 – Cello Concerto No. 2 in G Major, Op. 126 – III. Finale, Allegretto
Alisa Weilerstein – Cello
Symphonieorchester des Bayerschen Rundfunk
Pablo Heras- Casado – Conductor
Se alguém perguntar ao PQP quais são as dez obras musicais que ele mais ama, ele apontará vários autores, mas dentre as escolhas estarão certamente duas obras: A Oferenda Musical e as Variações Goldberg. São composições de estrutura semelhante que para mim são muito caras e consoladoras. Jordi Savall tem sempre algo de bom a acrescentar e ele novamente faz isso nesta gravação impecável e mais à flor da pele que a maioria. Eu, se fosse você, prestaria muita atenção à Oferenda; talvez até me fizesse acompanhar de um bom vinho. Vale a pena, ô se vale.
E olha a turma do Savall! Irmãos Hantaï, Cocset, Valetti… Só podia ser uma gravação campeã!
J. S. Bach (1685-1750): A Oferenda Musical, BWV 1079 (Savall)
1. Thema Regium – Traverso Solo (Bach) 0:30
2. Ricercar A 3 – Clavecin (Bach) 6:25
3. Canon Perpetuus Super Thema Regium (7) (Bach) 2:28
4. Canon 1 A 2 (Cancrizans) – Clavecin (Bach) 1:55
5. Canon 2 A 2 Violini In Unisono (Bach) 1:34
6. Canon 3 A 2 Per Motum Contrarium (Bach) 2:06
7. Canon 4 (A) Per Augmentationem, Contrario Motu (Bach) 2:36
8. Ricercar A 6 – Clavecin (Bach) 8:48
9. Sonata Sopr’ll Soggetto Reale: Largo (Bach) 6:30
10. Sonata Sopr’ll Soggetto Reale: Allegro (Bach) 5:30
11. Sonata Sopr’ll Soggetto Reale: Andante (Bach) 3:21
12. Sonata Sopr’ll Soggetto Reale: Allegro (Bach) 2:53
13. Canon A 2 Quarendo Invenietis (9A) – Clavecin (Bach) 1:41
14. Canon A 2 Quarendo Invenietis (9B) – Clavecin (Bach) 1:08
15. Canon 5 A 2 Per Tonos “Ascendenteque Modulatione Ascendat Gloria Regis” (Bach) 3:30
16. Fuga Canonica In Epidiapente (6) (Bach) 2:20
17. Canon4 (B) Per Augmentationem, Contrario Motu (Bach) 3:07
18. Canon Perpetuus (Per Justi Intervali) (8) (Bach) 3:28
19. Canon A 4 (10) (Bach) 4:41
20. Ricercar A 6 – Ensemble (Bach) 7:15
Excelente CD! Como Bach não determinou os instrumentos que deveriam ser utilizado na Oferenda Musical — à exceção da Trio-Sonata — cada conjunto faz como quer. Isso me deixa feliz porque muitas vezes as surpresas são grandes. Não é o caso desta Oferenda, altamente séria. É um registro convincente e de primeira linha, mas somos chatos e não conseguimos nos despregar de Savall, que fez talvez a melhor de todas Oferendas, trazendo quindins e as melhores Indulgências. Mas não se preocupem conosco, ouçam aí que a coisa é boa.
Johann Sebastian Bach (1685-1750): A Oferenda Musical (Il Gardellino)
1 Thema Regium 0:22
2 Ricercar a 3 voci 6:00
3 Canon perpetuus super thema regium 1:08
4 Canon a 2 cancrizans 1:02
5 Canon a 2 violini in unisono 0:51
6 Canon a 2 per motum contrarium 1:15
7 Canon a 2 per Augmentationem, contrario motu 2:01
8 Canon a 2 per Tonos 2:59
9 Fuga canonica in Epidiapente 2:13
10 Ricercar a 6 voci 7:12
11 Canon a 2 (Quaerendo invenietis) 2:12
12 Canon a 4 2:28
13 Trio Sonate. Largo 5:54
14 Trio Sonate. Allegro 6:03
15 Trio Sonate. Andante 3:18
16 Trio Sonate. Allegro 2:57
17 Canon perpetuus 3:21
Einige canonische Veränderung über das Weynacht-Lied: Vom Himmel hoch da komm ich her vor die Orgel mit 2 Clavieren und dem Pedal, BWV 769
18 Canone all’ottava 1:35
19 Canone alla quinta 1:36
20 Canto fermo in canone 3:27
21 Canone alla settima 3:03
22 Canon per augmentationem 3:17
Il Gardellino / Sophie Gent / Lorenzo Ghielmi / Vittorio Ghielmi / Jan de Winne
Eis mais um lançamento da Deutsche Grammophon, onde o veterano maestro e pianista Vladimir Ashkenazy nos apresenta Esther Yoo, mais uma fenomenal instrumentista, que apenas recentemente começou a aparecer na imprensa especializada. Detalhes sobre a biografia da moça podem ser encontrados no site dela. Os compositores não foram escolhidos por acaso, neste ano de 2016 comemoram-se os 150 anos de nascimento, tanto de Glazunov quanto de Sibeliius.
Música de primeira qualidade, intérpretes idem. Difícil alguma coisa não dar certo por aqui. Espero que apreciem.
01- Violin Concerto in A minor, Op.82
02- Violin Concerto in D minor, Op.47 – 1. Allegro moderato
03- Violin Concerto in D minor, Op.47 – 2. Adagio di molto
04- Violin Concerto in D minor, Op.47 – 3. Allegro, ma non tanto
05- Suite For Violin And String Orchestra, Op.117 – 1. Country Scenery
06- Suite For Violin And String Orchestra, Op.117 – 2. Evening in Spring
07- Suite For Violin And String Orchestra, Op.117 – 3. In the Summer
08- Grand Adagio
Esther Yoo – Violin
Philharmonia Orchestra
Vladimir Ashkenazy – Conductor
Digamos que eu seja conhecido aqui no blog por algumas declarações bombásticas. Pois, desta vez, não creio que vá ser muito discutida a afirmativa de que os Quartetos de Béla Bártok sejam a mais importante obra do século XX, até porque esta frase é meio consenso, meio convenção. Ora próximo ao Stravisnky da “fase russa”, ora próximo ao Beethoven dos últimos quartetos de Beethoven, Bartók casualmente distribuiu a composição dos mesmos de forma a traduzir as etapas de sua evolução artística — 1908, 1917, 1927, 1928, 1934 e 1939. O calhamaço História da Música Ocidental, de Jean e Brigitte Massin (1255 páginas), propõe que se ouça os último quartetos de Beethoven, emendando-os imediatamente com os de Bartók. A mesma força, a mesma nobreza, o mesmo espírito no tratamento das massas sonoras. Não que Bartók tenha imitado o mestre — ao contrário, Bartók não apenas tinha voz própria como bebeu nas mais diversas fontes: música folclórica, Debussy, Brahms, russos, Bach, etc.
Curiosa mistura de profunda erudição e absoluto “visceralismo”, os quartetos me chamaram a atenção durante a adolescência, por serem citados por todos os grandes escritores que gostavam de música: Erico Verissimo fala no Nº 3 e vários romancistas do pós-guerra citam o Nº 5 como uma obra inigualável, produzida pelo ódio ao nazismo que o fez exilar-se em 1940 nos EUA, já minado pela leucemia.
Não há como falar dos quartetos de Bartók de forma não apaixonada. É a maior música de nossa época e este é talvez o segundo ou terceiro CD que posto e que estão naquela categoria dos “dez mais” de minha discoteca / cedeteca.
Béla Bartók (1881-1945): Os Seis Quartetos de Cordas
CD1
1 String Quartet No 1 in A minor, op. 7 – Lento 9:22
2 String Quartet No 1 in A minor, op. 7 – Allegretto 10:29
3 String Quartet No 1 in A minor, op. 7 – Introduzione (Allegro) – Allegro vivace 10:21
4 String Quartet No 2 in A minor, op. 17 – Moderato 9:39
5 String Quartet No 2 in A minor, op. 17 – Allegro molto carpriccioso 7:39
6 String Quartet No 2 in A minor, op. 17 – Lento 7:52
7 String Quartet No 4 in C Major – Allegro 5:59
8 String Quartet No 4 in C Major – Prestissimo, con sordino 2:51
9 String Quartet No 4 in C Major – Non troppo lento 5:21
10 String Quartet No 4 in C Major – Allegretto pizzicato 2:54
11 String Quartet No 4 in C Major – Allegro molto 5:34
CD2
1 String Quartet No.3 in C sharp minor Sz93 – Prima parte: Moderato 4:35
2 String Quartet No.3 in C sharp minor Sz93 – Seconda parte: Allegro 5:34
3 String Quartet No.3 in C sharp minor Sz93 – Ricapitolazione della prima parte… 5:03
4 String Quartet No.5 in B flat major Sz110 – Allegro 7:39
5 String Quartet No.5 in B flat major Sz110 – Adagio molto 5:33
6 String Quartet No.5 in B flat major Sz110 – Scherzo (Alla bulgarese) & Trio 4:49
7 String Quartet No.5 in B flat major Sz110 – Andante 4:45
8 String Quartet No.5 in B flat major Sz110 – Finale (Allegro vivace) 6:58
9 String Quartet No.6 in D major Sz110 – Mesto – Vivace 7:33
10 String Quartet No.6 in D major Sz110 – Mesto – Marcia 7:36
11 String Quartet No.6 in D major Sz110 – Mesto – Burletta (Moderato) 7:12
12 String Quartet No.6 in D major Sz110 – Mesto 6:33
Entre as revelações que o jovem Daniel the Prophet fez a este velho monge destaca-se a música do inglês Nick Drake, usualmente catalogada como folk. Até há um mês eu nunca tinha ouvido falar, mas agora posso ouvir seu canto introvertido por horas e horas como se fosse uma única música, mais ou menos como faço com Purcell – o que poderia suscitar a hipótese de se dever à anglicidade dos dois… se o efeito não se estendesse a, entre outros exemplos, as lamentações vocais do inequivocamente franco Couperin.
Nicholas Rodney Drake nasceu na então Birmânia, que, muito britanicamente, era o local de trabalho do pai. Quando tinha quatro anos a família voltou pra Inglaterra, para uma vila de 3 mil habitantes não longe de Stratford-upon-Avon, terra daquele dramaturgo insignificante que vocês sabem o nome. Nick aprendeu piano com a mãe, Molly, que também tocava cello, compunha e cantava (do que há alguns testemunhos – gravações informais feitas em casa – no álbum Family Tree) – e talvez tenha legado ao filho também a sensibilidade exacerbada.
To make a long story short, Nick aprendeu escolarmente também clarinete e sax, e informalmente o violão, com colegas – justo o instrumento em que mais se destacou. Aos 19 anos foi estudar literatura em Cambridge – o que não faz pouco sentido, quando se constata o refinamento poético das letras. Aos 21, 23 e 24 anos lançou três discos que pouquíssima gente ouviu. E aos 26 morreu de overdose do que os médicos atochavam como antidepressivo na época.
Fim? Muito pelo contrário: nos 33 anos seguintes foram lançados sete outros discos com material que Nick havia deixado gravado (entre músicas inéditas e versões alternativas), e se é verdade que seus admiradores ainda constituem uma seita (sentido original, aliás, da palavra cult), essa seita não parou de crescer.
De início pensei em compartilhar aqui os três álbuns lançados em vida, mas ouvindo um pouco mais optei pelo terceiro e o sétimo dos póstumos. A razão é que Nick me parece ser daqueles artistas cujo talento brilha ao máximo no despojamento, na quase ausência de produção.
Pra terminar, declaro solenemente que estou morrendo de curiosidade quanto ao que vocês vão achar – e portanto adorarei que vocês não deixem de comentar!
TIME OF NO REPLY (1987)
01. Time Of No Reply
02. I Was Made To Love Magic
03. Joey
04. Clothes Of Sand [letra abaixo / lyrics bellow]
05. Man In A Shed
06. Mayfair
07. Fly
08. The Thoughts Of Mary Jane
09. Been Smoking Too Long
10. Strange Meeting II
11. Rider On The Wheel
12. Black Eyed Dog
13. Hanging On A Star
14. Voice From The Mountain
FAMILY TREE (2007)
01 Come Into The Garden (Introduction)
02 They’re Leaving Me Behind
03 Time Piece
04 Poor Mum (by Molly Drake)
05 Winter Is Gone
06 All My Trials (by Gabrielle Drake and Nick Drake)
07 Kegelstatt Trio For Clarinet, Viola And Piano by The Family Trio
08 Strolling Down The Highway
09 Paddling In Rushmere
10 Cocaine Blues
11 Blossom
12 Been Smoking Too Long
13 Black Mountain Blues
14 Tomorrow Is A Long Time
15 If You Leave Me
16 Here Come The Blues
17 Sketch 1
18 Blues Run The Game
19 My Baby’s So Sweet
20 Milk And Honey
21 Kimbie
22 Bird Flew By
23 Rain
24 Strange Meeting II
25 Day Is Done (Family Tree)
26 Come Into The Garden
27 Way To Blue (Family Tree)
28 Do You Ever Remember? (by Molly Drake)
BÔNUS
Clothes of Sand (ToNR 04) por Renato Russo (1994) [letra abaixo / lyrics bellow]
Who has dressed you in strange clothes of sand?
Who has taken you, far from my land?
Who has said that my sayings were wrong?
And who will say that I stayed much too long?
Clothes of sand have covered your face
Given you meaning but taken my place
So make your way on, down to the sea
Something has taken you so far from me.
Does it now seem worth all the colour of skies?
To see the earth, through painted eyes?
To look through panes of shaded glass?
See the stains of winter’s grass?
Can you now return to from where you came?
Try to burn your changing name?
Or with silver spoons and coloured light
Will you worship moons in winter’s night?
Clothes of sand have covered your face
Given you meaning but taken my place
So make your way on, down to the sea
Something has taken you, so far from me.