Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonias Nº 5, Op. 47, e Nº 9, Op. 70

A Inglaterra é monstruosa. Há as orquestras de Londres, as escocesas e as do interior. Primeiro era foi a de Bournemouth, depois a de Birmingham e agora é a de Liverpool. Todas espetaculares.

A Sinfonia Nº 5, Op. 47 (1937) é a obra mais popular de Dmitri Shostakovich. Recebeu incontáveis gravações e não é para menos. O público costuma torcer o nariz para obras mais modernas e aqui o compositor retorna no tempo para compor uma grande sinfonia ao estilo do século XIX. Sim, é em ré menor e possui quatro movimentos, tendo bem no meio, um scherzo composto por um Haydn mais parrudo. Mesmo para os aficcionados, é uma obra apetitosa, por transformar a linguagem do compositor em algo mais sonhador do que o habitual. Foi a primeira sinfonia de Shostakovich que ouvi. Meu pai, um romântico, apresentou-me a sinfonia dizendo que era muito melhor que as de Prokofiev, exceção feita à Nº 1, Clássica, que ele amava. Alguns consideram esta obra uma grande paródia; eu a vejo como uma homenagem ao glorioso passado sinfônico do século anterior. A abertura e a coda do último movimento (Allegro non troppo) costuma aparecer, com boa frequência, em programas de rádio que se querem sérios e influentes… Apesar de não ser típica, ela reflete de forma absoluta a sintaxe, o discurso e o sotaque do compositor. É a música ideal para o primeiro contato com Shostakovich.

Desde Schubert, com sua Sinfonia Nº 9 “A Grande”, passando pela Nona de Beethoven e pelas nonas de Bruckner e Mahler, que espera-se muito das sinfonias Nº 9. Há até uma maldição que fala que o compositor morre após a nona, o que, casualmente ou não, ocorreu com todos os citados menos Shostakovitch. Esta sinfonia — por ser a “Nona” — foi muito aguardada e, bem, digamos que não seria Shostakovitch se ele não tivesse feito algo inesperado. Stálin ficou muito decepcionado com ela. Muito. Ele foi na noite da estreia e confessou-se puto, mas com outras palavras.

Leonard Bernstein lia esta partitura dando gargalhadas desta piada musical dirigida a Stalin, cujas muitas citações formam um todo no mínimo sarcástico. O compositor declarou que faria uma música que expressaria “a luta contra a barbárie e grandeza dos combatentes soviéticos”, mas os severos críticos soviéticos, adeptos do realismo socialista, foram mais exatos e apontaram que a obra seria debochada, irônica e de influência stravinskiana. Bingo! Na verdade é uma das composições mais agradáveis que conheço. O material temático pode ser bizarro e bem humorado (primeiro e terceiro movimentos), mas é também terno e melancólico (segundo e largo introdutório do quarto), terminando por explodir numa engraçadíssima coda. Apesar dos cinco movimentos, é uma sinfonia curta, muito parecida em espírito com a primeira sinfonia “Clássica” de Prokofiev e com a Sinfonia “Renana” de Schumann, também em cinco movimentos. Deixando de lado a geopolítica soviética e detendo-se na obra, podemos dizer que esta Nona é uma consciente destilação de experiências e, talvez uma reação muito cuidadosamente pensada, contra as enormidades musicais oriundas da guerra das duas sinfonias anteriores.

Cá entre nós, é puro divertimento.

Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonias Nº 5, Op. 47, e Nº 9, Op. 70

Sinfonia Nº 5 em Ré menor, Op. 47

01. Moderato
02. Allegretto
03. Largo
04. Allegro non troppo

Sinfonia Nº 9 in E flat major, Op. 70
05. Allegro
06. Moderato
07. Presto
08. Largo
09. Allegretto – Allegro

Royal Liverpool Philharmonic Orchestra
Vasily Petrenko

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PQP

7 comments / Add your comment below

  1. Vasily Petrenko esteve no Brasil no ano passado e executou a sinfonia nº 11 de Shostakovich com a OSESP. Ele está gravando as sinfonias de Shostakovich com a Orquestra Real de Liverpool e seu trabalho está sendo bem recebido pela crítica e dá para entender o porquê. Excelente post!

  2. Belíssimo post, PQP! A quinta sinfonia é realmente muito boa, já a ouvi inteira antes. Seu último movimento é que é bem bacana (se é o palavreado não incomoda); às vezes acabo entoando comigo mesmo o tema do começo dele, apresentado pelos trombones. Mais legal ainda é quando passa para a tuba, em meio aos outros intrumentos.

  3. A Sinfonia nº 9 é a que menos gosto do Shosta (não significa que não goste) . Curiosamente, a anterior, a 8ª, é uma das que mais gosto. Mas concordo contigo: “O material temático pode ser bizarro e bem humorado (primeiro e terceiro movimentos), mas é também terno e melancólico”. Mas confesso que a primeira vez que a ouvi tive que rir.

    1. Engraçado, uma das que mais gosto é a 8ª também. Talvez o PQP não tenha se lembrado disso, mas outro fator curioso é que o início tanto da Sinfonia n. ° 5 quanto da Sinfonia n. ° 8 são muito parecidos em questão de forma.

  4. olá, gostaria muito de ouvir esse cd, mas o link está fora do ar… poderiam postá-lo novamente, por gentileza?
    Muito obrigado!

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