Transcrever obras orquestrais para piano pode ser uma tarefa ingrata, mas Rachmaninov recria com sucesso o som orquestral no teclado: Ainda não tive tempo de escrever para agradecer a Rachmaninov pelo arranjo feito.
[Glazunov]
Para esta postagem escolhi um disco com obras de um compositor e pianista – amado por tantos e desdenhado por alguns – Sergei Rachmaninov.
Como pianista ele foi maioral e a grana que ganhou com suas apresentações lhe permitiu viver em Beverly Hills, ter casa de veraneio na Suíça e satisfazer algumas de suas paixões, como ter carros, caríssimos naqueles dias, assim como hoje…
O disco traz as transcrições de diversas peças feitas para piano solo, pois que ele também fez transcrições para piano a quatro mãos, como uma das sinfonias de Glazunov. Rachmaninov segue a tradição estabelecida por outros compositores pianistas, como Franz Liszt e, posteriormente, Ferruccio Busoni. Ele aprendeu a técnica de fazer arranjos para piano ainda como estudante no Conservatório de Moscou, onde se matriculou aos doze anos de idade. Um dos desafios propostos pela transcrição, tanto para o trans(gressor)critor quanto para o intérprete, é recriar ao piano o som do conjunto original. No caso de uma canção, por exemplo, o piano já está lá e o teclado deve ‘cantar’ também.
Iniciando o discos temos três movimentos da Partita para violino solo BWV 1006, de Bach. Sobre essa minissuíte, o interessante artigo da página Interlude [aqui] diz: Não houve problemas com o reconhecimento do nome quando Rachmaninoff arranjou três movimentos da terceira partitura para violino de Johann Sebastian Bach para piano solo em 1933. Um comentarista escreveu: “Com algumas exceções, Rachmaninoff foi geralmente bastante fiel à música original em suas transcrições. Neste trabalho com Bach, no entanto, ele adicionou partes contrapontísticas e harmonias porque o original foi escrito para violino solo.” Rachmaninoff repensou completamente os três movimentos “para teclado com uma completude quase desconcertante… É muito característico do estilo conciso da escrita para teclado posterior de Rachmaninoff, e lamenta-se que ele não tenha feito paráfrases de outros movimentos da Partita.” Rachmaninoff apresentou a primeira execução dos três movimentos no início de sua temporada de 1933/34 em Harrisburg, Pensilvânia, e eles foram publicados naquele mesmo ano. Nem todos ficaram satisfeitos, e Rachmaninoff foi alvo de críticas por parte de “diversos puritanos e pseudo-intelectuais, especialmente porque a moda de confinar a música barroca para teclado ao cravo estava se intensificando na época”.
Como não sorrir ao ouvir a transcrição da canção Wohin, de Schubert, e Lilacs, do próprio Rchmaninov. Ele certamente tinha afinidade com essas peças. O Schezo, de Sonho de Uma Noite de Verão, de Mendelssohn, é também espetacular.
De olho em lindos encores, Rachmaninov transcreveu duas peças do violinista Fritz Kreisler, outro showman daqueles dias. Liebesleid e Liebesfreud são os nomes contrastantes… A propósito, Kreisler e Rachmaninov deram concertos juntos. Conta-se que em um recital da dupla em Nova Iorque, em um certo ponto, Fritz perdeu-se na partitura. Em pânico, sussurrou para Rachmaninoff: “Onde estamos?”. A resposta veio prontamente: “Carnegie Hall”.
Quem diria que por trás daquela cara melancólica haveria assim, bom humor?
Não faltam lolipops ao disco, como não poderia deixar de ser, e são todos ótimos: Hopák, de Mussorgsky, o Voo do Besouro, de Rimsky-Korsakov, uma Canção de Ninar, de Tchaikovsky. O Minueto, da Suíte L’arlésienne, de Bizet, foi uma de suas primeiras transcrições, feita logo após o sucesso de seu Concerto para Piano No. 2.
O disco é muito recente, foi gravado em 2025 e o selo Supraphon tem uma produção ótima. O arquivo traz o pdf do libreto com lindas fotos feitas na Villa Senar, casa que Rachmaninov tinha na Suíça. Marek Kozák, o pianista, é uma das figuras jovens mais notáveis da cena musical checa. Finalista do Concurso Internacional de Piano Ferruccio Busoni de 2019 em Bolzano, vencedor do Concurso Europeu de Piano em Bremen em 2018 e em 2021 ganhou o prestigioso Concurso Géza Anda, Zurique.

Johann Sebastian Bach (arranjo de Rachmaninov)
Partita No. 3 in E Major, BWV 1006:
- Preludio
- Gavotte
- Gigue
Franz Schubert (arranjo de Rachmaninov)
- Die schöne Müllerin, Op. 25: Wohin?
Felix Mendelssohn (arranjo de Rachmaninov)
- A Midsummer Night’s Dream, Op. 61: Scherzo
Modest Mussorgsky (arranjo de Rachmaninov)
- Sorochyntski Fair: Hopak
Georges Bizet (arranjo de Rachmaninov)
- L’arlésienne Suite No. 1, Op. 23bis: Minuet
Fritz Kreisler (arranjo de Rachmaninov)
- Liebesfreud
Franz Behr (arranjo de Rachmaninov)
- Lachtäubchen, Op. 303: Polka de W. R
Sergei Rachmaninov
- Twelve Romances, Op. 21:5: Lilacs
Peter Ilich Tchaikovsky (arranjo de Rachmaninov)
- Six Romances, Op. 16: Lullaby
Fritz Kreisler (arranjo de Rachmaninov)
- Liebesleid
Nikolai Rimsky-Korsakov (arranjo de Rachmaninov)
- The Tale of Tsar Saltan: Flight of the Bumblebee
Sergei Rachmaninov
- Six Romances, Op. 38:4: Daisies
Franz Liszt (cadência de Rachmaninov)
- Hungarian Rhapsody No. 2 in C-Sharp Minor
Marek Kozák, piano
BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE
MP3 | 320 KBPS | 146 MB
The new album by pianist Marek Kozák featuring all transcriptions by Sergei Rachmaninoff has received a superb review together with the Editor’s Choice in the May issue of Gramophone magazine
Aproveite!
René Denon


