Johann Sebastian Bach (1685-1750): Morimur (The Hilliard Ensemble, Christoph Poppen)

IM-PER-DÍVEL !!!

Prepare-se para ouvir a Partita para Violino Solo Nº 2, BWV 1004, de Bach, como você nunca ouviu antes. Este não é um disco de música antiga convencional, é um thriller musicológico, uma investigação auditiva que promete transportar o ouvinte para a mente do compositor. Lançado em 2001, Morimur é uma ousadíssima colaboração entre o violinista Christoph Poppen, o extraordinário grupo vocal The Hilliard Ensemble (com a soprano Monika Mauch, o contratenor David James, o tenor John Potter e o barítono Gordon Jones) e a musicóloga alemã Helga Thoene. A teoria de Thoene é o coração pulsante do projeto: a famosa “Ciaccona” que encerra a Partita não é apenas uma peça virtuosística, mas sim um elaborado epitáfio musical para a primeira esposa de Bach, Maria Barbara, que faleceu em 1720 enquanto ele estava ausente. Vamos lá: para provar sua tese, Thoene identificou inúmeros fragmentos de corais luteranos, como “Christ lag in Todesbanden” e “Jesu, meine Freude”, ocultos na trama da linha do violino. O álbum transforma essa descoberta acadêmica em uma experiência sonora fascinante. Alternância teatral: a primeira parte do disco apresenta a Partita de forma tradicional (Allemanda, Corrente, Sarabanda, Giga), mas cada movimento é alternado com a versão vocal completa dos corais que, supostamente, o inspiraram. É como se estivéssemos assistindo a uma peça em dois atos, onde a narrativa musical se desenrola em camadas. O ponto alto é o tratamento dado à monumental “Ciaccona”. O disco a apresenta duas vezes. A primeira é normal, temos apenas Poppen e seu violino, uma execução belíssima por si só. Na segunda, o verdadeiro experimento: o Hilliard Ensemble se sobrepõe ao violino, cantando os corais “escondidos” na música. O resultado é assombroso e comovente, como se estivéssemos bisbilhotando os pensamentos de Bach. Como era de se esperar do produtor Manfred Eicher e do selo ECM, a produção é impecável. Gravado na abadia de St. Gerold, na Áustria, o som é ressonante e claro, criando uma atmosfera de recolhimento que casa perfeitamente com a proposta. A estética do álbum, com sua fotografia em preto e branco, contribui para a sensação de estar diante de um objeto de culto.

Morimur é um disco que divide opiniões. Para alguns, pode soar como um exercício acadêmico ou uma truque de estúdio. No entanto, a força da execução de Poppen e a beleza etérea do canto do Hilliard Ensemble são inegáveis. A crítica foi quase unânime em reconhecer o valor da obra, com publicações como Gramophone, The Observer (que o elegeu “CD da semana”) e a BBC tecendo rasgados elogios. Morimur é um convite à reflexão. Acredite ou não na teoria de Thoene, o disco consegue um feito raro: faz o ouvinte reouvir uma das peças mais conhecidas do repertório erudito com novos ouvidos, questionando o que está por trás das notas.

Numa noite fria do século XVIII, Bach escrevia a Chacona da Partita Nº 2 para violino solo. A música partia de sua imaginação (1) para o violino (2), no qual era testada, e daí para o papel (3). Anos depois, foi copiada (4) e publicada (5). Hoje, o violinista lê a Chacona (6) e de seus olhos passa o que está escrito ao violino (9) utilizando para isso seu controverso cérebro (7) e sua instável, ou não, técnica (8). Do violino, a música passa a um engenheiro de som (10) que a grava em um equipamento (11), para só então chegar ao ouvinte (12), que se desmilingúi (?) àquilo.

Na variação entre todas essas passagens e comunicações, está a infindável diversidade das interpretações. Mas ainda faltam elos, como a qualidade do violino – e se seu som for divino ou de lata, e se ele for um instrumento original ou moderno? E o calibre do violinista? E seu senso de estilo e cultura? E o ouvinte? E… as verdadeiras intenções de Bach? Desejava ele que o pequeno violino tomasse as proporções gigantescas e polifônicas do órgão? Mesmo? E quando se coloca um coral em cima?

Johann Sebastian Bach (1685-1750): Morimur

Cantata No. 136, “Erforsche mich, Gott, und erfahre mein Herz,” BWV 136 (BC A111)
1 Chorale for 4 voices “Auf meinen lieben Gott” 2:04

Christ lag in Todes Banden (II), chorale setting for 4 voices, BWV 278 (BC F26.2)
2 Den Tod… (single voice excerpt) 0:26

Partita for solo violin No. 2 in D minor, BWV 1004
3 Allemanda 4:11

4 Christ lag in Todes Banden (I), chorale setting for 4 voices, BWV 277 (BC F26.1) 1:29

Partita for solo violin No. 2 in D minor, BWV 1004
5 Corrente 2:48

6 Christ lag in Todes Banden (II), chorale setting for 4 voices, BWV 278 (BC F26.2) 1:31

Partita for solo violin No. 2 in D minor, BWV 1004
7 Sarabanda 4:00

Cantata No. 89, “Was soll ich aus dir machen, Ephraim?” BWV 89 (BC A155)
8 Chorale for 4 voices Text: “Wo soll ich fliehen hin” 0:51

Partita for solo violin No. 2 in D minor, BWV 1004
9 Giga 4:19

Christ lag in Todes Banden (II), chorale setting for 4 voices, BWV 278 (BC F26.2)
10 Den Tod… (single voice excerpt) 0:29

Partita for solo violin No. 2 in D minor, BWV 1004
11 Ciaccona 14:22

12 Christ lag in Todes Banden (I), chorale setting for 4 voices, BWV 277 (BC F26.1) 2:17

St. John Passion (Johannespassion), BWV 245 (BC D2)
13 Chorale for 4 voices “Dein Will gescheh'” 0:54
14 Befiehl du deine Wege (I), chorale setting for 4 voices, BWV 270 (BC 92.1) 1:24
15 Jesu, meine Freude, chorale setting for 4 voices, BWV 358 (BC F116) 1:06

Cantata No. 188, “Ich habe meine Zuversicht,” BWV 188 (BC A154)
16 Chorale for 4 voices “Auf meinen lieben Gott” 0:48

Cantata No. 5 “Wo soll ich fliehen hin,” BWV 5 (BC A145)
17 Chorale for 4 voices “Jesu Deine Passion” 1:08

St. John Passion (Johannespassion), BWV 245 (BC D2)
18 Chorale for 4 voices “In meines Herzens Grunde” 0:52
19 Nun lob, mein Seel, den Herren (I), chorale setting for 4 voices, BWV 389 (BC F153.1) 1:39

Christ lag in Todes Banden (II), chorale setting for 4 voices, BWV 278 (BC F26.2)
20 Den Tod…(single voice excerpt) 0:26

Partita for solo violin No. 2 in D minor, BWV 1004
21 Ciaccona, accompanied by chorale fragments 13:59

Christ lag in Todes Banden (II), chorale setting for 4 voices, BWV 278 (BC F26.2)
22 Den Tod… (single voice excerpt) 0:30

The Hilliard Ensemble
Christoph Poppen + Monika Mauch

BAIXE AQUI — DOWNLOAD HERE

Além de violinista, Poppen é um respeitado maestro

PQP

3 comments / Add your comment below

  1. Esplêndida postagem!
    Segundo pesquisadores como Helga Thoene, a obra seria um epitáfio para a primeira esposa de Bach, Maria Barbara que falecera em 1720, a mesma data da composição. A palavra latina “morimur” provem da fórmula cristã trinitariana:
    Ex Deo nascimur
    In Christo morimur
    Per Spiritum Sanctum reviviscimus
    Obrigado

  2. Mais uma vez, obrigado. IM-PER-Dí-VEL também é a gravação de Emma Kirkby (De Occulta Philosophia).
    Hoje recorro aos Filhos de Bach por outra razão. A trilha do filme João, o Maestro já pode ser ouvida na Web/youtube. Porém, não há, mesmo na versão para compra, a discriminação de algumas faixas. Por favor, ajudem-me a indentificá-las – agardeceria apenas pela identificação/autor.:
    fx 15- Improviso No. 2, Op. 9
    fx 19- Coda do Terceiro Movimento do Concerto No. 1
    fx 20- Andante do Primeiro Movimento do Concerto em A Minor
    Que Deus/Bach os abençôe,
    joão (padecente de melomanite bachiana aguda)

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