Repostagem apressada para homenagear o grande instrumentista Jack DeJohnette (1942-2025), aqui em um de seus momentos mais vanguardistas e, para mim, um dos mais brilhantes discos ao vivo dos últimos 30 anos (Pleyel)
Invisible Nature é um álbum ao vivo do saxofonista inglês John Surman e do baterista norte-americano Jack DeJohnette, gravado em Tampere (Finlândia) e Berlim em 2000. Quem segue o PQP sabe de minha tara por Surman. Bem, há cinco décadas, John e Jack encontram-se em Londres para jams regulares. Seu primeiro disco como dupla, The Amazing Adventures of Simon Simon, definiu um estilo espaçoso e aberto, quase de free jazz.
Os saxofones e o clarinete de Surman sempre tiveram um tom leve, de pássaro. Ele vibra, tece e mergulha no ar. DeJohnette é um baterista que usa suas habilidades com bom gosto e discrição. Ele se acomoda tranquilamente em Invisible Nature, até realiza isto com certo abandono em músicas como Rising Tide e Outback Spirits, ao lado das explorações proporcionalmente enérgicas de Surman. O CD oferece uma variedade idiossincrática de sons e abordagens. As melodias variam de sussurrantes a exploratórias, e a eletrônica expande a paleta de cada músico. Estas performances demonstram que DeJohnette e Surman têm um relacionamento intuitivo e aventureiro. Ao final de Fair Trade, Surman fala no fantastic Jack DeJohnette, Não há como não concordar. Surman também é.
(Relendo o que escrevi, acho que sugeri que o CD tem muita coisa eletrônica. É falso. Quase tudo é acústico).
.: interlúdio :. John Surman & Jack DeJohnette: Invisible Nature (ao vivo)
1 Mysterium 15:57
2 Rising Tide 9:32
3 Outback Spirits 12:30
4 Underground Movement 9:45
5 Ganges Groove 6:36
6 Fair Trade 11:21
7 Song For World Forgiveness 9:29
John Surman – soprano and baritone saxophones, bass clarinet, synthesizers
Jack DeJohnette – drums, electronic percussion, piano

PQP (2023) / Pleyel (2025)




Para finalizar este festival de concertos de Haydn, trazemos hoje este de 2010 da Accademia Bizantina. O primeiro concerto é mesmo que fecha o último CD de Haydn postado por mim. É a única repetição dentre os nove postados. Finalmente livre dos maneirismos ornamentais de seu início de carreira, Dantone nos traz um Haydn cheio de musicalidade. O disco é excelente e feliz como o compositor.
Aqui estão os três concertos para piano de Haydn tocados com pianoforte. Os intérpretes são grandes especialistas neste gênero de repertório, um luxo. Se Andreas Staier é um dos maiores pianistas e cravistas da nova geração, afirmo que a a Orquestra Barroca de Freiburg é o conjunto de melhor sonoridade que tenho ouvido. Suas gravações das obras dos filhos de Bach, meus irmãos, são esplêndidas e vocês deveriam tê-las. Destaque para o primeiro e último concertos. Para tocar Haydn adequadamente, é necessário uma boa dose de humor. Staier e von der Goltz nos demonstram claramente tal fato. Staier chega a ser excessivo no último movimento do terceiro concerto… Vocês identificarão facilmente o acorde a que me refiro. CD da Harmonia Mundi alemã.
IM-PER-DÍ-VEL !!!

Quando a gente encontra um CD com este nome, o mínimo que se espera é que ele seja engraçado. Este tem alguns bons momentos de comédia, mas acaba mesmo por se surpreender pela qualidade do Musica Antiqua Ambergensis. Um disco bem divertido, ao gosto de Clara Schumann (*) e seus elisabetanos. Bem, talvez seja um CD hilariante, mas faltam os textos pra gente poder rir junto. De qualquer maneira, triste não é.


IM-PER-DÍ-VEL !!!




Se você gosta de música barroca de câmara bem tocada, com bom equilíbrio, estilo sem afetações, com instrumentos originais, esse CD Kleine Cammer-Music da Camerata Köln é um ótimo download. É ideal tanto para ouvintes que desejam mergulhar no universo de Telemann quanto para quem quer ficar tranquilo num fim de tarde ou em leituras, como faz a moça da capa. (Ou aquilo seria uma partitura?) Dá até para esquecer uma derrota em Gre-Nal. Quem espera interpretações extremamente livres ou ornamentadas pode achar contida esta versão mais contida. A Camerata Köln opta por elegância e clareza, transparência sonora e diálogo entre os instrumentos, em vez de virtuosismo pavão.
IM-PER-DÍ-VEL !!!






Um muito querido amigo montou este CD para mim com duas obras da caixa de 4 CDs ao lado. O disco ficou assim: inicia pela Grande Fuga e termina com o Op. 132, o meu quarteto preferido. Acho que o amigo sabia do meu amor pelo Op. 132 e por certas interpretações da Grande Fuga. Porém, quando o ouvi pela primeira vez, achei que era o Quarteto Op. 130, mais ligado à Grande Fuga, ou seja, não reconheci meu lindo quartetão. Também pudera, era outra música — os holandeses do Narratio Quartet usam instrumentos de época para se aproximarem da sonoridade histórica dos séculos XVIII-XIX. Então, eles tocam os quartetos de Beethoven com cordas de tripa e os arcos típicos do século XIX. Também aplicam práticas de interpretação historicamente informadas: comedidos vibrati, uso de deslizamento entre notas, tempos mais flexíveis e articulação que busca lembrar como se tocava na época de Beethoven. Até aí, tudo bem, só que sei lá. Tanto sei lá que meus ouvidos discordariam da hipotética frase “Narratio Quartet toca Beethoven como se estivéssemos em 1820”. Por exemplo, o último movimento do 132 é um Allegro Appassionato que me pareceu incompatível com a forma de narração adotada pelos meninos do quarteto (sim, escrevi “Tempos mais flexíveis” ali atrás, não sou tão trouxa). São muitas vírgulas e travessões num texto que deve fluir como uma dança, na minha opinião. O som é sempre lindo mas algumas escolhas parecem meio malucas. Não tenho nada contra, só que às vezes não dá certo. E às vezes dá, pois há momentos realmente lindos, como em alguns trechos do Fugão e do imenso movimento central do 132. Vale muito conferir.

IM-PER-DÍ-VEL !!!


Disco excelente e do qual encontrei referências mínimas na rede. Como “trascrizione” significa “transcrição”, deve tratar-se de transcrições que Vivaldi fez de outros compositores. Valem a pena, viu? São músicas barrocas de primeira linha, certamente de origem italiana, muito bem interpretadas pela obscura Accademia del Ricercare, dirigida pelo desconhecido Pietro Busca. São transcrições para uma ou duas flautas. Em minha última visita à Veneza, encontrei vários conservatórios com conjuntos próprios, produzindo e vendendo bons CDs. Tenho alguns, até. Gravadora Tactus? CD 042? Sei lá. Só sei que é um bom CD de música barroca italiana! A “Follia” final tem baixo contínuo de escola de samba. É muito bom. Não perguntem muita coisa. Quem puder esclarecer, esclareça!
IM-PER-DÍ-VEL !!!

Já que meu irmão FDP Bach deu continuidade à minha “Onda Harnoncourt”, eu sigo sua última postagem repetindo o autor, Antonio Vivaldi.
IM-PER-DÍ-VEL !!! Uma estupenda gravação da décima de Shosta.
Benjamin Britten foi autenticamente um grande compositor num país que ama a música, mas que estava agarrado no pincel desde Purcell e a presença de Handel. No entremeio, houve equívocos com Elgar e outros menos votados.
Obviamente, o nome Mazurka deve-se ao grande goleiro uruguaio Ladislao Mazurkiewicz (1945-2013) que jogou principalmente no Peñarol, mas também no Galo Mineiro. Seu apelido? Mazurka. Pois Mazurka jogou 3 Copas do Mundo (1966, 1970 e 1974) e é muito lembrado como o artista coadjuvante de um dos maiores lances da historia do futebol. Na Copa do Mundo de 1970 sofreu um drible sensacional de Pelé, que acabou chutando para fora. Em outro lance do mesmo jogo, cobrou mal um tiro de meta que o mesmo Pelé emendou de bate-pronto, mas o chopiniano arqueiro recuperou-se a tempo e fez boa defesa. Aliás, o extraordinário livro O Drible, de Sérgio Rodrigues, inicia com uma linda descrição do drible de Pelé. Bem, não sou tarado por Chopin, mas minha mãe era. Às vezes, em seus últimos anos, eu botava este disco, que era de meu pai, para tocar. Ela ficava satisfeita. Mas logo Chopin se enredava em meio aos nós das suas sinapses cada vez mais dementes do Alzheimer e ela levantava para fazer qualquer outra coisa. Mas num primeiro momento, de uns 10 minutos, ela parecia flutuar com Chopin. Quando ela faleceu, após o longo percurso da doença, minha irmã pediu uma música para tocar no crematório, mas que eu escolhesse bem! Peguei este, do qual já tinha notado a extraordinária qualidade. Talvez eu não tenha muita propensão à neurose e ao trauma, então consigo ouvir seus incríveis 143 minutos apesar de rever o caixão da Maria Luiza indo naquela esteira em direção ao vazio.
Forte candidato a capa mais feia e nada a ver de todos os tempos, trata-se de um excelente disco da espetacular Orquestra Barroca de Freiburg, belíssima cidade que possui um time na segunda divisão alemã cuja camiseta é igual à do Flamengo do Rio. Após estas informações essenciais à fruição do CD, diria que este é um exemplar muito germanizado do grande compositor veneziano que, por ser COMUNISTA, era chamado de “Il Prete Rosso” ou O PADRE VERMELHO. Como os comunas comiam criancinhas, Vivaldi foi trabalhar num orfanato para meninas chamado Ospedale della Pietà. Era um padre menos safado que os atuais, que parecem preferir MENINOS. Sua música é maravilhosa, mas os publicitários, em vez de ouvi-la quietos, preferem estragá-la em propagandas. O Concerto da Primavera das Quatro Estações, por exemplo, é capaz de me provocar enjoo quando acompanhado de imagens ensolaradas de crianças correndo num parque, vendendo a liberdade que só determinada fralda ou supermercado dá.
IM-PER-DÍ-VEL !!!

