.: interlúdio: Return to Forever (Returns) :.

Que tal um lançamento, pra variar? Esse recém-chegado, duplo ao vivo, do Return to Forever registra a turnê mundial que a banda fez no ano passado, lotando plateias por onde passou. Com o line-up clássico de Corea, Clarke, DiMeola e Lenny White, as gravações mostram estes senhores dividindo-se em passagens de quase-inacreditável perícia e a grande energia progressiva do fusion. John Kelman, do allaboutjazz, indica os destaques:

Stretched to 38 minutes, the title track from Romantic Warrior includes solo features from Corea (which breaks, midway, into an unexpected, hard-swinging version of Miles Davis’ “Solar”), Clarke (referencing some of his own ’70s solo albums) and White (a powerhouse solo that segues smoothly back to the song). It’s part of an unplugged middle section that also includes a stunning feature for Di Meola and a vibrant group take of the lyrical but thematically knotty title track from No Mystery (Polydor, 1975). Seventies RTF never sounded this good.

But it’s the electric RTF that is remembered most, and Returns delivers plenty of high octane playing, especially on a 27-minute “Song to the Pharoah Kings,” from Where Have I Known You Before (Polydor, 1974). Often criticized for being more style than substance, Di Meola dispels that perception once and for all throughout the set, even supplanting original RTF guitarist Bill Connors’ iconic solo on “Hymn of the Seventh Galaxy.” Still capable of light-speed finger work that leaves most in his wake, Di Meola has grown significantly since being recruited, at 19, to replace Connors. With greater harmonic sophistication and attention to space, he’s the star of the show (among a group of stars) alongside Corea, whose meatier synth tones have never sounded better, adding a broader textural palette to the group.

Return to Forever – Returns (VBR HQ)
Chick Corea: piano
Stanley Clarke: bass
Al Di Meola: guitar
Lenny White: drums

download: disco 1 – 110MB e disco 2 – 105MB
1.01 Opening Prayer
1.02 Hymn of the Seventh Galaxy
1.03 Vulcan Worlds
1.04 Sorceress
1.05 Song to the Pharoah Kings
1.06 Al’s Solo
1.07 No Mystery
2.01 Friendship
2.02 Romantic Warrior
2.03 El Bayo de Negro
2.04 Lineage
2.05 Romantic Warrior (continued)
2.06 Duel of the Jester and the Tyrant
2.07 500 Miles High
2.08 BBC Lifetime Achievement Award to Return to Forever as presented by Sir George Martin, including a performance of Romantic Warrior

Boa audição!
Blue Dog

.: interlúdio: Sun Ra live at the Gibus :.

Esta é uma postagem para ouvidos ousados. Sun Ra, o controverso anjo de Saturno, é conhecido por extrapolar os limites do free jazz e associá-lo a mitologias e cosmogonias. Em um registro ao vivo como esse de 1973, pode-se imaginar a que altura voa.

The best way to describe this music is to say it is out there on the fringes of all that has ever made any sense in recorded music, particularly jazz. There really is no other way to attempt to come up with something that makes sense. Sun Ra was a pioneer in every sense of the word. He was one of the very first to take free form jazz and make it more spacey and adventurous by experimenting with electronics and such.

Live In Paris At The “Gibus” stands as a live recorded document to the Sun Ra musical genius and his avant-garde approach to jazz. He effectively used the ability and styles of the genre and all its flexibility. (daqui)

Sun Ra – Live In Paris At The “Gibus” (320)
Confira a extensa ficha técnica aqui

download – 98MB
01 Spontaneous Simplicity 4′
02 Lights on a Satellite 5’25
03 Ombre Monde 2 12’15
04 King Porter Stomp 2’50
05 Salutations From The Universe 14’53
06 Calling Planet Earth 1’22

Boa audição!
Blue Dog

.: interlúdio: Sonny Criss plays Cole Porter :.

Sonny Criss Plays Cole Porter (320)
Sonny Criss: alto sax
Larry Bunker: vibraphone
Sonny Clark: piano
Buddy Clark: bass
Lawrence Marable: drums

download – 80MB
01 I Love You
02 Anything Goes
03 Easy to Love
04 It’s All Right With Me
05 In the Still of the Night
06 Love for Sale
07 Night and Day
08 Just One of Those Things
09 What Is This Thing Called Love?
10 I Get a Kick Out of You

Boa audição!
Blue Dog

.: interlúdio :. Ralph Towner – Open Letter

Pois é, é um paradoxo. Os críticos babam para este CD, eu acho só legalzinho, competente. E olha que eu gosto muito de Towner e do Oregon. Não sei, talvez eu estivesse mal humorado. Perguntei para minha mulher sua opinião logo que o CD chegou e ela me fez um sinal de indiferença. Bom, mas os críticos acham uma obra prima e costumo concordar quando vem uma avalanche de elogios. Deixem minha opinião sub judice, OK?

Ralph Towner – Open Letter – ECM – 1991-92

1 The Sigh
2 Wistful Thinking
3 Adrift
4 Infection
5 Alar
6 Short’n Stout
7 Waltz For Debby
8 I Fall In Love Too Easily
9 Magic Pouch
10 Magniola Island
11 Nightfall

Ralph Towner classical and 12-string guitars, synthesizer
Peter Erskine drums

Recorded July 1991 and February 1992
ECM 1462

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

PQP

.: interlúdio :. John Surman – Road to Saint Ives

É incrível o sucesso das postagens envolvendo o espetacular saxofonista e compositor John Surman. Eu gosto muito e fico feliz vendo o contador de downloads lá em cima; ou seja, vocês também gostam. Este é um mais um notável trabalho individual de Surman. Ele deve ser a alegria de qualquer produtor. Fecha-se no estúdio sozinho, toca todos os instrumentos e sai de lá com um CD maravilhoso desses. É um excelente disco para um domingo quente como o de hoje. Se Surman tivesse nascido há algumas décadas, hoje seria uma lenda, mas como está vivinho por aí, poucos dão bola pra ele.

Imperdível!

John Surman – Road to Saint Ives (1990)

1 Polperro
2 Tintagel
3 Trethevy Quoit
4 Rame Head
5 Mevagissey
6 Lostwithiel
7 Perranporth
8 Bodmin Moor
9 Kelly Bray
10 Piperspool
11 Marazion
12 Bedruthan Steps

John Surman bass clarinet, soprano and baritone saxophones, keyboards, percussion

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PQP

.: interlúdio :. Miles Davis: Someday my Prince will come (1961)

Jazz waltzes were still fairly rare back in 1961, and Paul Chambers’ pedal point intro keeps the meter a mystery during the opening seconds. Cobb is part of the conspiracy, and refuses to signal the downbeat, while Wynton Kelly floats over their throbbing pulse. These opening feints — forty seconds of sweetness and light — are worth the price of admission alone . . . but then Miles enters and shows how he can put his stamp on a song just by playing the melody. His solo is a minimalist canvas, perfectly matched by Kelly’s crisp comping. The swing gets stronger with Mobley’s tenor and during Kelly’s solo, but when Coltrane enters with his “sheets of sound” the temperature in the studio rises at least ten degrees. The handsome prince has arrived on a Harley, ready to burn rubber. But Chambers rushes back like a protective dueña, instilling decorum with his pedal point, and this magical performance makes a complete circle back to its starting point. What a ride! (jazz.com)

Este é um disco que, talvez injustamente, ficou marcado pela faixa-título – onde, como se não bastasse o arranjo brilhante, ainda se ouve dois solos grandiosos de Coltrane. Someday My Prince Will Come é também um período de trasição para Miles: gravado em três sessões, entre 7 e 21 de março de 1961, marcava a saída de Kind of Blue para um período de diversidade de estilos, até fixar-se nas bandas do fusion ao final daquela década. Se, por um lado, foi brilhante revendo uma valsa, as composições de Miles são, na verdade, o melhor neste álbum. Há cool jazz uptempo em “Pfrancing”, há (um adequadíssimo) blues em “Drad Dog”, e outra show de Trane em “Teo”, homenagem ao produtor e amigo. Exige do ouvinte, apenas, paciência com Hank Mobley; essas faixas seriam as últimas que Coltrane gravaria com Davis, e o “peso-médio” Mobley (nas palavras do All About Jazz), se não compromete, é prejudicado pelo desnível imediato que a assinatura sonora de Coltrane traz quando entra em campo.

Não se pode culpar Mobley, claro.

Quanto à moça da capa, uma curiosidade pessoal antiga, não encontrei nenhuma informação – a não ser que Miles condicionou o lançamento do álbum à obrigatoriedade de sua foto na fronte. Fico imaginando Miles atrás do fotógrafo, talvez um meio sorriso, amarrando com um pouco de autobiografia outro de seus grandes trabalhos.

Miles Davis – Someday My Prince Will Come (320)
01 Someday My Prince Will Come (Churchill, Morey) 9’04
02 Old Folks (Robison, Hill) 5’14
03 Pfrancing (Davis) 8’31
04 Drad Dog (Davis) 4’29
05 Teo (Davis) 9’34
06 I Thought About You (Van Heusen, Mercer) 4’53
07 Blues No. 2 (Davis) 7’08
08 Someday My Prince Will Come [alt take] 5’34

Miles Davis: trumpete
Hank Mobley: sax tenor (exceto faixa 5)
John Coltrane: sax tenor (faixas 1 e 5)
Wynton Kelly: piano
Paul Chambers: baixo
Jimmy Cobb: bateria (exceto faixa 7)
Philly Joe Jones: bateria (faixa 7)
Gravado em março de 1961 – New York City, USA
Produzido por Teo Macero para a Columbia

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE (mp3 320 kbps)

Boa audição!
Blue Dog

.: interlúdio :.

Confesso que sei muito pouco sobre Wayne Shorter. Sei que nasceu nos anos 30 e ainda está vivo, o que é sempre bom; que tocou naquele quinteto mágico de Miles Davis, no final da década de 50; que é um excelente compositor, além de um grande saxofonista. Este “Night Dreamer”, de 1964, é apontado pelos críticos como um momento de transição entre o bop direto que fazia e sua ascensão como compositor. Descobri o disco recentemente e compartilho-o ainda fresco nos ouvidos. É grandioso e relaxante. Aproveitem.

Wayne Shorter – Night Dreamer (256)
Wayne Shorter: tenor saxophone, compositions
Lee Morgan: trumpet
McCoy Tyner, piano
Reggie Workman: bass
Elvin Jones: drums
Produzido por Alfred Lion para a Blue Note

download – 88MB
01 Night Dreamer 7’15
02 Oriental Folk Song 6’51
03 Virgo 7’07
04 Black Nile 6’28
05 Charcoal Blues 6’54
06 Armageddon 6’23
07 Virgo [alt. take] 7’03

Boa audição!
Blue Dog

.: interlúdio :. The Dowland Project: Romaria

Não é um CD de música erudita. Ou é. É música antiga, mas não há Dowland aqui, apesar de que nos dois CDs anteriores do The Dowland Project havia. Vou tentar explicar: são arranjos para tenor, saxes (muitos), violino e algo como o alaúde. Trata-se de uma coleção de canções muito bonitas, interpretadas com extrema sensibilidade, delicadeza e respeito. Não são arranjos comuns, daqueles que trazem um compositor antigo para uma linguagem atual ou para a linguagem dos músicos, até porque aqui não há de modo algum uma linguagem comum — ou seja, não é aquele horror habilidosinho francês ao estilo de Jacques Loussier –, são antes recriações de músicos muito diferentes entre si sobre compositoções antigas, buscando uma terceira expressão, através de um outro grupo de instrumentos e culturas. Talvez o The Dowland Project faça alguns puristas mais xiítas se morderem de ódio. Porém, ficarei autenticamente desconfiado de sua qualificação como ouvintes… Sério.

Este é mais um grupo que tem como participante o genial saxofonista e claronista inglês John Surman.

Encontrei um texto anônimo circulando na rede. Muito bom.

This is a disc of whispered conversations: among musicians, cultures and periods – past, present and future. Anonymous composers from the Franus Codex and the Carmina Burana manuscript break bread with Josquin and Lassus, while ancient instruments freely consort with modern.

With a revised line-up, John Potter’s Dowland Project expands its repertoire on its third album, freely exploring love songs, chants and motets from the 12th century to the present by Oswald von Wolkenstein, Orlando di Lasso, Josquin Desprez and others including the anonymous composers of the Carmina Burana manuscript. New to the Project is Miloš Valent, the vibrant violinist and violist from Slovakia who is equally at home in early music and in the gypsy and folk musics of eastern Europe. Like English reedman John Surman and American lutenist Stephen Stubbs he is also able to improvise beyond the traditions: these richly atmospheric pieces are reborn in the interaction of the players.

Imperdível!

The Dowland Project: Romaria ECM 1970 [CD]

1. Got schepfer aller dingen (‘Der Kanzler’) 4:34
2. Veris dulcis (Carmina Burana manuscript) 5:14
3. Pulcherrima rosa (Franus Codex) 5:31
4. Ora pro nobis (anonymous) 4:13
5. La lume (traditional Iberian) 4:22
6. Dulce solum (Carmina Burana manuscript) 6:53
7. Der oben swebt (Oswald von Wolkenstein) 4:59
8. O beata infantia (Gregorian) 3:35
9. O Rosa (traditional Iberian) 4:48
10. Saudade (Valent/Surman/Stubbs) 6:18
11. In flagellis (Josquin Desprez) 3:52
12. Kyrie Jesus autem transiens (Firminus Caron) 3:30
13. O beata infantia (Gregorian) 3:53
14. Credo Laudate dominum (Orlando di Lasso) 3:57
15. Ein gut Preambel (Hans Neusidler) 0:57
16. Sanctus Tu solus qui facis (Josquin Desprez) 4:30
17. Ein iberisch Postambel (Valent/Surman/Stubbs) 5:48

recorded January 2006, Propstei St. Gerold

John Potter, tenor voice;
John Surman, soprano saxophone, bass clarinet, tenor and bass recorders;
Milos Valent, violin, viola;
Stephen Stubbs, baroque guitar, vihuela

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PQP

.: interlúdio :. A baronesa que amou Thelonious Monk

Pelo grande pianista – e por amor ao jazz – a herdeira de uma nobre família britânica largou tudo. A história de Kathleen Annie Pannonica Rotschild, ou simplesmente Nica, está contada em um novo documentário dirigido por sua sobrinha-neta.

Ao descobrir que amava os músicos de jazz, Kathleen Annie Pannonica Rothschild, esposa do barão Jules de Koenigswarter, mudou sua vida – a sua e a deles também. A baro­nesa pagou seus aluguéis, resgatou seus instrumentos hipotecados em lojas, levou-os a shows em seu Bentley prata e convidou-os a morar em sua própria casa nos tempos mais difíceis.

Diante da desaprovação da sua família, ela apoiou de músicos proeminentes, como Sonny Rollins, Charles Mingus e Art Blakey, aos obscuros. Um deles, do qual ficou indissocia­vel­mente ligada, foi Thelonious Monk. Pannonica, ou Nica, se apaixonou pela música do sumo sacerdote do bebop em 1952, ao ouvir Round Midnight. Em 1954, quando ele tinha 34 anos, e ela, 40, iniciaram uma relação cuja essência desafia analistas – e que só terminou com a morte dele.

Pannonica, assim chamada em homenagem a uma borboleta rara, era a caçula do banquei­ro e entomologista Charles Roths­child. O homem, que sofria de depres­são, cometeu suicídio quando ela tinha 12 anos e estava prestes a embarcar numa adolescência que para uma Rothschild só poderia representar, como ela diz em The Jazz Baroness, documentário recém-lançado por sua sobrinha-neta, Hannah, “uma sala de espera para o casamento e a maternidade”.

Tudo, então, mudou: artista talentosa, aos 18 anos ela estudava arte em Munique. Aprendeu a voar e, aos 22, casou-se com Jules, um colega aviador. Eles moraram em um castelo no noroeste da França, onde tiveram os filhos Patrick e Janka. A II Guerra levou o barão para a África, depois de ele aderir ao exército de De Gaulle.

Nica foi com o marido. Depois da guerra, o barão virou diplomata, primeiro na Noruega, a seguir no México. Eles tiveram outros três filhos – Berit, Shaun e Kari – mas, relata Hannah Rothschild, “Nica não se adaptou à vida de mulher de embaixador”. Em 1952, o casal se separou. E a baronesa foi para Nova York.

Três anos mais tarde, o divórcio foi incitado depois que Charlie Par­ker morreu no seu apartamento, no Hotel Stanhope, na 5th Avenue. O grande trompetista estava em turnê quando começou a tossir sangue. Um médico sugeriu repouso – é quando a casa de Nica entra na história. Três dias depois, enquanto viam TV, Parker caiu de súbito e morreu. Os Rothschild não gostaram da repercussão do caso.

Jules ganhou a guarda dos três filhos mais novos. Nica não foi uma mãe negligente, mas suas prioridades estavam noutro lugar, geralmente com Monk. O genial compositor e pianista tinha uma esposa, a quem dedicou Crepuscule with Nellie. Com a baronesa, o casal formou uma espécie de ménage – cujo principal objetivo era o de sustentá-lo e transpor o que provavelmente hoje seria diagnosticado como transtorno bipolar. “Nellie precisava de Nica para ajudá-la a lidar com a instabilidade de Monk”, diz um entrevistado do filme.

O par se tornou conhecido em clubes de Nova York, mas o espetáculo de uma mulher branca com um homem negro na década de 1950 acabou por provocar incidentes. Um deles: Nica levava Monk e seu saxofonista, Charlie Rouse, a um show em Wilmington, Delaware, quando, durante uma breve parada, um policial vasculhou o carro e encontrou uma pequena quantidade de maconha. Sabendo que uma condenação para os músicos significaria a proibição de se apresentar em casas noturnas, Nica assumiu a culpa, passou a noite na cela e foi condenada a três anos de prisão – o que seria anulado posteriormente.

Cansada de ser convidada a se reti­rar de hotéis por gerentes que não gostavam do entra-e-sai de músicos, a baronesa comprou uma mansão em New Jersey. Lá, instalou o piano Steinway que comprara para Monk, junto com seus – mais de 300 – gatos. Ele e Nellie se mudaram para lá.

De saúde instável, o jazzista morreu em 1982, aos 64 anos. Seis anos mais tarde, Nica, então com 75, não sobreviveu a uma cirurgia. Sua generosidade, contudo, não morreu com ela. A casa, pertencente a seus herdeiros, tem sido ocupada por Barry Harris, outro pianista. Tempos depois, as cartas de Nica foram descobertas entre os papéis do pianista Mary Lou William, outro amigo próximo, junto com várias de suas requintadas pinturas abstratas. Fragmentos das cartas, lidos pela atriz Helen Mirren, são ouvidos no filme, incluindo o veredito sobre seu casamento: “Jules odiava jazz. Ele se acostumou a quebrar meus discos quando eu me atrasava para jantar. Eu geralmente estava atrasada para jantar.”

Quanto aos seus amigos músicos, Hannah os descreveu, no lançamento do longa, como “as mais dignas, humanas e articuladas pessoas que conheci em 20 anos fazendo documentários.” Não deixa de ser uma resposta para quem se pergunta por que razão a discografia do jazz pós-guerra é estudada com um nome exótico, em um catálogo de composições que inclui não apenas a Pannonica de Monk, mas Nica’s Dream, Nica Steps Out, Blues for Nica e uma dúzia de outras.

O documentário não tem previsão de lançamento no Brasil.

The Guardian – Publicado hoje em Zero Hora

.:Interlúdio:. Freddie Hubbard (In Memoriam) – The Griffith Park Collection

O PQP Bach, assim como todos os amantes do jazz, se encontra em luto. Faleceu na última segunda feira, dia 29, o grande trompetista Freddie Hubbard. Sensível ao ocorrido, eu, FDP Bach, resolvi prestar uma homenagem a este excepcional músico, postando um trabalho um tanto quanto desconhecido dele. Bem,creio que seja desconhecido: The Griffith Park Collection, gravado em 1981, álbum que reuniu 5 feras em seus respectivos instrumentos:

Freddie Hubbard, no trompetes, Chick Corea nos teclados, Joe Henderson, no sax tenor, e uma das melhores cozinhas já reunidas na história do jazz: Stanley Clarke no contrabaixo e Lenny White na bateria. Tudo bem, é um Return to Forever com o acréscimo do próprio Hubbard e do Henderson. Só que acústico.

Uma pequena biografia deste mestre do trompete pode ser encontrada aqui .

Estou com pouco tempo hoje para preparar postagens. Daqui a pouco viajo para passar o Reveillon com alguns amigos na beira-mar de uma praia próxima de minha cidade.

Deixo aqui um Feliz 2009 para todos os nossos leitores-ouvintes e agradeço sua atenção.

Freddie Hubbard (In Memoriam) – The Griffith Park Collection

1 – L’s Bop
2 – Why Wait
3 – October Ballade
4 – Happy Times
5 – Remember
6 – Guernica

Freddie Hubbard – Trumpets
Chick Corea – Piano
Joe Henderson – Tenor Saxophone
Stanley Clarke – Bass
Lenny White – Drums

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

FDP

.: interlúdio :. Pat Metheny – Trio 99->00

Vamos combinar que, nestes dias de semiferiados, vamos POSTAR APENAS OBRAS-PRIMAS para quem ficou trabalhando? Combinado! Então lá vai mais uma.

Depois de alguns trabalhos mais ou menos, Pat Metheny resolveu fechar o século XX com este extraordinário CD publicado no ano 2000, O MELHOR CD DE JAZZ DAQUELE ANO E TALVEZ DOS QUE VIERAM DEPOIS. Este disco faz com que eu não consiga reconhecer outro guitarrista deste nível no jazz de todos os tempos. Um disco cheio de sutilezas, de excelente repertório quase integralmente original e… por favor, que trio! Como disse um comentarista, trata-se de uma perfeita combinação de BOM GOSTO, TALENTO E DIVERSÃO. Metheny desfia uma SÉRIE ARREBATADORA DE GRANDES SOLOS e, se você é baterista, certamente se interessará pelo que Bill Stewart faz aqui.

Imperdível!

Pat Metheny – Trio 99->00

1. (Go) Get It 5:37
2. Giant Steps 7:54
3. Just Like The Day 4:43
4. Soul Cowboy 8:28
5. The Sun In Montreal 4:35
6. Capricorn 6:19
7. We Had A Sister 5:30
8. What Do You Want? 5:24
9. A Lot Of Livin’ To Do 5:29
10. Lone Jack 5:30
11. Travels 5:48

Pat Metheny, guitars
Larry Grenadier, bass
Bill Stewart, drums

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

PQP

.: interlúdio :.

Pois fechemos, então, a programação de natal jazz com a trinca abaixo.

Tony Bennett & The Count Basie Big Band – A Swingin’ Christmas (320)
Tony Bennett: voice; John Williams: baritone saxophone; Doug Miller, Doug Lawrence: tenor sax; Grant Langford, Marshall McDonald: alto sax; Clarence Banks, Alvin Walker, Dave Keim, Barry Cooper: trombone; Scotty Barnhart, Michael Williams, Kris Johnson, James Zollar: trumpet.

download – 87MB
01 I’ll Be Home for Christmas 2’12
02 Silver Bells 3’17
03 All I Want for Christmas Is You 4’18
04 My Favorite Things 2’55
05 Christmas Time Is Here 3’59
06 Winter Wonderland 2’31
07 Have Yourself a Merry Little Christmas 4’36
08 Santa Claus Is Coming to Town 2’53
09 I’ve Got My Love to Keep Me Warm 3’31
10 The Christmas Waltz 3’22
11 O Christmas Tree 3’27

Oscar Peterson – An Oscar Peterson Christmas (192)
Oscar Peterson: piano; Jack Schantz: flugelhorn; Dave Samuels: vibraphone; Lorne Lofsky: guitar; David Young: bass; Jerry Fuller: drums; Rick Wilkins: conductor.

download aqui – 75MB
01 God Rest Ye Merry Gentlemen 3’28
02 What Child is This? 4’50
03 Let it Snow 3’44
04 White Christmas 3’53
05 Jingle Bells 3’18
06 I’ll be Home for Christmas 2’51
07 Santa Claus is Coming to Town 3’32
08 O Little Town of Bethlehem 3’19
09 The Christmas Waltz 6’56
10 Have Yourself a Merry Christmas 4’00
11 Silent Night 3’11
12 Winter Wonderland 4’11
13 Away in a Manger 3’38
14 O Christmas Tree 2’17

Wynton Marsalis – Crescent City Christmas Card (VBR)
Wynton Marsalis: trumpet; Ben Riley, Herlin Riley: drums; Wessell Anderson: alto sax; Wycliffe Gordon: trombone; Joe Temperley: baritone sax, bass clarinet; Reginald Veal: bass; Alvin Batiste: clarinet; Todd Williams: soprano and tenor sax, clarinet.

download aqui – 99MB
01 Carol of the Bells 4’56
02 Silent Night 4’47
03 Hark! The Herald Angels Sing 3’09
04 The Little Drummer Boy 5’29
05 We Three Kings 5’22
06 Oh Tannenbaum 1’39
07 Sleigh Ride 4’19
08 Let It Snow! Let It Snow! Let It Snow! 4’20
09 God Rest Ye Merry Gentlemen 5’43
10 Winter Wonderland 2’55
11 Jingle Bells 3’23
12 O Come All Ye Faithful 1’37
13 Twas the Night Before Christmas 8’07

Boa audição, e feliz natal a todos!
Blue Dog

.: interlúdio :.

Dezembro segue veloz e estamos atrasados para nossa programação jazzística natalina!

Não, não pensem que este cão está de touca vermelha e guizos na cauda a esperar o Papai Noel; não sou um grande fã do natal, e inclusive compartilho a orientação religiosa de nosso célebre PQP. Mas a verdade é que este é o único período do ano em que se pode escutar tais discos sem uma sensação estrondosa de deslocamento invadindo cada frase.

E, claro, há muito o que ouvir. No ano passado, postei os hors-concours Chet Baker & Christopher Mason Quartet – Silent Night e Vince Guaraldi Trio – A Charlie Brown Christmas; retomo a série no mesmo tom, com uma trinca de ases. Logo abaixo vocês verão, e talvez ouvirão, Dave Brubeck sozinho ao piano, como um velho Scrooge às avessas, solitário mas benevolente; Louis Armstrong dividindo o estúdio com músicos diversos, numa viagem por sua discografia; e Ella Fitzgerald, bem, fazendo o que sempre fez com maestria, em uma sessão monotemática de 1960, no auge de sua voz.

Tem mais; meia dúzia de outros bons discos devem pintar por aqui até o dia 25. E mesmo que você não goste muito da ocasião, aconselho a baixar e gravar um (uns) preferidos em CD. É sempre uma ótima saída se a festa for na casa do seu cunhado e ele surgir com o disco natalino da Simone ou do Chitãoró e Xorozinho.


Dave Brubeck – A Dave Brubeck Christmas (224)
Dave Brubeck: piano
Produzido por John Synder e Russell Gloyd para a Telarc (1996)
download – 93MB
01 “Homecoming” Jingle Bells 3’22
02 Santa Claus Is Coming to Town 3’42
03 Joy to the World 2’55
04 Away in a Manger 5’06
05 Winter Wonderland 4’22
06 O Little Town of Bethlehem 5’37
07 What Child Is This? (Greensleeves) 3’30
08 To Us Is Given 3’36
09 O Tannenbaum 3’38
10 Silent Night 4’56
11 Cantos Para Pedir las Posadas 4’01
12 Run, Run, Run to Bethlehem 3’51
13 “Farewell” Jingle Bells 3’02
14 The Christmas Song 4’29


Ella Fitzgerald – Wishes you a Swingin’ Christmas (256)
Produzido por Norman Granz para a Verve (1960)
Ella Fitzgerald: vocals
Frank DeVol: arranger, conductor

download – 64MB
01 Jingle Bells 2’21
02 Santa Claus Is Coming to Town 2’56
03 Have Yourself a Merry Little Christmas 2’56
04 What Are You Doing New Year’s Eve? 3’32
05 Sleigh Ride 2’56
06 The Christmas Song 3’00
07 Good Morning Blues 3’15
08 Let It Snow! Let It Snow! Let It Snow! 2’43
09 Winter Wonderland 2’16
10 Rudolph the Red-Nosed Reindeer 2’51
11 Frosty the Snowman 2’12
12 White Christmas 3’02


Louis Armstrong & Friends – The Christmas Collection (224)
Compilado em 1997 por Andy McKaye para a Hip-O

download – 63MB
01 White Christmas (with Gordon Jenkins & His Orchestra) 2’39
02 ‘Zat you Santa Claus? (with The Commanders) 2’40
03 Christmas in New Orleans (with Benny Carter & His Orchestra) 2’54
04 Christmas Night in Harlem (with Benny Carter & His Orchestra) 2’39
05 Cool Yule (with The Commanders) 2’56
06 Winter Wonderland (with Gordon Jenkins & His Orchestra) 2’59
07 It’s Christmas Time Again (with Peggy Lee/Jud Conlon Rhythmaires) 3’00
08 Jingle Bells (with Duke Ellington & His Orchestra) 3’00
09 Santa Baby (with Eartha Kitt/Henri Rene & His Orchestra) 3’26
10 The Christmas Song (with Mel Tormé) 3’03
11 Silent Night (Dinah Washington) 2’22
12 Merry Christmas, Baby (with Lionel Hampton) 3’22
13 May Every Day be Christmas (with Louis Jordan & His Orchestra) 3’11
14 Santa Claus is Coming to Town (with Lena Horne) 2’43

Boa audição!
Blue Dog

.:interlúdio:. John Surman: The Amazing Adventures Of Simon Simon

Mais um CD com as esquisitices e originalidades de John Surman. Desta vez, o inglês ataca em dupla com Jack DeJohnette ou em trio, se considerarmos os sintetizadores criadores de ostinati simples e sonhadores. Gosto muito de Nestor`s Saga e de The Pilgrim’s Way. É um trabalho de qualidade média se considerarmos o espetacular Upon Reflexion trabalho solo de Surman, acompanhado apenas de sintetizadores. Vale a audição.

John Surman: The Amazing Adventures Of Simon Simon

1. Nestor’s Saga 10:48
2. The Buccaneers 3:58
3. Kentish Hunting (trad. arr. Surman) 2:56
4. The Pilgrim’s Way (Surman/DeJohnette) 5:45
5. Within The Halls Of Neptune 3:58
6. Phoenix And The Fire (Surman/DeJohnette) 6:14
7. Fide Et Amore (Surman/DeJohnette) 4:43
8. Merry Pranks 2:50
9. A Fitting Epitaph 3:23

composed by Surman except as noted

recorded January 1981, Talent Studio, Oslo

John Surman, baritone and soprano saxophones, bass clarinet, synthesizers;
Jack DeJohnette, drums, congas, electric piano on track 7

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.:interlúdio:. John Surman – Coruscating (1999)

Tenho certa desconfiança de que aqueles que acompanham o blog já notaram que sinto grande admiração por John Surman… Pois aqui ele reaparece em 1999 com uma nova formação: seus muito “saxes” e clarone, um baixista e um quarteto de cordas. Só isso. O resultado é ainda melhor do que a experiência de 97, postada aqui durante a semana, com a adição do órgão e coro misto a seu arsenal saxofônico, por assim dizer. Um excelente CD para o dia frio e chuvoso de Porto Alegre. Gosto muito mesmo deste grande CD, o qual é elogiado assim por um ouvinte no site da Amazon:

Coruscating is another unusual venture, with Surman and regular associate bassist Chris Laurence improvising on eight of Surman’s compositions with the string quartet Trans4mation. There’s a seamless beauty here, composition and improvisation becoming one. Beginning with the baroque clarity of melody on “At Dusk,” Coruscating develops often dark, looming textures. While Surman has made his baritone fly, here he emphasizes intense lyricism, whether with a true, full-bodied, baritone sound or a light upper register. “Stone Flower” is dedicated to the great Ellington baritonist Harry Carney, and Surman’s breathy, overtone-rich sound invokes Carney’s own recordings with strings. He uses other horns unexpectedly, picking up traditional tones of oboe, clarinet, and flute on his soprano saxophone and cello on his bass clarinet. A preoccupation with depths extends to the beginning of “An Illusive Shadow,” which contrasts his contrabass clarinet with eerie, high dissonances from the strings, before the piece evolves to other moods that suggest a kind of classical Dixieland and Gershwin. Laurence also develops solos of unusual, brooding power, adding significantly to this unusual, often meditative work. –Stuart Broomer

Se fosse você, conferiria. Vale a pena.

John Surman: Coruscating

1. At Dusk 2:17
2. Dark Corners 4:57
3. Stone Flower 5:47
4. Moonless Midnight 7:34
5. Winding Passages 6:44
6. An Illusive Shadow 9:24
7. Crystal Walls 9:49
8. For The Moment 6:56

all composed by Surman

recorded January 1999, CTS Studios, London

John Surman, soprano and baritone saxophones, bass and contrabass clarinets;
Chris Laurence, bass
Rita Manning, Keith Pascoe, violin;
Bill Hawkes, viola;
Nick Cooper, cello;

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.:interlúdio:. John Surman – Proverbs and songs (1997)

Proverbs and songs, do compositor e saxofonista inglês John Surman, fica bem longe do comum. Basta dizer que são composições para saxofones ou clarone — sempre de Surman –, mais órgão e coral. Na primeira audição, fiquei um pouco chocado, principalmente com as intervenções trovejantes do coral; na segunda, já achei tudo mais bonitinho; na terceira, estava tão curioso e perto da felicidade musical que tive de afastar meus preconceitos, mormente os timbrísticos. Na verdade, meu choque foi sempre com o coral, pois a combinação sax + órgão resulta maravilhosa. Não é um disco que eu indique a todos, mas apenas àqueles que não fogem das esquisitices criativas. É uma espécie de jazz sacro…

Mas o sax de Surman permanece lá, poderosamente eufônico, acima de Deus.

John Surman: Proverbs And Songs

1. Prelude 3:11
2. The Sons 4:55
3. The Kings 6:41
4. Wisdom 7:39
5. Job 4:50
6. No Twilight 7:42
7. Pride 5:00
8. The Proverbs 4:06
9. Abraham Arise! 5:24

All composed by Surman
Recorded live June 1, 1996, Salisbury Cathedral

John Surman, baritone and soprano saxophones, bass clarinet;
John Taylor, organ;
Salisbury Festival Chorus, conducted by Howard Moody

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.:interlúdio:. Stefano Bollani – Carioca

Stefano Bollani é um brilhante pianista italiano de jazz. Nascido em Milão no ano de 1972, é como muitos italianos, apaixonado pelo Brasil e costuma tocar nossa música em suas apresentações ao lado de composições suas. Conhecido por sua vasta cultura tanto sobre a música erudita moderna quanto jazzística, Bollani — conhecido por ser um workaholic — chega a assustar com a intimidade que demonstra com nossa música, chegando ao ponto de cantar “Trem das onze”, no único equívoco do disco pois ele está longe de ser um cantor. O CD foi gravado no Rio de Janeiro com músicos brasileiros e é muito bom.

É, indiscutivelmente, em disco de jazz, mas ouçam a naturalidade com que Bollani enfrenta um chorinho! Uma curiosidade digna de ser ouvida.

Stefano Bollani – Carioca – 2008

1 Luz negra (Nelson Cavaquinho)
2 Ao romper da aurora (Ismael Silva – Lamartine Babo – Francisco Alves)
3 Choro sim (Ismael Silva)
4 Valsa brasileira (Edu Lobo – Chico Buarque)
5 A voz no morro (Zé Keti)
6 Hora da razão (J. Luna – Batatinha)
7 Segura ele (Pixinguinha)
8 Doce de coco (Jacob do Bandolim)
9 Folhas secas (Nelson Cavaquinho – Guilherme de Brito)
10 Il domatore di pulci (Stefano Bollani)
11 Samba e amor (Chico Buarque)
12 Tico-tico no fubá (Zequinha de Abreu)
13 Caprichos do destino (Pedro Caetano – Claudionor da Cruz)
14 Na Baixa do sapateiro (Ary Barroso)
15 Apanhei-te cavaquinho (Ernesto Nazareth)
16 Trem das onze / Figlio unico (João Rubinato / Riccardo del Turco)

Stefano Bollani piano, arrangements, vocal
Marco Pereira guitar
Jorge Helder bass
Jurim Moreira drums
Armando Marcal percussions
Zé Nogueira soprano sax
Nico Gori clarinet and bass clarinet
Mirko Guerrini tenor sax
Zé Renato vocal
Monica Salmaso vocal

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.: interlúdio :. Enrico Rava – The Pilgrim And The Stars

O trompetista Enrico Rava nasceu na cidade de Trieste em 1939. Começou no trombone, mas seu primeiro contato com Miles Davis foi como o primeiro sutiã da propaganda — Rava jamais esqueceu. Resolveu estudar mais a fundo aquela coisa e aproveitou para aderir ao instrumento de Miles. Normal, né? Ele faz um hard bop com episódios lentos, algo bossanovistas. No mais, é pauleira.

Neste CD da ECM de 1975, Rava aparece com dois integrantes do “Quarteto Escandinavo” de Keith Jarrett: Palle Danielsson — baixista de fundamental participação neste trabalho — e o baterista Jon Christensen, além de John Abercrombie, que divide os solos com o trompete de Enrico Rava. Este foi um dos discos que, nos anos 70, chamou minha atenção para aquela estranha gravadora de belas capas, a citada ECM. The Pilgrim And The Stars é um baita disco. Todas os temas foram escritos pelo italiano no tempo em que seus cabelos eram pretos.

The Pilgrim And The Stars – 1975

1. The Pilgrim And The Stars 9:43
2. Parks 1:45
3. Bella 9:18
4. Pesce Naufrago 5:12
5. Surprise Hotel 1:52
6. By The Sea 4:46
7. Blancasnow 6:44

Enrico Rava, trumpet
John Abercrombie, guitar
Palle Danielsson, bass
Jon Christensen, drums

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.: interlúdio :. Backhand – Keith Jarrett

Acho que a gente pode resumir a carreira de Keith Jarrett desta maneira: início fulgurante com Miles Davis, fundação de seu “quarteto americano”, três anos de gravações na Impulse, ida para a ECM, muitos discos com o “quarteto americano”, fundação e mais CDs com o “quarteto escandinavo”, álbuns solo aos montes, música erudita — basicamente Bach — tocando cravo, fundação do trio com Peacock e De Johnette, O Cravo Bem Temperado, CDs do trio aos montes, mais álbuns solo e doença.

É uma ironia especialmente trágica — um pianista que, aos 51 anos, tinha centenas de discos gravados e que estudava música erudita, ou seja, alguém que trabalhava muito –, tivesse caído vítima da Síndrome de Fadiga Crônica, doença que o fez primeiramente fazer um esforço notável para tocar e que depois retirou-o dos palcos e das gravações. Hoje, Jarrett toca e grava pouco, ainda em luta contra a doença. Mas… há um CD para ser lançado com Concertos para Piano e Orquestra de Mozart. Torço muito por Jarrett, claro. Um troço desses devia acontecer com o Bush, sei lá, não com cara meio amalucado mas produtivo no melhor sentido.

Este CD é do Jarrett inicial, pré-ECM. É um CD meio selvagem que conta com o “quarteto americano” + o percussionista Guilhermo Franco devidamemente endiabrados. Destaque para Inflight e Backhand.

Backhand

1. Inflight
2. Kuum
3. Vapallia
4. Backhand
5. Victoria

Keith Jarrett (piano, flute, drums)
Dewey Redman (tenor sax, musette, maracas)
Charlie Haden (accoustic bass)
Paul Motian (drums, percussion)
Guilhermo Franco (percussion)

Atlantic Recording Studios, NYC, October 9-10, 1974
Tony May (sound engineer)
Ed Michel (producer)
Impulse AS-9305

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.: interlúdio :.

11 de setembro é um dia de tristeza, perda.

Ora, faz um ano que Joe Zawinul nos deixou.

Já citei diversas vezes aqui no blog o apreço que tenho pelo pianista austríaco, sempre com seu respeitável bigodão. Não apenas eu; Zowy ganhou mais de 30 (sim, trinta) vezes o prêmio de ‘best keyboardist’ dos críticos da DownBeat. Um dos mais queridos músicos do jazz e muitas vezes homenageado com músicas por seus pares, militou em diversas frentes de vanguarda do jazz – incluindo vários sabores de bop, fusion (o seu Weather Report será sempre a referência) e também third stream, que é o disco desta postagem.

Também já falamos sobre third stream aqui, na postagem do Modern Jazz Quartet. E como é complexo definir esse desejado ponto de encontro entre música clássica e jazz, que o criador do termo diga o que não é:

It is not jazz with strings.
It is not jazz played on ‘classical’ instruments.
It is not classical music played by jazz players.
It is not inserting a bit of Ravel or Schoenberg between be-bop changes–nor the reverse.
It is not jazz in fugal form.
It is not a fugue played by jazz players.
It is not designed to do away with jazz or classical music.

Este Rise and Fall of the Third Stream foi gravado em 1965, durante a passagem de Zawinul pelo quinteto de Cannonball, e antes de seu encontro definitivo com o fusion – nas gravações com Miles a partir de 69. Lançado pela pequena Vortex, é sua segunda gravação como líder. Sua saída para contar a história do third stream foi aliar-se a William Fischer, maestro, arranjador e compositor. Fischer trouxe, além das composições, uma pequena seção de cordas para somar à jazz band, e o resultado é sublime. Música clássica? Eu não saberia dizer onde. Ouve-se jazz modal; sem a presença de temas, é verdade. Há poucos improvisos, e a maior parte das canções foi escrita; mas eles existem. Em muitos momentos até lembra o free jazz, em outras o cool, e também se ouve o elec piano que se tornou marca registrada da sonoridade de Zawinul (especialmente em “The Soul of a Village” – que, atentem, tem as duas partes unidas no mp3 trazido aqui). E o swing afro/black que o tornou famoso.

Rótulos à parte, temos aqui um gênio em formação, experimentando formatos e a si mesmo. Jamais deixaria de ser inquieto, até que um raro câncer de pele o impedisse de tocar. Apreciem. Zowy fazia música longa vida.

Joe Zawinul – The Rise and Fall of the Third Stream (256)
Joe Zawinul: piano, electric piano
William Fischer: tenor sax, arrangements
Jimmy Owens: trumpet
Alfred Brown, Selwart Clarke, Theodore Israel: violins
Kermit Moore: cello
Richard Davis: bass
Roy McCurdy, Freddie Waits: drums
Warren Smith: percussion

download aqui – 67MB
01 Baptismal (Fischer) 7’37
02 The Soul of a Village Part I (Fischer) 2’13
03 The Soul of a Village Part II (Fischer) 4’12
04 The Fifth Canto (Fischer) 6’55
05 From Vienna, With Love (Gulda) 4’27
06 Lord, Lord, Lord” (Fischer) 3’55
07 A Concerto, Retitled (Fischer) 5’30

Boa audição!

Blue Dog

.: interlúdio :.

Antes de ser um músico de sucesso, Wes Montgomery cansou das turnês mal-pagas com Lionel Hampton e voltou para casa, em Indianapolis. Era um jovem, tinha 25 anos, sentia falta da família (e provavelmente não se divertia muito na estrada). Preferiu o dia-a-dia numa fábrica, pegando no batente às 7h, mais um turno extendido nos clubes locais – tocando até as 2h para ajudar no sustento das oito pessoas da família. Isso durou de 1950 até 57, quando Cannonball Adderley esteve na cidade, viu Wes tocando e praticamente forçou o produtor Orrin Keepnews a dá-lo um contrato com a Riverside.

Há de se amar não apenas o jazz, mas também suas histórias entrelaçadas.

Enquanto preparava o material para a Riverside, Wes gravou com seus irmãos, o baixista Monk e o vibrafonista Buddy. Monk, o mais velho dos irmãos, tocou com Wes no grupo de Hampton e seguiu caminhos diversos pelo jazz, até formar o Mastersounds em 1957. Nesse mesmo ano recebeu Buddy, o caçula, que voltava do exército. Wes estava na cidade, e a Pacific Jazz resolveu bancar uma sessão entre os Montgomery. O líder foi o vibrafonista, que inclusive levou quatro temas. O som aqui é o hard bop de enciclopédia, ou seja, ouvimos Wes integrado à banda, e não como voz principal, o que ocorreria a partir das gravações seguintes. Mas seu estilo pode ser facilmente reconhecido na faixa-título, composição sua, onde a técnica monstruosa já se aninha do feeling lendário do guitarrista.

E não apenas na sonoridade – também os créditos do sucesso se dividem entre o trio. Monk é um baixista ágil e seguro, e Buddy é um excelente vibrafonista. Ainda, como atração à parte, a sessão também marca a primeira gravação do talentoso e promissor Freddie Hubbard – então com apenas 17 anos. A gravação, de 30/12/1957, acaba na faixa sete; as três últimas são do musical Kismet, de 1953, que contou com o clã Montgomery e foi incluída na reedição em CD deste disco.

Wes Montgomery – Fingerpickin’ (128)
Wes Montgomery: guitar
Wayman Atkinson, Alonzo Johnson*: tenor saxophone
Freddie Hubbard: trumpet
Buddy Montgomery: vibraphone
Joe Bradley, Richie Crabtree*: piano
Monk Montgomery: electric bass
Paul Parker, Benny Barth*: drums

Produzido por Richard Bock para a Pacific Jazz

download – 52MB
01 Sound Carrier (B. Montgomery) 6’55
02 Bud’s Beaux Arts (B. Montgomery) 7’33
03 Bock To Bock (B. Montgomery) 10’07
04 Billie’s Bounce (Parker) 4’42
05 Lois Ann (B. Montgomery) 4’45
06 All The Things You Are (Hammerstein, Kern) 3’59
07 Finger Pickin’ (W. Montgomery) 2’32
08 Stranger In Paradise* (Borodin, Forrest, Wright) 4’55
09 Baubles, Bangles And Beads* (Forrest, Wright) 3’30
10 Not Since Nineveh* (Borodin, Forrest, Wright) 7’24

Boa audição!

BD

.: interlúdio :.

Correndo e desastrado, trouxe o disco – mas não o texto. Peço licença e copio Larry Konigsberg, do All About Jazz – contrariando-o apenas no fato de que a faixa mais sensacional deste álbum é John’s Abbey, e tenho dito.


In one of their last performances before Jarrett’s illness took him from his public, his Standards Trio plays a typically inventive set of interpretations of tunes of former or perennial popularity, a Charlie Parker blues (”Billie’s bounce”) and a Bud Powell tune out of “I’ve got rhythm” (”John’s abbey”). Jarrett also gets credit for two compositions (”Caribbean sky” and “Song”), dignifying the vamps which conclude their associated standards with titles, and, no doubt, composer’s royalties. Throughout, Jarrett alternates sensitivity with flair, literally as he alternates ballads with up-tempo performances. It’s evident that his many years leading this group have not diminished his enthusiasm for either its format or its repertoire. The Tokyo audience is likewise appreciative.
I only found one track really galvanizing, though. The trio’s playing on “I’ll remember April” is spectacular, with DeJohnette cooking up a spectacular near-samba under Jarrett’s ringing gospel chords. A whole concert of such excitement would restore the Standards Trio to an eminence in this reviewer’s humble opinion which it enjoys among the more committed members of its audience. There’s nothing to complain about in any of the date, to be sure.
Knowledgeable fans will be interested to learn that Jarrett’s invariable vocalizations are here only intermittent and not generally obtrusive. For the rest, let it be said that the trio maintains its reputation as a consistently satisfying performing group.

 

Keith Jarrett, Gary Peacock, Jack DeJohnette – Tokyo ’96
Keith Jarrett: piano
Gary Peacock: bass
Jack DeJohnette: drums
Produzido por Manfred Eicher para a ECM

download – 70MB
01 It Could Happen to You
02 Never Let me Go
03 Billie’s Bounce
04 Summer Night
05 I’ll Remember April
06 Mona Lisa
07 Autumn Leaves
08 Last Night When We Were Young/Caribbean Sky
09 John’s Abbey
10 My Funny Valentine/Song

Boa audição!

.: interlúdio :. John Surman e Nordic Quartet

Sou apaixonado pelo som do saxofonista e clarinetista inglês John Surman, que é a cara do escritor John Fowles, que nasceu em Essex, enquanto Surman é de Devon. Ele não me decepciona neste CD verdadeiramente nórdico (basta ler o nome de seus companheiros de grupo). As quatro primeiras faixas do CD são esplêndidas e o resto não lhes fica muito atrás. É notável o diálogo entre Surman e Rypdal em Offshore Piper, é belíssima e triste a balada Unwritten Letter e a levada de Gone to the Dogs provocou ohs! de aprovação enquanto ouvia o disco em minha casa. Fui pesquisar se meu entusiasmo pelo CD era algo muito original ou não, indo direto à Down Beat. O pessoal de lá tascou-lhe 4 (Very good) em 5 estrelas. Tudo bem, o CD é bom mesmo!

Atenção para os solos de clarone (bass clarinet) de Surman. Seu som é sempre puríssimo mas é neste instrumento que rende mais.

Nordic Quartet (1994)

1. Traces
2. Unwritten Letter
3. Offshore Piper
4. Gone To The Dogs
5. Double Tripper
6. Ved Sorevatn
7. Watching Shadows
8. The Illusion
9. Wild Bird

John Surman – soprano saxophone, baritone saxophone, clarinet, bass clarinet
Terje Rypdal – guitar
Karin Krog – vocals
Vigleik Storaas – piano

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BAIXE AQUI (Part 2) – DOWNLOAD HERE (Part 2)

.:interlúdio:. Charlie Mingus – East Coasting

O mês de agosto de 1957 deu ao mundo os melhores frutos de todos os tempos. Dentre estes, há East Coasting, um disco mais tranqüilo e comportado de Charlie Mingus, identificado — e com razão — como um gênio visceral e de vanguarda. Aqui, Mingus nos contraria, mas cria um disco de extraordinária qualidade com um sexteto que, bem, que sexteto!

Clarence Shaw (trumpet)
Jimmy Knepper (trombone)
Curtis Porter (alto sax, tenor sax)
Bill Evans (piano)
Charles Mingus (bass)
Dannie Richmond (drums)

Ao lado dos habituais Knepper e Richmond, temos Clarence Shaw, Curtis Porter e um pianista que não necessito apresentar. O melhor deste CD é o maravilhoso standard Memories Of You, a turbulenta West Coast Ghost e a comovente Celia. Para mim, um admirador do Mingus revolucionário, foi uma grata surpresa conhecer algumas de suas composições mais tranqüilas, mas, como sempre, de altíssimo nível. Nada de agressividade rítmica, mensagens políticas ou antiracistas neste belo East Coasting. Enjoy!

Charlie Mingus – East Coasting
1. Memories Of You
2. East Coasting
3. West Coast Ghost
4. Celia
5. Conversation
6. Fifty-First Street Blues
7. East Coasting (Alternate Take 3)
8. Memories Of You (Alternate Take 3)

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.: interlúdio anexo, sobre Kind of Blue :.

Eu, também responsável, não poderia deixar postagem de tal monta (veja abaixo) passar sem oferecer alguma informação. Pois trabalho em conjunto com FDP e trago um pouco de literatura e um punhado de dados para enriquecer a experiência de novatos e veteranos.

Kind Of Blue

 

Kind of Blue em tópicos rápidos
• Gravado em 22 de março (lado A, as três primeiras faixas) e 09 de abril de 1959 (lado B)
• Lançado em 17 de agosto daquele mesmo ano
• O álbum mais vendido da história do jazz
• E um dos mais importantes e influenciais de toda a música
• Nasceu do esgotamento do bebop diante da criatividade de Miles
• E do seu encontro com um livro chamado Lydian Chromatic Concept of Tonal Organization
• Kind of Blue, em termos de composição, foi precedido pela faixa Milestones, do disco homônimo de 58
• Marca o surgimento do jazz modal – baseado em escalas, ao invés de acordes
• E disso, um retorno à melodia, ao invés do duo técnica + velocidade do bebop
• É um disco que flui fácil nos ouvidos à primeira audição; na segunda, se percebe a enorme complexidade dos temas
• Gênio? disse Bill Evans: “Miles conceived these settings (as escalas) only hours before the recording dates.

“So What” consists of a mode based on two scales: sixteen measures of the first, followed by eight measures of the second, and then eight again of the first. “Freddie Freeloader” is a standard twelve bar blues form. “Blue in Green” consists of a ten-measure cycle following a short four-measure introduction. “All Blues” is a twelve bar blues form in 6/8 time. “Flamenco Sketches” consists of five scales, each to be played “as long as the soloist wishes until he has completed the series”.

• Evidentemente, a banda também não sabia quase nada sobre o que gravaria ao chegar no estúdio
• Wynton Kelly, que havia substituído Bill Evans há pouco no grupo de Davis, toca apenas “Freddie Freeloader”
• E Cannonball Adderley não participa de “Blue in Green”
• Sobre a obra, definiu Chick Corea: “It’s one thing to just play a tune, or play a program of music, but it’s another thing to practically create a new language of music, which is what Kind of Blue did.”

Este cão, que não sabe contar – e muito menos entende de teoria musical – apenas esmigalha informação disponível, e lembranças, para os leitores. Assim como não esquece da melhor crônica que já leu sobre Kind of Blue, escrita no blog de Rafael Galvão – e compartilha. Inadvertidamente, a copio abaixo. É também resenha do livro de Ashley Kahn sobre Kind of Blue. Leiam logo, antes que ele descubra.

 

Kind of Blue
Oct 5th, 2007 por Rafael Galvão

Há algo de desgraçado no jazz. Algo que faz com que ninguém o ouça impunemente, que condena aquele que o conhece a nunca mais conseguir voltar atrás, a nunca mais se contentar de verdade com menos que aquilo; algo que eleva, para sempre, os padrões pelos quais se julga a música, qualquer tipo de música, não apenas a popular.

É difícil, para aquele que ouve o trumpete de Louis Armstrong, ouvir qualquer outra música com trumpete e não exigir que tenha a mesma qualidade, a mesma qualidade dramática, a mesma síncope, o mesmo swing — em última instância, as mesmas notas altas e desesperadas. E isso vale também para o piano, para o trombone, para o saxofone. É no jazz que a banda de música tradicional atinge o ápice, que eleva a arte de tocar esses instrumentos à perfeição.

O jazz é a forma superior de música popular. É o que de melhor fez um século que viu a música erudita se diluir em redundâncias medíocres como as trilhas para cinema ou grandes vazios como a música experimental, e que teve como principal trilha sonora o rock e o pop, galhos menos floridos do mesmo tronco que gerou o jazz.

E Kind of Blue, disco de Miles Davis, é a forma superior de jazz. Nunca mais o jazz atingiria um ponto semelhante, de perfeição quase absoluta. Foi ali, em um disco com a participação de mestres como John Coltrane e Bill Evans, gravado em duas sessões, com o primeiro take sendo o que valia, que o jazz atingiu a perfeição. Kind of Blue é um desses discos fundamentais por uma razão: é perfeito. Das notas iniciais de So What à última nota de All Blues, o que se tem não é a apenas a obra-prima do que chamavam jazz modal; é uma síntese de tudo o que o jazz tinha feito até aquele momento, do dixieland ao bebop: é a música popular elevada ao nível máximo que ela pode alcançar, quase ao nível da música erudita tradicional.

Embora tenham sido Louis Armstrong e Duke Ellington a dar ao jazz o status de arte, foi aquela geração — Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Miles Davis e John Coltrane, pela ordem — que elevou o jazz ao ponto máximo da música ocidental. Uma geração ambiciosa, consistente, que explodia os limites da música e apontava uma infinidade de caminhos ao mesmo tempo em que solidificava, com um talento nunca mais igualado, uma tradição de 50 anos de jazz. Infelizmente, quase na mesma época surgiria Ornette Coleman com uma nova mudança, e a porteira seria aberta para bobagens como free jazz e fusion; mas isso não importa. Ouve Ornette Coleman quem quer e quem gosta. O importante, mesmo, é que há um disco que explica, sem sequer uma palavra, o que é o jazz, que concentra em cinco faixas cinqüenta anos do mais assombroso gênero musical que o século XX criou. E esse disco é Kind of Blue.

A Barracuda, do Freddy Bilyk, lançou no começo deste ano um livro que conta a saga desse disco: “Kind of Blue — A história da obra prima de Miles Davis“, de Ashley Kahn, conta a história desse disco de maneira inteligente e simples. Contextualiza o disco em sua época e nas trajetórias de seus músicos, sem perder tempo com fofocas e explorações sensacionalistas ou simplesmente mundanas de detalhes pouco importantes, como os problemas com drogas que praticamente todos eles enfrentaram.

Kahn mostra o processo de criação das músicas, explicando a razão de cada termo utilizado com clareza e simplicidade notáveis. Detalha cada sessão, e explica cada música de um jeito simples mas completo. Explica por que o disco foi tão importante. E explora o legado de um álbum que foi recebido sem tanta euforia, mas que aos poucos se consolidou como o disco mais importante da história do jazz.

A importância de Miles Davis pode ser medida pelo que ele disse em um jantar na Casa Branca. Naquela ocasião, ele não mentiu. E Kind of Blue foi uma dessas revoluções. Talvez não tão importante, do ponto de vista “revolucionário”, quanto Birth of Cool; mas um disco estupidamente superior.

Por explorar com simplicidade um assunto tão fascinante mas ao mesmo tempo tão complexo, “Kind of Blue” é um daqueles livros indispensáveis para quem gosta de jazz, mas também para músicos que querem saber como pode funcionar uma sessão de gravação. É importante, também, para compositores que buscam densidade em seu processo criativo.

Há alguns anos, a Gabi me convidou para escrever uma coluna sobre jazz no site da Antena 1. A resposta foi a costumeira, uma recusa, mas dessa vez não foi apenas pela falta de tempo crônica: eu sabia que jamais poderia escrever sobre jazz porque isso requer uma erudição que eu, definitivamente, não tenho. Palavras e expressões como diatônica, escala cromática, modalismo não fazem parte do meu vocabulário habitual. E ler “Kind of Blue” me deixou com a certeza de que eu estava certíssimo ao dizer não. Mas, ainda mais que isso, me deu o conforto de saber que um sujeito como Ashley Kahn pode tornar essas palavras difíceis compreensíveis até para mim.