Qualquer gravação da Sinfônica de Chicago traz os melhores metais. Não adianta, é cultural. E aqui não é diferente. As trombonadas, agora comandadas por um maestro genial, são impecáveis. Sempre. O restante talvez seja pior do que o ciclo de Haitink-Shostakovich que recém publicamos. A Sinfonia Nº 4 é uma sinfonia decididamente mahleriana. Shostakovich estudara Mahler por vários anos e aqui estão ecos monumentais destes estudos. Sim, monumentais. Uma orquestra imensa, uma música com grandes contrastes e um tratamento de câmara em muitos episódios rarefeitos: Mahler. O maior mérito desta sinfonia é seu poderoso primeiro movimento, que é transformação constante de dois temas principais em que o compositor austríaco é trazido para as marchas de outubro, porém, minha preferência vai para o também mahleriano scherzo central. Ali, Shostakovich realiza uma curiosa mistura entre o tema introdutório da quinta sinfonia de Beethoven e o desenvolve como se fosse a sinfonia “Ressurreição”, Nº 2, de Mahler. Uma alegria para quem gosta de apontar estes diálogos. O final é um “sanduíche”. O bizarro tema ritmado central é envolvido por dois scherzi algo agressivos e ainda por uma música de réquiem. As explicações são muitas e aqui o referencial político parece ser mesmo o mais correto para quem, como Shostakovich, considerava que a URSS viera das mortes da revolução de outubro e estava se dirigindo para as mortes da próxima guerra.
D. Shostakovich (1906-1975): Sinfonia Nº 4 (Haitink, Chicago) (1:10:26)
1 Allegretto Poco Moderato – Presto 29:39
2 Moderato Con Moto 9:41
3 Largo – Allegro 31:06
A Sonata de Moscheles é muito boa, mas a verdadeira surpresa deste CD são os Estudos Melódicos e Contrapontísticos do mesmo Moscheles sobre Prelúdios de Bach nas faixas 5, 6 e 7. Já a Sonata de Hummel é rotineira, ainda mais se considerarmos sua luminosa obra, especialmente as Sonatas de nosso próximo e excelente post (PQP o postará na terça pela manhã). Para variar, a Hyperion nos brinda com um disco com repertório raro e que vale a pena conhecer. Serve bem a uma tarde preguiçosa de domingo.
Ignaz Moscheles (1794-1870) e Johann Nepomuk Hummel (1778-1837): Sonatas para Violoncelo e Piano (Bárta, Milne)
Cello Sonata in E major, Op 121 [Moscheles]
1. Movement 1: Allegro espressivo e appassionato
2. Movement 2: Scherzo ‘ballabile’. Allegretto quasi allegro
3. Movement 3: Ballade ‘in böhmische Weise’. Andantino
4. Movement 4: Allegro vivace, ma non troppo
Melodisch-contrapunktische Studien, Op 137 [Bach & Moscheles]
5. No 4: Andante con moto espressivo ‘Well-tempered Klavier II Prelude No 7 in E flat major’
6. No 8: Allegro maestoso ‘Well-tempered Klavier II Prelude No 6 in D minor’
7. No 9: Andante espressivo ‘Well-tempered Klavier I Prelude No 4 in C sharp minor’
Cello Sonata in A major, Op 104 [Hummel]
8. Movement 1: Allegro amabile e grazioso
9. Movement 2: Romanze. Un poco adagio e con espressione
10. Movement 3: Rondo. Allegro vivace un poco
Como é que os franceses podem viver sem reis e rainhas? O repertório que ouvimos em filmes que querem mostrar a nobreza e grandiosidade dos monarcas está todo aqui. Eu tenho algum respeito por Adolf Scherbaum, mas este CD… Tem umas músicas famosíssimas que são usadas quando o filme tem reis e rainhas ou quando deseja fazer alguma caricatura da nobreza. Sabe aqueles toques de trompete bem famosos? São todos franceses e estão neste disco. Adolf Scherbaum têm gravações estupendas de música para trompete e órgão, por exemplo. Mas este aqui é dureza. Mouret é o compositor que 10 entre 10 reis absolutistas escolheriam. Um saco. Ah, a faixa 32 de Monsieur Delalande é plágio escarrado de uma suíte orquestral de papai Bach. Fuja deste CD, a não ser que você queira usar numa festa à fantasia onde todos aparecerão metamorfoseados como nobres.
Mouret (1682-1738), Delalande (1732-1807), Philidor (1726-1795), Lully (1632-1687), Charpentier (1643-1704): Música Barroca Francesa para Trompete e Orquestra (Scherbaum, Kuentz)
Fanfares: Première Suitte
Composed By – Jean-Joseph Mouret
(7:34)
1 1. [Sans Indication de mouvement] 1:51
2 2. Gracieusement, sans lenteur 3:17
3 3. Allegro 1:41
4 4. Gay 0:45
Simphonies: Seconde Suitte
Composed By – Jean-Joseph Mouret
(13:36)
5 1. Air Ou Prélude 1:51
6 2. Allegro 1:55
7 3. Gracieusement 2:27
8 4. A) Première Gavotte – B) Deuxième Gavotte 2:34
9 5. A) Fanfare – B) Air 2:02
10 6. A) Premier Menuet – B) Second Menuet 1:51
11 7. Allegro 0:56
Simphonies Pours Les Soupers Du Roy Quatrième Suitte
Composed By – Delalande*
(26:16)
12 1. Simphonie Du Te Deum 1:54
13 2. 2e Air Du “Concert De Trompettes Pour Les Festes Sur Le Canal De Versailles” 0:54
14 3. 1er Air Pour Concert De Trompettes 3e Air Pour Les Mêmes 1:25
15 4. 1er Menuet Pour Les Trompettes 0:38
16 5. 2e Menuet 1:01
17 6. Fanfare; Air En Écho 1:12
18 7. Air Grave De “L’amour Fléchy Par La Constance” 2:39
19 8. Sarabande 2:12
20 9. Légèrement 0:41
21 10. “Chantons Ce Héros”. Gayement 1:51
22 11. Sarabande De “Cardeino” 1:43
23 12. Air. Gay “Ballet De Mélicerte” À Fontainebleau Marrage De M. De Lorraine 0:41
24 13. Musette Du “Ballet De L’lnconnue” 0:43
25 14. Air. Gay 0:56
26 15. Rondeau Du “Ballet Des Cléments” 1:32
27 16. Rondeau Du “Ballet De Cardenio” 0:58
28 17. Doucement Et Pesamment 0:43
29 18 “La Pagode”. Doucement Et Pesament 1:46
30 19. 7e Air Du “Ballet De La Paix” 1:33
31 20. Chaconne En Écho Avec Les Trompettes 2:14
Sixième Suitte – Premier Caprice
Composed By – Michel Richard Delalande
(15:11)
32 1. Fièrement Et Détaché – Gracieusement – Un Peu Plus Gay – Viste 4:55
33 2. Gracieusement, Sans Lenteur – Vif 2:53
34 3. Trio. Doucement (attacca) 5:37
35 4. Fièrement – Vivement 1:46
36 Marche à Quatre Timbales
Composed By – André I Danican Philidor
2:42
Airs de Trompettes, Timbales Et Hautbois (LWV 72)
Composed By – Jean-Baptiste Lully
(5:57)
37 1. Prélude 3:11
38 2. Menuet 0:59
39 3. Gigue 0:54
40 4.Gavotte 0:53
41 Prélude du Te Deum (H. 146)
Composed By – Marc Antoine Charpentier
1:34
Bassoon – André Sennedat
Conductor – Paul Kuentz
Harpsichord – Huguette Gremy, Olivier Alain
Horns – Georges Barbouteu*, Jacky Magnardi
Oboe – Emile Mayousse, Maurice Bourgue
Orchestra – Orchestre De Chambre Paul Kuentz
Soprano Vocals – Edith Selig
Timpani [Kettle Drums] – Jacques Remy
Trumpet – Adolf Scherbaum
No século XX, só posso comparar este conjunto de sinfonias de Mahler, à série de romances de Thomas Mann ou à literatura de Kafka, Borges ou Joyce ou ainda às pinturas de Picasso ou Kandinsky — ou ainda a algo maior, coisa que não sei se existe.
A surpreendente Sinfonia Nº 1; a decepcionante Nº 2; a curiosa Nº 3; a Nº 4, a que muda tudo, que é a primeira das grandiosas e talvez a mais sarcástica de todas — aquele Moderato beethoveniano bem ali no meio… –; a clássica e famosa Nº 5; a bipolar — pois dramática e circence — Nº 6; a importante, heroica e não tão boa Nº 7; a muito apaixonante e longa Nº 8 — com direito a dois scherzi e uma passacaglia –; a zombeteira (alvo: Stálin) Nº 9; a antistalinista e linda Nº 10; a Nº 11, que é a melhor das músicas programáticas que conheço; o escorregão da Nº 12 — filha piorada da Nº 7 –; a dilacerante e linda Babi Yar, Nº13; os grandes poemas de morte da quase camarística Nº 14; a autêntica suma de sua arte sinfônica que é a Nº 15 — com seu sarcasmo, canções de morte e citações.
E, nossa, que orquestras maravilhosas as formadas por Haitink! Aqui, o maestro demonstra toda a sua musicalidade ao nos acompanhar, com perfeito senso de estilo e compreensão, aos picos e vales emocionais por onde Shostakovich nos leva. Muitas vezes tive taquicardia ouvindo estes discos. O fuzilamento da Sinfonia Nº 11 é um fuzilamento, a canção de luto é exatamente isto, uma canção de luto. A Sinfonia Nº 14 é formada por verdadeiras canções de morte. Já os sarcasmos estão por toda a parte — na 4, 5, 6, 8, 9, 15º, todos bem desenhados. É uma música muito humana e dolorida, às vezes de incontrolável alegria, outras vezes de uma tristeza de cortar os pulsos. O compositor parece contar histórias e, mesmo que não compreendamos seus conteúdos sem palavras, deixa-nos com sua implacável lógica emocional. Como diria, meu amigo, o Dr. Herbert Caro, Haitink é um maestro compreensivo — isto é, que compreende tudo e bem. Ele nos leva pela mão nesta coleção absolutamente notável! Como escreveu a Concerto, Haitink é poesia, elegância e refinamento.
Lembro de quando o vi reger no Concertgebouw de Amsterdam. Uma vez estava atrás da orquestra, de frente para o maestro. Ele era uma figura magnética. Quando ele mandou a orquestra levantar para receber os aplausos, a gente lá atrás quase levantava junto.
(Fico muito curioso de ouvir a integral de Maxim Shostakovich. Alguém tem?).
Dmitri Shostakovich (1906-1975): As Sinfonias Completas e mais (Haitink)
CD1 Symphony No.1 In F Minor, Op.10
Composed By – Dmitri Shostakovich
Orchestra – London Philharmonic Orchestra*
Producer – Andrew Cornall
1-1 I Allegretto – Allegro Non Troppo 8:14
1-2 II Allegro 8:14
1-3 III Lento 8:46
1-4 IV Allegro Molto – Lento – Allegro Molto 9:15
Symphony No.3 In E Flat Major, Op.20 ‘The First Of May’
Choir – London Philharmonic Choir*
Composed By – Dmitri Shostakovich
Orchestra – London Philharmonic Orchestra*
Producer – Andrew Cornall
1-5 I Allegretto – Allegro 10:25
1-6 II Andante 5:35
1-7 III Allegro – Largo 10:34
1-8 IV Moderato: ‘V Pervoye Pervoye Maya’ 6:15
CD2 Symphony No.2 In B Major, Op.14 ‘To October – A Symphonic Dedication’
Choir – London Philharmonic Choir*
Composed By – Dmitri Shostakovich
Orchestra – London Philharmonic Orchestra*
Producer – Andrew Cornall
2-1 I Largo – Allegro Molto 12:44
2-2 II My Shli, My Prosili Raboty I Khleba 8:10
Symphony No.10 In E Minor, Op.93
Composed By – Dmitri Shostakovich
Orchestra – London Philharmonic Orchestra*
Producer – Richard Beswick (2)
2-3 I Moderato 24:16
2-4 II Allegro 4:03
2-5 III Allegretto 12:23
2-6 IV Andante – Allegro 13:57
CD3 Symphony No.4 In C Minor, Op.43
Composed By – Dmitri Shostakovich
Orchestra – London Philharmonic Orchestra*
Producer – Richard Beswick (2)
3-1 I Allegretto Poco Moderato — 16:20
3-2 Presto 12:32
3-3 II Moderato Con Moto 9:06
3-4 III Largo — 7:03
3-5 Allegro 22:35
CD4 Symphony No.5 In D Minor, Op.47
Composed By – Dmitri Shostakovich
Orchestra – Concertgebouw Orchestra*
Producer – Andrew Cornall
4-1 I Moderato 18:04
4-2 II Allegretto 5:21
4-3 III Largo 15:40
4-4 IV Allegro Non Troppo 10:35
Symphony No.9 In E Flat Major, Op.70
Composed By – Dmitri Shostakovich
Orchestra – London Philharmonic Orchestra*
Producer – Andrew Cornall
4-5 I Allegro 4:57
4-6 II Moderato 7:44
4-7 III Presto 2:38
4-8 IV Largo 3:56
4-9 V Allegretto — Allegro 6:37
CD5 Symphony No.6 In B Minor, Op.54
Composed By – Dmitri Shostakovich
Orchestra – Concertgebouw Orchestra*
Producer – Andrew Cornall
5-1 I Largo 17:47
5-2 II Allegro 6:20
5-3 III Presto 7:06
Symphony No.12 In D Minor, Op.112 ‘The Year 1917’
Composed By – Dmitri Shostakovich
Orchestra – Concertgebouw Orchestra*
Producer – Andrew Cornall
5-4 I Revolutionary Petrograd 13:31
5-5 II Razliv 14:04
5-6 III Aurora 4:15
5-7 IV The Dawn Of Humanity 11:05
CD6 Symphony No.7 In C Major, Op.60 Leningrad
Composed By – Dmitri Shostakovich
Orchestra – London Philharmonic Orchestra*
Producer – Richard Beswick (2)
6-1 I Allegretto 28:57
6-2 II Moderato (Poco Allegretto) 11:35
6-3 III Adagio 20:22
6-4 IV Allegro Non Troppo 18:28
CD7 Symphony No.8 In C Minor, Op.65
Composed By – Dmitri Shostakovich
Orchestra – Concertgebouw Orchestra*
Producer – Andrew Cornall
7-1 I Adagio 25:55
7-2 II Allegretto 6:14
7-3 III Allegro Non Troppo 5:57
7-4 IV Largo 8:49
7-5 V Allegretto 14:47
CD8 Symphony No.11 In G Minor, Op.103 ‘The Year 1905’
Composed By – Dmitri Shostakovich
Orchestra – Concertgebouw Orchestra*
Producer – Andrew Cornall
8-1 I Adagio: The Palace Square 15:53
8-2 II Allegro: 9 January 19:54
8-3 III Adagio: In Memoriam 11:23
8-4 IV Allegro Non Troppo: Tocsin 14:16
CD9 Symphony No.13 In B Flat Minor, Op.113 ‘Babi Yar’
Bass Vocals [Bass] – Marius Rintzler
Choir – Gentlemen From The Choir Of The Concertgebouw Orchestra*
Composed By – Dmitri Shostakovich
Orchestra – Concertgebouw Orchestra*
Producer – Andrew Cornall
9-1 I Adagio: Babi Yar 17:11
9-2 II Allegretto: Humour 8:18
9-3 III Adagio: In The Store 13:06
9-4 IV Largo: Fears 12:22
9-5 V Allegretto: A Career 13:23
CD10 Symphony No.14, Op.135
Composed By – Dmitri Shostakovich
Orchestra – Concertgebouw Orchestra*
Producer – Andrew Cornall
10-1 I De Profundis
Baritone Vocals [Bariton] – Dietrich Fischer-Dieskau
4:45
10-2 II Malagueña
Soprano Vocals [Soprano] – Julia Varady*
2:37
10-3 III Loreley
Baritone Vocals [Bariton] – Dietrich Fischer-Dieskau
Soprano Vocals [Soprano] – Julia Varady*
8:35
10-4 IV Le Suicidé
Soprano Vocals [Soprano] – Julia Varady*
6:45
10-5 V Les Attentives I
Soprano Vocals [Soprano] – Julia Varady*
2:58
10-6 VI Les Attentives II
Baritone Vocals [Bariton] – Dietrich Fischer-Dieskau
Soprano Vocals [Soprano] – Julia Varady*
1:52
10-7 VII À La Santé
Baritone Vocals [Bariton] – Dietrich Fischer-Dieskau
8:46
10-8 VIII Réponse Des Cosaques Zaparogues…
Baritone Vocals [Bariton] – Dietrich Fischer-Dieskau
2:03
10-9 IX O Delvig, Delvig
Baritone Vocals [Bariton] – Dietrich Fischer-Dieskau
4:44
10-10 X Der Tod Des Dichters
Soprano Vocals [Soprano] – Julia Varady*
5:26
10-11 XI Schluß-Stück
Baritone Vocals [Bariton] – Dietrich Fischer-Dieskau
1:14
6 Poems Of Marina Tsvetaeva, Op.143a
Composed By – Dmitri Shostakovich
Contralto Vocals [Contralto] – Ortrun Wenkel
Orchestra – Concertgebouw Orchestra*
Producer – Andrew Cornall
10-12 I My Poems 3:23
10-13 II Such Tenderness 3:52
10-14 III Hamlet’s Dialogue With His Conscience 3:23
10-15 IV The Poet And The Tsar 1:40
10-16 V No, The Drum Beat 3:28
10-17 VI To Anna Akhmatova 6:10
CD11 Symphony No.15 In A Major, Op.141
Composed By – Dmitri Shostakovich
Orchestra – London Philharmonic Orchestra*
Producer – Richard Beswick (2)
11-1 I Allegretto 8:05
11-2 II Adagio — Largo — Adagio — Largo 16:28
11-3 III Allegretto 4:12
11-4 IV Adagio —Allegretto — Adagio — Allegretto 16:57
From Jewish Folk Poetry, Op.79
Composed By – Dmitri Shostakovich
Contralto Vocals [Contralto] – Ortrun Wenkel
Orchestra – Concertgebouw Orchestra*
Producer – Andrew Cornall
Soprano Vocals [Soprano] – Elisabeth Söderström
Tenor Vocals [Tenor] – Ryszard Karczykowski
11-5 I Lament For A Dead Infant 2:40
11-6 II Fussy Mummy And Auntie 2:50
11-7 III Lullaby 3:48
11-8 IV Before A Long Separation 2:25
11-9 V A Warning 1:18
11-10 VI The Deserted Father 2:05
11-11 VII A Song Of Poverty 1:24
11-12 VIII Winter 3:21
11-13 IX The Good Life 1:49
11-14 X A Girl’s Song 3:15
11-15 XI Happiness 2:39
[Recording details]
(No. 10): Kingsway Hall, London 1977
(No. 15): Kingsway Hall, London 1978
(Nos. 4 & 7): Kingsway Hall, London 1979
(Nos. 1 & 9): Kingsway Hall, London 1980
(Nos. 2 & 3): Kingsway Hall, London 1981
(No. 14): Concertgebouw, Amsterdam 1980
(No. 5): Concertgebouw, Amsterdam 1981
(Nos. 8 & 12): Concertgebouw, Amsterdam 1982
(Nos. 6, 11, From Jewish Folk Poetry & Six Poems): Concertgebouw, Amsterdam 1983
(No. 13): Concertgebouw, Amsterdam 1984
Já estabelecido como um dos maiores violinistas do século XX, James Ehnes tem passado bastante tempo nos estúdios. O rapaz é uma máquina de gravar discos. Já perdi as contas de quantos seus já foram postados por aqui.
Em sua segunda incursão pelo universo bachiano Ehnes nos apresenta um Bach atualizado, discreto, mas ao mesmo tempo, muito, mas muito coerente e tremendamente bem tocado. Acompanhado discretamente por uma orquestra intitulada ‘Canada´s National Arts Centre Orchestra’, ele desfila todo o seu talento e virtuosismo em um repertório já muito gravado e interpretado. Não diria que ele é um entusiasta das gravações historicamente interpretadas, mas o nível de excelência de sua execução nos brinda com um tremendo respeito pela obra do gênio alemão, sempre contando com cumplicidade da ótima orquestra canadense e seus solistas de primeira.
Já ouvi dezenas, quiçá centenas de vezes estes concertos, com os mais diversos intérpretes, de todas as épocas. Dos atuais, talvez Rachel Podger seja a minha favorita neste repertório, mas isso aqui não é uma competição, apenas uma audição de obras primas. James Ehnes, ao encarar o desafio de gravar estes concertos, deixou sua marca muito bem estabelecida.
Nosso líder supremo, PQPBach, com certeza vai gostar muito deste CD, ao qual ainda não teve acesso. Esta embevecido atualmente com o pacotaço que a DG lançou do Andriss Nelsons tocando Shostakovitch. Mas isso é segredo, não contem para ninguém.
Violin Concerto in E major, BWV 1042
I. Allegro
II. Adagio
III. Allegro assai
James Ehnes, violon / violin
Concerto for Flute, Violin, and Harpsichord in A minor, BWV 1044
I. Allegro
II. Adagio ma non tanto e dolce
III. Tempo di Alla breve
James Ehnes, violon / violinFlute
Luc Beauséjour, clavecin / harpsichord
Concerto for Oboe and Violin in C minor, BWV 1060R
I. Allegro
II. Adagio
III. Allegro
James Ehnes, violon / violin
Charles Hamann, hautbois / oboe
Violin Concerto in D minor, BWV 1052R
I. Allegro 7:25
II. Adagio 5:33
III. Allegro 7:10
James Ehnes, violon / violin
CD 2
Violin Concerto in A minor, BWV 1041
I. [aucune indication de tempo /
no tempo marking]
II. Andante
III. Allegro assai
James Ehnes, violon
Concerto for Two Violins in D minor, BWV 1043
I. Vivace
II. Largo ma non tanto
III. Allegro
James Ehnes, violon / violin
Yosuke Kawasaki, violon / violin
Violin Concerto in G minor, BWV 1056R
I. [aucune indication de tempo / no tempo marking]
II. Largo
III. Presto
James Ehnes, violon
Concerto for Three Violins in D major, BWV 1064R
I. Allegro
II. Adagio
III. Allegro
James Ehnes
Jessica Linnebach, violon
Yosuke Kawasaki, violon
Aqui estão, diretos do Túnel do Tempo, outros dois discos que contêm as peças que formaram um CD comemorativo da passagem de duzentos anos da morte de Mozart. Esse disco foi mencionado em postagem anterior, com os trios de Ravel e Mozart. As outras duas peças, além do Trio de Mozart, são um Quinteto com Piano e Sopros, que serviu de modelo para uma obra semelhante composta pelo jovem Ludovico, e o Trio “Kegelstatt”, do qual faz parte um clarinete. O Quinteto com Piano e Sopros faz dobradinha exatamente com a obra de Beethoven e o Trio “Kegelstatt” faz dobradinha com o maravilhoso, espetacular, Quinteto para Clarinete e Cordas.
Esta gravação do lindo Quinteto para Clarinete foi também agrupada em um CD com a gravação do Quinteto com a mesma formação, composto por Brahms, no período no qual ele andou de amores com o som do clarinete. Assim, temos dois LPs restaurados digitalmente mais um bônus – o Quinteto com Clarinete de Johannes Brahms.
G de Peyer
Sobre Gervase de Peyer, sabemos que chamou a atenção ao interpretar o solo do Concerto para clarinete de Mozart numa transmissão da BBC quando tinha ainda apenas 16 anos. Foi o principal clarinetista da London Symphony Orchestra de 1955 até 1972, quando foi forçado a declinar do posto por estar atuando também em Nova Iorque. Mas, por volta de 1970, juntamente com outros membros da LSO fundou o Melos Ensemble. Esses músicos queriam tocar música de câmara, com diversas combinações de instrumentos. Alguns dos outros membros fundadores também aparecem aqui nas gravações, como Cecil Aranowitz (viola), Richard Adeney (flauta), Emanuel Hurwitz (violino), Osian Ellis (harpa) e Lamar Crowson (piano). Podiam tocar músicas como o Septeto de Beethoven, os Octetos de Schubert e Mendelssohn. Essas peças reunidas aqui nos dão uma ideia de como eles tinham amor pela música e prazer em tocar em pequenos grupos.
CD1
Wolfgang Amadeus Mozart (1756 – 1791)
Trio em mi bemol maior para clarinete, viola e piano, K.498
Andante
Menuetto And Trio
Allegretto
Quinteto em lá maior para clarinete e cordas, K.581
Allegro
Larghetto
Menuetto – Trios I & II
Allegretto Con Variazioni
Johannes Brahms (1833 – 1897)
Quinteto em si menor para clarinete e cordas, Op. 115
The clarinettist Gervase de Peyer first made his mark with a BBC broadcast of the Mozart concerto at the age of 16, while still a schoolboy. He went on to become the outstanding player of his generation, developing a warm, flexible sound that made extensive use of vibrato, particularly in the lower register, and inspired many new compositions.
Aproveite!
René Denon
Melos Ensemble na formação de quinteto para clarinete e cordas…
Em 1991 comprei um CD comemorativo pelos 200 anos desde a morte de Mozart, que reunia algumas das suas obras de câmara. Os CDs eram ainda recentes e as gravadoras buscavam qualquer ocasião para buscar gravações de seus arquivos para lançar no mercado. Deu um pouco de trabalho, mas consegui reconstruir virtualmente os LPs originais dos quais as três peças do CD foram retiradas. Aqui está o primeiro deles – uma combinação não muito usual do único trio com piano de Ravel com um dos trios com piano compostos por Mozart.
A gravação é do início dos anos sessenta, mas o ouvido rapidamente se ajusta e podemos desfrutar de um lindo programa de música de câmara interpretada por excelentes músicos que também mantinham uma grande amizade.
O pianista Louis Kentner (1905 – 1987) era húngaro de nascimento e sua formação musical foi na Hungria. Foi aluno de Leo Weiner e de Zoltán Kodály. Acompanhado por orquestra regida por Otto Klemperer interpretou o Segundo Concerto de Bartók pela primeira vez na Hungria. Posteriormente mudou-se para a Inglaterra. Sua primeira mulher, Ilona Kabós era pianista e eles apresentaram em 1942 a première da versão revisada da Sonata para dois pianos e percussão de Bartók. O casamento terminou em 1945 e ele casou-se então com Griselda Gould, irmã de Diana Menuhin, esposa de Yehudi Menuhin. Eles se aproximaram, tornaram-se amigos e passaram a se apresentar juntos e também em trio, com o violoncelista Gaspar Cassadó, como na gravação da postagem. Kentner era especialista em música de Liszt e dos húngaros, mas passou também a se dedicar à música de compositores ingleses de sua época. Foi o pianista na première do Concerto para Piano de Michael Tippett, por exemplo.
Yehudi Menuhin (1916 – 1999) dispensa apresentações, foi um dos maiores violinistas de seu tempo e também uma figura respeitada no universo musical. Deu grande contribuição para a divulgação de música clássica e foi o apresentador de uma interessante série sobre música produzida e apresentada pela BBC, que também resultou em um alentado livro. Com mente bastante aberta, Menuhin fez parcerias com músicos de diferentes áreas, como Wilhelm Kempff, Stephane Grappelli e Pandit Ravi Shankar.
Gaspar Cassadó (1897 – 1966) nasceu em Barcelona, em uma família musical e teve muito cedo seus talentos reconhecidos. Aos nove anos apresentou um concerto e foi notado por Pablo Casals, que se ofereceu para ensiná-lo. Cassadó tornou-se um dos mais famosos alunos de Casals, com quem manteve amizade por toda a vida. Cassadó também estudou piano com Enrique Granados e composição com Manuel de Falla, tendo assim uma formação musical completa.
Never a pianist of virtuoso display, Kentner used his talents strictly for musical ends. Although identified particularly with the music of Chopin and Liszt, he always completely absorbed himself in a work when studying it, often delivering an interpretation that could sound introverted, particularly in his later years.
Yehudi Menuhin was a rich enigma: a gentle spirit tied to an implacable will: a perfectionist who loved amateurs and young beginners; an ascetic who relished down-to-earth pleasures.
Cassadó began his professional career as a cellist, and his playing was known for its evocative, lyrical quality and impeccable technique. His unique interpretations, coupled with his technical virtuosity, made him a sought-after performer across Europe.
Apesar de a orquestra ser a do Concertgebouw de Amsterdam, aqui temos um Prokofiev com sotaque russo. As Sinfonias de Nº 5 e 7 são as minhas preferidas dentre as que o ucraniano escreveu e Ashkenazy realiza um de seus melhores trabalhos com ela. É linda esta sinfonia. Simplesmente, ela não tem momentos fracos, é toda perfeita. Ouçam e confiram! Nada a ver, mas sempre fico puto ao pensar na morte de Prokofiev. Ele morreu aos 61 anos, em 5 de março de 1953, no mesmo dia que Stalin. Por três dias, a oficialidade e a multidão que se despedia do Rei dos Expurgos impossibilitou a retirada do corpo de Prokofiev para o serviço funerário. No funeral, não havia flores nem músicos, todos requisitados pelo funeral do líder soviético.
Sons estranhos, gente esquisita. O prazer em alternar momentos de melodias relativamente comuns com sonoridades que dificilmente se ouviu antes… É essa a música que, juntos, fazem o contrabaixista estadunidense e o pianista búlgaro neste álbum. O nome First meeting dava a entender que os dois pretendiam se encontrar mais vezes, mas o filho de Charlie Haden explica aqui que essa primeira gravação – não o primeiro encontro dos dois, apenas o primeiro com microfones – acabou sendo também a última dos dois juntos:
Milcho Leviev was born in Bulgaria in 1937. Same year as my father. He was appointed as the conductor of the Bulgarian National Radio Big Band in 1962. He moved to Los Angeles in 1970. He worked with Don Ellis, Billy Cobham, Lainie Kazan, and Art Pepper.
Charlie had lots of respect for his piano playing. I remember my dad walking around saying “Milcho” a lot. I think Milcho conducted Liberation Music Orchestra when Carla wasn’t available, for a time.
Milcho and Charlie played L.A. gigs together in the early to mid-1980s. They played at the Comeback Inn. They played at a festival celebrating the Olympic Games in 1984. I have a memory of Milcho conducting the Liberation Music Orchestra at McCabe’s Guitar Shop around this time.
After First Meeting, the musical relationship stopped. He and my father never recorded together again. Milcho had a long, distinguished career in the studio, touring, and teaching. He never quite broke through commercially. Milcho died in 2019.
First Meeting
1. When will the Blues leave? (O. Coleman)
2. Nardis (M. Davis)
3. Beaup (M. Leviev/C. Haden)
4. J.S. (J.S. Bach / M. Leviev)
5. Monk’s moment (E. Harris)
6. Chairman Mao (C. Haden)
7. What’ll I do ? (I. Berlin)
8. Silence (C. Haden)
De qual sonata você gosta mais, da Kreutzer ou da Primavera?
Era assim que se começava uma interminável discussão.
Eu gosto mais da Kreutzer por ser mais intensa, mais viril!
Ah, mas a Primavera é muito mais melódica, mas cativante…
E assim seguíamos debatendo e falando dos intérpretes e tal. Eu ouvi primeiro a Kreutzer, em um disco com o lendário Heifetz, de capa monocolor. Eu era essencialmente adolescente e aquilo causou uma impressão enorme em mim, especialmente o último e arrebatador movimento. Depois ouvi a Primavera com a dupla Menuhin e Kempff. Acho que eles vão melhor na Primavera. E assim seguia alternando, ora essa, ora aquela sonata.
Esse disco é uma reunião de gravações feitas entre 1991 e 1992, com diferentes pianistas e lançadas originalmente diferentes discos, com sonatas de outros compositores. Assim, é muito conveniente tê-las aqui num só pacote.
O violinista Maxim Vengerov era bem jovem, mas já um excelente intérprete. Acho que ele consegue combinar as características necessária para as demandas das duas sonatas do genioso e genial Ludovico. Isso é ótimo pois certamente vai continuar acirrando o debate: diga-me lá, de qual das sonatas você gostou mais?
Opinião do Chat PQP sobre as interpretações do jovem e impetuoso Maxim Vengerov das sonatas do Ludovico: Reviews of Maxim Vengerov’s performances of Beethoven’s violin sonatas, particularly the “Kreutzer” Sonata, consistently highlight his virtuosity, musicality, and the “mesmerizing purity of sound” he achieves, with critics praising his ability to navigate both the technical and lyrical aspects of the music.
Uma pena eu não ter meus alfarrábios aqui no escritório. Escrever sobre Schütz sem eles, confiando na Wiki e na rede? Nunca! Prefiro confiar na memória. Schütz escreveu três volumes de Symphoniæ Sacræ, o primeiro nos anos 20 do século XVII, o segundo anos 40 e o terceiro, que é de 1649, tenho certeza. Schütz nasceu cem anos antes de Bach e é o fundador da música alemã tanto no sentido de austeridade como no de sua abertura para o sol e a alegria meridionais. Refiro-me aos italianos, claro. Era um homem de seu tempo. A música era considerada ainda uma ciência e estava curiosamente fora das humanidades, sendo estudada como a matemática, a química, etc. Schütz, por revolucionário que fosse — e era! — utilizava modelos matemáticos em suas obras, mas era um erudito humanista que usava de liberalidades que criaram coisas tão maravilhosas como o Saul, Saul, was verfolgst du mich, SWV 415, música pela qual sou fascinado. Em comum com Bach, o luterano Schütz possuia a aspiração ecumênica dos crentes sinceros e procurava fugir do que era imposto pela religião alemã.
Aqui, pouco sol italiano brilha, o que se vê é a luz das catedrais do barroco. Mas não são catedrais vazias, são catedrais lotadas de povo e de apelos.
Álbum duplo de qualidade incomum, gravado só para variar pela Harmonia Mundi, vem com capa de libreto que são também arte.
Heinrich Schütz (1585-1672): Symphoniæ Sacræ III (Junghänel)
1. Der Herr ist mein Hirt SWV 398
2. Ich hebe meine Augen auf SWV 399
3. Wo der Herr nicht das Haus bauet SWV 400
4. Mein Sohn, warum hast du uns das getan SWV 401
5. O, Herr, hilf SWV 402
6. Siehe, es erschien der Engel des Herren SWV 403
7. Feget den alten Sauerteig aus SWV 404
8. O süßer Jesu Christ SWV 405
9. O Jesu süß, wer dein gedenkt SWV 406
10. Lasset uns doch den Herren, unsern Gott, loben SWV 407
11. Es ging ein Sämann aus SWV 408
12. Seid barmherzig SWV 409
13. Siehe, dieser wird gesetzt zu einem Fall SWV 410
14. Vater unser SWV 411
15. Siehe, wei fein und lieblich SWV 412
16. Hütet Euch SWV 413
17. Meister, wir wissen, dass du wahrhaftig bist SWV 414
18. Saul, Saul, was verfolgst du mich SWV 415
19. Herr, wie lang willst du mein so gar vergessen SWV 416
20. Komm heliger Geist, Herre Gott SWV 417
21. Nun danket alle Gott SWV 418
Johanna Koslowsky
Monika Mauch
Wilfried Jochens
Hans-Jorg Mammel
Stephan Schreckenberger
Wolf Matthias Friedrich
Ainda que esta gravação, lançada no centenário do Genocídio Armênio, chegue-lhes com dez anos de atraso, não se pode dela reclamar: a hoje diminuta Armênia é terra de rica música, o repertório faz abrangente justiça ao último século e tanto de sua longa tradição, e os irmãos Khachatryan tocam com brio, brilho e evidente amor a música do pago. Tampouco se a pode chamar inoportuna, pois, quando esta postagem for ao ar, os armênios – tanto em sua terra ancestral quando em sua imensa diáspora – estarão a honrar as vítimas do monstruoso aparato de extermínio brandido pelos turcos contra seus ancestrais.
Não há família armênia que não tenha sido marcada a sangue e trauma por tão imenso crime. Os Khachatryan não foram exceção: o bisavô dos músicos, Daniel, era uma criança quando viu seus pais e irmãos serem despedaçados. Tampouco foram os compositores das obras do álbum. Do mais célebre entre eles, Khachaturian (cujo sobrenome armênio é exatamente Khachatryan, apenas transliterado de forma diferente através do russo), ouve-se a criação mais famosa, a Dança de Sabres, no arranjo ebuliente de Jascha Heifetz, e também uma grata surpresa, o Poema-Canção, repleto das angulosidades de que a música da Armênia é tão pródiga quando os semblantes estatuescos de sua gente. Já o maior entre eles, Soghomon Soghomonyan, estava entre as centenas de intelectuais armênios presos em Constantinopla em 24 de abril de 1915 e deportados, através da primeira entre inúmeras “marchas da morte” pelo inclemente deserto sírio, no que se considera o marco zero do Genocídio e levou à escolha da data para comemorar suas vítimas. Soghomonyan, mais conhecido por seu nome eclesiástico, Komitas, já teve sua história contada neste blog pelo colega Wellbach, que nunca aparece por aqui sem nos deixar algo de memorável. Sua obra como compositor e legado como pioneiro da etnomusicologia merecerão nossa revisita. Até ela, espero que a beleza acachapante de Krunk e das Sete Danças Folclóricas – dignas de Bartók, ninguém menos! – marque os leitores-ouvintes com seu toque de gênio. Acima de tudo, desejo que dediquem hoje um instante de meditação e solidariedade aos armênios e seus ancestrais, e – se não for lhes pedir muito – evocar-lhes também a denúncia e indignação colérica contra todos os genocídios, tanto os do passado quanto aqueles em curso.
KOMITAS Vardapet (1869-1935)
1 – Krunk (“A Garça”), para violino e piano (arranjo de Sergei Aslamazyan)
2 – Tsirani Tsar(“O Damasqueiro”), para violino e piano (arranjo de Avet Gabrielyan)
Sete Danças Folclóricas, para piano
3 – Manushaki
4 – Yerangi
5 – Unabi
6 – Marali
7 – Shushiki
8 – Het u Aradj
9 – Shoror
10 – Garun-a (“É Primavera”), para piano (arranjo de Robert Andreasyan)
EduardBAGHDASARYAN (1922 -1987)
11 – Rapsódia, para violino e piano
12 – Noturno, para violino e piano
Edvard Mik’aeli MIRZOYAN (1921-2012)
13 – Introdução e Moto Perpétuo, para violino e piano
Aram KHACHATURIAN (1903-1978)
14 – Poema-canção, para violino e piano
Duas Danças do balé Gayaneh, para violino e piano
15 – Usundara (arranjo de Mikhail Fichtenholz)
16 – Suserov par (“Dança de sabres”) (arranjo de Jascha Heifetz)
Arno HarutyuniBABADJANIAN (1921-1983)
Seis Quadros, para piano solo
17 – Improvisação
18 – Dança folclórica
19 – Toccatina
20 – Intermezzo
21 – Coral
22 – Dança de Sassoun
Sergey Khachatryan, violino Lusine Khachatryan, piano
Gravado no Stadtcasino da Basileia, Suíça, de 4 a 7 de agosto de 2014
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Esta jovem, Arshaluys Mardiganyan, tinha 14 anos quando testemunhou o massacre de sua família, foi forçada a atravessar o deserto da Síria e repetidamente torturada e violentada. Foi vendida num mercado de escravizados, fugiu de um harém e conseguiu, com apoio de refugiados armênios, chegar a Nova York. Sob o nome Aurora, publicou em 1918 suas memórias, intituladas “Armênia Devastada”, que chegaram ao cinemas, com grande repercussão e tendo a própria autora como protagonista, no ano seguinte. A incrível história de Aurora e seu filme trouxeram imensa visibilidade ao Genocídio Armênio e ajudaram a arrecadar o equivalente a 2 bilhões de dólares de hoje para o apoio às suas vítimas.
Depoimento de Aurora Mardiganyan sobre o Genocídio Armênio. Somente em idade avançada ela revelou que a violência mostrada no filme – incluindo a crucifixão de meninas – foi muito abrandada. “Os turcos não faziam suas cruzes assim. Os turcos faziam pequenas cruzes pontiagudas. Tiravam as roupas das meninas. Faziam com que elas se abaixassem e, depois de estuprá-las, as faziam sentar na madeira pontiaguda, que lhes atravessava as vaginas. Era assim que eles matavam, os turcos. Os americanos fizeram isso de uma forma mais civilizada. Eles não podem mostrar coisas tão terríveis”
Situação do reconhecimento do Genocídio Armênio mundo afora. Em verde, os países que o reconhecem oficialmente, a maioria com chancelas de seus parlamentos e chefes de Estado (nosso querido hermanito Uruguai, de influente comunidade armênia, foi o primeiro a fazê-lo, em 1965). Em laranja, os três países que negam explicitamente o Genocídio: a Turquia, estado sucessor do Império Otomano, onde há monumentos que insinuam que foram os armênios que cometeram genocídio contra os turcos; o Azerbaijão, aliado incondicional da Turquia e, como ela, arqui-inimiga da Armênia; e o Paquistão, que sequer reconhece a Armênia como nação soberana.A Iniciativa Humanitária Aurora, ONG sem fins lucrativos, recebeu o nome da heroína-emblema das vítimas do Genocídio Armênio e, suportada em grande parte pela diáspora armênia, apoia o enfrentamento de desafios humanitários mundo afora, incluindo genocídios em curso. Estimulo fortemente aqueles que de alguma forma se sensibilizaram pela causa que conheçam mais sobre a iniciativa e, se lhes for possível, lhe façam uma contribuição:O Instituto Nacional Armênio dedica-se ao estudo, à pesquisa e a reasserção da ocorrência do Genocídio Armênio contra todas as forças que o pretendem negar. Seu sítio dispõe de abundantes fontes de estudo, em vários idiomas, disponíveis àqueles que desejarem aprofundar-se sobre o tema.O Escritório de Prevenção de Genocídio e da Responsabilidade de Proteger é o organismo das Nações Unidas dedicado à causa autoevidente. Sabemos muito bem a quem interessa desmoralizar organismos internacionais enquanto viola todas as convenções, sejam as diplomáticas, sejam as de mínima decência. Somente o estudo crítico sobre a causa nos protege do triste fim de sermos omissos ou, pior ainda, de servirmos de massa de manipulação. Não sejam.Placa na entrada do Museu Estatal Auschwitz-Birkenau, em Oświęcim, Polônia. A citação original de George Santayana (1863-1952) difere das duas versões mostradas na imagem: “Aqueles que não conseguem se lembrar do passado estão condenados a repeti-lo”. Para tatuar nas retinas. E já.
A música do padre veneziano leva alegria e uma pitada de bom humor onde quer que vá e como o PQP Bach Corp. se espalhou por todos os confins do mundo, que então leve por aí essas belezuras.
Esse ótimo disquinho reúne uma coleção de sete (conta de mentiroso) concertos duplos para instrumentos de sopros. A mentirinha vai por conta de que um dos concertos é uma sinfonia, ou será mesmo um concerto? Aposto que você nem liga para isso. Além disso, um dos concertos é para dois pares de instrumentos de sopros, oboés e clarinetes.
NK
Isso nos traz o assunto de quais tipos de instrumentos são usados na gravação. Fossem os intérpretes radicais adeptos do historicamente informado teríamos possivelmente a palavra chalumeaux por aqui. Mas, os intérpretes aqui são músicos da City of London Sinfonia, orquestra fundada pelo grande Richard Hickox e usa instrumentos modernos. Nada que possa lhe trazer preocupações, desde que você goste de música barroca. Na direção o regente Nicholas Kraemer, que também toca instrumentos de teclas no contínuo e sabe das coisas, atua também com grupos HIP. Kraemer é o quarto cravista na pioneira gravação dos concertos para cravo de Bach feita pelo Trevor Pinnock para o selo Archiv Produktion. Ele já deu as caras aqui pelos nossos costados regendo sinfonias de Haydn num disquinho que foi devidamente apreciado pelos frequentadores assíduos ou casuais do blog.
Antonio Vivaldi (1678 – 1741)
Concerto in F major for two horns, RV 539
Allegro
Larghetto
Allegro
Concerto in C major for two flutes, RV 533
Allegro Molto
Largo
Allegro
Concerto (Sinfonia) in D major, RV 122
Allegro
Largo
Presto
Concerto in C major for two trumpets, RV 537
Allegro
Largo
Allegro
Concerto in C major for two oboes and two clarinets, RV 560
Nicholas aproveitando um momento de suavidade no naipe de sopros da PQP Bach Sinfonietta
Seção ‘The Book is on the Table’: Yes, a wonderful music, as always with Vivaldi. Vivaldi is ENDLESS,different, magnificent, every time new and special, however always recognisable. In the Wind collection i was greatly impressed with Concerti for two Horns, light, fresh and harmonious. Great Music and brilliant performance.
Aproveite!
René Denon
Quizz PQP Bach: Em qual dos concertos no disco da postagem foi usado o instrumento de sopros da figura a seguir?
Se você gostou dessa postagem, pode querer visitar essa outra aqui:
Foi com grande surpresa que me dei conta de que esse disco não constava no acervo de mais de 8 mil posts da casa. Horowitz in Moscow documenta nada menos que o retorno do colossal pianista Vladimir Horowitz à União Soviética, sua terra natal, depois de 61 anos. 61 anos! Uma vida…
O recital aconteceu no dia 20 de abril de 1986, na Grande Sala do Conservatório Tchaikovsky, em Moscou, mesmo palco onde Horowitz havia se apresentado pela última vez na URSS, em 1925. O mestre, agora, tinha 82 anos e queria ver sua pátria-mãe Rússia mais uma vez antes de morrer.
O encarte do disco, lançado com o selo amarelo da Deutsche Grammophon, reproduz um texto de Charles Kuralt para a CBS News que capta um pouco da atmosfera em torno do recital:
“Um simples pôster apareceu numa manhã de primavera na parede amarelo-pálido do Conservatório de Música de Moscou. Ele dizia que um recital de piano seria dado por “Vladimir Horowitz (USA). Apenas um pôster, mas que disparou uma descarga elétrica de surpresa e alegria pela capital soviética. Aqueles que viram o pôster, ou que ouviram dizer sobre ele, sabiam que era um concerto para ser lembrado eternamente. E foi.
Ah, você tinha que ter estado lá! Mas como? Menos de 400 ingressos foram colocados à venda para o público, e uma longa fila de russos amantes da música passaram a noite toda em pé para conseguí-los assim que a bilheteria abrisse. O resto dos 1800 lugares da bela Grande Sala do Conservatório estavam reservados para funcionários do governo e membros de corpos diplomáticos.
Chovia quando chegou a hora do concerto. 20 de abril de 1984, 4 da tarde, hora de Moscou. Centenas de pessoas se aglomeraram sob guarda-chuvas na rua do lado de fora do auditório. Eles sabiam que não iam conseguir escutar uma única nota; queriam apenas poder dizer que estavam presentes nesse dia. (…)”
“Na tarde da sexta-feira que antecedeu o concerto, Horowitz veio até a sala para ensaiar, em frente a uma platéia lotada de estudantes e professores de música. Ele checou meticulosamente a luz e o posicionamento do piano no palco, e brincou um pouco com os fotógrafos. Então, sensível à expectativa dos estudantes, começou a tocar seriamente. Um silêncio profundo se instalou na sala. O ensaio então virou um concerto, prelúdio para o recital formal. Muitos estudantes fecharam os olhos para se concentrar no que estavam ouvindo. Um membro da entourage de Horowitz, radiante, disse que aquele ensaio foi uma das melhores performances do pianista que ele ouviu na vida, um presságio maravilhoso para o concerto de domingo, que seria televisionado para a Europa e os Estados Unidos. Os alunos aplaudiram Horowitz por longos minutos e o seguiram até o pátio do Conservatório, cercando seu carro em uma explosão de amor e admiração. Apesar dos esforços de um cordão policial, a limusine levou quase meia hora para andar os cerca de 15 metros até a rua. Mesmo após o carro ter escapado da multidão, os estudantes permaneceram ali em pequenos grupos, discutindo maravilhados o que haviam escutado.
Na tarde do concerto oficial, dois dias mais tarde, muitos daqueles estudantes voltaram querendo mais. Sem ingressos, eles burlaram a segurança disposta ao redor do prédio e conseguiram escapulir até as galerias superiores, no início do concerto. O barulho que você consegue escutar no início da primeira sonata de Scarlatti é o som da polícia soviética tentando, em vão, retirar os estudantes do terraço. Eles, no entanto, permaneceram firmes, a polícia recuou e o concerto prosseguiu — com um grande número de estudantes ‘bicões’ presentes.
Horowitz e a esposa Wanda dando uma conferidinha num manuscrito de um certo Piotr Ilitch Tchaikovsky
O repertório é uma daquelas maravilhosas viagens horowitzianas, prestando reverência a mestres que habitaram as máximas alturas da literatura pianística, com uma inevitável queda para aquele pedaço do planeta que o viu nascer: Scarlatti, Mozart, Rachmaninov, Scriabin, Liszt (incluindo um d’après Schubert), Chopin, Schumann e Moszkowski.
Senhoras e senhores, sem mais delongas, o histórico retorno de Vladimir Horowitz a Moscou, em 1986. Веселитесь!
Piano Sonata in C major, K. (330) (300 h) 2 – I. Allegro moderato
3 – II. Andante cantabile
4 – III. Allegreto
Sergei Rachmaninov (1873-1943)
5 – Prelude in G major, op. 32 nº 5 6 – Prelude in G sharp minor, op. 32 nº 12
Alexander Scriabin (1872-1915)
7 – Etude in C sharp minor, op. 2 nº 1 8 – Etude in D sharp minor, op. 8 nº 12
Franz Liszt (1811-1886) d’après Franz Schubert (1797-1828)
9 – Soirées de Vienne – Valse-Caprice nº 6
Franz Liszt (1811-1886)
10 – Sonetto 104 del Petrarca
Frédéric Chopin (1810-1849)
11 – Mazurca in C sharp minor, op. 30 nº 4 12 – Mazurka in F minor, op. 7 nº 3
Robert Schumann (1810-1856)
13 – Träumerei (from Kinderszenen)
Moritz Moszkowski (1854-1925)
14 – Étincelles, op. 36 nº 6
Sergei Rachmaninov (1873-1943)
15 – Polka de W.R.
Vladimir Horowitz, piano
Gravado ao vivo na Grande Sala do Conservatório de Música de Moscou em 20 de abril de 1986.
PS: Você pode assistir ao concerto, com um filme mostrando os preparativos e o clima, aqui:
PPS: Você também pode ouvir uma digitalização de uma fita cassete mexicana do concerto aqui, uma daquelas coisas insólitas que só o Internet Archive faz por você.
Ganhando flores de ninguém menos que uma sobrinha-neta de Tchaikovsky
Dom Óscar Arnulfo Romero Galdámez (1917-1980) tornou-se arcebispo de San Salvador, capital de El Salvador, em 1977. Nomeado por Roma por seu perfil conservador, Monsenhor Romero, como ficou conhecido, passou a conviver mais de perto com os fiéis e a observar pela ótica deles os abusos do exército salvadorenho, que temia um golpe de estado por parte de guerrilhas esquerdistas.
Com as incômodas denúncias – em suas homilias, à imprensa e a quem quer que fosse – de violação aos direitos humanos, incluindo assassinatos de clérigos, começou a receber ameaças de morte. Em 24 de março de 1980, “finalmente” (pro conforto dos militares), Monsenhor Romero tomou um tiro mortal no coração, de um milico anônimo, durante uma missa numa capela perto da Catedral de San Salvador, e virou mártir de imediato.
A notícia da morte de Monsenhor Romero atraiu milhares de pessoas a seu velório, para insatisfação do exército salvadorenho. Os militares dispersaram a multidão ao custo de 42 outras mortes. Dali, deflagrou-se oficialmente a Guerra Civil de El Salvador, que durou até 1992. Até hoje, o crime não foi solucionado, graças às oligarquias que ainda comandam o país, mas a peregrinação ao túmulo de Monsenhor Romero desde então tem sido a maior da América Central.
***
Jorge Antunes – carioca radicado em Brasília, ativista de esquerda, autor do hino do PSol e de um Hino Nacional Alternativo, professor da UNB e um dos mais representativos (e polêmicos) expoentes da vanguarda brasileira – ganhou um prêmio da Sociedade de Música Contemporânea Israelense e viajou para a Terra Santa em 1980, onde passou quatro meses (em Jerusalém e num kibutz), desenvolvendo os rascunhos do tributo que estava concebendo ao arcebispo assassinado.
A referência à cor violeta advém da teoria cromofonética de Jorge Antunes, que relaciona uma cor do espectro solar a cada uma das notas diatônicas. De acordo com essa teoria o violeta equivale à nota mi, que predomina também em Ritual Violeta.
A Elegia violeta para Monsenhor Romero é uma das peças mais impactantes da música clássica nacional. Esta gravação péssima, que me parece ser a única, e o coral não tão bem ensaiado não reduzem a força da obra, desde a simulação do peso do tiro mortal em Monsenhor Romero, no acorde inicial do piano, e os gritos de desespero simulado nas cordas, até a última frase que o coral canta (a do título do CD).
“Não se mata a Justiça!” foi a resposta que o arcebispo deu a um repórter da TV Globo que o entrevistou em San Salvador, o qual perguntou-lhe se não tinha medo de morrer devido às denúncias contundentes que fazia.
***
Falo en passant somente da obra mais importante – e, de longe, a mais atrativa – desse CD de Jorge Antunes; para saber sobre as demais, dêem uma olhada no encarte. Muito engenhosa, para se mencionar, é a Cromorfonética, que você pode confundir com uma obra eletroacústica, mas, com uma segunda ouvida, perceberá que é para coro misto.
Estou aqui em Brasília, tentando achar o Café do Rato Preto através do endereço que meu gerente me deu, já que nunca estive na capital federal:
Quadra SHIS Trecho 50 Lote 200
Acontece que o Google Earth acusou “galáxia não localizada” e não sei o que fazer no momento. Acho que daqui mesmo do aeroporto JK vou-me embora pra… Pra não sei onde… Talvez Santa Catarina, talvez Recife, talvez Rio, talvez Buenos Aires…
***
Jorge Antunes (1942): ¡No se mata la Justicia!
1. Elegia violeta para Monsenhor Romero (1980), para dois solistas infantis, coro infantil, piano obligato e orquestra de câmara
Coro Infantil do Kibutz Hatzerim e do Conservatório de Música de Beer-Sheva
Solistas: Hagit Shapira e Ruth Halifa
Piano obligato: Mariuga Lisbôa Antunes
The Israel Sinfonietta
Regente: Jorge Antunes
2. Cromorfonética (1969), para coro a capella
Coro Pro-Arte Ensemble Graz
Regente: Karl Emst Hofmann
3. Proudhonia (1972), para coro misto e fita magnética
Coro: Les Douze Solistes des Choeurs de l’ORTF
Regente: Marcel Couraud
Gravação: 16/04/1973, no Festival de La Rochelle 1973 – Rencontres Internationales d’Art Contemporain Salle Oratoire, La Rochelle, France
Rimbaudiannisia MCMXCV (1994), para jovens cantores solistas, coro infanto-juvenil, orquestra de câmara, luzes e máscaras.
4. Rimbaudiannisia MCMXCV – I. Expiation pour Cumiqoh
5. Rimbaudiannisia MCMXCV – II. Voyelles
6. Rimbaudiannisia MCMXCV – III. Ditirambus
Choeur La Maîtrise de Radio France Orchestre Philharmonique de Radio France Regente: Arturo Tamayo
7. Ritual violeta (1999), para saxofone tenor e sons eletrônicos
Dando prosseguimento às gravações de Karl Richter com sua Münchener Bach Orchestra, FDP Bach traz mais uma joia de sua coroa: o concerto para Flauta, Harpa e Orquestra de Mozart.
A dupla Richter / Nicolet está em segundo lugar na lista dos nossos downloads. Desde que foi postado, creio que há uns 7 ou 8 meses atrás, sua gravação das Sonatas para Flauta e Cravo de nosso pai já tiveram um total de 571 downloads, atrás apenas do primeiro volume das bachianas.
Espero o mesmo sucesso com esses dois concertos maravilhosos, com a mesma dupla, e com uma excelente harpista, Rose Stein. Na verdade, esse concerto para flauta e harpa já havia sido postado com o Rampal, portanto eis uma ótima oportunidade para serem feitas as devidas comparações.
Não canso de indicar para meus amigos o andantino do segundo movimento desse concerto. Em minha opinião trata-se de uma das mais belas páginas da obra de Mozart, quiçá da história da música. O trio Nicolet / Richter / Stein está afinadíssimo.
E a dupla Richter / Nicolet volta com tudo no Concerto para Flauta de Haydn.
Enfim, um cd pelo que tenho muito carinho e cuidado. Infelizmente encontra-se fora do catálogo da Teldec.
FDP Bach possivelmente não fará mais postagens até o final do Carnaval, está planejando uma viagem, e para complicar ainda mais seu computador resolveu falhar, portanto, não terei acesso ao meu acervo por alguns dias. Felizmente foi um problema elétrico, queimou a fonte, e o conteúdo dos meus HDs está garantido. De qualquer forma, ele já estava sendo negociado, e vai demorar um pouco para transferir o conteúdo para outro computador ainda a ser adquirido.
Ou seja, tenham todos um excelente Carnaval, e com certeza voltaremos com gás total na próxima semana..
Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791): Concerto for Flauta e Harpa, K299 / Franz Joseph Haydn (1732-1809): Concerto para Flauta, Hob VIIf: D1 (Nicolet, Richter)
1 – Mozart – Concert for flute, Harp e Orchestra – Allegro
2 – Mozart – Concert for flute, Harp e Orchestra – Andantino
3 – Mozart – Concert for flute, Harp e Orchestra – Rondo – Allegro
4 – Haydn – Concert for flute and Orchestra – Allegro Moderato
5 – Haydn – Concert for flute and Orchestra – Adagio
6 – Haydn – Concert for flute and Orchestra – Allegro molto
Munich Bach Orchestra
Karl Richter – Conductor
Aurele Nicolet – Flute
Rose Stein – Harpe
Uma excelente gravação da esplêndida Sinfonia Nº 7 vem desde um primeiro movimento colossal, passa através de dois movimentos Nachtmusik em ambos os lados de um scherzo. São esses três movimentos centrais que deram origem à obra sendo às vezes conhecida como ‘Canção da Noite’, que não é um apelido de Mahler. Dito isso, não é um apelido injustificado, pois até mesmo o primeiro movimento tem um sentimento noturno em sua abertura e em muitos de seus episódios. É apenas no final que finalmente emergimos para a luz do dia. A primeira Nachtmusik, após os chamamentos de trompas e a evocação de cantos de pássaros, traz novamente a marcha, no que parece a evocação de um caminhar pelo mistério da noite. A ambientação noturna reaparece no Scherzo, mas desta vez através das lembranças algo fantasmagóricas da valsa vienense. Antes de atingir o brilho, no último movimento, a obra atravessa a segunda Nachtmusik: lirismo, transparência, orquestra reduzida – nos metais, apenas as trompas –, mas com a acréscimo do bandolim para essa verdadeira serenata noturna. No Rondo – Finale, a explosão de luz e a energia do tema inicial têm efeito arrebatador. Uma vez mais, o compositor estabelece o diálogo com a tradição – desta vez, com o tema de Os Mestres Cantores, de Wagner. A alternância com seções transparentes, as transformações do tema principal e até a reminiscência do tema que abre o primeiro movimento conduzem a Sinfonia a um final luminoso. Se atentarmos para a diversidade temática da Sétima e mesmo para a expressão particular de cada um de seus movimentos, estaremos diante de uma riqueza de expressões humanas em que não faltam a dor, a nostalgia, a desesperança, mas também a ironia, a raiva, o amor e o encantamento diante da natureza.
Gustav Mahler (1860-1911): Sinfonia Nº 7 (Halász)
Symphony No. 7 in E Minor
1 I. Langsam – Allegro con fuoco 20:55
2 II. Nachtmusik I: Allegro moderato 16:59
3 III. Scherzo: Schattenhaft 09:46
4 IV. Nachtmusik II: Andante amoroso 14:05
5 V. Rondo-Finale 17:25
Total Playing Time: 01:19:10
Conductor(s): Halász, Michael
Orchestra(s): Polish National Radio Symphony Orchestra
O post de hoje dá início a uma série de nove discos que reúnem a integral das obras orquestrais (as óperas estão de fora, à exceção de versões suíte, mas os concertos estão dentro) de um daqueles que, afinal, melhor soube criar mundos cintilantes e imaginativos a partir da paleta sonora da orquestra sinfônica moderna: o alemão Richard Strauss (1864-1949). Um repertório que compreende algumas das estrelas mais brilhantes da literatura de concerto do século XX.
Os nove discos da caixa trazem o registro de um encontro muito feliz entre um regente visionário e uma orquestra com muito talento e orgulho de sua tradição, Rudolf Kempe e a mítica Staatskapelle Dresden. Ele foi diretor artístico da orquestra e da Semperoper Dresden entre 1949 e 1952, quando a cidade era apenas ruínas e dor, mas a parceria — concertos, turnês, festivais e muitas gravações — se estendeu para o resto da vida do maestro. As gravações aqui reunidas foram feitas entre 1970 e 1975, já nos últimos anos da vida de Kempe, que viria a falecer em 1976, em Zurique, na Suíça.
Kempe regendo a Staatskapelle Dresden, 1975
O primeiro disco da caixa traz duas das mais importantes, conhecidas, tocadas e influentes obras de Strauss: Assim Falou Zaratustra (Also Sprach Zarathustra), Op. 30, e Morte e Transfiguração (Tod und Verklärung), Op. 24. Completam o álbum duas versões de concerto de trechos de óperas: a Suíte de Valsas de O Cavaleiro da Rosa, Op. 59, e a Música de Luar, de Capriccio, Op. 85.
Aproveitando as comemorações pascoais do próximo domingo, faço retornar uma bela postagem — pela música, jamais por meu texto — alusiva à efeméride, escrita entre a compra de um ovo de chocolate e outro. Como chocólatra incondicional, amo a Páscoa! Este é CD lindamente interpretado por este conjunto que desconhecia. Claro, Pachelbel não é Bach, mas não julgo possível que os pequepianos mais afeitos ao barroco torçam seus sensíveis narizes para estas peças muito difíceis de se encontrar por aí. O CD é excelente! Bom Coelhinho para todos!
Johann Pachelbel (1653-1706): Cantatas de Páscoa (La Capella Ducale, Musica Fiata, Roland Wilson)
1. Deus In Adjutorium
2. Christ Lag In Todesbanden
3. Halleluja! Lobet Den Herrn
4. Christ Ist Erstanden
5. Jauchzet Dem Herrn
6. Magnificat In C Major
“There is in Poulenc a bit of monk and a bit of hooligan.” Claude Rostand
Este disco ganhou quatro em cinco estrelas da coluna Lebrecht Weekly e basta ouvi-lo para entender o porquê. O programa é formado principalmente pelas sonatas para violino e piano e para violoncelo e piano. O resto são lindas peças para essas mesmas combinações, mas também algumas surpresas, como você poderá perceber ao ouvir o disco ou reparar na lista dos créditos, logo a seguir.
Eu me encanto sempre com a canção Les chemins de l’amour e aqui você poderá ouvir dois arranjos dela: para violino e piano e para violoncelo e piano.
Para fechar o disco um número do balé Les Mariés de la tour Eiffel, chamado Le discours du Général. Os diversos números musicais do balé foram compostos pelos compositores do Grupo do Seis.
Veja trechos dos comentários da coluna do Lebrecht: The music performed here is from the 1940s, not the happiest of decades, but Poulenc was adept at shutting out headline news. […] Here he engages in confidential conversation between violin and piano, cello and piano, and something called a ‘pipeau’, which calls to mind a medical laboratory. Nowhere does Poulenc harbour dark thoughts. The players – violinist Tatiana Samuil, cellist Justus Grimm and pianist David Lively – keep it light and wistful.
A música tocada aqui é da década de 1940, não a mais feliz das décadas, mas Poulenc era adepto de bloquear as manchetes. […] Aqui ele se envolve em uma conversa confidencial entre violino e piano, violoncelo e piano, e algo chamado de “pipeau”, que lembra um laboratório médico. Em nenhum lugar Poulenc abriga pensamentos sombrios. Os músicos — a violinista Tatiana Samuil, o violoncelista Justus Grimm e o pianista David Lively — mantêm o ambiente leve e melancólico.
Francis Poulenc (1899 – 1963)
Sonate pour violon et piano, FP 119:
Allegro con fuoco
Intermezzo
Presto Tragico
Léocadia
Les chemins de l’amour (Arr. for violin & piano by Francis Poulenc)
Sonate pour Violoncelle et Piano, FP 143:
Allegro – Tempo di Marcia
Cavatine
Ballabile
Finale
Souvenir pour violoncelle et piano
Souvenir
Villanelle pour pipeau et piano
Villanelle
Léocadia
Les chemins de l’amour (Arr. for Cello & Piano by Francis Poulenc)
The titular ‘Chemins de l’Amour’ is a song Poulenc wrote for an Yvonne Printemps show in December. Who would know Paris was under German occupation? Poulenc kept his window shut.
Estreada em Paris em 1911, L’heure espagnole é uma ópera cômica, e só isso já a diferencia das grandiosas e sérias óperas de Wagner e Verdi e dos one-hit-wonders de Bizet e Debussy nos palcos. Passada na Espanha como boa parte das obras de Ravel (Alborada del gracioso, Rapsodie Espagnole…), a ópera tem apenas um ato e, sem grandes acrobacias vocais, talvez o maior destaque seja para a originalíssima orquestração que remete ao tema dos relojoeiros com vários tipos de tic-tacs, carrilhões, sinos, cucos, etc.
O libretto é de Franc-Nohain, poeta amigo de Alfred Jarry, este último o autor de Ubu rei, obra-prima do teatro do absurdo. Não vou entrar em detalhes aqui mas a cena se passa em Toledo, Espanha, e a única mulher tem diálogos mais ou menos sedutores com alguns dos homens… enfim, o mais importante é a orquestra de Ravel, que aparece nesta gravação em primeiro plano ao contrário de discos antigos de maestros como B. Maderna, E. Ansermet e A. Cluytens nos quais os detalhes orquestrais ficavam um tanto abafados.
Já em Shéhérazade o ambiente é o do orientalismo, é claro, que também interessou a outros compositores do mesmo período como Rimsky-Korsakov e Richard Strauss (Salomé). Ravel completou 150 anos de nascimento em março deste ano, logo após o carnaval, e a data passou batida aqui neste blog, então deixo, mesmo atrasada, essa lembrança acompanhada de obras menos frequentemente gravadas do que outras como La Valse, Gaspard de la nuit e os dois Concertos para Piano.
Maurice Ravel (1875–1937):
Shéhérazade
(Três Poemas para voz e orquestra)
Stéphanie D’Oustrac (soprano)
L’heure espagnole
(Ópera cômica em um ato)
Concepción – Stéphanie D’Oustrac (soprano)
Torquemada – Jean-Paul Fouchécourt (tenor)
Ramiro – Alexandre Duhamel (barítono)
Don Inigo Gomez – Paul Gay (baixo)
Gonzalve – Yann Beuron (tenor)
Radio-Sinfonieorchester Stuttgart des SWR
Stéphane Denève
Recorded: 2014-2015
Mais um excelente CD trazendo o soprano Miriam Feuersinger, aquela cujo sobrenome diz tudo. Na enorme obra de cantatas de Johann Sebastian Bach, as “cantatas de diálogo” ocupam uma posição muito especial: como se em um diálogo pessoal, a ‘alma cristã’ (soprano) e ‘Cristo’ (baixo) entram em diálogo, quase como em uma ópera. Bach se refere às palavras de Martinho Lutero, segundo as quais “a fé une a alma a Cristo como uma noiva ao seu noivo”, e assim se vincula à ideia medieval do misticismo nupcial. Esse diálogo se torna um “dueto de amor” espiritual, por assim dizer, que Miriam Feuersinger e Klaus Mertens — ambos estão entre os grandes intérpretes de Bach do nosso tempo — interpretam aqui da maneira mais íntima. As duas cantatas “Ich geh und suche mit Verlangen” BWV 49 e “Liebster Jesu, mein Verlangen” BWV 32 são complementadas pelo Concerto para Oboé em Dó maior GWV 302 de Christoph Graupner, interpretado pela oboísta Elisabeth Grümmer.
J. S. Bach (1685-1750): Cantatas BWV 49 & 32 / C. Graupner (1683-1760): Concerto para Oboé (Feuersinger, Grümmer, Ensemble der »Bachkantaten in Vorarlberg«)
Bach, J S: Cantata BWV49 ‘Ich geh und suche mit Verlangen’ 26:22
I. Sinfonia 6:57
II. Aria (Bass): Ich geh und suche mit Verlangen 4:59
III. Rezitativo – Dialog (Sopran & Bass): Mein Mahl ist zubereit‘ 2:05
IV. Aria (Sopran): Ich bin herrlich, ich bin schön 5:47
V. Rezitativo – Dialog (Sopran & Bass): Mein Glaube hat mich selbst 1:44
VI. Duetto (Sopran & Bass): Dich hab ich je und je geliebet 4:50
Miriam Feuersinger (soprano), Klaus Mertens (bass-baritone)
Ensemble der »Bachkantaten in Vorarlberg«
Graupner: Oboe d’Amore Concerto in C major, GWV302 11:02
I. Vivace 4:53
II. Tempo giusto 2:14
III. Allegro 3:55
Elisabeth Grümmer (oboe)
Ensemble der »Bachkantaten in Vorarlberg«
Bach, J S: Cantata BWV32 ‘Liebster Jesu, mein Verlangen’ 23:58
I. Aria (Sopran): Liebster Jesu, mein Verlangen 6:24
II. Recitativo (Bass): Was ists, dass du mich gesuchet? 0:27
III. Aria (Bass): Hier, in meines Vaters Stätte 7:16
IV. Recitativo Dialogo (Sopran & Bass): Ach! heiliger und großer Gott 2:52
V. Aria Duetto (Sopran & Bass): Nun verschwinden alle Plagen 5:35
VI. Choral: Mein Gott, öffne mir die Pforten 1:24
Miriam Feuersinger (soprano), Klaus Mertens (bass-baritone)
Ensemble der »Bachkantaten in Vorarlberg«
A cultura não é meramente conhecimento, não é algum tipo de realização artística, mas sim um modo de vida.
László Németh
Tudo culpa de Bartók. O cara me deixou tão curioso sobre o folclore húngaro que simplesmente tento ouvir tudo o que passa por mim. O Muzsikás é um grupo de Budapeste que surgiu do movimento “Tanchaz” (literalmente, “casa de dança”) da década de 1970, quando os húngaros começaram a se interessar profundamente por sua herança folclórica, aprendendo a dançar e tocar músicas antigas. Os músicos do grupo, assim como Bartók e Kodály, fizeram viagens fantásticas para a Transilvânia e coletaram canções com a última geração de autênticos músicos e dançarinos folclóricos. Neste disco, testemunhamos o respeito e o amor que ligam os jovens aos músicos mais velhos e que ainda os conectam até hoje. Na Transilvânia, a música parece brotar espontaneamente. O Muzsikás consiste em violinos, um contrabaixo de três cordas tocado com um arco curto e a voz etérea de Marta Sebyesten. Como disse, a música em “The Prisoner’s Song” consiste em grande parte de composições folclóricas da Transilvânia. Lembre-se, a Transilvânia era parte da Hungria e, mais tarde, do Império Austro-Húngaro até depois da Primeira Guerra Mundial. Hoje, ela faz parte de Romênia e é conhecida por suas cidades medievais, fronteiras montanhosas e castelos como o de Bran, uma fortaleza gótica associada à lenda do Drácula. Bem, embora todas as músicas tenham sido compostas independentemente umas das outras, o Muzsikás as arranjou neste álbum para contar uma espécie de conto: uma história de desejo, amor e liberdade. A música é autêntica, nunca datada e não “modernizada” em nenhuma extensão. Mihaly Csipos toca seu violino como um velho cigano, Marta Sebyesten é angelical. Os Muzsikás são bastante populares na Hungria, e o movimento Tanchaz continua com força total.
Muzsikás: The Prisoner’s Song
A1 Rabnóta = Prisoner’s Song 4:12
A2 Eddig Vendég = The Unwelcome Guest 3:49
A3 Azt Gondoltam, Esö Esik = I Thought It Was Raining 4:02
A4 Hidegen Fújnak A Szelek = Cold Winds Are Blowing 3:10
A5 Bujdosódal = Outlaw’s Song 5:06
B1 Repülj Madár, Repülj = Fly Bird, Fly 3:32
B2 Régen Volt, Soká Lesz = It Was Long Ago 4:06
B3 Szerelem, Szerelem = Love, Love 4:30
B4 Én Scak Azt Csodálom = I Am Only Wondering 4:47
B5 Elment A Madarka = The Bird Has Flown 4:15
“Começou de forma muito simples: apenas uma pulsação no registro mais baixo. Então, de repente, bem acima, soou uma única nota no oboé, que ficou ali, inabalável, me perfurando, até que a respiração não conseguiu mais segurá-la, e um clarinete a tirou de mim e a adoçou em uma frase de tal deleite que me fez tremer. A luz tremeluziu na sala. Meus olhos ficaram nublados… pareceu-me que eu tinha ouvido uma voz de Deus…” Peter Shaffer: Amadeus
Mozart claramente amava instrumentos de sopro: eles geralmente são como cantores lado a lado das vozes reais em suas óperas e são os verdadeiros cantores em sua música instrumental. Richard Bratby
Eu adorei esse disco, que tem como peça principal a Serenata em si bemol maior K 361, mais conhecida como a Gran Partita. Quando Mozart a compôs em 1781, em Munique, dispunha de excelentes músicos do naipe de sopros, que estavam a serviço da Corte Bávara e eram originários da famosa Orquestra de Mannheim. A Gran Partita foi composta para 13 instrumentos de sopros, sendo que um contrabaixo é geralmente usado na parte do contrafagote. A genialidade de Mozart produziu uma obra prima em um gênero considerado menor.
Música para conjuntos de sopros com seis, oito instrumentos, era muito comum e servia para acompanhar a vida social dos nobres e abastados. Esse tipo de música era chamado de harmoniemusik e seu repertório contava com peças originais, divertimentos, serenatas, assim como arranjos de óperas de sucesso.
Além da obra prima de Mozart, o disco nos brinda com outras duas composições que exemplificam essa forma musical. Johnn Nepomuk Wendt fez um arranjo de oito trechos de O Rapto do Serralho para um conjunto de instrumentos de sopros. Esse arranjo certamente é reflexo do sucesso dessa primeira ópera composta por Mozart após sua mudança de Salzburgo para Viena. É uma delícia reconhecer os momentos correspondentes da ópera, como o dueto de Blonde e Osmin ou o último movimento, outro cômico momento envolvendo o malvado Osmin e o esperto Pedrillo.
Joan Enric Lluna, fundador do excelente conjunto Moonwinds
Na última parte da maravilhosa Don Giovanni há um jantar para o libertino cavaliere para o qual uma orquestra de sopros, uma harmonie, é contratada. Essa orquestra toca exatamente trechos de óperas de sucesso. Mozart coloca nesse momento um trecho de uma ópera de um ‘rival’, Vicente Martín y Soler, Lo Spagnulo, como os vienenses o chamavam. Soler era um músico que peregrinou por várias cidades europeias e por um certo período viveu em Viena. Ele fez sucesso compondo óperas, ao lado de Mozart e Salieri. Assim como no caso de Mozart, Soler produziu três óperas com libretos de Lorenzo da Ponte. Entre elas, Una cosa rara, a ópera que mereceu uma citação de Mozart. No disco, um arranjo de trechos dessa ópera feito pelo próprio Soler. Se você baixar o disco e ouvir até o fim, vai lembrar-se do trecho da ópera Don Giovanni no qual Una cosa rara é citada…
Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)
Serenata em si bemol maior K.361 Gran Partita
Largo – Molto Allegro
Menuetto – Trio I – Trio II
Adagio
Menuetto: Allegretto – Trio I – Trio II
Romance: Adagio – Allegretto
Tema con 6 variazioni (Andante)
Finale (Molto Allegro)
El Rapto En El Serrallo
Arranjo de Johann Nepomuk Wendt (1745-1801)
Presto – Abertura (Presto)
Hier Soll Ich Dich Sehen
Ich Gehe, Doch Rate Ich Dir
Durch Zärtlichkeit Und Schmeichein
Wenn Der Freude Tränen Fliessen
Ha, Wie Will Triumphieren
Welche Wonne, Welche Lust
Viva Bacchus, Bacchus Lebe
Vicente Martín y Soler (1754-1806)
Divertimento para octeto de sopros sobre temas de ‘Una cosa rara’
Moonwinds was born from the artistic initiative of Joan Enric Lluna with the desire to bring together outstanding wind instruments to form a stable group of chamber music
O grupo Sopros da Lua
Seção ‘The Book is on the Table’: Moonwinds show a more balanced approach, play all the repeats, and give us, in the two extra items, a vivid impression of the scope of Viennese wind music in the 1780s. JN Wendt’s arrangement of eight numbers from Die Entführung is imaginative and professional, and the Martín y Soler, drawn from his operatic hit Una cosa rara, has a third movement that’s the very piece Mozart quoted in Don Giovanni (using Martín’s own wind arrangement). Moonwinds play all this with spirit and finesse (the oboe solo in the second movement of the Martín is especially fine).
Trago uma pequena colaboração à série de posts que o patrão PQP Bach tem feito com o resgate da monumental obra de J. S. Bach pelas mãos de um dos maiores pianistas de todos os tempos, o canadense Glenn Gould (1932-1982). Essa aqui é uma gravação curiosa e pouco conhecida da obra que definiu os rumos de sua carreira, as Variações Goldberg, BWV 988, e que não é nem a pioneira de 1955, que o alçou ao estrelato, nem o seu canto do cisne gravado em 1981.
(spoiler: mês que vem tem outra)
A versão que trazemos hoje é anterior à primeira — esta é de 1954, o ano em que Gould passou a tocar a obra em público. Aliás, salvo engano, esta é a gravação mais antiga de Gould a sobreviver até os dias de hoje: uma transmissão ao vivo da rádio CBS de um recital em Toronto, no dia 21 de junho de 1954. Ou seja, praticamente exatamente um ano antes da histórica gravação nos estúdios da Columbia na 30th Street, em Nova Iorque, que aconteceu entre 10 e 16 de junho de 1955.
Gould durante a gravação das Goldberg em NY, 1955
O som da gravação contém problemas e é irregular, como se poderia esperar, já que essa é uma gravação particular em discos de acetato de 33 rpm feita pelos Gould em casa, a partir da transmissão radiofônica. Isso à parte, é um documento interessantíssimo, de valor inestimável, da gênese de um dos artistas mais discutidos e influentes da era de ouro das gravadoras, profundamente inquieto e sempre original. Completam o disco quatro prelúdios e fugas do segundo livro de O Cravo Bem Temperado.
J. S. Bach (1685-1750) Variações Goldberg, BWV 988
1 a 32 – Ária e 30 variações
O Cravo Bem Temperado, vol. II
33, 34 – Prelúdio e Fuga no. 14, em fá sustenido menor, BWV 883
35, 36 – Prelúdio e Fuga no. 7, em mi bemol maior, BWV 786
37, 38 – Prelúdio e Fuga no. 22, em si bemol menor, BWV 891
39,40 – Prelúdio e Fuga no. 9, em mi maior, BWV 878
Glenn Gould, piano
Transmissão radiofônica de recital do dia 21 de junho de 1954, em Toronto, no Canadá.