Maravilhoso, espantoso CD do Il Giardino Armonico. Talvez seja o melhor álbum já lançado desses com a finalidade de dar um apanhado na música de uma região em determinada época. A época é das melhores — o barroco italiano — e o Giardino nem usou as armas principais. Nada de Vivaldis, Corellis, Torellis, a fim de dar aquela incrementada nas vendas.
Toda a música desta gravação é maravilhosamente viva e vibrante. O violino é particularmente bom — é o gordinho careca da manta e do qual não lembro o nome. Ouçam como se não houvesse amanhã. Todo amante da música instrumental barroca deve experimentar este grande disco.
Viaggio Musicale: Italian Music of the 17th Century (com Il Giardino Armonico)
01. Monteverdi: Sinfonia aus Il ritorno d’Ulisse in Patria
02. T. Merula: Ciaccona
03. Improvisation
04. Dario Castello: Sonata IV
05. Giovanni Battista Spadi: “Anchor che co’l partire”
06. Improvisation
07. Dario Castello: Sonata X
08. Giovanni Battista Riccio: Sonata a 4
09. Improvisation
10. Biagio Marini: Sonata sopra “la Monica”
11. Marco Uccellini: Aria sopra “la Bergamasca”
12. Salomone Rossi: Sinfonia a 3
13. Giovanni Battista Fontana: Sonata XV
14. Alessandro Piccinini: Toccata
15. Marco Uccellini: Sonata XVIII
16. Salomone Rossi: Sinfonia in eco a 3
17. Francesco Rognoni: “Vestiva i colli”
18. Salomone Rossi: Gagliarda “Zambalina” a 4
19. Sinfonia grave a 5
20. T. Merula: Canzon “la Cattarina”
21. Marco Uccellini: Aria sopra “La scatola degli aghi”
22. Giovanni Paolo Cima: Sonata
23. T. Merula: “Ruggiero”
24. Salomone Rossi: Gagliarda “Norsina” a 5
Gosto de um modo muito particular das obras de Elgar. De sua produção, destacam-se As Variações Enigma, Pompa e Circunstância e seu excelente Concerto para Violoncelo. Mas o seu trabalho sinfônico também vale um entusiástico adendo. Antes da Primeira Grande Guerra, Elgar conheceu não pequena fama. Suas obras eram executadas nas salas de concerto da Europa e dos Estados Unidos. Sendo inglês à semelhança de Vaughan Williams, os trabalhos de Elgar dialogam de forma profunda com a natureza. Quiça seja reflexo de sua infância. Talvez ainda sejam as charnecas tão características da Bretanha como narra Ëmile Brontë em O Morro dos Ventos Uivantes ou O Retrato do artista quando jovem de Joyce. Neste registro que ora posto, surgem duas das três sinfonias que o compositor escreveu – As sinfonias de número 1 e 2. São trabalhos realmente significativos. A primeira, a Sinfonia No. 1, é do ano de 1908. O tema de introdução da sinfonia é de uma beleza invulgar. O mesmo tema se repete no final do quarto movimento. O trabalho é regularmente apresentado em programas de concertos na América do Norte e Europa. Já a Sinfonia No. 2 é do ano de 1911. Não deixe de ouvir esses dois tocantes trabalhos do compositor inglês. Boa apreciação!
Edward Elgar (1857-1934) – Symphony No.1 in A flat major, Op. 55, Pomp and Circumstance March No.5, for orchestra in C major, Op. 39/5 e Symphony No.2 in E flat major, Op. 63
DISCO 01
Symphony No.1 in A flat major, Op. 55
01. 1. Andante, nobilimente e semplice – Allegro
02. 2. Allegro molto
03. 3. Adagio
04. 4. Lento – Allegro
Pomp and Circumstance March No.5, for orchestra in C major, Op. 39/5
05. Pomp and Circumstance March No. 5, op. 39
DISCO 02
Symphony No.2 in E flat major, Op. 63
01. 1. Allegro vivace e nobilmente
02. 2. Larghetto
03. 3. Rondo (Presto)
04. 4. Moderato
Talvez o principal segredo de Manfred Eicher tenha sido o de viabilizar gravações àquele pessoal talentoso que fica atrás no palco. Eberhard Weber é um exemplo disso. Nascido em 1940, Weber fez seu disco de estréia em 1974, com este bom The Colours of Chloë. Músico de jazz e erudito, Weber era músico de apoio de Joe Pass, Stephane Grappelli, Baden Powell e outros quando fez sua proposta a Eicher. Sua vida mudou e ele pode até montar um grupo próprio de jazz, além de ter se tornado um contumaz baixista de outras grandes estrelas da gravadora como Pat Metheny, Gary Burton, Jan Garbarek e Ralph Towner, representantes mais importantes do som ECM. The Colours of Chloë não é nenhuma maravilha, mas acho curiosa e agradável de ouvir a tentativa de Weber de fazer um som jazzístico próximo àquele que faziam alguns grupos de rock em 1974, como Yes, Pink Floyd, Gentle Giant, etc. É estranho, mas, por alguma razão, é um CD irresistível para quem completou 17 anos no distante 1974. É uma música feita de climas e ostinatos, é também melancólica e muito mais organizada do que o bom jazz deve ser. Parece de vanguarda, mas é aquela coisa que, apesar de bonita, não possui rumo e pula de estilo em estilo. Bom, aí está.
Eberhard Weber – The Colours of Chloë
1. More Colours 6:41
2. The Colours Of Chloë 7:51
3. An Evening With Vincent Van Ritz 5:50
4. No Motion Picture 19:37
João Gilberto: Ao Vivo – Eu Sei Que Vou Te Amar não é apenas um grande álbum ao vivo. É mais uma das provas — todas definitivas — de que a arte de JG não era um produto de estúdio, mas um estado de ser, reproduzível e vivo diante de testemunhas. As 18 faixas são 18 capítulos de uma oração secular à melodia, ao ritmo interior e à beleza contida. Para o fã, é mais uma relíquia. Para o estudioso de música, é um tratado. Para qualquer ouvinte, é a sensação rara de estar na presença de um gênio, onde o silêncio entre as notas e a voz contam mais do que qualquer acorde. Este registro ganha um peso emocional adicional por ser um dos últimos testemunhos públicos de João antes de seu longo retiro da vida pública. Ouvir este disco é, portanto, ouvir o último grande concerto de uma era. É a bossa nova em sua fonte originária, não como uma moda, mas como uma filosofia musical acabada.
João Gilberto: Eu sei que vou te amar (ao vivo)
Eu Sei Que Vou Te Amar 3:43
Desafinado 4:07
Você Nao Sabe Amar 2:19
Fotografia 2:21
Rosa Morena 3:16
Lá Vem A Baiana 2:21
Pra Que Discutir Com Madame 2:53
Isto Aqui O Que É 3:03
Meditação 3:11
Da Cor Do Pecado 2:32
Guacyra 1:34
Se É Por Falta De Adeus 2:46
Chega De Saudade 3:18
A Valsa De Quem Não Tem Amor 1:49
Corcovado 2:28
Estate 2:12
O Amor Em Paz 2:50
Aos Pés Da Cruz 2:14
Em tempos nebulosos, com ar abafado e horizonte sombrio, faz muito bem um arco-íris no céu. A música de Terry Riley (nasc. Califórnia, 1935) tem trazido muitas cores ao mundo, incluindo seu fantástico LP de música eletrônica A Rainbow in Curved Air (1969) e sua obra-prima In C, que desde os anos 1960 tem sido tocada e gravada por vários grupos dedicados à música contemporânea. Cada performance de In C é bastante diferente das outras, porque a partitura deixa muitas decisões para serem tomadas pelos músicos. Riley foi um dos pioneiros do que hoje chamamos minimalismo, mas também sempre esteve próximo do jazz e do improviso, de forma que é difícil saber se o álbum de hoje é um .:interlúdio:. ou não. E isso pouco importa.
Don Cherry e Terry Riley em 1970 – imagem postada por Riley em seu twitter
O que importa é o diálogo riquíssimo de Riley com Don Cherry (1936-1995), trompetista e multi-instrumentista americano de ascendência indígena e africana, que também cultivou a arte do improviso e ajudou a levá-la por caminhos inesperados. Como Riley, tocou com instrumentistas asiáticos e também teve um grande trio que incluiu o percussionista Naná Vasconcelos, Don Cherry também foi um dos músicos do influente LP Free Jazz (A Collective Improvisation by the Ornette Coleman Double Quartet), álbum de 1961 em que a palavra “free” pode ser entendida como um adjetivo (jazz livre) mas também como um verbo (libertem o jazz!). Nos anos 1970, Don Cherry estava morando na Suécia e fazendo turnês pela Europa, gravando com gente como o compositor Krzysztof Penderecki. E nesse encontro em Köln, Riley e Cherry estavam tocando juntos pela 2ª ou 3ª vez, mas os dois se entendem como se fossem amigos de infância.
Importam também os bônus que seguem mais abaixo, mostrando Terry Riley seu lado mais como compositor do que como instrumentista, mas no fundo tudo se mistura:
“Sunrise and G Song were both pieces that I had worked out in another form. I started with something I knew already when I started writing again; they were pieces I had played myself and had worked out kind of a form for them.” — Terry Riley
Um dos temas gravados na Alemanha em 1975 (Riley toca sozinho neste, sem Don Cherry) se repete na composição de 1980: Sunrise of the Planetary Dream Collector, a primeira peça que Riley compôs para quarteto de cordas, a pedido do Quarteto Kronos. Como In C, ela tem uma série de unidades modais, riffs breves, fragmentos de melodia e padrões rítmicos que os músicos tocam à vontade, adicionando sua própria dinâmica e fraseado, de modo que o quarteto se torna parte do processo criativo tanto quanto o próprio Riley. E é muito boa a interpretação dos holandeses do Nieuw Amsterdams Peil! Eles são partidários da música atual, mas alguns de seus membros também tocam em orquestras sinfônicas e o violoncelista gravou pela Hyperion quintetos de Schubert e Mendelssohn. Dá pra notar que os andamentos e o ataque aos instrumentos é mais suave, menos rock’n’roll do que costuma ser o som do Kronos Quartet.
E o outro bônus é um arranjo para octeto de cellos de Requiem for Adam, composição dos anos 1990, quando Riley já tinha na bagagem várias obras para quarteto de cordas e usa técnicas mais diversas, principalmente glissandos. Menos ligada ao minimalismo, essa obra mostra que Riley tem criatividade demais para se limitar a este ou aquele ‘-ismo’…
Don Cherry
Terry Riley and Don Cherry – Live in Köln 1975
1. Descending Moonshine Dervishes
2. Sunrise of the Planetary Dream Collector
3. Untitled (Descending Moonshine Dervishes part 2)
1975-02-23
Terry Riley – organ, loops
Don Cherry – trumpet, doussn’gouni
Grosser Sendesaal des Westdeutschen Rundfunks
WDR FM Radio, Köln, Germany
Amsterdam – World Minimal Music Festival 2017
1. Sunrise of the Planetary Dream Collector, for string quartet (composed in 1980)
2017-04-06
Muziekgebouw aan het IJ, Amsterdam (Netherlands)
O Muziekgebouw aan het IJ fica bem perto da estação de trens de Amsterdam
Performed by Nieuw Amsterdams Peil: Heleen Hulst – violin, Josje ter Haar – violin, Pieter van Loenen – violin, Emma Breedveld – viola, Mick Sterling – cello
Live in Groningen 2002
1. Requiem for Adam, for string quartet (composed in 1999, here arr. for cello octet)
2002-10-13
Terry Riley Festival 2002
Kleine Zaal, Oosterpoort, Groningen (Netherlands) Performed by Cello Octet Conjunto Ibérico
Há uns quatro meses, o Dr. Cravinhos enviou 2 CDs para o PQP. Enviou para mim… mas deveria ter enviado um para mim e outro para FDP. Um considero espetacular, perfeito, maravilhoso — logo será postado — e o outro lastimável. É este que ora vos posto. Desculpe, mas eu odeio severamente a pianística de Chopin (quase sem exceções) e Liszt (salva-se a Sonata em Si Menor e La lugubre gondola). E suporto com muitas restrições o pianismo cheio de dedos de Bob Schumann. Quando comecei a ouvir este CD, minha mulher e filhos me perguntaram se eu queria expulsá-los de casa. Juro que quase saí junto. Que século estranho o XIX… Como é que o denso e profundo Brahms podia gostar dessas rarefações ornamentais para piano de Schumann? Claro que o negócio dele (de Brahms, bem entendido) era a Clara! E como Schumann conseguiu aquelas obras de câmara, aquele quarteto e quinteto para piano fazendo isso em casa? Ô, Cravinhos, os românticos mais… mais… sei lá, devem ir para outro guichê! Porém, o CD é elogiadíssimo e deve ser bom para quem gosta.
A Balada No. 1, Op. 23 é a primeira que Chopin escreveu. Imaginem que o polaquinho nos torturou com mais quatro! Foi composta entre os anos de 1835 e 1836 durante sua primeira temporada parisiense e é dedicada a um certo Barão de Stockhausen, que ironia… Chopin cita o poeta Adam Mickiewicz — deixem este poetastro longe de mim! — como uma influência para as baladas, mas a “inspiração exata” não é clara. Sorte das outras influências pois teriam de ser ofendidas junto com o MICKEYwicz.
Après une Lecture de Dante: Fantasia quasi Sonata é uma horrenda sonata em um movimento, escrita em 1849. É quase música. Foi publicada em 1856 como parte dos Anos de Peregrinação. Claro que o sogrão lia A Divina Comédia, certamente o Inferno. Se é este mesmo o caso, a sonata poderá ser reavaliada.
A Sonata para Piano, Op. 11 foi descrita por nossa colega Clara Wieck como “um apelo de meu coração ao seu”. Quer dizer: do coração dela para o de Bob. Foi aqui que minha família me ameaçou de deserção. Dizem que Clara participou da composição, mas não a salvou dos lugares-comuns. É música discursiva e vazia de cabo a rabo.
F. Chopin (1810-1849) / F. Liszt (1811-1886) / R. Schumann (1810-1856): Peças para piano (Hélène Grimaud)
FRÉDÉRIC CHOPIN (1810 – 1849)
1) Ballade No. 1 in G minor, Op. 23 (8:19)
FRANZ LISZT (1811 – 1886)
2) Aprés une lecture de Dante (torturantes 15:13)
Fantasia quasi sonata
-Années de Pélerinage, Deuxiéme Année “Italie” S.161
ROBERT SCHUMANN (1810 – 1856)
Sonata for Piano in F-sharp minor, Op. 11
3) I- Introduzione: Un Poco Adagio-Allegro vivace (11:24)
4) II- Aria (2:53)
5) III- Scherzo e Intermezzo: Allegrissimo (4:51)
6) IV- Finale: Allegro un poco maestoso (11:13)
A excelente Orchestra of the 18th Century é muito particular. Eles permitem que as pessoas conversem durante seus concertos e costumam fazem o intervalo dos mesmos entre um movimento e outro de uma obra. Vocês devem estar se perguntando se são malucos. Não, são uma orquestra do século XVIII que deseja que as pessoas tenham uma experiência de século XVIII! Vi um concerto deles no Southbank Center onde eles tocavam as três últimas sinfonias de Mozart. Eles tocaram a 39, metade da 40, foram para o intervalo, voltaram, completaram a 40 e depois fizeram a 41. O público foi incentivado a bater papo durante o Concerto, mas quase ninguém ousou. Tudo isto seria folclore se não fosse a EXTRAORDINÁRIA QUALIDADE da orquestra. Frans Brüggen (1934-2014), outro craque da Música Historicamente Informada, faz um belíssimo trabalho neste CD de 1987 e que talvez não tenhamos postado ainda. Sobre a qualidadee do repertório não vou falar. Desnecessário.
Ludwig van Beethoven (1770-1827): Sinfonia Nº 3 “Eroica” (Brüggen, Orchestra of the 18th Century)
Alguns compositores calam fundo na gente, não acham? E Ravel é um deles. Mesmo que sua produção não tenha sido tão grande, o que compôs marcou toda uma época. Seu Concerto para Piano, que já trouxemos em inúmeras versões aqui para o PQPBach é um dos pilares da leitura pianística do século XX, assim como o genial Concerto para a Mão Esquerda.
Mas o que trago hoje para os senhores é sua obra de câmera. E é assim que a gravadora Onyx, em sua página na internet nos apresenta o disco:
This new album is an all-Ravel programme, a composer particularly close to the Nash Ensemble, and is both a beautiful set of performances and a perfect introduction for the listener discovering these exquisite masterworks for the first time. For lovers of Ravel’s chamber music, this will be an indispensable recording to add to their collection.
Não são obras que aparecem com muita frequência aqui no PQPBach, o que é uma pena. Esse CD foi lançado no final de Novembro, ou seja, recém saído dos fornos da gravadora. A competência do Nash Ensemble está mais do que provada no correr dos últimos sessenta anos, com diversas gravações de destaque.
Eu destacaria no repertório a belíssima versão para dois pianos da obra ‘La Valse’, originalmente composta para orquestra e posteriormente adaptada para dois pianos pelo próprio Ravel.
Com uma instrumentação no mínimo original, onde temos um Quarteto de Cordas acompanhado de uma Harpa, de uma Flauta e de um Clarinete, sabemos que a ‘Introduction and Allegro‘ foi encomendada por um fabricante de Harpas. Mas é exatamente essa instrumentação que dá a obra uma textura única. No livreto em anexo os senhores podem saber maiores detalhes sobre as obras interpretadas nesse disco.
1 Introduction and Allegro M.46
Lucy Wakeford harp · Philippa Davies flute · Richard Hosford clarinet
Stephanie Gonley, Jonathan Stone violins · Lars Anders Tomter viola · Adrian Brendel cello
Piano Trio in A minor M.67
2 I. Modéré
3 II. Pantoum: Assez vif
4 III. Passacaille: Très large
5 IV. Final: Animé
Benjamin Nabarro violin · Adrian Brendel cello · Simon Crawford-Phillips piano
6 La Valse M.72a (two piano version)
Alasdair Beatson primo · Simon Crawford-Phillips secondo
String Quartet in F M.35
7 I. Allegro moderato, très doux 7.39
8 II. Assez vif, très rythmé 5.55
9 III. Très lent 7.55
10 IV. Vif et agité 5.05
Benjamin Nabarro, Jonathan Stone violins · Lars Anders Tomter viola · Adrian Brendel cello
“Ele revelou uma imensa musicalidade que convenceu em cada nuance”
Carsten Dürer, Piano News
Esta deve ser a minha primeira postagem em 2026 – um disco espetacular que tem várias características que me atraem imediatamente. É o primeiro disco de um artista extremamente promissor – um jovem pianista que ganhou prêmios significativos, como o Concurso Geza Anda de Zurique e o Martha Argerich Steinway Prize, pianista com a qual ele tem feito boas parcerias.
O repertório do disco é instigante – reúne peças que exigem virtuosismo do intérprete e que têm diversas relações umas com as outras, sempre se referindo de volta a uma peça de Ravel. Afinal, o título do disco é Reflexões Ravelianas, numa tradução livre, como dizem por aí, os (mal)tra(du)tores.
O disco começa com o mistério e o fantástico de Gaspard de la nuit (Ondine, Le gibet e Scarbo) – obra especialíssima de Ravel, inspirada pelos poemas de Aloysius Bertrand e que se propunha ao desafio de se tornar ‘a mais difícil’ peça para piano, superando a famosa Islamey, de Mily Balakirev, a próxima peça do disco. Essa parte do disco é uma enorme exibição de virtuosismo, mas também de muita musicalidade.
Para a próxima parte duas peças que se conectam especialmente: Jeux d’eau, uma das primeiras obras-primas de Ravel, seguida de sua precursora Les jeux d’eaux à la Villa d’Este, de Liszt. Esta peça de Liszt é verdadeiramente sensacional. Essas duas peças também se relacionam com Reflets dans l’eau, a primeira peça do Primeiro Volume de Images, de Debussy, mas que não faz parte deste disco, só mencionei porque eu adoro essas coisas.
A próxima conexão é com Viena, das valsas. As Valsas Nobres e Sentimentais, de Ravel, foram inspiradas nas valsas de Schubert, mas também na música do rei das valsas, Johann Strauss II. Assim, para refletir tudo isso, completando o programa, uma peça de um quase exato contemporâneo de Ravel, Leopold Godowsky. Ele foi um pianista-compositor virtuose tão exacerbado que não se satisfazia com as dificuldades das obras dos outros autores, dava a elas um extra spin, uma torcida a mais. Lembre-se do que ele fez aos Estudos de Chopin e veja o que ele fez com os temas do Fledermaus. Impressionante!
Maurice Ravel (1875 – 1937)
Gaspard de la nuit
Mily Balakirev (1837 – 1910)
Islamey
Maurice Ravel
Jeux d’eau
Franz Liszt (1811 – 1886)
Les jeux d’eaux à la Villa d’Este
Maurice Ravel
Valses nobles et sentimentales
Leopold Godowsky (1870 – 1938)
Metamorfoses Sinfônicas sobre Temas de ‘Die Fledermaus’, de J. Strauss II
Anton Gerzenberg, born in 1996 in Hamburg, is an outstanding artist of the younger piano generation. After winning first prize at the Geza Anda Concours in Zurich in 2021 and being presented as a “Great Talent” at the Wiener Konzerthaus from 2022 to 2024, he established himself with a remarkably versatile repertoire. His virtuosic, subtly nuanced playing captivates both audiences and critics. In June 2024 he received the Martha Argerich Steinway Prize.
The 2025/26 season opened with a duo recital with Martha Argerich at the Summer Music Days in Hitzacker (described by NDR Kultur as “a concert from another star”) and with several programs at the prestigious Accademia Chigiana in Siena.
Taí um disco do qual eu compraria uma cópia física!
Como o final de semana está chegando, FDP Bach resolveu fazer três postagens peso-pesado para seus leitores/ouvintes, que apenas aos sábados e domingos tem tempo disponível para baixar e ouvir com mais atenção a estas pérolas…
Começarei com uma gravação antológica, e aproveitando também para fazer uma contraposição à última postagem do nosso colega Blue Dog: algumas das mesmas sonatas para flauta de Bach postadas na versão de Jarrett/Petri nas mãos mágicas de Aurèle Nicolet e Karl Richter, dois dos maiores intérpretes do século XX da obra de nosso pai. Já as tive em vinil, aliás ainda a tenho, e, quando a encontrei em cd nacional, quase tive um infarto de tão emocionado que fiquei…
Bem, vamos ao que interessa…
Johann Sebastian Bach (1685-1750): Sonatas para Flauta, BWV 1020, 1030-1032, Partita para Flauta Solo, BWV 1013 (Nicolet, Richter)
1 – Sonata in B minor BWV 1030 – Andante
2 – Sonata in B minor BWV 1030 – Largo e dolce
3 – Sonata in B minor BWV 1030 – Allegro
4 – Sonata in E flat major BWV 1031 – Allegro moderato
5 – Sonata in E flat major BWV 1031 – Siciliano
6 – Sonata in E flat major BWV 1031 – Allegro
7 – Sonata in A Major BWV 1032 – Vivace
8 – Sonata in A Major BWV 1032 – Largo e dolce
9 – Sonata in A Major BWV 1032 – Allegro
10 – Sonata in G minor BWV 1020 – Allegro
11 – Sonata in G minor BWV 1020 – Adagio
12 – Sonata in G minor BWV 1020 – Allegro
13 – Partita in A minor for flute solo, BWV 1013 – Allemande
14 – Partita in A minor for flute solo, BWV 1013 – Corrente
15 – Partita in A minor for flute solo, BWV 1013 – Sarabande
16 – Partita in A minor for flute solo, BWV 1013 – Bouree anglaise
Aqui é outra história. Um excelente disco. Um supremo esforço de Glinka produziu um Sexteto bem aceitável e Rimsky-Korsakov — bem, o Quinteto tem luz própria — retorna gloriosamente a nosso blog. Este Quinteto para Piano e Sopros foi a música inaugural, a obra-prima que abriu este blog. Disco para baixar já! Então a gente usa de indulgência esperando o longo e até bom Glinka acabar e depois degusta o Korsakov, combinado? Esta é uma obra da juventude, escrita em 1876, e é uma peça notável no repertório de música de câmara por combinar um um piano com um quarteto de sopros. Mas dizendo assim parece uma completa idiotice, o que interessa é a alta qualidade de música, ainda sob a influência do estilo clássico-romântico. Embora menos colorida e nacionalista que suas famosas obras orquestrais (como Sherazade), mostra o domínio de uma escrita clara e equilibrada. É interessante notar que seu aluno Anton Arensky compôs um quinteto muito mais famoso (Op. 51), que por vezes é erroneamente atribuído ou associado ao próprio Rimsky-Korsakov.
Glinka: Grande Sexteto / Rimsky-Korsakov: Quinteto para Piano e Sopros (Capricorn Ensemble)
Glinka:
1. Gran sestetto originale, for piano & string quintet in E flat major, G. iv81: Allegro – Maestoso
2. Gran sestetto originale, for piano & string quintet in E flat major, G. iv81: Andante
3. Gran sestetto originale, for piano & string quintet in E flat major, G. iv81: Allegro con spirito
Rimsky-Korsakov:
4. Quintet, for flute, clarinet, horn, basson & piano in B flat major: Allegro con brio
5. Quintet, for flute, clarinet, horn, basson & piano in B flat major: Andante
6. Quintet, for flute, clarinet, horn, basson & piano in B flat major: Rondo (Allegretto)
Ah, OK, é bom, mas não é apaixonante. Ninguém vai enlouquecer ouvindo este comportado Glinka e seu escudeiro Alabiev. São românticos legaiszinhos, com algum sotaque do oriente, nada mais do que isso. Glinka tem considerável importância histórica: pespegaram-lhe o título de Pai da Música Russa. Há pais melhores; o meu, por exemplo.
Glinka (1804-1857) e Alabiev (1787-1851): Música de Câmara
Mikhail Glinka (1804-1857)
Trio Pathétique in D minor
01-I. Allegro moderato
02-II. Scherzo: Vivacissimo – Trio: Meno mosso
03-Largo
04-Allegro con spirito – Alla breve, ma moderato
The Lark, arranged for piano by Balakirev
05-Andante quasi recitativo – Andantino
Viola Sonata in D minor
06-Allegro moderato
07-Larghetto ma non troppo (Andante)
Waltz-Fantasia
08-Waltz-Fantasia
Variations on a theme by Alabiev (The Nightingale)
09-Variations on a theme by Alabiev (The Nightingale)
Alexander Alabiev (1787-1951)
Violin sonata in E minor
10-Allegro con brio
11-Adagio cantabile
12-Rondo: Allegretto scherzando
Adrian Chandler, violino
Norbert Blume, viola
Colin Lawson, clarinete
Alberto Grazzi, basson
Olga Tverskaya, pianoforte
Bom disco da portuguesa Teresa Salgueiro, que era a cantora do Madredeus, interpretando clássicos da bossa nova e da MPB junto com o Septeto de João Cristal. A coisa é muito classuda — arranjos de bom gosto, um grupo de qualidade realmente muito alta, uma cantora afinada e de bela voz que quase consegue perder o sotaque português. Para mim, que já conhecia Salgueiro, a surpresa foi o excepcional Septeto que a acompanha. A capa portuguesa trata de valorizar os acompanhantes, mas nada como ver a bela Teresa na capa japonesa. É um CD que tem uma luz muito particular. Teresa filtra a bossa nova e a MPB com sua voz transparente, respiração calma e o lirismo que sempre carregou consigo desde o Madredeus. O resultado é uma espécie de bossa diferente, mais lunar que solar, íntima sem ser frágil. Veja bem, adoro as versões originais, mas a verdade é que Teresa deu-lhe feições muito interessantes. O Septeto de João Cristal constrói ao redor dela uma arquitetura sonora de grande elegância: piano que brilha sem estridência, clarinete que serpenteia com doçura, um violão que parece mais conversar do que acompanhar, um sábio baixo. Nada é excessivo, e justamente por isso é intenso. As canções ganham outra temperatura — menos praia e mais penumbra, menos festa e mais revelação. A voz de Teresa traz uma saudade que não é brasileira nem portuguesa, é simplesmente humana.
A capa portuguesa
.: interlúdio :. Teresa Salgueiro & Septeto de João Cristal: Você e Eu
1 Chovendo Na Roseira 2:44
2 Na Baixa Do Sapateiro 3:19
3 Marambaia 1:41
4 Estrada Do Sol 4:21
5 Valsa De Uma Cidade 2:56
6 O Samba Da Minha Terra/Saudade Da Bahia 2:59
7 Maracangalha 2:22
8 A Felicidade 4:15
9 Risque 2:36
10 Lamento 2:41
11 Inútil Paisagem 3:13
12 Triste 3:44
13 Modinha 1:48
14 Pra Machucar Meu Coração 4:10
15 Insensatez 3:18
16 Meditação 2:39
17 Valsinha 2:17
18 Samba Do Orfeu 3:01
19 Só Tinha De Ser Com Você 3:34
20 Se Todos Fossem Iguais A Você 3:08
21 Você E Eu 2:29
22 A Banda 2:48
Com a escusa de PQP, FDP e Clara, este interlúdio é, também, um quase-interlúdio do jazz; desvio um pouco para a seara dos colegas e trago, também, um pouco de clássico. Bach! Interpretado, ou relido, por respeitáveis jazzmen.
Keith Jarrett, pianista que começou nos Jazz Messengers de Art Blakey e tocou com Miles Davis no início dos anos 70, firmou-se por incorporar o clássico, o gospel e o blues ao seu estilo de jazz. Um músico diferenciado, criou sua carreira não apenas tocando em conjuntos, mas também lançando diversos álbuns-solo de piano. (De um de seus shows, puro improviso ao instrumento, vem um dos discos mais reverenciados do jazz, The Köln Concert, que certamente figurará neste blog em algum momento.)
Sua relação com a música clássica sempre acompanhou a trajetória jazzística. Desde 1973, compõe e executa para o estilo. Neste disco de 1992, convidou a virtuose dinamarquesa Michala Petri para interpretar sonatas de Bach. Não se trata de um disco de jazz; aqui ele é, antes, uma inspiração para as execuções.
J.S. Bach (1685-1750): Sonatas para Flauta e Cravo (Baixo contínuo) (Petri, Jarrett)
Sonata for Flute and Harpsichord in B minor, BWV 1030
01 I Andante – 08’18
02 II Largo e dolce – 03’28
03 III Presto – 01’25
04 IV Allegro – 04’14
Sonata for Flute and Harpsichord in E flat major, BWV 1031
05 I Allegro moderato – 03’07
06 II Siciliano – 02’02
07 III Allegro – 04’10
Sonata for Flute and Harpsichord in A major, BWV 1032
08 I Vivace – 04’31
09 II Largo e dolce – 02’50
10 III Allegro – 04’13
Sonata for Flute and Harpsichord in C major, BWV 1033
11 I Andante – Presto – 01’35
12 II Allegro – 02’11
13 III Adagio – 01’40
14 IV Menuetto I & II – 02’49
Sonata for Flute and Basso Continuo in E minor, BWV 1034
15 I Adagio ma non tanto – 02’57
16 II Allegro – 02’22
17 III Andante – 03’08
18 IV Allegro – 04’26
Sonata for Flute and Basso Continuo in E major, BWV 1035
19 I Allegro ma non tanto – 02’19
20 II Allegro – 02’52
21 III Sicilano – 03’32
22 IV Allegro assai – 02’57
O Modern Jazz Quartet foi um dos grupos mais duradouros e originais do jazz; começaram em 1952, tocando bop, e encerraram as atividades no final dos ’70 como expoentes do third stream – estilo que se pretende um ponto de encontro entre jazz e música clássica. Evidentemente, o rótulo (cunhado por Gunther Schuller) é polêmico; já a música do MJQ, não. Sempre vistos como precursores, usaram o barroco e o blues de combustíveis para firmarem-se como visionários. Neste Blues on Bach, de 1973, o grupo intercala quatro composições originais, inspiradas em Bach, à cinco adaptações de trabalhos clássicos do compositor. Respeitosamente: sem improvisos, e usando o cravo ao invés do piano. Milt Jackson, um dos maiores vibrafonistas da música, destaca-se em passagens brilhantes.
Modern Jazz Quartet – Blues on Bach (320)
Milt Jackson: vibrafone
John Lewis: piano, cravo
Percy Heath: baixo
Connie Kay: bateria
1 Regret? – 2’04
02 Blues in B Flat – 4’56
03 Rise up in the Morning – 3’28
04 Blues in A Minor – 7’53
05 Precious Joy – 3’12
06 Blues in C Minor – 7’58
07 Don’t Stop This Train – 1’45
08 Blues in H (B) – 5’46
09 Tears from the Children – 4’25
Este é um LP de 1968 que foi lançado como CD em 1991. O som é o que dá pra ser, mas a música… Olha, ouvi tantas vezes a Oferenda que até enchi, só que depois de ouvir o CD passei dois dias com aquilo na cabeça. O grupo de Jörg Ewald Dähler é muito bom e dá conta de sobras da obra. A Oferenda Musical (1747) é uma das obras mais enigmáticas e sublimes de Bach — um verdadeiro laboratório de invenção. Tudo nasce de um “tema real” dado por Frederico II da Prússia, um motivo sinuoso e difícil que Bach transforma em ricercares, cânones e peças de câmara como quem revela, passo a passo, a geometria secreta da música. O ciclo é uma demonstração quase sobrenatural de contraponto, mas também um gesto poético: Bach pega um tema alheio, severo, e o faz florescer em infinitas possibilidades. É uma obra para ouvir como quem contempla um enigma ou teorema resolvido diante dos olhos — ou, talvez, um enigma que continua a se desdobrar enquanto a música soa.
J. S. Bach (1685-1750): A Oferenda Musical (Dähler)
A1 Ricercare A 3
A2 Canon Perpetuus Super Thema Regium…
A3 Canon A 2
A4 Canon A2 Violini In Unisono
A5 Canon A 2 Per Motum Contrarium
A6 Canon A 2 Per Augmentationem, Contrario Motu
A7 Canon A 2 Per Tonos
A8 Fuga Canonica In Epidiapente
A9 Ricercare A 6
B1 Canon A 2
B2 Canon A 2
B3 Canon A 4
B4 Trio: Largo – Allegro – Andante – Allegro
B5 Canone Perpetuo
As Variações Enigma (1899), de Edward Elgar, são uma das obras orquestrais mais engenhosas e emocionalmente interessantes já escritas. Partem de um tema aparentemente simples, jamais mostrado por inteiro, sobre o qual Elgar constrói catorze variações — cada uma dedicada a um amigo, retratado em música com carinho e humor. SEndop mais claro, Elgar afirmou que todo o conjunto seria uma espécie de contraponto a uma melodia nunca revelada. Desde então, músicos e pesquisadores tentam decifrar qual seria esse tema escondido — uma canção popular inglesa? Uma melodia religiosa? Nada é conclusivo. Cada variação é um pequeno retrato. Há a leveza brincalhona de C.A.E. (sua esposa, Alice), o humor de R.B.T. e a energia de W.N. As Variações Enigma não são apenas um jogo intelectual. São, acima de tudo, um gesto de amor: a tentativa de fixar em som as pessoas queridas de Elgar.
Edward Elgar (1857-1934): Enigma Variations / Pomp and Circumstance Marches Nos. 1 and 4 / Salut d’amour / Serenade for Strings (Capella Istropolitana, Slovak Radio Symph Orch, Leaper)
Variations on an Original Theme, Op. 36, “Enigma”
1 Introduction – Variation 1: C. A. E. (The Composer’s Wife) – 03:05
2 Variation 2: H. D. S-P. (Hew David Steuart-Powell) – 00:53
3 Variation 3: R. B. T. (Richard Baxter Townshend) – 01:25
4 Variation 4: W. M. B. (William Meath Baker) – 00:32
5 Variation 5: R. P. A. (Richard Penrose Arnold) 02:03
6 Variation 6: Ysobel (Isabel Fitton) – 01:15
7 Variation 7: Troyte (Troyte Griffith) – 00:55
8 Variation 8: W. N. (Winifred Norbury) – 01:57
9 Variation 9: Nimrod (A. J. Jaeger) – 03:42
10 Variation 10: Intermezzo: Dorabella (Dora Penny) – 02:38
11 Variation 11: G. R. S. (George Robertson Sinclair) – 00:56
12 Variation 12: B. G. N. (Basil G. Nevinson) – 02:38
13 Variation 13: Romanza: *** (Lady Mary Lygon) – 02:41
14 Variation 14: Finale: E. D. U. (The Composer) 04:54
Military Marches, Op. 39, “Pomp and Circumstance”: No. 1 in D Major, “Land of Hope and Glory”
15 Military March No. 1 in D Major, Op. 39, “Pomp and Circumstance” 06:03
Military March No. 4 in G Major, Op. 39, “Pomp and Circumstance”
16 Military March No. 4 in G Major, Op. 39, “Pomp and Circumstance” 04:47
Salut d’amour (Liebesgrüss), Op. 12 (version for orchestra)
17 Salut d’amour (Liebesgrüss), Op. 12 (version for orchestra) 03:30
Serenade, Op. 20
18 I. Allegro piacevole 03:17
19 II. Larghetto 05:49
20 III. Allegretto 02:31
Conductor(s): Leaper, Adrian
Orchestra(s): Capella Istropolitana; Slovak Radio Symphony Orchestra
Sempre tive pavor de coletâneas – mas com o tempo, aprendi a fazer uma exceção ao jazz. O estilo, generoso como só ele, não apenas permite que se arranque pedaços de álbum sem dor; é capaz de dar novas cores à compilação e seus temas pela mistura diferente criada entre elas. (Claro, ninguém aqui pensa em tirar pedaços de A Love Supreme ou Sketches of Spain; sempre há exceções, óbvio.) Para sair um pouco da linha habitual de John “Dizzy” Gillespie – o velocíssimo bop -, hoje trazemos um componente da série Jazz in Paris, da Verve/Gitanes – mais de 100 títulos lançados com raridades em apresentação suntuosa – mostrando faixas gravadas entre 1952 e 53, na capital francesa.
Paris, which had developed into the jazz center of Europe already in the beginning of the 20th century, offered many of these musicians a safe haven as well as a permanent home (later, Denmark, Sweden and sometimes Germany usurped that role) and jazz thrived because of it. One can even be as bold as to state that without Paris and Europe, jazz might never have been recognized as an art form. It was in Europe that jazz had gained that kind of recognition and, as far as I recall, it was jazz critics such as Leonard Feather (England) and Dan Morgenstern (Austria), who spent their entire lifetimes promoting it as an art form in the United States.daqui
É o lado mais swing e groove de um dos fundadores do bebop (ao lado de Parker); em momentos já afro-jazz, em outros quase cool, gravações parisienses cheias de atmosfera (incluindo alguns chiados, mesmo com remasterização – o que me deixa deveras feliz. Nada pior que uma limpeza asséptica em algo capaz de tirar vida do ruído). Coletânea para desfrutar e agradecer ao gênio; a relação das músicas, logo abaixo, mostra toda uma constelação. E evoca as noites de uma Paris dos anos 50 que jamais conheci, capaz de provocar uma romântica nostalgia enviesada.
Dizzy Gillespie em 1955
Dizzy Gillespie – Verve/Gitanes Jazz in Paris Series: Cognac Blues (320)
Dizzy Gillespie: trumpet, vocal
Don Byas: tenor saxophone
Art Simmons, Arnold Ross, Wade Legge: piano
Jean-Jacques Tilché: guitar
Joe Benjamin, Lou Hackney: double bass
Bill Clark, Al Jones: drums
Humberto Canto Morales: congas
01 Cognac Blues 2’40
02 Cocktails For Two 3’23
03 Moon Nocturne 3’03
04 Sabla Y Blu 3’05
05 Blue And Sentimental 2’42
06 Just One More Chance 3’10
07 They Can’t Take That Away from Me 3’14
08 Break at the Beginning (Taking a Chance on Love) 2’42
09 When It’s Sleepy Time Down South 2’55
10 Lullaby in Rhythm 4’22
11 Just Blues (One More Blues) 2’59
12 Ain’t Misbehavin’ 2’56
13 Summertime 4’16
14 Blue Moon 4’25
15 Mama’s blues (Mrs. Dizzy blues) 4’00
16 Undecided 2’32
17 The Way You Look Tonight 4’12
18 They Can’t Take That Away From Me [alt take] 3’59
19 Taking a Chance on Love [alt tk 1] 3’27
20 Taking a Chance on Love [alt tk 2] 3’36
21 Lullaby in Rhythm [alt take] 4’05
Hoje é o primeiro domingo do Ano Novo. Esta postagem não é uma casualidade, porém aviso que, excepcionalmente, devido ao meu desconhecimento sobre estas Cantatas, apelo para a IA do DeepSeek:
As cantatas para o Domingo após o Ano Novo (ou para a Circuncisão de Cristo, festa fixada em 1º de janeiro) são um grupo fascinante, pois Bach aborda a transição entre a celebração do novo ano e a reflexão sobre os desafios do tempo vindouro.
Das que você citou, é importante fazer uma distinção litúrgica precisa, pois Bach reutilizou algumas cantatas em diferentes datas. Vamos a elas:
1. BWV 16 “Herr Gott, dich loben wir” (Senhor Deus, nós Te louvamos)
Data Original: Composta para o Dia de Ano Novo (1º de janeiro de 1726), festa da Circuncisão de Cristo.
Características: É uma cantata coral majestosa. O primeiro movimento é uma adaptação grandiosa do hino alemão “Nun lob, mein Seel, den Herren”, criando um tom de louvor e ação de graças pelo novo ano. O recitativo e ária para baixo alertam para os perigos do novo ano, enquanto a ária de tenor é uma prece por proteção divina.
2. BWV 171 “Gott, wie dein Name, so ist auch dein Ruhm” (Deus, como Teu nome, assim também é Tua fama)
Data Original: Também para o Dia de Ano Novo (1º de janeiro de 1729?).
Características: É uma cantata de paródia, onde Bach reaproveitou música de obras anteriores (neste caso, partes de sua Missa em Sol menor, BWV 235). O texto, baseado no Salmo 48:10, fala sobre a eternidade e a grandeza do nome de Deus. Tem um caráter mais íntimo e contemplativo, com uma bela ária para soprano.
3. BWV 153 “Schau, lieber Gott, wie meine Feind” (Vê, amado Deus, como meus inimigos)
Data Original: Esta é especificamente para o Domingo após o Ano Novo (2 de janeiro de 1724).
Características: Aqui o tom muda radicalmente. Após a festa, a liturgia lembra a Fuga para o Egito. A cantata é uma oração por proteção contra inimigos e falsos acusadores. É uma obra séria e comovente, que começa com um coral em forma de choral-partita e contém uma ária de baixo com oboé d’amore de grande profundidade, suplicando por auxílio divino.
Data Original Complexa: Foi composta para o Domingo após o Ano Novo (5 de janeiro de 1727), mas também reapresentada no Domingo após a Epifania. É um diálogo sagrado entre a Alma (Soprano) e Jesus (Baixo).
Características: É uma das cantatas mais íntimas e belas de Bach. A estrutura alterna árias e recitativos em diálogo, onde a Alma expressa medo e tribulação e Jesus responde com consolo e promessa de companhia (“Ich bin bei dir” – “Estou contigo”). A cantata termina com um coral de confiança.
Síntese Teológico-Musical:
Ano Novo (1º de janeiro):BWV 16 e 171 focam no louvor a Deus pelo novo início e na confiança em Seu nome eterno.
Domingo após o Ano Novo:BWV 153 e 58 abordam a realidade imediata do sofrimento e do perigo no mundo, transformando a celebração em um pedido urgente de proteção e consolo. Elas refletem a rápida transição na liturgia luterana da festa para a vida cotidiana da comunidade.
Portanto, você está correto: essas quatro cantatas formam um conjunto complementar perfeito para os dias em torno do Ano Novo na igreja de Leipzig, mostrando a genialidade de Bach em musicar tanto a alegria solene quanto a vulnerabilidade humana perante o futuro.
Johann Sebastian Bach (1685-1750): Cantatas para o primeiro domingo do Ano Novo, BWV 16, 171, 153, 58 (Rilling)
BWV 16 (Herr Gott, Dich Loben Wir / Lord God, We Give Thee Praise)
Alto Vocals – Gabriele Schreckenbach
Bass Vocals – Philippe Huttenlocher
Bassoon – Kurt Etzold
Cello – Helmut Veihelmann, Martin Ostertag
Choir – Gächinger Kantorei Stuttgart
Concertmaster – Walter Forchert
Conductor – Helmuth Rilling
Double Bass – Thomas Lom
Harpsichord – Hans-Joachim Erhard
Horn – Johannes Ritzkowsky
Oboe – Diethelm Jonas, Hedda Rothweiler
Orchestra – Bach-Collegium Stuttgart*
Tenor Vocals – Peter Schreier
Viola – Adelheid Böckheler
(17:30)
1 Coro (Choral)
2 Recitativo
3 Aria E Coro
4 Recitativo
5 Aria
6 Choral
BWV 171 ( Gott, Wie Dein Name, So Ist Auch Den Ruhm / God, As Thy Name Is, Too, Thy Fame)
Alto Vocals – Julia Hamari
Bass Vocals – Walter Heldwein
Bassoon – Günther Pfitzenmaier
Cello – Stefan Trauer
Choir – Gächinger Kantorei Stuttgart
Conductor – Helmuth Rilling
Double Bass – Claus Zimmermann
Harpsichord – Hans-Joachim Erhard
Oboe – Günther Passin, Hedda Rothweiler
Orchestra – Württembergisches Kammerorchester Heilbronn*
Soprano Vocals – Arleen Augér*
Tenor Vocals – Aldo Baldin
Timpani – Norbert Schmitt
Trumpet – Josef Hausberger, Peter Send
Violin – Georg Egger, Radboud Oomens
(15:30)
7 Coro
8 Aria
9 Recitativo
10 Aria
11 Recitativo
12 Choral
A Sinfonia Nº 10, Op. 93, de Dmitri Shostakovich é uma das obras mais pessoais, enigmáticas e poderosas do compositor. Ela foi concluída após a morte de Stalin (março de 1953), que havia perseguido Shostakovich e outros artistas. É vista como uma reação emocional a esse período de terror e à esperança de liberação artística. Shostakovich declarou que a obra representa — referindo-se ao segundo movimento — “Stalin e os anos stalinistas”, embora seu significado vá muito além. A sinfonia tem quatro movimentos. Inicia por um Moderato, um movimento lento, vasto e sombrio, que constrói uma tensão quase insuportável. Representa a opressão e a solidão do indivíduo sob o regime totalitário. Depois temos o tal Allegro, um scherzo brutal, frenético e violento. É frequentemente interpretado como um retrato musical de Stalin — mecânico, implacável e esmagador. Um dos movimentos mais agressivos já escritos por Shostakovich. Segue-se um Allegretto – Largo que finalmente e pela primeira vez introduz o motivo musical DSCH, as notas correspondentes às iniciais do seu nome em alemão: D. SCHostakovich). É como uma assinatura musical, afirmando sua identidade artística após anos de silêncio forçado. O clima é pesado, melancólico e introspectivo. Finaliza com um Andante – Allegro que começa de forma sombria, mas evolui para uma conclusão triunfante. O motivo DSCH retorna com força, simbolizando, talvez, a vitória pessoal do compositor. Bem, mas por que esta sinfonia é tão importante? Ora, porque captura a essência do terror stalinista e o alívio pós-morte do psicopata. Também, pela primeira vez, Shostakovich “assina” uma obra de forma clara com o motivo DSCH, o qual é repetido inúmeras vezes, insistentemente MESMO. É uma obra magistral e emocionalmente devastadora. A estreia (dezembro de 1953) foi controvertida. Autoridades soviéticas acharam a obra “pessimista”, enquanto que outros a viram como um grito de liberdade. Tornou-se um símbolo da resistência artística. Não é apenas música, mas um ato de coragem política e pessoal, onde Shostakovich transforma sua angústia em arte universal. Uma obra obrigatória para entender o século XX. Só mesmo um tolo como Osvaldo Colarusso, no pasquim curitibano de extrema direita Gazeta do Povo, teve a pachorra de chamar Shosta de “covarde e egoísta”. Ele talvez quisesse que Shosta enfrentasse seus algozes de frente e morresse cedo como um herói olaviano? Não vou colocar o link aqui para não ajudar na audiência do jornal, que é um lixo. Ah, voltando ao CD: a regência de Mariss Jansons e a orquestra de Filadélfia dispensam elogios.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonia Nº 10 / Modest Mussorgsky (1839-1881): Canções e Danças da Morte (Philadelphia Orch, Jansons)
Symphony No. 10, Op. 93 Composed By – Dmitri Shostakovich
1 I. Moderato 21:49
2 II. Allegro 4:19
3 III. Allegretto 12:03
4 IV. Andante – 4:24
5 __ Allegro 8:35
Songs And Dances Of Death Composed By – Modest Mussorgsky Orchestrated By – Dmitri Shostakovich Text By – Count Arseni Golenishchev-Kutuzov
6 I. Cradle Song 4:40
7 II. Serenade 5:02
8 III. Trepak 4:44
9 IV. The Field-Marshall 5:44
Bass Vocals – Robert Lloyd (4) (tracks: 6-9)
Conductor – Mariss Jansons
Orchestra – The Philadelphia Orchestra
Um baita disco. Dois Quartetos alegres e sarcásticos… O Quarteto Nº 2 foi composto logo após a Segunda Guerra Mundial, no mesmo período da Nona Sinfonia. É uma obra de transição: o otimismo oficial do pós-guerra se choca com a desilusão pessoal de Shostakovich. Ainda não havia a repressão aberta de 1948 (com o Decreto Jdanov), mas o clima já era de cautela. É uma “sinfonia de guerra” em miniatura, mas dizendo muito: é feliz, mas parece focar mais no custo humano do que na vitória. O terceiro movimento é um scherzo grotesco, típico do estilo de Shostakovich. Já o Nº 5 foi escrito durante o auge do Decreto Jdanov, que acusou Shostakovich de “formalismo burguês”. Sua música mais pública (sinfonias, concertos) era censurada, então ele canalizou sua voz mais autêntica para a música de câmara. É uma obra estruturalmente perfeita e, como sempre, carregada de subtexto emocional. Tratou-se de uma válvula de escape artística; nele, Shostakovich fala sem as restrições da música sinfônica oficial. Podemos dizer que o Nº 3 é um documento histórico emocional da experiência traumática do século XX. É Shostakovich como cronista da guerra e da memória. E o Nº 5 seria um testemunho da resistência artística.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Quartetos Nº 2 e 5 (Éder Quartet)
String Quartet No. 3 In F, Op. 73
1 Allegretto 6:52
2 Moderato Con Moto 4:59
3 Allegro Non Troppo 4:08
4 Adagio 5:26
5 Moderato 9:02
String Quartet No. 5 In B Flat, Op. 92
6 Allegro Non Troppo 10:11
7 Andante 9:20
8 Moderato – Allegretto 10:08
Éder Quartet:
Cello – György Éder
Viola – Sándor Papp
Violin – György Selmeczi, Péter Szüts*
Para os ouvintes, estas obras a quatro mãos oferecem uma dupla recompensa: o prazer imediato de uma música bem elaborada e discursiva e a satisfação mais profunda de sentir as vozes de dois pianistas unindo-se numa única arquitetura expressiva. Esta música – compacta em escopo, expansiva em sentimento – permanece um testemunho do gênio de Schubert: uma arte da conversa que faz com que um espaço pareça, de repente e para sempre, mais íntimo.
James Jolly
Como Schubert morreu relativamente jovem, eu achava que a sua ‘Sinfonia Inacabada’ assim ficara por ‘justa causa’, o compositor morreu e a obra ficou sem ser arrematada. É vero que ele a deixou inacabada ao morrer, mas não foi a morte que o impediu de a terminar, uma vez que a composição da sinfonia ocorreu em 1822. A razão para abandonar a obra deve ser bem mais prosaica, a falta de perspectiva de executá-la ou mesmo por razões estéticas, não foi só esta obra que ele deixou (in)completa.
Na verdade, no ano de sua morte, Schubert estava artisticamente muito vivo, este período resultou em uma cesta cheia de obras primas. O quanto Schubert estava consciente de sua iminente morte é um mistério. Apesar de incrivelmente talentoso, Schubert poderia ser bastante tímido. Viveu na mesma cidade que Beethoven, a quem idolatrava, mas nunca o visitou. E, pasmem, passou a ter aulas de contraponto com Simon Sechter! Queria aperfeiçoar-se!
Todas as obras desse disco foram compostas nesse ano de 1828, a fuga reflete mais evidentemente esses estudos. A Fantasia em fá menor é bem provavelmente a mais famosa delas, outras interessantes e famosas interpretações podem ser encontradas aqui, aqui e aqui.
Bertrand e Leif adoraram conhecer o parreiral da Vinícula PQP Bach em Alegrete
O livreto que acompanha o arquivo traz uma entrevista com os dois (excelentes) pianistas feita por James Jolly (ex-editor da Gramophone). Nesta entrevista descobrimos algumas curiosidades, como a diferença, para os pianistas, entre tocar um piano a quatro mãos, situação na qual os dois dividem o mesmo teclado, e o caso das interpretações em duo pianistico. Leif Ove Andsnes já compareceu aqui na lojinha tocando nessa formação com Marc-André Hamelin, num disco com obras de Stravinsky, que você pode acessar aqui.
Franz Schubert (1797 – 1828)
Fantasia in F minor D.940 (January–March 1828)
Allegro in A minor D.947 “Lebensstürme” (May 1828)
Pianists Bertrand Chamayou and Leif Ove Andsnes join forces to record Schubert’s magnificent Fantasia in F minor, presenting a landmark Schubert 4 Hands album. This release arrives 40 years after Radu Lupu and Murray Perahia’s legendary CBS recording and 60 years after Benjamin Britten and Sviatoslav Richter’s historic Aldeburgh Festival performance.
Parte da entrevista, traduzida pelo Chat PQP, agora com inteligência artificiosa: (Em 1828, Schubert procurou o compositor e professor Simon Sechter para orientação em contraponto – não exatamente a atitude de um homem que sabia que estava perto da morte.) LOA: “Todo esse novo interesse por mais vozes, vozes independentes, manifesta-se maravilhosamente nessas peças. Há tanta coisa acontecendo. Quero dizer, o domínio de certas passagens e a vivacidade das vozes intermediárias em Lebensstürme são simplesmente inacreditáveis. E a Fantasia, em seu uso do contraponto, é uma peça realmente magistral. E a pequena Fuga em Mi menor mostra claramente como ele estava estudando contraponto. Acho uma fuga incomum e realmente bela.” BC: “O interesse pelo contraponto foi claramente um desenvolvimento em sua escrita. E o fato de ele estar trabalhando com Sechter é uma prova de que ele estava interessado em desenvolver ainda mais suas habilidades em contraponto. É curioso que tantos compositores, em algum momento perto do fim de suas vidas, como Chopin, por exemplo, se dediquem cada vez mais ao contraponto. Esse tipo de desenvolvimento, essa busca por mais linhas melódicas, é claramente o que Schubert almejava naquele momento.”
Aproveitem!
René Denon
Ilustração da dupla enviada pela turma do Dpt. de Artes da PQP Bach Publishing House
Há muitos anos acredito que os 15 quartetos de Shostakovich rivalizam com suas 15 sinfonias em qualidade. Sinto-me instado a ouvi-los sempre com a mesma ou maior atenção que dou às sinfonias. São certamente obras mais íntimas, mas quem disse que o intimismo deva ser menos considerado que os grandes painéis?
Esta é a quinta série completa que conheço. Tenho as dos quartetos Fitzwilliam, Borodin, Shostakovich e Éder (Naxos) e, olha, somando e pesando as qualidades de todos, acho que ficou com o Emerson, apesar do fundamental 8º Quarteto não ser tão DEVASTADOR quanto eu gostaria. Mas a musicalidade do grupo e seu grande senso de estilo dão-lhe o título provisório de campeões. Abaixo, algumas anotações que fiz ao longo dos anos. Não comento todos os quartetos. Minha escolha não significa que goste mais dos que comentei e menos dos outros, é puramente casual.
Quarteto de Cordas Nº 2, Op. 68 (1944)
Este trabalho em quatro movimentos foi escrito em menos de três semanas. A abertura é uma melodia de inspiração folclórica, tipicamente russa. O grande destaque é o originalíssimo segundo movimento, Recitativo e Romance: Adagio. O primeiro violino canta (ou fala) seu recitativo enquanto o trio restante o acompanha como se estivessem numa ópera ou música sacra barroca. O Romance parece música árabe, mas não suficientemente fundamentalista a ponto que a Al Qaeda comemore. Segue-se uma pequena valsa no mesmo estilo. O quarto movimento é um Tema com variações que fecha brilhantemente o quarteto.
É curioso que neste quarteto, talvez por ter sido composto rapidamente, há uma musicalidade simples, leve e nada forçada. Talvez nem seja uma grande obra como os Quartetos Nros. 8 e 12, mas é dos que mais ouço. Afinal, esta é uma lista pessoal e as excentricidades valem, por que não?
Quarteto de Cordas Nº 6, Op. 101 (1956)
Talvez apenas aficionados possam gostar deste esquisito quarteto. Ele tem quatro movimentos, dos quais três são decepcionantes ou descuidados. O intrigante nesta música é o extraordinário terceiro movimento Lento, uma passacaglia barroca que é anunciada solitariamente pelo violoncelo. É de se pensar na insistência que alguns grandes compositores, em seus anos maduros, adotam formas bachianas. Os últimos quartetos e sonatas para piano de Beethoven incluem fugas, Brahms compôs motetos no final de sua vida e Shostakovich não se livrou desta tendência de voltar ao passado comum de todos. Enfim, este quarteto vale por seu terceiro movimento e, com certa boa vontade, pelo Lento – Allegretto final.
Quarteto de Cordas Nº 7, Op. 108 (1960)
Mais um quarteto de Shostakovich com um lindíssimo movimento lento, desta vez baseado no monólogo de Boris Godunov (ópera de Mussorgski baseada em Puchkin), e mais um finale construído em forma de fuga, utilizando temas do primeiro movimento. Uma pequena e curiosa jóia de onze minutos.
Quarteto de Cordas Nº 8, Op. 110 e Sinfonia de Câmara, Op. 110a – Arranjo de Rudolf Barshai (1960)
Na minha opinião, o melhor quarteto de cordas de Shostakovich. Não surpreende que tenha recebido versões orquestrais. Trata-se de uma obra bastante longa para os padrões shostakovichianos de quarteto; tem cinco movimentos, com a duração total ficando entre os 20 minutos (na versão para quarteto de cordas) e 26 (na versão orquestral). O quarteto abre com um comovente Largo de intenso lirismo, o qual é seguido por um agitado Allegro molto, de inspiração folclórica e que fica muito mais seco na versão para quarteto. O terceiro movimento (Allegretto) é uma surpreendente valsinha sinistra a qual é respondida por outra valsa, muito mais lenta e com um acompanhamento curiosamente desmaiado. O quarteto é finalizado por dois belos temas ; o primeiro sendo pontuado por agressivamente por um motivo curto de três notas e o segundo formado por mais uma fuga a quatro vozes utilizando temas dos movimentos anteriores.
Os quartetos de números 9, 10 e 11 são semelhantes em estrutura e espírito. São os três muito bons e têm em comum o fato de manterem por todo o tempo a alternância entre movimentos rápidos e lentos, sendo tais contrastes ampliados pelo fato de o nono e o décimo primeiro serem compostos por movimentos executados sem interrupções. O décimo ainda separa os primeiros movimentos, porém o Alegretto final surge de dentro de um Adágio. A postura de fazer com que surjam movimentos antagônicos um de dentro do outro é uma particularidade que torna estes quartetos ainda mais interessantes, sendo que o décimo primeiro é um inusitado quarteto de 17 minutos com sete movimentos; isto é, Shostakovich brinca com a apresentação de temas que fazem surgir de si outros muito diversos em estilo, como se o compositor estivesse sofrendo de uma incontrolável superfetação (*). É, no mínimo, desafiador ao ouvinte. Melodicamente são muito ricos, e exploram com insistência incomum os ostinatos, os quais são sempre no máximo belíssimos e no mínimo curiosos. Merecem inteiramente o lugar que modernamente obtiveram no repertório dos quartetos de cordas. É curioso como é fácil confundi-los. Estou ouvindo-os enquanto escrevo e noto quando o CD passa de um para outro, pois têm personalidades muito próprias, mas nunca sei se o que estou ouvindo é o nono ou o décimo. Certamente é uma limitação minha! Já no décimo primeiro, o paroxismo da criação de melodias chega a tal ponto, seus ostinatos são tão alucinados, que é mais fácil reconhecê-lo.
Aliás, o décimo primeiro apresenta aqueles finais tranquilos que constituíram-se uma das assinaturas do Shostakovich final. Esqueçam o gran finale. Sem fazer grande pesquisa, sei que os finais quietos, nada grandiosos, podem ser encontrados na 13ª, 14ª e 15ª sinfonias, neste quarteto e no sensacional Concerto para Violoncelo.
(*) Palavra pouco utilizada, não? Significa a concepção que ocorre quando, no mesmo útero, já há um feto em desenvolvimento.
Quarteto Nº 13, Op. 138 (1970)
Um pouco menos funéreo que a Sinfonia Nº 14, este quarteto foi escrito nos intervalos do tratamento ortopédico que conseguiu devolver-lhe do parte do movimento das mãos e antes do segundo ataque cardíaco. O décimo-terceiro quarteto é um longo e triste adágio de cerca de vinte minutos. O quarteto foi dedicado ao violista Vadim Borisovsky, do Quarteto Beethoven, e a viola não somente abre o quarteto como é seu instrumento principal. Trata-se de um belo quarteto cuja tranquilidade só é quebrada por um pequeno scherzando estranhamente aparentado do bebop (sim, isso mesmo).
Quarteto de Cordas Nº 14, Op. 142 (1972-73)
Este é quase um quarteto para violoncelo solo e trio de cordas, tal é a proeminência dada àquele instrumento. É um quarteto inspiradíssimo, escrito em três movimentos (Allegretto – Adagio – Allegretto), e que tem seu centro dramático em um dilacerante adagio de 9 minutos. Não consigo imaginar uma audição deste quarteto sem a audição em seqüência do Nº 15. Eles, que costumam aparecer juntos, seja em vinil ou em CD, formam, em minha imaginação, uma só música.
Quarteto de Cordas Nº 15, Op. 144 (1974)
Este trabalho, assim como a Sonata para Viola, são tidas como obras-primas e seriam os dois principais “réquiens privados” de Shostakovich. Concordo.
O que dizer de um obra escrita em seis movimentos, em que quatro deles são adagio e os outros dois são adagio molto, sendo que, destes dois últimos, um é uma marcha funeral e outro um epílogo…? Ora, no mínimo que é lenta. Porém, como estamos falando do Shostakovich final, estamos falando de uma obra que tem como fundo a morte. Há três movimentos realmente notáveis nesta música: a Serenata: Adagio, a Marcha Fúnebre – Adagio Molto e o musicalmente espetacular Epílogo – Adagio Molto. O Epílogo recebeu vários arranjos sinfônicos e costuma aparecer — separadamente ou não do resto do quarteto — em gravações orquestrais.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Integral dos Quartetos de Cordas (Emerson String Quartet)
CD 1: String Quartet No.1 in C major, Op.49
1. 1. Moderato [3:56]
2. 2. Moderato [3:59]
3. 3. Allegro molto [2:23]
4. 4. Allegro [3:44] String Quartet No.2 in A major, Op.68
5. 1. Overture (Moderato con moto) [7:58]
6. 2. Recitative & Romance (Adagio) [9:05]
7. 3. Valse (Allegro) [5:29]
8. 4. Theme & Variations [10:44] String Quartet No.3 in F major, Op.73
9. 1. Allegretto [6:52]
10. 2. Moderato con moto [4:22]
11. 3. Allegro non troppo [3:50]
12. 4. Adagio [4:44]
13. 5. Moderato [8:19]
CD 2: String Quartet No.4 in D major, Op.83
1. 1. Allegretto [3:51]
2. 2. Andantino [6:23]
3. 3. Allegretto [4:35]
4. 4. Allegretto [9:31] String Quartet No.5 in B flat major, Op.92
5. 1. Allegro non troppo [11:19]
6. 2. Andante [8:29]
7. 3. Moderato [10:22] String Quartet No.6 in G major op.101
8. 1. Allegretto [6:44]
9. 2. Moderato con moto [4:59]
10. 3. Lento – attacca: [3:58]
11. 4. Lento – Allegretto – Andante – Lento [6:33]
CD 3: String Quartet No.7 in F sharp minor, Op.108
1. 1. Allegretto [3:42]
2. 2. Lento [2:49]
3. 3. Allegro [5:06] String Quartet No.8 in C minor, Op.110
4. 1. Largo [4:34]
5. 2. Allegro molto [2:38]
6. 3. Allegretto [4:05]
7. 4. Largo [4:46]
8. 5. Largo [3:34] String Quartet No.9 in E flat major, Op.117
9. 1. Moderato con moto [4:24]
10. 2. Adagio [3:47]
11. 3. Allegretto [4:02]
12. 4. Adagio [3:00]
13. 5. Allegro [9:29] String Quartet No.10 in A flat major, Op.118
14. 1. Andante con moto [4:13]
15. 2. Allegretto furioso [3:58]
16. 3. Adagio [4:49]
17. 4. Allegretto – Andante [8:41]
Repertório raro e interessante. Martinu lembra muito Hindemith com sua música altamente contrapontística e bem humorada. Gostei muito, ainda mais depois de saber que ele foi expulso do Conservatório de Praga por sua “incorrigível negligência”. Ele foi violinista, mas os muitos amantes da viola que nos frequentam podem deliciar-se com seus Três Madrigais para Violino e Viola. Atenção também para as outras duas peças que colocamos aí em cima, no título. Baita disco!
Ah, e La Revue de Cuisine (Jornal de Cozinha, não?) é música felicíssima e GENIAL. Confira!
Bohuslav Martinu (1890-1959): Música de Câmara: La Revue de Cuisine + Noneto + um monte de Madrigais e outras peças (The Dartington Ensemble)
Five Madrigal Stanzas
1-1 Part 1
1-2 Part 2
1-3 Part 3
1-4 Part 4
1-5 Part 5
Four Madrigals
1-6 Part 1
1-7 Part 2
1-8 Part 3
1-9 Part 4
Three Madrigals
1-10 Part 1
1-11 Part 2
1-12 Part 3
Madrigal Sonata
1-13 Madrigal Sonata
Nonet (1959)
2-1 I Poco Allegro
2-2 II Andante
2-3 III Allegretto
Trio In F
2-4 I Poco Allegretto
2-5 II Adagio
2-6 Andante – Allegretto Scherzando
Sonatina For 2 Violins & Piano
2-7 Part 1
2-8 Part 2
2-9 Part 3
2-10 Part 4
La Revue De Cuisine (1927) 14:40
2-11 I Prologue: Allegretto (Marche) 3:57
2-12 II Tango (Lento) 4:10
2-13 III Charleston (Poco A Poco Allegro) 2:52
2-14 IV Finale: Tempo Di Marcia 3:29
Bassoon – Graham Sheen
Cello – Michael Evans*
Clarinet – David Campbell (6)
Double Bass – Nigel Amherst
Ensemble – The Dartington Ensemble
Flute – William Bennett (3)
Horn – Richard Watkins
Oboe – Robin Canter
Piano – John Bryden
Trumpet – Barry Collarbone
Viola – Patrick Ireland
Violin – Oliver Butterworth
Um belo álbum duplo com músicas de meu irmão mais velho. Excelente orquestra e solista idem. Era o filho predileto de papai. Era um gênio, mas muito indisciplinado. Para sua educação musical papai escreveu o Clavierbüchlein. Mas, já viram, deixava todos os empregos estáveis para tentar a vida boêmia de músico itinerante, chegando em muitas ocasiões a enfrentar dificuldades financeiras, quando era obrigado a vender bens pessoais e manuscritos paternos recebidos em herança para poder subsistir. O PUTO VENDEU PARTITURAS DE JOHANN SEBASTIAN BACH QUE JAMAIS FORAM REENCONTRADAS. ELE PERDEU MAIS DE 100 CANTATAS. Também dizem que foi um renomado alcoolista que sugou boa parte do álcool produzido em sua Turíngia natal. Mas era um grande músico, apreciado por sua capacidade de improvisar e deixou boa quantidade de música para teclado de excelente qualidade, cujas características antecipam a tensão e emocionalismo do Romantismo. Confiram aí e bebam à vontade.
Wilhelm Friedemann Bach (1710-1784): Todos os Concertos para Cravo (Astronio, Harmonices Mundi)
CD1
1. Concerto in F Minor (c. 1767): I. Allegro di molto 6:33
2. Concerto in F Minor (c. 1767): II. Andante 8:23
3. Concerto in F Minor (c. 1767): III. Prestissimo 3:25
4. Concerto in F, F. 44 (1740-45): I. Allegro ma non troppo 9:56
5. Concerto in F, F. 44 (1740-45): II. Molto adagio 10:31
6. Concerto in F, F. 44 (1740-45): III. Presto 5:51
7. Concerto in E Minor, F. 43 (c. 1767): I. Allegretto 9:23
8. Concerto in E Minor, F. 43 (c. 1767): II. Adagio 9:15
9. Concerto in E Minor, F. 43 (c. 1767): III. Allegro assai 5:59
CD2
1. Concerto in D, F. 41 (1735-40): I. Allegro 6:18
2. Concerto in D, F. 41 (1735-40): II. Andante 5:14
3. Concerto in D, F. 41 (1735-40): III. Presto 4:36
4. Concerto in A Minor, F. 45 (1735-40): I. – 5:17
5. Concerto in A Minor, F. 45 (1735-40): II. Larghetto 4:07
6. Concerto in A Minor, F. 45 (1735-40): III. Allegro ma non molto 5:34
7. Concerto in F, F. 10 for 2 harpsichords (c. 1740): I. Allegro moderato 8:54
8. Concerto in F, F. 10 for 2 harpsichords (c. 1740): II. Andante 6:05
9. Concerto in F, F. 10 for 2 harpsichords (c. 1740): III. Presto 3:54
10. Concerto in E-Flat, F. 46 for 2 harpsichords (c. 1745): I. Un poco allegro 11:18
11. Concerto in E-Flat, F. 46 for 2 harpsichords (c. 1745): II. Cantabile 3:28
12. Concerto in E-Flat, F. 46 for 2 harpsichords (c. 1745): III. Vivace 8:09
Harmonices Mundi
Claudio Astronio, cravo e regência
O Quarteto Nº 14 é particularmente fascinante porque Shostakovich estava experimentando uma estrutura incomum de movimentos encadeados dentro de uma linguagem musical moderna. É um espécime muito curioso. E bonito. E aquele movimento final com o tema judeu… Lembrem que ele usou temas klezmer em outras obras também, como no Trio para Piano nº 2. Sabiam que isso era uma forma de protesto silencioso contra o anti-semitismo soviético? Já o Quarteto Nº 15 é outra história completamente diferente – seis adágios consecutivos! Isso é beeeem radical. É impressionante como Shostakovich conseguiu criar tanta variedade dentro de um único andamento. São obras de um gênio, digamos, crepuscular. Ele sofria de uma doença cardíaca, também de outra enfermidade degenerativa, havia sobrevivido aos expurgos stalinistas, à Segunda Guerra Mundial e a décadas de opressão soviética. Essas obras são uma meditação sobre a mortalidade, o sofrimento e a resignação.
Dmitri Shostakovich (1906-1975): Quartetos Nº 14 e 15 (Éder Quartet)
String Quartet No. 14 in F-Sharp Major, Op. 142
1 I. Allegretto 08:48
2 II. Adagio – 08:59
3 III. Allegretto 08:22
String Quartet No. 15 in E-Flat Minor, Op. 144
4 I. Elegy: Adagio – 12:50
5 II. Serenade: Adagio – 05:42
6 III. Intermezzo: Adagio – 01:29
7 IV. Nocturne: Adagio – 04:47
8 V. Funeral March: Adagio molto – 04:44
9 VI. Epilogue: Adagio – Adagio molto 06:14