J. S. Bach (1685-1750): Variações Goldberg, BWV 988

Nada demais o Sr. Scott Ross. Um bom registro, mas que não chega a tocar nem de leve o de Pierre Hantaï. Ignoro quando foi gravado. Chutaria que a concepção da engenharia sonora — um tanto abrutalhada para captar o cravo — é dos anos 70 ou 80. Impossível ser mais recente.

É?

Fiquem com Hantaï.

Bach: Variações Goldberg, BWV 988

1. Aria
2. Variation 1
3. Variation 2
4. Variation 3
5. Variation 4
6. Variation 5
7. Variation 6
8. Variation 7
9. Variation 8
10. Variation 9
11. Variation 10
12. Variation 11
13. Variation 12
14. Variation 13
15. Variation 14
16. Variation 15
17. Variation 16
18. Variation 17
19. Variation 18
20. Variation 19
21. Variation 20
22. Variation 21
23. Variation 22
24. Variation 23
25. Variation 24
26. Variation 25
27. Variation 26
28. Variation 27
29. Variation 28
30. Variation 29
31. Variation 30
32. Aria da capo

Total Time: 75min44

Scott Ross, cravo

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PQP

Johann Friedrich Fasch (1688 – 1758): Abertura e Concertos

Mais um grande disco deste obscuro Johann Friedrich Fasch. Não sei o que o barroco alemão ainda guarda escondido. Já publiquei Heinichen? Sim? Mas um só? Céus! Quando publicamos Fasch pela primeira vez no PQP, soubemos que um de nossos leitores-ouvintes… Bem, deixemos que ele fale por si:

Fasch é extraordinário. Eu uso o Andante de seu Concerto em Ré bemol na abertura de meu documentário “Dresden, glória, morte e ressurreição”, cujo protagonista, na verdade, é o Crucifixus da Missa em Si menor.

Belo CD da cpo com destaque para os extraordinários solistas e para o material que o acompanha, cheio de informações acerca das obras e do compositor que, pasmem, nunca foi publicado em vida. Destaque também para as fotos da lata de Sergio Azzolini, a mais perfeita tradução do NERD BICHO-GRILO. Sim, ele existe. Tá esperando o que pra baixar?

IMPERDÍVEL!

Johann Friedrich Fasch: Concertos

Overture (Suite) for orchestra in G major
1. Ouverture
2. Air 1
3. Gavotte
4. Air 2
5. Bourrée
6. Menuet alternativement

Bassoon Concerto in C major
7. Allegro
8. Largo e staccato
9. Allegro

Concerto for 2 oboes, bassoon, strings & continuo in C minor
10. Allegro
11. Largo e sforzato
12. Allegro

Violin Concerto in A Major
13. [without indication]
14. Adagio
15. Alegro

# Concerto in D minor
16. [without indication]
17. Largo
18. Allegro

19. Concerto in E flat major (attrib.): Allegro

Sergio Azzolini, fagote
Veronika Skuplik, violino
La Stravaganza Köln

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PQP

J. S. Bach (1685-1750): Várias obras para teclado com… ahhhh

Sabem de uma coisa? A gente tem exigências sobrehumanas para com os músicos que gravam. Primeiro, porque estamos viciados na edição. Segundo, porque em nossa casa a gente pode ter o melhor. É justo. Porém, se eu ouvisse esta interpretação de Hélène Grimaud ao vivo, sairia muito feliz do concerto, mesmo que ela tenha concepções estranhas acerca de papai. Mas aí a gente põe a bunda na cadeira de nossa casa, liga o som e espera que venha um Pollini ou uma Argerich ou, no caso de Bach ao piano, um Gould ou um Schiff. A gente tem pouco tempo e não quer saber de nada de segunda linha. E aí, ouvindo este CD, cadê a pianista? Eu nada tenho contra mulheres bonitas — MUITO PELO CONTRÁRIO –, aliás, nada tenho contra mulheres em geral, mas o fato da Deutsche Grammophon apostar apenas na beleza é um escândalo inaceitável que tem se repetido. Há um verdadeiro harém na gravadora. Há meninos bonitos também: alguns agradam às mulheres, outros são tão jovens que devem estar mais ao gosto clerical.

Grimaud é ótima pianista, mas não era para ser uma estrela da DG. Este disco é agradável, apesar de Hélène acentuar as vozes sem lei de formação e sem nos dar aquela gloriosa sensação de descoberta que nos dão os enormes pianistas. O cara bisonho que escreve na Dicta & Contradicta sobre música deve gostar, mas para o PQP não serve. Mas eu comia. A pianista, bem entendido, não o crítico.

Não sou amante das transcrições, mas gostei da Chaconne. Ignoro a autoria. A transcrição de Liszt para o BWV 543 é, como sempre, meio descabelada e me diverti com ela por esta razão. Na verdade, dei risadas, mas ouvi muitas vezes, deliciado com a loucura.

Bach: Obras para teclado com… ahhhh

Das Wohltemperierte Klavier: Book 1, BWV 846-869
1. Prelude in C minor BWV 847
2. Fugue in C minor BWV 847

3. Prelude in C sharp minor BWV 849
4. Fugue in C sharp minor BWV 849

Concerto for Harpsichord, Strings, and Continuo No.1 in D minor, BWV 1052
5. I. Allegro
6. II. Adagio
7. III. Allegro

Das Wohltemperierte Klavier: Book 2, BWV 870-893
8. Prelude in D minor BWV 875
9. Fugue in D minor BWV 875

Partita for Violin Solo No.2 in D minor, BWV 1004 – Atualização posterior: Transcrição de FERRUCCIO BUSONI (1866–1924)
10. Chaconne in D minor

Das Wohltemperierte Klavier: Book 2, BWV 870-893
11. Prelude in A minor BWV 889
12. Fugue in A minor BWV 889

Prelude and Fugue in A minor, BWV 543
13. Prelude and Fugue (transcribed for piano by Franz Liszt)

Das Wohltemperierte Klavier: Book 2, BWV 870-893
14. Prelude in E major BWV 878
15. Fugue in E major BWV 878

Partita for Violin Solo No.3 in E, BWV 1006 (arr. for piano by Rachmaninov)
16. I. Preludio

Hélène Grimaud, piano

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Jakob Ludwig Felix MENDELSSOHN Bartholdy (1809 – 1847) – 200 anos – Sinfonia Italiana, Concerto para Violino, Op. 64, Marcha Nupcial

Pois eu tenho trabalhado muito e nem me dei conta. Ainda bem que o Villalobiano nos alertou. Hoje é o dia dos 200 anos de nascimento de Felix Mendelssohn. Eu não tinha nada preparado para postar, mas encontrei esta antiga e simpática gravação em meu micro e ela vai ter que nos salvar do fiasco de deixar passar em branco os 200 anos do grande Mendelssohn. Pena que eu não tenha uma outra gravação da já postada e por mim amada Sinfonia “A Reforma”.

Um brinde ao grande Mendelssohn!

(Cadê o FDP, hein? Este post era para ele!)

Felix Mendelssohn – 200 anos

Sinfonia nº 4 em lá maior, Op. 90, “Italiana”

01 Allegro Vivace
02 Andante con moto
03 Con moto moderato
04 Saltarello (Presto)

London Symphony Orchestra
Alfred Scholz

Concerto para Violino e Orquestra, Op. 64

05 Allegro molto appassionato
06 Andante
07 Allegretto non troppo – Allegro molto vivace

Jela Spitkova
New Philharmonic Orchestra
Milan Pohronec

08 A Midsummer Night’s Dream – Marcha Nupcial

London Symphony Orchestra
Alfred Scholz

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W. A. Mozart (1756-1791): Requiem and Church Sonatas

É claro que tenho em altíssima conta o Réquiem de Mozart. O que não entendo é o motivo que me leva a ter poucas gravações dele. Sempre foi assim. Fiquei feliz ao encontrar esta versão de Malgoire para o grande Réquiem. As outras gravações que possuo de Malgoire e de La Grande Ecurie et la Chambre du Roy — obras de Handel, Lully e Rameau — são entusiasmantes. E meu entusiasmo repetiu-se ao ouvir sua versão para a obra final de Mozart. Não tenho uma lista de melhores registros para o Réquiem, mas timidamente gostaria de inscrever CD como forte candidato a campeão. É antigo e foi reeditado muitas vezes com capas diferentes, uma mais feia que a outra — à exceção talvez da última… –, e o fato de ter tantas reedições (3 ou 4) já depõe a favor de sua qualidade.

Malgoire é um cara meio escandaloso: sua versão para a Música Aquática e Música para Fogos de Artifício incluem grande orquestra, segundo ele a orquestra prevista por Handel. São músicas festivas e o regente faz delas efetivamente uma festa. Porém, aqui, está contido como deve e, apesar de ter ouvido sempre minha pré-antiga gravação de Karl Böhm, sua abordagem me pareceu muito “compreensiva” para com a obra.

Imperdível.

Mozart: Requiem K. 626

1. I. Introitus: Requiem
2. II. Kyrie
3. III. Sequenz: No. 1 Dies irae
4. III. Sequenz: No. 2 Tuba mirum
5. Sequenz: No. 3 Rex tremendae
6. Sequenz: No. 4 Recordare
7. Sequenz: No. 5 Confutatis
8. Sequenz: No. 6 Lacrimosa
9. IV. Offertorium: No. 1 Domine Jesu
10. IV. Offertorium: No. 2 Hostias
11. V. Sanctus
12. VI. Benedictus
13. VII. Agnus Die
14. VIII. Communio: Lux Aeterna

Mozart: Church Sonatas

15. Church Sonata K. 278
16. Church Sonata K. 336
17. Church Sonata K. 329

Colette Alliot-Lugaz
Dominique Visse
Martyn Hill
Gregory Reinhart

Odille Bailleux, órgão

Nord Pas De Calais Regional Choir
La Grande Ecurie et la Chambre du Roy
dir. Jean-Claude Malgoire

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Cecilia Bartoli – Arie Antiche (Peças Italianas do Século XVIII)

Os CDs de cantores não são um gênero muito apreciado neste blog, só que este é o terceiro ou quarto que publicamos de Cecilia Bartoli, a maravilhosa romana nascida em 1966 e que antes dos 20 anos já era uma celebridade cacarejante. Adoro Bartoli! Mais: adoro seu repertório sempre raro e surpreendente. Arie Antiche é uma gravação de 1992, quando Cecilia tinha 26 anos, e concordo com este post que transcrevo aqui:

Nascida em Roma, Cecilia Bartoli estudou canto no Conservatório de Santa Cecília, na capital italiana, enquanto, ao mesmo tempo, era ensinada e acompanhada pelos seus pais, Silvana Bazzoni e Angelo Bartoli, ambos cantores profissionais.

Particularmente famosa por sua voz de mezzo-soprano coloratura e suas interpretações de Rossini e Mozart, destaques da sua espetacular carreira incluem o papel de Rosina (Il Barbiere di Siviglia), o papel título de La Cenerentola, Zerlina (Don Giovanni), Despina e Dorabella (Così fan tutte), Cherubino (Le nozze di Figaro) e L’anima del filosofo, de Haydn.

Nesta trilha, entretanto, ela canta uma ária de seu disco de 1990, Arie Antiche, onde interpreta, como o nome diz, árias antigas dos séculos XVII e XVIII. Caro mio ben, de Giuseppe Giordani (1751-1798) é uma ária que encanta pela delicadeza de interpretação, mostrando que Cecilia Bartoli não sabe fazer só coloratura.

Sim, eu sou seu fã desvairado.

É, eu também.

Cecilia Bartoli – Arie Antiche: Se tu m’ami – Peças italianas do Século XVIII

1 L’honestà negli amori, opera Già il sole dal Gange
Composed by Alessandro Scarlatti

2 La donna ancora è fedele, opera (with intermezzo “Filandra e Selvino”) Son tutto duolo
Composed by Alessandro Scarlatti

3 La donna ancora è fedele, opera (with intermezzo “Filandra e Selvino”) Se Florindo è fedele
Composed by Alessandro Scarlatti

4 Il Pompeo, opera O cessate di piagarmi
Composed by Alessandro Scarlatti

5 Work(s) Aria: Spesso vibra per suo gioco
Composed by Alessandro Scarlatti

6 Caro Mio Ben for voice & piano (or orchestra)
Composed by Giuseppe Giordani

7 Arminio, opera Pur dicesti, o bocca bella
Composed by Antonio Lotti

8 Intorno all’idol mio (soprano aria from opera “Orontea”)
Composed by Antonio Cesti

9 La Molinara, opera Nel cor più non mi sento
Composed by Giovanni Paisiello

10 Nina, o sia La pazza per amore, opera Il mio ben quando ve
Composed by Giovanni Paisiello

11 O Leggiadri Occhi Belli
Composed by Anonymous

12 Il mio bel foco (Quella Fiamma che m’accende), for cantata for soprano, 2 violins, 2 oboes & continuo, SF. 142 (spurious)
Composed by Benedetto Marcello

13 Selve amiche
Composed by Antonio Caldara

14 La Costanza in amor, opera Sebben, crudele
Composed by Antonio Caldara

15 Tu ch’ hai le penne, amore, for voice & continuo
Composed by Giulio Caccini

16 Se tu m’ ami
Composed by Alessandro Parisotti

17 Zingari in Fiera, opera Act 1, Chi vuol la zingarella
Composed by Giovanni Paisiello

18 Le Nouve Musiche, 1602 for voice & continuo
Composed by Giulio Caccini

19 Delizie Contente
Composed by Pietro Francesco Cavalli

20 Ottone in Villa, opera in 3 acts, RV 729 Sposa son disprezzata, aria
Composed by Antonio Vivaldi

21 Vittoria, mio core (Amante sciolto d’amore), cantata for soprano & continuo
Composed by Giacomo Carissimi

Cecilia Bartoli, soprano ou mezzo-soprano de coloratura
György Fischer, piano

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Christoph Willibald Gluck (1714 – 1787): Le Cinesi

Este é um Gluck bastante raro. As três cantoras, entre elas Anne Sofie von Otter, fazem papel de chinesas. O irmão de Lisinga volta da Europa e as meninas tratam de diverti-lo com árias de estilos contrastantes. Pouco sei sobre a obra, mas ela me agradou muito. É leve, tranquila e engraçada, porém como toda ópera, não prescinde da visualização. Gostaria de ver Anne Sofie como chinesa num DVD… É menos ópera e mais a “Ação Teatral” que algumas versões anunciam. Bom divertimento para uma noite que se anuncia como chuvosa. (Explico: Porto Alegre precisa urgentemente de chuva).

Gluck: Le Cinesi, action théâtrale en un acte

1 Sinfonia pour orchestre
2 E ben: stupide e mute… Recitativo (Lisinga-Sivene-Tangia-Silango)
3 Prenditi il figlio!… Aria (Lisinga)
4 Ah, non finir sì presto… Recitativo (Silango-Lisinga-Tangia-Sivene)
5 Son lungi e non mi brami… Aria (Silango)
6 Che vi par della scena?… Recitativo (Tangia-Silango-Lisinga-Sivene)
7 Non sperar, non lusingarti… Aria (Sivene)
8 Che amabilil pastoralla!… Recitativo (Silango-Lisinga-Sivene-Tangia)
9 Ad un riso, ad un’occhiata… Aria (Tangia)
10 Che ti sembra, Silango… Recitativo (Tangia-Silango-Lisinga-Sivene)
11 Voli il piede in lieti giri… Quartetto (Lisinga-Sivene-Silango-Tangia)libretto by Pietro Metastasio

first performed for the Royal family at
the Vienna Schlosshof on September 24, 1754

Isabelle Pouleard (Sibene)
Anne Sofie von Otter (Lisinga)
Gloria Banditelli (Tangia)
Guy De Mey (Silango)

Schola Cantorum Basiliensis
dir. René Jacobs

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J.S. Bach (1685-1750): Concertos de Brandenburgo com Pablo Casals

Meu amigo CVL me enviou esta gravação para que eu a postasse e comentasse. Não que eu vá fazer um grande comentário, mas, enfim, ele quis me dar esta honra! São os registros históricos que Pablo Casals (1876-1973) (em catalão Pau Casals) realizou com a Marlboro Festival Orchestra dos Concertos de Brandenburgo no ano de 1964.

Pablo Casals foi uma figura importantíssima do século passado. Violoncelista catalão e republicano, tornou-se o maior adversário de Franco fora da Espanha, recusando-se a voltar ao país antes do fim da ditadura franquista. Faleceu alguns anos antes do ditador. Era tanto uma figura pública — uma espécie de reserva moral viva, ilibada e talentosa da humanidade — quanto grande músico. Foi também o primeiro divulgador das Suítes para Violoncelo de Bach, num tempo em que estas eram consideradas apenas “obras de estudo”. Revelou-as ao mundo em gravações feitas entre os anos de 1936 e 1939. Meu pai as tinha em discos de 78 rotações, mas elas sumiram após sua morte. Lembro de ouvi-las no início dos anos 70, acompanhado de meu pai, que era a única pessoa na casa que conseguia fazer funcionar a geringonça do toca-discos. O som do cello, bastante amplificado, rivalizava com os chiados. Casals errava aqui e ali, o que tornava aquele registro quase ao vivo, interpretado em seu violoncelo veneziano de 1700 (algo fantástico na época), ainda mais emocionante (eu simplesmente amo gravações ao vivo, sem muita edição, sujas, e aquela era obviamente assim). No final de sua longa carreira, Casals passou a reger e é nesta condição que ele aparece aqui.

Apesar da orquestra inchada e do timbre inteiramente fora de moda nos dias de hoje, é um excelente registro. Casals não se dobra ao estilo romantizado de muitos de seus contemporâneos e faz uma abordagem decidida e estimulante. O som é muito bom e esta foi a versão crucial que ouvi lá pelos meus nove anos: estava dormindo em meu quarto quando alguém ligou bem alto a “eletrola” e a orquestra atacou o terceiro concerto. Aquilo me deixou de tal forma arrepiado, a emoção foi tão intensa que, de certa forma, ainda está presente em mim. Com um pouco de vontade de chorar, levantei rapidamente para descobrir que disco era “aquilo”.

Inteiramente sem querer, CVL me causou esta surpresa. Fui conferir no disco pesadão — mas já no formato LP — e era verdade. É a gravação de minha infância.

Bach (1685-1750): Concertos de Brandenburgo

1. Brandenburg Concerto No.1 In F Major,BWV 1046: 1. (Allegro)
2. Brandenburg Concerto No.1 In F Major,BWV 1046: II. Adagio – III. Allegro
3. Brandenburg Concerto No.1 In F Major,BWV 1046: IV. Menutto -Trio I – Polacca – Trio II

4. Brandenburg Concerto No.2 In F Major, BWV 1047: I. (Allegro)
5. Brandenburg Concerto No.2 In F Major, BWV 1047: II. Andante
6. Brandenburg Concerto No.2 In F Major, BWV 1047: III. Allegro assai

7. Brandenburg Concerto No.3 In G Major, BWV 1048: I. (Allegro)
8. Brandenburg Concerto No.3 In G Major, BWV 1048: 1a. Adagio
9. Brandenburg Concerto No.3 In G Major, BWV 1048: II. Allegro

10. Concerto No. 4, BWV 1049/I. Allegro (Instrumental) Alexander Schneider;Marlboro Festival Orchestra;Pablo Casals 6:57
11. Concerto No. 4, BWV 1049/II. Andante (Instrumental) Alexander Schneider;Marlboro Festival Orchestra;Pablo Casals 3:21
12. Concerto No. 4, BWV 1049/III. Presto (Instrumental) Alexander Schneider;Marlboro Festival Orchestra;Pablo Casals 4:33

13. Brandenburg Concerto No. 5 in D Major, BWV 1050/I. Allegro Rudolf Serkin 10:56
14. Brandenburg Concerto No. 5 in D Major, BWV 1050/II. Affettuoso Rudolf Serkin 5:38
15. Brandenburg Concerto No. 5 in D Major, BWV 1050/III. Allegro Rudolf Serkin 5:31

16. Concerto No. 6, BWV 1051/I. Allegro Pablo Casals;Peter Serkin 6:29
17. Concerto No. 6, BWV 1051/II. Adagio ma non tanto Pablo Casals;Peter Serkin 5:03
18. Concerto No. 6, BWV 1051/III. Allegro Pablo Casals;Peter Serkin 3:02

Donald MacCourt ,
Joyce Kelley,
Ornulf Gulbransen,
A. Robert Johnson,
Myron Bloom,
John Mack,
Joseph Turner,
Peter Christ,
Ronald Richards
Robert Nagel
Alexander Schneider [violin]
Barbara Wilson,
Julius Levine,
Joyce Kelley,
Bonnie Hampton
David Soyer
Hermann Busch
Ko Iwasaki
Madeline Foley
Mischa Schneider
Peter Schenkman
Robert Sylvester
Nancy Dalley
Ornulf Gulbransen
Peter Serkin
John Mack
Joseph Turner
Patricia Grignet
Rudolf Serkin

Pablo Casals (Conductor)
Marlboro Festival Orchestra (Orchestra)

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Datas

Todo o início de ano há rituais a cumprir. Um deles: percorrer cronologias e biografias à procura de compositores com datas redondas que permitam homenageá-los. Celebram-se nascimentos. Relembram-se mortes. Uma breve pesquisa e logo se vai preenchendo uma relação, às vezes mínima, às vezes exagerada, de possíveis homenageáveis num ano que começa. Com eles se recheia o programa de concertos como se se recheasse empadas ou pastéis – alguns compositores serão o recheio principal, outros haverão de cumprir o papel da proverbial azeitona. Uns serão o gosto permanente da empada musical. Outros serão o sabor delicioso que logo se vai. Essa é a hora, então, de colocar em marcha o ritual. Sem muita procura, a música europeia logo nos entrega quatro candidatos: Henry Purcell e os seus 350 anos de nascimento, os 250 anos da morte de Händel, os 200 da morte de Haydn, os dois séculos que nos separam do nascimento de Mendelssohn.

Quarteto fantástico, esse! Seus integrantes estão prontos a atender as demandas dos programas das orquestras que hoje, à custa de repertórios cada vez mais petrificados na tradição, caminham na direção firme da obsolescência. Purcell, diz a BBC, marca o nascimento da música britânica – embora uns 300 anos antes tenha existido John Dunstaple e um pouco depois Thomas Tallis tenha feito a glória musical dos Tudors. A música de Händel recém foi ouvida, pois é ele o compositor do coro de aleluia que encerra a parte relativa ao nascimento de Cristo no seu oratório Messias e que por isso é cantado a plenos pulmões em dezembro por coros e comerciais de TV. Mendelssohn, já em pleno romantismo da primeira metade do século 19, foi compositor mediano mas com ocasionais lampejos de genialidade que o tornam bastante agradável, para ouvir sem esforço. Quanto a Haydn – bem, este é o caso clássico de compositor que possibilitou a existência musical de outros dois, neste caso Mozart e Beethoven, que a ele renderam homenagens mas que, ultrapassando-o, o jogaram num esquecimento que nem efemérides evitam.

Que importância têm esses compositores para nós, ao sul do Equador? Provavelmente nenhuma, embora vamos encontrá-los durante o ano todo num e noutro concerto ou recital. Talvez seja o caso de não procurar longe o que está perto: a nossa música brasileira, o que apresenta de compositores e suas datas redondas? Há, sim, o que assinalar. Há os 80 anos de Ernest Mahle, o compositor de Piracicaba que é uma espécie de Hindemith brasileiro, no seu neoclassicismo funcional e na sua música espraiada pelos mais diversos instrumentos. Há os 70 anos de Lindembergue Cardoso que, falecido em 1989, foi um dos fundadores do Grupo de Compositores da Bahia, essencial para a renovação da música brasileira de concerto dos anos 1960 e 1970. Há também os 70 anos de Ricardo Tacuchian, músico carioca que revitalizou a Academia Brasileira de Música e que compõe com mão segura. Deve haver ainda outros, mas esses a memória ainda não alcança.

Para lembrar há, antes de mais nada, os 50 anos da morte de Heitor Villa-Lobos. Lembro do dia em que morreu, embora àquela altura ainda não tivesse ouvido uma nota sequer da sua música. A trajetória de Villa-Lobos nestes 50 anos tem sido acidentada pois só os que têm muita coragem ainda desbravam a sua música, aqui e lá fora. Orquestras, então, nem se fala! Publicadas por editora francesa, as suas partituras ainda tem direitos autorais de preços elevados e nem sempre os orçamentos permitem aventuras fora do repertório de domínio público. Mais: como me dizia certa vez o musicólogo Régis Duprat, na música de Villa-Lobos todos tocam tudo ao mesmo tempo, o que requer paciência e competência, coisas que às vezes rareiam. Assim, Villa-Lobos tem sido menos ouvidos do que deveria e ainda é incerto o destino das suas Bachianas Brasileiras, dos seus Choros.

Se há um aniversário, no entanto, que a música brasileira deve comemorar sem ressalvas é o do amazonense Cláudio Santoro, que estaria comemorando os seus 90 anos, não tivesse falecido em 1989 em meio a crises musicais e institucionais. São duas datas redondas e aí está: Santoro é o compositor do ano. A sua trajetória ideológica é interessantíssima, foi central a sua posição na música em Brasília que viu o seu expurgo e acolheu o seu retorno. A música segue os mesmos caminhos do compositor. Iniciando como integrante ativo do Grupo Música Viva que nos anos 1930 trouxe o modernismo para a música brasileira, Santoro construiu uma obra que vai da miniatura à sinfonia, da música de câmara ao pioneirismo da música eletroacústica, do abstrato ao engajamento explícito. Tivesse a música de concerto uma posição menos periférica na cultura brasileira, este seria o momento de celebrar Santoro. Pois não há dúvida que o Brasil deve mais a ele do que a Purcell, Mendelssohn, Haydn ou Händel.

CELSO LOUREIRO CHAVES, músico.
Publicado em Zero Hora no dia de ontem.

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.: interlúdio :. The Dowland Project: Romaria

Não é um CD de música erudita. Ou é. É música antiga, mas não há Dowland aqui, apesar de que nos dois CDs anteriores do The Dowland Project havia. Vou tentar explicar: são arranjos para tenor, saxes (muitos), violino e algo como o alaúde. Trata-se de uma coleção de canções muito bonitas, interpretadas com extrema sensibilidade, delicadeza e respeito. Não são arranjos comuns, daqueles que trazem um compositor antigo para uma linguagem atual ou para a linguagem dos músicos, até porque aqui não há de modo algum uma linguagem comum — ou seja, não é aquele horror habilidosinho francês ao estilo de Jacques Loussier –, são antes recriações de músicos muito diferentes entre si sobre compositoções antigas, buscando uma terceira expressão, através de um outro grupo de instrumentos e culturas. Talvez o The Dowland Project faça alguns puristas mais xiítas se morderem de ódio. Porém, ficarei autenticamente desconfiado de sua qualificação como ouvintes… Sério.

Este é mais um grupo que tem como participante o genial saxofonista e claronista inglês John Surman.

Encontrei um texto anônimo circulando na rede. Muito bom.

This is a disc of whispered conversations: among musicians, cultures and periods – past, present and future. Anonymous composers from the Franus Codex and the Carmina Burana manuscript break bread with Josquin and Lassus, while ancient instruments freely consort with modern.

With a revised line-up, John Potter’s Dowland Project expands its repertoire on its third album, freely exploring love songs, chants and motets from the 12th century to the present by Oswald von Wolkenstein, Orlando di Lasso, Josquin Desprez and others including the anonymous composers of the Carmina Burana manuscript. New to the Project is Miloš Valent, the vibrant violinist and violist from Slovakia who is equally at home in early music and in the gypsy and folk musics of eastern Europe. Like English reedman John Surman and American lutenist Stephen Stubbs he is also able to improvise beyond the traditions: these richly atmospheric pieces are reborn in the interaction of the players.

Imperdível!

The Dowland Project: Romaria ECM 1970 [CD]

1. Got schepfer aller dingen (‘Der Kanzler’) 4:34
2. Veris dulcis (Carmina Burana manuscript) 5:14
3. Pulcherrima rosa (Franus Codex) 5:31
4. Ora pro nobis (anonymous) 4:13
5. La lume (traditional Iberian) 4:22
6. Dulce solum (Carmina Burana manuscript) 6:53
7. Der oben swebt (Oswald von Wolkenstein) 4:59
8. O beata infantia (Gregorian) 3:35
9. O Rosa (traditional Iberian) 4:48
10. Saudade (Valent/Surman/Stubbs) 6:18
11. In flagellis (Josquin Desprez) 3:52
12. Kyrie Jesus autem transiens (Firminus Caron) 3:30
13. O beata infantia (Gregorian) 3:53
14. Credo Laudate dominum (Orlando di Lasso) 3:57
15. Ein gut Preambel (Hans Neusidler) 0:57
16. Sanctus Tu solus qui facis (Josquin Desprez) 4:30
17. Ein iberisch Postambel (Valent/Surman/Stubbs) 5:48

recorded January 2006, Propstei St. Gerold

John Potter, tenor voice;
John Surman, soprano saxophone, bass clarinet, tenor and bass recorders;
Milos Valent, violin, viola;
Stephen Stubbs, baroque guitar, vihuela

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

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Um dia, eu ou FDP mataremos alguém por pura inveja

A revista Pequena Morte — cujo editor é nosso frequente comentador Hugo Langone, que até já nos enviou arquivos para serem postados — e o “amigo” deste blog Milton Ribeiro realizaram uma entrevista com a divina Emma Kirkby. Fizeram-na (a entrevista, bem entendido) pelas costas, sem nos dar a oportunidade de participar deste FESTIM DIABÓLICO. Porém, como temos um enorme coração, um coração autenticamente bachiano, CONCEDEREMOS em divulgar a entrevista. Temos certeza de que as perguntas desses dois foram ABSOLUTAMENTE OBTUSAS E OCIOSAS, mas que não EMPANARAM o brilho da maravilhosa cantora. FDP Bach deve estar subindo pelas paredes, pois em certa oportunidade chegou a confessar em nosso blog que seus MAIS ALTOS e MAIS BAIXOS instintos manifestavam-se por Emma. A entrevista dos putos está BEM AQUI, Ó.

Uma grande morte para a dupla.

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The Dmitri Shostakovich Edition (CDs 13, 14 e 15 de 27)

SÉRIE IM-PER-DÍ-VEL!!!

CD 13

Aqui, temos a continuidade dos quartetos de cordas em arranjo para orquestra. O primeiro quarteto pode ser desprezado, o segundo absolutamente NÃO e o terceiro idem, mas com menos veemência.

Chamber symphony Op. 49a “Eine kleine Symphonie” (Arrangement of String Quartet No. 1)
1. Moderato 4:22
2. Moderato 4:53
3. Allegro Molto 2:44
4. Allegro 3:31

Chamber symphony Op. 110a (Arrangement of String Quartet No. 8 )
5. Largo 4:45
6. Allegro molto 3:40
7. Allegretto 4:29
8. Largo 4:29
9. Largo 3:41

Chamber symphony Op. 118a (Arrangement of String Quartet No. 10)
10. Andante 5:16
11. Allegretto furioso 4:14
12. Adagio 7:01
13. Allegretto 10:00

Orchestra Sinfonica di Milano Giuseppe Verdi
Rudolf Barshai, conductor

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CD 14

Em um famoso conto de Machado de Assis, Um Homem Célebre, havia um grande compositor de polcas, o Pestana, que queria fazer algo maior, grandioso, mas – que diabo! – só lhe saíam mais polcas. O que fazer? O personagem fazia o maior esforço, passava meses trancado em casa a fim de parir a grande obra, porém não produzia nada além de belas polcas, que logo se tornavam popularíssimas e eram assobiadas pelo povo nas ruas, para desespero do Pestana. Estas eram compostas copiosa e rapidamente. Acabou rico, infeliz e doente. Coitado.

Com Shostakovitch o caso é diferente. Compôs copiosamente obras-primas, tem obra profunda e numerosa, mas, um belo dia, resolveu escrever suítes para grupos de jazz. Vocês podem adivinhar o que aconteceu? Saíram apenas… polcas. Polcas e valsas. O timbre é o do jazz – não poderia ser diferente com aquela formação orquestral -, já a música são as polcas do personagem machadiano. Ah, vocês não acreditam? Então ouçam o CD abaixo. É um bom disco, há a espetacular Valsa 2 da Suíte Nro. 2, que foi utilizada por Stanley Kubrick na abertura de De Olhos bem Fechados, com um ritmo e um solo de sax que nos obriga a levantar e ensaiar uns passinhos pela sala, há várias polquinhas bem legais e há uma imitação marcial de Duke Ellington que dá para rolar de rir. É o “Grande Projeto Falhado” do imortal Shosta e, mesmo assim, é muito bom e divertido.

Suite For Variety Orchestra No.1 (Jazz Suite No.2)
1. March 3:04
2. Dance No.1 2:56
3. Dance No.2 3:39
4. Little Polka 2:33
5. Lyric Waltz 2:38
6. Waltz no.1 3:21
7. Waltz no.2 3:34
8. Finale 2:13

9. Overture On Rusian And Kirghiz Themes Op.115 9:19

Jazz suite No.1
10. Waltz 2:19
11. Polka 1:38
12. Foxtrot 3:47

13. Novorossijsk Chimes 2:32

14. Festive Overture Op.96 5:46

National Symphony Orchestra Of Ukraine,
Theodore Kuchar

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CD 15

Para o meu gosto, o CD mais fraco de toda a coleção. O Límpido Regato tem momentos… engraçadinhos.

The Bolt, Ballet Suite Op. 27a
1. Overture 6:34
2. Polka 2:36
3. Variation 1:49
4. Tango 5:07
5. Intermezzo 3:50
6. Finale 3:23

The Limpid Stream, Ballet Suite Op. 39a
7. Waltz 2:23
8. Russian Lubok 2:30
9. Galop 1:57
10. Adagio 7:19
11. Pizzicato 1:12

The Golden Age, Ballet Suite Op. 22a
12. Overture 3:54
13. Adagio 8:40
14. Polka 2:08
15. Dance 2:10

National Symphony Orchestra of Ukraine,
Theodore Kuchar

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Apoie os bons artistas, compre sua música!

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.: interlúdio :. A baronesa que amou Thelonious Monk

Pelo grande pianista – e por amor ao jazz – a herdeira de uma nobre família britânica largou tudo. A história de Kathleen Annie Pannonica Rotschild, ou simplesmente Nica, está contada em um novo documentário dirigido por sua sobrinha-neta.

Ao descobrir que amava os músicos de jazz, Kathleen Annie Pannonica Rothschild, esposa do barão Jules de Koenigswarter, mudou sua vida – a sua e a deles também. A baro­nesa pagou seus aluguéis, resgatou seus instrumentos hipotecados em lojas, levou-os a shows em seu Bentley prata e convidou-os a morar em sua própria casa nos tempos mais difíceis.

Diante da desaprovação da sua família, ela apoiou de músicos proeminentes, como Sonny Rollins, Charles Mingus e Art Blakey, aos obscuros. Um deles, do qual ficou indissocia­vel­mente ligada, foi Thelonious Monk. Pannonica, ou Nica, se apaixonou pela música do sumo sacerdote do bebop em 1952, ao ouvir Round Midnight. Em 1954, quando ele tinha 34 anos, e ela, 40, iniciaram uma relação cuja essência desafia analistas – e que só terminou com a morte dele.

Pannonica, assim chamada em homenagem a uma borboleta rara, era a caçula do banquei­ro e entomologista Charles Roths­child. O homem, que sofria de depres­são, cometeu suicídio quando ela tinha 12 anos e estava prestes a embarcar numa adolescência que para uma Rothschild só poderia representar, como ela diz em The Jazz Baroness, documentário recém-lançado por sua sobrinha-neta, Hannah, “uma sala de espera para o casamento e a maternidade”.

Tudo, então, mudou: artista talentosa, aos 18 anos ela estudava arte em Munique. Aprendeu a voar e, aos 22, casou-se com Jules, um colega aviador. Eles moraram em um castelo no noroeste da França, onde tiveram os filhos Patrick e Janka. A II Guerra levou o barão para a África, depois de ele aderir ao exército de De Gaulle.

Nica foi com o marido. Depois da guerra, o barão virou diplomata, primeiro na Noruega, a seguir no México. Eles tiveram outros três filhos – Berit, Shaun e Kari – mas, relata Hannah Rothschild, “Nica não se adaptou à vida de mulher de embaixador”. Em 1952, o casal se separou. E a baronesa foi para Nova York.

Três anos mais tarde, o divórcio foi incitado depois que Charlie Par­ker morreu no seu apartamento, no Hotel Stanhope, na 5th Avenue. O grande trompetista estava em turnê quando começou a tossir sangue. Um médico sugeriu repouso – é quando a casa de Nica entra na história. Três dias depois, enquanto viam TV, Parker caiu de súbito e morreu. Os Rothschild não gostaram da repercussão do caso.

Jules ganhou a guarda dos três filhos mais novos. Nica não foi uma mãe negligente, mas suas prioridades estavam noutro lugar, geralmente com Monk. O genial compositor e pianista tinha uma esposa, a quem dedicou Crepuscule with Nellie. Com a baronesa, o casal formou uma espécie de ménage – cujo principal objetivo era o de sustentá-lo e transpor o que provavelmente hoje seria diagnosticado como transtorno bipolar. “Nellie precisava de Nica para ajudá-la a lidar com a instabilidade de Monk”, diz um entrevistado do filme.

O par se tornou conhecido em clubes de Nova York, mas o espetáculo de uma mulher branca com um homem negro na década de 1950 acabou por provocar incidentes. Um deles: Nica levava Monk e seu saxofonista, Charlie Rouse, a um show em Wilmington, Delaware, quando, durante uma breve parada, um policial vasculhou o carro e encontrou uma pequena quantidade de maconha. Sabendo que uma condenação para os músicos significaria a proibição de se apresentar em casas noturnas, Nica assumiu a culpa, passou a noite na cela e foi condenada a três anos de prisão – o que seria anulado posteriormente.

Cansada de ser convidada a se reti­rar de hotéis por gerentes que não gostavam do entra-e-sai de músicos, a baronesa comprou uma mansão em New Jersey. Lá, instalou o piano Steinway que comprara para Monk, junto com seus – mais de 300 – gatos. Ele e Nellie se mudaram para lá.

De saúde instável, o jazzista morreu em 1982, aos 64 anos. Seis anos mais tarde, Nica, então com 75, não sobreviveu a uma cirurgia. Sua generosidade, contudo, não morreu com ela. A casa, pertencente a seus herdeiros, tem sido ocupada por Barry Harris, outro pianista. Tempos depois, as cartas de Nica foram descobertas entre os papéis do pianista Mary Lou William, outro amigo próximo, junto com várias de suas requintadas pinturas abstratas. Fragmentos das cartas, lidos pela atriz Helen Mirren, são ouvidos no filme, incluindo o veredito sobre seu casamento: “Jules odiava jazz. Ele se acostumou a quebrar meus discos quando eu me atrasava para jantar. Eu geralmente estava atrasada para jantar.”

Quanto aos seus amigos músicos, Hannah os descreveu, no lançamento do longa, como “as mais dignas, humanas e articuladas pessoas que conheci em 20 anos fazendo documentários.” Não deixa de ser uma resposta para quem se pergunta por que razão a discografia do jazz pós-guerra é estudada com um nome exótico, em um catálogo de composições que inclui não apenas a Pannonica de Monk, mas Nica’s Dream, Nica Steps Out, Blues for Nica e uma dúzia de outras.

O documentário não tem previsão de lançamento no Brasil.

The Guardian – Publicado hoje em Zero Hora

C. P. E. Bach (1714-1788) – Sonatas para pianoforte com acompanhamento de violino e violoncelo (Five Piano Trios)

Adoro este CD do Trio 1790. Adotei a longa caracterização original de C.P.E., mas trata-se apenas daquilo que chamaríamos simplesmente de “Trios para piano”. E por que gosto tanto dele? Ora, A MÚSICA DE MEU IRMÃO É MUITO BOA e a SONORIDADE do Trio 1790 me é absolutamente SEDUTORA. Cada vez que coloco este CD da cpo no CD Player, ele fica ali por dias e dias, tantas são as vezes que o ouço. Quando o trio faz um tutti tenho vontade de voltar um pouquinho para reouvi-lo. Talvez um dia ME DÊ O DESEJO DE LAMBER O CD, mas ainda não foi necessário, principalmente porque há COISAS MAIS LAMBÍVEIS aqui em casa. Sou ESPECIALMENTE ADITO do pernicioso, estranho e viciante Arioso com nove variações, mas o restante também é bom e não causa dependência química, apenas timbrística.

Excelente CD.

C. P. E. Bach – Sonatas para pianoforte com acompanhamento de violino e violoncelo

1. Son Wq 90 No.3 in C: Allegro Di Molto
2. Son Wq 90 No.3 in C: Larghetto
3. Son Wq 90 No.3 in C: Allegretto

4. Son Wq 89 No.1 in B flat: Allegretto
5. Son Wq 89 No.1 in B flat: Larghetto
6. Son Wq 89 No.1 in B flat: Allegro

7. Son Wq 91 No.3 in F: Andante – Allegro Assai
8. Son Wq 91 No.3 in F: Adagio
9. Son Wq 91 No.3 in F: Allegretto

10. Son Wq 89 No.5 in e: Allegretto
11. Son Wq 89 No.5 in e: Larghetto
12. Son Wq 89 No.5 in e: Allegro

13. Son Wq 89 No.6 in D: Allegro
14. Son Wq 89 No.6 in D: Andantino
15. Son Wq 89 No.6 in D: Allegro

16. Son Wq 91 No.4 in C: Arioso With Nine Vars

Trio 1790
Harald Hoeren, pianoforte
Matthias Fischer, violino
Philipp Bosbach, violoncelo

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Dica do Gustavo

Prezados,
Uma dica: uma rádio que toca somente músicas de Beethoven durante as 24 horas do dia. Creio que deve ser mantida pela American Beethoven Society, pois o locutor está sempre convidando os ouvintes a se tornarem sócios desta sociedade. O nome da rádio é All Beethoven Web Radio (da San Jose State University), neste link. Quando a página abrir procure em All-Beethoven web radio.

Ou então, usem o link direto:

24 horas do Mestre dos Mestres !
Abraço,
Gustavo

Nota de PQP: Mestre dos Mestres? Para lá! O número 2 dos Mestres, né, meu?

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F. J. Haydn (1732-1809) – Concertos para Oboé, Trompete e Cravo

Sem dúvida, um disco muito bom. Haydn, considerado por alguns ignaros um “compositor menor”, foi um mestre da forma sinfônica — e comprovou tal fato 104 vezes –, o inventor do quarteto de cordas — só isso já bastaria para dar-lhe lugar de destaque na história da música –, o compositor de belas e estranhamente alegres missas e oratórios, foi professor de Mozart e Beethoven e… talvez o mais curioso em sua trajetória é que foi um sujeito feliz e bem normal. Só no fim de sua vida deixou de ser empregado. Foi demonstrar sua arte em Londres, onde compôs suas sinfonias finais, para pasmo e felicidade daquele país quase sem compositores. Será que pensou que poderia ter ficado rico se tivesse se aventurado antes pelo mundo? Pode até ter pensado, mas da forma sorridente e sem ressentimentos de sua arte.

Eu gosto muito de Haydn e este CD com seus concertos menos divulgados — pois os para violoncelo são, com justiça, os mais ouvidos — é inteiramente satisfatório.

(Lembro agora da única vez que vi Rostropovich tocar. Foi no Colón, em Buenos Aires. Fiquei lá em cima no meio da plebe a qual pertenço. Visualmente, só conheci direito sua careca lustrosa. Mas ouvi o som. Que som, meus amigos! E era o Concerto Nº 2 para violoncelo e orquestra de Haydn. Estou arrepiado só de lembrar. E morrerei sem esquecer).

Excelente CD!

Haydn – Concertos para Trompete, Oboé e Cravo

Concerto for Oboe and Orchestra in C major Hob VIIg-C1
1. 1. Allegro spiritoso – Paul Goodwin, Trevor Pinnock, The English Concert
2. 2. Andante – Paul Goodwin, Trevor Pinnock, The English Concert
3. 3. Rondo (allegretto) – Paul Goodwin, Trevor Pinnock, The English Concert

Concerto for Trumpet and Orchestra in E flat major Hob VIIe-1
4. 1. Allegro – Mark Bennett, The English Concert, Trevor Pinnock
5. 2. Andante – Mark Bennett, Trevor Pinnock, The English Concert
6. 3. Allegro – Mark Bennett, Trevor Pinnock, The English Concert

Concerto for Harpsichord and Orchestra in D major Hob XVIII-11
7. 1. Vivace – The English Concert, Trevor Pinnock
8. 2. Un poco adagio – The English Concert, Trevor Pinnock
9. 3. Rondo all’Ungherese – The English Concert, Trevor Pinnock

Paul Goodwin, oboe
Mark Bennett, trumpet
Trevor Pinnock, harpsichord

English Concert
dir. Trevor Pinnock

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J. S. Bach (1685-1750): A Oferenda Musical, BWV 1079

Em primeiro lugar, digo a vocês que a Oferenda, as Variações Goldberg e a Missa em Si Menor são as obras de meu pai que mais aprecio. Tudo bem, há as outras mil e já estou me sentindo culpado pelos Brandenburgo, Suítes para Violoncelo, Violino, Cravo Bem Temperado, umas vinte Cantatas, a São Mateus e João… Enfim, a culpa que cale-se pois ainda assim deixo estas três escolhas um milímetro acima de todas as outras. Então é natural que eu babe cada vez que descubro um novo registro destas maravilhas.

Porém nosso informado visitante pergunta:

– But who the fuck is Ensemble Aurora?

Pois é, quando eu baixei este CD — do qual excepcionalmente não possuo o original –, fiz-me a mesma pergunta e fui ouvir a Oferenda com um pé atrás. Besteira, trata-se de uma gravação magnífica, tão magnífica que é melhor suportar algumas falhas (um irritante tsc, tsc, tsc que logo depois some) em alguns momentos da Trio Sonata. Se alguém reclamar desta falha, favor dirigir-se a nosso mal-humorado SAC, que hoje acaba de fazer mais uma vítima.

Com vocês, mais um absolutamente imperdível!

JOHANN SEBASTIAN BACH – MUSICALISCHES OPFER BWV 1079

1. Ricercar a 3 5’15
2. Canon perpetuus super Thema Regium 1’20

Canones diversi super Thema Regium
3. 1, a 2. cancrizans 1’14
4. 2, a 2. Violin in unissono 0’44
5. 3, a 2. per motum contrarium 1’00
6. 4, a 2. per Augmentationem, contrario Motu 1’36
7. 5, a 2. per Tonos 2’37
8. Fuga canonica in Epidiapente 2’14
9. Ricercar a 6 5’37

Quaerendo invenietis

10, Canon a 2 1’07
11, Canon a 4 2’58

Sonata Sopr’Il Sogetto Reale a Traversa, Violino e Continuo
12. 1, Largo 5’45
13. 2, Allegro 5’46
14. 3. Andante 3’06
15. 4. Allegro 3’00

16. Canon perpetuus 2’03

SONATA G-DUR für Violine und Basso continuo, BWV 1021

17. 1. Adagio 3’27
18. 2. Vivace 0’56
19. 3. Largo 2’09
20. 4. Presto 1’20

TRIO SONATE G-DUR für Flöte, Violino discordato und Basso continuo, BWV 1038

21. 1. Largo 3’07
22. 2. Vivace 0’56
23. 3. Adagio 1’52
24. 4. Presto 1’24

ENSEMBLE AURORA

maestro di concerto
ENRICO GATTI

ENRICO GATTI, violon Laurentius Storioni, Cremona 1789
MARCELLO GATTI, flute R. Tutz, Innsbruck 1991
d’apres G.A. Rottenburgh, Bruxelles ca. 1745
GAETANO NASILLO, violoncelle Barak Norman, Londres ca, 1710
GUIDO MORINI, clavecin Philippe Humeau, Barbaste 1993
d’apres Carl Conrad Fleischer, Hambourg 1720

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G. F. Handel (1685-1759) – O Messias (McGegan)

Tradicionalmente, nossos leitores-ouvintes pediam o Messias, clamavam por ele, aguardavam por ele. Era muito chato ouvir tantas orações e pedidos. Tinha gente que se rasgava nos comentários, outros nos ameaçavam, outros prometiam atentados suicidas às casas dos autores do blog. Então, veio dos céus o primeiro Messias, um bem eficiente e digno. Depois, o segundo pousou na Terra para nosso gáudio; afinal, era o melhor de todos, o de Pinnock. E hoje, após bombas e mais bombas cairem nos céus de Gaza, chega-nos o mais fraquinho dos três, quase um foguetinho do Hamas, mas ainda assim aceitável. O erro desta gravação começa pelo contratenor — comparável à defesa do Vasco, ele bem que poderia ser utilizado como escudo humano palestino –, mas o resto é eficiente como um time de Celso Roth. Dá para ouvir, porém as outras versões que há no blog são superiores.

Handel – O Messias

Disc 1

1. Messiah: Sinfonia/Comfort ye/Every valley shall be exalted/And the glory of the Lord 11:32 Album Only
2. Messiah: Thus saith the Lord 1:17
3. Messiah: But who may abide the day of His coming 4:10
4. Messiah: And He shall purify the sons of Levi 2:20
5. Messiah: Behold, a virgin shall conceive/O thou that tellest good tidings to Zion/O thou that tellest… 5:36
6. Messiah: For behold, darkness shall cover the earth/The people that walked in darkness 5:07
7. Messiah: For unto us a child is born/Pifa (Pastoral Symphony)/There were shepherds abiding in the field 6:48
8. Messiah: And lo, the angel of the Lord came upon them 0:19
9. Messiah: And the angel said unto them/And suddenly there was with the angel/Glory to God 2:35
10. Messiah: Rejoice greatly, O daughter of Zion 4:16
11. Messiah: Then shall the eyes of the blind be opened 0:24
12. Messiah: He shall feed His flock 5:48
13. Messiah: His yoke is easy 2:18
14. Messiah: Thus saith the Lord: alternate version 1:32
15. Messiah: But who may abide the day of His coming: alternate version 3:01
16. Messiah: But who may abide the day of His coming: alternate version 4:23
17. Messiah: But who may abide the day of His coming [recitative]: alternate version 0:22
18. Messiah: But lo! the angel of the Lord came upon them: alternate version 1:42
19. Messiah: Rejoice greatly, O daughter of Zion: alternate version 5:32
20. Messiah: He shall feed His flock: alternate version 5:11

Disc 2

1. Messiah: Behold the lamb of God 2:48
2. Messiah: He was despised and rejected of men 10:06 Album Only
3. Messiah: Surely He hath borne our griefs…/And with His stripes…/All we like sheep have gone astray/All they that see Him…/He trusted in God/Thy rebuke hath broken His heart/Behold and see…/He 15:22 Album Only
4. Messiah: Lift up your heads/Unto which of the angels said He at any time/Let all the angels of God worship Him 4:16
5. Messiah: Thou art gone up on high 2:54
6. Messiah: The Lord gave the word 1:03
7. Messiah: How beautiful are the feet 2:12
8. Messiah: Their sound is gone out into all lands 1:20
9. Messiah: Why do the nations so furiously rage together 2:57
10. Messiah: Let us break their bonds asunder 1:43
11. Messiah: He that dwelleth in heaven/Thou shalt break them with a rod of iron 2:13
12. Messiah: Hallelujah! 3:33
13. Thou art gone up on high: alternate version 2:56
14. Messiah: Thou are gone up on high: alternate version 2:49
15. Messiah: How beautiful are the feet…/Their sound is gone out…: alternate version 5:11
16. Messiah: How beautiful are the feet…/Break forth into joy…: alternate version 3:34
17. Messiah: How beautiful are the feet…: alternate version 3:06
18. Messiah: Their sound is gone out: alternate version 1:07
19. Messiah: Why do the nations…: alternate version 1:25
20. Messiah: He that dwelleth…/Thou shalt break them… [recitative]: alternate version 0:21

Disc 3

1. Messiah: I know that my Redeemer liveth 6:38
2. Messiah: Since by man came death 1:41
3. Messiah: Behold, I tell you a mystery 0:30
4. Messiah: The trumpet shall sound 8:18
5. Messiah: Then shall be brought to pass 0:15
6. Messiah: O Death, where is thy sting? 1:44
7. Messiah: But thanks be to God 2:06
8. Messiah: If God be for us 4:22
9. Messiah: Worthy is the Lamb 3:00
10. Messiah: Amen 4:20
11. Messiah: O Death, where is thy sting? [recitative]: alternate version 0:27
12. Messiah: He was despised…: alternate version

Lorraine Hunt Lieberson, soprano
Janet Williams, soprano
Patricia Spence, mezzosoprano
Drew Minter, controtenor
William Parker, bass

U.C.Berkeley Chamber Chorus
dir. Jeffrey Thomas
Philharmonia Baroque Orchestra
dir. Nicholas McGegan

BAIXE AQUI A PARTE 1 – DOWNLOAD PART 1 HERE

BAIXE AQUI A PARTE 2 – DOWNLOAD PART 2 HERE

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A ilusão da vitória na Faixa de Gaza

Observação: Este texto foi deixado pelo leitor-ouvinte Gustavo num comentário à versão do ELP para Quadros de uma Exposição. A princípio, achei que a notável Carta Aberta de Barenboim não tinha nada a ver com o blog, porém, a partir de uma reclamação do próprio Gustavo, fiz a reflexão óbvia: se a música erudita tem a ver com Baremboim e Barenboim tem a ver com a guerra, a publicação em post em nosso blog é pertinente. E é o que estou fazendo agora.

Por Daniel Barenboim, (publicado no THE GUARDIAN)

O regente e pianista Daniel Barenboim é judeu, cidadão israelense e cidadão de honra da Palestina.

Tenho apenas três desejos para o ano-novo. O primeiro é que o governo de Israel se conscientize, de uma vez por todas, que o conflito no Oriente Médio não pode ser resolvido por meios militares. O segundo é que o Hamas se conscientize que não defenderá seus interesses pela violência, e que Israel está aqui para ficar. O terceiro é que o mundo reconheça que esse conflito não é igual a nenhum outro em toda a história.

É um conflito intricado e sensível, um conflito humano entre dois povos profundamente convencidos de seu direito de viver no mesmo pedaço de terra. É por isso que não poderá ser resolvido nem pela diplomacia nem pelas armas.

Os acontecimentos dos últimos dias são extremamente preocupantes para mim por várias razões de caráter humano e político.

Embora seja óbvio que Israel tem o direito de se defender, que não pode e não deve tolerar os constantes ataques contra seus cidadãos, os bombardeios brutais sobre Gaza suscitam profundas indagações na minha mente.

MORTES

A primeira é se o governo de Israel tem o direito de considerar todo o povo palestino culpado pelas ações do Hamas. Será que toda a população de Gaza deve ser responsabilizada pelos pecados de uma organização terrorista?

Nós, o povo judeu, deveríamos saber e sentir mais profundamente do que qualquer outro povo que o assassinato de civis inocentes é desumano e inaceitável. Os militares israelenses argumentam, de maneira muito frágil, que a Faixa de Gaza é tão densamente povoada que é impossível evitar a morte de civis.

A debilidade desse argumento me leva a formular outras perguntas. Se as mortes de civis são inevitáveis, qual é a finalidade dos bombardeios? Qual é a lógica, se é que existe alguma, por trás da violência, e o que Israel espera conseguir por meio dela? Se o objetivo da operação é destruir o Hamas, a pergunta mais importante a ser feita é se esse objetivo é viável. Se não é, todo o ataque não só é cruel, bárbaro e repreensível, como também é insensato.

Por outro lado, se for realmente possível destruir o Hamas por meio de operações militares, que reação Israel espera que haja em Gaza depois que isso se concluir? Em Gaza vivem 1,5 milhão de palestinos, que seguramente não cairão de joelhos de repente para reverenciar o poderio do Exército israelense.

Não devemos esquecer que o Hamas, antes de ser eleito, foi encorajado por Israel como tática para enfraquecer o então líder palestino Yasser Arafat. A história recente de Israel me faz acreditar que, se o Hamas for eliminado por meio de bombardeios, outro grupo certamente tomará o seu lugar, um grupo que talvez seja mais radical e mais violento.

VINGANÇA

Israel não pode se permitir uma derrota militar porque teme desaparecer do mapa. No entanto, a história demonstrou que toda vitória militar sempre deixou Israel em uma posição política mais fraca do que a anterior por causa do surgimento de grupos radicais.

Não pretendo subestimar a dificuldade das decisões que o governo israelense precisa tomar a cada dia, nem subestimo a importância da segurança de Israel. Entretanto, continuo convencido de que o único plano viável para a segurança em Israel, no longo prazo, é obter a aceitação de todos os nossos vizinhos.

Desejo para o ano de 2009 a volta da famosa inteligência que foi sempre atribuída aos judeus. Desejo a volta da sabedoria do Rei Salomão para os estrategistas israelenses, a fim de que a usem para compreender que palestinos e israelenses gozam de idênticos direitos humanos.

A violência palestina atormenta os israelenses e não contribui para a causa palestina. A retaliação militar israelense é desumana, imoral e não garante a segurança de Israel. Como disse antes, os destinos dos dois povos estão inextricavelmente ligados e os obriga a viver lado a lado. Eles terão de decidir se querem que isso se torne uma bênção ou uma maldição.

J. S. Bach (1685-1750) – Oratório de Natal, BWV 248

Aproveitando que hoje é dia de Natal, publicamos a versão de Herreweghe do Oratório escrito por meu pai. Ah, vocês sabem tanto quanto eu: são seis cantatas bem legais, as primeiras mais legais que as últimas, apesar de que todas são muito boas. Aqui não há o elemento kitsch e mentiroso da festa comercial-religiosa, aqui é Natal mesmo, com a grandiosidade da história inventada e retocada pelos homens.

Elas impressionam pela coerência, riqueza musical e unidade. As seis Cantatas foram apresentadas pela primeira vez em 1734, em Leipzig, uma a uma em cada feriado que antecedia o Natal. A seguir, apresento um artigo de Ricardo de Mattos, retirado daqui, sobre o Oratório. Feliz Páscoa!

Johann Sebastian Bach – 1.685/1.750 – encerrou a composição do seu Oratório de Natal no mês de outubro de 1.734, ocorrendo sua primeira execução nas comemorações natalinas do mesmo ano. A evidente finalidade d’esta obra era celebrar o nascimento de Jesus Cristo, e esta homenagem ao facto máximo do cristianismo verifica-se no decorrer e alternância de 31 recitativos, catorze corais, dez árias, oito coros, dois ariosos, um quarteto, um terceto, um dueto e uma sinfonia.

Bach foi um homem de entranhada e madura religiosidade. Uma crença fervorosa e sincera transparece em suas obras sacras, e diante d’isso podemos calcular seu senso de responsabilidade ao compor um oratório pelo advento d’Aquele que tanto amou. O compositor era luterano, mas esta peça é tão bonita e possui nobreza tal que já comovia, e ainda comove, pessoas de credo diverso. Ao romper esta barreira, já mostra uma primeira face de sua excelência.

O texto-base do Oratório de Natal é formado por trechos dos Evangelhos segundo São Lucas e São Mateus, complementado com versos de Christian Friedrich Henrici, dito “Picander”. Este poeta é autor do texto de várias cantatas e da Paixão Segundo São Mateus. Muitas foram, contudo, as intervenções de Bach. Não há como acompanhar o Oratório sem ler o texto, e quem, como eu, não fala alemão, deve procurar uma versão acompanhada da tradução. Não é difícil ouvir a música em alemão, ler o trecho e sua tradução ao mesmo tempo.

Oratório e cantata, nos séculos XVII e XVIII, são géneros musicais a apresentar certa confusão, e a peça de Natal ora comentada pode trazer ainda mais dúvidas. O oratório irmana-se à ópera por descender dos mistérios medievais, dela diferindo apenas pela temática, pois inicialmente era acompanhado até de acção, cenário e costume. A cantata nada mais é além de uma peça profana para ser cantada e tem sua origem nos madrigais, ainda da Idade Média. Tínhamos então peças para serem cantadas – cantatas – e peças para serem tocadas – toccatas. Até aqui tudo simples e claro. Introduzindo na cantata o coro, levando-a para a igreja e no oratório substituindo-se a encenação pela narração – ficando esta a cargo do narrador ou historicus – confundiram-se os géneros. Talvez a única diferenciação restante seja a extensão, sendo maior a do oratório. Além disso, uma cantata pode ser religiosa ou profana – a Cantata do Café, do próprio Bach – mas um oratório será sempre religioso ou, no mínimo, de orientação religiosa, como As Estações, de Haydn. Este Oratório de Natal mostra bem a referida mistura, porém é um caso proposital. Na igreja de São Tomás, em Leipzig, para a qual foi composto, as celebrações natalinas estendiam-se por seis dias: 25, 26 e 27 de dezembro, primeiro e seis de janeiro e o primeiro domingo do ano. Assim, ou para não fraccionar uma peça única, ou para não repetir a mesma durante esses seis dias, Bach dividiu-o em seis partes, ou seis cantatas, reunidas de forma mais ou menos uniforme. Recebeu algumas críticas não só pela indefinição do género – nada tão indefinido assim, convenha-se – como pelo aproveitamento da música e texto de outras cantatas. O novo aproveitamento não era hábito exclusivo de Bach, mas a ocupação de alguns compositores levava a tal proceder. Vivaldi utilizou na ária Dell’aura al sussurrar o conhecido tema do allegro da Primavera.

O carácter geral do Oratório é glorificar, exaltar o espírito pelo nascimento do Messias, sendo assim oposto ao das Paixões, nas quais predominam a consternação e o drama. Com este objectivo de alegrar as almas, a primeira peça é um retumbante coro, ao qual os trompetes e tímpanos conferem um carácter de intrata:

Regozija-vos, cantai de alegria! Louvai estes dias!
Abandonai vossos temores, cessai vossos prantos,
Entoai hinos de regozijo e alegria!
Uni vossas vozes para cantar a glória do Altíssimo,
Adoremos o nome do Todo Poderoso!

Após o coro, inicia-se a narrativa, com a viagem de José e Maria de Nazareth à Belém. O parto ocorre e a contralto, primeiro em recitativo, depois em ária, admoesta Sião a bem receber o Salvador dos judeus, já padecentes do jugo romano. Cristo nasceu sob Augusto e foi crucificado na era de Tibério. Dando-se o parto no presépio, um coro de sopranos acompanhado do baixo – não ainda no papel de Herodes – acentua a humildade do facto (“Pobre veio à terra/Quem saberá honrar como merece/ O Amor que nos oferece nosso Salvador?”). O mesmo baixo, na ária seguinte, lembra a pouca importância do meio escolhido para nascer por aquele que reina sobre o mundo. Além d’isso, percebemos em vários momentos um capricho de ternura bem próprio de Bach, que curiosamente lembra-nos os escritos de Santa Terezinha do Menino Jesus e São Pedro Julião Eymard. Repare-se no coral Ach mein herzliebes Jesulein – Ah, meu bem amado Jesusinho! Aqui Bach demonstra o amor mencionado, referindo-se ao Menino como se pudesse estar pessoalmente com ele.

A segunda parte inicia-se com uma sinfonia pastoral substituindo um previsível coro, e melhor escolha Bach não poderia ter feito. Pastoral é uma obra vocal ou instrumental que pela melodia e emprego de certos instrumentos (flauta, oboé) pretende reproduzir um ideal de vida simples e pacífica, tal como imaginou-se sempre, nas Artes, ser a dos pastores. Pesquisando este ideal, chegamos em Virgílio. Ulisses desejou, em certa altura da Odisseia, ter nascido um mero pastor. Portanto, a escolha da sinfonia pastoral para iniciar a segunda parte, ou segunda cantata, é perfeita para retractar o ambiente rústico do nascimento de Jesus. Pode-se afirmar que toda esta cantata é pastoral, pois o tema da sinfonia repete-se no último coral, só retornando no coro de abertura da quarta parte.

Segundo a mensagem da segunda parte, os simples serão os primeiros a encontrar Jesus Cristo, e nos Evangelhos encontramos o desenvolvimento doutrinário desta assertiva. Basta ler o Sermão da Montanha. A última ária de contralto é uma canção para embalar o Recém Nascido. Esta parte foi apresentada pela primeira vez há exactos 268 anos.

Se na segunda cantata os pastores são avisados por um anjo – soprano – do nascimento de Jesus, na terceira eles efectivamente visitam-no. O mesmo coro do início é o do final (da capo), responsável pela volta do clima de júbilo. Deve-se reparar no duo de soprano e baixo Herr dein Mitled, dein Erbarmen – Senhor, Tua piedade, Tua Misericórdia.

A quarta parte, segundo o plano de comemorações da igreja de São Tomás, foi executada em primeiro de janeiro de 1.735. Por isso a primeira menção que o Evangelista faz em seu recitativo é à circuncisão e baptismo de Jesus, factos celebrados no dia. Após um arioso emoldurado por dois recitativos, segue-se a curiosa ária Flösst, mein Heiland, flösst dein Namen – Poderia, meu Salvador, poderia seu Nome. Nela temos duas sopranos, a segunda servindo de eco para a primeira. Eco mesmo: a primeira termina um verso e a segunda repete a última palavra apenas, de preferencia com o inte’rprete fora de cena. E um oboé ecoa esta segunda soprano. Este efeito do eco pode ser percebido também no concerto Audi , coelum do orato’rio Vésperas da Virgem Maria de Cláudio Monteverdi (1.567/1.643) e mais recentemente, na ária de Violetta Follie! Delírio vano é questo! na famosa ópera La Traviata de Giuseppe Verdi (1.831/1.901) Bach dedicou toda esta parte à relação entre o homem e Jesus, bem como a Sua palavra.

Um mui alegre coro complementado por vozes infantis inaugura a quinta cantata, dedicada à chegada dos Magos e à reacção de Herodes ao receber a notícia. Muita atenção para a ária Erleucht’ auch meine finstre Sinnen – Ilumina também meus escuros sentidos, na qual o baixo é acompanhado pelo órgão e pelo oboé.

Um coro épico abre a sexta e última cantata, apresentada na Epifania de 1.735. Por este motivo Bach destacou a visita dos Reis Magos ao Menino, embora também se discorra sobre a ordem de Herodes e à fuga de José e Maria. Esta a cantata mais dramática de todo o conjunto, transpirando tensão e aflição. O alívio pela salvação do Menino recompõe, no quarteto e coral finais, a sobreexcitação e alegria dominantes em todo o Oratório. Nada adianta eu tagarelar sobre esta excelente obra. Ela deve ser apreciada e sua contribuição para um Natal melhor será inafastável

Christmas Oratorio, BWV 248

1. Part I: Jauchzet, Frohlocket!, Chorus
2. Part I: Es Begab Sich Aber Zu Der Zeit, Recitative
3. Part I: Nun Wird Mein Liebster BrÄUtigam, Recitative
4. Part I: Bereite Sich, Zion, Alto Aria
5. Part I: Wie Soll Ich Dich Empfangen, Chorale
6. Part I: Und Sie Gebar Ihren Ersten Sohn, Recitative
7. Part I: Er Ist Auf Erden Kommen Arm, Chorale For Soprano And Bass
8. Part I: Wer Kann Die Liebe Recht ErhÖH’n, Bass Recitative
9. Part I: Grosser Herr Und Starker KÖNig, Bass Aria
10. Part I: Ach, Mein Herzliebes Jesulein!, Chorale
11. Part Ii: Sinfonia
12. Part Ii: Und Es Waren Hirten, Tenor Recitative
13. Part Ii: Brich An, O SchÖNes Morgenlicht, Chorale
14. Part Ii: Und Der Engel Sprach Zu Ihnen, Recitative For Tenor & Soprano
15. Part Ii: Was Gott Dem Abraham Verheissen, Bass Recitative
16. Part Ii: Frohe Hirten, Eilt, Tenor Aria
17. Part Ii: Und Das Habt Zum Zeichen, Tenor Recitative
18. Part Ii: Schaut Hin!, Chorale
19. Part Ii: So Geht Denn Hin!, Bass Recitative
20. Part Ii: Schlafe, Mein Liebster, Alto Aria
21. Part Ii: Und Alsobald War Da Bei Dem Engel, Tenor Recitative
22. Part Ii: Ehre Sei Gott In Der HÖHe, Chorale
23. Part Ii: So Recht, Ihr Engel, Bass Recitative
24. Part Ii: Wir Singen Dir In Deinem Heer, Chorale
25. Part Iii: Herscher Des Himmels, Chorus
26. Part Iii: Und Da Die Engel Von Ihnen Gen Himmel FÜHren, Tenor Recitative
27. Part Iii: Lasset Uns Nun Gehen Gen Bethlehem, Chorus
28. Part Iii: Er Hat Sein Volk GetrÖSt, Bass Recitative
29. Part Iii: Dies Hat Er Alles Uns Getan, Chorale
30. Part Iii: Herr, Dein Mitleid, Dein Erbarmen, Duet For Soprano & Bass
31. Part Iii: Und Sie Kamen Eilend, Tenor Recitative
32. Part Iii: Schliesse, Mein Herze, Dies Selige Wunder, Alto Aria
33. Part Iii: Ja, Ja! Mein Herz Soll Es Bewahren, Alto Recitative
34. Part Iii: Ich Will Dich Mit Fleiss Bewahren, Chorale
35. Part Iii: Und Die Hirten Kehrten Wieder Um, Tenor Recitative
36. Part Iii: Seid Froh, Dieweil, Dass Euer Heil, Chorale
37. Part Iv: Fallt Mit Danken, Fallt Mit Loben, Chorus
38. Part Iv: Und Da Acht Tage Um Waren, Tenor Recitative
39. Part Iv: Immanuel, O SÜSses Wort, Recitative For Soprano & Bass
40. Part Iv: Jesu Du, Mein Liebstes Leben/Komm!, Ich Will Dich Mit Lust Umfassen, Ar
41. Part Iv: FlÖSst, Mein Heiland, Aria For 2 Sopranos
42. Part Iv: Wohlan! Dein Name Soll Allein, Recitative & Arioso For Soprano & Bass
43. Part Iv: Ich Will Nur Dir Zu Ehren Leben, Tenor Aria
44. Part Iv: Jesus Richte Mein Beginnen, Chorale
45. Part V: Ehre Sei Dir, Gott, Gesungen, Chorus
46. Part V: Da Jesus Geboren War Zu Bethlehem, Recitative
47. Part V: Wo Ist Der Neugeborne KÖNig Der Juden?, Chorus & Recitative
48. Part V: Dein Glanz All’finsternis Verzehrt, Chorale
49. Part V: Erleucht’ Auch Meine Finstre Sinnen, Bass Aria
50. Part V: Da Das Der KÖNig Herodes HÖRte, Tenor Recitative
51. Part V: Warum Wollt Ihr Erschrecken, Alto Recitative
52. Part V: Und Liess Versammeln Alle Hohenpriester, Tenor Recitative
53. Part V: Ach, Wenn Wird Die Zeit Erscheinen?, Trio For Soprano, Alto, & Tenor
54. Part V: Mein Liebster Herrschet Schon, Alto Recitative
55. Part V: Zwar Ist Solche Herzensstube, Chorale
56. Part Vi: Herr, Wenn Die Stolzen Feinde Schnauben, Chorus
57. Part Vi: Da Berief Herodes Die Weisen Heimlich, Tenor Recitative
58. Part Vi: Du Falscher, Suche Nur Den Herrn Zu FÄLlen, Soprano Recitative
59. Part Vi: Nur Ein Wink, Soprano Aria
60. Part Vi: Als Sie Nun Den KÖNig, Tenor Recitative
61. Part Vi: Ich Steh’ An Deiner Krippen Hier, Chorale
62. Part Vi: Und Gott Befahl Ihnen Im Traum, Tenor Recitative
63. Part Vi: So Geht! Genug, Mein Schatz, Tenor Recitative
64. Part Vi: Nun MÖGt Ihr Stolzen Feinde Schrecken, Tenor Aria
65. Part Vi: Was Will Der HÖLle Schrecken Nun, Choral Recitative
66. Part Vi: Nun Seid Ihr Wohl Gerochen, Chorale

Barbara Schlick (Soprano)
Michael Chance (Countertenor)
Howard Crook (Tenor)
Peter Kooy (Bass)

Collegium Vocale Ghent
Collegium Vocale Ghent Orchestra
dir. Philippe Herreweghe

BAIXE AQUI A PARTE 1 – DOWNLOAD PART 1 HERE

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Dois centenários

Por CELSO LOUREIRO CHAVES,
publicado na Zero Hora de 20 de dezembro de 2008

Este mês, centenários de dois compositores incontornáveis da música de concerto: o francês Olivier Messiaen, de 10 de dezembro de 1908, e o norte-americano Elliott Carter, de 11 de dezembro de 1908. Dois centenários com uma distância enorme entre eles – Messiaen morreu em 1992 e portanto sua obra é um livro fechado, o que havia para ouvir foi ouvido, o que havia para descobrir foi descoberto; Carter não só continua produzindo sem cessar como tem participado das comemorações do seu próprio centenário. Há quem diga: que um compositor participe do próprio centenário já é uma façanha, mas que componha uma peça para marcar a data não tem precedentes na história da música. Elliott Carter é o exemplo mais lúcido da atemporalidade na composição musical, a possibilidade de criar sons em qualquer idade, a prova de que um compositor pode ser muitos, mesmo nos limites de uma única vida.

Por um momento Messiaen e Carter cruzaram seus caminhos. Foi no final dos anos 1940, o mundo musical ainda cambaleante depois da guerra. Messiaen tinha acabado de compor uma das suas obras mais monumentais, a sinfonia Turangalîla, e subitamente lhe veio a vontade de criar miniaturas que, no seu rigor composicional, abriram a porta para a vanguarda européia dos anos 1950. Essa foi a importância dos seus Quatro Estudos de Ritmo e também foi ali naqueles anos de mudança que Elliott Carter, já com sinfonias, canções e balés no currículo, decidiu abandonar um “eu” para alcançar um outro “eu”, para se tornar… Elliott Carter. Modernista inflexível e rigoroso, compositor de obras difíceis de tocar e ásperas de ouvir, obras profundas e racionalizadas no mínimo detalhe das decisões musicais.

A partir de caminhos absolutamente pessoais, Carter e Messiaen seguiram escolhas próprias e foram criando um repertório vasto de obras nas quais se tropeça uma e outra vez quando se percorre o panorama da música de concerto a partir de 1940. É que tanto Carter quanto Messiaen construíram idiomas musicais muito característicos que permitem identificar suas obras logo ao primeiro som, com retóricas inconfundíveis e impossíveis de resistir. Em Messiaen é a individualidade da harmonia que surpreende e cativa, os seus acordes – uns diferentes dos outros sem nada que os una – e o seu som granítico, diria o poeta Mallarmé. De repente há espaços que se abrem para melodias amplas que são ou celestiais ou simplesmente bregas, não há meio termo. Tudo envelopado numa orquestração luminosa e exagerada que não raro lança mão das ondas martenot, instrumento eletrônico que Messiaen fundiu à orquestra sinfônica.

Na música de Carter são o pontilhismo dos sons e as intricações de ritmo que agarram o ouvinte e não o deixam tomar distância da obra ouvida. Melodias não há e nem harmonias que se possa identificar como tal. Há jogo de densidades sonoras, alternâncias de cores, superfícies ásperas, rugosas, raramente lisas, que se misturam e se superpõem. Quando então Carter se volta para a voz humana, é nos poetas de sua geração que ele vai buscar guarida. Aí os poemas de Elizabeth Bishop, Robert Frost e William Carlos Williams soam na sua música. Mesmo quando não claramente articulados em som, os poetas norte-americanos são o alicerce da música de Carter – Hart Crane e seu À Ponte do Brooklyn são sombras que se escondem na Sinfonia de Três Orquestras, obra central da música para orquestra de Carter.

Também em Messiaen há textos que se escondem atrás da música e que surgem nos títulos que vão pontuando o catálogo de obras: Vinte Olhares Sobre o Menino Jesus, A Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo, Meditações Sobre o Mistério da Santíssima Trindade, Cores da Cidade Celeste. Pois para Messiaen os mistérios da fé católica são a fonte principal de irrigação da música, algo que agrada a muitos e desgosta outros tantos. O fio da navalha entre bom gosto e mau gosto é ultrapassado várias vezes no contexto dessas obras que, se discutíveis, são indiscutivelmente sinceras, ainda mais quando a religiosidade de Messiaen se une ao amor à natureza e, nela, ao amor verdadeiramente franciscano aos pássaros que povoam a sua obra. Foi Messiaen quem compôs um Catálogo dos Pássaros e colocou uma multidão de aves – brasileiras, inclusive – na sua mais gigantesca obra para orquestra, Dos Cânions às Estrelas.

Quando morreu, Messiaen ainda se recuperava da tarefa monumental de compor sua única ópera, São Francisco de Assis que, em quatro horas e oito cenas exaltadamente estáticas, conta a vida do santo que simboliza o catolicismo que o compositor conheceu por dentro. Líder de uma geração de vanguardistas – Boulez, Xenakis, Stockhausen – ao longo da vida Messiaen veio se afastando das vanguardas e, ao morrer, encerrou uma obra imensa marcada pela espiritualidade e que nunca fugiu das banalidade inevitáveis quando as sonoridades são tão exuberantes. Para que fugir? Logo numa de suas primeiras obras, o Quarteto para o Fim do Fempo, Messiaen fez soar as trombetas do juízo final. Depois disso, quem se importaria com críticas?

Críticas também nunca foram problema para Elliott Carter desde que ele se transformou nele mesmo em 1948. As suas obras foram se espalhando em todas as direções, marcando gênero a gênero. O Concerto para Orquestra, as Fantasias Noturnas, peça que ampliou o repertório de gestos do pianista, o monumental Concerto Duplo para Piano, Cravo e Orquestra e a série dos cinco quartetos de cordas. Só esse grupo de peças já seria influente por si só, pelos caminhos que apontam no tratamento das sonoridades e na transformação da vitalidade em som. O que mais surpreende, no entanto, é a nova arrancada de criatividade que Carter deu à sua música a partir dos noventa anos. A primeira ópera foi composta há pouco, a primeira peça para grupo de percussão estreou semana passada e o terceiro concerto para piano e orquestra, Intervenções, foi reservado para o dia do centenário. Todas obras de uma agressividade seríssima, algo inédito para um compositor em atividade há 72 anos.

Até quando irá a música de Elliott Carter? Não se sabe e o melhor seria perguntar até onde irá essa música que começou mansa, se tornou irredutível na obediência ao próprio estilo e que agora, nas obras de hoje, quase assusta pela vitalidade e pelo movimento incessante. Foi assim também com Olivier Messiaen que, das exuberâncias dos anos 1940 se transformou no monumento mais alto da música cristã. São os dois compositores centenários da semana. Um já é estátua e sem ele não se conta a história da música francesa. O outro ainda está aí, prestigiando sempre os concertos que o prestigiam. Vale, para marcar esse duplo centenário e para localizar as buscas incessantes da música de um e de outro, uma frase de William Carlos Williams que Carter transformou em música em Of Rewaking, obra de 2002: “cedo ou tarde devemos chegar ao fim de toda a luta… mas ainda não, tu dizes, estendendo o tempo indefinidamente.”